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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Robert Fisk: Mão conhecida opera na sangrenta guerra civil do Iêmen

21/1/2015, [*] Robert FiskThe Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fumaça e chamas durante pesados combates entre a Guarda Presidencial e os rebeldes xiitas houthis em Sanaa, Iêmen
A questão é os sauditas. Não importa o quanto a nova guerra civil no Iêmen pareça complexa – nem o quanto os rebeldes houthis sejam hoje poderosos na capital Sanaa – quem apavora a monarquia sunita wahhabista da Arábia Saudita é a seita zaidi, xiita, representada pelos houthis, e não sem razão.

Por mais de cinco anos, há conflito armado entre forças sauditas e os houthis, que num dado momento capturaram uma cadeia de montanhas de baixa altitude em território saudita. Os sauditas culpam os suspeitos de sempre: Irã e o Hezbollah libanês. Os houthis culpam os suspeitos de sempre: os sunitas do Iêmen, seus apoiadores sauditas e – já adivinharam – os EUA.

Mas, como todas as crises no Oriente Médio, o conflito no Iêmen, que começou quase imediatamente e sem transição depois da guerra civil que trouxe o exército egípcio de Nasser para o conflito com a família real iemenita – apoiada pelos sauditas – é um pouco mais nuançado do que podem sugerir os despachos jornalísticos. Verdade é que o primeiro governante independente do Iêmen foi um xiita zaidita – não era sunita – que estendeu seu território sobre o norte do Iêmen entre as duas guerras mundiais.

Iêmen - áreas de conflito
(clique na imagem para aumentar)
O Imã Yahya liderava a seita zaidita, cujas crenças e culto têm quase tanto em comum com o Islã sunita quanto com o xiismo, mas lutou contra os sauditas quando tomaram Asir e Najran, do que Yahya chamava “o Iêmen histórico”.

Euegen Rogan, professor de Oxford, descreveu a crueldade do sucessor de Yahya, seu filho Ahmed, que prendeu e executou seus rivais e iniciou relações diplomáticas com a União Soviética e a China, mas logo se viu em luta contra a palavra de ordem de Nasser, que mandava derrubar os “regimes feudais” no Oriente Médio.

Ahmed gostava de condenar o socialismo árabe, em versos (roubar propriedade privada seria “crime contra a lei islâmica”). Quando o filho de Ahmed, Badr, foi derrubado num golpe militar, Nasser apoiou a nova república e os sauditas tentaram destruir Nasser, oferecendo apoio aos rebeldes xiitas zaiditas.

A triste história da divisão do Iêmen e eventual (e infeliz) unificação do governo ditatorial de Sanaa, 33 anos sob Abdullah Saleh – ele próprio xiita zaidita – e, depois, os inevitáveis clamores da minoria oprimida, implicavam que o despertar árabe – no Iêmen foi de fato uma “primavera” sangrenta – despertaria feridas ainda muito dolorosas.

Ali Abdullah Saleh, ex ditador do Iêmen
A saída de Saleh produziria uma nova Constituição que não satisfez os houthis. Os sauditas passaram a temer que os rebeldes xiitas do norte, que carregavam o nome de Hussein Badreddin al-Houthi, líder zaidita morto em 2004, fossem apoiados pelo Irã e, assim – por causa da própria substancial minoria xiita na Arábia Saudita – que constituíssem uma ameaça à estabilidade do próprio reino saudita.

Muito protestaram os sauditas contra o apoio que o Irã e o Hezbollah libanês dariam aos houthis – e muito o Irã e o Hezbollah negaram qualquer apoio – mas o crescimento da facção da Al-Qaeda no Iêmen (que cultiva, é claro, as mesmas crenças salafistas-wahabistas que a própria Arábia Saudita), trouxe o inevitável envolvimento militar dos EUA.

Os ataques por drones norte-americanos no Iêmen, praticamente apagados do mundo pela imprensa-empresa ocidental, eram dirigidos contra a al-Qaeda, supostamente em nome do governo iemenita que os sauditas apoiavam.

Mas em dezembro de 2009, porta-vozes dos houthis começaram a catalogar séries de ataques dos EUA contra os próprios houthis, inclusive 29 raids aéreos que mataram 120 pessoas em cidades do norte do Iêmen.

Rebeldes xiitas houthis cercam a capital do Iêmen, Sanaa
O avanço dos houthis sobre Sanaa dividiu a força do exército do governo – que passou a combater contra a al-Qaeda (em nome dos EUA) e contra os houthis (em nome dos sauditas). A al-Qaeda na Península Árabe moveu-se para o norte, para combater os houthis, com o que passou a receber apoio dos sunitas.

O Iêmen não é a Síria. Mas a visão deformada que os EUA têm do Oriente Médio já produziu no Iêmen cenário muitíssimo semelhante ao que produziu na Síria: além de tentarem destruir o regime xiita alawita de Assad e seus inimigos sunitas do ISIS/ISIL na Síria, os EUA parecem agora ansiosos para esmagar também os houthis xiitas zaiditas e os sunitas da al-Qaeda no Iêmen. Ordens dos sauditas. 


[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Robert Fisk: Como os islamistas do ISIS/ISIL recebem essas armas norte-americanas?

4/11/2014, [*] Robert FiskThe Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 

Restos de bombas fabricadas nos EUA atiradas
pelo ISIS/ISIL contra o Exército da Síria
As forças especiais da Síria distribuem-se ao longo de uma série de colinas aqui bem ao nordeste de Lataquia, uma das linhas de combate mais perigosas do país, sob fogo diário de mísseis de forças rebeldes agora reforçadas pelo apoio do ISIS.

Os oficiais, que são todos pára-quedistas, falam de novas táticas e armas avançadas usadas contra eles desde que o ISIS tomou a cidade iraquiana de Mosul – e grande parte do tráfego de mensagens que ouvem dos inimigos vem em idiomas checheno ou georgiano.

Relatos de inteligência falam de uma unificação de várias facções rebeldes que se autodenominam “Legião da Costa” [orig. “Legion of the Coast”], claro sinal de que rebeldes inspirados pelo ISIS – incluídos os próprios apoiadores do ISIS – planejam atacar a oeste na direção do Mediterrâneo, cerca de 12km dali.

Pode-se apostar que logo começará uma batalha naquelas montanhas cobertas de pinheiros.

Os próprios soldados falam com conhecimento detalhado sobre os mísseis guiados por detectores de calor que foram disparados contra eles, e concordam que a mistura de grupos islamistas acima e a leste deles estão fazendo ataques calculados para estimar as defesas que terão pela frente.

Região de Latáquia, oeste da Síria
Intrigante, é que suas patrulhas de vigilância voltam ao nascer do dia e reportam o som de aviões durante a noite voando na direção do espaço aéreo sírio, vindos da Turquia e depois para o leste, penetrando fundo na Síria.

A coisa começou há 20 dias. Não sabem se as aeronaves – aviões ou drones – são norte-americanos e não se ouvem tiros, nem de dia nem de noite. Mas os oficiais deles falam das novas armas antiblindados TOW que apareceram em mãos de rebeldes.

Um oficial mostrou-me um vídeo filmado de um website islamista, de rebeldes disparando um foguete orientado por calor no próprio acampamento, pouco ao norte de onde estamos, em Qastel Ma’af. Mas vê-se o míssil explodindo, de fato desintegrado, contra o revestimento de concreto em torno de um tanque.

Mas quando um soldado trouxe um saco cheio de fragmentos de míssil para uma sala nessa fortaleza síria de alto de montanha, viram-se fascinantes provas do que realmente é o armamento dos rebeldes. Muitos mísseis fragmentam-se em milhares de pedaços na detonação, mas há apenas pouco mais de um mês, dia 26/9/2014, um míssil guiado explodiu enterrado fundo na areia; e os fragmentos desse míssil ainda trazem, bem nítido, o nome do fabricante norte-americano de armas, painéis de circuito e o código da arma.

Parte do míssil identifica como fabricante a empresa “Eagle-Piche IND (Indiana) INC.”, e diz, em inglês, que a arma é “carregada com hélio”, acrescentando – muito irônico – que:

ATENÇÃO – CONTÉM 6400 PSIG He (altamente explosivo). A LEI FEDERAL PROÍBE O TRANSPORTE SE RECARREGADO. MULTA DE ATÉ US$ 25,000 E CINCO ANOS DE PRISÃO (49 USC 1809).


Os sírios não sabem como essa arma – que parece ter sido fabricada em 1989 – viajou, a partir dos EUA, até as mãos de islamistas rebeldes ali, na Síria. Mas os norte-americanos com certeza têm como descobrir. O código completo de computador que ali se lê é o seguinte:

DOT-E7694 NRC6400/11109/M1033 79294 ASSY 39317 MFR 54080.

Um tubo de bateria de outro míssil disparado dia 4/10/2014, mostra uma inscrição gravada no metal:

132964 Battery thermal
MFG DATE 12/90 LOT n. (algarismo ilegível, depois) 912 S/N 005959.

Com esses códigos, os EUA poderão facilmente descobrir o comprador – ou receptador – da arma, se quiserem descobrir alguma coisa.

Como os islamistas receberam essas armas norte-americanas? Compraram, no mercado internacional de armas? Ou receberam dos rebeldes ‘'moderados'’, que ganharam as armas dos norte-americanos e depois revenderam pela melhor oferta.

A prova de o quanto são perigosas essas bases do alto das montanhas – e estão distribuídas pelo interior do país, que parece mais com colinas e vales da Bósnia, do que com a paisagem desértica e rural conhecida do interior da Síria – apareceu quando um general recebeu aviso por rádio de que um suicida-bomba se encaminhava na direção de suas posições.

O general imediatamente ordenou que todos os postos sírios de segurança abrissem fogo contra qualquer suspeito que forçasse a aproximação na direção de suas posições. Teve bons motivos, porque há apenas sete meses, vários de seus companheiros mais próximos foram aniquilados num atentado de rebelde suicida-bomba na “Posição 45”, de uma colina próxima, ao norte de Qastal Ma’af.

Por acaso, eu visitara aquela mesma posição há exatamente um ano, e fui apresentado àqueles soldados pelo comandante, general Mohamed Marrouf.


O blindado que se aproximou, saído da neblina, porém, não era o que o general chamara. Dirigido por um suicida-bomba, o veículo avançou até o centro da edificação, carregado com 15 toneladas de explosivos, e detonou-o, produzindo uma explosão cujo estrondo foi ouvido até o Mediterrâneo, e matou quase todos os soldados, inclusive o general Maarouf e abriu uma cratera de 10m de largura e 5m de profundidade.

Horas depois, um vídeo dos islamistas mostrava al-Chichani rindo com outros colegas rebeldes, vangloriando-se de sua vitória. Um oficial me disse: “Quase todos os soldados que você conheceu em novembro passado foram martirizados”.

Vários oficiais sírios creem que os chechenos são mandados para o combate porque aquela região é muito parecida com a terra natal deles. Todas as comunicações vêm sempre cheias de vozes turcomenas, muitos deles são turcomenos sírios, outros falam com sotaque turco, quase sempre pedindo reforços ou requisitando mais mísseis ou munição.

Os sírios sabem que os inimigos também ouvem o rádio sírio, embora os sírios tenham equipamento de comunicação mais sofisticado. Agora, desconfiam que os islamistas já conseguem ouvir conversas feitas por linha terrestre.

Suicida-bomba do ISIS/ISIL explode no centro de Kobane
Ano passado (2013), mais combatentes da Frente al-Nusra e de Jund el-Islam apareceram em linhas de ataque contra linhas de frente sírias – embora “linha de frente” talvez não explique bem do que se trata. Em áreas cobertas de florestas e árvores, a área “controlada” por soldados sírios ou pelos rebeldes é apenas nocional. Como disse um oficial sírio há alguns meses, de um outro campo de batalha, “o soldado sírio controla o chão onde põe os pés” – expressão bem conhecida, que provavelmente se aplica a muitas das guerras do mundo.

De fato, os postos dos rebeldes estão a talvez uns 2,5 km de Ash-Shaqraa, mas os dois lados, às vezes, descobrem-se a apenas 200 m de distância um do outro. Os turcomenos são usados nas batalhas, por causa do conhecimento que têm da região, mas os soldados aqui observaram que os “rótulos e marcas” dos vários grupos islamistas mudam sempre. Se oISIS está ali, como estrutura organizada, dizem eles, é grupo ainda muito pequeno. Mas já perceberam que os rebeldes agora usam mísseis que penetram em blindados, pela primeira vez; e que pela primeira vez têm mísseis com alcance de 5 km. Dentre os sotaques árabes que se ouvem pelo rádio, há vozes do Egito, Líbia, da região do Golfo Pérsico, Tunísia e Marrocos.

Pequenas facções islamistas parecem engolir as menores, “como baleias” – disse-me um soldado, nessa expressão inesquecível. – E acrescentou: “é questão de tempo, e uma grande facção terá engolido todas as menores”. Não usou a palavra árabe “Daesh” – para ISIS – mas deve ser, sim, o que acontecerá. Algumas unidades pertencem à “Liwa al-Adiyat” [aprox. “brigada dos grandes castigos” (orig. “Brigade of Great Ordeals”)], mas onde essas unidades entram em combate, logo chegam outras facções para dar-lhes apoio.

Soldados turcos na fronteira com a Síria
Os soldados sírios também observaram grande número de soldados e blindados turcos reunindo-se junto à fronteira ao norte, e a construção de novas fortalezas de concreto, para tropas turcas, no cume da montanha Al Aqra. Dizer que a situação aqui é “tensa” seria ceder a um velho clichê.  Basta dizer que, depois de me oferecer binóculos para olhar as florestas, um oficial disse-me que voltasse para trás de uma pilha de sacos de areia, para não atrair na nossa direção o fogo de atiradores isolados.

Um dos mais próximos companheiros do general Marrouf esteve em Ash-Shaqraa no domingo, e recordou a última conversa que tive com seu ex-comandante. “Ele disse ao senhor, Mr. Robert, que viveria até a vitória ou seria martirizado. Bem... Cumpriu a promessa!”.
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Robert Fisk: — Conversa de John Kerry sobre o ISIS/ISIL é insulto à nossa inteligência

21/9/2014, [*] Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

E por que não inventam uma coalizão de 50 “nações desejantes” para destruir o Ebola?!

John Kerry preside o CS da ONU em 20/9/2014
Quem tenha estudado a Síria já sabe que não existe oposição “moderada’”

John Kerry vai ficando cada dia mais parecido com William McGonagall, o “pior poeta do mundo”, cujo horror, ante o desastre da Ponte Tay, em 1879, gerou o imortal comentário de que [a tal desgraça] “será lembrada por muito tempo”.

Como no verso de McGonagall, as tentativas de Kerry para explicar a cruzada dos EUA contra o mais recente inimigo malvado são tão ridículas, que se vai ficando viciado nelas. E quando você pensa que a explicação capenga, de Kerry, para os políticos americanos da cruzada iraquiana de Obama – o ISIL tem de ser derrotado, puro e simples, e fim da história – não pode(ria) ficar mais infantiloide, ela fica.

John Kerry
Por infantilismo – desafio os leitores a ler a frase seguinte até o fim, sem nenhuma careta de “mas... ele não pode ter dito uma coisa dessas!”:

Quero deixar bem claro que, quando acabarmos aqui hoje, vocês me dirão o que pensam e eu saberei o que estão pensando” – disse Kerry à Comissão de Relações Exteriores do Senado semana passada – “e vocês terão ouvido de mim e saberão o que nós estamos pensando, o que o governo Obama está pensando, e que vocês têm uma clara compreensão do que estamos fazendo hoje e faremos na sequência”. “Tudo coisa complexíssima”, disse Kerry – e que, claro, sem dúvida, “será lembrada por muito tempo”.

O mais imediatamente chocante foi o mundo de fantasia de Obama o qual Kerry, com seu jeito de moleque pesadão, representou. Quem tenha estudado a Síria, mesmo de longe, e nem se fala dos que a conheçam de perto, sabe que a tal “oposição moderada”, ficcional – supostos desertores do Exército Árabe Sírio oficial – absolutamente não existe.

Corrupto, desiludido, assassinado ou simplesmente re-desertado de volta ao ISIL ou para outro grupo associado da al-Qaeda, o velho “Exército Sírio Livre” é, hoje, mito tão ridículo – e tão potente, para os kerrys desse mundo – quanto os arroubos de Mussolini de que o exército italiano poderia derrotar os britânicos no Norte da África. Qualquer soldado sírio pode contar, de viva voz, que está feliz por poder combater contra o tal “Exército Sírio Livre”, porque aquela “oposição moderada” é especialista só, em fugir feito coelhos. Quem luta até a morte são os “terroristas” de al-Qaeda-Nusra-ISIS/ISIL.

John Kerry
Mas Kerry, como os generais da Iª Guerra Mundial, vive num castelo de fadas de sua própria imaginação.

Na Síria, o combate em campo será feito pela oposição moderada, a qual é o melhor contrapeso da Síria [sic] para extremistas do tipo ISIS/ISIL” – eis o que ele disse à Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados. – “E podemos falar mais sobre aquela oposição moderada – que jeito tem, quem é, do que são capazes hoje e do que poderão fazer – conforme nós avançarmos”. Como os generais [Douglas] Haig e [John] French, Kerry entrou em delírio.

O “Exército Sírio Livre”, disse Kerry, vem combatendo contra o ISIS/ISIL há dois anos – em Idlib, Aleppo, em torno de Damasco e em Deir Ezzor e o governo sírio − Kerry insistiu − não dá combate, nem dará, ao ISIS/ISIL.

Isso é absoluto nonsense.

A maioria dos 35 mil soldados mortos do exército sírio foram mortos em combates contra al-Qaeda e o ISIS/ISIL. E as únicas forças que realmente mantêm coturnos em solo contra o ISIS/ISIL são o Hezbollah e os Guardas Revolucionários do Irã, ao lado dos curdos.

Exaltar a “oposição moderada” dois dias antes de as mais recentes vitórias do ISIS/ISIL já os terem trazido até a fronteira da Turquia é absurdo, grotesco, ridículo.

E que estadista ilustra(ria) a própria ideia de que sunitas e xiitas estariam em aliança com os EUA, brandindo no ar a primeira página do The Wall Street Journal em que se vê um líder curdo, um ministro iraquiano xiita e o ministro sunita de Relações Exteriores da Arábia Saudita fotografados lado a lado? Kerry elogiou os clérigos sauditas por condenarem o ISIS/ISIL sunita, sem mencionar que muitos destacados imãs sauditas consomem muito mais tempo desqualificando os EUA. Nem poderia, mesmo, falar, dos clérigos paquistaneses que também declararam herético o ISIS/ISIL – porque, claro, passam praticamente todo o tempo acusando os sauditas de financiarem o ISIS/ISIL.

John Kerry brandindo no ar a primeira página do The Wall Street Journal
Como Cameron, Kerry serve-se do vocabulário da autoconfiança. Os EUA “de pleno direito” e “sem dúvida alguma” tinham de apoiar os esforços do governo iraquiano; e há “absoluta clareza” de que os EUA detiveram o ISIS/ISIL. Quanto ao “Estado Islâmico” propriamente dito, não passa(ria) de “distorção insultante do Islã”, “inimigo do Islã”, “culto militante fantasiado de movimento religioso” de “assassinos a sangue frio” cuja filosofia “saiu da Idade da Pedra”. Mas... e que diabo é isso?! Começamos por declarar que o ISIS/ISIL “saiu” da Idade Média; depois, que “saiu” do século XVIII. Agora, “saiu” do ano 2.000 a.C.

William McGonagall
Graças aos céus temos o general John Allen – o qual, nem faz muito tempo, andava propondo garantias de “segurança” para o Vale do rio Jordão que ambos, palestinos e israelenses, puseram abaixo – para resolver o caso no Iraque. É o ex-vice comandante da província Anbar do Iraque, homem – segundo Kerry – com “grande respeito” na região, com “conhecimento das tribos sunitas” e – ah, mas que perfeito momento McGonagall, esse – “de todo o pessoal por lá e que formam o mix a ser capaz de mobilizar a ação” [orig. “of all the folks there that are part of the mix to be able to mobilise action”].

Não surpreende que Kerry também tenha dito ao mundo que, dos 50 aliados internacionais anti-ISIS/ISIL dos EUA, alguns, sim, se engajarão em “atividade cinética”. Ah, é, pode apostar que sim! Embora meu palpite seja que ninguém venha a ver qualquer força aérea árabe unir-se ao bombardeio aéreo franco-norte-americano.

O que Kerry absolutamente não nos pode dizer é tão simples quanto o que ele mente que será simples a luta contra o ISIS/ISIL: que terá de haver algum tipo de aliança – algum tipo! – entre o “ocidente” e o Irã, para derrotar o ISIS/ISIL; que essa aliança inevitavelmente terá de incluir algum entendimento não revelado com a Síria de Bashar al-Assad; e quem sabe até, inclusive, com os apavorantes, impensáveis guerrilheiros “super-terroristas” do  Hezbollah, os quais – diferentes do que Kerry diz do ISIS/ISIL – não andam por aí “matando e estuprando e mutilando mulheres” ou vendendo meninas “para serem escravas sexuais de jihadistas”.


Mas, de homem que pensou que alinhavaria a paz paletinos-israelenses em 12 meses de conversa fiada... o que mais se poderia esperar? Sim, o ISIS/ISIL é o mais recente espectro a nos assombrar. Mas há outro, não mais distante, que ameaça todos e que, esse sim, tem de ser derrotado, “puro e simples, e fim da história”. Ameaça matar infinitamente mais gente que o ISIS/ISIL. Recebeu o nome de um obscuro rio africano. Quero dizer... E onde está a convocação de uma aliança de 50 “nações desejantes”, para destruir o Ebola?!
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

sábado, 13 de setembro de 2014

Robert Fisk: “Força do mal nova, depois da força do mal velha”

11/9/2014,[*] Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jihadistas do ISIS/ISIL desfilam em Raqqa, Síria
Ressurreição, reinvenção e linguística. Barack Obama fez de tudo. E agora fala de os EUA irem à guerra também na Síria, além de no Iraque. Oh yes, e ele vai derrotar o ISIS/ISIL, o “barbarismo”, o “genocídio”, a “ideologia distorcida” do ISIS/ISIL – até que os malditos sejam “evanescidos da face da Terra”. Saudades de George W Bush...

Mas examinemos a coisa com lente linguística. Primeiro, Obama vai obrar a ressurreição das milícias sunitas “Conselho do Despertar” – criatura criada por um tal general David Petraeus – que recebia salário para combater a al-Qaeda pago pelos norte-americanos durante a ocupação norte-americana do Iraque, mas foi varrido de lá pela al-Qaeda e traído pelo governo iraquiano dominado por xiitas. Obama até inventou nome novo: chamou-as de “Unidades da Guarda Nacional”, que vão “ajudar comunidades sunitas a proteger a própria liberdade delas contra o ISIS/ISIL”. Guarda Nacional, é? Façam-me o favor!

E há também a reinvenção da tal oposição síria “moderada”, que antigamente se chamava Exército Sírio Livre – constituído de desertores corruptos e traídos tanto pelos seus aliados ocidentais como também traídos pelos aliados islâmicos deles – que já nem existe. Esse exército fantasma será chamado de “Coalizão Nacional Síria” e será treinada – e onde mais seria?! – na Arábia Saudita, cujos cidadãos deram zilhões de dólares à al-Qaeda no Iraque, também chamada ISIS/ISIL, Estado Islâmico (você mesmo escolhe a sigla), Jabhat al-Nusra e inúmeros outros sujeitos-do-mal os quais, agora, Obama quer ver “banidos da Terra”.

Obama quer banir da terra os sujeitos-do-mal (Suicídio?)
E há também a coisa linguística. Obama “não hesitará em empreender ação contra o ISIS/ISIL  na Síria”. Mas, então, significa que ele vai tornar “banidos da Terra” os inimigos do presidente sírio Bashar al-Assad, o mesmo que Obama já estava quase “banindo da Terra” ano passado – até que se borrou e preferiu deixar Assad em paz. Assim sendo, se o inimigo do meu inimigo é meu inimigo – como há quem suponha que os árabes digam por lá, uns aos outros – Assad pode ver Washington praticamente como nova aliada.

Mas, não, não, não. Nada disso. Aí começaram as difíceis explicaçõezinhas bem sujas: os EUA “não podem confiar num regime Assad que aterroriza o próprio povo”, regime que “nunca mais recuperará a legitimidade que perdeu”. Mas ninguém nunca mandou que os EUA “confiassem” em Assad – Assad é quem já confia no apoio da Rússia. E a legitimidade de Assad é reconhecida e respeitada por China, Irã – com quem os EUA estão tendo íntimas conversações nucleares – e pela Rússia, cujos exércitos claramente não hesitaram “em empreender ação” na Ucrânia.

Feitas as contas, um belo estado de coisas. E parte do problema é que os EUA não têm memória semântica – nem institucional nem nacional. Obama conta que os EUA vão “caçar terroristas que ameaçam nosso país”. Mas eu me lembro do Vice-Presidente George Bush dizendo ao seu povo, depois que a Marinha dos EUA bombardeou Beirute em 1983 que “não deixaremos um bando de covardes terroristas insidiosos abalarem a política externa dos EUA”. Na sequência, os militares norte-americanos fugiram de Beirute. Três anos depois, o presidente Ronald Reagan disse de Muammar Gaddafi da Líbia (“cachorro louco do Oriente Médio”), que “fugiu – mas não tem onde se esconder”. Mas Gaddafi escapou – e ainda foi beijado por Tony Blair, depois de ser perdoado por todo o seu “terrorismo” – só para ser assassinado muito depois, quando outra vez voltou a ser “terrorista” tudo outra vez.

É fácil entender que essas lições de história do Oriente Médio sejam muito difíceis, quase incompreensíveis, para o norte-americano médio. Todas essas forças do mal banidas e rebanidas tudo outra vez, outra vez, até que – bingo – aparece força do mal nova a ser banida. E vem Obama e produz palavras fáceis de engolir, “genocídio”, “barbarismo”, “câncer”.



A sequência de fotos acima mostra a demolição de uma das inúmeras mesquitas xiitas explodidas pelo ISIS/ISIL
Só ocasionalmente aparece alguma coisinha que nada tem a ver com o que foi dito antes – e que os norte-americanos devem fingir que não viram que nada tem a ver com o que foi dito antes. Nesse discurso apareceu, por exemplo, aquela estranhíssima referência que Obama fez a “grupos radicais que exploram ressentimentos em benefício deles mesmos”. E que “ressentimentos” seriam? – pergunto eu. A invasão ilegal do Iraque em 2003 e o concomitante banho de sangue? Nossa ocupação sem fim do Afeganistão? A pulverização de Gaza, pelo maior aliado dos EUA?

Obama, o generoso, não pronunciou o nome do tal aliado, embora ele tenha aposta muito alta já feita na nova guerra re-expandida dos EUA no Oriente Médio – Israel, afinal, tem importante fronteira com a Síria. Mas Arábia Saudita, Qatar e os demais Cresos-sunitas árabes do Golfo podem não gostar de que seus cidadãos sejam relembrados de que a renovada aliança com Washington – treinar aqueles carinhas “moderados” inexistentes, por exemplo – ajudará Israel, e muito.

A estridente ironia é que os homens do “Estado Islâmico” são açougueiros, decepadores de cabeças e limpadores étnicos de inimigos. O “estado” que inventaram e o sadismo converteram-nos numa estranha combinação de Mickey Mouse com Genghis Khan. Mas nunca, em tempo algum, por estranho que pareça, o ISIS/ISIL/EI tentou explorar qualquer “ressentimento” anônimo dos que Obama comentou. A “ideologia” (aspas de citação, para não deixar dúvidas sobre quem disse o quê) deles é tão totalmente introvertida que, até hoje, o ISIS/ISIL/EI, islâmico e tudo, jamais pronunciou uma palavra, que fosse, de simpatia pelos palestinos de Gaza, nem durante todo o longo e mais recente evento de massacre perpetrado pelos israelenses contra palestinos. Há ressentimentos, sim, é claro. Haverá talvez um Curdistão? Haverá algum dia uma Palestina.

Pois Obama não disse palavra sobre esses assuntos infinitamente mais graves. Temo que se trate da mesma velha política dos EUA: confrontar a maior crise nova no Oriente Médio que surgiu desde a maior crise velha no Oriente Médio. O que seria de nós, sem os EUA para fazerem esse serviço?!
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.