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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Santa Cruzada de Santo Obama

23/9/2014, [*] Manlio DinucciIl Manifesto, It. (em Global Research)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
“Que Deus abençoe nossos soldados. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América”. Com essas palavras (convidamos o papa Francisco a comentá-las), termina a solene “Declaração sobre o ISIS/ISIL”, com a qual o presidente Barack Obama, metido no fraque de “comandante-em-chefe”, dirigiu-se na 4ª-feira, 10/9/2014, não só aos seus concidadãos, mas ao mundo inteiro.

“Os EUA”, explica Obama, fazem jus às bênçãos, “porque assumem as tarefas mais difíceis, a começar pela “responsabilidade de exercer a liderança”. Num “mundo incerto” como o nosso atual mundo, “a liderança pelos EUA é a única constante”. De fato, só “os EUA” têm “a capacidade e a vontade de mobilizar o mundo contra os terroristas”. “Os EUA” foi quem “reuniu o mundo contra a agressão russa”. “Os EUA” é quem “pode conter e eliminar a epidemia de ebola”.

Em tom que faz pensar em pregador medieval do tempo da peste – e pondo “a agressão russa” no mesmo plano que a epidemia de ebola – o presidente dos EUA proclama a nova cruzada contra o “Estado Islâmico no Iraque e Levante [Síria] (ISIS/ISIL), advertindo que “será preciso tempo para erradicar um câncer como este”. Apesar de tudo que os EUA fizeram até agora para combater o terrorismo, Obama insiste, “continuamos a enfrentar uma ameaça terrorista” porque “não podemos apagar do mundo todos os rastros do Mal”.

Com essa advertência, que faz recordar as cruzadas do Republicano Ronald Reagan contra “o Império do Mal” (a URSS) e do também Republicano George W. Bush contra “o inimigo escondido em algum rincão escuro da Terra” (al-Qaeda), o Democrata Obama anunciou “a estratégia dos EUA para vencer o ISIS/ISIL”, estratégia constituída de quatro pontos:

● — Uma campanha sistemática de ataques aéreos contra o ISIS/ISIL”, na Síria e no Iraque.
● — Crescente apoio às forças que combatem o ISIS/ISIL em campo”: com a diferença, em relação às intervenções anteriores no Iraque e no Afeganistão, dessa vez os EUA não enviarão forças terrestres, só conselheiros e instrutores (mais 475 chegarão em breve ao Iraque). Também haverá financiamento e armas para os “locais”, graças ao Congresso dos EUA que aprovou uma lei ad hoc: para forças iraquianas e curdas e, na Síria, para grupos que combatem contra “o regime de Assad que aterroriza o próprio povo” e contra “extremistas como o ISIS/ISIL”.
● — Continuar aproveitando nossas consideráveis capacidades em matéria de antiterrorismo para impedir ataques do ISIS/ISIL”, o que se conseguirá trabalhando em contato estreito com os parceiros – Israel, por exemplo, que já se ofereceu para compartilhar a informação recolhida por seus próprios serviços de inteligência.
● — “Prestar assistência humanitária a civis inocentes expulsos de suas casas” pelo ISIS/ISIL.

John Kerry, Secretário de Estado dos EUA
Os EUA já montaram “ampla coalizão de associados” que aportam “bilhões de dólares em ajuda humanitária, armas e apoio às forças de segurança iraquiana e à oposição síria”. Nos próximos dias o Secretário de Estado, John Kerry, viajará ao Oriente Médio e Europa para “recrutar associados para essa luta”.

O que o governo Obama anunciou não é estratégia que o presidente teve de autorizar depois de ter subestimado a ameaça do Emirado Islâmico – segundo versão que os jornais da imprensa-empresa não se cansam nunca de repetir – mas estratégia que já está traçada há anos.

Como já se comprovou amplamente, os primeiros focos do futuro Emirado Islâmico formaram-se quando, para derrubar Gaddafi na Líbia – em 2011 – a OTAN – obedecendo ordens dos EUA – pôs-se a financiar e armar grupos jihadistas até pouco antes considerados terroristas. Depois de ter ajudado a derrubar Gaddafi, aqueles jihadistas mudaram-se para a Síria, para derrubar Assad. E é na Síria, em 2013, onde nasce o Emirado Islâmico, que imediatamente passou a ser ajudado, através de Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Turquia e Jordânia, que também fornecem armas e dinheiro, no quadro de um amplo programa coordenado pela CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA).

Em maio de 2013, um mês depois de ter fundado o Estado Islâmico no Iraque e Levante, Ibrahim al-Badri – o hoje Califa, que adotou o nome de guerra de Abu Bakr al-Baghdadi –  reúne-se na Síria com o senador John McCain, a quem Obama entregou a execução de várias operações secretas para o governo dos EUA. Depois daquela reunião, o Estado Islâmico, ainda então chamado apenas  ISIL, começou sua ofensiva no Iraque, no preciso instante em que o governo do primeiro-ministro al-Maliki distanciava-se de Washington, para aproximar-se de China e Rússia.

John McCain reunido com terroristas na Síria incluindo Abu Bakr al-Baghdadi (no círculo vermelho) em maio de 2013

John McCain (clandestino), na Síria(maio-2013). Em primeiro plano, à direita, vê-se Mouaz Moustafa, diretor da Força Tarefa de Emergência terrorista treinado pelos EUA e “expert” do Instituto Washington para a Política do Oriente Médio, um think-tank sionista. Na porta, ao centro, é Mohammad Nour, da al-Qaeda, sequestrador 11 peregrinos.
O verdadeiro objetivo da Santa Cruzada de Santo Obama é destruir a Síria e reocupar o Iraque. Por outro lado, ao implicar seus aliados europeus numa nova frente de guerra no Oriente Médio, e também na frente oriental contra a Rússia, os EUA reforçam a própria influência sobre a União Europeia, cuja unidade só interessa a Washington, se o continente se mantiver sob a liderança dos EUA. 
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopoliticólogo italiano. Últimas publicações:  Geocommunity Ed. Zanichelli 2013; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010;  Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. Derive Approdi 2005.

sábado, 13 de setembro de 2014

Robert Fisk: “Força do mal nova, depois da força do mal velha”

11/9/2014,[*] Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jihadistas do ISIS/ISIL desfilam em Raqqa, Síria
Ressurreição, reinvenção e linguística. Barack Obama fez de tudo. E agora fala de os EUA irem à guerra também na Síria, além de no Iraque. Oh yes, e ele vai derrotar o ISIS/ISIL, o “barbarismo”, o “genocídio”, a “ideologia distorcida” do ISIS/ISIL – até que os malditos sejam “evanescidos da face da Terra”. Saudades de George W Bush...

Mas examinemos a coisa com lente linguística. Primeiro, Obama vai obrar a ressurreição das milícias sunitas “Conselho do Despertar” – criatura criada por um tal general David Petraeus – que recebia salário para combater a al-Qaeda pago pelos norte-americanos durante a ocupação norte-americana do Iraque, mas foi varrido de lá pela al-Qaeda e traído pelo governo iraquiano dominado por xiitas. Obama até inventou nome novo: chamou-as de “Unidades da Guarda Nacional”, que vão “ajudar comunidades sunitas a proteger a própria liberdade delas contra o ISIS/ISIL”. Guarda Nacional, é? Façam-me o favor!

E há também a reinvenção da tal oposição síria “moderada”, que antigamente se chamava Exército Sírio Livre – constituído de desertores corruptos e traídos tanto pelos seus aliados ocidentais como também traídos pelos aliados islâmicos deles – que já nem existe. Esse exército fantasma será chamado de “Coalizão Nacional Síria” e será treinada – e onde mais seria?! – na Arábia Saudita, cujos cidadãos deram zilhões de dólares à al-Qaeda no Iraque, também chamada ISIS/ISIL, Estado Islâmico (você mesmo escolhe a sigla), Jabhat al-Nusra e inúmeros outros sujeitos-do-mal os quais, agora, Obama quer ver “banidos da Terra”.

Obama quer banir da terra os sujeitos-do-mal (Suicídio?)
E há também a coisa linguística. Obama “não hesitará em empreender ação contra o ISIS/ISIL  na Síria”. Mas, então, significa que ele vai tornar “banidos da Terra” os inimigos do presidente sírio Bashar al-Assad, o mesmo que Obama já estava quase “banindo da Terra” ano passado – até que se borrou e preferiu deixar Assad em paz. Assim sendo, se o inimigo do meu inimigo é meu inimigo – como há quem suponha que os árabes digam por lá, uns aos outros – Assad pode ver Washington praticamente como nova aliada.

Mas, não, não, não. Nada disso. Aí começaram as difíceis explicaçõezinhas bem sujas: os EUA “não podem confiar num regime Assad que aterroriza o próprio povo”, regime que “nunca mais recuperará a legitimidade que perdeu”. Mas ninguém nunca mandou que os EUA “confiassem” em Assad – Assad é quem já confia no apoio da Rússia. E a legitimidade de Assad é reconhecida e respeitada por China, Irã – com quem os EUA estão tendo íntimas conversações nucleares – e pela Rússia, cujos exércitos claramente não hesitaram “em empreender ação” na Ucrânia.

Feitas as contas, um belo estado de coisas. E parte do problema é que os EUA não têm memória semântica – nem institucional nem nacional. Obama conta que os EUA vão “caçar terroristas que ameaçam nosso país”. Mas eu me lembro do Vice-Presidente George Bush dizendo ao seu povo, depois que a Marinha dos EUA bombardeou Beirute em 1983 que “não deixaremos um bando de covardes terroristas insidiosos abalarem a política externa dos EUA”. Na sequência, os militares norte-americanos fugiram de Beirute. Três anos depois, o presidente Ronald Reagan disse de Muammar Gaddafi da Líbia (“cachorro louco do Oriente Médio”), que “fugiu – mas não tem onde se esconder”. Mas Gaddafi escapou – e ainda foi beijado por Tony Blair, depois de ser perdoado por todo o seu “terrorismo” – só para ser assassinado muito depois, quando outra vez voltou a ser “terrorista” tudo outra vez.

É fácil entender que essas lições de história do Oriente Médio sejam muito difíceis, quase incompreensíveis, para o norte-americano médio. Todas essas forças do mal banidas e rebanidas tudo outra vez, outra vez, até que – bingo – aparece força do mal nova a ser banida. E vem Obama e produz palavras fáceis de engolir, “genocídio”, “barbarismo”, “câncer”.



A sequência de fotos acima mostra a demolição de uma das inúmeras mesquitas xiitas explodidas pelo ISIS/ISIL
Só ocasionalmente aparece alguma coisinha que nada tem a ver com o que foi dito antes – e que os norte-americanos devem fingir que não viram que nada tem a ver com o que foi dito antes. Nesse discurso apareceu, por exemplo, aquela estranhíssima referência que Obama fez a “grupos radicais que exploram ressentimentos em benefício deles mesmos”. E que “ressentimentos” seriam? – pergunto eu. A invasão ilegal do Iraque em 2003 e o concomitante banho de sangue? Nossa ocupação sem fim do Afeganistão? A pulverização de Gaza, pelo maior aliado dos EUA?

Obama, o generoso, não pronunciou o nome do tal aliado, embora ele tenha aposta muito alta já feita na nova guerra re-expandida dos EUA no Oriente Médio – Israel, afinal, tem importante fronteira com a Síria. Mas Arábia Saudita, Qatar e os demais Cresos-sunitas árabes do Golfo podem não gostar de que seus cidadãos sejam relembrados de que a renovada aliança com Washington – treinar aqueles carinhas “moderados” inexistentes, por exemplo – ajudará Israel, e muito.

A estridente ironia é que os homens do “Estado Islâmico” são açougueiros, decepadores de cabeças e limpadores étnicos de inimigos. O “estado” que inventaram e o sadismo converteram-nos numa estranha combinação de Mickey Mouse com Genghis Khan. Mas nunca, em tempo algum, por estranho que pareça, o ISIS/ISIL/EI tentou explorar qualquer “ressentimento” anônimo dos que Obama comentou. A “ideologia” (aspas de citação, para não deixar dúvidas sobre quem disse o quê) deles é tão totalmente introvertida que, até hoje, o ISIS/ISIL/EI, islâmico e tudo, jamais pronunciou uma palavra, que fosse, de simpatia pelos palestinos de Gaza, nem durante todo o longo e mais recente evento de massacre perpetrado pelos israelenses contra palestinos. Há ressentimentos, sim, é claro. Haverá talvez um Curdistão? Haverá algum dia uma Palestina.

Pois Obama não disse palavra sobre esses assuntos infinitamente mais graves. Temo que se trate da mesma velha política dos EUA: confrontar a maior crise nova no Oriente Médio que surgiu desde a maior crise velha no Oriente Médio. O que seria de nós, sem os EUA para fazerem esse serviço?!
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

Finalmente Obama lança sua neoguerra imperial

12/9/2014, [*] MK BhadrakumarStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“E o ISIS? Será movimento anti-imperial?!”
Algumas respostas em: 12/9/2014 − Moon of AlabamaSome Links On That "War On ISIS"


Barack Obama em 10 de setembro de 2014
O presidente dos EUA, Barack Obama, expôs num grande discurso na 4ª-feira (10/9/2014), sua estratégia para “degradar e na conclusão destruir” o Estado Islâmico no Iraque e Síria (ing. ISIS). A estratégia não tem prazo para ser concluída e, na essência, implica que os EUA vão jogar muçulmanos contra muçulmanos numa guerra horrenda, servindo-se de umpoder esperto [orig. smart power], que providencia para que não haja cadáveres norte-americanos. Pelo que tudo sugere, será guerra autofinanciada, paga pelos petrodólares dos estados árabes do Golfo, no Oriente Médio.

A estratégia está erigida sobre três pilares:

●– Primeiro, fixa bem definidos limites para o que é intervenção militar, pelos EUA;
●− Segundo, ressuscita a agenda de “mudança de regime” na Síria; 
●− Terceiro, dá por desnecessário e dispensável qualquer mandado recebido da ONU.

Essencialmente, é versão re-embalada da intervenção cruamente unilateral dos EUA no Oriente Médio que já conhecemos do governo de George W. Bush.

Claramente, Obama adiou a exposição de sua “estratégia”, à espera de que a opinião pública nos EUA “amadurecesse”. As pesquisas de opinião já mostram hoje alto grau de aprovação nos EUA a favor de nova intervenção militar dos EUA no Iraque e Síria. O assassinato horrível de dois jornalistas norte-americanos pelo Estado Islâmico sem dúvida influenciou os resultados da pesquisa de opinião pública. Mas o fator essencial é o medo que veio sendo injetado na mente dos norte-americanos, ao longo de semanas e meses, por campanha de publicidade & marketing que visou a posicionar o Estado Islâmico como se fosse ameaça direta à “segurança da pátria” nos EUA. O truque funcionou, como o “provam” as pesquisas de opinião. Obama escolheu a dedo o momento, véspera do 11º aniversário dos ataques de 11/9, para expor sua estratégia ao povo norte-americano.

O objetivo real de Obama é "mudança de regime" na Síria
Curiosamente porém, apesar de o amadurecimento acelerado da opinião pública ter dado o resultado esperado, Obama tomou mil cuidados no discurso, para não inflar a psicose de medo nos EUA, e disse, com todas as letras, que os EUA “não detectaram qualquer específico complô contra nossa pátria” pelo Estado Islâmico, embora os líderes do grupo tenham “ameaçado os EUA e nossos aliados”. Em vez de falar de ameaça contra os EUA, Obama apresentou o Estado Islâmico como ameaça contra “o povo de Iraque e Síria e do Oriente Médio mais amplo – incluindo cidadãos, pessoal e instalações e prédios dos EUA”.

Claramente se vê aí um senso de proporções introduzido para acalmar a sempre agitada opinião pública norte-americana, no momento em que o país embarca em mais uma guerra em terra distante, sem prazo para acabar, mas, mais que isso, Obama encontrou jeito para recrutar aliados dos EUA no Oriente Médio para a guerra vindoura. A mensagem de Obama ao povo dos EUA é simples:

Ninguém precisa ficar ansioso; toquem a vida normalmente; deixem que seu comandante-em-chefe dará jeito em tudo.

Em troca, Obama garantiu que os parâmetros da intervenção militar dos EUA serão bem definidos. Haverá “campanha sistemática de ataques aéreos” contra alvos do ISIS/ISIL, mesmo que forças iraquianas também ataquem; os EUA caçarão terroristas do ISIS/ISIL e aumentarão o apoio a forças iraquianas e curdas que combatem o Estado Islâmico/ISIS/ISIL, inclusive com treinamento, inteligência e equipamento; o Pentágono deslocará mais 475 militares para o Iraque (perfazendo um total de quase 1.600). Mas “forças dos EUA não terão missão de combate – não nos deixaremos arrastar para mais uma guerra em solo no Iraque”.

Obama fez questão de repetir que a guerra que começa agora “será diferente das guerras no Iraque e no Afeganistão. Não envolverá soldados norte-americanos combatendo em solo estrangeiro”. Em vez disso, como os EUA já fazem no Iêmen e na Somália “há anos”, essa guerra “será esforço continuado, incansável para destruir o ISIS/ISIL onde quer que esteja, usando nosso poder aéreo e o apoio de forças de nossos parceiros no solo”.

Obama disse que as operações militares dos EUA diretamente contra o ISIS/ISIL estender-se-ão também para dentro do território sírio. Revelou a estratégia em relação à Síria [sem novidade], focada em aumentar a ajuda militar à “oposição síria”. Obama apelou ao Congresso dos EUA, para que lhe dê adicionais “poderes e recursos para treinar e equipar aqueles combatentes [da oposição síria]”. De fato, tudo aí só tem a ver com enorme escalada na intervenção dos EUA na Síria: trata-se disso.

A GRANDE MENTIRA começou com Bush-Rumsfeld e continuou com Obama...
Obama rejeitou declaradamente qualquer ideia de que os EUA viessem a confiar no regime sírio. Chamou-o de regime ilegítimo e jurou “resolver a crise síria de uma vez por todas”. Em termos mais simples, os EUA vão acelerar o ritmo do golpe para “mudança de regime” na Síria.

Bem obviamente, até Washington percebe que jamais conseguiria arrancar autorização do Conselho de Segurança da ONU para seu golpe de “mudança de regime” na Síria, que viola a lei internacional e a Carta da ONU. Obama então simplesmente “deu um jeitinho”: vai hospedar uma reunião do Conselho de Segurança da ONU no final de setembro, em New York, “para mobilizar ainda mais a comunidade internacional” a favor de sua estratégia para Iraque-Síria.

Os EUA clamam já ter reunido uma “coalizão núcleo” de oito países membros da OTAN (mais a Austrália) para lutar a guerra de Obama no Oriente Médio. Mas Obama disse que precisa de uma “ampla coalizão de parceiros”. Revelou que, para tanto, o Secretário de Estado, John Kerry, está em viagem pelo Oriente Médio muçulmano “para alistar parceiros nessa luta, especialmente países árabes que podem mobilizar comunidades sunitas no Iraque e na Síria”.

Cada palavra aí foi escolhida milimetricamente, para dizer, sem dizer, que os EUA têm planos para atribuir papeis diferentes a xiitas e sunitas na guerra contra o ISIS/ISIL/Estado Islâmico. A parte que mais desconcerta e espanta, claro, é a intenção, declarada nas entrelinhas da fala de Obama, de que há planos para atribuir papel ativo no teatro de guerra sírio a países como Turquia, Arábia Saudita e Qatar.

Evidentemente, os estados dos petrodólares têm de estar incluídos, porque é a “fórmula” para assegurar que não falte dinheiro aos EUA para manter essa sua nova guerra sem data para acabar.

O Novo Oriente Médio

Seja como for, será que a estratégia de Obama funcionará? De garantido, só que a estratégia de Obama cria uma guerra financeiramente autossustentável, e poderá ser mantida por algum tempo. De fato, não haverá carência de recursos – dinheiro e soldados ou armas – para manter essa guerra, graças à presença dos estados-petrodólares, que há muito tempo clamam por golpe de “mudança de regime” na Síria.

Os EUA e os neocons de Obama criaram o ISIS/ISIL para redesenhar o mapa do Oriente Médio
O público, nos EUA, dificilmente se mobilizará contra essa guerra, pelo menos não agora, imediatamente. A comunidade estratégica norte-americana – especialmente os “especialistas” de think-tanks e a imprensa-empresa – também apoiará a guerra, porque é guerra que se atrela explicitamente com interesses de Israel. A verdade é que os EUA estão reconstituindo o mesmo velho eixo no Oriente Médio, que reúne Israel e as oligarquias árabes sunitas da região do Golfo. Simultaneamente, os EUA nada terão a temer do Conselho de Segurança da ONU: quem está guerreando a nova guerra é uma “coalizão de vontades” – e é altamente improvável que venha a público alguma dissidência interna que surja lá por dentro da tal ‘coalizão’, o que, por sua vez, pode garantir que Washington permaneça no comando e controle da guerra de Obama.

Mas há imponderáveis no caminho à frente. Primeiro e principalmente, é imensamente significativo que Obama não tenha dito sequer uma palavra categórica sobre a unidade do Iraque. Foi também deliciosamente vago sobre o que ele próprio espera de algum tal governo “inclusivo” em Bagdá.

O caso é que, por mais que Washington tenha feito toda a engenharia da mudança de regime do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, ainda não se vê nem sinal de que a “mudança” possa levar a alguma reconciliação com os sunitas. É sinal importante, porque toda a “estratégia” dos EUA só funcionará se houver total mobilização do Iraque sunita contra o Estado Islâmico. Sem isso, a tal “estratégia” pode revelar-se receita para luta sectária ainda mais feia, para rasgar ao meio a unidade do Iraque.

Mas então, por outro lado, isso também envolve a questão do empoderamento dos xiitas no Iraque. Significa que os EUA têm de inventar alguma fórmula mágica que refine o conceito de princípios democráticos, que determinam que a maioria governe no Iraque. Dito de outro modo, é também uma guerra que envolve construção de nação no Iraque, e o currículo dos EUA em empreitadas assemelhadas em todo o mundo sempre foi fracasso sobre fracasso, para dizer o mínimo. Isso é uma coisa.

A parte mais desconcertante dessa guerra será o capítulo sírio. Talvez os EUA estimem que agora que os arsenais químicos da Síria foram destruídos, seria “mais seguro” assaltar o país. Ainda que se assuma que fosse, a oposição síria continua a ser porta giratória para grupos extremistas – o que se comprova pela própria saga do Estado Islâmico. Os EUA nada aprenderam e ainda têm esperanças de usar elementos extremistas como ferramentas de suas políticas regionais!

Síria - Mapa de Situação - set/2014
(clique na imagem para aumentar)
Iraque - Mapa de Situação - set/2014
(clique na imagem para aumentar)
Verdade é que o fracasso custará terrivelmente caro, se Iraque e Síria deixarem de existir ao final da “operação” Obama. Não há dúvidas de que a parte que mais intriga é que esse desenlace, precisamente, pode ser o objetivo geopolítico dos EUA. Em recente entrevista ao New York Times, o próprio Obama lembra que o fim do acordo Sykes-Picot de 1916 é a questão chave da política do Oriente Médio.

Assim também, a intenção de Obama de recrutar como aliados “nações árabes que podem mobilizar comunidades sunitas” é como o reconhecimento virtual indireto da dimensão sectária dos conflitos no Iraque e na Síria. Mas... Ora! Há um quadro muito complicado, de fundo, da política regional, que envolve exatamente essas mesmas nações árabes sunitas que Obama está “convocando” à guerra [com coturnos sunitas no solo?! (NTs)]. Será que Obama conhece também alguma receita secreta para curar todas as tensões regionais? Se conhece, não falou dela. Muito interessante, também: Obama não disse uma palavra, sequer, em momento algum, sobre o Irã.

A “estratégia” de Obama atropela completamente a ONU e, de fato, viola e enfraquece a Carta da ONU. Obama fracassou na tentativa para explicar alguma “especificidade” nessa sua específica variante de intervenção militar no mundo muçulmano – unilateralista, “sem riscos” e de baixo custo – porque de fato e pelo menos até agora, a segurança interna dos EUA absolutamente não corre nenhum perigo iminente concebível. 

Ao final do dia, a impressão já está implantada e é inegável: os EUA continuam a se autoatribuir o direito de violar a soberania e a integridade territorial de nações-estados, movidos por autointeresses exclusivamente norte-americanos. Verdade é que essa guerra com cabeça de medusa assumirá as mais diferentes modalidades com a passagem do tempo, e aí estará, muito tempo depois de a garantida rápida passagem de Obama por algum livro de história já estar esquecida.

A presidência de Obama completou seu ciclo, ao reinventar os dogmas neoconservadores que ele rejeitava ou fingia rejeitar, rejeição que o tornou elegível. Com o pretexto de estar combatendo algum Estado Islâmico – o qual, para começo de conversa, é criação dos EUA e de seus aliados – o que temos ante os olhos é massivo projeto neoconservador para remodelar o Oriente Médio Muçulmano para que se “adapte” aos objetivos geopolíticos dos EUA. Deem o nome que quiserem, é guerra imperial – por mais que seja guerreada por Prêmio Nobel da Paz, no trono do golpista-em-chefe.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Obama mente, finge, faz cena... tudo para conseguir mais guerra no Iraque e na Síria

11/9/2014, [*] Kevin Gosztola,  Firedoglake –
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bush para Michael Moore (Fahrenheit 9/11):
- Cheirando queimado?
- O que está cheirando queimado?
A doutrina de política externa neoconsevadora exposta pelos funcionários do governo de George W. Bush foi definida pela crença ideológica de que os EUA teriam

(...) papel único na preservação e extensão de uma ordem internacional amistosa relativa a nossa segurança, nossa prosperidade e nossos princípios.

Em outras palavras, os EUA são a única nação indispensável sobre a terra. Aquela crença ideológica inspirou o governo Bush a inventar uma guerra no Iraque que foi baseada integralmente em mentiras. Hoje, mais de 11 anos depois daquilo, a mesma crença ideológica arrasta também o governo do presidente Barack Obama.

No discurso em que Obama anunciou sua estratégia para “degradar e, na conclusão, destruir” o Estado Islâmico no Iraque e Síria (ISIS/ISIL), ele invocou os ataques do 11 de setembro de 2001 e a recessão econômica.

(...) vivemos num tempo de grandes mudanças. Amanhã se marcam 13 anos desde que nosso país foi atacado. Semana que vem, marcam-se 6 anos desde que nossa economia sofreu o maior revés desde a Grande Depressão. Apesar desses choques; apesar da dor que sentimos e graças ao empenhado trabalho necessário para nos reerguer – os EUA estão hoje em melhor posição para encarar o futuro, que qualquer outra nação na Terra.

O discurso de Obama
E Obama prosseguiu, listando feitos e mais feitos, a maioria dos quais absolutamente nada têm a ver com o que acontece no Iraque e na Síria, agora que os EUA escalam a guerra. Falou de empresas de tecnologia, universidades, manufatura, indústria automobilística e criação de empregos

Longe de nossas fronteiras, a liderança dos EUA é a única constante num mundo de incertezas. São os EUA que temos a capacidade e o desejo de mobilizar o mundo contra terroristas – disse Obama.

Foram os EUA que se conclamaram o mundo a levantar-se contra a agressão russa e em apoio ao direito dos povos ucranianos de determinarem o próprio destino. São os EUA – nossos cientistas, nossos médicos, nosso know-how – que podem ajudar a conter e curar o surto do ebola. São os EUA que ajudaram a remover e destruir as armas químicas sírias declaradas, de modo que já não ameaçam o povo sírio – ou o mundo – nunca mais. E são os EUA que estão ajudando comunidades muçulmanas em todo o mundo, não só na luta contra o terrorismo, mas na luta por oportunidade, tolerância e futuro de mais esperanças.

Mas... como assim?! A verdade é diferente!


Os EUA lideram o mundo só no tenha a ver com espionar, escanear civis obrigados a despir-se em público, deter, torturar, executar assassinatos premeditados extrajudiciais e tudo isso, sim, afeta desproporcionalmente as comunidades muçulmanas. Os EUA estavam a um passo de bombardear a Síria, quando John Kerry – sem nem pensar no que dizia – sugeriu que a Síria entregasse seus estoques de armas químicas. O Ministro Sergey Lavrov da Rússia deu bom uso à leviandade de Kerry: foi possível ajudar o governo sírio a livrar-se de um arsenal químico caro, inútil e perigoso, não por ação dos EUA, mas por ação de uma coalizão para IMPEDIR que os EUA bombardeassem a Síria. (...) E chega a ser inadmissivelmente desumano falar de cientistas em luta contra um vírus mortal, no mesmo discurso em anuncia estratégias para MAIS GUERRAS.

America, as infindáveis bênçãos que nos cobrem cobram de nós custo duradouro. Mas, como americanos, nossa responsabilidade para liderar é, sobre nós, bem-vinda – Obama, praticamente num púlpito de igreja!

A frase tem sobretons bíblicos. Com os EUA em cena como se fossem o cordeiro de Deus que limpa os pecados do mundo! Como se fossem os salvadores da Terra! [Obama tá pensano que é Marina Silva?! (NTs) :-))]

ISIS/ISIL desfila em Raqqa, norte da Síria (6/9/2014)
Nada, mais do que o tom “bíblico” mostra que tudo, no discurso de Obama é encenação, fantasia, discurso delirante. Por exemplo (mais um, na sequência):

Nossa própria segurança, nosso próprio bem-estar depende de nossa disposição para fazer o que tenha de ser feito para defender esta nação e levantar bem alto os valores que defendemos – ideais intemporais que perdurarão por muito tempo depois que esses que só oferecem ódio e destruição já tiverem sumido da face da Terra. [Acredite quem quiser (NTs!)]

Mas fato é que até o New York Times já sabe que o ISIS absolutamente não representa hoje qualquer tipo de ameaça contra os EUA. Depois do discurso de Obama, o jornal voltou ao tema:

Funcionários e especialistas em terrorismo entendem hoje que o perigo que o ISIS representaria foi distorcido em horas e horas de conversa fiada de televisão e de alarmismo distribuído por “especialistas” e por políticos oportunistas; e que absolutamente não houve qualquer debate público aproveitável sobre consequências não desejadas da ação de Obama, que tenta expandir a ação militar dos EUA no Oriente Médio.

Daniel Benjamin
Mais que isso:

Daniel Benjamin, que trabalhou como principal conselheiro para contraterrorismo do Departamento de Estado no primeiro mandato do presidente Obama, disse que a discussão pública sobre a ameaça do ISIS “não passou de farsa”, com membros do gabinete e altos assessores militares falando pelos cotovelos, apresentando a ‘ameaça’ nos termos mais exagerados e sem qualquer fundamento.

Difícil imaginar melhor indicação da capacidade de funcionários eleitos e torsos-e-cabeças-falantes de TV para levar a população à ignorância e ao pânico, com suas ‘opiniões’ de que a nação está infiltrada de células terroristas dormentes, que há agentes terroristas entrando aos borbotões pela fronteira do Texas, ou que logo estarão aí espalhando vírus Ebola – e tudo sem nenhuma informação confirmada” – disse Mr. Benjamin, que dá aulas no Dartmouth College. (...)

De fato, o governo Obama poderia começar por trabalhar para “detonar” apenas metaforicamente, mas suficientemente, as finanças do ISIS, em vez de começar pela escalada militar. Em vez de guerra, poderia começar por  interromper os fluxos externos de doações para o grupo!

Haidar al-Abadi, novo Primeiro Ministro do Iraque
(...) No Iraque, um novo governo acaba de tomar posse dia 8 de setembro. E apenas dois dias depois, o governo dos EUA já anuncia planos para escalar na ação militar contra o país, sem nem dar tempo ao novo governo de tomar pé e começar a trabalhar?!

E o que fará Obama, se sua ação tiver efeito de desestabilização sobre (também!) o novo governo iraquiano, como se viu acontecer recentemente no Iêmen, na Somália, no Paquistão, no Afeganistão e no Iraque?
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[*] Kevin Gosztola é articulista e editor de The Dissenter, blog instalado no portal Firedoglake, que faz cobertura regular e denúncias, sobre quebra ilegal de sigilo, drones, NSA, Edward Snowden, a ampla cobertura crítica da "guerra ao terrorismo" e as várias questões que afetam as liberdades civis. É co-autor do livro Truth and Consequences: The US vs Private Manning, parceria com Greg Mitchell. O livro apresenta um relato minucioso do ocorrido no período do pré-julgamento sofrido por  Chelsea Manning.
Em 2011, atuou como estagiário para a revista The Nation e trabalhou em estreita colaboração com Mitchell, ajudando-o a manter o seu blog diário WikiLeaks. Ele também ajudou Mitchell a produzir The Age of WikiLeaks e Bradley Manning.: Truth and Consequences
Contribuiu nos veículos e programas de rádio e TV tais como CounterSpin, Democracy Now!, The Alyona Show, Sirius XM Left e The Young Turks. Orador muito apreciado, apresentou programas sobre WikiLeaks, Guantánamo Bay e outros temas relacionados com as liberdades civis.