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domingo, 29 de junho de 2014

Iraque: “Duas análises curtas numa análise longa” − por Mindfriedo

28/6/2014, The Saker, Mindfriedo, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
(1) A queda de Mosul foi boa para os milicianos xiitas?

Até o início de 2014, os EUA vinham pressionando Maliki para que “contivesse” as milícias xiitas. O argumento era que os xiitas poderiam desestabilizar o próprio governo; que eram aliados do Irã; e que estavam acumulando experiência de combate na Síria. O governo do Iraque formou brigadas, como “Lobo” (comandada por Abu al-Walid, comandante combatente em Tal Afar), “Tigre” e “Escorpião”, para conter a ameaça que aquelas milícias xiitas poderiam ser – mas, sobretudo, como uma ferramenta para manter organizados os sunitas.

Abu al-Walid
Outras medidas incluíram fechar a fronteira do Iraque com a Síria e suspender voos diretos. Essas duas medidas pareceram visar aos jihadistas sunitas, mas visavam de fato a conter o fluxo de combatentes xiitas. Maliki tampouco ficou muito satisfeito com essas medidas. E a segunda não passou de gesto simbólico do governo iraquiano, porque os voos entre Irã e Damasco prosseguem normalmente. A ameaça dos EUA, de criar uma zona aérea de exclusão sobre a Síria, visava a tentar impedir esses voos. Os voos de vigilância aérea sobre o Iraque e a ocupação pelos jihadistas da fronteira Iraque-Síria visam exclusivamente a tentar deter o fluxo de combatentes xiitas.

O envio de norte-americanos para o Iraque, depois da queda de Mosul, visa principalmente a monitorar os xiitas, muito mais que os sunitas.

Os norte-americanos conhecem as revoluções sunitas e sabem como inverter a ganga. Mantêm contatos com anciãos sunitas e com ex-Ba’athistas que podem usar para “domar” qualquer insurgência sunita. O problema dos EUA são os xiitas, que eles absolutamente nunca conseguiram controlar. O que você não controla sempre o amedronta.

Os EUA estavam também interessados em usar clérigos xiitas moderados, como Sistani, para conter o ímpeto dos grupos de jihadistas xiitas. Mas isso mudou, agora, em certa medida. A conclamação de Sistani às armas foi a melhor tática para aumentar o recrutamento que as milícias xiitas poderiam ter esperado. Sistani disse especificamente que os jovens deviam alistar-se no exército. Os jovens captaram a mensagem de que devem lutar, mas alistaram-se nas milícias xiitas. Os jovens não são bobos e sabem quem vence e quem perde guerras por ali.

Área de atividade do ISIS/ISIL/DAASH
Agora, o governo iraquiano está confiando naquelas milícias para conter o ISIS/ISIL/DAASH. O governo iraquiano não restringirá o treinamento de combatentes no Irã, nem o livre fluxo deles entre Síria e Iraque; e se oporá a qualquer pressão, pelos EUA, para fechar aquele fluxo. É o que se pode ver nos elogios que Maliki fez aos ataques aéreos sírios no Iraque, aos quais normalmente qualquer primeiro-ministro teria de opor-se.

Diferentes dos combatentes sunitas do ISIS/ISIL/DAASH (chechenos, afegãos, sauditas, marroquinos, europeus, etc.) os combatentes xiitas são predominantemente árabes, do Iraque e do Levante que o DAASH tanto quer “salvar”. Os árabes sunitas e as tribos sunitas estão aliados ao DAASH por conta de um sentimento de terem sido deixados de fora (em parte, efeito da propaganda; em parte, frustração genuína). Mas essa é dificuldade com a qual terão de viver. O poder que um dia tiveram, hoje, já não têm e ele não voltará. Quanto mais lutarem, mas Bagdá se converterá em cidade xiita e maior será a frustração dos sunitas. Muitos dar-se-ão conta disso; mas alguns continuarão cada dia mais radicais, por ação da propaganda saudita.

Enquanto isso, as milícias se converterão nos novos Fremen contra os Sadukar (DAASH) do Império (anglo-sionista), à espera de seu Muad'Dib (Mahdi). [1]

O duro, difícil ambiente do Iraque e a ameaça que cresce contra as milícias xiitas as manterão sempre alertas e atentas, sempre em estado de prontidão, mais bem treinadas e mais fortes a cada dia, aprendendo valiosas lições que só a luta ensina e superando o DAASH sunita em habilidades, talento, profissionalismo e moral.

(2) Milicianos xiitas são mais “ferozes” que sunitas (wahhabi)?

Uma velha piada do tempo colonial. Os britânicos queriam formar uma brigada muçulmana. Perguntaram aos muçulmanos: quais de vocês são os mais ferozes? Os muçulmanos, meio sem entender a pergunta dos “Tommys” responderam: “nossos açougueiros são ferocíssimos”. E os britânicos organizaram a brigada de muçulmanos açougueiros ferozes.

Quando os combates começaram, os açougueiros não punham o pé fora das trincheiras. O comandante “Tommy” berrou: “Por que não avançam? Vão à luta!”.

E o kassab [açougueiro] respondeu: “Ah, meu amigo, amarre eles e traga até aqui, que nós cortamos em pedaços!”.

Eis os combatentes do DAASH: açougueiros para aterrorizar os cordeiros.

Ontem assisti a vídeos dos jihadistas. Nada agradável, mas necessário.

Em primeiro lugar, o profissionalismo:

Fuzil AKM típico
Toda e qualquer milícia xiita que combate na Síria é militarmente bem organizada. Têm brigadas; as brigadas têm batalhões de lança-foguetes, fogo de morteiro e grupos de assalto. Cada milícia tem uniformes limpos e insígnia. Sabem trabalhar numa estrutura de comando, às vezes sob ordens do exército sírio. As armas usadas são quase idênticas. AKMs, AMDs, PMKs, SVDs, lança-morteiros de mão e RPGs (quase idênticos).

Arma anti-blindados
Os militantes sunitas/wahabbistas são ‘'ferozes'’, mas operam sem qualquer organização militar, sem uniformes, sem equipamento militar padrão. O Exército Sírio Livre é mais profissional e tem alguma estrutura. Mas os jihadistas são só confusão e profissionalismo zero. É o que se vê também na dificuldade do DAASH para controlar os próprios aliados, com brigas internas por qualquer pequena diferença, incapacidade para impedir que os milicianos cometam atrocidades (que, às vezes, são usadas como tática), e a incapacidade para lutar de modo sustentado em qualquer tipo de confronto.

A propaganda:

Pode não parecer óbvio para todos, mas os combatentes xiitas são levados à luta por algo que amam e prezam muito, i.e., o Ahlul Bayt [o “Povo da Casa” ou a “Família da Casa” (do Profeta)]. Os wahabbitas, por sua vez, em praticamente tudo que fazem, são movidos por ódio: ódio dos valores ocidentais, dos santos, dos xiitas, dos cristãos, dos judeus, de tudo que, para eles, é necessariamente sujo e corrompido.

A propaganda jihadista é baseada numa mensagem puritana. Exige que o sunita abra mão de um sistema de crenças que ele conserva há gerações (embora muitos sunitas pareçam estar-se separando, de antigos conceitos do Walis [Aquele em que se crê] e Wasilah [os meios de acesso a Deus], mais depressa do que uma stripper, de seus panos “modestos”). Os xiitas, por outro lado, estão convocados a trabalhar a favor de algo em que sempre acreditaram e acreditam.

Grupo etário:

Muitos jihadistas são homens jovens. Muitos morrem jovens. Mas rápida pesquisa na internet mostrará que a idade mínima para a iniciação de um combatente DAASH é dez anos. Entre os xiitas, exceto no caso dos escudos humanos de Khomeini, a idade mínima nunca foi inferior a 18 anos; e a idade média dos combatentes xiitas é 22 anos.

Suporte financeiro:

Nesse quesito os xiitas sempre perderam, desde os primeiros dias do Islã. Os sunitas conservaram para eles toda a riqueza e marginalizaram os xiitas. O Iraque pode alterar esse desequilíbrio. A riqueza do petróleo do Iraque e do Irã xiitas pode em breve ultrapassar a da Arábia Saudita. Mas, por hora, ricos, só os sunitas. As sanções contra o Irã têm o objetivo de criar dificuldades específicas, que impeçam o enriquecimento do país.

Propaganda:

É estranho que os vídeos do DAASH sejam praticamente sempre, horrendos. E os mesmos vídeos que são usados pelo DAASH ou pela al-Qaeda para recrutar novos seguidores-milicianos, são usados também pelos seus inimigos (seres humanos racionais) como contrapropaganda. Os vídeos de milícias xiitas jamais mostram atrocidades. Na maioria dos casos são centrados no culto do martírio. Os norte-americanos tentam super noticiar alegadas atrocidades que teriam sido cometidas por milícias xiitas; mas não funciona, porque os xiitas não acreditam em nada que lhes venha de fonte norte-americana.

Dois exemplos recentes de efetividade em combate:

(1) A retomada de Beirute pelo Hezbollah, em maio de 2008. Os homens de Hariri não aguentaram nem as primeiras sacudidas. Mas, sim, concordo: Beirute não é Trípoli. Contraexemplo, aqui, poderia ser Mosul. Mas Beirute é cidade mais misturada e complexa; e Mosul é, mais, uma cidade sunita baathista. Além do mais, a retomada de Beirute foi ação militar; e Mosul só foi tomada porque houve uma traição e colusão pré-combinadas. E
  

A vitória do Hezbollah e do Exército Sírio em Qusayr em 2013
(2) outro exemplo foi Qusayr em 2013. Jihadistas entrincheirados, com total apoio de estados árabes, da Turquia e do Ocidente, quebraram as próprias fileiras e fugiram. O Hezbollah pagou preço alto; e a Síria pulverizou quase toda a cidade de Qusayr; mesmo assim permanece o fato de que os jihadistas desertaram e fugiram. Para compreender, basta comparar esse quadro e Bint Jabil em 2006. Forças no mínimo iguais ou muito superiores, se se considera o arsenal à disposição de Israel e contra o Hezbollah; e o Hezbollah literalmente pôs Israel em fuga; o Hezbollah humilhou Israel. Por onde Israel deixa uma via de fuga, mais combatentes unem-se à luta.

A derrota de Israel para o Hezbollah em Bint Jabil em 2006
Importante, também, a autoavaliação que o Hezbollah produziu, do próprio desempenho (criticaram dois dos próprios comandantes, porque estavam no mesmo local, à mesma hora).

Qusayr realmente assustou o Império Anglo-sionista. A queda de Mosul os está petrificando de medo.



Nota dos tradutores

[1] Fremen: Várias referências a personagens da série “Dunas”.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Pepe Escobar: “Com o Hezbollah não tem conversa mole”

6/6/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Os “Amigos da Síria” estão em pânico. Foi-se Qusayr, aquela sua muito divulgada fortaleza que estaria “sob controle dos rebeldes”. Essa manchete da BBC diz tudo: “Conflito sírio: EUA condenam o sítio de Qusayr”.  
Para Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, “forças pró-governo”, para vencer, precisaram da ajuda de seus “parceiros na tirania” – Hezbollah e Irã. OK. Quer dizer que os “rebeldes” armados por Arábia Saudita, Qatar e CIA, para nem falar dos jihadis tipo Frente al-Nusra, são parceiros em quê? “Liberdade e democracia”?!

Sai a futrica, entra o fato. O eixo CCGOTAN+I (Conselho de Cooperação do Golfo + Organização do Tratado do Atlântico Norte + Israel) sofreu derrota estratégica monstro. Acabaram-se as linhas de suprimento do Líbano até Homs, para as gangues que constituem o Exército Nada-Livre Sírio e jihadistas extremistas. Agora, o Exército Árabe-Sírio [orig. Syrian Arab Army (SAA)] avançará para Homs, capital e província. Parada final, Aleppo, para expulsar as gangues que ainda se seguram em dois ou três subúrbios da cidade.

Não há como “noticiar”’ para o ocidente que Qusayr teria sido alguma espécie de “retirada tática” decidida pelas gangues. Mas os “rebeldes” dizem que “se retiraram”. Bobagem. Foram expulsos. Debandaram.

Eis, em duas linhas, como aconteceu. Qusayr estava sob controle da brigada Farouk, baseada em Homs e que integra o FSA, há nada menos que 18 meses. Há seis meses, o Exército Árabe Sírio já havia desimpedido a estrada norte-sul, não distante da cidade – essencial para os contatos entre Damasco e Aleppo.

Mapa e minifotos - BBC, UK

Qusayr era estrategicamente crucial, como local de depósito e guarda de armamento para as gangues; sunitas no Líbano não paravam de embarcar armas para as gangues, através do vale do Bekaa. Assim sendo, o Exército Árabe Sírio tratou de, para começar, cercar Qusayr. Foi quando o Hezbollah entrou em cena – depois de a população de Qusayr, cerca de 30 mil pessoas, já terem saído de lá, para o Líbano ou para a Jordânia.

A tática esperta do Exército Árabe Sírio foi deixar que a brigada al-Tawhid, com base em Aleppo, entrasse também em Qusayr para reforçar a brigada al-Farouk. E quando essas duas brigadas “top” das gangues do Exército Nada-Livre Sírio estavam reunidas, o Exército Árabe-Sírio atacou. Já não havia civis na área, exceto alguns agricultores fora da cidade. É guerra. Não houve qualquer “genocídio”.

E foi quando Paris meteu o pé na jaca química

Sheikh Nasrallah
Quando o eixo CCGOTAN começará a aprender? Sheikh Nasrallah, do Hezbollah, investira toda a sua reputação: foi à televisão e prometeu a vitória. Nasrallah não falha: se promete, ele faz. Mas, diferente do que “noticia” a mídia ocidental, o Hezbollah não fez tudo sozinho: foi uma combinação de ações do Exército Árabe Sírio, e de especialistas do Hezbollah e do Irã, reunidos para pôr em operação uma sequência de táticas cuidadosamente pensadas e para um verdadeiro show de sabedoria e talento nas artes de pôr fim a ações de guerrilha urbana.

Não se deve esquecer que um dos mais molhados sonhos molhados dos Think-tankeiros na Think-Tankelândia nos EUA, já há meses, era pôr o Hezbollah contra os jihadistas ligados à al-Qaeda dentro da Síria. Aconteceu.

Mas os combatentes do Hezbollah não precisam avançar além de Qusayr, dentro da Síria (a cidade fica a apenas 10km da fronteira libanesa). Na prática, sua “missão” continua a ser garantir a segurança no lado sírio da fronteira libanesa.

Laurent Fabius
O timing também foi obra-prima: a “queda” de Qusayr fez gorar completamente um movimento monstro de propaganda sobre “armas químicas” orquestrado por Paris. O Ministro de Relações Exteriores, Laurent Fabius ofega já, de tanto repetir que “o exército de Bashar” usou gás sarin contra “os rebeldes”. A imprensa francesa, em surto, clama por uma intervenção militar.

Só que há um probleminha. Soterrado sob as matérias gigantes de puro sensacionalismo em Le Monde ou Liberation, há o fato de que as análises francesas (baseadas em duas amostras, uma das quais recolhida por repórteres do Le Monde) não informam quem usou o gás sarin: se o governo, se os “rebeldes”. Nem os especialistas da ONU, no relatório oficial, confirmam o que Fabius tanto repete.

Assim sendo e mais uma vez: melhor ninguém se meter com o Hezbollah. Pode-se imaginar o nível rompe-tímpanos da ira que toma conta de Washington, Londres, Paris, Telavive, Riad e Doha. A “resposta” – ou a vingança – pode ser incendiar o Líbano. Os cortesãos habituais do império tipo Brookings Institution já fazem o luto da presa-Oriente-Médio perdida para um “agressivo eixo russo-iraniano”. E nem uma palavra contra o agressivo eixo CCGOTAN+Israel empenhado em destruir completamente a Síria, para ali instalar um estado-fantoche islamista pró-Ocidente?!

O show “Susan & Samantha”

Susan Rice
E agora, para integrar-se ao drama, chegam Susan Rice, como nova Conselheira Nacional de Segurança dos EUA; e Samantha Power, como nova embaixadora dos EUA no Conselho de Segurança da ONU. Vale lembrar que, com Hillary Clinton, essas duas formavam o conjunto “As Três Graças” da “intervenção humanitária” e fizeram o diabo, até conseguirem destruir a Líbia à bomba.

Seja qual for a estratégia requentada que Susan e Samantha ressuscitem, Rússia e China vetarão tudo. Além do mais, até o establishment em Washington já admite que as alternativas são piores e ainda mais deletérias.

E afinal, como se ainda faltasse alguma coisa, a Turquia está mergulhada no torvelinho “Praça Taksim/Occupy Gezi/Abaixo o Ditador” – e a última coisa a que Erdogan dedicará os pensamentos de sua periclitante cabeça é continuar a armar bandos de “rebeldes” fujões.

Quanto às conversações Genebra 2 – co-patrocinadas por Washington e Moscou – a próxima reunião preparatória só acontecerá em cerca de três semanas. Significa que se Genebra acontecer – um grande “se”, considerando-se que os “rebeldes”, completamente desmontados, provavelmente boicotarão a reunião – não acontecerá antes do início de julho, talvez depois. Tempo de sobra, para que o Exército Árabe Sírio continue a avançar. Mas tempo demais, também, para que o eixo CCGOTAN continue a negar ao “povo sírio” o direito de decidir quem conduzirá os sírios para fora do pântano dessa amaldiçoada guerra por procuração.