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domingo, 29 de junho de 2014

Iraque: “Duas análises curtas numa análise longa” − por Mindfriedo

28/6/2014, The Saker, Mindfriedo, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
(1) A queda de Mosul foi boa para os milicianos xiitas?

Até o início de 2014, os EUA vinham pressionando Maliki para que “contivesse” as milícias xiitas. O argumento era que os xiitas poderiam desestabilizar o próprio governo; que eram aliados do Irã; e que estavam acumulando experiência de combate na Síria. O governo do Iraque formou brigadas, como “Lobo” (comandada por Abu al-Walid, comandante combatente em Tal Afar), “Tigre” e “Escorpião”, para conter a ameaça que aquelas milícias xiitas poderiam ser – mas, sobretudo, como uma ferramenta para manter organizados os sunitas.

Abu al-Walid
Outras medidas incluíram fechar a fronteira do Iraque com a Síria e suspender voos diretos. Essas duas medidas pareceram visar aos jihadistas sunitas, mas visavam de fato a conter o fluxo de combatentes xiitas. Maliki tampouco ficou muito satisfeito com essas medidas. E a segunda não passou de gesto simbólico do governo iraquiano, porque os voos entre Irã e Damasco prosseguem normalmente. A ameaça dos EUA, de criar uma zona aérea de exclusão sobre a Síria, visava a tentar impedir esses voos. Os voos de vigilância aérea sobre o Iraque e a ocupação pelos jihadistas da fronteira Iraque-Síria visam exclusivamente a tentar deter o fluxo de combatentes xiitas.

O envio de norte-americanos para o Iraque, depois da queda de Mosul, visa principalmente a monitorar os xiitas, muito mais que os sunitas.

Os norte-americanos conhecem as revoluções sunitas e sabem como inverter a ganga. Mantêm contatos com anciãos sunitas e com ex-Ba’athistas que podem usar para “domar” qualquer insurgência sunita. O problema dos EUA são os xiitas, que eles absolutamente nunca conseguiram controlar. O que você não controla sempre o amedronta.

Os EUA estavam também interessados em usar clérigos xiitas moderados, como Sistani, para conter o ímpeto dos grupos de jihadistas xiitas. Mas isso mudou, agora, em certa medida. A conclamação de Sistani às armas foi a melhor tática para aumentar o recrutamento que as milícias xiitas poderiam ter esperado. Sistani disse especificamente que os jovens deviam alistar-se no exército. Os jovens captaram a mensagem de que devem lutar, mas alistaram-se nas milícias xiitas. Os jovens não são bobos e sabem quem vence e quem perde guerras por ali.

Área de atividade do ISIS/ISIL/DAASH
Agora, o governo iraquiano está confiando naquelas milícias para conter o ISIS/ISIL/DAASH. O governo iraquiano não restringirá o treinamento de combatentes no Irã, nem o livre fluxo deles entre Síria e Iraque; e se oporá a qualquer pressão, pelos EUA, para fechar aquele fluxo. É o que se pode ver nos elogios que Maliki fez aos ataques aéreos sírios no Iraque, aos quais normalmente qualquer primeiro-ministro teria de opor-se.

Diferentes dos combatentes sunitas do ISIS/ISIL/DAASH (chechenos, afegãos, sauditas, marroquinos, europeus, etc.) os combatentes xiitas são predominantemente árabes, do Iraque e do Levante que o DAASH tanto quer “salvar”. Os árabes sunitas e as tribos sunitas estão aliados ao DAASH por conta de um sentimento de terem sido deixados de fora (em parte, efeito da propaganda; em parte, frustração genuína). Mas essa é dificuldade com a qual terão de viver. O poder que um dia tiveram, hoje, já não têm e ele não voltará. Quanto mais lutarem, mas Bagdá se converterá em cidade xiita e maior será a frustração dos sunitas. Muitos dar-se-ão conta disso; mas alguns continuarão cada dia mais radicais, por ação da propaganda saudita.

Enquanto isso, as milícias se converterão nos novos Fremen contra os Sadukar (DAASH) do Império (anglo-sionista), à espera de seu Muad'Dib (Mahdi). [1]

O duro, difícil ambiente do Iraque e a ameaça que cresce contra as milícias xiitas as manterão sempre alertas e atentas, sempre em estado de prontidão, mais bem treinadas e mais fortes a cada dia, aprendendo valiosas lições que só a luta ensina e superando o DAASH sunita em habilidades, talento, profissionalismo e moral.

(2) Milicianos xiitas são mais “ferozes” que sunitas (wahhabi)?

Uma velha piada do tempo colonial. Os britânicos queriam formar uma brigada muçulmana. Perguntaram aos muçulmanos: quais de vocês são os mais ferozes? Os muçulmanos, meio sem entender a pergunta dos “Tommys” responderam: “nossos açougueiros são ferocíssimos”. E os britânicos organizaram a brigada de muçulmanos açougueiros ferozes.

Quando os combates começaram, os açougueiros não punham o pé fora das trincheiras. O comandante “Tommy” berrou: “Por que não avançam? Vão à luta!”.

E o kassab [açougueiro] respondeu: “Ah, meu amigo, amarre eles e traga até aqui, que nós cortamos em pedaços!”.

Eis os combatentes do DAASH: açougueiros para aterrorizar os cordeiros.

Ontem assisti a vídeos dos jihadistas. Nada agradável, mas necessário.

Em primeiro lugar, o profissionalismo:

Fuzil AKM típico
Toda e qualquer milícia xiita que combate na Síria é militarmente bem organizada. Têm brigadas; as brigadas têm batalhões de lança-foguetes, fogo de morteiro e grupos de assalto. Cada milícia tem uniformes limpos e insígnia. Sabem trabalhar numa estrutura de comando, às vezes sob ordens do exército sírio. As armas usadas são quase idênticas. AKMs, AMDs, PMKs, SVDs, lança-morteiros de mão e RPGs (quase idênticos).

Arma anti-blindados
Os militantes sunitas/wahabbistas são ‘'ferozes'’, mas operam sem qualquer organização militar, sem uniformes, sem equipamento militar padrão. O Exército Sírio Livre é mais profissional e tem alguma estrutura. Mas os jihadistas são só confusão e profissionalismo zero. É o que se vê também na dificuldade do DAASH para controlar os próprios aliados, com brigas internas por qualquer pequena diferença, incapacidade para impedir que os milicianos cometam atrocidades (que, às vezes, são usadas como tática), e a incapacidade para lutar de modo sustentado em qualquer tipo de confronto.

A propaganda:

Pode não parecer óbvio para todos, mas os combatentes xiitas são levados à luta por algo que amam e prezam muito, i.e., o Ahlul Bayt [o “Povo da Casa” ou a “Família da Casa” (do Profeta)]. Os wahabbitas, por sua vez, em praticamente tudo que fazem, são movidos por ódio: ódio dos valores ocidentais, dos santos, dos xiitas, dos cristãos, dos judeus, de tudo que, para eles, é necessariamente sujo e corrompido.

A propaganda jihadista é baseada numa mensagem puritana. Exige que o sunita abra mão de um sistema de crenças que ele conserva há gerações (embora muitos sunitas pareçam estar-se separando, de antigos conceitos do Walis [Aquele em que se crê] e Wasilah [os meios de acesso a Deus], mais depressa do que uma stripper, de seus panos “modestos”). Os xiitas, por outro lado, estão convocados a trabalhar a favor de algo em que sempre acreditaram e acreditam.

Grupo etário:

Muitos jihadistas são homens jovens. Muitos morrem jovens. Mas rápida pesquisa na internet mostrará que a idade mínima para a iniciação de um combatente DAASH é dez anos. Entre os xiitas, exceto no caso dos escudos humanos de Khomeini, a idade mínima nunca foi inferior a 18 anos; e a idade média dos combatentes xiitas é 22 anos.

Suporte financeiro:

Nesse quesito os xiitas sempre perderam, desde os primeiros dias do Islã. Os sunitas conservaram para eles toda a riqueza e marginalizaram os xiitas. O Iraque pode alterar esse desequilíbrio. A riqueza do petróleo do Iraque e do Irã xiitas pode em breve ultrapassar a da Arábia Saudita. Mas, por hora, ricos, só os sunitas. As sanções contra o Irã têm o objetivo de criar dificuldades específicas, que impeçam o enriquecimento do país.

Propaganda:

É estranho que os vídeos do DAASH sejam praticamente sempre, horrendos. E os mesmos vídeos que são usados pelo DAASH ou pela al-Qaeda para recrutar novos seguidores-milicianos, são usados também pelos seus inimigos (seres humanos racionais) como contrapropaganda. Os vídeos de milícias xiitas jamais mostram atrocidades. Na maioria dos casos são centrados no culto do martírio. Os norte-americanos tentam super noticiar alegadas atrocidades que teriam sido cometidas por milícias xiitas; mas não funciona, porque os xiitas não acreditam em nada que lhes venha de fonte norte-americana.

Dois exemplos recentes de efetividade em combate:

(1) A retomada de Beirute pelo Hezbollah, em maio de 2008. Os homens de Hariri não aguentaram nem as primeiras sacudidas. Mas, sim, concordo: Beirute não é Trípoli. Contraexemplo, aqui, poderia ser Mosul. Mas Beirute é cidade mais misturada e complexa; e Mosul é, mais, uma cidade sunita baathista. Além do mais, a retomada de Beirute foi ação militar; e Mosul só foi tomada porque houve uma traição e colusão pré-combinadas. E
  

A vitória do Hezbollah e do Exército Sírio em Qusayr em 2013
(2) outro exemplo foi Qusayr em 2013. Jihadistas entrincheirados, com total apoio de estados árabes, da Turquia e do Ocidente, quebraram as próprias fileiras e fugiram. O Hezbollah pagou preço alto; e a Síria pulverizou quase toda a cidade de Qusayr; mesmo assim permanece o fato de que os jihadistas desertaram e fugiram. Para compreender, basta comparar esse quadro e Bint Jabil em 2006. Forças no mínimo iguais ou muito superiores, se se considera o arsenal à disposição de Israel e contra o Hezbollah; e o Hezbollah literalmente pôs Israel em fuga; o Hezbollah humilhou Israel. Por onde Israel deixa uma via de fuga, mais combatentes unem-se à luta.

A derrota de Israel para o Hezbollah em Bint Jabil em 2006
Importante, também, a autoavaliação que o Hezbollah produziu, do próprio desempenho (criticaram dois dos próprios comandantes, porque estavam no mesmo local, à mesma hora).

Qusayr realmente assustou o Império Anglo-sionista. A queda de Mosul os está petrificando de medo.



Nota dos tradutores

[1] Fremen: Várias referências a personagens da série “Dunas”.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

“A noite do Iraque é longa”

17/6/2014, [*] Vijay Prashad (de Beirute), Counterpunch [1]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“A noite do Iraque é longa
A aurora só raia para os assassinados,
rezando meia reza e sem terminar de dizer um bom-dia a alguém”
Mahmoud Darwish, Athar al-Farasha. [2]

A noite do Iraque - Bagdá
Norte do Iraque, entre a região dos curdos e Bagdá, convulsionado antes da blitzkrieg de três formações – o Estado Islâmico do Iraque e Síria Expandida (ISIS), o Exército Islâmico Iraquiano (comandado por ex-ba’athistas) e elementos do ex-Conselho Shura Mujahedin. Como os mongóis, o ISIS – a força principal – corre livremente pela paisagem. Não demorou muito para que soldados do exército iraquiano despissem os uniformes e se unissem às caravanas de iraquianos que fugiam do norte e do sul, deixando para trás cidades do rio Tigre, Mosul e Tikrit, e também outras, do oeste, como Tal Afar – pela estrada que liga o Iraque à Síria. Os soldados iraquianos capturados pelo ISIS e seus confederados passaram horas de horror.

Os soldados do ISIS os dividiram em grupos, por seitas. Ante suas próprias câmeras de vídeo, os soldados do ISIS massacraram os soldados xiitas – 1.700, conforme relato deles mesmos – e, na sequência, distribuíram os vídeos on-line. Soldados sunitas foram obrigados, sob ameaça de morte, a declarar fidelidade eterna ao Estado Islâmico. A comissária para Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, já disse que aquelas mortes são crimes de guerra.

O ISIS é a força que lidera essa nova aventura, mas não está só. Com ele está o Exército Islâmico Iraquiano, liderado pelo ex-vice-presidente de Saddam Hussein, Izzat al-Dori Ibrahim; e a Associação Ulema Muçulmana [orig. Muslim Ulema Association]. O que liga essas três forças – extremistas da al-Qaeda, ba’athistas e militares iraquianos que debandaram – é o desespero ante o sectarismo do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki e os fracassos do estado iraquiano que não se conseguiu implantar nas cidades predominantemente sunitas do Rio Tigre.

Muqtada al-Sadr

O Iraque é governado por lobos, sedentos de sangue, almas sedentas só de riquezas, que deixam a nação afundada em sofrimento, em medo, em fossas, nas noites escuras iluminadas só pela lua ou por uma vela, num pântano de assassinatos causados por diferenças ou por qualquer ridículo desentendimento.

Partiu para o Irã, farto da política e da violência em sua terra. Esse desespero é que deu ao ISIS a oportunidade para construir suas bases no norte do Iraque.

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair disse que o crescimento do ISIS nada teria a ver com a Guerra do Iraque de 2003; que seria resultado da inação do ocidente na Síria.

Mas o ISIS nasceu em 2004, primeiro como al-Qaeda-no-Iraque, liderado pelo jordaniano sanguinário Abu Musab al-Zarqawi; dois anos depois, foi recriado como Estado Islâmico do Iraque. O lento crescimento nas pequenas cidades do norte do Iraque, entre ex-militares iraquianos e experientes e duros combatentes ba’athistas ajudou o Estado Islâmico a crescer, apesar de os EUA terem destruído as cidades de Fallujah e Ramadi, e do Despertar Sunita, movimento de 2005. Com o interesse pelo Despertar Sunita já sumindo em Washington e Bagdá, seus militantes uniram-se ao Estado Islâmico. São os veteranos da insurgência contra a ocupação do Iraque por EUA e Grã-Bretanha. Absolutamente nada têm a ver com a Síria.

Abu Bakr al-Baghdadi
Quando a guerra começou na Síria em 2011, foi o Estado Islâmico no Iraque, sob a liderança dinâmica de Abu Bakr al-Baghdadi – como Radwan Mortada de al-Akhbar descobriu – que ajudou a montar a afiliada da al-Qaeda na Síria, Frente al-Nusra. Ao longo de 2012 e 2013, o ISIS e a Frente al-Nusra começaram a desentender-se, com a segunda entendendo que teria autoridade sobre a Síria e querendo que os sírios fizessem a parte principal dos combates naquele país. O Estado Islâmico expandiu o próprio nome para Estado Islâmico do Iraque e Síria Expandida [também dito “o Levante” (NTs)], aumentando seu contingente com combatentes importados de todo o mundo. No início de 2014, já havia cerca de 100 mil combatentes interessados em defender as cores do ISIS. Muitos não são jihadistas, como descobri, mas veteranos endurecidos do Despertar Sunita e seu tipo de gente. O ISIS ofereceu o veículo perfeito para suas frustrações.

Apesar dos desentendimentos com a Frente al-Nusra, o ISIS manteve o controle das cidades de Raqqa e Deir ex-Zor no norte da Síria, tomadas desde meados de 2013. Assaltos a campos de petróleo no leste da Síria e a venda de antiguidades ajudaram o ISIS a aumentar o fluxo de suas rendas, as quais, antes, dependiam de impostos cobrado no norte do Iraque e de doações privadas de xeiques árabes do Golfo. Até semana passada, havia cerca de 500 milhões de dólares nos cofres do ISIS. O saque de Mosul rendeu-lhes US$ 1,5 bilhões, como mostrou Martin Chulov, do The Guardian, e a tomada da refinaria de petróleo de Baiji oferece potencial para mais recursos.

Dado que as tropas do Iraque ofereceram pequena resistência, o ISIS e aliados capturaram equipamento militar em excelentes condições, grande parte do qual oferecido pelos EUA aos iraquianos, para combaterem contra... o ISIS. Essas armas serão agora usadas na Síria e no Iraque, para promover a agenda do ISIS (criar um estado islâmico). Umas das primeiras coisas que o grupo fez quando tomou Mosul foi destruir os postos de fronteira entre Síria e Iraque, como gesto de propaganda. Sua visão sonhada de um cinturão que ligue Trípoli (do Líbano) às fronteiras do Irã já é quase realidade.

Nos arredores de Mosul, um soldado do ISIS ri, sentado ante um muro em que se lê :
“O exército iraquiano é um garfo nos Olhos do Terrorismo”

O rápido avanço atraiu resposta combinada e coordenada das duas Forças Aéreas, síria e iraquiana. Helicópteros iraquianos atacaram o cemitério onde está sepultado Saddam Hussein em al-Auja, perto de Tikrit. Foi recado de Bagdá aos ba’athistas, e planejado para incendiar, muito mais do que para conter. É muito perigoso. O nacionalismo iraquiano morreu asfixiado nos cárceres do [partido] Ba’ath – e já não é alguma espécie de base à qual o governo de Nouri al-Maliki possa recorrer. Ele está confiando na moeda do sectarismo.

A coordenação entre os exércitos da Síria, Iraque e Iran – com a Turquia nas coxias – já está montada. Mas é coordenação que sempre cheirará a sectarismo, a menos que a Turquia tome parte nas operações, o que pode acontecer se vir que a fragmentação esteja levando à unidade entre os Curdistões sírio e iraquiano. Esse Curdistão unificado, terra dos curdos, seria desafio direto à Turquia. Melhor matar essas possibilidades quando ainda em botão.

Falah Alwan
Clamores dos sindicatos iraquianos, de que o povo combaterá contra o ISIS, numa plataforma nacionalista, como se ouviram, de Falah Alwan, da Federação dos Conselhos de Operários e Sindicatos do Iraque, não serão ouvidos. Poucos podem avaliar o que Alwan diz quando diz que “exigimos clara e diretamente o fim do sectarismo” – objetivo muito nobre, mas inaudível ante as barulhentas armas sectárias do ISIS. E entrega o povo curdo à guerrilha peshmerga curda e à Unidade de Defesa Popular (YPG) curda; e os xiitas a al-Maliki e aos milicianos seus preferidos.

Os arsenais-cofres de sectarismos, que a campanha “Choque e Pavor” dos EUA abriu em 2003, fornecem hoje a moeda que mais circula no Iraque e na Síria – uma tragédia de descomunais proporções.

O ISIS avançou pelo Tigre rumo a Bagdá, mas foi detido perto de Samarra. Não por militares iraquianos que fizessem um muro ali – em foto feita nos arredores de Mosul, um soldado do ISIS ri, sentado frente a um muro em que se lê “O exército iraquiano é um garfo nos Olhos do Terrorismo” – Aquele exército desapareceu. Dele, já não se vê nem traço.

Em lugar daquele exército, só se veem hoje milícias xiitas, como Asa’ib Ahl al-Haq (AAH), dissidência do Exército Mahdi, muito prestigiada por al-Maliki. Seu líder, Qayis Khazali, foi expulso do Exército por al-Sadr, por ser imprevisível e incontrolável. Seu grupo permaneceu ativo no Iraque, acusado de ludibriar as forças de segurança e de reunir os combatentes mais cruéis ativos na região do santuário de Sayida Zainab em Damasco, Síria. Os soldados do Hezbollah reclamam que os combatentes do AAH têm de receber treinamento à parte, para se acalmarem e aprenderem a se autocontrolar. O importante clérigo xiita aiatolá Ali Sistani emitiu uma fatwa conclamando “todos os iraquianos fisicamente capazes” a defender o Iraque contra o ISIS. Foi como acionar o detonador do AAH e seus ramos coligados. Ammar al-Hakim, líder do Supremo Conselho Islâmico do Iraque, despiu o traje de clérigo e meteu-se em uniforme de campanha, de soldado. Aquela luta é assim: sectária até o fundo, por dentro e por fora.

Nouri al-Maliki
Antes de partir para o Irã, al-Sadr criticou muito o sectarismo de al-Maliki e o crescimento do poder de grupos como o AAH. Disse que estavam alienando os iraquianos e preparando a mesa para grandes confusões. Agora, está conclamando para que se reforme seu Exército Mahdi, e para uma manifestação de força, marcada para o próximo dia 21 de junho. É pouco provável que seja ouvido em outros grupos, fora dos caixotes sectários para os quais os iraquianos provavelmente se encaminharão.

Não há qualquer base objetiva para o nacionalismo iraquiano, como tampouco há para o nacionalismo sírio. São países fraturados, quebrados pela guerra. Sírios e iraquianos são prisioneiros numa prisão em chamas. Não há saídas fáceis, sem barreiras.

As promessas dos EUA, de que bombardearão o ISIS, do céu, não ajudam nem aliviam em nada. No máximo conseguirão deter o avanço deles, mas não diminuirão o poder deles, que se alastra de partes de Aleppo na Síria, até os arredores de Bagdá no Iraque. E, aqui, quem mais tem a perder é o Irã.

O Irã já mandou grupos de seus Guardas Revolucionários para ajudar a formar uma linha de defesa na província de Diyala, cuja principal cidade Baquba, é o berço onde nasceu o Estado Islâmico do Iraque. É a parte do Iraque onde vivem xiitas e sunitas, e será bom teste para aferir a unidade de todos contra o ISIS e a favor de qualquer coisa que não seja o sectarismo de al-Maliki.

Guardas Revolucionários da República Islâmica do Irã
Al-Sadr, pelo que me disseram, está interessado em criar uma versão iraquiana do Hezbollah, com raízes na comunidade xiita do Líbano, mas com aspirações de ser uma força árabe nacionalista.

A criação dessa força contribuiria, sim, na direção de construir uma plataforma não sectária, a partir da qual combater o ISIS. É ação mais efetiva, que uma campanha de bombardeio.

[*] Vijay Prashad é professor de estudos internacionais no Trinity College. Dentre outros livros, é autor de The Darker Nations: A People's History of the Third World e Arab Spring, Libyan Winter. Publica regularmente em Asia Times Online, Frontline magazine e Counterpunch. É entrevistado regularmente pela TRNN - The Real News Network - sobre Geopolítica e Política internacional.


Notas dos tradutores

[1] Dica de Pepe Escobar, pelo Facebook. 
[2] Orig. “Iraq’s night is long / Dawn breaks only to the murdered, Praying half a prayer and never finishing a greeting to anyone”.[Trad. ao ing. Sinan Antoon. Trad. de trabalho, ao port., sem acesso ao original, só para ajudar a ler].

terça-feira, 17 de junho de 2014

Obama tergiversa sobre a odisseia iraquiana

16/6/2014, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O que se desdobra hoje no Iraque é a culminação do que Paul Bremer, pau-mandado escolhido a dedo pelo presidente George W Bush (Paul Bremer presidiu o Governo Provisório de Coalizão em Bagdá, de 2003-2004), perpetrou contra o povo iraquiano, quando desenvolveu com chicana e implementou com deliberação a atual Constituição, que é baseada num sistema político que representa confissões religiosas, com o objetivo de matar o nacionalismo iraquiano.

Dia 28/6/2008, Bremer disse em seu discurso de despedida, quando transferiu formalmente ao governo provisório iraquiano a soberania já limitada do Iraque: “Uma parte do meu coração permanecerá para sempre aqui, nessa bela terra entre dois rios”. De fato, estava dizendo: uma parte dos EUA.


Paul Bremer (de terno) no Iraque
Ao final de uma semana de críticas ferozes contra suas políticas para o Oriente Médio, o presidente dos EUA Barack Obama rompeu o silêncio, na 6ª-feira passada (13/6/2014), com declaração formal na Casa Branca em Washington, DC, sobre os desenvolvimentos dramáticos no norte do Iraque que resultaram na queda de Mosul e outras cidades em mãos do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ing. ISIL), no início daquela semana.

A melhor parte da declaração foi que Obama não repetiu seu refrão preferido, “todas as opções estão sobre a mesa”, no caso da situação de crise no Iraque.

Uma opção pelo menos está excluída, pelo menos agora: “coturnos em solo”. Obama disse categoricamente que não mandará tropas de combate ao Iraque. Disse claramente que essa não é guerra dos EUA. Por outro lado, reconheceu que as forças armadas do Iraque precisam de apoio e disse que os EUA planejam oferecer assistência.

Mas é pouca coisa e pouco consola. A declaração de Obama veio carregada de ambiguidades, que obrigam a acrescentar um ponto de interrogação nas intenções dos EUA...

Obama falou de “ações seletivas por nossos militares”, que andariam mãos-nas-mãos com um “desafiador esforço internacional para tentar reconstruir” o Iraque. Em suma, uma estratégia de engajamento de longo prazo dos militares dos EUA, sim, pode estar escrita nas estrelas...

Quando começará a intervenção? Obama esclareceu: “Demorará vários dias” – depois de afirmar que “mantemos bons olhos na situação lá... [e] reunimos toda a inteligência necessária”, de tal modo que as operações serão “focadas, de precisão e terão efeito”.

Washington estaria em consultas com outros países e, essa semana, Obama esperava ter “melhor noção” de como eles poderiam “apoiar um esforço [internacional]”. E disse também que “esse é problema regional e será problema de longo prazo.” Em outras palavras, um princípio cardinal da chamada Doutrina Obama continua ativo aí: os EUA não intervirão como atirador-solitário; é indispensável uma coalizão de vontades.

Barack Obama em discurso sobre o Iraque
A Primavera Iraquiana

Obama isolou o ISIL como único ator que ameaça o Iraque e “eventualmente” também ameaça interesses norte-americanos. Mas é difícil crer que, com toda a estrutura de inteligência que tem sob seu comando, Obama não saiba o que praticamente todo o planeta já sabe hoje, quero dizer: que há muitos peixes no aquário de Mosul, e que o ISIL é apenas um daqueles peixes.

O ponto é que antigas facções Ba'athistas, oficiais de exército que serviram sob Saddam Hussein, grupos sunitas tribais sectários insatisfeitos e outros estão convergindo politicamente já há algum tempo, e estão sendo ajudados por grupos Takfiri como o ISIL e o Ansar al-Sunna, que contam com combatentes bem treinados.

Testemunhas oculares em Mosul falaram de “combatentes estrangeiros” que teriam comandado o assalto inicial, logo substituídos por milícias iraquianas. Bastaria que Obama corresse os olhos pela mídia impressa, para ter visão melhor do que realmente aconteceu. O primeiro-ministro Nouri al-Maliki não estava muito longe da verdade quando disse que houve “dissimulação, engodo”.

O ex-vice-presidente do Iraque, Tariq al-Hashimi, que vive exilado na Turquia e no Qatar, chegou a saudar a queda de Mosul como a “Primavera Iraquiana”. Bem evidentemente, o golpe em Mosul contou também com poderosos apoiadores estrangeiros; é perfeitamente possível que sejam os mesmos países que financiaram, ajudaram e apostaram também no conflito sírio.

Tariq al-Hashimi
Será a ironia mãe de todas as ironias, se Obama convidar agora esses mesmos estados regionais para se unirem no “desafiador esforço internacional” para estabilizar o Iraque e tentar reconstruir o país.

O item mais intrigante de toda a declaração é que Obama só vê o ISIL em suas lamentações. É muito, muito intrigante. Porque, caso alguma intervenção no Iraque comece nos próximos dias, seja como for, o “item” ISIL pode vir a ser o álibi perfeito para, a qualquer momento, estender a operação para dentro da Síria.

Uma operação militar dos EUA em território sunita no norte do Iraque quase com certeza implicará interromper todos os elos de comunicação do Irã com a Síria.

Significativamente, Obama disse em sua declaração, que o ISIL “pode representar eventualmente uma ameaça também a interesses norte-americanos”; que houve um respingo sobre o Iraque, vindo da Síria; e que o ISIL é “parte da razão” pela qual os EUA permanecem engajados com a oposição síria.

Em segundo, Obama referiu-se insistentemente a um fracasso da liderança em Bagdá, chamando a atenção para o crescimento do sectarismo no Iraque como fator subjacente de instabilidade. Não há dúvidas de que acerta ao dizer que “na ausência de acomodação entre as várias facções dentro do Iraque, nenhuma ação militar pelos EUA ou por qualquer nação de fora, jamais resolverá esses problemas no longo prazo, e não nos dará o tipo de estabilidade de que precisamos”.

Tudo isso posto, só ficou faltando dizer que a besta de mil cabeças do sectarismo no Iraque foi criada exclusivamente pelos EUA – como o Império Britânico promoveu as animosidades indu-muçulmanos no subcontinente indiano, numa estratégia de dividir-e-governar –  e como antítese do pluralismo e da diversidade da sociedade iraquiana. E os EUA fizeram o que fizeram, com o objetivo de erradicar o nacionalismo iraquiano da era Saddam, muito temido pelas forças de ocupação.

Claro, o melhor seria que houvesse modo para uma genuína reconciliação no Iraque, se se pudesse libertar o país dos grilhões da atual Constituição que repousa sobre bases confessionais (e, sim, é mais uma herança da ocupação norte-americana) e declarar o país um verdadeiro estado secular.

Mas, infelizmente, é baixíssima a probabilidade de isso acontecer, porque o processo político sectário hoje está muito aprofundado e a polarização sectária e étnica está muito exacerbada – não só em termos da oposição sunitas-xiitas, mas também em termos da identidade curda. E tudo isso é resultado das políticas dos EUA, desde a Guerra do Iraque, em 1991.

Os iraquianos podem talvez encontrar eventualmente algum grau de equilíbrio político na sua política confessional – como aconteceu no Líbano – mas o perigo hoje mora noutro lugar. A dura realidade é que o golpe em Mosul escancara as portas para a intervenção externa – não só em termos de projeção de poder pelas potências regionais, mas também em termos de interferência pelos EUA, por potências ocidentais e até mesmo Israel.

Presença operacional da ISIS/ISIL no Iraque
(clique na imagem para aumentar)
Interesses Permanentes

Mosul é quebra-cabeça extremamente difícil de montar, que a história deixou como herança, naquela região. Para a Turquia, Mosul é portão de entrada para Diyarbakir, e perder Mosul implica os “negócios inacabados” da desintegração do Império Otamano e a complicada questão curda.

Não é por acaso que dúzias de turcos tenham sido tomados como reféns, inclusive o cônsul-geral turco, depois dos levantes da semana passada em Mosul.

Curiosamente, tirando vantagem da queda de Mosul em mãos do ISIL, a guerrilha curda Peshmerga, sob liderança de Massoud Barzani, ocupou Kirkuk (onde estão os maiores campos de petróleo do norte do Iraque.) É absolutamente fora de questão que a Peshmerga venha a desocupar Kirkuk por livre e espontânea vontade.

Tampouco é provável que, em curto prazo, alguma força militar iraquiana seja capaz de desalojar de Kirkuk a Peshmerga – os seus não menos de 250 mil combatentes muito, muito experientes.

Em resumo, o Curdistão, que é a região politicamente mais coesa do Iraque, acaba de pôr a mão num fantástico butim, que promete fazê-lo muito, muito rico. E, convenhamos, não há como negar que o Curdistão também é área de brincar para muitas potências exteriores, a começar por EUA e Turquia. É onde entra a geopolítica.

Dito em termos simples, Obama deixou de lado consciente e atentamente as questões reais que surgiram dos eventos da semana passada no Iraque. A verdade amarga é que o Iraque é nação que se está inexoravelmente desintegrando em miniestados sectários e étnicos.

O que se desdobra hoje no Iraque é a culminação do que Paul Bremer, pau-mandado escolhido a dedo pelo presidente George W Bush (Paul Bremer presidiu o Governo Provisório de Coalizão em Bagdá, de 2003-2004), perpetrou contra o povo iraquiano, desenvolvendo com chicana e implementando com deliberação a atual Constituição, que é baseada num sistema político que representa confissões religiosas, com o objetivo de matar o nacionalismo iraquiano.

Dia 28/6/2008, Bremer disse em seu discurso de despedida, quando transferiu formalmente ao governo provisório iraquiano a soberania já limitada do país: “Uma parte do meu coração permanecerá para sempre aqui, nessa bela terra entre dois rios”. De fato, estava dizendo: uma parte dos EUA!.

A democracia disfuncional do Iraque virtualmente garante o retorno dos EUA ao país. Com certeza os EUA já estão em rota de retorno, apenas cinco anos depois de o povo iraquiano ter conseguido expulsar as forças norte-americanas de ocupação. Mas há os “não sabidos sabidos” na situação em curso, o que explica as ressalvas na declaração de Obama.

Principalmente, a queda de Mosul torna-se mais um ponto de ruptura na rivalidade sauditas-iranianos. E Obama avança sinuosamente, dadas as recentes dificuldades nas relações EUA-Sauditas, e o estado delicado do engajamento Washington-Teerã sobre a questão nuclear.

Mais uma vez, é inimaginável que a Turquia se mantenha inativa num fluxo geopolítico no qual o futuro de Mosul – e a questão curda– estão sendo coreografados outra vez. No século passado, os britânicos foram os árbitros, que os EUA até podem ter substituído hoje; mas os interesses turcos permanecem constantes.

Segundo se lê na imprensa turca, quando o primeiro-ministro Recep Erdogan procurou Obama para falar sobre a situação no Iraque, quem respondeu o telefonema foi o vice-presidente Joe Biden.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.