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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Os arquitetos do caos na Ásia Ocidental

3/2/2015, [*] Vijay Prashad, The Hindu, Nova Delhi
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Obama e o rei Salman da Arábia Saudita
Pandemônio, eis o que se vê praticamente sem interrupção, da Líbia ao Iraque. O Presidente Barack Obama dos EUA voou de Nova Delhi diretamente para os braços do rei Salman, novo governante da Arábia Saudita. A dupla tinha muito a discutir. Nem um nem outro pode estar muito satisfeito com a desgraça que seus países fizeram e continuam a distribuir por toda a Ásia Ocidental. Tragicamente, o único caminho que pensam em reforçar é exatamente o mesmo que só aprofundará os problemas e os tormentos nos próximos anos. Claramente o exemplo deles é o Egito, onde a dupla EUA-Arábia Saudita apoiou o golpe do general Abdel Fattah el-Sisi, e agora apoia o governo dele, apesar da repressão contra protestos.

O assassinato de uma jovem socialista, Shaimaa el-Sabbagh, quando depositava uma coroa de flores na Praça Tahrir, no 4º aniversário da revolução contra Mubarak, é sinal da podridão. Não impediu que um destacamento do “Estado Islâmico” (EI) atacasse na Península do Sinai, fazendo 30 mortos, entre militares e civis. Na Líbia, os sauditas e os EUA apoiam o ditador (Khalifa Haftar), como apoiaram no Iêmen (Abdullah Saleh). No Iraque e Síria, EUA e Arábia Saudita não gostaram do que viram e tentaram desfazer tudo. Os sauditas são movidos por sectarismo – sempre contra os xiitas (e a influência do Irã). Por isso, são obcecadamente contra os governos em Damasco e Bagdá, como também se opõem furiosamente aos rebeldes no Iêmen. Obama e o rei Salman não conseguiram resolver os problemas na região: acabaram-se todas as ideias e palpites que tinham a oferecer. Agora, outros terão de indicar o caminho adiante.


Líbia. O Corinthia Hotel é o mais luxuoso de Trípoli. Foi residência de primeiros-ministros sucessivos que temiam pela própria vida naquela capital perigosíssima (o Primeiro-Ministro Ali Zeidan foi raptado desse hotel, em 2013). Também abriga a missão da ONU, que conduziu um Diálogo sobre a Líbia, em Genebra. Dia 27/1/2015, pistoleiros entraram no hotel e mataram guardas e hóspedes estrangeiros (inclusive um mercenário que prestava serviços de segurança aos EUA). O ramo do Estado Islâmico em Trípoli reivindicou os créditos pela operação.


O caos impera na Líbia desde 2011. Dois governos dizem que governam o país – ambos apoiados em milícias e esquadrões-da-morte, ambos com exércitos estrangeiros a lhes dar cobertura. A missão da ONU – da qual o ocidente desertou depois da guerra em 2011 — não conseguiu criar nenhum processo de paz. O governo apoiado internacionalmente do Primeiro-Ministro Abdullah al-Thani enviou delegação a Genebra para unir-se ao processo de paz “conduzido” pela ONU. Os músculos desse processo são os do general renegado Khalifa Haftar, que faz guerra privada, sua, contra as milícias islamistas em Benghazi sob o nome de “Operation Karama” (Dignidade). Mas o governo de al-Thani está na cidade oriental de Tobruk, exilado da capital (Trípoli) e das cidades principais (Benghazi e Misrata). Vive à sombra do Egito e da Arábia Saudita.

O governo de al-Thani é uma concha. É o herdeiro dos que herdaram a Líbia das mãos do ocidente e dos estados do Golfo. As armas em campo não favorecem o grupo governante. Em Benghazi, a maré reinante ainda é comandada por um grupo islamista radical, Ansar al-Sharia, formado depois da queda do coronel Gaddafi. No oeste da Líbia, quem manda é o movimento conhecido como Fajr Líbia (Alvorada Líbia). Inclui o poderoso Escudo Líbio de Misrata e remanescentes do Grupo Islâmico de Combate Líbio. Seu Primeiro-Ministro, Omar al-Hassi, viveu no Hotel Corinthia, de onde teve de ser retirado em segredo por guardas da segurança. O grupo Alvorada Líbia recusou-se a participar das conversações de paz de Genebra. O ator mais poderoso afastou-se do processo anêmico apoiado pelo ocidente. Mostra bem o quanto o ocidente é irrelevante na Líbia contemporânea (a embaixada dos EUA para a Líbia está instalada em Malta). Quem manda na Líbia são Qatar e Turquia, apoiadores estrangeiros do grupo Alvorada Líbia.

É só simples questão de tempo, até que o Estado Islâmico estabeleça bases na Líbia. A cidade de Derna há muito tempo é centro de recrutamento de islamistas radicais. Piada que circula em Derna informa que é a cidade, em todo o mundo, que mandou mais combatentes da liberdade para Iraque e Síria.

Majlis Shura Shabab al-Islam
Em junho passado (2014), o grupo Majlis Shura Shabab al-Islam, um desdobramento do Ansar al-Sharia, aderiu ao Estado Islâmico. Declarou que passava a caçar as marda al-nafous (almas doentes) que ameaçava “esse nosso oprimido Estado Islâmico”. Não é difícil estabelecer laços operacionais entre Derna e Síria-Iraque; os milicianos continuam infatigavelmente a ir e vir o quanto desejem, através da Turquia. Ouvem-se ecos do Estado Islâmico entre Derna e Benghazi, onde os soldados de Ansar al-Sharia beneficiam-se da audácia das declarações de Abu Bakr al-Baghdadi. Do fundo da derrota, arrancam a sensação de vitória.

Ninguém quer paz

Iêmen. Velhas fissuras tribais no Iêmen que isolaram a comunidade dos xiitas zaidistas liderados pela família al-Houthi impuseram-se. Em nome da Guerra ao Terror, em 2004 o velho autocrata do Iêmen, Abdullah Saleh, traiu e matou o líder zaidista Hussein Badreddin al-Houthi. Um acordo político razoável teria posto fim a esse conflito, mas Saleh não quis acordo algum.

Inteiramente apoiado pelo ocidente, Saleh serviu-se de ataques com drones e muito suborno para destruir os inimigos. Atraída pela isca, a Arábia Saudita — que sempre, antes, desprezara Saleh — acabou por ceder aos próprios preconceitos anti-xiitas e aceitou apoiar o ditador em sua guerra contra os zaidistas. Saleh tratou os zaidistas – não a al-Qaeda – como principal inimigo. O grupo terrorista havia desaparecido do Iêmen, mas reapareceu em 2004, resultado de recrutamento nas prisões, experiência na insurgência no Iraque e ódio contra a guerra norte-americana de drones. Mas Saleh não usou todo o seu potencial de fogo contra a al-Qaeda. Seus inimigos estavam noutro lugar.

A “Operation Scorched Earth” [Operação Terra Arrasada] em 2009 levou a uma invasão saudita do Iêmen, para pôr fim à resistência zaidista. Dezenas de milhares de refugiados fugiram da região; não se conhece o número de mortos. Ninguém convocou qualquer processo de paz. Foi luta até o último homem.

Protestos de houthis na capital Sanaa
A Primavera Árabe no Iêmen permitiu que os rebeldes houthis se unissem aos protestos contra o governo de Saleh. A Al-Qaeda, enquanto isso, tomava o controle das cidades de Jaar e al-Husn. Um “diálogo nacional” convocado então não levou a qualquer solução. Os houthis queriam um acordo político. Os governos da Arábia Saudita e do Iêmen conseguiram convencer o ocidente de que os houthis seriam aliados do Irã. A partir disso, todas as atenções concentraram-se em manter os houthis longe do poder. Aí, precisamente é que o “plano” falhou mais fragorosamente; os houthis agora já assumiram o controle de Sana’a (capital do Iêmen). Ainda não se sabe se os houthis serão magnânimos na vitória; mas tampouco se pode adivinhar se os sauditas e o ocidente aceitarão qualquer gesto, mesmo que magnânimo, dos houthis.

Parte de uma guerra maior

Síria. No dia em que o rei saudita Abdullah morreu, o braço armado que representa os sauditas na guerra contra a Síria – o Jaish al-Islam de Zahran Alloush – disparou foguetes contra Damasco. Alloush anunciou por Twitter que faria “chover centenas de foguetes sobre a capital durante o dia todo, em resposta à barbárie que o regime cometera com ataques aéreos no Ghouta”. A guerra entre Alloush e o governo de Bashar al-Assad tornou-se guerra menor, mas nem por isso é escaramuça menos mortal na guerra maior no Iraque e Síria. Os inimigos do Presidente Bashar al-Assad não são absolutamente gentis, e assaltam áreas civis sem descanso e com requintes de crueldade.

Estado Islâmico é mantido por Israel, EUA, Qatar... 
Os ataques israelenses dentro da Síria contra o Hezbollah, da resistência libanesa, só complicarão cada vez mais a situação. Confrontos nas Fazendas Shebaa, uma parte do Líbano ocupada por Israel, poderia ter-se convertido em mais uma guerra de Israel contra o Líbano. Enquanto foguetes voavam nas duas direções, o Estado Islâmico distribuiu documento no qual dizia que seria “prematuro” declarar um emirado no Líbano. Beirute respirou aliviada. São raras as boas notícias na região.

Mais para o norte, o Estado Islâmico sofreu duas derrotas militares. Em Kobane – a Stalingrado dos curdos – as Unidades de Proteção do Povo Curdo [ing. Kurdish People’s Protection Units (YPG) finalmente conseguiram expulsar os milicianos do Estado Islâmico. Ataques pela Força Aérea da coalizão dos EUA ajudaram a cortar as linhas de suprimento do Estado Islâmico, embora a sempre porosa fronteira com a Turquia sempre lhes garanta algum socorro.

Também no Iraque, a Brigada Badr, uma milícias de xiitas, atacou o Estado Islâmico na província de Diyala, que foi libertada. Nem o exército iraquiano nem o exército sírio tiveram qualquer função nessas duas derrotas infligidas ao Estado Islâmicos. Mas o Estado Islâmico é difícil de eliminar. O grupo desapareceu dessas áreas, e encontrou outras áreas onde se abrigar. Um ataque pelo Estado Islâmico em Kirkuk tirou a vida de um respeitado líder curdo-iraquiano, brigadeiro-general Sherko Shwany; o Estado Islâmico mostrou que continua no jogo. Empurrado para fora do Iraque e do norte da Síria, talvez assuma afinal a via que o levará ao norte da Jordânia.

O Estado Islâmico manteve preso um piloto jordaniano, tenente Mu’ath al-Kaseasbeh, durante um mês, mas só ameaçou executá-lo depois da queda de Kobane e Diyala. Disse que pouparia a vida do piloto, se a Jordânia libertasse uma quase-suicida-bomba iraquiana Sajida al-Rishawi (a bomba dela não explodiu, num ataque em 2005 em Amã, Jordânia); mas fracassaram as negociações sobre a libertação da moça, e o Estado Islâmico executou dois reféns japoneses. Ao que se sabe, o piloto jordaniano continua prisioneiro do Estado Islâmico. As tensões estão subindo na Jordânia, sobre o papel do reino na coalizão contra o Estado Islâmico. É precisamente o tipo de fissura que o Estado Islâmico quer ver crescendo na Jordânia. Qualquer passo para o sul, fará soar os sinos de alarme na Arábia Saudita.

Mu’ath al-Kaseasbeh; foto maior, de branco
Entrementes, um alto oficial da inteligência jordaniana me informa que já ruiu completamente a tentativa dos EUA para criarem uma força moderada contra o Estado Islâmico. A [operação] Müs’terek Operasyon Merkezi, que a CIA construiu com aliados na Turquia já fracassou. Um depois do outro, todos os grupos rebeldes que a CIA arregimentara trocaram a CIA por outras formações – mais recentemente, foi o Exército Mujahedin que se uniu à Frente Islâmica, grupo que reúne dois outros afiliados da al-Qaeda, Ahrar al-Sham e a Frente al-Nusra.

Verdade é que nem os EUA nem a Arábia Saudita têm qualquer agenda que faça algum sentido na Síria. Permanecem obcecados com derrubar o governo do presidente Assad, mas já estão em pânico ante o crescimento do Estado Islâmico. Quanto maior a audácia do Estado Islâmico em seu território natal, mais potentes os ecos enviados para a Líbia e para o interior da Península Árabe.



[*] Vijay Prashad é professor de estudos internacionais no Trinity College. Dentre outros livros, é autor de The Darker Nations: A People’s History of the Third World e Arab Spring, Libyan Winter. 
Publica artigos regularmente em Asia Times Online, Frontline Magazine e Counterpunch. É usualmente entrevistado pela TRNN - The Real News Network  sobre Geopolítica e Política internacional; é também Editor-Chefe do LeftWord Books, Nova Delhi. É colunista de al-Araby al-Jadeed e Information Clearing House. 

sábado, 1 de novembro de 2014

De que lado está a Turquia?

24/10/2014, [*] Patrick Cockburn, LRB, vol. 36, n. 21, ed. 6/11/2014, p. 8
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Kobani - Rede Solidariedade
Durante o verão, o ISIL – Estado Islâmico de Iraque e Levante [Síria] – derrotou o exército iraquiano, o exército sírio, os rebeldes sírios e a guerrilha peshmerga dos curdos iraquianos; estabeleceu um estado que vai de Bagdá a Aleppo e da fronteira do norte da Síria aos desertos do Iraque, ao sul. Grupos étnicos e religiosos dos quais o mundo praticamente jamais ouvira falar – incluídos os iazidis de Sinjar e os cristãos caldeanos de Mosul – tornaram-se vítimas da crueldade do ISIL e de suas perversões sectárias. Em setembro, o ISIL moveu sua atenção na direção dos dois e meio milhões de sírios curdos que ganharam autonomia de factoem três cantões bem ao sul da fronteira turca. Um desses cantões, centrado na cidade de Kobani, virou alvo de assalto determinado.

Dia 6/10/2014, milicianos do ISIL haviam aberto caminho até o centro da cidade. Recep Tayyip Erdoğan previu que a cidade cairia em questão de horas; John Kerry discursou sobre a “tragédia” de Kobani, mas disse – o que jamais fez sentido algum – que a captura da cidade não seria grande significado. Uma conhecida combatente curda, Arin Mirkan, se autoimolou, lançando-se contra forças do ISIL que avançavam: o gesto foi interpretado como sinal de desespero e de derrota iminente. A seguir vídeo apresentando as mulheres guerreiras curdas em Kobani;


Arin Mirkan
Com o ataque a Kobani, a liderança do ISIL quis provar que ainda pode derrotar seus inimigos, apesar dos ataques aéreos dos EUA contra eles, que começaram dia 8/8/2014 no Iraque e dia 23/10/2014 foram ampliados para invadir também a Síria. No ataque contra Kobani, os milicianos do ISIL cantavam:

O Estado Islâmico permanece, o Estado Islâmico cresce.

No passado, o  ISIL optou – foi uma decisão tática – por abandonar batalhas que achasse que não poderia vencer. Mas a batalha de cinco semanas por Kobani já durara muito e fora muito noticiada para o mundo, para que os milicianos pudessem recuar sem perder prestígio. O apelo que tem o Estado Islâmico entre sunitas sírios, iraquianos e por todo o mundo deriva da crença de que suas vitórias são presentes divinos e inevitáveis; qualquer fracasso abala diretamente a crença de que Deus estaria lutando ao lado do ISIL.


Mas aquela inevitável vitória do ISIL em Kobani não aconteceu. Dia 19/10/2014, revertendo a política na qual os EUA vinham investindo, os aviões norte-americanos passaram a entregar armas, munição e remédio aos que defendiam a cidade. Sob pressão dos EUA, a Turquia anunciou no mesmo dia que garantiria salvo conduto aos guerrilheiros curdos iraquianos da guerrilha peshmerga para saírem do norte do Iraque e se deslocarem para Kobani; hoje, esses guerrilheiros curdos já recapturaram parte da cidade.

Washington percebeu que, dada a retórica de Obama sobre um seu plano para “degradar e destruir” o ISIL, e com eleições para o Congresso que acontecerão dentro de apenas um mês, os EUA não podiam admitir que os terroristas colhessem mais uma vitória. E nesse caso especial, a vitória muito provavelmente seria comemorada com o massacre, diante de câmeras de televisão, montadas do lado turco da fronteira, de todos os curdos sobreviventes.

Quando o sítio começou, o apoio aéreo que os EUA deram aos que defendiam Kobani foi pouco mais que mínimo; com medo de ofender a Turquia, a força aérea dos EUA evitara qualquer associação com combatentes curdos em solo. Em meados de outubro, a política mudou, e os curdos passaram a fornecer aos norte-americanos informações detalhadas sobre alvos em terra, o que possibilitou que os ataques aéreos norte-americanos destruíssem tanques e artilharia do ISIL. Antes, os comandantes do ISIL haviam conseguido esconder com eficácia seu armamento e dispersar as próprias forças terrestres. Até ali, das 6.600 missões de ataques aéreos, só 632 haviam atingido algum alvo em terra. Mas, na campanha para tomar Kobani, os comandantes do ISIL tiveram de concentrar as forças em posições identificáveis, e tornaram-nas vulneráveis. Num período de 48 horas, houve cerca de 40 ataques aéreos norte-americanos, alguns a menos de 50 metros da linha de frente curda.


Não foi só o apoio aéreo que fez a diferença. Em Kobani, pela primeira vez o ISIL enfrentou inimigo declarado – as Unidades de Defesa Popular (YPG) e seu braço político, o Partido da União Democrática (PYD) – os quais, sob aspectos importantes, assemelham-se. O PYD é o ramo sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que desde 1984 luta por autodeterminação para os 15 milhões de curdos turcos. Como o ISIL, o PKK combina comprometimento ideológico fanatizado com expertise e talento militares, acumulados ao longo de muitos anos de guerra de guerrilhas. Originalmente de ideologia marxista-leninista, o PKK tem comando vertical e busca monopolizar o poder dentro da comunidade curda, tanto na Turquia como na Síria. O líder do partido, que está preso, Abdullah Ocalan, é objeto de poderoso culto à personalidade, e distribui instruções de comando da prisão onde é mantido, numa ilha turca no Mar de Marmara. A liderança militar do PKK opera de uma fortaleza nas Montanhas Qandil, no norte do Iraque, uma das maiores fortalezas naturais que há no planeta (“Estamos aqui há mais de mil anos”, The Independent). A maioria dos combatentes, estimados em 7 mil, retiraram-se da Turquia, nos termos de um acordo de cessar-fogo em 2013, e hoje se movimentam de acampamento para acampamento nos vales e gargantas profundas das Qandil. São fortemente disciplinados e apaixonadamente dedicados à causa do nacionalismo curdo. Graças a isso conseguiram manter-se vivos ao longo de 30 anos de guerra contra o gigantesco exército turco, sempre capazes de se recompor apesar das perdas devastadoras que têm sofrido. Como o ISIL, o PKK, também enfatiza o martírio: combatentes mortos são enterrados em cemitérios super protegidos e muito bem cuidados, sempre no alto das montanhas, as sepulturas marcadas por pedras tumulares elaboradas.

Lá há imagens de Ocalan por todas as paredes: há seis, sete anos, visitei um abrigo do PKK nas Qandil e vi, na encosta da montanha, uma enorme imagem de Ocalan construída com pedras coloridas. É das raras bases de guerrilheiros, em todo o planeta, que pode ser vista do espaço.

Abdullah Ocalan

Síria e Iraque estão cheios de exércitos e milícias que não combatem contra ninguém que possa responder ao fogo, mas o PKK e seus afiliados, o PYD e as YPG, são diferentes. Frequentemente criticados por outros curdos como grupo stalinista e antidemocrático, eles pelo menos construíram e mantêm capacidades para defender as próprias comunidades. A sequência de vitórias do Estado Islâmico contra forças superiores, no início desse ano, só aconteceu porque combatiam contra soldados, como os do exército iraquiano, absolutamente desmoralizados, com a moral em frangalhos, mal armados, sem munição e, até, sem comida, resultado da ação de comandantes corruptos e incompetentes; aqueles soldados, ou muitos deles, estão sempre prontos a desertar.

Quando alguns milhares de milicianos do ISIL invadiram Mosul em junho, estariam, em teoria, desafiando 60 mil soldados e policiais iraquianos. O verdadeiro número provavelmente mal alcança 1/3 disso: os demais não passavam de nomes em listas, com os oficiais embolsando os soldos; ou existiam mesmo, mas só porque pagam metade de seus soldos aos comandantes, em troca de jamais terem de aparecer nem por perto de acampamentos militares. A situação pouco melhorou nos quatro meses seguintes, depois da queda de Mosul dia 9/6/201.

Segundo um político iraquiano, recente inspeção de uma divisão blindada do exército iraquiano mostrou “que onde devia haver 120 tanques e 10 mil soldados, só havia 68 tanques e apenas 2 mil soldados”. A seguir vídeo dos guerreiros curdos do YPG:


A guerrilha peshmerga – literalmente “aqueles que desafiam a morte” – dos curdos iraquianos, tampouco é muito efetiva. São vistos frequentemente como soldados melhores que os do exército iraquiano, mas essa é reputação que conquistaram há 30 anos, quando combatiam contra Saddam; depois daquilo pouco combateram, exceto nas guerras civis curdas. Mesmo antes de serem expulsos pelo ISIL em Sinjar em agosto/2014, observador atento da guerrilha peshmerga referiu-se a eles, depreciativamente, como “pêche melba”, que “só prestam para emboscadas nas montanhas”.

Os sucessos do Estado Islâmico foram muito facilitados não só pela incompetência dos inimigos, mas também pelas muitas divisões que se veem entre eles. John Kerry vangloria-se de ter montado uma coalizão de 60 países, todos comprometidos com lutar contra o ISIL, mas desde o início já estava muito visível que muitos importantes membros da tal “coalizão” não estavam lá muito preocupados com a ameaça-ISIL.

Quando começou o bombardeio contra a Síria, em setembro/2014, Obama anunciou, com orgulho, que Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrain e Turquia uniam-se, todos, como parceiros militares dos EUA contra o ISIL. Mas, como os norte-americanos sabiam, todos esses são estados sunitas, que tiveram papel crucial no processo de arregimentar jihadistas para lutar contra governos eleitos na Síria e no Iraque. Foi problema político para os EUA, como Joe Biden (vice-presidente dos EUA) confessou, para grande embaraço de todo o governo, numa conversa em Harvard dia 2/10/2014.

Biden disse que:

(...) Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos haviam promovido uma “guerra por procuração entre sunitas e xiitas” na Síria e “derramaram lá milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armas”, para qualquer um que se interessasse em lutar contra Assad. Problema aí é que armas e dinheiro estão chegando diretamente às mãos da Frente al-Nusra e da al-Qaeda, e a situação está atraindo para lá jihadistas extremistas vindos de todos os cantos do mundo.

Admitiu que:

(...) os rebeldes sírios moderados, que se supunha que fossem elemento central e efetivo para a política dos EUA na Síria, não passam de força militar mínima, de fato, desprezível.

Joe Biden em Harvard en 2/10/2014
Adiante, Biden desculpou-se pelo que havia dito, mas o que disse é verdade clara e demonstrável e manifesta aquilo em que Washington realmente acredita. Depois de se mostrarem ofendidos pela franqueza de Biden, os aliados sunitas dos EUA rapidamente confirmaram os parâmetros da cooperação. O príncipe al-Waleed bin Talal al-Saud, magnata e membro da família real saudita, disse que:

(...) a Arábia Saudita não se envolverá diretamente na luta contra o ISIL no Iraque ou na Síria, porque o grupo não afeta explicitamente nosso país.

Na Turquia, Erdoğan declarou que:

(...) no que lhe diga respeito, o PKK é tão ruim quanto o ISIL.

Ficaram excluídas dessa bizarra coalizão quase todas as forças que realmente dão combate aoISIL, incluindo o Irã, o exército sírio, os curdos sírios e as milícias xiitas no Iraque. A grande confusão gerada pelas “políticas” de Obama-Kerry-Biden muito beneficiou o Estado Islâmico, como se viu num incidente no norte do Iraque, no início de agosto/2014, quando Obama enviou forças especiais para o Monte Sinjar para monitorar o perigo que ameaçaria milhares de iazidis emboscados naquele local. Etnicamente curdos, mas com religião não islamista própria, os iazidis haviam fugido de suas cidades e vilas para escapar de serem massacrados ou escravizados pelo ISIL. A seguir reportagem (60 minutos) sobre as mulheres guerreiras do PKK e YPG:


Os soldados dos EUA chegaram por helicóptero e permaneceram sempre escoltados e eficientemente protegidos por milicianos curdos uniformizados. Mas de repente, voltaram a embarcar rapidamente nos helicópteros e partiram em disparada. O motivo para a partida precipitada, como depois se revelou em Washington, foi que o oficial encarregado do destacamento norte-americano havia conversado com sua escolta curda, e descobrira que não eram os peshmerga amigos dos EUA do Governo Regional do Curdistão, mas combatentes doPKK – ainda listados como “terroristas” pelos EUA, inobstante o papel crucialmente importante que tiveram no socorro aos iazidis e em obrigar o ISIL a retroceder.

Só quando Kobani já estava à beira de ser tomada é que Washington afinal aceitou que não lhe restava alternativa, senão cooperar com o PYD: afinal de contas, o PYD era praticamente a única força efetiva que continuava a combater em solo, contra o ISIL.

E há também o problema turco. Os aviões dos EUA que atacam forças do ISIL em Kobani tinham de voar quase 2 mil km a partir da base no Golfo, porque a Turquia não autorizava que usassem a base turca em Incirlik, a apenas poucos quilômetros de Kobani. Ao não impedir que reforços, armas e munições chegassem ao ISIL em Kobani, Ankara mostrava que preferia ter o ISIL no comando da cidade: qualquer coisa lhe pareceria melhor que oPYD.

A posição da Turquia já estava clara desde julho de 2012, quando o exército sírio, pressionado por rebeldes por todos os lados, abandonou as principais áreas curdas. Os curdos sírios perceberam que, de repente, haviam obtido uma autonomia de facto e que aumentava a autoridade do PKK. Localizados quase que ao longo da fronteira com a Turquia, área estrategicamente importante para o ISIL, os curdos inesperadamente foram convertidos e atores na luta pelo poder na Síria. Não foi desenvolvimento que pudesse agradar aos turcos. As principais organizações políticas e militares dos curdos sírios eram ramos do PKK, seguindo ordens de Ocalan e da liderança militar em Qandil. Os insurgentes do PKK, que haviam por tanto tempo combatido por alguma forma de autonomia na Turquia, agora governavam um quase-estado na Síria, centrado nas cidades de Qamishli, Kobani e Afrin. Grande parte da região síria de fronteira permaneceria provavelmente em mãos dos curdos, dado que o governo sírio e seus oponentes eram ambos fracos demais para mudar esse quadro.

Recep Tayyip Erdogan
Ancara pode não jogar como grande-mestre de xadrez na colaboração com o ISIL para quebrar o poder dos curdos, como entendem os teóricos da conspiração, mas viu a vantagem que poderia obter se deixasse o ISIL enfraquecer os curdos sírios. Essa política jamais foi exatamente muito prudente: se o ISIL conseguisse tomar Kobani, o que humilharia também os EUA, a Turquia, pressuposta aliada dos EUA seria vista como parcialmente responsável pelo desastre, depois de ter bloqueado a cidade. De qualquer modo, a mudança de curso dos turcos aconteceu em velocidade escandalosa.

Poucas horas depois de Erdoğan dizer que a Turquia não ajudaria os terroristas do PYD, já estava autorizando os curdos iraquianos a reforçar as trincheiras do PYD em Kobani.

A virada total da Turquia foi o último de uma série de erros de cálculo cometidos sobre os desenvolvimentos na Síria desde o início dos tumultos de rua, em 2011. O governo de Erdoğan deveria ter-se posicionado a favor do equilíbrio de poder entre Assad e a oposição. Em vez disso, convenceu-se de que Assad − como se fosse Gaddafi da Líbia – seria inevitavelmente derrubado do poder. Não aconteceu. E Ancara passou a apoiar grupos jihadistas pagos pelas monarquias do Golfo, entre os quais a Frente al-Nusra, afiliado sírio da al-Qaeda, e o ISIL. A Turquia teve praticamente o mesmo papel, como força de apoio aos jihadistas na Síria, que coube ao Paquistão, que apoiou os Talibã no Afeganistão.

Os estimados 12 mil jihadistas estrangeiros que hoje combatem na Síria, e que são motivo de graves preocupações na Europa e nos EUA, entraram, praticamente todos, por uma trilha que se tornou conhecida como “a rodovia dos jihadis”, que se serve dos pontos de passagem da fronteira turca, nos quais os guardas se fazem de cegos. A seguir o Hino do YPG do Curdistão sírio com fotos dos combatentes:


Na segunda metade de 2013, por pressão dos EUA sobre a Turquia, essas vias tornaram-se mais difíceis para militantes do ISIL, os quais contudo ainda atravessam a fronteira sem grande dificuldade. Ainda não se conhece muito bem a exata natureza das relações entre os serviços de inteligência turcos e o ISIL e al-Nusra, mas há fortes evidências de que, sim, há grau considerável de cooperação entre eles. Quando rebeldes sírios liderados pela frente al-Nusra capturaram a cidade armênia de Kassab em território controlado pelo exército sírio, no início desse ano, parecia que os turcos os tivessem autorizado a operar a partir do território turco. Também foi muito misterioso o caso dos 49 membros do Corpo Consular da Turquia em Mosul que permaneceram na cidade enquanto era tomada pelo ISIL; foram mantidos como reféns em Raqqa, capital síria do Estado Islâmico, depois inexplicavelmente libertados, depois de quatro meses, em troca de membros do ISIL mantidos presos na Turquia.

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Se Erdoğan tivesse optado por ajudar os curdos encurralados em Kobani, em vez de traí-los, poderia ter fortalecido o processo de paz entre seu próprio governo e os curdos turcos. Em vez disso, suas ações só geraram protestos e tumultos de rua, entre os curdos, por toda a Turquia; cidades e vilas do interior do país nas quais jamais houvera manifestações de curdos ao longo de toda a história moderna foram queimadas e morreram 44 pessoas. Pela primeira vez em dois anos a aviação militar turca atacou posições do PKK no sudeste do país.

Parece que Erdoğan jogou ao lixo uma das principais realizações de seus anos de governo: ter dado início a uma solução negociada com a guerrilha armada curda. Hostilidade étnica e violência entre turcos e curdos aumentaram imediatamente. A polícia reprimiu manifestações populares anti-ISIL, mas não interferiu em manifestações pró-ISIL. 72 refugiados que fugiram de Kobani para a Turquia, foram mandados de volta para a cidade. Cinco membros do PYD que foram capturados pelo exército turco, foram descritos como “terroristas separatistas”.

Houve surto de manifestações histéricas de apoiadores de Erdoğan: o prefeito de Ancara, Melih Gökçek, tuitou que “há gente no leste que se faz passar por curdo, mas são, na verdade, armênios ateus”. A imprensa-empresa turca, cada vez mais subserviente ou intimidada pelo governo reduziu muito a gravidade das manifestações de rua. A CNN turca, famosa por exibir um documentário sobre a vida dos pinguins, no auge das manifestações no Gezi Park, ano passado, optou por exibir, dessa vez, durante os protestos curdos, um documentário sobre a vida das abelhas. A seguir vídeo-reportagem da BBC mostrando que: “Islamic State are afraid to see women with guns”


Que efeito negativo haverá contra o ISIL, se não conseguir tomar Kobani? A reputação de sempre derrotar os inimigos sofrerá um pouco, mas já demonstraram que podem sobreviver a ataques aéreos dos EUA, mesmo no caso de estarem com suas forças concentradas num só ponto. O califato declarado por Abu Bakr al-Baghdadi dia 29 de junho de 2014 continua a expandir-se: as maiores vitórias na Província Anbar asseguraram ao califato mais um quarto do Iraque. Uma série de ataques bem planejados em setembro garantiram ao ISIL o controle de terras em torno de Fallujah, cerca de 60 km a oeste de Bagdá. Um acampamento do exército iraquiano em Saqlawiyah foi cercado durante uma semana e invadido: 300 soldados do exército iraquiano foram mortos. Como no passado, o exército mostrou-se incapaz para qualquer contraofensiva efetiva, mesmo com todo o apoio dos ataques aéreos norte-americanos. Dia 2 de outubro de 2014, o ISIL lançou uma série de ataque bem-sucedidos para capturar Hit, cidade ao norte de Ramadi, deixando o governo com apenas uma única base do exército na área. Há hoje forças do ISIL muito próximas dos enclaves sunitas no oeste de Bagdá: até agora, permanecem paradas, embora todas as demais áreas sunitas do país tenham estado em torvelinho. Segundo prisioneiros do ISIL, as células do ISIL na cidade estão à espera de ordem, para entrar em ação coordenada com ataque que virá de fora da capital. É possível que o ISIL não consiga tomar toda a cidade de Bagdá, onde vivem sete milhões de pessoas (a maioria, xiitas), mas poderia tomar as áreas sunitas e gerar pânico na capital.

Nos bairros ricos, onde convivem várias religiões, como em al-Mansour, no setor oeste de Bagdá, metade dos habitantes já partiram rumo à Jordânia ou Golfo, porque não têm dúvidas de que o ISIL atacará a cidade.

Acho que o ISIL atacará Bagdá, no mínimo para ocupar os enclaves sunitas,disse um morador. Se conseguirem manter pelo menos parte da capital do Iraque, aumentará a credibilidade do que dizem, que criaram um novo estado.

Bairro de al-Mansour em Bagdá

Enquanto isso, o governo e as empresas locais de imprensa dedicam-se empenhadamente em reduzir a gravidade da situação e da possibilidade real de o ISIL invadir a capital, tentando conter a corrida rumo a áreas sunitas mais seguras no sul.

A substituição do governo corrupto e disfuncional de Nouri al-Maliki por Haider al-Abadi não fez tanta diferença quanto seus apoiadores estrangeiros gostariam de ver. Porque o desempenho do exército absolutamente não melhorou, as principais forças que estão enfrentando o ISIL são milícias xiitas. Fortemente sectárias e frequentemente criminalizadas, são elas que lutam furiosamente em torno de Bagdá para forçar o ISIL a retroceder e para expulsar a população sunita das áreas mistas. Sunitas são frequentemente aprisionados nos pontos de passagem, trocados por resgates de dezenas de milhares de dólares, mas mais frequentemente assassinados depois que o resgate é pago. A ONG Anistia Internacional diz que os milicianos, inclusive a Brigada Badr e o grupo Asaib Ahl al Haq, operam sob total imunidade; a mesma ONG acusou o governo dominado pelos xiitas de estar “acobertando crimes de guerra”.

Com o governo do Iraque e os EUA pagando grandes somas de dinheiro a empresários, comerciantes, líderes tribais [e também paga ONGs como a Anistia Internacional, Greenpeace, HRW, dentre MUITAS outras (NTs)] e a qualquer um que diga que combaterá contra o ISIL, os senhores-da-guerra locais estão novamente em alta: desde o mês de junho/2014, foram criadas de 20 a 30 novas milícias.

Tudo isso significa que os sunitas iraquianos não têm escolha, a não ser manter-se ao lado doISIL. A alternativa seria a volta dos ferozes milicianos xiitas, que desconfiam de que todos os sunitas sempre apoiam o Estado Islâmico. Precariamente recuperado da mais recente guerra, o Iraque já está sendo devastado por nova guerra.

Aconteça o que acontecer em Kobani, o ISIL não implodirá. Qualquer intervenção estrangeira só fará aumentar o nível de violência, e oposição entre sunitas e xiitas ganhará novo impulso, sem fim à vista.


[*] Patrick Cockburn (nasceu 05 de março de 1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent.
Está entre os comentaristas mais experientes no Iraque; escreveu quatro livros sobre a história recente do país. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009.
Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque. Escreve também para  CounterPunch  e London Review of Books.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Robert Fisk: Conhecemos a crueldade deles, mas não sabemos nem quem são o ISIL


21/8/2014, [*] Robert Fisk, The Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

MIlitante do ISIL vigia soldados iraquianos sem uniforme capturados próximo a Tikrit em 14/6/2014
Ao longo de séculos, governos disseram aos seus soldados e povo “Conhece teu Inimigo”. O problema com o “Califato” do ISIL – e não é pequeno problema para o presidente Obama, depois do assassinato do jornalista James Foley – é que nós não sabemos quem é o inimigo. Nos falam muito sobre a crueldade deles, açougueiros, que sequestram mulheres, que enterram gente viva, que são horríveis contra cristãos e iazidis e os degolamentos públicos, e só. Mesmo o líder do ISIL, Abu Bakr al-Baghdadi, nos é mostrado como combinação ensandecida do Mahdi que assassinou Gordon de Khartoum, com o assassinado Osama bin Laden e Oliver Cromwell, que fez aos civis de Drogheda o que o muçulmano e Senhor Protetor al-Baghdadi fez aos próprios inimigos.

A degola ritual de Foley é suficiente para dissuadir até o mais ousado dos jornalistas de tentar qualquer entrevista com al-Baghdadi. Nunca antes houve no Oriente Médio território tão gigantesco absolutamente inacessível para a imprensa-empresa ocidental. Somos tão completamente ignorantes de tudo que tenha a ver com esse Estado Islâmico no Iraque e Levante [ing. ISIL] – terra obscura da qual só se conhecem os vídeo gravados pelos aparelhos celulares deles mesmos – que os obamas, camerons e hammonds só podem rilhar os dentes de medo desse indizível inimigo. Reação fácil – mas que não pode durar muito tempo.

Seja como for, fato é que o ISIL sabe fazer bem feita pelo menos uma coisa: forçar Obama a encarar o seu próprio problema de reféns, a mesma charada imposta a Tony Blair quando Ken Bigley apareceu-lhe em vídeo. E agora, Obama? Vai ignorar todos os avisos, provando que não dá qualquer importância aos cidadãos individuais quando ordena operações militares – o que é absoluta verdade – ou vai virar Jimmy Carter, que se dobrava a qualquer vontade dos inimigos de vocês, vai ajoelhar-se e vai dizer ao Pentágono “Alto lá!”? A seguir resposta de Obama (21/8/2014):


Agora Obama já sabe o nome do próximo repórter norte-americano a ser degolado. Será que pisca? Piscará? Não pode piscar, não é mesmo?

Assim sendo, suspeito que a resposta que virá é o que presidentes e primeiros-ministros sempre fizeram, de melhor, no Oriente Médio: anunciarão que o assassinato de Foley mostra só o quanto o ISIL é horrível e mau – e o quanto é importantíssimo continuar a bombardear e bombardear para destruir aquela instituição amaldiçoada. Em outras palavras, vão converter a reação sádica do ISIL contra os ataques aéreos, em razão pela qual os ataques aéreos aconteceram e têm de continuar. Afinal de contas... estamos bombardeando o ISIL“porque” mataram iazidis e expulsaram cristãos e ameaçaram curdos. E o Iraque. Agora, temos nova razão para bombardear o “Califato” de al-Baghdadi.

Para os jornalistas, ontem foi dia aterrorizante. Há 30 anos, os árabes reconheciam o papel dos jornalistas como observadores equilibrados.

Com os anos passando – e jornalistas assassinados por militares dos EUA, por soldados israelenses e por rebeldes iraquianos (além de milicianos árabes), nossa vulnerabilidade aumentou muitíssimo. Quando nosso amiguinho, o marechal de campo egípcio Abdel Fattah al-Sisi encarcera jornalistas durante meses, os governos ocidentais pouco se preocupam ou afligem. Quando nossos chefes dão tão pouca importância a se vivemos ou morremos, não é surpresa que o ISIL – o ISIL, ou seja quem for – dedique-se a matar jornalistas. É verdade: jornalistas não executam árabes. Mas essa não chega a ser diferença significativa à qual o ISIL dê muita importância.

Fita amarela [1] apareceu atada a uma árvore em frente à casa da família do jornalista James Foley 

Há duas verdades que o “ocidente” terá de encarar, sobre o selvagem e simplório “Califato”:

●— esses executores de hoje começaram as respectivas carreiras – ou os que os precederam –  nos assassinatos-de-televisão pela resistência anti-EUA no Iraque; e
●— por mais repugnantes que sejam as práticas deles, há centenas de milhares de muçulmanos sunitas que vivem nas terras do Califato e que NÃO FUGIRAM [maiúsculas no orig.]; os quais, para salvar a própria pele, ficaram ali. Não que sejam verdades agradáveis de ler. Se o “Califato” é tão revoltante, repugnante, horrendo, em sua brutalidade que aspira à pureza, como se explica que aquela gente – iraquianos e sírios – não tenham fugido, como fugiram seus irmãos cristãos? Será que uns poucos milhares de combatentes armados realmente conseguiriam coagir tanta gente, em território tão vasto, em pleno Oriente Médio?

Voltemos aos meses e anos imediatamente depois da invasão anglo-norte-americana de 2003. Os rebeldes ou insurgentes sentiram-se competentes para demonstrar extraordinária crueldade contra seus prisioneiros. Entregaram-me uma vez em Fallujah um vídeo de um homem sendo degolado por um grupo de encapuçados. Demorei algum tempo para perceber que se tratava, quase com certeza, de um soldado russo, e que os assassinos eram chechenos. Alguém trouxera o vídeo para Fallujah, para que os futuros carrascos da resistência aprendessem. Essa é a violência sem limites que a nossa invasão disparou naquela parte do mundo.


E muitos muçulmanos sunitas permaneceram em suas vilas e cidades e continuaram a viver ali, enquanto seus irmãos – os cidadãos do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) do futuro – prosseguiram em seu trabalho repugnante. Em outras palavras, o “Califato” obviamente não parece ser tão horrendo para eles, quanto nos parece a nós. Há aí algum problema? Ou é só questão, como os norte-americanos parecem supor que seja, de as tribos sunitas – aquelas microssociedades de mil e uma utilidades, das quais nós dependemos quando as coisas dão errado – serem subornadas, ou de metermos lá algum governo mais “inclusivo” depois da partida de al-Maliki, para pôr al-Baghdadi p’rá correr? Essas são as perguntas que cabe ao “ocidente” perguntar.

Nas últimas semanas de vida, Osama bin Laden várias vezes manifestou repulsa pelo caráter sectário dos ataques “islamistas”. Ele até recebeu uma tradução, mandada do Iêmen, de artigo que escrevi no The Independent, no qual falo da al-Qaeda como “a organização mais sectária do mundo”.

O mundo mudou muito. Pelo menos, quando entrevistei bin Laden, eu em momento algum temi que ele me degolasse.


Nota dos tradutores
[1] Leia mais sobre a “fita amarela” (The Yellow Ribbon) na cultura dos EUA, em inglês.
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.