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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Luta pelo Iraque: Saqlawiyah mostra tudo!

30/9/2014, Análise rápida, Mindfriedo, The Vineyard of the Saker –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nota da redecastorphoto: Através desta (e de outras não traduzidas) análises de campo fica mais que óbvio que os bombardeios dos EUA destinam-se muito mais a destruir a infra estrutura civil e militar do Iraque e da Síria do que atingir o ISIL (seus verdadeiros aliados e cúmplices). A segunda intenção é “evidenciar” a “necessidade” de “coturnos no solo” (dos EUA) e trazer mais mortes e desgraças como fazem em suas invasões mundo afora, afrontando a Carta da ONU e o Direito Internacional.
A comportamento mostrado pela “coalizão de vontades” (EUA mais ditaduras árabes, “poodles” europeus e Turquia) evidenciam que os verdadeiros alvos dos EUAUnião EuropeiaOTAN são: degradação completa e “mudança de regime” na Síria; destruição e balcanização completa do Iraque; futura “mudança de regime” no Irã. Não podemos esquecer que o Líbano (e o Hezbollah) também está sendo atacado pelo ISIL com a valiosa colaboração do estado genocida de Israel.

The Saker
Aqui se lê uma lista em ordem cronológica de eventos ocorridos entre meados e o fim de setembro, na base de Saqlawiyah do Exército do Iraque (Saqlawiyah localiza-se ao norte de Fallujah).

●– ISIL e combatentes sunitas seus aliados tomaram algumas poucas vilas ao norte de Fallujah;

●– Uma das cidades tomadas foi Sijir, próxima da Base Militar de Saqlawiyah;

●– O Exército do Iraque mandou 400 homens da 3ª Brigada, uma unidade de elite da SWAT, e membros da Ashaib Ahl Al Haq (Liga dos Honrados) para desocupar Sijir.

●– Forte resistência pelo ISIL obrigou os soldados a retornar à base de Saqlawiyah; há ali agora de 800 a mil homens naquela base, já quase sem suprimentos, comida e munição.

●– O ISIL captura áreas em torno da base e bloqueia a única estrada que a conecta a Saqlawiyah e começa a cercar a base. Dizem que o ataque contra a cidade foi uma armadilha preparada para o exército iraquiano e “imundície safavida” [termo ofensivo para designar os xiitas].

●– O ISIL começa a usar alto-falantes, dizendo às tropas que se rendam.

●– Uma unidade de tanques vem de Ramadi, avança para o norte e tenta romper o cerco. Os tanques avançam por um pedaço de estrada minada com explosivos improvisados, mas consegue chegar a 400 metros da base.

ISIL cercou a base de Saqlawiyah (23/9/2014)
●– Os soldados sitiados tentam aproximar-se dos tanques, mas são forçados a retroceder, pelo ISIL, que se serve de suicidas-bomba e assaltos pesados. Os soldados são forçados a voltar à base, e a coluna de tanques retrocede sobre os cadáveres dos soldados.

●– Os soldados sitiados na base fazem pedidos desesperados aos comandantes militares, que prometem ajuda e reforço aéreo, mas nada acontece. Comandantes referem-se aos pedidos repetidos feitos pelos soldados, como desnecessárias “lamúrias”, ante os ataques.

●– Militantes do ISIL vestidos com uniformes do Exército do Iraque avançam em veículos blindados, num ataque de suicidas-bomba. Os soldados que guardavam a base, ao que se sabe, abriram os portões, supondo que os blindados trouxessem suprimentos. Acontecem ataques-suicidas enormes, seguidos de pesadas emboscadas. O ISIL está controlando a base e, pelo que se sabe, restam bem poucos soldados.

●– Relatórios contraditórios sugerem que as baixas estão entre 50 (informe do governo, nada confiável) e 600; e que 200 soldados conseguiram fugir. Os soldados fugitivos passam fome já há quatro dias e estão bebendo água salgada para sobreviver; não conseguem correr.

●– O ISIL faz desfilar 30 homens vestidos em uniformes do Exército Iraquiano em Fallujah e distribui a seguinte declaração:

Com nossa fé posta em Alá, e considerados os meios e capacidades disponíveis, e por ordem do Ministério da Guerra, a Província de al-Fallujah mobilizou todos os seus destacamentos militares, defesa aérea, apoio e destacamentos de ataques aéreos, e depois de planejados e definidos os alvos, os destacamentos lançaram-se sobre os seus objetivos, que é de libertar a área de al-Sijir da imundície dos safavidas [termo ofensivo para designar os xiitas], como um primeiro passo para cercar o quartel-general da Brigada 30, localizado entre a área de al-Sijir e o subdistrito de al-Saqlawiyah.

●– O ISIL diz que matou 300 soldados iraquianos, capturou dois tanques M1A1 Abrams e um tanque russo, além de outros equipamentos saqueados da base.

●– Abadi ordena um inquérito e anuncia-se que os comandantes do Exército e da Força Aérea iraquianos são suspensos, mas os deputados no Parlamento exigem que sejam indiciados e submetidos a julgamento; e dizem que Saqlawiyah é a segunda Spyker [1] no Iraque.

●– O governo está dizendo que o ISIL usou gás venenoso e usa esse argumento para explicar por que a base caiu.

Turcos dizem que o ISIL se droga para combater
Eis algumas perguntas suscitadas pelos eventos acima listados:

1) Por que o Apoio Aéreo não apareceu nem chegaram os ressuprimentos por paraquedas ou helicópteros?
Ao longo de todo o conflito, o que se sabe é que os comandantes iraquianos têm ignorado pedidos para ressuprimento e apoio aéreo e – o que é mais chocante – sempre dão falsas esperanças aos soldados, sugerindo que a base teria recebido ressuprimento, quando nada receberam. As relações azedadas entre os comandantes de Maliki e o desejo de Abadi de substituí-los têm sido citadas também como outra desculpa para o fiasco.

2) Onde, afinal, estão caindo as bombas dos ataques aéreos dos EUA?!

Se o ISIL estava mandando número tão alto de militantes combatentes para o norte, por que os EUA não miraram os seus ataques aéreos contra eles? Ou por que não atacaram os homens do ISIL que estavam sitiando a base de Saqlawiyah?

Combatentes iazidis também reclamaram que os EUA não atacaram o armamento pesado do ISIL em Sinjar quando os iazidis estavam em luta contra eles, sequer depois que os iazidis indicaram (pintados) alvos para os norte-americanos. Os iazidis foram forçados à retirada quando ficaram sem munição, em luta que, se os planos fossem cumpridos, seria fácil vencer.

Também é muito eloquente o comportamento de soldados turcos, que impedem os curdos sírios de cruzar a fronteira para ajudar outros curdos a dar combate ao ISIL em Kobane. Assim também, os ataques norte-americanos longe de Kobane não conseguiram impedir o avanço do ISIL. Tudo isso fede a [criar a necessidade de] “coturnos em solo”.

Tropas turcas impedem curdos de combater  ISIL
3) Onde estão, em tudo isso, as tribos sunitas?

Até agora, aquelas tribos sunitas que não apoiam o ISIL ainda não se decidiram a apoiar o governo. As razões que apresentaram são que continuam os ataques indiscriminados de artilharia contra áreas sunitas populosas (Fallujah, Ramadi) e a detenção de alto número de homens sunitas. Outra razão pode ser que aquelas tribos ainda tenham dúvidas de que o governo consiga vencer a guerra ou impor-se nos territórios tomados.

4) Efetividade das milícias?

As milícias impediram a queda de Bagdá e detiveram o avanço do ISIL. Mas ainda têm longo caminho a percorrer, e podem vir a revelar-se inúteis nas áreas onde dominam os sunitas.

Os figurões da Liga dos Honrados [orig. Ashab Ahl al Haq] ficarão furiosos por seus homens terem sido sacrificados na base Saqlawiyah, e exigirão respostas, se não sangue, da liderança político-militar do Iraque.

Os líderes militares do Iraque, politicamente selecionados, mostraram pouco ou quase nenhum zelo ou cuidado pelos próprios homens e soldados. Talvez sejam mais perigosos que o ISIL.

Post Sciptum: (5ª pergunta, oferecida nos “Comentários” a esse postado:)

Michael Collins escreveu...

Grande postado! As perguntas vão direto ao alvo. Aí vai mais uma:

●– Se o Exército Sírio Árabe derrota os “rebeldes” em praticamente todos os confrontos (inclusive o ataque vindo da Jordânia que foi completamente esmagado), por que os EUA e sócios só têm impacto zero no avanço do ISIL?!




Nota dos tradutores
[1] O ISIS distribuiu vídeos em que mostra um massacre, no qual são executados soldados iraquianos capturados na base militar de Spyker, em Tikrit. Os vídeos circularam pelas mídias sociais, com notícias de que 1.700 pessoas teriam sido mortas, inclusive estudantes e funcionários da segurança (24/9/2014, Aydinlik em: ISIS Chemical Attack in Iraq Kills Hundreds. [aqui traduzido].

sábado, 23 de agosto de 2014

IRAQUE: Relatório de Situação, SITREP − 16-19/8/2014, Mindfriedo: Batalha pela Barragem de Mosul

19/8/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Contando, ninguém acredita, mas...“19/8/2014: A ONU decidiu entregar suprimentos para meio milhão de refugiados iraquianos. A ajuda incluirá tendas, alimento e água e medicamentos básicos. A maior parte da ajuda chegará pela Turquia e Jordânia. São as mesmas rotas pelas quais o ISIL chegou à região”.


The Saker
Nosso profundo agradecimento ao Saker que permite que esses Relatórios de Situação (SITREP ou RELSIT) sejam publicados aqui, e por ele sempre combater o bom combate. Que Deus continue a inspirá-lo. Farei o possível para redigir SITREPs ou RELSITs mais frequentes.

ISIS-ISIL - Mapa da atual situação (22/8/2014)

  • 16/8/2014: Autoridades curdas planejam rearmar suas forças com equipamento pesado, mais moderno.

  • 16/8/2014: Mohammad Ali al-Hakim, Ministro de Relações Exteriores do Iraque à ONU pede que todas as nações do mundo declarem o ISILorganização terrorista e trabalhem coletivamente contra ela.

  • 16/8/2014: Aviões norte-americanos estão atirando contra alvos do ISIL em torno da barragem de Mosul, no que será operação conjunta Iraque-Peshmerga [1] curda em assalto por terra para tentar recapturar a barragem tomada pelo ISIL. Acredita-se que o ISIL não bombardeou a barragem nem abriu comportas, o que teria inundado as próprias áreas onde eles estão. A barragem exige manutenção constante e acredita-se que tenha sido gravemente danificada durante o curto tempo em que esteve sob controle do ISIL.

  • 16/8/2014: Walter Steinmeier, ministro de Relações Exteriores da Alemanha chega a Bagdá para coordenar a entrega de ajuda humanitária. Deve visitar também o Curdistão Iraquiano.

  • 16/8/2014: Três homens que se acredita que sejam de milícias xiitas foram mortos e 10 foram feridos num ataque de bomba junto à estrada no sul de Samarra.

  • 16/8/2014: A Força Aérea Iraquiana bombardeou um comboio de 30 veículos de combatentes rebeldes/ISIL próximo da Barragem de Mosul.

  • 16/8/2014: Ataques aéreos iraquianos contra uma reunião de rebeldes ISIL em Qaim, oeste de Anbar; os seguintes altos comandantes do ISIL foram notificados mortos: Abu Mohammed al-Shami, Abu Fatima Moroccan, Sami Mahlawi , Abu Anas al-Samarrai, Omar al-Shishani , Ahmed Awad e Abu Mohammed al-Adnani.

  • 16/8/2014: Em outro ataque em Jurk al-Sakher, norte de Babil morreram 22 rebeldes do ISIL, inclusive sete estrangeiros.

  • 16/8/2014: Malik al-Arak, líder do ISIL foi morto por foguete teleguiado em ataque pelas forças de segurança do Iraque em Latifiya, ao sul de Bagdá. Dois terroristas do ISIL que o acompanhavam também foram mortos.

  • 17/8/2014: As forças Peshmerga continuam a avançar em direção à barragem de Mosul, ajudadas pela força aérea dos EUA. Forças curdas combatem nas áreas de Baqofa e Babera e avançam em direção a Tilkaif , al-Qwesat e Wank.
Curdistão Iraquiano - Região Autônoma

  • 17/8/2014: Os Peshmergas também receberam armamento avançado de países ocidentais para combater o ISIL. Os Peshmerga estão preparando assalto na região de Sinjar e reganharam território do qual haviam fugido.

  • 17/8/2014: O Comando Central dos EUA (CENTCOM) anuncia que realizou nove ataques aéreos perto da barragem de Mosul e perto de Erbil que “destruíram ou danificaram quatro carros blindados de transporte de pessoal, sete veículos blindados, Humvees e um outro tipo de veículo blindado”. Os ataques aéreos foram realizados por jatos pilotados presencialmente e por drones.

  • 17/8/2014: Um grande assalto contra a cidade de Dhuluiya, Salah id Din, por combatentes do ISIL foi neutralizado pela força policial local e por combatentes tribais pró-governo e anti-ISIL. Três policiais foram feridos e há notícias de que 12 combatentes do ISIL foram mortos.

  • 17/8/2014: Há notícias de que combatentes do ISIL estão-se reagrupando em Tikrit e preparando trincheiras, antecipando um ataque do exército iraquiano.

  • 17/8/2014: A Aliança Nacional e seu candidato a primeiro-ministro nomeou uma comissão de negociação que se reunirá com outros blocos políticos para acelerar a formação do novo governo. A Coalizão Estado de Direito reitera que Haider Al Abadi negociará a formação do governo com outros blocos; que considerará demandas cabíveis nos termos da Constituição do Iraque e rejeitará as que contrariem dispositivos constitucionais.

  • 17/8/2014: Os cinco principais partidos políticos curdos formam uma equipe conjunta de negociação para discutir a formação do governo em Bagdá.

  • 17/8/2014: Kisho Amo Selo, sobrevivente do massacre/genocídio em Kojo, diz que, depois de dez dias de cerco, quando se esperava que a população se convertesse ao islamismo, o ISIL entrou na cidade e assassinou centenas de jovens iazidis, homens e rapazes, e levou 500 mulheres e meninas para Tal Afar.

  • 17/8/2014: Ghayeb Sarhan Sahlab, líder do ISIL, é morto em ataques aéreos na província de Salah al Din.

  • 17/8/2014: As forças de segurança iraquianas dizem que retomaram o controle de uma refinaria em Haditha, com ajuda da Força Aérea.
Abu Bakr al-Baghdadi


  • 17/8/2014: O comandante supremo do ISIL, Abu Bakr Al Baghdadi foi alvo de um ataque por drone dos EUA junto à fronteira Iraque-Síria, mas sobreviveu.

  • 18/8/2014: Políticos curdos têm falado sobre a indicação de Haider Al Abadi ao posto de primeiro-ministro, como uma oportunidade de ouro para o Iraque. Agora, os três grupos étnicos podem sentar juntos e negociar

  • 18/8/2014: Em movimento inesperado, o ISIL libertou 300 refugiados iazidis de Sinjar e autorizou-os a voltar à montanha Sinjar [não é “monte”, é montanha].

  • 18/8/2014: O ISIL executa Abu Jafar Naqshbandi, ex-oficial do exército e líder no grupo “Naqshabandi Order”, e o irmão dele, em Jalawla, por se terem recusado a seguir ordens do ISIL.

  • 18/8/2014: Apesar do colapso já quase total da resistência, as forças Peshmergaestão avançando com cautela na direção da cidade de Tilkaif ao sul da Barragem Mosul. Os que lutam na vanguarda frente à morte [obrigado pela colaboração do leitor-comentarista (ver nota 1)] temem carros-bomba ou dispositivos explosivos implantados na estrada.

  • 19/8/2014: Forças aéreas dos EUA atacam às costas do ISIL perto da Barragem de Mosul, abrindo caminho para que as forças Peshmerga assumam o controle sobre o complexo. O ISIL havia levado para lá um engenheiro de nacionalidade líbia para operar a Barragem.

  • 19/8/2014: O ISIL decidiu retirar suas forças que estavam sendo duramente atacadas por bombardeio sustentado e acurado. Mas o ISIL minou a área e deixou armadilhas para as forças Peshmerga, em residências, prédios públicos e até em corpos de combatentes mortos do ISIL.
Distâncias relativas das localidades atacadas - Iraque

  • 19/8/2014: As forças do ISIL começaram a ruir dia 17/8/2014. Pode-se dizer que, de modo geral, abandonaram as áreas de Tilkaif, Khorsapad, Bashiqa e Bartalah e fugiram para a cidade de Mosul.

  • 19/8/2014: A ONU decidiu entregar suprimentos para meio milhão de refugiados iraquianos. A ajuda incluirá tendas, alimento e água e medicamentos básicos. A maior parte da ajuda será embarcada pela Turquia e Jordânia. São as mesmas rotas pelas quais o ISIL chegou à região.

  • 19/8/2014: O sul do Iraque flutua num oceano de petróleo. A Lukoil russa despachou um navio-tanque do campo Qurna 2 Oeste, que se estima que contenha 13 bilhões de barris de petróleo. O Império da Ganância e da Arrogância jamais permitirá que o sul xiita tenha paz, ou que prospere.

  • 19/8/2014: O exército iraquiano limpou duas áreas ao norte de Bagdá: al-Thaar e Tal Tasa, de qualquer presença do ISIL.

  • 19/8/2014: Milícias xiitas, um longo caminho a percorrer: O Exército do Iraque lançou ataque contra Tikrit, hoje cedo. O exército está sendo apoiado por milícias xiitas e combatentes xiitas voluntários e por combatentes de tribos locais.

  • 19/8/2014: Feroz resistência das forças do ISIL obrigaram o exército a retirar-se, depois de sofrer uma morte e cinco feridos. O exército perdeu suas posições no sul de Tikrit e teve de retirar-se ainda mais para o sul. Falta de efetiva cobertura por ar está sendo referida como uma das razões do fracasso dessa ação. O exército iraquiano têm dito que os líderes internos do ISIL já deixaram Tikrit.

  • 19/8/2014: As forças do ISIL retiraram-se do distrito de Al-Alam, a leste de Tikrit. O ISIL também minou essa área (há dispositivos explosivos improvisados distribuídos por todas as principais estradas em Tikrit), principalmente as vias centrais da cidade.

  • 19/8/2014: Abu Mohammed al- Adnani, porta-voz do ISIL, e Saeed Arif, da Frente Al-Nusra, estão com os nomes nas listas de sanções dos EUA. É lista farsesca, que inclui também russos e iranianos. Enquanto isso, os EUA já confirmaram que o ISIL está usando carros blindados norte-americanos, para transporte de pessoal, que incluem modificações feitas pelos israelenses. Os veículos foram projetados para resistir a explosão de dispositivos explosivos improvisados e de minas, e para resistir a tiros de armas de fogo pequenas usadas pelos ISIL contra os curdos e outros grupos rebeldes na Síria. O ISIL também está usando artilharia fabricada nos EUA.
Barack Obama

  • 19/8/2014: Obama pediu que os iraquianos formem um governo de unidade e não se mostrou mais complacente, agora que os EUA estão bombardeando o ISIL. Os EUA executaram 68 ataques aéreos desde o dia 8/8/2014, para, principalmente, ajudar os curdos no norte.

  • 19/8/2014: Wasit, no sul do Iraque, recebeu 21 mil refugiados de Mosul. Acredita-se que a maioria seja xiita.

  • 19/8/2014: Todo nosso amor aos curdos. A Suécia emitiu declaração em que apoia o Curdistão Iraquiano em sua luta contra o terrorismo e apoia os refugiados curdos. Massoud Barzani agradeceu a declaração sueca e repetiu que os curdos precisam de mais armas e de armas melhores, em sua luta contra “o terrorismo”.

  • 19/8/2014: A Grã-Bretanha é afeto só. Stewart Rory, presidente da Comissão de Defesa do Parlamento Britânico reuniu-se com Massoud Barzani e apresentou-lhes saudações e lembranças de David Cameron.

  • 19/8/2014: Ibrahim al-Jaafari da Aliança Nacional Xiita reuniu-se com Saleh al-Mutlaq do partido sunita al-Arabiya para discutir a formação do governo e o status dos refugiados no Iraque.

  • 19/8/2014: Três bandeiras do ISIL apareceram hasteadas em estacas e postes de luz no distrito de Dhi Qar, sudeste de Najaf.

  • 19/8/2014: As contas do governo, para o dia de hoje: 33 combatentes do ISIL mortos em ataques aéreos em Babil. 22 combatentes do ISIL mortos em ataque da artilharia do Exército do Iraque, em suas posições em Fallujah.

  • 19/8/2014: As contas dos EUA, para o dia de hoje: 17 combatentes do ISIL mortos em ataques aéreos ao norte de Mosul.

Tema relacionado:

  • 18/8/2014: Está circulando um vídeo em que se vê um japonês preso por terroristas do ISIL na Síria, sendo espancado por seus captores. Que Deus o proteja.

  • 19/8/2014: Abu Abdullah al-Iraqi, comandante do ISIL, foi morto pelo Exército Sírio em Qalamoun. Acredita-se que seja o responsável por vários atentados com carros bombas e suicidas-bomba no Líbano.

  • 19/8/2014: Daily Star noticiou que o Hezbollah teria planejado a complexa e sofisticada ação que resultou na morte do responsável por muitos ataques em áreas xiitas do Líbano.

  • 19/8/2014: Para conter o revide: O Grande Mufti saudita Sheikh Abdul Aziz al-Sheikh, cego desde os 18 anos, declarou a al- Qaeda e o ISIL os Inimigos n. 1 do Islã.

  • 19/8/2014: Jebran Bassil, ministro libanês de Relações Exteriores declara que os refugiados iraquianos não são bem-vindos ao Líbano e que devem permanecer no Iraque.

  • 19/8/2014: O ISIL distribuiu vídeo em que se assiste à execução do jornalista norte-americano James Foley. Deus amaldiçoa os opressores (ISIL). O ISIL distribuiu vídeo em que ameaça norte-americanos, onde estejam, por atacá-los no Iraque.
James Foley



Nota dos tradutores
[1] “Escrevo só para informar que “Peshmerga” não significa “os que correm para a morte”. Significa os que enfrentam a morte ou os que lutam na vanguarda, frente à morte. Pesh é preposição que significa literalmente “em frente de”; e merga é a palavra para “morte” (extraído dos Comentários ao Relatório de Situação Iraque 16-19/8, 20/8/2014, 2h21).

domingo, 29 de junho de 2014

Iraque: “Duas análises curtas numa análise longa” − por Mindfriedo

28/6/2014, The Saker, Mindfriedo, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
(1) A queda de Mosul foi boa para os milicianos xiitas?

Até o início de 2014, os EUA vinham pressionando Maliki para que “contivesse” as milícias xiitas. O argumento era que os xiitas poderiam desestabilizar o próprio governo; que eram aliados do Irã; e que estavam acumulando experiência de combate na Síria. O governo do Iraque formou brigadas, como “Lobo” (comandada por Abu al-Walid, comandante combatente em Tal Afar), “Tigre” e “Escorpião”, para conter a ameaça que aquelas milícias xiitas poderiam ser – mas, sobretudo, como uma ferramenta para manter organizados os sunitas.

Abu al-Walid
Outras medidas incluíram fechar a fronteira do Iraque com a Síria e suspender voos diretos. Essas duas medidas pareceram visar aos jihadistas sunitas, mas visavam de fato a conter o fluxo de combatentes xiitas. Maliki tampouco ficou muito satisfeito com essas medidas. E a segunda não passou de gesto simbólico do governo iraquiano, porque os voos entre Irã e Damasco prosseguem normalmente. A ameaça dos EUA, de criar uma zona aérea de exclusão sobre a Síria, visava a tentar impedir esses voos. Os voos de vigilância aérea sobre o Iraque e a ocupação pelos jihadistas da fronteira Iraque-Síria visam exclusivamente a tentar deter o fluxo de combatentes xiitas.

O envio de norte-americanos para o Iraque, depois da queda de Mosul, visa principalmente a monitorar os xiitas, muito mais que os sunitas.

Os norte-americanos conhecem as revoluções sunitas e sabem como inverter a ganga. Mantêm contatos com anciãos sunitas e com ex-Ba’athistas que podem usar para “domar” qualquer insurgência sunita. O problema dos EUA são os xiitas, que eles absolutamente nunca conseguiram controlar. O que você não controla sempre o amedronta.

Os EUA estavam também interessados em usar clérigos xiitas moderados, como Sistani, para conter o ímpeto dos grupos de jihadistas xiitas. Mas isso mudou, agora, em certa medida. A conclamação de Sistani às armas foi a melhor tática para aumentar o recrutamento que as milícias xiitas poderiam ter esperado. Sistani disse especificamente que os jovens deviam alistar-se no exército. Os jovens captaram a mensagem de que devem lutar, mas alistaram-se nas milícias xiitas. Os jovens não são bobos e sabem quem vence e quem perde guerras por ali.

Área de atividade do ISIS/ISIL/DAASH
Agora, o governo iraquiano está confiando naquelas milícias para conter o ISIS/ISIL/DAASH. O governo iraquiano não restringirá o treinamento de combatentes no Irã, nem o livre fluxo deles entre Síria e Iraque; e se oporá a qualquer pressão, pelos EUA, para fechar aquele fluxo. É o que se pode ver nos elogios que Maliki fez aos ataques aéreos sírios no Iraque, aos quais normalmente qualquer primeiro-ministro teria de opor-se.

Diferentes dos combatentes sunitas do ISIS/ISIL/DAASH (chechenos, afegãos, sauditas, marroquinos, europeus, etc.) os combatentes xiitas são predominantemente árabes, do Iraque e do Levante que o DAASH tanto quer “salvar”. Os árabes sunitas e as tribos sunitas estão aliados ao DAASH por conta de um sentimento de terem sido deixados de fora (em parte, efeito da propaganda; em parte, frustração genuína). Mas essa é dificuldade com a qual terão de viver. O poder que um dia tiveram, hoje, já não têm e ele não voltará. Quanto mais lutarem, mas Bagdá se converterá em cidade xiita e maior será a frustração dos sunitas. Muitos dar-se-ão conta disso; mas alguns continuarão cada dia mais radicais, por ação da propaganda saudita.

Enquanto isso, as milícias se converterão nos novos Fremen contra os Sadukar (DAASH) do Império (anglo-sionista), à espera de seu Muad'Dib (Mahdi). [1]

O duro, difícil ambiente do Iraque e a ameaça que cresce contra as milícias xiitas as manterão sempre alertas e atentas, sempre em estado de prontidão, mais bem treinadas e mais fortes a cada dia, aprendendo valiosas lições que só a luta ensina e superando o DAASH sunita em habilidades, talento, profissionalismo e moral.

(2) Milicianos xiitas são mais “ferozes” que sunitas (wahhabi)?

Uma velha piada do tempo colonial. Os britânicos queriam formar uma brigada muçulmana. Perguntaram aos muçulmanos: quais de vocês são os mais ferozes? Os muçulmanos, meio sem entender a pergunta dos “Tommys” responderam: “nossos açougueiros são ferocíssimos”. E os britânicos organizaram a brigada de muçulmanos açougueiros ferozes.

Quando os combates começaram, os açougueiros não punham o pé fora das trincheiras. O comandante “Tommy” berrou: “Por que não avançam? Vão à luta!”.

E o kassab [açougueiro] respondeu: “Ah, meu amigo, amarre eles e traga até aqui, que nós cortamos em pedaços!”.

Eis os combatentes do DAASH: açougueiros para aterrorizar os cordeiros.

Ontem assisti a vídeos dos jihadistas. Nada agradável, mas necessário.

Em primeiro lugar, o profissionalismo:

Fuzil AKM típico
Toda e qualquer milícia xiita que combate na Síria é militarmente bem organizada. Têm brigadas; as brigadas têm batalhões de lança-foguetes, fogo de morteiro e grupos de assalto. Cada milícia tem uniformes limpos e insígnia. Sabem trabalhar numa estrutura de comando, às vezes sob ordens do exército sírio. As armas usadas são quase idênticas. AKMs, AMDs, PMKs, SVDs, lança-morteiros de mão e RPGs (quase idênticos).

Arma anti-blindados
Os militantes sunitas/wahabbistas são ‘'ferozes'’, mas operam sem qualquer organização militar, sem uniformes, sem equipamento militar padrão. O Exército Sírio Livre é mais profissional e tem alguma estrutura. Mas os jihadistas são só confusão e profissionalismo zero. É o que se vê também na dificuldade do DAASH para controlar os próprios aliados, com brigas internas por qualquer pequena diferença, incapacidade para impedir que os milicianos cometam atrocidades (que, às vezes, são usadas como tática), e a incapacidade para lutar de modo sustentado em qualquer tipo de confronto.

A propaganda:

Pode não parecer óbvio para todos, mas os combatentes xiitas são levados à luta por algo que amam e prezam muito, i.e., o Ahlul Bayt [o “Povo da Casa” ou a “Família da Casa” (do Profeta)]. Os wahabbitas, por sua vez, em praticamente tudo que fazem, são movidos por ódio: ódio dos valores ocidentais, dos santos, dos xiitas, dos cristãos, dos judeus, de tudo que, para eles, é necessariamente sujo e corrompido.

A propaganda jihadista é baseada numa mensagem puritana. Exige que o sunita abra mão de um sistema de crenças que ele conserva há gerações (embora muitos sunitas pareçam estar-se separando, de antigos conceitos do Walis [Aquele em que se crê] e Wasilah [os meios de acesso a Deus], mais depressa do que uma stripper, de seus panos “modestos”). Os xiitas, por outro lado, estão convocados a trabalhar a favor de algo em que sempre acreditaram e acreditam.

Grupo etário:

Muitos jihadistas são homens jovens. Muitos morrem jovens. Mas rápida pesquisa na internet mostrará que a idade mínima para a iniciação de um combatente DAASH é dez anos. Entre os xiitas, exceto no caso dos escudos humanos de Khomeini, a idade mínima nunca foi inferior a 18 anos; e a idade média dos combatentes xiitas é 22 anos.

Suporte financeiro:

Nesse quesito os xiitas sempre perderam, desde os primeiros dias do Islã. Os sunitas conservaram para eles toda a riqueza e marginalizaram os xiitas. O Iraque pode alterar esse desequilíbrio. A riqueza do petróleo do Iraque e do Irã xiitas pode em breve ultrapassar a da Arábia Saudita. Mas, por hora, ricos, só os sunitas. As sanções contra o Irã têm o objetivo de criar dificuldades específicas, que impeçam o enriquecimento do país.

Propaganda:

É estranho que os vídeos do DAASH sejam praticamente sempre, horrendos. E os mesmos vídeos que são usados pelo DAASH ou pela al-Qaeda para recrutar novos seguidores-milicianos, são usados também pelos seus inimigos (seres humanos racionais) como contrapropaganda. Os vídeos de milícias xiitas jamais mostram atrocidades. Na maioria dos casos são centrados no culto do martírio. Os norte-americanos tentam super noticiar alegadas atrocidades que teriam sido cometidas por milícias xiitas; mas não funciona, porque os xiitas não acreditam em nada que lhes venha de fonte norte-americana.

Dois exemplos recentes de efetividade em combate:

(1) A retomada de Beirute pelo Hezbollah, em maio de 2008. Os homens de Hariri não aguentaram nem as primeiras sacudidas. Mas, sim, concordo: Beirute não é Trípoli. Contraexemplo, aqui, poderia ser Mosul. Mas Beirute é cidade mais misturada e complexa; e Mosul é, mais, uma cidade sunita baathista. Além do mais, a retomada de Beirute foi ação militar; e Mosul só foi tomada porque houve uma traição e colusão pré-combinadas. E
  

A vitória do Hezbollah e do Exército Sírio em Qusayr em 2013
(2) outro exemplo foi Qusayr em 2013. Jihadistas entrincheirados, com total apoio de estados árabes, da Turquia e do Ocidente, quebraram as próprias fileiras e fugiram. O Hezbollah pagou preço alto; e a Síria pulverizou quase toda a cidade de Qusayr; mesmo assim permanece o fato de que os jihadistas desertaram e fugiram. Para compreender, basta comparar esse quadro e Bint Jabil em 2006. Forças no mínimo iguais ou muito superiores, se se considera o arsenal à disposição de Israel e contra o Hezbollah; e o Hezbollah literalmente pôs Israel em fuga; o Hezbollah humilhou Israel. Por onde Israel deixa uma via de fuga, mais combatentes unem-se à luta.

A derrota de Israel para o Hezbollah em Bint Jabil em 2006
Importante, também, a autoavaliação que o Hezbollah produziu, do próprio desempenho (criticaram dois dos próprios comandantes, porque estavam no mesmo local, à mesma hora).

Qusayr realmente assustou o Império Anglo-sionista. A queda de Mosul os está petrificando de medo.



Nota dos tradutores

[1] Fremen: Várias referências a personagens da série “Dunas”.