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sábado, 23 de agosto de 2014

IRAQUE: Relatório de Situação, SITREP − 16-19/8/2014, Mindfriedo: Batalha pela Barragem de Mosul

19/8/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Contando, ninguém acredita, mas...“19/8/2014: A ONU decidiu entregar suprimentos para meio milhão de refugiados iraquianos. A ajuda incluirá tendas, alimento e água e medicamentos básicos. A maior parte da ajuda chegará pela Turquia e Jordânia. São as mesmas rotas pelas quais o ISIL chegou à região”.


The Saker
Nosso profundo agradecimento ao Saker que permite que esses Relatórios de Situação (SITREP ou RELSIT) sejam publicados aqui, e por ele sempre combater o bom combate. Que Deus continue a inspirá-lo. Farei o possível para redigir SITREPs ou RELSITs mais frequentes.

ISIS-ISIL - Mapa da atual situação (22/8/2014)

  • 16/8/2014: Autoridades curdas planejam rearmar suas forças com equipamento pesado, mais moderno.

  • 16/8/2014: Mohammad Ali al-Hakim, Ministro de Relações Exteriores do Iraque à ONU pede que todas as nações do mundo declarem o ISILorganização terrorista e trabalhem coletivamente contra ela.

  • 16/8/2014: Aviões norte-americanos estão atirando contra alvos do ISIL em torno da barragem de Mosul, no que será operação conjunta Iraque-Peshmerga [1] curda em assalto por terra para tentar recapturar a barragem tomada pelo ISIL. Acredita-se que o ISIL não bombardeou a barragem nem abriu comportas, o que teria inundado as próprias áreas onde eles estão. A barragem exige manutenção constante e acredita-se que tenha sido gravemente danificada durante o curto tempo em que esteve sob controle do ISIL.

  • 16/8/2014: Walter Steinmeier, ministro de Relações Exteriores da Alemanha chega a Bagdá para coordenar a entrega de ajuda humanitária. Deve visitar também o Curdistão Iraquiano.

  • 16/8/2014: Três homens que se acredita que sejam de milícias xiitas foram mortos e 10 foram feridos num ataque de bomba junto à estrada no sul de Samarra.

  • 16/8/2014: A Força Aérea Iraquiana bombardeou um comboio de 30 veículos de combatentes rebeldes/ISIL próximo da Barragem de Mosul.

  • 16/8/2014: Ataques aéreos iraquianos contra uma reunião de rebeldes ISIL em Qaim, oeste de Anbar; os seguintes altos comandantes do ISIL foram notificados mortos: Abu Mohammed al-Shami, Abu Fatima Moroccan, Sami Mahlawi , Abu Anas al-Samarrai, Omar al-Shishani , Ahmed Awad e Abu Mohammed al-Adnani.

  • 16/8/2014: Em outro ataque em Jurk al-Sakher, norte de Babil morreram 22 rebeldes do ISIL, inclusive sete estrangeiros.

  • 16/8/2014: Malik al-Arak, líder do ISIL foi morto por foguete teleguiado em ataque pelas forças de segurança do Iraque em Latifiya, ao sul de Bagdá. Dois terroristas do ISIL que o acompanhavam também foram mortos.

  • 17/8/2014: As forças Peshmerga continuam a avançar em direção à barragem de Mosul, ajudadas pela força aérea dos EUA. Forças curdas combatem nas áreas de Baqofa e Babera e avançam em direção a Tilkaif , al-Qwesat e Wank.
Curdistão Iraquiano - Região Autônoma

  • 17/8/2014: Os Peshmergas também receberam armamento avançado de países ocidentais para combater o ISIL. Os Peshmerga estão preparando assalto na região de Sinjar e reganharam território do qual haviam fugido.

  • 17/8/2014: O Comando Central dos EUA (CENTCOM) anuncia que realizou nove ataques aéreos perto da barragem de Mosul e perto de Erbil que “destruíram ou danificaram quatro carros blindados de transporte de pessoal, sete veículos blindados, Humvees e um outro tipo de veículo blindado”. Os ataques aéreos foram realizados por jatos pilotados presencialmente e por drones.

  • 17/8/2014: Um grande assalto contra a cidade de Dhuluiya, Salah id Din, por combatentes do ISIL foi neutralizado pela força policial local e por combatentes tribais pró-governo e anti-ISIL. Três policiais foram feridos e há notícias de que 12 combatentes do ISIL foram mortos.

  • 17/8/2014: Há notícias de que combatentes do ISIL estão-se reagrupando em Tikrit e preparando trincheiras, antecipando um ataque do exército iraquiano.

  • 17/8/2014: A Aliança Nacional e seu candidato a primeiro-ministro nomeou uma comissão de negociação que se reunirá com outros blocos políticos para acelerar a formação do novo governo. A Coalizão Estado de Direito reitera que Haider Al Abadi negociará a formação do governo com outros blocos; que considerará demandas cabíveis nos termos da Constituição do Iraque e rejeitará as que contrariem dispositivos constitucionais.

  • 17/8/2014: Os cinco principais partidos políticos curdos formam uma equipe conjunta de negociação para discutir a formação do governo em Bagdá.

  • 17/8/2014: Kisho Amo Selo, sobrevivente do massacre/genocídio em Kojo, diz que, depois de dez dias de cerco, quando se esperava que a população se convertesse ao islamismo, o ISIL entrou na cidade e assassinou centenas de jovens iazidis, homens e rapazes, e levou 500 mulheres e meninas para Tal Afar.

  • 17/8/2014: Ghayeb Sarhan Sahlab, líder do ISIL, é morto em ataques aéreos na província de Salah al Din.

  • 17/8/2014: As forças de segurança iraquianas dizem que retomaram o controle de uma refinaria em Haditha, com ajuda da Força Aérea.
Abu Bakr al-Baghdadi


  • 17/8/2014: O comandante supremo do ISIL, Abu Bakr Al Baghdadi foi alvo de um ataque por drone dos EUA junto à fronteira Iraque-Síria, mas sobreviveu.

  • 18/8/2014: Políticos curdos têm falado sobre a indicação de Haider Al Abadi ao posto de primeiro-ministro, como uma oportunidade de ouro para o Iraque. Agora, os três grupos étnicos podem sentar juntos e negociar

  • 18/8/2014: Em movimento inesperado, o ISIL libertou 300 refugiados iazidis de Sinjar e autorizou-os a voltar à montanha Sinjar [não é “monte”, é montanha].

  • 18/8/2014: O ISIL executa Abu Jafar Naqshbandi, ex-oficial do exército e líder no grupo “Naqshabandi Order”, e o irmão dele, em Jalawla, por se terem recusado a seguir ordens do ISIL.

  • 18/8/2014: Apesar do colapso já quase total da resistência, as forças Peshmergaestão avançando com cautela na direção da cidade de Tilkaif ao sul da Barragem Mosul. Os que lutam na vanguarda frente à morte [obrigado pela colaboração do leitor-comentarista (ver nota 1)] temem carros-bomba ou dispositivos explosivos implantados na estrada.

  • 19/8/2014: Forças aéreas dos EUA atacam às costas do ISIL perto da Barragem de Mosul, abrindo caminho para que as forças Peshmerga assumam o controle sobre o complexo. O ISIL havia levado para lá um engenheiro de nacionalidade líbia para operar a Barragem.

  • 19/8/2014: O ISIL decidiu retirar suas forças que estavam sendo duramente atacadas por bombardeio sustentado e acurado. Mas o ISIL minou a área e deixou armadilhas para as forças Peshmerga, em residências, prédios públicos e até em corpos de combatentes mortos do ISIL.
Distâncias relativas das localidades atacadas - Iraque

  • 19/8/2014: As forças do ISIL começaram a ruir dia 17/8/2014. Pode-se dizer que, de modo geral, abandonaram as áreas de Tilkaif, Khorsapad, Bashiqa e Bartalah e fugiram para a cidade de Mosul.

  • 19/8/2014: A ONU decidiu entregar suprimentos para meio milhão de refugiados iraquianos. A ajuda incluirá tendas, alimento e água e medicamentos básicos. A maior parte da ajuda será embarcada pela Turquia e Jordânia. São as mesmas rotas pelas quais o ISIL chegou à região.

  • 19/8/2014: O sul do Iraque flutua num oceano de petróleo. A Lukoil russa despachou um navio-tanque do campo Qurna 2 Oeste, que se estima que contenha 13 bilhões de barris de petróleo. O Império da Ganância e da Arrogância jamais permitirá que o sul xiita tenha paz, ou que prospere.

  • 19/8/2014: O exército iraquiano limpou duas áreas ao norte de Bagdá: al-Thaar e Tal Tasa, de qualquer presença do ISIL.

  • 19/8/2014: Milícias xiitas, um longo caminho a percorrer: O Exército do Iraque lançou ataque contra Tikrit, hoje cedo. O exército está sendo apoiado por milícias xiitas e combatentes xiitas voluntários e por combatentes de tribos locais.

  • 19/8/2014: Feroz resistência das forças do ISIL obrigaram o exército a retirar-se, depois de sofrer uma morte e cinco feridos. O exército perdeu suas posições no sul de Tikrit e teve de retirar-se ainda mais para o sul. Falta de efetiva cobertura por ar está sendo referida como uma das razões do fracasso dessa ação. O exército iraquiano têm dito que os líderes internos do ISIL já deixaram Tikrit.

  • 19/8/2014: As forças do ISIL retiraram-se do distrito de Al-Alam, a leste de Tikrit. O ISIL também minou essa área (há dispositivos explosivos improvisados distribuídos por todas as principais estradas em Tikrit), principalmente as vias centrais da cidade.

  • 19/8/2014: Abu Mohammed al- Adnani, porta-voz do ISIL, e Saeed Arif, da Frente Al-Nusra, estão com os nomes nas listas de sanções dos EUA. É lista farsesca, que inclui também russos e iranianos. Enquanto isso, os EUA já confirmaram que o ISIL está usando carros blindados norte-americanos, para transporte de pessoal, que incluem modificações feitas pelos israelenses. Os veículos foram projetados para resistir a explosão de dispositivos explosivos improvisados e de minas, e para resistir a tiros de armas de fogo pequenas usadas pelos ISIL contra os curdos e outros grupos rebeldes na Síria. O ISIL também está usando artilharia fabricada nos EUA.
Barack Obama

  • 19/8/2014: Obama pediu que os iraquianos formem um governo de unidade e não se mostrou mais complacente, agora que os EUA estão bombardeando o ISIL. Os EUA executaram 68 ataques aéreos desde o dia 8/8/2014, para, principalmente, ajudar os curdos no norte.

  • 19/8/2014: Wasit, no sul do Iraque, recebeu 21 mil refugiados de Mosul. Acredita-se que a maioria seja xiita.

  • 19/8/2014: Todo nosso amor aos curdos. A Suécia emitiu declaração em que apoia o Curdistão Iraquiano em sua luta contra o terrorismo e apoia os refugiados curdos. Massoud Barzani agradeceu a declaração sueca e repetiu que os curdos precisam de mais armas e de armas melhores, em sua luta contra “o terrorismo”.

  • 19/8/2014: A Grã-Bretanha é afeto só. Stewart Rory, presidente da Comissão de Defesa do Parlamento Britânico reuniu-se com Massoud Barzani e apresentou-lhes saudações e lembranças de David Cameron.

  • 19/8/2014: Ibrahim al-Jaafari da Aliança Nacional Xiita reuniu-se com Saleh al-Mutlaq do partido sunita al-Arabiya para discutir a formação do governo e o status dos refugiados no Iraque.

  • 19/8/2014: Três bandeiras do ISIL apareceram hasteadas em estacas e postes de luz no distrito de Dhi Qar, sudeste de Najaf.

  • 19/8/2014: As contas do governo, para o dia de hoje: 33 combatentes do ISIL mortos em ataques aéreos em Babil. 22 combatentes do ISIL mortos em ataque da artilharia do Exército do Iraque, em suas posições em Fallujah.

  • 19/8/2014: As contas dos EUA, para o dia de hoje: 17 combatentes do ISIL mortos em ataques aéreos ao norte de Mosul.

Tema relacionado:

  • 18/8/2014: Está circulando um vídeo em que se vê um japonês preso por terroristas do ISIL na Síria, sendo espancado por seus captores. Que Deus o proteja.

  • 19/8/2014: Abu Abdullah al-Iraqi, comandante do ISIL, foi morto pelo Exército Sírio em Qalamoun. Acredita-se que seja o responsável por vários atentados com carros bombas e suicidas-bomba no Líbano.

  • 19/8/2014: Daily Star noticiou que o Hezbollah teria planejado a complexa e sofisticada ação que resultou na morte do responsável por muitos ataques em áreas xiitas do Líbano.

  • 19/8/2014: Para conter o revide: O Grande Mufti saudita Sheikh Abdul Aziz al-Sheikh, cego desde os 18 anos, declarou a al- Qaeda e o ISIL os Inimigos n. 1 do Islã.

  • 19/8/2014: Jebran Bassil, ministro libanês de Relações Exteriores declara que os refugiados iraquianos não são bem-vindos ao Líbano e que devem permanecer no Iraque.

  • 19/8/2014: O ISIL distribuiu vídeo em que se assiste à execução do jornalista norte-americano James Foley. Deus amaldiçoa os opressores (ISIL). O ISIL distribuiu vídeo em que ameaça norte-americanos, onde estejam, por atacá-los no Iraque.
James Foley



Nota dos tradutores
[1] “Escrevo só para informar que “Peshmerga” não significa “os que correm para a morte”. Significa os que enfrentam a morte ou os que lutam na vanguarda, frente à morte. Pesh é preposição que significa literalmente “em frente de”; e merga é a palavra para “morte” (extraído dos Comentários ao Relatório de Situação Iraque 16-19/8, 20/8/2014, 2h21).

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Obama mente, mente, mente: Nunca existiu “cerco do Monte Sinjar”

14/8/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O MENTIROSO EM CHEFE

Obama hoje [e, francamente, com cara de doente (NTs)]:


Rompemos o cerco do ISIL no Monte Sinjar, disse Obama. Não esperamos que haja operação adicional para evacuar pessoas daquele monte, e é improvável que tenhamos de continuar a operação de lançar ajuda humanitária do ar, sobre o monte – Obama continuou.

Essa declaração de “rompemos o cerco” é mentira.

Nunca houve “cerco” a ninguém no Monte Sinjar ou arredores. Os yazidis que fugiram foram rapidamente evacuados e chegaram à Síria, considerados bem-vindos, em operação executada por forças do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, PKK na sigla curda, e YPG, de rebeldes curdos sírios. Há agora cerca de 15 mil yazidis na parte curda da Síria. Alguns milhares de refugiados podem ainda estar nas montanhas, mas os pastores nômades que vivem ali provavelmente os ajudarão e guiarão.

O PKK já estava fazendo esse serviço três dias antes de acontecer a primeira ação dos EUA. Dia 6/8/2014, o GulfNews noticiou:

“Militantes do PKK chegaram à área de Jabal Sinjar, onde estão protegendo os sinjaris contra ataques” de militantes – disse Penjweny.

Mas outro funcionário do PUK alertou que talvez demorasse um pouco, antes de os civis poderem ser resgatados.

“O PKK está trabalhando para abrir uma passagem segura para os desalojados; não é fácil e pode demorar vários dias” – disse Harem Kamal Agha.

Aqui se vê um vídeo (a seguir, no fim do parágrafo), carregado dia 8/8/2014, sob o título “YPG e PKK resgatam refugiados de Sinjar”, que mostra parte da operação de evacuação. Observem os caminhões-tanques com água e/ou gasolina, para manter a marcha dos refugiados.


Herbert Maddison tuitou imagens da área:

Guerrilheiros #HPG [#PKK] no monte #Shingal / arredores de #Sinjar com yazidis tirados de lá, #Kurdistan #Iraque 9-8-2014.

O PKK fez ainda mais do que resgatar os yazidis:

60 guerrilheiros PKK chegaram a Lalesh, local sagrado dos #yazidis, para defender o santuário pic.twitter.com/oJ8qEp1wnM #ISIS #ISIL #Kurdistan

A única razão pela qual Obama mandou tropas e jatos para lá foi proteger a cidade de Erbil onde há um centro da CIA, o aeroporto internacional e prédios-sedes de várias empresas “ocidentais” de petróleo.

Quando os jatos dos EUA começaram a bombardear umas poucas posições do ISIL próximas de Erbil, a maioria dos yazidis já estavam em segurança e a caminho para bem longe das montanhas. Os EUA anunciaram os primeiros ataques aéreos na 6ª-feira, 8/8/2014; mas o PKK iniciara a operação para ajudar os yazidis na 3ª-feira, 5/8/2014. Jamais houve qualquer bloqueio ou sítio e os yazidis estavam em segurança a caminho da Síria, onde os refugiados receberam ajuda também do PKK.

Mas esse bom serviço, bem feito, foi serviço executado pelos socialistas do PKK e do YPG. O Departamento de Estado dos EUA classifica oficialmente o PKK como “grupo terrorista”, por sua luta contra o estado turco. Diferentes da guerrilha peshmerga comandada pelo líder curdo iraquiano Barzani, aquele pessoal é treinado, tem disciplina para combate e podem ser bem sucedidos contra o ISIL e outras organizações jihadistas. Mas esta é uma história que Obama não quer contar.

Obama precisa de uma desculpa para reintroduzir o exército dos EUA no Iraque – mas para proteger as empresas norte-americanas que estão extraindo petróleo por lá e para pressionarem para mudar o regime (“golpe”) em Bagdá. O “cerco” do Monte Sinjar foi primeira desculpa que apareceu à mão. Quase tão boa quanto o afundamento do Maine e o “incidente” no Golfo de Tonkin.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.

Iraque: a falácia da “troca das cabeças”

13/8/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Haidar al-Abadi, novo Primeiro-Ministro do Iraque
Oito anos depois que EUA e Irã combinaram a entronização de Nouri al-Maliki como primeiro-ministro do Iraque, combinaram agora substituí-lo pelo relativamente desconhecido Haider al-Abadi.

Os EUA dizem que querem governo mais “inclusivo”, e o Irã acompanha, assegurando que lá esteja, no topo, um bom amigo dos planos do Irã. Al-Abadi encaixa-se bem nos dois critérios. Mas esperar que, se se muda um cabeça, muda-se a trilha em que o Iraque está andando, é esperança vã.

Só muito raramente acontece de o problema de um país ser o homem/mulher que está no topo.

É velha falácia da política externa dos EUA que, se se troca o cabeça – sempre declarado “um novo Hitler”, tudo estaria resolvido. A falácia acaba sempre por se autoaplicar, sempre se autoconfirmando.

Começa por algum “alto funcionário do governo” [no Brasil, é sempre algum pressuposto “altíssimo”, mas sempre de governos passados, velharias já com mais de uma década bem longe de qualquer governo 8-)) (NTs)] que vaza para a “mídia” que fulano pode não ser o anjo que se supunha que fosse. Jornalistas então põem-se a recolher (ou inventar) e repetir histórias, boatos, diz-que-disses e “citações” que apoiam qualquer coisa que qualquer um tenha “declarado” à “mídia” sobre o fulano caído em desgraça.

Nouri al-Maliki, ex-Primeiro-Ministro do Iraque
Dia seguinte, o tal “alto funcionário do governo” lê o New York Times ou assiste à CNN e constata “a veracidade” do que ele próprio disse e a “solidez” da sua própria posição no governo, porque, sacomé, fulano é realmente um bandido – e o único real e grave problema a ser enfrentado – e as “provas” ali estão, na “mídia”.

Mas em geral não é quem governa uma nação que faz a nação. A nação e sua situação é que estão formando, pelo menos na mesma medida, a pessoa que a governa. Gaddafi não era o que era “porque” tivesse criado a Líbia à sua semelhança, mas porque, governando com sucesso uma Líbia unida exigia que ele fosse como era. A Rússia não está ressurgindo “por causa” de Putin, mas porque Putin deu forma às suas políticas conforme o que a Rússia é. É isso, não a personalidade dele, que lhe estão dando índices de aprovação que já atingem a estratosfera.

Maliki governou o Iraque de um modo que lhe garantiu o apoio da maioria dos eleitores no país dele. Não cedeu à chantagem pelas tribos sunitas já viciadas nas propinas que os militares norte-americanos sempre fizeram chover sobre elas. Foi essa falta de “disposição para incluir” que o fez tão bem-sucedido:

O bloco do qual o Sr. Maliki faz parte conquistou a maioria dos assentos com direito a voto no Parlamento, na eleição de abril. Pessoalmente, o Sr. Maliki recebeu mais votos que qualquer outro político.

Manifestação de apoiadores de al-Maliki (Bagdá, 12/8/2014)
Se al-Abadi modifica as principais políticas de Maliki, não terá o apoio da maioria dos eleitores e terminará ou convertido em ditador brutal, ou morto.

As duas regras do ciclo político em países sem lei aplicam-se aí:

1.     Ditador forte é substituído por fantoche fraco que recorre à força para conseguir governar sociedade fraturada.
2.     Releia a regra n. 1.

Substituir Maliki, processo complicado e ainda incerto, não mudará o Iraque, seus problemas – como o apoio dos EUA a um estado-petróleo do Curdistão, ou as decisões políticas que seus líderes terão de tomar para conservarem-se amados e vivos.



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Robert Fisk − Crise no Iraque: “Mandato” ocidental limitado às fronteiras nacionais – e não se atrevam a falar de petróleo

10/8/2014, [*] Robert FiskThe Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Se os islamistas capturam Aleppo, sitiam Damasco e avançam pela fronteira libanesa – a maior cidade sunita do Mediterrâneo, Trípoli, pode ser alvo preferencial – nós seremos forçados a expandir nosso preciso “mandato” e a incluir mais esses dois países sob nossa proteção, se por mais não for, porque ambos têm fronteiras com país que merece muito mais do nosso amor e da nossa proteção, que o Curdistão: Israel. Alguém aí já pensou nisso?


Trabalhador maneja oleoduto próximo de Erbil
No Oriente Médio, os primeiros tiros de qualquer guerra definem a narrativa que todos nós seguimos obedientemente. Assim também, na atual, a maior crise desde a anterior maior crise. Cristãos fugindo para salvar a vida? Salve-os. Iazidis morrendo de fome no topo das montanhas? Distribuam comida. Islamistas avançando sobre Erbil? Bombardeie-os. Bomba nos comboios e na “artilharia” e nos combatentes, e bomba neles, e mais bomba e mais bomba e mais bomba até...

Bem, a primeira pista sobre o quadro temporal para nossa mais recente aventura no Oriente Médio veio no fim de semana, quando Barack Obama disse ao mundo – no mais disfarçado superprolongamento errado de missão mais errada ainda da história recente – que “não me parece que vamos resolver esse problema [sic] em semanas. A coisa vai levar tempo.” Mas... quanto tempo? Pelo menos um mês, é óbvio. E talvez seis meses. Quem sabe um ano? Ou mais?

Depois da Guerra do Golfo de 1991 – houve, de fato, três desses conflitos nas últimas três décadas e meia, e há aí mais um em produção – os norte-americanos e britânicos impuseram uma zona aérea de exclusão, a no-fly zone, sobre o sul do Iraque e o Curdistão. E, pelos doze anos seguintes, eles bombardearam as “ameaças” militares que descobriram no Iraque de Saddam.

Assim sendo, eis Obama preparando o terreno – a ameaça de “genocídio”, o “mandato” que os EUA recebem do impotente governo em Bagdá para atacar inimigos do Iraque – para outra longa guerra aérea no Iraque? Mas, sendo assim, o que leva Obama (e o que nos leva) a crer que islamistas ocupadíssimos na criação do califato deles no Iraque e Síria aceitarão jogar o jogo de Obama, no cenário de Obama? Será que o presidente dos EUA e o Pentágono e o CENTCOM – e, suponho eu, a Comissão Britânica para Contingências Civis [orig. Civil Contingencies British Committee], conhecida pela sigla infantiloide “COBRA” – realmente acreditam que o ISIL, com toda aquela ideologia medieval, vai-se sentar nas planícies de Nínive e esperar para ser destruído por nossos tiros? A seguir excerto do pronunciamento de Obama sobre o assunto:


Não. Os sujeitos do ISIL, Estado Islâmico ou Califato ou seja lá o nome que prefiram para eles mesmos, simplesmente tratarão de dirigir seus ataques noutra direção. Se a estrada para Erbil está fechada, eles tomarão a estrada para Aleppo ou Damasco que norte-americanos e britânicos estarão menos interessados em bombardear ou defender – porque nos dois casos estariam ajudando o regime de Bashar al-Assad da Síria. Contudo, se os islamistas capturam Aleppo, sitiam Damasco e avançam pela fronteira libanesa – a maior cidade sunita do Mediterrâneo, Trípoli, pode ser alvo preferencial – nós seremos forçados a expandir nosso precioso “mandato”, e incluir mais esses dois países, se por mais não for porque ambos têm fronteiras com país que merece muito mais do nosso amor e da nossa proteção que o Curdistão: Israel. Alguém aí já pensou nisso?

E, claro, há também o imencionável, indizível. Quando “nós” libertamos o Kuwait em 1991, todos nós tivemos de recitar – e repetir e repetir – que aquela guerra nada tinha a ver com petróleo. E quando invadimos o Iraque em 2003, mais uma vez tivemos de repetir ad nauseam que aquele ato de agressão nada tinha a ver com petróleo – como se os Marines dos EUA fossem mandados para a Mesopotâmia, se dali só se exportassem aspargos.

E agora, quando protegemos nossos bem-amados ocidentais em Erbil e socorremos os iazidis nas montanhas do Curdistão e choramos pelas dezenas de milhares de cristãos que fogem das iniquidades do ISIL, nós não devemos – não podemos mencionar e não o faremos – mencionar o petróleo.

Torre de perfuração de petróleo em Taq Taq, perto de Erbil
Pergunto-me: por que não? Por que não é significativo – quem sabe, pelo menos, um pouco importante – que o Curdistão produza 43,7 bilhões dos 143 bilhões barris das reservas do Iraque, além de 25,5 bilhões de barris de reservas ainda só estimadas e seis trilhões de metros cúbicos de gás? Conglomerados globais de petróleo e gás voaram em bandos para o Curdistão – daí os milhares de ocidentais que vivem em Erbil, embora a presença deles por lá tenha permanecido sem qualquer explicação – e derramaram lá mais de US$ 10bilhões em investimentos. Mobil, Chevron, Exxon e Total estão em campo lá – e não se admite que oISIL meta-se com empresas como essas, num local de onde operadores de petróleo obram para extrair 20% do total de seus lucros.

De fato, matérias recentes sugerem que a atual produção curda de petróleo, de 200 mil barris/dia, já alcançará 250 mil no próximo ano – desde que os rapazes do califato sejam mantidos ao largo, é claro – o que significa, segundo a Reuters, que, se o Curdistão Iraquiano fosse país às veras, não apenas um pedaço do Iraque, estaria entre os dez países mais ricos do mundo. Claro que é coisa que valha a pena defender! Mas... quem falou sobre isso? Será que alguém, um único repórter dos que cobre a Casa Branca, atreveu-se a perturbar Obama com uma única pergunta, que fosse, sobre esse fato tão destacado?

Blindado capturado ao Exército iraquiano pelo ISIL
Claro, sentimos muito pelos cristãos do Iraque – embora pouco nos tenha incomodado que tenham começado a ser perseguidos logo depois de nossa invasão, em 2003. E temos de proteger a minoria iazidi, como prometemos proteger – mas fracassamos e não protegemos – os 1,5 milhão de cristãos armênios massacrados em genocídio por muçulmanos na mesma região, há 99 anos.

Mas não esqueçamos que os senhores do novo califato do Oriente Médio não são idiotas. Os limites do alcance da guerra deles vão muito além dos nossos “mandatos” militares. E eles sabem – mesmo que nós não admitamos – que nossa real licença para matar inclui a palavra impronunciável: PETRÓLEO.
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.