Mostrando postagens com marcador Black Agenda Report. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Black Agenda Report. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O império colhe a tempestade do jihadismo

13/8/2014, [*] Glen Ford, Black Agenda Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Abu Bakr al-Baghdadi, Califa do Estado Islâmico

Por mais de 3 décadas os EUA tem implantado substitutos fundamentalistas islâmicos para lutar e defender suas conquistas imperiais em terras muçulmanas. Agora, os jihadistas mais bem sucedidos do mundo voltaram-se contra seus senhores e, em breve perseguirão e conquistarão as monarquias produtoras de petróleo e gás no Golfo Pérsico. O Califado tomou à ideologia do capital seu quinhão de lógica e horror atrevendo-se a desafiar a legitimidade de seus fundadores, incondicionais aliados dos “Cruzados” (os EUA). Glen Ford (Nrc)

O problema é que os procuradores-fantoches do Pentágono estão evaporando.

A ascensão do Califato Islâmico no Iraque e na Síria desmontou o roteiro das políticas de guerras por procuração dos EUA na região, e pode acabar por derrubar as monarquias do petróleo cuja sobrevivência é indispensável à hegemonia dos EUA no mundo. No nível de coturnos em solo, a estratégia imperial por procuração já entrou em colapso, com a desintegração da (sempre efêmera) oposição armada “moderada” ao governo sírio e a defecção para as hostes do Califato de combatentes sunitas que os EUA cevaram no Iraque.

Os US$ 500 milhões que o presidente Obama requereu para usar contra a Síria já viraram pó, depois das espantosas vitórias políticas e militares do Califato; não há dinheiro que crie um exército, se à volta só há fantasmas. Os insurgentes sírios mais ativos já voaram para o autoproclamado Estado Islâmico, antes chamado ISIL, cujo líder, Abu Bakr al-Baghdadi, mandou recado a Washington:

Fiquem sabendo, defensores da cruz, que mandar outros lutarem por vocês de nada lhes serviu na Síria e de nada lhes servirá no Iraque.

A imprensa-empresa corporativa norte-americana interessou-se mais por outras partes da mensagem de al-Baghdadi, na qual avisava Washington de que

(...) antes do que esperam, vocês estarão, vocês mesmos, em confronto direto – forçados a lutar – se Deus quiser. E os filhos do Islã já se prepararam para esse dia. Portanto, aguardem, que nós também estaremos à espera.

Para os norte-americanos mais obcecados com a própria segurança, foi como uma ameaça de ataque direto à “pátria-mãe”. Mas o centro de Manhattan não está no mapa do líder do Califato. Al-Baghdadi referia-se à evidência de que a estratégia de os EUA financiarem fantoches muçulmanos para combater nas guerras do imperialismo está morta, e que, em breve, o Pentágono terá de fazer ele mesmo o seu serviço sujo, metido no uniforme de “Cruzado”.

Nessa linha que o Califato denuncia, os EUA estão mandando mais centenas de agentes “não combatentes” para o norte do Iraque – como se Marines e Forças Especiais não fossem soldados combatentes – para somarem-se aos mil e tantos elementos militares e de segurança dos EUA que, pelas contas oficiais divulgadas, já estão lá. Ao contrário de que muitos na esquerda norte-americana acreditam, os políticos e estrategistas dos EUA não morrem de desejo de mandar grandes legiões norte-americanas para terras árabes (curdos não são árabes), porque a presença de soldados norte-americanos é extremamente contraproducente. O problema é que os procuradores-fantoches do Pentágono estão evaporando, estão em fuga desabalada ou – no caso do Iraque árabe – confiam cada vez mais no Irã e (quem poderia prever?!) na Rússia, que colaboram para reconstituir a força aérea iraquiana.

O centro de Manhattan não está no mapa do líder do Califato.

Parte da esquerda nos EUA imagina, até, que Washington teria alcançado alguma espécie de vitória, com a iminente saída do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, o veterano serviçal dos EUA. Mas a saída de Maliki também foi apoiada pelo Irã, pelo grande aiatolá do Iraque Ali al-Husayni al-Sistani (que mobilizou milhões exigindo o fim da ocupação dos EUA), por Muqtada al-Sadr (cuja milícia já combateu duas guerras contra a ocupação) e até por grande parte do próprio partido Dawa, de Maliki.

Muqtada al-Sadr
Só os curdos permanecem na gaveta de Washington e de Israel – e também essa questão de conveniência pode mudar, conformem mudem os arranjos em torno do Curdistão.

Mas essa região, quero dizer, essa grande vizinhança mais ampla, inclui Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes, Turquia e Jordânia. Al-Baghdadi do Califato mandou recado-resposta para eles, seus financiadores anteriores, no final de junho:

A legalidade de todos os emirados, grupos, estados e organizações torna-se nula pela expansão da autoridade do califa e a chegada de suas tropas àquelas áreas.

Milhares de combatentes do Estado Islâmico – e, igualmente decisivamente importante, a sua visão de mundo wahhabista fundamentalista – são indígenas, nativos da península árabe. Por isso o jornalista Patrick Cockburn, em seu novo livro, do qual Counterpunch publicou um capítulo [em tradução] diz que

Para EUA, Grã-Bretanha e potências ocidentais, a ascensão do ISIL e do Califato é a pior das calamidades (...)

As vitórias do Califato ressoam muito além da população árabe sunita de Iraque e Síria. A legitimidade política da Arábia Saudita repousa no papel que o reino tem, como protetor dos locais sagrados de Meca e Medina – e da Religião Antiga. Mas essa família real, como o resto dos potentatos hereditários da região, está corroída e infinitamente corrompida pela riqueza. Os sauditas (e em modalidade não menos letal, também os Qataris) exportam Jihad contra os xiitas e os secularistas, sempre na esperança de controlar a Jihad dentro de casa. O Califato levou a ideologia até a sua mais lógica e aterradora conclusão, e atreve-se a desafiar a legitimidade dos antigos fundadores, hoje declarados aliados do “Cruzado”.

Patrick Cockburn
Nas palavras do próprio Cockburn:

A ressurgência de grupos de tipo al-Qa’eda não é ameaça limitada à Síria, Iraque e seus vizinhos. O que está acontecendo naqueles países, combinado com a intolerância cada dia mais dominante e as crenças exclusivistas do wahhabismo dentro da comunidade sunita mundial, implica que todos os 1,6 bilhão de de muçulmanos, quase um quarto da população do planeta, serão cada dia mais afetados. Além disso, parece pouco provável que população de não muçulmanos, inclusive muitos no ocidente, permaneçam sem ser tocadas pelo conflito. O jihadismo que vemos ressurgir hoje, que já mudou o terreno político no Iraque e na Síria, já está tendo efeitos de longo alcance sobre a política global, com consequências terríveis para nós todos.

Todos os 1,6 bilhões de muçulmanos, quase um quarto da população do planeta, serão cada dia mais afetados.

As consequências são, é claro, piores para aqueles muçulmanos (que incluem, mas não se limitam aos xiitas) rotulados de heréticos pelos takfiris do Califato em expansão, e por todas as minorias religiosas e forças seculares dentro de cada setor. Mas as galinhas salafistas estão já começando a voltar para seus poleiros nativos da península – motivo pelo qual os sauditas estão até hoje, tentando freneticamente re-enfiar para dentro da garrafa o gênio jihadista. Nas palavras de Cockburn:

Com medo do que ajudaram a criar, os sauditas agora tentam freneticamente remar na direção oposta, prendendo voluntários jihadi, em vez de fingir que não viam quando embarcavam para Síria e Iraque; mas pode já ser tarde demais.

É com certeza tarde demais para os EUA tentarem salvar um elemento criticamente decisivo de sua política externa para o mundo muçulmano: a guerra por procuração. Foi percurso longo e sangrento desde quando, no final dos anos 1970s, a CIA, a Arábia Saudita e o Paquistão inventaram a rede jihadista global, praticamente criada do nada, para que acertassem um direto no olho dos soviéticos no Afeganistão. Os islamistas forneceram toda a infantaria – “coturnos em solo”, como se diz hoje – de que a própria jihad imperial dos EUA tanto precisava em terras muçulmanas.

Nouri al-Maliki e Natanyahu 
(mural fotografado por Thierry Ehrmann)
Em 2011, quando jihadistas partiram em apoio aos levantes populares na Tunísia e no Egito, a matilha imperial entrou em pânico. Os EUA e seus aliados na OTAN montaram monstruoso assalto contra a Líbia – uma espécie de “Choque e Pavor” – assegurando cobertura aérea para um exército de jihadistas amplamente financiado pelas monarquias árabes do petróleo. Quando o golpe de mudança de regime afinal se completou, os milicianos líbios uniram-se aos camaradas salafistas para saquear a Síria, saque que ainda está em andamento.

Hoje, com a Líbia em absoluto caos, e com o governo Assad ainda firme na Síria, o Califato declarou-se independente dos padrinhos ocidentais e monárquicos – precisamente o que esse nosso Black Agenda Report (BAR) previra há três anos.

O imperialismo libertou sobre o mundo uma praga que – antes do que se suspeita – consumirá os reis, os emires e os sultões dos quais os EUA dependem para manter seguro seu império de petróleo. O trote do declínio do império acelerou-se.  


[*] Glen Ford teve uma longa carreira como radialista e comentarista de rádio e TV. Em 1977, co-lançou, produziu e apresentou o America’s Black Forum, o primeiro programa notícias e entrevistas Black, numa rede de TV comercial. Em 1987, Ford lançou Rap It Up, o primeiro show de música Hip Hop nacionalmente transmitido em 65 estações de rádio. Ford é co-fundador do Black Agenda Report. Foi também autor de: The Big Lie: An Analysis of U.S. Media Coverage of the Grenada Invasion (A Grande Mentira: Uma Análise da Cobertura da Imprensa dos EUA sobre a Invasão de Granada).

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Obama afastou-se dos progressistas: culpa de quem?!


29/10/2012, Robert E. Prasch, Translation Exercises
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Falguni A. Sheth
Comentário de Falguni A. Sheth (Translation Exercises): “Como muitos sabem, a mais recente coluna de Matt Stoller em Salon [1] e outras publicações críticas, inclusive a minha, enfrentaram a ira de muitos, ao sugerir a possibilidade de nem os Democratas nem o presidente Obama estarem precisamente muito interessados em satisfazer as carências e necessidades ou interesses da esquerda e de liberais progressistas que ajudaram a elegê-los. Agora, o professor Robert Prasch e blogueiro de TransEx, resolveu entrar na discussão”.



Robert E. Prasch
Os que acompanham a blogosfera política sabem, sem dúvida, dos muitos ataques que sofreram vozes tradicionalmente muito respeitadas do campo da esquerda norte-americana, que concluíram que, afinal, é hora de votar em “outros” partidos. Fartos de, mais uma vez, como aconteceu em 1996, 2000 e 2004, serem forçados a votar “no mal menor” cansaram-se, de vez, da “velha lenga-lenga”. E que é velha, é. Alguns leitores lembrarão dos bottons que nos mandavam votar no neoliberal e pró-guerra do Iraque, John Kerry, contra o neoliberal e pró-guerra do Iraque, George W. Bush, em que se lia: “Kerry é menos merda”.

Mas queria falar de outra questão, relacionada a essa. O que, exatamente, diziam esses novamente muito falantes apoiadores de Obama, no final de 2008 e início de 2009, quando o governo estava montando e alocando seu pessoal, para implantar as políticas e as decisões que prepararam o campo para o que se vê hoje e para a disputa que eles mesmos enfrentam hoje? Não se perguntam, sequer, como é possível que um presidente que mobilizou entusiasmo tão apaixonado e tanta esperança há apenas poucos anos, esteja hoje a um passo de perder as eleições?

Timothy Geithner
Afinal de contas, Obama compete contra sujeito que passou praticamente toda a sua vida adulta agindo como o mais rematado, o mais consumado predador capitalista. E está acontecendo, apesar de a maioria dos norte-americanos excluídos do topo, que não são a elite que paga 10-20% de impostos, continuarem a viver os piores tempos da economia de toda a vida de todos os norte-americanos hoje vivos. Será que todos concordam, pelo menos, com que – exceto Richard Nixon – a queda vertiginosa na popularidade de Obama, apesar dos golpes de mão que a tem disfarçado, representa um dos mais completos fracassos na história dos líderes políticos nos EUA de toda a história do pós-guerra?

Não é difícil encontrar a causa subjacente desse fracasso monumental. Obama-presidente-eleito e seu círculo íntimo de conselheiros erraram completamente na avaliação do momento político. A nação realmente queria mudanças significativas – e a tal ponto queria, que o país dispôs-se a eleger um presidente “não regular”, um negro (o que é evento notável, se se considera a ininterrupta história de racismo nos EUA).

Lawrence Summers
Então, não se sabe como, Obama e seu círculo mais próximo deram jeito de convencerem-se, eles mesmos, de que bastaria dar uma reciclada na desgastada ideia de fazer uma “triangulação” [2] a partir do primeiro mandato de Clinton, e tudo daria certo. A partir desse exato momento, Barack Obama e seus principais conselheiros nada fizeram, além de se distanciar de sua principal base de apoio. Duas semanas depois da eleição, o governo anunciou que Lawrence Summers e Timothy Geithner – indivíduos cujo currículo recente, individual e coletivamente, já bastava para assegurar que ambos seriam fracasso gigantesco como servidores públicos – foram nomeados para conduzir a recuperação econômica.

A nomeação da dupla mostrava e o desempenho da dupla confirmou amplamente que “esperança e mudança” nunca haviam passado de slogan e que não, de modo algum, haveria nem qualquer mudança nem qualquer esperança nas políticas econômicas de Obama. A dupla, sem dúvida possível, cuidou de recuperar as fortunas de Wall Street e só. Não deram sequer um passo na direção de recuperar a riqueza de mais ninguém nos EUA.

Dia 1/12/2008, o governo Obama anunciou que Robert Gates permaneceria como Secretário de Defesa. Gates, caso alguém tenha esquecido, é mais que o homem que George W. Bush nomeou para dar rumo às guerras imorais, infindáveis e absolutamente sem rumo de Bush, com a missão extra de estendê-las para o resto do planeta, via o (então nascente) programa dos aviões-robôs armados, os drones. É mais que isso. Como ex-vice-diretor da CIA, Gates escapou por um fio de ser julgado e condenado por sua atuação no escândalo dos “contra” iranianos. Ainda que se conceda que as investigações, em 1991, sobre sua atuação tivessem sido excessivas (e talvez não tenham sido), Gates sempre foi muito intimamente associado à criminalidade rampante durante o governo Reagan, para ser nomeado até recolhedor de cachorro sem dono, muito menos, é claro, poderia ter sido nomeado para o cargo de Secretário da Defesa. Que homem daqueles jamais poderia participar de governo do Partido Democrata, nem é preciso dizer.

E quanto à reforma financeira? A indicação de ex-gerentões de Goldman Sachs e Citibank para inumeráveis cargos na Commodity Futures Trading Commission (CFTC) ou na Securities & Exchange Commission (SEC) e por todos os cantos, sugere a qualquer dos mais resistentes e obcecados seguidores de Obama que “esperança e mudança” teria papel decisivo na agenda governamental? Se sugere, ainda falta explicarem como conseguiram chegar àquela conclusão.

Rahm Emanuel
Para não perdermos o foco: alguém aí, entre os obamistas, realmente pensa que Rahm Emanuel liderará mudança à esquerda, dentro do Partido Democrata? Não há quem não saiba que Emanuel consumiu a vida inteira como pau mandado, na era Clinton, para combater a ala mais progressista dentro do Partido Democrata. Alguém esperava que mudasse radicalmente, só porque foi nomeado braço direito do Presidente? É? Alguém acredita nisso? E nem vou começar a falar sobre o empenho apaixonado com que Obama deu andamento à agenda de “livre comércio” de Bush ou aos planos (afinal, nunca foram tão secretos assim!) de cortar os benefícios da Seguridade Social e do Medicare.

Repetindo: todas as nomeações listadas acima foram anunciadas depois da eleição e antes da posse. Foram anunciadas antes de Obama revelar que não tinha qualquer intenção de cumprir o núcleo duro das promessas de campanha. Antes de Obama começar a perseguir os valentes “vazadores” de informação correta que distribuíram a verdade sobre os crimes de guerra da era Bush e os sistemas e programas ilegais de vigilância sobre os cidadãos. Antes de Obama silenciar as acusações contra os que realmente cometeram aqueles crimes. Essas violências, como hoje se sabe, faziam pleno sentido, porque, em seguida, o próprio governo Obama se poria a cometer os mesmos crimes, em versão ainda pior – de fato, em modalidade grotesca – do que o país algum dia conheceu, em matéria de violentar a Constituição dos EUA, durante a era Bush.

Sejamos claros: nenhum presidente dos EUA reclamou para si mesmo, em tempo algum, o direito de assassinar cidadãos norte-americanos, selecionados de uma lista de alvos, das quais o presidente pode escolher quem bem entenda, sem ter de informar a quem quer que seja e sem que nenhuma outra instância possa revisar a decisão presidencial de matar norte-americanos.

Matt Stoller
Meu ponto é bem simples: os norte-americanos já foram traídos. A traição não foi instigada por Glenn Greenwald, Matt Stoller, pelo blog Black Agenda Report, ou por qualquer outra voz do campo progressista ou da esquerda. O que esses autores fazem é expor as traições, para que os eleitores as vejam.

O pessoal que traiu a antes vibrante e esperançosa coalizão que, em 2008, elegeu Barack Obama à presidência está lá, abrigada na Casa Branca. Aquela traição não é coisa de acaso ou das circunstâncias. Já estava em processo inevitavelmente, modelando as decisões que foram tomadas antes de 20/1/2009. O que escrevi aqui apenas amplifica um pouco o que Barack Obama e seus principais assessores e conselheiros já sabiam no momento em que tomaram posse: que suas prioridades e agendas seriam em grande parte, se não totalmente ou principalmente, opostas às agendas e prioridades de seus eleitores e apoiadores. Sempre seria, naquele momento e depois, um copo “meio cheio” ou, mesmo, só ¼ cheio. Se ouvirem coisa diferente, mandem que lhe mostrem o copo. [3]

O fato é que o governo Obama, como, antes dele, o governo Clinton, entraram, sabendo onde entravam, num movimento cínico. Apostaram que conseguiriam impor uma corte de desatinos, políticas fundamentalmente odiosas do ponto de vista dos seus eleitores e, apesar disso, seriam reeleitos. O cálculo baseou-se sempre na premissa de que Democratas “de partido” jamais teriam alternativa. [4] Não surpreendentemente, o governo Obama e seus prepostos investiram considerável tempo e energia para convencer os apoiadores de que não há alternativa.

Qualquer um que algum dia tenha comprado sabe que o poder de barganha depende, em última instância, da disposição do comprador para não comprar. A capacidade de dar as costas ao mau fornecedor explica por que obtemos bons serviços da lavanderia da esquina e péssimos serviços do nosso provedor de televisão a cabo. Quando se tem alternativa, o consumidor ganha poder como consumidor (e devo dizer que a regra vale para o mercado de trabalho, o que explica por que a maioria dos empregadores gosta muito mais de altas taxas de desemprego, que os seus empregados).

Nesse momento, campanha eleitoral profundamente cínica está apostando que os progressistas e a esquerda em geral terá tanto medo de um governo de Romney, que nem tentará mobilizar o poder que tem. Essa, vale relembrar, já foi a estratégia adotada por Comissões Nacionais Democratas cada vez mais de direita, ao longo de, já, quase 30 anos. A cada quatro anos, nos convocam a votar pelo mal menor. Em algumas semanas saberemos se a jogada deu certo, para eles, mais uma vez.

A pergunta é: e teremos aprendido? Teremos aprendido a barganhar contra uma liderança desencantada, sem fé, do Partido Democrata? Se não aprendermos agora... aprenderemos quando?

Mas sejamos bem claros. Vençam ou percam, Rahm Emanuel, Robert Gibbs, David Axelrod, David Plouffe, Bill Clinton e Barack Obama estarão com a vida ganha. Eles sempre ganham, com ou sem os votos. Há magníficos empregos em agências de lobbying, em bancos, como conselheiros, todos com excelentes salários. Convites para “Conferências”, que venderão a peso de ouro, choverão sobre eles. A grana conhece seus caminhos e tudo continuará a prosperar. Quanto a isso, que ninguém se preocupe. E quanto à vida da vasta maioria do povo dos EUA? Os que apoiaram Obama. Os que votaram em Obama. Os desempregados. Os que tiveram as casas alagadas e destruídas? Os sem casa? As vítimas das ações fraudulentas de despejo?

Bem, há novidades: somos adultos. Eles não podem nos enganar sempre. Não se deixe enganar mais. Caia fora do velho golpe. Você nada deve a Obama, porque Obama nada fez por você e nada planeja fazer por você, nem fará – a menos que você veja alguma vantagem em perder o benefício da Segurança Social e em ser coadjuvante da farsa da Parceria Trans-Pacífico. Se votar em Obama o deixa menos desanimado, OK, vote. Mas não há dúvida de que já há muita gente que começa a pensar de outro modo.





Notas de tradução

[1] 27/10/2012, The progressive case against Obama [O que os progressistas têm contra Obama], Matt Stoller, Salon.

[2] Orig. Triangulation: é o nome dado ao que faz o candidato, em disputa política, que se apresente como “acima” e “entre” a esquerda e a direita do espectro político tradicional nos EUA e na Grã-Bretanha. Implica adotar parte das ideias de algum adversário (quase sempre adversário apenas aparente). A lógica desse tipo de movimento é que os dois lados recebem créditos pelas ideias do oponente e o “triangulador” fica protegido contra ataques mais virulentos relacionados ao tema “triangulado”.

[3] Ver 27/12/2011, Where is My Half Glass? [Onde está a minha metade do copo”, Robert E. Prasch, Translation Exercises.

[4] Ver 30/7/2012, On Voting Strategically in 2012: The Ultimatum Game[Sobre votar estrategicamente em 2012: o jogo do ultimatum”] Robert E. Prasch, Translation Exercises