Mostrando postagens com marcador Nouri al-Maliki. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nouri al-Maliki. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O império colhe a tempestade do jihadismo

13/8/2014, [*] Glen Ford, Black Agenda Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Abu Bakr al-Baghdadi, Califa do Estado Islâmico

Por mais de 3 décadas os EUA tem implantado substitutos fundamentalistas islâmicos para lutar e defender suas conquistas imperiais em terras muçulmanas. Agora, os jihadistas mais bem sucedidos do mundo voltaram-se contra seus senhores e, em breve perseguirão e conquistarão as monarquias produtoras de petróleo e gás no Golfo Pérsico. O Califado tomou à ideologia do capital seu quinhão de lógica e horror atrevendo-se a desafiar a legitimidade de seus fundadores, incondicionais aliados dos “Cruzados” (os EUA). Glen Ford (Nrc)

O problema é que os procuradores-fantoches do Pentágono estão evaporando.

A ascensão do Califato Islâmico no Iraque e na Síria desmontou o roteiro das políticas de guerras por procuração dos EUA na região, e pode acabar por derrubar as monarquias do petróleo cuja sobrevivência é indispensável à hegemonia dos EUA no mundo. No nível de coturnos em solo, a estratégia imperial por procuração já entrou em colapso, com a desintegração da (sempre efêmera) oposição armada “moderada” ao governo sírio e a defecção para as hostes do Califato de combatentes sunitas que os EUA cevaram no Iraque.

Os US$ 500 milhões que o presidente Obama requereu para usar contra a Síria já viraram pó, depois das espantosas vitórias políticas e militares do Califato; não há dinheiro que crie um exército, se à volta só há fantasmas. Os insurgentes sírios mais ativos já voaram para o autoproclamado Estado Islâmico, antes chamado ISIL, cujo líder, Abu Bakr al-Baghdadi, mandou recado a Washington:

Fiquem sabendo, defensores da cruz, que mandar outros lutarem por vocês de nada lhes serviu na Síria e de nada lhes servirá no Iraque.

A imprensa-empresa corporativa norte-americana interessou-se mais por outras partes da mensagem de al-Baghdadi, na qual avisava Washington de que

(...) antes do que esperam, vocês estarão, vocês mesmos, em confronto direto – forçados a lutar – se Deus quiser. E os filhos do Islã já se prepararam para esse dia. Portanto, aguardem, que nós também estaremos à espera.

Para os norte-americanos mais obcecados com a própria segurança, foi como uma ameaça de ataque direto à “pátria-mãe”. Mas o centro de Manhattan não está no mapa do líder do Califato. Al-Baghdadi referia-se à evidência de que a estratégia de os EUA financiarem fantoches muçulmanos para combater nas guerras do imperialismo está morta, e que, em breve, o Pentágono terá de fazer ele mesmo o seu serviço sujo, metido no uniforme de “Cruzado”.

Nessa linha que o Califato denuncia, os EUA estão mandando mais centenas de agentes “não combatentes” para o norte do Iraque – como se Marines e Forças Especiais não fossem soldados combatentes – para somarem-se aos mil e tantos elementos militares e de segurança dos EUA que, pelas contas oficiais divulgadas, já estão lá. Ao contrário de que muitos na esquerda norte-americana acreditam, os políticos e estrategistas dos EUA não morrem de desejo de mandar grandes legiões norte-americanas para terras árabes (curdos não são árabes), porque a presença de soldados norte-americanos é extremamente contraproducente. O problema é que os procuradores-fantoches do Pentágono estão evaporando, estão em fuga desabalada ou – no caso do Iraque árabe – confiam cada vez mais no Irã e (quem poderia prever?!) na Rússia, que colaboram para reconstituir a força aérea iraquiana.

O centro de Manhattan não está no mapa do líder do Califato.

Parte da esquerda nos EUA imagina, até, que Washington teria alcançado alguma espécie de vitória, com a iminente saída do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, o veterano serviçal dos EUA. Mas a saída de Maliki também foi apoiada pelo Irã, pelo grande aiatolá do Iraque Ali al-Husayni al-Sistani (que mobilizou milhões exigindo o fim da ocupação dos EUA), por Muqtada al-Sadr (cuja milícia já combateu duas guerras contra a ocupação) e até por grande parte do próprio partido Dawa, de Maliki.

Muqtada al-Sadr
Só os curdos permanecem na gaveta de Washington e de Israel – e também essa questão de conveniência pode mudar, conformem mudem os arranjos em torno do Curdistão.

Mas essa região, quero dizer, essa grande vizinhança mais ampla, inclui Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes, Turquia e Jordânia. Al-Baghdadi do Califato mandou recado-resposta para eles, seus financiadores anteriores, no final de junho:

A legalidade de todos os emirados, grupos, estados e organizações torna-se nula pela expansão da autoridade do califa e a chegada de suas tropas àquelas áreas.

Milhares de combatentes do Estado Islâmico – e, igualmente decisivamente importante, a sua visão de mundo wahhabista fundamentalista – são indígenas, nativos da península árabe. Por isso o jornalista Patrick Cockburn, em seu novo livro, do qual Counterpunch publicou um capítulo [em tradução] diz que

Para EUA, Grã-Bretanha e potências ocidentais, a ascensão do ISIL e do Califato é a pior das calamidades (...)

As vitórias do Califato ressoam muito além da população árabe sunita de Iraque e Síria. A legitimidade política da Arábia Saudita repousa no papel que o reino tem, como protetor dos locais sagrados de Meca e Medina – e da Religião Antiga. Mas essa família real, como o resto dos potentatos hereditários da região, está corroída e infinitamente corrompida pela riqueza. Os sauditas (e em modalidade não menos letal, também os Qataris) exportam Jihad contra os xiitas e os secularistas, sempre na esperança de controlar a Jihad dentro de casa. O Califato levou a ideologia até a sua mais lógica e aterradora conclusão, e atreve-se a desafiar a legitimidade dos antigos fundadores, hoje declarados aliados do “Cruzado”.

Patrick Cockburn
Nas palavras do próprio Cockburn:

A ressurgência de grupos de tipo al-Qa’eda não é ameaça limitada à Síria, Iraque e seus vizinhos. O que está acontecendo naqueles países, combinado com a intolerância cada dia mais dominante e as crenças exclusivistas do wahhabismo dentro da comunidade sunita mundial, implica que todos os 1,6 bilhão de de muçulmanos, quase um quarto da população do planeta, serão cada dia mais afetados. Além disso, parece pouco provável que população de não muçulmanos, inclusive muitos no ocidente, permaneçam sem ser tocadas pelo conflito. O jihadismo que vemos ressurgir hoje, que já mudou o terreno político no Iraque e na Síria, já está tendo efeitos de longo alcance sobre a política global, com consequências terríveis para nós todos.

Todos os 1,6 bilhões de muçulmanos, quase um quarto da população do planeta, serão cada dia mais afetados.

As consequências são, é claro, piores para aqueles muçulmanos (que incluem, mas não se limitam aos xiitas) rotulados de heréticos pelos takfiris do Califato em expansão, e por todas as minorias religiosas e forças seculares dentro de cada setor. Mas as galinhas salafistas estão já começando a voltar para seus poleiros nativos da península – motivo pelo qual os sauditas estão até hoje, tentando freneticamente re-enfiar para dentro da garrafa o gênio jihadista. Nas palavras de Cockburn:

Com medo do que ajudaram a criar, os sauditas agora tentam freneticamente remar na direção oposta, prendendo voluntários jihadi, em vez de fingir que não viam quando embarcavam para Síria e Iraque; mas pode já ser tarde demais.

É com certeza tarde demais para os EUA tentarem salvar um elemento criticamente decisivo de sua política externa para o mundo muçulmano: a guerra por procuração. Foi percurso longo e sangrento desde quando, no final dos anos 1970s, a CIA, a Arábia Saudita e o Paquistão inventaram a rede jihadista global, praticamente criada do nada, para que acertassem um direto no olho dos soviéticos no Afeganistão. Os islamistas forneceram toda a infantaria – “coturnos em solo”, como se diz hoje – de que a própria jihad imperial dos EUA tanto precisava em terras muçulmanas.

Nouri al-Maliki e Natanyahu 
(mural fotografado por Thierry Ehrmann)
Em 2011, quando jihadistas partiram em apoio aos levantes populares na Tunísia e no Egito, a matilha imperial entrou em pânico. Os EUA e seus aliados na OTAN montaram monstruoso assalto contra a Líbia – uma espécie de “Choque e Pavor” – assegurando cobertura aérea para um exército de jihadistas amplamente financiado pelas monarquias árabes do petróleo. Quando o golpe de mudança de regime afinal se completou, os milicianos líbios uniram-se aos camaradas salafistas para saquear a Síria, saque que ainda está em andamento.

Hoje, com a Líbia em absoluto caos, e com o governo Assad ainda firme na Síria, o Califato declarou-se independente dos padrinhos ocidentais e monárquicos – precisamente o que esse nosso Black Agenda Report (BAR) previra há três anos.

O imperialismo libertou sobre o mundo uma praga que – antes do que se suspeita – consumirá os reis, os emires e os sultões dos quais os EUA dependem para manter seguro seu império de petróleo. O trote do declínio do império acelerou-se.  


[*] Glen Ford teve uma longa carreira como radialista e comentarista de rádio e TV. Em 1977, co-lançou, produziu e apresentou o America’s Black Forum, o primeiro programa notícias e entrevistas Black, numa rede de TV comercial. Em 1987, Ford lançou Rap It Up, o primeiro show de música Hip Hop nacionalmente transmitido em 65 estações de rádio. Ford é co-fundador do Black Agenda Report. Foi também autor de: The Big Lie: An Analysis of U.S. Media Coverage of the Grenada Invasion (A Grande Mentira: Uma Análise da Cobertura da Imprensa dos EUA sobre a Invasão de Granada).

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Iraque: a falácia da “troca das cabeças”

13/8/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Haidar al-Abadi, novo Primeiro-Ministro do Iraque
Oito anos depois que EUA e Irã combinaram a entronização de Nouri al-Maliki como primeiro-ministro do Iraque, combinaram agora substituí-lo pelo relativamente desconhecido Haider al-Abadi.

Os EUA dizem que querem governo mais “inclusivo”, e o Irã acompanha, assegurando que lá esteja, no topo, um bom amigo dos planos do Irã. Al-Abadi encaixa-se bem nos dois critérios. Mas esperar que, se se muda um cabeça, muda-se a trilha em que o Iraque está andando, é esperança vã.

Só muito raramente acontece de o problema de um país ser o homem/mulher que está no topo.

É velha falácia da política externa dos EUA que, se se troca o cabeça – sempre declarado “um novo Hitler”, tudo estaria resolvido. A falácia acaba sempre por se autoaplicar, sempre se autoconfirmando.

Começa por algum “alto funcionário do governo” [no Brasil, é sempre algum pressuposto “altíssimo”, mas sempre de governos passados, velharias já com mais de uma década bem longe de qualquer governo 8-)) (NTs)] que vaza para a “mídia” que fulano pode não ser o anjo que se supunha que fosse. Jornalistas então põem-se a recolher (ou inventar) e repetir histórias, boatos, diz-que-disses e “citações” que apoiam qualquer coisa que qualquer um tenha “declarado” à “mídia” sobre o fulano caído em desgraça.

Nouri al-Maliki, ex-Primeiro-Ministro do Iraque
Dia seguinte, o tal “alto funcionário do governo” lê o New York Times ou assiste à CNN e constata “a veracidade” do que ele próprio disse e a “solidez” da sua própria posição no governo, porque, sacomé, fulano é realmente um bandido – e o único real e grave problema a ser enfrentado – e as “provas” ali estão, na “mídia”.

Mas em geral não é quem governa uma nação que faz a nação. A nação e sua situação é que estão formando, pelo menos na mesma medida, a pessoa que a governa. Gaddafi não era o que era “porque” tivesse criado a Líbia à sua semelhança, mas porque, governando com sucesso uma Líbia unida exigia que ele fosse como era. A Rússia não está ressurgindo “por causa” de Putin, mas porque Putin deu forma às suas políticas conforme o que a Rússia é. É isso, não a personalidade dele, que lhe estão dando índices de aprovação que já atingem a estratosfera.

Maliki governou o Iraque de um modo que lhe garantiu o apoio da maioria dos eleitores no país dele. Não cedeu à chantagem pelas tribos sunitas já viciadas nas propinas que os militares norte-americanos sempre fizeram chover sobre elas. Foi essa falta de “disposição para incluir” que o fez tão bem-sucedido:

O bloco do qual o Sr. Maliki faz parte conquistou a maioria dos assentos com direito a voto no Parlamento, na eleição de abril. Pessoalmente, o Sr. Maliki recebeu mais votos que qualquer outro político.

Manifestação de apoiadores de al-Maliki (Bagdá, 12/8/2014)
Se al-Abadi modifica as principais políticas de Maliki, não terá o apoio da maioria dos eleitores e terminará ou convertido em ditador brutal, ou morto.

As duas regras do ciclo político em países sem lei aplicam-se aí:

1.     Ditador forte é substituído por fantoche fraco que recorre à força para conseguir governar sociedade fraturada.
2.     Releia a regra n. 1.

Substituir Maliki, processo complicado e ainda incerto, não mudará o Iraque, seus problemas – como o apoio dos EUA a um estado-petróleo do Curdistão, ou as decisões políticas que seus líderes terão de tomar para conservarem-se amados e vivos.



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Conflicts Fórum, Comentário Semanal − ISIS: Retorno a estruturas árabes pré-islâmicas

15/7/2014, [*] Conflict Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mundo muçulmano - xiitas e sunitas
(clique na imagem para aumentar)
O sunismo sempre teve um vínculo especial com o estado. (Não em termos de Westphalia, com suas identidades nacionais homogêneas, mas relação mais complexa, com diferentes etnias, seitas e tribos reunidas sob uma única autoridade forte). Os sunitas sentem-se de algum modo intimamente conectados ao estado, de modo diferente dos demais. O que se quer dizer com isso é que os sunitas sentem que fundaram o estado, que de algum modo são “o estado” e são “do estado”. Concomitantemente, os xiitas são frequentemente chamados, pejorativamente (quase sempre por sunitas), de “os rejeicionistas” (do estado “dos sunitas”), e são vistos como excessivamente ligados às próprias noções de justiça, para fazerem adaptações confiáveis, na pragmática arte de construir estados.

Em resumo, os sunitas veem os xiitas como potencialmente naturalmente subversivos, e, até, revolucionários. E os xiitas veem os sunitas como excessivamente pragmáticos no exercício do poder, a ponto de perderem de vista o componente espiritual radical da mensagem do Profeta.

Mas no período recente, os estados sunitas não têm dado muito certo. Os chamados “modelos” de governança para os sunitas, ou implodiram ou estão largamente desacreditados. A “esfera” sunita está visivelmente em processo de degradação. E, dado que a “identidade” sunita está tão intimamente ligada à noção de um estado poderoso (o ideal é os primeiros anos da expansão islâmica, depois da morte do Profeta), o processo de degradação surge acompanhado por uma fragmentação psicológica e profundo senso de que o “modo de ser” sunita – seus “valores culturais” estão sendo de algum modo ignorados e atropelados.

E tudo isso vem à luz precisamente num momento de renovação e de nova energia no âmbito dos xiitas, o que só faz aumentar ainda mais o desconforto dos sunitas. Não é surpresa portanto que estejamos testemunhando ressentimentos profundos na Sunnah, de desconstituição e perda de posições de liderança “mantidas por direito”; sentimentos de frustração (pelo que ressentem como redução de status dos sunitas no comando do futuro do Islã e da região – e ressentimento pelo que os sunitas veem como marginalização deles, na discussão das questões.

ISIS no Iraque
Grande parte disso é mais imaginado, que real – o que em nada reduz significação psicológica e política. Mas, sim, os modelos de “estado” sunita estão em crise: e, sim, os sunitas foram marginalizados no Iraque; mas na região em geral (incluindo a Síria), não é correto sugerir que os sunitas seriam de algum modo “vítimas”, ameaçados de serem varridos pela maré cultural “estrangeira” que emana do Irã. Os sunitas são a maioria (mas não na extensão frequentemente sugerida para toda a região), e continuam a controlar predominantemente as alavancas de controle político e econômico. Mas a região está se reequilibrando; e isso, compreensivelmente, é fator desestabilizante e causa do torvelinho.

Mais significativo politicamente é que Europa e EUA tenham absorvido de modo tão pouco crítico a narrativa dos sunitas “vítimas”, que o dito “ocidente” tenha ficado confuso e passivo ante a ascensão do ISIS. Sim, o Islã xiita está conhecendo um renascimento, mas é raciocínio simplório atribuir a perturbação psicológica dos sunitas simplesmente ao ressurgimento dos xiitas. Os fracassos dentro do próprio Islã sunita têm também muito a ver com isso – como também tem a crescente autoconfiança do Irã. Em resumo, os sunitas têm, sim, de responder à própria circunstância deles: não é possível atribuir tudo a forças externas.

Afinal de contas, os governantes mais desacreditados nos recentes levantes árabes foram governantes sunitas. No coração daqueles levantes estava o rompimento do contrato social dos sunitas, não alguma “maquinação” que emanasse do Irã. Apesar disso, essa visão simplória (de que a perturbação que os sunitas estão sofrendo seria causada basicamente pelo “ativismo” dos xiitas e do Irã) tornou-se consenso estabelecido, definitivo, para europeus e para os EUA. Europeus e norte-americanos estão (e tinham de estar), é claro, sinceramente desentendidos e perturbados pelo ISIS e a inesperada tomada de porções de território do Iraque, mas também foram colhidos de surpresa pelo apoio de alguns sunitas populares e do Golfo ao ISIS: como observou um importante comentarista político, funcionários dos EUA percebem que o ISIS obtém apoio significativo da população sunita, o que leva à percepção de que os EUA deveriam tomar medidas antissunitas [se interviessem para apoiar o Iraque]”. De fato, um ex-embaixador do Qatar nos EUA alertou o governo Obama contra qualquer intervenção militar a favor de Maliki: seria vista como ato de “guerra” por toda a comunidade dos árabes sunitas, disse ele.

Nouri al-Maliki, Primeiro-Ministro do Iraque
Essa aceitação da narrativa sunita (a ideia descabida e sem lógica de que a ascensão do ISIS seria atribuível ao presidente Assad e ao sectarismo do primeiro-ministro Maliki) paralisou as reações iniciais do ocidente ao pedido de ajuda feito pelo Iraque, e deixou a política externa ocidental em estado de contradição explícita fundamental – com os EUA aumentando o apoio financeiro à insurgência síria (campo fértil do qual, aí sim, o ISIS emergiu e foi armado), enquanto, simultaneamente, os EUA hesitavam em oferecer ajuda crucialmente necessária ao governo do Iraque para que derrotasse o ISIS.

Já escrevemos sobre a natureza radical do ISIS e a significação verdadeiramente revolucionária de seu historicismo revisionista, mas o que é mais importante para compreender a significação do ISIS é essa mudança paradigmática da ênfase, das ações do próprio Profeta e de Medina, como modelo societal – para privilegiar a conduta do primeiro e segundo Califas (Abu Bakr, cujo nome o novo “Califa” assumiu como “nome de guerra”; e o segundo Califa, Umar). Essa mudança diz muito sobre essa nova orientação de pensamento, e por que está tendo apelo tão amplo, cobrindo todo o espectro, de jovens muçulmanos sunitas irados, até líderes do Golfo.

Num sentido, o pensamento do ISIS parece oferecer a jovens muçulmanos uma solução romântica, “heróica”, à crise sunita de modelos de governança desacreditados (no Boston Globe, 28/6/2014, lê-se coluna cheia de elogios a um novo modelo de cidadania que o ISIS estaria criando, e praticamente sem nenhuma referência ou crítica ao apoio saudita e do Golfo ao ISIS e a jihadistas radicais).

Abu Bakr e Umar, sim, à maneira deles, consolidaram o “estado”. Fizeram guerras contra apóstatas e inimigos de Deus, e não hesitaram em usar “terrível violência”, queimando pessoas vivas e executando inimigos por degolamento. (Vê-se a mesma abordagem no Iraque hoje).

Mas Abu Bakr e Umar são também conhecidos por mitigar a espiritualidade e a radicalidade da mensagem do Profeta, cercando-as nos, e apresentando-as conforme aos hábitos e práticas culturais árabes do período. Não só adotaram o estilo de guerra tradicional – um tradicional estilo árabe bélico – mas também o patriarcado tradicional, com primado do homem, foram reinseridos nas interpretações e comentários às falas e ações do Profeta. As mensagens do Profeta sobre relações sociais foram “temperadas” por uma recuperação da cultura árabe tradicional (foi o que fez Umar, principalmente, como Califa).

Abu Bakr al-Baghdadi
Assim, se se lê a literatura do ISIS, a ênfase em Abu Bakr e Umar sugere nem tanto um retorno ao modelo de Medina (ao qual aspira a Fraternidade Muçulmana, como a maioria dos salafistas); mas, mais, a um modelo do Estado Islâmico que é pré-islâmico, nas principais características. A noção da Constituição de Medina como modelo de sociedade política (redigida durante a estadia do Profeta em Medina) não aparece na narrativa do ISIS, como tampouco aparece ali a noção, cara à Fraternidade Muçulmana, de que as primeiras Comunidades basearam-se na soberania dos povos. A reorientação do ISIS representa mudança dramática e significativa no islamismo dos sunitas, que se move na direção de estruturas pré-islâmicas de estado e de sociedade.

Essencialmente, o ISIS está empurrando o paradigma, do período Profético (a era de Maomé), para o período pós-Profético (i.e. para o período do Império Islâmico), caracterizado mais pela eficácia militar como seu ethos regente. Nesse espírito foi que os dois primeiros Califas reinstauraram muitos dos modos pré-islâmicos de governar e de guerrear.

O que se tem então é o ISIS a apresentar aos jovens muçulmanos o governo pré-islâmico como “solução” para o sofrimento contemporâneo dos sunitas. É o mesmo que dizer que a “solução” do ISIS é o Islã implantando no modelo de estado árabe pré-islâmico tradicional – com Abu Bakr e Umar na função de protagonistas modelos.

Esse é modelo autocrático e que exige completa submissão e obediência sob pena de morte aos que se rebelem. Sob esse aspecto (a insistência no quesito autoridade), não é difícil entender por que os autocratas do Golfo são seduzidos pelo “modelo” – apesar de o ISIS ter rejeitado a alegada legitimidade daqueles monarcas. O romantismo de “lutar pelo Islã” como fizeram os primeiros “mestres combatentes”, e a irrestrita entrega exigida a um “ideal”, sempre atrairão os mais jovens, que se veem afinal conseguindo livrar-se e superar a corrupção e a putrefação de uma sociedade degradada.

Em resumo, o ISIS é uma manifestação mais de fragmentação e de esgotamento psicológico, que algum tipo de real solução política. Pode ressoar na psique contemporânea de muitos sunitas, por enquanto; mas é difícil ver os luminares da inteligência sunita suportando por muito tempo a vida nesse novo califado. Ele é, em todos os casos, um modelo no qual a eficácia se sobrepõe à moralidade, e permanece com a mesma falha essencial que assombrava o Islã nos primeiros tempos: a opacidade na metodologia para escolher quem se torna Califa. Se a eficácia é o critério decisivo, então terá de ser julgado por esse padrão (e muito provavelmente não corresponderá integralmente).

Abdulrahman Al-Rashed
A resposta saudita (exposta num editorial assinado por colunista top da empresa-imprensa do establishment saudita, Abdulrahman Al-Rashed, presidente da TV Al-Arabiya) foi que a ameaça imposta pelo ISIS tem de ser corretamente compreendida – porque há uma “genuína” [quer dizer, sunita] revolução contra um governo sectário repugnante tanto na Síria como no Iraque. O ISIS foi contagiado por essa “ira sunita” e tornou-se “a estrela do show para sunitas por todo o mundo” (...). Mas “não fosse por Assad e Maliki, o ISIS e a Frente al-Nusra nunca teriam existido”. (Esse é o refrão-meme saudita, a “narrativa” que foi quase universalmente acolhida e reproduzida por toda a grande imprensa-empresa ocidental).

A Arábia Saudita está preparada, Abdulrahman sugere, para o confronto contra o ISIS, mas só e somente só “se se impuser alguma solução política contra Síria e Iraque” – mudança de regime que leve a mobilização mais ampla de sunitas. As políticas sectárias de Assad e Maliki “geraram esse caos. Portanto, a solução está em governos centrais fortes em Bagdá e Damasco, com apoio dos EUA, do ocidente e regional”.  

Mas sejamos claros: quando Abdulrahman insiste que Nouri al-Maliki “tem de sair”, não está propondo que outro xiita assuma seu posto – como aconteceria no atual quadro político, no qual os xiitas chegam a 60-65% do eleitorado. Está clamando por derrubada do sistema – com um “homem-forte” sunita (ou um Iyad Alawi aprovado por Riad) posto no poder (à moda Sisi). O mesmo, para a Síria. É o chamamento pelo expurgo do Oriente Médio.

É difícil ver essa grandiosa demanda saudita levando os demandantes a lugar algum. Com o passar do tempo, o ISIS perderá o fulgor; os xiitas do Iraque estão-se mobilizando; e se reorganizarão, eles mesmos, para iniciar a tarefa de derrotar o ISIS. Não será rápido, mas já começou.

O que temos aqui? A Arábia Saudita realmente acredita que o modelo ISIS seja sustentável além do pico de adrenalina das vitórias militares iniciais do ISIS? A Síria aí está para mostrar que não. E se o ISIS não é senão genuína revolução contra governo sectário repugnante, como Abdulrahman sugere, então por que a Arábia Saudita está reunindo 30 mil soldados na fronteira com o Iraque? Bem visivelmente os sauditas estão mais nervosos do que estão admitindo publicamente.

Arábia Saudita - Família al-Saud
A família al-Saud está em conflito e dividida. O que essa validação (qualificada) do ISIS, por agente bem posicionado, sugere é, isso sim, que a Arábia Saudita está sem leme, à deriva – e está mostrando-se incapaz de “desfazer” velhas políticas – mesmo quando elas já ameaçam diretamente o bem-estar do reino. “Assad tem de sair”; “Maliki tem de sair” e o ISIS encaixam-se como luva velha: política no piloto automático, e ninguém – pelo que se vê – tem os meios para mudar coisa alguma, pelo menos por enquanto.

Mas a situação se encaminha para futuro muito incerto. Maliki pode não ser muito admirado, e está sendo pesadamente criticado pelos fracassos do exército em Mosul, mas, sem dúvida, é mestre na pilotagem da política iraquiana. Até aqui, está sobrevivendo. Verdade é que a própria tentativa de derrubá-lo que os EUA fizeram pode ter tido efeito inverso – atraindo a rápida ajuda militar de russos e iranianos – interessados em bloquear a tentativa dos EUA para chantagear o parlamento iraquiano (os EUA condicionaram a ajuda militar contra o ISIS, à derrubada de Maliki). “Os sapatos estão nos pés trocados: se os EUA não se envolverem militarmente, ninguém sentirá a falta deles”, como escreveu um comentarista.

Irã e Rússia estão operando em estreita coordenação, e o Irã define a incursão do ISIS como a entrada da Arábia Saudita na guerra regional contra o país. Políticos iranianos apontam o dedo responsabilizando a Arábia Saudita pelo ISIS e (como só fazem muito raramente) bem explicitamente: “A Arábia Saudita é patrocinadora-apoiadora espiritual, material e ideológica do ISIS, e o rei saudita nomeou o ex-chefe de inteligência do país [príncipe Bandar], para a missão especial de apoiar o ISIS”. (Mohammad Hassan Asafari, membro destacado do Parlamento iraniano). E a imprensa conservadora iraniana é ainda mais dura: “A segunda maior aposta dos EUA no Iraque já começa a cheirar a derrota. Enquanto o exército popular do Iraque e as forças de voluntários vão limpando a cidade de Tikrit (...) os norte-americanos não se dispõem a ajudar o governo legalmente eleito do Iraque a derrotar terroristas; até tomaram posições que garantem apoio ao ISIS. Em vez de desacreditar os terroristas, (...) funcionários dos EUA acusaram [Maliki] de monopólio e de guerra sectária!” (Keyhan, 30/6/2014).

A ambivalência de EUA e Europa (o ocidente dançando pela música do Golfo, de que o ISIS seria apenas um “fato” com o qual o ocidente tem de reconciliar-se, não uma frente terrorista dedicada a assassinar todos os “apóstatas”) – está gerando suspeitas crescentes e reação hostil entre os mais altos políticos iranianos. Estamos nos aproximando do 20 de julho/2014, data limite para as negociações nucleares. Difícil ver como esse clima deixará de fortalecer ainda mais os iranianos, determinados a defender seus interesses na última rodada das negociações do P5+1, antes de que se esgote o prazo. Por enquanto, tampouco há sinal algum de “entendimentoentre Arábia Saudita e Irã, que estabilizaria a região: só se veem sinais de movimento na direção contrária.


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Irã prepara-se para derrotar o ISIL/ISIS/DAASH

5/7/2014, [*] M K Bhadrakumar, Diario Info, Portugal
Repassado pelo pessoal da Vila Vudu

O Irã não tem assistido passivamente às sucessivas ofensivas, nomeadamente na Síria e no Iraque, que o tomam claramente como alvo ulterior. E vem empreendendo iniciativas no plano diplomático que não apenas reforçam a sua posição como começam a abrir brechas entre as próprias monarquias reacionárias que, juntamente com Israel, têm assumido o papel de peões do imperialismo no Médio-Oriente.

Parlamento Iraniano (Majlis)
Após quase uma semana de expectativa, Teerã modificou a abordagem e a retórica relativamente à crise no Iraque e na Síria. As insinuações e as sombrias indicações indiretas das declarações iranianas até agora feitas deram lugar à crítica aberta do apoio da Arábia Saudita ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante [ISIL, no acrônimo inglês].

Dois destacados membros da comissão do Majlis [Parlamento] de assuntos estrangeiros e de segurança referiram-se com veemência a Riad:

A Arábia Saudita é o apoiante espiritual, ideológico e material do ISIL, e o soberano saudita atribuiu ao anterior chefe dos serviços de informações [o príncipe Bandar] a missão especial de apoiar o ISIL (Mohammad Hassan Asafari).

Mohammad
Saleh Jokar
É extremamente raro o Rei Abdullah ser especificamente nomeado numa declaração iraniana. Entretanto, outro destacado membro do Parlamento, Mohammad Saleh Jokar, advertiu implicitamente Riad de que está a jogar pedras, tendo telhado de vidro:

Em lugar de interferir nos assuntos internos do Iraque e de implementar as intrigas dos EUA, a Arábia Saudita faria melhor se se ocupasse dos seus assuntos internos.

A linha de raciocínio iraniana é de que a luta pela sucessão na família real saudita vai-se tornando cada dia mais aguda.

Edifício do Parlamento iraniano (Majlis)

Significativamente o Líder Supremo, Ali Khamenei, repetiu uma expressão cunhada pelo Iman Khomeini nos primeiros anos da revolução iraniana, referindo-se à Arábia Saudita como uma mascote dos EUA e um cúmplice disfarçado de Israel. Dirigindo-se no domingo a um grupo de recitadores do Corão, em Teerã, disse que existe uma diferença entre o “Islã Americano” e o verdadeiro Islã:

Aiatolá Ali Khamenei
O Islã Americano, embora tenha nome e aparência islâmica, contemporiza com o despotismo e o sionismo… E está inteiramente ao serviço do sionismo e dos EUA.

Entretanto, o apoio aberto à ideia de um estado curdo independente no norte do Iraque manifestado pelo primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu – para além das visitas a Erbil na semana passada do secretário de Estado norte-americano John Kerry e do secretário dos negócios estrangeiros britânico William Hague – alertaram Teerã para a calibrada estratégia anglo-americana (com a participação de Israel) de criar um “estado petrodólar” junto à fronteira ocidental do Irã.

Teerã acompanha atentamente a forte presença dos serviços de informações israelitas em Erbil. Numa declaração pouco usual, Teerã contestou frontalmente a emergência de um Curdistão independente. Hossein Amir Abdollahian apontou à liderança curda que seria imprudente enveredar pelo caminho da secessão. Um destacado membro do parlamente criticou pessoalmente o líder curdo iraquiano, Massoud Barzani e a sua intenção declarada de anexar Kirkuk.

Barzani é próximo dos serviços de informações israelitas. O incremento da atividade desses serviços na região do Curdistão e a iniciativa de Netanyahu no sentido de se imiscuir nas divergências inter-iraquianas explicam a emergente possibilidade de Teerã considerar reatar o apoio ao Hamas.

Khaled Meshaal
(Hamas)
Os laços entre Teerã e o Hamas restringiram-se nos últimos anos, depois da catastrófica decisão de Khaled Meshaal de abandonar Damasco e de se instalar em Doha, alinhado com os países da região que pressionavam uma mudança de regime na Síria. Sem dúvida que Mashaal será hoje um homem mais sábio (e mais triste), como é visível na carta que dirigiu ao Presidente iraniano, Hassan Rouhani, pedindo ajuda. Para além disso, Teerã realizou uma importante manobra na frente diplomática. O vice-ministro dos Estrangeiros, Abdollahian deslocou-se no fim-de-semana a Moscou para consultas com o seu homólogo russo relativas ao desenvolvimento da situação no Iraque/Síria, em particular no que diz respeito à necessidade de frustrar a estratégia dos EUA.

É visível nestas conversas em Moscou um elevado grau de coordenação russo-iraniano.

Naturalmente, o Irã saúda a iniciativa russa de envio de aviões a jato e conselheiros militares para Bagdá. O objetivo de ambos países será de recusar a Washington a prerrogativa de ditar a governação do Iraque.

Nouri al-Maliki
É interessante registrar que Moscou atendeu a solicitação de ajuda por parte do primeiro-ministro em funções, Nouri al-Maliki, não obstante as desesperadas tentativas de Washington para o apear e o substituir por uma figura mais manejável à frente do governo de Bagdá. Os meios de comunicação ocidentais quiseram apresentar Maliki como se estivesse definitivamente queimado, mas Moscou e Teerã poderão não ter a mesma opinião.

Teerã concluiu que a saga ISIL no Iraque é um empreendimento EUA-Saudita e que o Qatar foi excluído dele. (As relações Sauditas-Qatar estão em estado de congelamento). O conclave que se reuniu com Kerry em Paris em 26 de Junho/2014 para discutir o roteiro para o Iraque e a Síria incluía a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, mas a ausência do Qatar saltava à vista.

Nesses termos, no domingo (29/6/2014)Rouhani pegou no telefone e debateu com o Emir do Qatar os desafios do Iraque e do ISIL. Rouhani propôs que Irã e Qatar se juntassem para combater o terrorismo no Iraque.

Wael al-Halqi
Na segunda-feira (30/6/2014) igualmente, numa chamada telefônica do Primeiro Vice-Presidente do Irã para o primeiro-ministro sírio Wael al-Halqi, Teerã reiterou o seu apoio ao presidente sírio, Bashar al-Assad.

O significado fundamental destas iniciativas na frente diplomática é que o Irã espera infligir uma esmagadora derrota ao ISIL. Está claramente em curso a mobilização para esse objetivo. 

O Irã não permitirá que a vitória conseguida na Síria seja posta em causa pelas forças derrotadas através da ofensiva do ISIL no Iraque; nem irá contemporizar com uma reversão do ascendente xiita no Iraque pela porta traseira da “balcanização” do país.

Em resumo, Teerã não está disponível para comprometer os seus interesses vitais e as suas preocupações centrais na Síria e no Iraque apenas porque as conversações entre o P5+1 e o Irã acerca da questão nuclear se aproximam da reta final.
__________________________________________________


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.