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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Começa o fim da guerra na Ucrânia

22/8/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediff blogs
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Quando escrevi, domingo passado, que Rússia e União Europeia estão trocando olhares, não supunha, sinceramente, que a coisa pudesse evoluir muito rapidamente. Mas a esperada reunião em Minsk, que acontecerá na próxima 3ª-feira, 26/8/2014, dos presidentes da Rússia Vladimir Putin e Petro Poroshenko, com a chefe da política exterior da União Europeia,  Catherine Ashton, significa que já há tração suficiente para começar a construir a paz na Ucrânia.

Antes, os Ministros de Relações Exteriores da Alemanha, França, Rússia e Ucrânia já se haviam reunido em Berlin há uma semana, quando “todos os aspectos da crise na Ucrânia” foram discutidos e aqueles altos diplomatas quase “conseguiram chegar a alguma tipo de visão comum das coisas que se possa pôr no papel” – nas palavras do ministro Sergey Lavrov de Relações Exteriores da Rússia, em reunião com a imprensa.

Claro que o esqueleto de sustentação de tudo isso foram as conversas a dois entre Putin e a chanceler alemã Angela Merkel.

Recapitulando: o Independent britânico publicou matéria exclusiva, dia 31/7/2014, sobre acerto russo-alemão, pelo qual haveria um “plano secreto”, que fora congelado por causa do tsunami de boatos em torno da (ainda misteriosa) derrubada/queda do avião malaio sobre o leste da Ucrânia; toda essa conversa, pois, parece ter base sólida. (De fato, e muito interessante, a matéria do Independent inglês não foi desmentida por nenhuma das partes lá citadas, até agora).

É razoável supor que, agora que a propaganda anti-Rússia relacionada à tragédia do avião malaio já se esvaziou, Moscou e Berlin estejam retornando, pé ante pé, para a lousa da sala de planejamento.

Angela Merkel e a PM Laimdota Straujuma (Riga, Letônia - 18/8/2014)
Merkel fez importante discurso em Riga dia 18/8/2014, no qual, na essência, exigiu um equilibramento dos interesses de Ocidente e Rússia em torno da Ucrânia; e descartou completamente a ideia de presença permanente da OTAN em área próxima às fronteiras russas. Essas são as duas questões centrais das preocupações russas no tabuleiro de xadrez ucraniano – que o ocidente até agora tem feito de tudo para não reconhecer e insiste em fingir que não vê.

No sábado, Merkel estará viajando para Kiev (data que, por estranha coincidência, marca os 75 anos do famoso pacto de não agressão Molotov-Ribbentrop, assinado dia 23/8/1939). Talvez haja algum simbolismo político nessas datas.

O que ainda não se sabe com certeza é se Merkel está pilotando uma iniciativa alemã (na melhor das hipóteses, franco-alemã) para resolver a questão da Ucrânia, ou se teria o apoio tácito do governo Obama. Verdade é que a direita norte-americana parece estar muito incomodada com Merkel.

A Agência Associated Press anota, em tom cáustico, que os esforços de Merkel para resolver a crise ucraniana

(...) chamam a atenção para a crescente ambição alemã de se autoconverter, de potência econômica, em peso-pesado diplomático (...) enquanto tantas nações europeias [leia-se: a Grã-Bretanha] estão focadas em questões domésticas, e os EUA estão envolvidos em crises em outros pontos do mundo.

O assassinato de James Foley
Pode-se dizer que a nova preocupação dos EUA no Oriente Médio (depois do assassinato do repórter fotográfico norte-americano James Foley pelo ISIL) significaria que a Ucrânia – como a estratégia dos EUA de pivotear-se para a Ásia — estaria superada entre as prioridades da política externa do governo Obama. Talvez sim, porque sou incorrigível otimista; talvez não. Seja como for, neoconservadores da direita estão clamando por intervenção de corpo inteiro, pelos EUA, no Iraque e na Síria. (Por exemplo, leiam o artigo de Zalmay Khalilzad intitulado A Five-Step Plan to Destroy the Islamic State [Plano de cinco passos para destruir o Estado Islâmico (ing.)]).

Ou então, assumindo que Obama não caia nessa armadilha dos neoconservadores, ele pode ter começado a sentir que, em breve, ou pelo menos em prazo bem curto, será preciso consertar os laços entre EUA e Rússia, porque ele terá de contar com a cooperação de Moscou para sua neo-guerra ao terror – que sem dúvida implicará grandes perigos para a “segurança da pátria” dos EUA – a ser guerreada contra o ISIL (que o próprio Obama descreveu como “um câncer” a ameaçar todo o Oriente Médio e que não tem lugar no século XXI).

Isso tudo considerado, estamos num momento de definição na dinâmica do poder global. O resultado da reunião de estadistas na Bielorrússia que começa na 3ª-feira (26/8/2014) nos dará uma boa chave para identificar de que lado estão soprando os ventos, modulando a correlação de forças na política global.

Assim sendo, o que pode estar em preparação para a Ucrânia? Parece perfeitamente razoável que a Rússia deseje fim imediato do ataque militar contra os “separatistas” no leste da Ucrânia. E Washington não tem feito outra coisa além de ordenar que Kiev ataque sem descanso. Mas isso pode estar começando a mudar.

Angela Merkel e Vladimir Putin
Se acontecer, Rússia e Alemanha ganharão espaço para respirar e enfiar por aquele território uma trilha de paz, que Putin e Merkel podem estar refinando lá entre os dois. Até aqui, Washington não faz outra coisa além de minar qualquer tentativa nascente de diálogo intraucraniano. Mas esse tipo de “rejeicionismo” pode também já não ser sustentável, se a Alemanha decidir jogar todo seu peso a favor do processo que leve ao diálogo.

Em resumo, se estamos interpretando corretamente os sinais, é possível que já se ouçam os primeiros tambores da retirada do Tio Sam.

O conhecido estrategista russo Boris Kagarlitsky publicou coluna, em seu estilo caracteristicamente de provocação, em que dá várias pistas sobre a trama inacreditavelmente complexa das manobras em curso no leste da Ucrânia.

Seja como for, o Kremlin ainda não precisou jogar todos os seus trunfos.
____________________

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff blogs. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

sábado, 23 de agosto de 2014

IRAQUE: Relatório de Situação, SITREP − 16-19/8/2014, Mindfriedo: Batalha pela Barragem de Mosul

19/8/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Contando, ninguém acredita, mas...“19/8/2014: A ONU decidiu entregar suprimentos para meio milhão de refugiados iraquianos. A ajuda incluirá tendas, alimento e água e medicamentos básicos. A maior parte da ajuda chegará pela Turquia e Jordânia. São as mesmas rotas pelas quais o ISIL chegou à região”.


The Saker
Nosso profundo agradecimento ao Saker que permite que esses Relatórios de Situação (SITREP ou RELSIT) sejam publicados aqui, e por ele sempre combater o bom combate. Que Deus continue a inspirá-lo. Farei o possível para redigir SITREPs ou RELSITs mais frequentes.

ISIS-ISIL - Mapa da atual situação (22/8/2014)

  • 16/8/2014: Autoridades curdas planejam rearmar suas forças com equipamento pesado, mais moderno.

  • 16/8/2014: Mohammad Ali al-Hakim, Ministro de Relações Exteriores do Iraque à ONU pede que todas as nações do mundo declarem o ISILorganização terrorista e trabalhem coletivamente contra ela.

  • 16/8/2014: Aviões norte-americanos estão atirando contra alvos do ISIL em torno da barragem de Mosul, no que será operação conjunta Iraque-Peshmerga [1] curda em assalto por terra para tentar recapturar a barragem tomada pelo ISIL. Acredita-se que o ISIL não bombardeou a barragem nem abriu comportas, o que teria inundado as próprias áreas onde eles estão. A barragem exige manutenção constante e acredita-se que tenha sido gravemente danificada durante o curto tempo em que esteve sob controle do ISIL.

  • 16/8/2014: Walter Steinmeier, ministro de Relações Exteriores da Alemanha chega a Bagdá para coordenar a entrega de ajuda humanitária. Deve visitar também o Curdistão Iraquiano.

  • 16/8/2014: Três homens que se acredita que sejam de milícias xiitas foram mortos e 10 foram feridos num ataque de bomba junto à estrada no sul de Samarra.

  • 16/8/2014: A Força Aérea Iraquiana bombardeou um comboio de 30 veículos de combatentes rebeldes/ISIL próximo da Barragem de Mosul.

  • 16/8/2014: Ataques aéreos iraquianos contra uma reunião de rebeldes ISIL em Qaim, oeste de Anbar; os seguintes altos comandantes do ISIL foram notificados mortos: Abu Mohammed al-Shami, Abu Fatima Moroccan, Sami Mahlawi , Abu Anas al-Samarrai, Omar al-Shishani , Ahmed Awad e Abu Mohammed al-Adnani.

  • 16/8/2014: Em outro ataque em Jurk al-Sakher, norte de Babil morreram 22 rebeldes do ISIL, inclusive sete estrangeiros.

  • 16/8/2014: Malik al-Arak, líder do ISIL foi morto por foguete teleguiado em ataque pelas forças de segurança do Iraque em Latifiya, ao sul de Bagdá. Dois terroristas do ISIL que o acompanhavam também foram mortos.

  • 17/8/2014: As forças Peshmerga continuam a avançar em direção à barragem de Mosul, ajudadas pela força aérea dos EUA. Forças curdas combatem nas áreas de Baqofa e Babera e avançam em direção a Tilkaif , al-Qwesat e Wank.
Curdistão Iraquiano - Região Autônoma

  • 17/8/2014: Os Peshmergas também receberam armamento avançado de países ocidentais para combater o ISIL. Os Peshmerga estão preparando assalto na região de Sinjar e reganharam território do qual haviam fugido.

  • 17/8/2014: O Comando Central dos EUA (CENTCOM) anuncia que realizou nove ataques aéreos perto da barragem de Mosul e perto de Erbil que “destruíram ou danificaram quatro carros blindados de transporte de pessoal, sete veículos blindados, Humvees e um outro tipo de veículo blindado”. Os ataques aéreos foram realizados por jatos pilotados presencialmente e por drones.

  • 17/8/2014: Um grande assalto contra a cidade de Dhuluiya, Salah id Din, por combatentes do ISIL foi neutralizado pela força policial local e por combatentes tribais pró-governo e anti-ISIL. Três policiais foram feridos e há notícias de que 12 combatentes do ISIL foram mortos.

  • 17/8/2014: Há notícias de que combatentes do ISIL estão-se reagrupando em Tikrit e preparando trincheiras, antecipando um ataque do exército iraquiano.

  • 17/8/2014: A Aliança Nacional e seu candidato a primeiro-ministro nomeou uma comissão de negociação que se reunirá com outros blocos políticos para acelerar a formação do novo governo. A Coalizão Estado de Direito reitera que Haider Al Abadi negociará a formação do governo com outros blocos; que considerará demandas cabíveis nos termos da Constituição do Iraque e rejeitará as que contrariem dispositivos constitucionais.

  • 17/8/2014: Os cinco principais partidos políticos curdos formam uma equipe conjunta de negociação para discutir a formação do governo em Bagdá.

  • 17/8/2014: Kisho Amo Selo, sobrevivente do massacre/genocídio em Kojo, diz que, depois de dez dias de cerco, quando se esperava que a população se convertesse ao islamismo, o ISIL entrou na cidade e assassinou centenas de jovens iazidis, homens e rapazes, e levou 500 mulheres e meninas para Tal Afar.

  • 17/8/2014: Ghayeb Sarhan Sahlab, líder do ISIL, é morto em ataques aéreos na província de Salah al Din.

  • 17/8/2014: As forças de segurança iraquianas dizem que retomaram o controle de uma refinaria em Haditha, com ajuda da Força Aérea.
Abu Bakr al-Baghdadi


  • 17/8/2014: O comandante supremo do ISIL, Abu Bakr Al Baghdadi foi alvo de um ataque por drone dos EUA junto à fronteira Iraque-Síria, mas sobreviveu.

  • 18/8/2014: Políticos curdos têm falado sobre a indicação de Haider Al Abadi ao posto de primeiro-ministro, como uma oportunidade de ouro para o Iraque. Agora, os três grupos étnicos podem sentar juntos e negociar

  • 18/8/2014: Em movimento inesperado, o ISIL libertou 300 refugiados iazidis de Sinjar e autorizou-os a voltar à montanha Sinjar [não é “monte”, é montanha].

  • 18/8/2014: O ISIL executa Abu Jafar Naqshbandi, ex-oficial do exército e líder no grupo “Naqshabandi Order”, e o irmão dele, em Jalawla, por se terem recusado a seguir ordens do ISIL.

  • 18/8/2014: Apesar do colapso já quase total da resistência, as forças Peshmergaestão avançando com cautela na direção da cidade de Tilkaif ao sul da Barragem Mosul. Os que lutam na vanguarda frente à morte [obrigado pela colaboração do leitor-comentarista (ver nota 1)] temem carros-bomba ou dispositivos explosivos implantados na estrada.

  • 19/8/2014: Forças aéreas dos EUA atacam às costas do ISIL perto da Barragem de Mosul, abrindo caminho para que as forças Peshmerga assumam o controle sobre o complexo. O ISIL havia levado para lá um engenheiro de nacionalidade líbia para operar a Barragem.

  • 19/8/2014: O ISIL decidiu retirar suas forças que estavam sendo duramente atacadas por bombardeio sustentado e acurado. Mas o ISIL minou a área e deixou armadilhas para as forças Peshmerga, em residências, prédios públicos e até em corpos de combatentes mortos do ISIL.
Distâncias relativas das localidades atacadas - Iraque

  • 19/8/2014: As forças do ISIL começaram a ruir dia 17/8/2014. Pode-se dizer que, de modo geral, abandonaram as áreas de Tilkaif, Khorsapad, Bashiqa e Bartalah e fugiram para a cidade de Mosul.

  • 19/8/2014: A ONU decidiu entregar suprimentos para meio milhão de refugiados iraquianos. A ajuda incluirá tendas, alimento e água e medicamentos básicos. A maior parte da ajuda será embarcada pela Turquia e Jordânia. São as mesmas rotas pelas quais o ISIL chegou à região.

  • 19/8/2014: O sul do Iraque flutua num oceano de petróleo. A Lukoil russa despachou um navio-tanque do campo Qurna 2 Oeste, que se estima que contenha 13 bilhões de barris de petróleo. O Império da Ganância e da Arrogância jamais permitirá que o sul xiita tenha paz, ou que prospere.

  • 19/8/2014: O exército iraquiano limpou duas áreas ao norte de Bagdá: al-Thaar e Tal Tasa, de qualquer presença do ISIL.

  • 19/8/2014: Milícias xiitas, um longo caminho a percorrer: O Exército do Iraque lançou ataque contra Tikrit, hoje cedo. O exército está sendo apoiado por milícias xiitas e combatentes xiitas voluntários e por combatentes de tribos locais.

  • 19/8/2014: Feroz resistência das forças do ISIL obrigaram o exército a retirar-se, depois de sofrer uma morte e cinco feridos. O exército perdeu suas posições no sul de Tikrit e teve de retirar-se ainda mais para o sul. Falta de efetiva cobertura por ar está sendo referida como uma das razões do fracasso dessa ação. O exército iraquiano têm dito que os líderes internos do ISIL já deixaram Tikrit.

  • 19/8/2014: As forças do ISIL retiraram-se do distrito de Al-Alam, a leste de Tikrit. O ISIL também minou essa área (há dispositivos explosivos improvisados distribuídos por todas as principais estradas em Tikrit), principalmente as vias centrais da cidade.

  • 19/8/2014: Abu Mohammed al- Adnani, porta-voz do ISIL, e Saeed Arif, da Frente Al-Nusra, estão com os nomes nas listas de sanções dos EUA. É lista farsesca, que inclui também russos e iranianos. Enquanto isso, os EUA já confirmaram que o ISIL está usando carros blindados norte-americanos, para transporte de pessoal, que incluem modificações feitas pelos israelenses. Os veículos foram projetados para resistir a explosão de dispositivos explosivos improvisados e de minas, e para resistir a tiros de armas de fogo pequenas usadas pelos ISIL contra os curdos e outros grupos rebeldes na Síria. O ISIL também está usando artilharia fabricada nos EUA.
Barack Obama

  • 19/8/2014: Obama pediu que os iraquianos formem um governo de unidade e não se mostrou mais complacente, agora que os EUA estão bombardeando o ISIL. Os EUA executaram 68 ataques aéreos desde o dia 8/8/2014, para, principalmente, ajudar os curdos no norte.

  • 19/8/2014: Wasit, no sul do Iraque, recebeu 21 mil refugiados de Mosul. Acredita-se que a maioria seja xiita.

  • 19/8/2014: Todo nosso amor aos curdos. A Suécia emitiu declaração em que apoia o Curdistão Iraquiano em sua luta contra o terrorismo e apoia os refugiados curdos. Massoud Barzani agradeceu a declaração sueca e repetiu que os curdos precisam de mais armas e de armas melhores, em sua luta contra “o terrorismo”.

  • 19/8/2014: A Grã-Bretanha é afeto só. Stewart Rory, presidente da Comissão de Defesa do Parlamento Britânico reuniu-se com Massoud Barzani e apresentou-lhes saudações e lembranças de David Cameron.

  • 19/8/2014: Ibrahim al-Jaafari da Aliança Nacional Xiita reuniu-se com Saleh al-Mutlaq do partido sunita al-Arabiya para discutir a formação do governo e o status dos refugiados no Iraque.

  • 19/8/2014: Três bandeiras do ISIL apareceram hasteadas em estacas e postes de luz no distrito de Dhi Qar, sudeste de Najaf.

  • 19/8/2014: As contas do governo, para o dia de hoje: 33 combatentes do ISIL mortos em ataques aéreos em Babil. 22 combatentes do ISIL mortos em ataque da artilharia do Exército do Iraque, em suas posições em Fallujah.

  • 19/8/2014: As contas dos EUA, para o dia de hoje: 17 combatentes do ISIL mortos em ataques aéreos ao norte de Mosul.

Tema relacionado:

  • 18/8/2014: Está circulando um vídeo em que se vê um japonês preso por terroristas do ISIL na Síria, sendo espancado por seus captores. Que Deus o proteja.

  • 19/8/2014: Abu Abdullah al-Iraqi, comandante do ISIL, foi morto pelo Exército Sírio em Qalamoun. Acredita-se que seja o responsável por vários atentados com carros bombas e suicidas-bomba no Líbano.

  • 19/8/2014: Daily Star noticiou que o Hezbollah teria planejado a complexa e sofisticada ação que resultou na morte do responsável por muitos ataques em áreas xiitas do Líbano.

  • 19/8/2014: Para conter o revide: O Grande Mufti saudita Sheikh Abdul Aziz al-Sheikh, cego desde os 18 anos, declarou a al- Qaeda e o ISIL os Inimigos n. 1 do Islã.

  • 19/8/2014: Jebran Bassil, ministro libanês de Relações Exteriores declara que os refugiados iraquianos não são bem-vindos ao Líbano e que devem permanecer no Iraque.

  • 19/8/2014: O ISIL distribuiu vídeo em que se assiste à execução do jornalista norte-americano James Foley. Deus amaldiçoa os opressores (ISIL). O ISIL distribuiu vídeo em que ameaça norte-americanos, onde estejam, por atacá-los no Iraque.
James Foley



Nota dos tradutores
[1] “Escrevo só para informar que “Peshmerga” não significa “os que correm para a morte”. Significa os que enfrentam a morte ou os que lutam na vanguarda, frente à morte. Pesh é preposição que significa literalmente “em frente de”; e merga é a palavra para “morte” (extraído dos Comentários ao Relatório de Situação Iraque 16-19/8, 20/8/2014, 2h21).

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Robert Fisk: Conhecemos a crueldade deles, mas não sabemos nem quem são o ISIL


21/8/2014, [*] Robert FiskThe Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

MIlitante do ISIL vigia soldados iraquianos sem uniforme capturados próximo a Tikrit em 14/6/2014
Ao longo de séculos, governos disseram aos seus soldados e povo “Conhece teu Inimigo”. O problema com o “Califato” do ISIL – e não é pequeno problema para o presidente Obama, depois do assassinato do jornalista James Foley – é que nós não sabemos quem é o inimigo. Nos falam muito sobre a crueldade deles, açougueiros, que sequestram mulheres, que enterram gente viva, que são horríveis contra cristãos e iazidis e os degolamentos públicos, e só. Mesmo o líder do ISIL, Abu Bakr al-Baghdadi, nos é mostrado como combinação ensandecida do Mahdi que assassinou Gordon de Khartoum, com o assassinado Osama bin Laden e Oliver Cromwell, que fez aos civis de Drogheda o que o muçulmano e Senhor Protetor al-Baghdadi fez aos próprios inimigos.

A degola ritual de Foley é suficiente para dissuadir até o mais ousado dos jornalistas de tentar qualquer entrevista com al-Baghdadi. Nunca antes houve no Oriente Médio território tão gigantesco absolutamente inacessível para a imprensa-empresa ocidental. Somos tão completamente ignorantes de tudo que tenha a ver com esse Estado Islâmico no Iraque e Levante [ing. ISIL] – terra obscura da qual só se conhecem os vídeo gravados pelos aparelhos celulares deles mesmos – que os obamas, camerons e hammonds só podem rilhar os dentes de medo desse indizível inimigo. Reação fácil – mas que não pode durar muito tempo.

Seja como for, fato é que o ISIL sabe fazer bem feita pelo menos uma coisa: forçar Obama a encarar o seu próprio problema de reféns, a mesma charada imposta a Tony Blair quando Ken Bigley apareceu-lhe em vídeo. E agora, Obama? Vai ignorar todos os avisos, provando que não dá qualquer importância aos cidadãos individuais quando ordena operações militares – o que é absoluta verdade – ou vai virar Jimmy Carter, que se dobrava a qualquer vontade dos inimigos de vocês, vai ajoelhar-se e vai dizer ao Pentágono “Alto lá!”? A seguir resposta de Obama (21/8/2014):


Agora Obama já sabe o nome do próximo repórter norte-americano a ser degolado. Será que pisca? Piscará? Não pode piscar, não é mesmo?

Assim sendo, suspeito que a resposta que virá é o que presidentes e primeiros-ministros sempre fizeram, de melhor, no Oriente Médio: anunciarão que o assassinato de Foley mostra só o quanto o ISIL é horrível e mau – e o quanto é importantíssimo continuar a bombardear e bombardear para destruir aquela instituição amaldiçoada. Em outras palavras, vão converter a reação sádica do ISIL contra os ataques aéreos, em razão pela qual os ataques aéreos aconteceram e têm de continuar. Afinal de contas... estamos bombardeando o ISIL“porque” mataram iazidis e expulsaram cristãos e ameaçaram curdos. E o Iraque. Agora, temos nova razão para bombardear o “Califato” de al-Baghdadi.

Para os jornalistas, ontem foi dia aterrorizante. Há 30 anos, os árabes reconheciam o papel dos jornalistas como observadores equilibrados.

Com os anos passando – e jornalistas assassinados por militares dos EUA, por soldados israelenses e por rebeldes iraquianos (além de milicianos árabes), nossa vulnerabilidade aumentou muitíssimo. Quando nosso amiguinho, o marechal de campo egípcio Abdel Fattah al-Sisi encarcera jornalistas durante meses, os governos ocidentais pouco se preocupam ou afligem. Quando nossos chefes dão tão pouca importância a se vivemos ou morremos, não é surpresa que o ISIL – o ISIL, ou seja quem for – dedique-se a matar jornalistas. É verdade: jornalistas não executam árabes. Mas essa não chega a ser diferença significativa à qual o ISIL dê muita importância.

Fita amarela [1] apareceu atada a uma árvore em frente à casa da família do jornalista James Foley 

Há duas verdades que o “ocidente” terá de encarar, sobre o selvagem e simplório “Califato”:

●— esses executores de hoje começaram as respectivas carreiras – ou os que os precederam –  nos assassinatos-de-televisão pela resistência anti-EUA no Iraque; e
●— por mais repugnantes que sejam as práticas deles, há centenas de milhares de muçulmanos sunitas que vivem nas terras do Califato e que NÃO FUGIRAM [maiúsculas no orig.]; os quais, para salvar a própria pele, ficaram ali. Não que sejam verdades agradáveis de ler. Se o “Califato” é tão revoltante, repugnante, horrendo, em sua brutalidade que aspira à pureza, como se explica que aquela gente – iraquianos e sírios – não tenham fugido, como fugiram seus irmãos cristãos? Será que uns poucos milhares de combatentes armados realmente conseguiriam coagir tanta gente, em território tão vasto, em pleno Oriente Médio?

Voltemos aos meses e anos imediatamente depois da invasão anglo-norte-americana de 2003. Os rebeldes ou insurgentes sentiram-se competentes para demonstrar extraordinária crueldade contra seus prisioneiros. Entregaram-me uma vez em Fallujah um vídeo de um homem sendo degolado por um grupo de encapuçados. Demorei algum tempo para perceber que se tratava, quase com certeza, de um soldado russo, e que os assassinos eram chechenos. Alguém trouxera o vídeo para Fallujah, para que os futuros carrascos da resistência aprendessem. Essa é a violência sem limites que a nossa invasão disparou naquela parte do mundo.


E muitos muçulmanos sunitas permaneceram em suas vilas e cidades e continuaram a viver ali, enquanto seus irmãos – os cidadãos do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) do futuro – prosseguiram em seu trabalho repugnante. Em outras palavras, o “Califato” obviamente não parece ser tão horrendo para eles, quanto nos parece a nós. Há aí algum problema? Ou é só questão, como os norte-americanos parecem supor que seja, de as tribos sunitas – aquelas microssociedades de mil e uma utilidades, das quais nós dependemos quando as coisas dão errado – serem subornadas, ou de metermos lá algum governo mais “inclusivo” depois da partida de al-Maliki, para pôr al-Baghdadi p’rá correr? Essas são as perguntas que cabe ao “ocidente” perguntar.

Nas últimas semanas de vida, Osama bin Laden várias vezes manifestou repulsa pelo caráter sectário dos ataques “islamistas”. Ele até recebeu uma tradução, mandada do Iêmen, de artigo que escrevi no The Independent, no qual falo da al-Qaeda como “a organização mais sectária do mundo”.

O mundo mudou muito. Pelo menos, quando entrevistei bin Laden, eu em momento algum temi que ele me degolasse.


Nota dos tradutores
[1] Leia mais sobre a “fita amarela” (The Yellow Ribbon) na cultura dos EUA, em inglês.
______________________

[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.