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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Robert Fisk: — Conversa de John Kerry sobre o ISIS/ISIL é insulto à nossa inteligência

21/9/2014, [*] Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

E por que não inventam uma coalizão de 50 “nações desejantes” para destruir o Ebola?!

John Kerry preside o CS da ONU em 20/9/2014
Quem tenha estudado a Síria já sabe que não existe oposição “moderada’”

John Kerry vai ficando cada dia mais parecido com William McGonagall, o “pior poeta do mundo”, cujo horror, ante o desastre da Ponte Tay, em 1879, gerou o imortal comentário de que [a tal desgraça] “será lembrada por muito tempo”.

Como no verso de McGonagall, as tentativas de Kerry para explicar a cruzada dos EUA contra o mais recente inimigo malvado são tão ridículas, que se vai ficando viciado nelas. E quando você pensa que a explicação capenga, de Kerry, para os políticos americanos da cruzada iraquiana de Obama – o ISIL tem de ser derrotado, puro e simples, e fim da história – não pode(ria) ficar mais infantiloide, ela fica.

John Kerry
Por infantilismo – desafio os leitores a ler a frase seguinte até o fim, sem nenhuma careta de “mas... ele não pode ter dito uma coisa dessas!”:

“Quero deixar bem claro que, quando acabarmos aqui hoje, vocês me dirão o que pensam e eu saberei o que estão pensando” – disse Kerry à Comissão de Relações Exteriores do Senado semana passada – “e vocês terão ouvido de mim e saberão o que nós estamos pensando, o que o governo Obama está pensando, e que vocês têm uma clara compreensão do que estamos fazendo hoje e faremos na sequência”. “Tudo coisa complexíssima”, disse Kerry – e que, claro, sem dúvida, “será lembrada por muito tempo”.

O mais imediatamente chocante foi o mundo de fantasia de Obama o qual Kerry, com seu jeito de moleque pesadão, representou. Quem tenha estudado a Síria, mesmo de longe, e nem se fala dos que a conheçam de perto, sabe que a tal “oposição moderada”, ficcional – supostos desertores do Exército Árabe Sírio oficial – absolutamente não existe.

Corrupto, desiludido, assassinado ou simplesmente re-desertado de volta ao ISIL ou para outro grupo associado da al-Qaeda, o velho “Exército Sírio Livre” é, hoje, mito tão ridículo – e tão potente, para os kerrys desse mundo – quanto os arroubos de Mussolini de que o exército italiano poderia derrotar os britânicos no Norte da África. Qualquer soldado sírio pode contar, de viva voz, que está feliz por poder combater contra o tal “Exército Sírio Livre”, porque aquela “oposição moderada” é especialista só, em fugir feito coelhos. Quem luta até a morte são os “terroristas” de al-Qaeda-Nusra-ISIS/ISIL.

John Kerry
Mas Kerry, como os generais da Iª Guerra Mundial, vive num castelo de fadas de sua própria imaginação.

“Na Síria, o combate em campo será feito pela oposição moderada, a qual é o melhor contrapeso da Síria [sic] para extremistas do tipo ISIS/ISIL” – eis o que ele disse à Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados. – “E podemos falar mais sobre aquela oposição moderada – que jeito tem, quem é, do que são capazes hoje e do que poderão fazer – conforme nós avançarmos”. Como os generais [Douglas] Haig e [John] French, Kerry entrou em delírio.

O “Exército Sírio Livre”, disse Kerry, vem combatendo contra o ISIS/ISIL há dois anos – em Idlib, Aleppo, em torno de Damasco e em Deir Ezzor e o governo sírio − Kerry insistiu − não dá combate, nem dará, ao ISIS/ISIL.

Isso é absoluto nonsense.

A maioria dos 35 mil soldados mortos do exército sírio foram mortos em combates contra al-Qaeda e o ISIS/ISIL. E as únicas forças que realmente mantêm coturnos em solo contra o ISIS/ISIL são o Hezbollah e os Guardas Revolucionários do Irã, ao lado dos curdos.

Exaltar a “oposição moderada” dois dias antes de as mais recentes vitórias do ISIS/ISIL já os terem trazido até a fronteira da Turquia é absurdo, grotesco, ridículo.

E que estadista ilustra(ria) a própria ideia de que sunitas e xiitas estariam em aliança com os EUA, brandindo no ar a primeira página do The Wall Street Journal em que se vê um líder curdo, um ministro iraquiano xiita e o ministro sunita de Relações Exteriores da Arábia Saudita fotografados lado a lado? Kerry elogiou os clérigos sauditas por condenarem o ISIS/ISIL sunita, sem mencionar que muitos destacados imãs sauditas consomem muito mais tempo desqualificando os EUA. Nem poderia, mesmo, falar, dos clérigos paquistaneses que também declararam herético o ISIS/ISIL – porque, claro, passam praticamente todo o tempo acusando os sauditas de financiarem o ISIS/ISIL.

John Kerry brandindo no ar a primeira página do The Wall Street Journal
Como Cameron, Kerry serve-se do vocabulário da autoconfiança. Os EUA “de pleno direito” e “sem dúvida alguma” tinham de apoiar os esforços do governo iraquiano; e há “absoluta clareza” de que os EUA detiveram o ISIS/ISIL. Quanto ao “Estado Islâmico” propriamente dito, não passa(ria) de “distorção insultante do Islã”, “inimigo do Islã”, “culto militante fantasiado de movimento religioso” de “assassinos a sangue frio” cuja filosofia “saiu da Idade da Pedra”. Mas... e que diabo é isso?! Começamos por declarar que o ISIS/ISIL “saiu” da Idade Média; depois, que “saiu” do século XVIII. Agora, “saiu” do ano 2.000 a.C.

William McGonagall
Graças aos céus temos o general John Allen – o qual, nem faz muito tempo, andava propondo garantias de “segurança” para o Vale do rio Jordão que ambos, palestinos e israelenses, puseram abaixo – para resolver o caso no Iraque. É o ex-vice comandante da província Anbar do Iraque, homem – segundo Kerry – com “grande respeito” na região, com “conhecimento das tribos sunitas” e – ah, mas que perfeito momento McGonagall, esse – “de todo o pessoal por lá e que formam o mix a ser capaz de mobilizar a ação” [orig. “of all the folks there that are part of the mix to be able to mobilise action”].

Não surpreende que Kerry também tenha dito ao mundo que, dos 50 aliados internacionais anti-ISIS/ISIL dos EUA, alguns, sim, se engajarão em “atividade cinética”. Ah, é, pode apostar que sim! Embora meu palpite seja que ninguém venha a ver qualquer força aérea árabe unir-se ao bombardeio aéreo franco-norte-americano.

O que Kerry absolutamente não nos pode dizer é tão simples quanto o que ele mente que será simples a luta contra o ISIS/ISIL: que terá de haver algum tipo de aliança – algum tipo! – entre o “ocidente” e o Irã, para derrotar o ISIS/ISIL; que essa aliança inevitavelmente terá de incluir algum entendimento não revelado com a Síria de Bashar al-Assad; e quem sabe até, inclusive, com os apavorantes, impensáveis guerrilheiros “super-terroristas” do  Hezbollah, os quais – diferentes do que Kerry diz do ISIS/ISIL – não andam por aí “matando e estuprando e mutilando mulheres” ou vendendo meninas “para serem escravas sexuais de jihadistas”.


Mas, de homem que pensou que alinhavaria a paz paletinos-israelenses em 12 meses de conversa fiada... o que mais se poderia esperar? Sim, o ISIS/ISIL é o mais recente espectro a nos assombrar. Mas há outro, não mais distante, que ameaça todos e que, esse sim, tem de ser derrotado, “puro e simples, e fim da história”. Ameaça matar infinitamente mais gente que o ISIS/ISIL. Recebeu o nome de um obscuro rio africano. Quero dizer... E onde está a convocação de uma aliança de 50 “nações desejantes”, para destruir o Ebola?!
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Declaração de Vitaly Churkin, Embaixador da Rússia no Conselho de Segurança da ONU

12/4/2014 , The Saker - The Vineyard of the Saker
Traduzido da transcrição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker



Obrigado, Senhora Presidenta.

Hoje se ouviram muitas palavras, muitas declarações, mas a primeira impressão que gostaria de partilhar com meus colegas é que não estão prestando atenção ao relógio. Nesse momento são 21h30, o que significa que são 3h30 da madrugada na Ucrânia. Dentro de duas horas e pouco será dia, 14 de abril, na Ucrânia. Na verdade, é a hora em que, segundo ordens criminosas distribuídas pelo Sr. Turchinov, o Exército Ucraniano deverá entrar em ação para reprimir as manifestações de protesto.

Ouviram-se aqui muitas palavras injustas, mas com certeza a fala que supera todas as demais e supera até o que ele próprio já disse aqui, foi de meu colega ucraniano. Quer processar a Rússia por terrorismo. Por que nunca pensaram em processar os que aterrorizaram o seu próprio governo durante vários meses, até o dia 21 de fevereiro? Quem fez guerra contra a Polícia, quem queimou vivos oficiais de Polícia da Ucrânia, quem matou a tiros, policiais e pessoas que protestavam contra o governo e que parecem ser aliados do hoje governo de Kiev? O senhor jamais antes os chamou de terroristas e, isso, por alguma razão. E até os eximiu de qualquer responsabilidade por suas ações criminosas, que se repetiram por vários meses.

Outra vez, infelizmente, se ouviram aqui várias acusações ridículas contra a Rússia. Disseram que a Rússia quer desestabilizar a Ucrânia, até que tenta sufocá-la. Tão preocupados estão com a Ucrânia! Mas por que não responderam nosso pedido para que se iniciasse um diálogo sobre como ajudar a Ucrânia a enfrentar e combater uma crise quando ela estava começando? Por que só fizeram incitar o confronto, para que continuasse? Por que aconteceu tão tarde a manifestação dos ministros de Relações Exteriores da França, da Alemanha e da Polônia, dizendo que a União Europeia, sim, realmente precisava conversar com a Rússia sobre perspectivas econômicas da Ucrânia, Geórgia e Moldávia, no caso de esses países virem a associar-se à União Europeia? Por falar nisso, não me lembro de ter ouvido alguém, em Bruxelas, que apoiasse a posição daqueles ministros. Fomos acusados de “sufocar a Ucrânia” porque nos recusamos a doar, gratuitamente, nosso gás natural à Ucrânia.

Esperemos, para saber qual será a resposta dos Ministros da União Europeia, até dia 14 de abril, à carta do presidente Putin sobre como podemos trabalhar juntos para arrancar a Ucrânia do pântano econômico em que está.

E Washington – que, de fato, nem está na lista dos que receberam essa carta – já está pressionando a Europa e já diz que a carta seria “chantagem econômica”. Esperemos para vez se ainda resta alguma soberania à União Europeia, se é capaz, ou não, de tomar decisões racionais.

Durante toda a crise na Ucrânia, a Rússia votou “não” a qualquer movimento que contribuísse para acirrar os ânimos e desestabilizar o país. Não nos interessa nem acirrar os ânimos nem desestabilizar o país – absolutamente não nos interessa, porque a Ucrânia é nosso importante parceiro econômico e político, país muito próximo da Rússia em vários sentidos. A Rússia sempre votou contra a desestabilização da Ucrânia. Não somos absolutamente culpados pela situação que se observa hoje.

O Sr. Fernandes Tarancoa disse que representantes da ONU começaram a observar ações em que pessoas do sudeste da Ucrânia estariam capturando alguns prédios do governo. Não se pode esquecer que, evidentemente, muito aprenderam de Maidan e de Kiev, em matéria de capturar prédios públicos. Lá, capturaram prédios públicos durante meses!

Nossos parceiros ocidentais dizem que Maidan foi “exemplo de democracia”, não se sabe por quê. Mas mudam de opinião sobre as mesmas técnicas, quando o pessoal do sudeste faz coisa semelhante.

Aconteceu dia 6 de abril, já se passou um mês e meio desde 21 de fevereiro, quando o presidente Yanukovich foi derrubado e assinou-se acordo que, sim, impediria o agravamento ainda maior da situação.

Desde o início dissemos sempre que aquele acordo tem de ser implementado. Que talvez se tenha de convocar uma Assembleia Constituinte, para que se possam fazer gestos decisivos para o sudeste da Ucrânia. Algum gesto foi feito?

Pode-se dizer que sim: finalmente, o Sr. Yatsenyuk foi [ao sudeste da Ucrânia], disse alguma coisa e partiu no dia seguinte. Mas, um dia depois, o Sr. Turchinov discursou e disse que discorda de Yatsenyuk. Fato é que eles preferem usar a força.

Têm-se observado outros eventos preocupantes, durante várias consultas que mantemos com nossos colegas ocidentais. O Ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, como os senhores sabem, conversa quase todos os dias, por telefone, com o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

Em todos os telefonemas, Kerry dá sinais de que compreende – porque é compreensível – que não entendamos coisa alguma dessa confusão, e tenta, e procura fazer alguma coisa, e tenta falar com Kiev para ajudá-los a compreender as necessidades e as preocupações do sudeste, sobre a autonomia e os direitos deles à própria língua.

Então, de repente, um dos deputados deles faz um discurso no Congresso e diz “Sabemos que essas conversas darão em nada, mas temos de gastar o tempo”. Gastar o tempo. Quer dizer: será que haveria algum cenário de  Turchinov “usar o exército”, na cabeça de alguém em Washington? É mais que hora de parar de culpar a Rússia, que estaria procurando a desestabilização.

A representante dos EUA mencionou que o Vice-Presidente Biden irá à Ucrânia, se lembro bem, dia 21 de abril. Mas por que esperar tanto? Ele que pegue um telefone e telefone ao Sr. Turchinov, como telefonou tantas vezes ao Presidente Yanukovich, antes de 21 de fevereiro. Que o vice-presidente Biden diga ao Sr.Turchinov o mesmo que disse ao Sr. Yanukovich. Segundo o gabinete de imprensa do vice-presidente, ele disse “Não use força, pelo amor de Deus! Tire seus policiais do centro de Kiev”. Foi o que o Sr. Biden disse.

E agora? Agora os EUA aprovarão aquela ordem criminosa, para usar o exército contra civis? Por que, quando o povo estava indo assaltar a residência do presidente ucraniano os EUA pediram que não usassem a força e, agora, na situação atual, mudam completamente de posição, adotam o ponto de vista oposto e apoiam a ordem de Turchinov?

Por tudo isso, Sra. Power, por favor, peça que o Vice-Presidente Biden telefone ao Sr. Turchinov imediatamente, já, porque dentro de algumas horas os eventos podem tomar rumo irreversível.

Alguns colegas disseram, sobre aquele encontro que foi anunciado, que deve, com sorte, acontecer dia 17 de abril. A verdade é que estivemos tentando todas e quaisquer formas de diálogo – há vários meses, e especialmente depois de 21 de fevereiro – que conteriam a crise; e acertamos que haveria um encontro entre o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, o secretário de Estado dos EUA, a alta comissária da União Europeia, Sra. Ashton, e o Ministro interino de Relações Exteriores da Ucrânia. Esperávamos que dessa reunião brotasse um amplo diálogo político sobre a Ucrânia, que surgisse dali uma saída da crise. Mas alguém realmente supõe que alguma conversa seja possível, se o exército ucraniano iniciar operações militares? Qualquer conversa estará, nessas circunstâncias, absolutamente desvirtuada.

Por favor, portanto, paremos com especulações, perseguições, caçando fantasmas russos em todos os cantos da Ucrânia, e nos concentremos no que podemos fazer – nesse ponto, falo diretamente aos meus colegas ocidentais – para impedir ações temerárias, impensadas do governo de Kiev, que acaba de dar essa ordem criminosa, dada pelo Sr. Turchinov. Temos de impedir que aconteça. As consequências serão terríveis sobre o povo da Ucrânia e temos de evitar que aconteça.

Obrigado.

(Na sequência, depois da fala dos representantes da Ucrânia e dos EUA)

Dessa vez, falarei bem menos. Só preciso dizer duas coisas. Primeiro, Yuriy Anatolievich, você chama o seu próprio pessoal de “bandidos” com excessiva facilidade. Excessiva facilidade. O “Setor Direita” e os demais que, hoje, dizem que precisam sair matando gente, essa gente não são “bandidos”. Essa gente – foi com certeza o que você quis dizer − é a “elite política” em Kiev [ironia]. E os que protestam hoje no leste, com certeza, nada fariam se a Rússia não os mandasse fazer [ironia]. Estou entendendo. Para entender o horror do que o governo de Kiev está fazendo na Ucrânia… só se a Rússia mandar fazer. Entendi [ironia]. Ninguém na Ucrânia é capaz de entender coisa alguma. São radicais chegados da Rússia, que dizem a eles que lá estão para implantar uma nova ordem a ferro e fogo. Entendi. Se os russos não descerem lá e explicarem tudo aos ucranianos do leste, eles não entendem nada. Toda a experiência de uma vida inteira deles no próprio país deles, é nada, nada ensina. Como é possível? Por que vocês insistem nessa abordagem tão simplória?

E, por fim, quanto ao que disse nossa colega dos EUA, Sra. Power. Até agora, ainda não manifestou sua posição sobre essa ordem para usar o exército no leste da Ucrânia. Assim sendo, ainda tenho esperança de que, depois da reunião de hoje, como disse também ao nosso colega ucraniano e a outros de nossos colegas ocidentais, espero que todos peguem os telefones e telefonem aos seus patrões e digam a eles que façam valer a influência que tenham sobre o governo de Kiev. Que suspendam a luz verde para o ataque. Porque ninguém, no governo de Kiev, faz coisa alguma sem a aprovação deles. E nosso objetivo deve ser resolver os problemas mediante o diálogo, não em confronto militar.

Obrigado.


terça-feira, 1 de abril de 2014

ONU e a questão da Ucrânia: Assembleia Geral versus Conselho de Segurança

30/3/2014, [*] Alexander Mezyaev, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no “Fricote da Nêga”, na Vila Vudu — Seguinte: a imbecilidade da ideia dos EUA na ONU, de “declarar” alguma ilegalidade no referendo pelo qual a Crimeia decidiu separar-se da Ucrânia é equivalente a Portugal pôr-se a “declarar” que a independência do Brasil em 1822 seria ilegal, “porque” feri(ria) a integridade territorial de Portugal. Será que, assim bem explicadinho, o vagabundíssimo “jornalismo” brasileiro, afinal, entende do que se trata?!

Plenário da Assembleia Geral da ONU
Dia 27 de março, a Assembleia Geral da ONU  aprovou resolução intitulada “Integridade territorial da Ucrânia” [orig. “Territorial Integrity of Ukraine”, A/RES/68/262), com 100 votos a favor [1]; 11 contra (Rússia, Armênia, Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Coreia do Norte, Nicarágua, Sudão, Síria, Venezuela e Zimbabue); e 58 abstenções (24 estados-membros ou estavam ausentes ou presentes, mas não votaram). Os votos dos países membros do Conselho de Segurança ficaram assim distribuídos: Rússia votou contra; Argentina, China e Ruanda abstiveram-se; e os demais membros do CS votaram a favor.

O que diz o documento da Assembleia Geral da ONU? Afirma o compromisso da ONU com a soberania, a independência política, a unidade e a integridade territorial da Ucrânia, dentro de suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, e “declara” inválido o referendo do dia 16/3 realizado na Crimeia autônoma. Há dois momentos a observar aqui:

– primeiro, a Carta das Nações Unidas proíbe que se levem a votação na Assembleia Geral questões que estejam sob análise do Conselho de Segurança, enquanto estiverem sendo analisadas ali. Mesmo assim e apesar da ilegalidade, a questão da Ucrânia chegou à Assembleia Geral;

– segundo, como determina a Carta das Nações Unidas, as resoluções aprovadas pela Assembleia Geral não são cogentes [não têm de ser obrigatoriamente obedecidas ou consideradas (NTs)].

Quanto aos estados que aprovaram a Resolução, será que se ampararam em argumentos sólidos? Pode-se entender que esses 100 estados estariam unidos numa mesma posição política, discutida e sólida? A resposta é “Não”.

Reunião do Conselho de Segurança da ONU
Já se passou muito tempo desde que começou a campanha anti-Rússia relacionada à Crimeia; os autores da resolução não conseguiram reunir argumentos convincentes nos quais amparar sua iniciativa. Por isso acabaram tendo de recorrer à fórmula da Resolução A/RES/68/262.

A noção de que o referendo na Crimeia “desconsidera (ria) a lei internacional” não tem qualquer fundamento. Os representantes da Moldávia, do Japão e outros estados insistiram que o referendo estaria em conflito com a lei internacional, mas nenhum deles conseguiu citar o exato artigo da lei que estaria sendo “desconsiderado”. A memória fraca explica-se, porque simplesmente não há artigo algum que tenha sido “desconsiderado” na realização do referendo. Que o mundo saiba, a lei internacional absolutamente não proíbe referendos.

A verdade é o contrário disso tudo: a Corte Internacional de Justiça determinou que uma declaração unilateral de independência não desrespeita a lei internacional.

Nenhum dos patrocinadores do golpe na Ucrânia, nem a maioria sempre servil ao ocidente na Assembleia Geral da ONU esforçou-se muito para oferecer argumentos legalmente aproveitáveis a favor de sua proposta de resolução, afinal aprovada. Tudo, ali, resume-se a pura propaganda.

Deliberadamente, os fatos foram distorcidos e a lei foi apresentada sob forma que não corresponde ao que a lei realmente estabelece.

Por exemplo, o termo “anexação” é várias vezes repetido, quando se sabe que a Crimeia decidiu em referendo, por desejo manifesto do próprio povo crimeano, deixar a Ucrânia e se incorporar a outro estado. Não houve jamais, portanto, qualquer “anexação”.

Consideremos agora a questão da “violação” da integridade territorial da Ucrânia. Como já disse em outro artigo, o princípio da integridade territorial é mencionado na Declaração de Princípios da Lei Internacional de 1970, no contexto de intervenção por outro país. Absolutamente não se aplica a referendos internos decididos por população que tem pleno direito a autodeterminação.

A Lei Internacional declara que uma parte de qualquer estado tem pleno direito a tornar-se independente ou de se converter em unidade federada de outro estado que a população votante escolha.

Outdoor informando sobre o referendo na Crimeia
É, por exemplo, o que determina a “Convenção de Viena sobre a Lei dos Tratados entre Estados e Organizações ou entre Organizações Internacionais” – e em outras leis internacionais.

E quanto aos muitos estados que apoiaram a resolução?

− Primeiro, há bons motivos para suspeitar que muitos deles foram submetidos a pressões e, até, a chantagem.

− Segundo, muitos estados nada sabem da situação real na Ucrânia; votaram baseados em informação distorcida. Não é raro que os “votantes” nada saibam sobre o que acontece em campo, em país citado em votações na ONU. Para ter certeza disso, basta passar os olhos nas transcrições verbatim das sessões integrais de tudo que se diz nas sessões da Assembleia Geral, quando se discutem conflitos regionais ou posições oficiais de estados que os votantes consideram “distantes demais”, em termos geográficos ou políticos, de suas realidades locais ou regionais. E há os estados que não têm nem querem ter nem notícia do que realmente se passa na Ucrânia, porque votam em qualquer coisa que contribua para “confirmar” o que mais interesse à propaganda que Washington distribui para o mundo. Por exemplo, o representante da Nigéria justificou seu voto a favor da Resolução, dizendo que seu único interesse era defender os princípios da lei internacional e da Carta da ONU! Não fez sequer um mínimo esforço, inicial, incipiente que fosse, para compreender melhor a questão que realmente estava em jogo. E vários dos que votaram a favor da resolução votaram “com restrições”. O representante do Chile, por exemplo, votou a favor da resolução, mas declarou que seu governo considera inaceitáveis as sanções contra a Rússia.

Embaixador da Rússia na ONU, Vitaly Churkin
A situação é completamente diferente, quando alguns países, por pequenos que sejam, mostraram empenhado esforço em compreender o que é o quê, e tinham condições que lhes permitiam não ter de ceder à chantagem. O representante de Saint Vincent e Granadinas disse que o projeto de resolução que estava sendo votado nada tinha a ver com princípios ou com a lei internacional. E que lamentava que a Assembleia Geral se recusasse a buscar melhor informação sobre fatos históricos e sobre a verdade sobre o novo regime fascista que se instalou, por golpe, na Ucrânia.

A Rússia rejeitou a resolução porque a considera “confrontacional” – disse o embaixador Churkin da Rússia na ONU, antes de votar. Acrescentou que o texto da resolução obra para “desmoralizar o referendo” e o direito à autodeterminação do povo da Crimeia.

Disse que, mesmo assim, havia “algumas coisas corretas” no documento: fala contra ações unilaterais e contra retórica de provocação. Mas, disse o embaixador Churkin, ninguém precisa de resolução da ONU para promover essas metas: bastaria que todos começassem a agir no interesse do povo da Crimeia. A iniciativa para a reintegração da Crimeia à Federação Russa partiu do povo da Crimeia, não de Moscou – lembrou Churkin. A revogação do status de língua oficial do idioma russo, e ameaças de enviar para a Crimeia milicianos armados pelos golpistas de Kiev, geraram “massa crítica” que empurrou a península ao referendo e ao resultado do referendo, disse o embaixador russo.

Quem se dedique a examinar o procedimento naquela votação, é levado fatalmente à seguinte conclusão:

– A correlação entre os 100 votos a favor e os votos contra não reflete a realidade. Ainda que a realidade fosse 100 a 69, nem assim o quadro seria acurado. Mas o resultado real da votação foi 100 a 93.

169 países votaram (100+11+58), dos 193 países membros da ONU. Esses votos de votantes que não apareceram têm de ser somados aos votos de países que não apoiam a resolução, não, com certeza, aos votos dos que votaram “sim”. São 24 estados ausentes da votação; e esses 24 votos têm de ser somados aos 58 que se abstiveram oficialmente de votar.

Pode-se facilmente concluir que o mais claro e visível resultado da votação é que a diplomacia ocidental fracassou. 100 estados apoiaram a “teoria da integridade territorial da Ucrânia” [ou da “integridade territorial de Portugal, em 1822, contra a independência do Brasil”... (NTs)]; 93 reagiram contra. Esse afinal, foi o resultado real da “ação” do ocidente, na ONU, dessa vez.




[*] Alexander Mezyaev nasceu em Moscou 18/1/1971. De 1989 a 1991 serviu no exército soviético. Em 1997 graduou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal Kazan. Especialidade “Direito Internacional". Desde 1997, trabalha na Universidade de Gestão "TISBI".
Em 2001, defendeu tese de doutorado sobre especialidades: “Direito Internacional no Direito Europeu” – “A Pena de Morte e o Direito Internacional Contemporâneo”.
Participou da equipe de defesa do ex-presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, perante o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (2003-2006). Atualmente está participando da defesa de outros réus desse processo, o Professor Vojislav Seselj e o general Ratko Mladic. Membro da Associação Internacional de Advogados de Defesa atuando noTribunal Penal Internacional (ADC-TPIJ). É Vice Redactor-Chefe de “Kazan Jornal do Direito Internacional” (desde 2007). Esteve envolvido em projetos de pesquisa da Universidade de Leuven, na Bélgica (1997), da Universidade de Fribourg, Suíça (em 2000 e 2007), o Instituto de Direito Comparado, Lausanne, Suíça (2001), Instituto Internacional de Direito Público e Privado, Instituto TMC Asser, Haia, Holanda (2003), do Instituto Max Planck de Direito Comparado e Direito Internacional Público, Heidelberg, Alemanha (2007). Membro da Associação de Direito Internacional (Membro do Comitê de Direitos Humanos Direito Internacional); Associação Russa de Direito Internacional; Associação de Política Externa da Federação Russa; Associação Russa de Estudos Internacionais, Associação Russa de Estudos Africanos.

domingo, 9 de março de 2014

Sombra da Ucrânia nas estepes da Ásia Central

9/3/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vitaly  Churkin, representante da Rússia na ONU
Cada dia mais, a Rússia vai sendo forçada a “des-secretizar” a informação ultrassecreta que já tem, sobre a operação da inteligência ocidental que forçou o golpe em Kiev. O extraordinário, é que a Rússia entregou ao Conselho de Segurança da ONU a informação, e solicitou uma investigação internacional imparcial.

Claro, qualquer movimento com vistas a investigação imparcial será vetado pelos EUA. A Rússia também sabe disso, mas, afinal, também há uma guerra de informação em curso sobre a situação que cerca a Ucrânia e, do ponto de vista de Moscou, com as tensões montantes, passou a ser imperativo expor as mentiras da narrativa dos EUA.

Claramente, Polônia e Lituânia não se teriam aventurado a treinar extremistas para derrubar Yanukovich se não tivessem o sinal verde de Washington. Vale dizer que, sim, a Rússia está pondo sobre a mesa em formato de ferradura na ONU a inteligência que possui sobre um Santo Graal que pertence, integralmente, à Casa Branca.

É assunto mortalmente grave, porque expõe o presidente Obama, ele mesmo, sob nova luz, como “guerreiro da Guerra Fria”, ele mesmo, quando a propaganda oficial dos EUA quer que acreditemos que o presidente seria estadista sem apoio, que estaria agindo forçado por compulsões políticas domésticas.

Obama mente descaradamente sobre atuação dos EUA na crise da Ucrânia
O que se vê disso tudo é que já não há como remendar os destroçados laços entre EUA e Rússia durante o que resta de mandato a Obama. Tampouco a Rússia, de modo algum, baixará a guarda contra as atividades de espionagem dos EUA no seu “horizonte próximo”.

Assim sendo, não poderá ser “negócios, como sempre” no Afeganistão e na Ásia Central, que se tornou formato importante no chamado “reset” EUA-Rússia. Para que ninguém esqueça, o presidente Vladimir Putin desempenhou papel chave no estabelecimento de bases norte-americanas na região da Ásia Central, logo depois dos ataques de 11/9, em 2001.

Mas, sim, até aqui a Rússia está adotando posição ambivalente na questão do estabelecimento de bases militares no Afeganistão por EUA e OTAN. Mas tudo isso dará lugar a uma sensação de profunda desconfiança sobre as implicações de longo prazo, de uma presença sem prazo para acabar, dos militares ocidentais na região.

De fato, a pretensão do governo Obama, de fazer crer que os EUA estariam fazendo grande favor ao povo afegão e à estabilidade regional – principalmente para conter a guerra local entre Índia e Paquistão no Hindu Kush – por manter presença militar de longo prazo na região, passará doravante a ser vista por Moscou com mais do que só uma pitada de sal.

A má fé de Washington no caso da Ucrânia alertará Moscou contra o grande potencial de risco de a CIA usar solo afegão para fazer-acontecer “mudança de regimes” na Ásia Central e fomentar a agitação no Norte do Cáucaso.

De fato, o recente ataque contra guardas de fronteira do Turcomenistão, por elementos de origem obscura saídos do Afeganistão é amostra do que esperar. Claro que a culpa acabou nas costas dos Talibã (mas Ashgabat mantém guardados os próprios pensamentos sobre o incidente, no qual foram mortos três guardas turcomanos).

Posto de fronteira Turcomenistão-Afeganistão vítima de ataque em 1/3/2014
Mas por que os Talibã atacariam o Turcomenistão e perturbariam Ashgabat, que sempre foi a única capital da Ásia Central genuinamente amigável, e a única a manter boas relações com Kabul, mesmo durante o governo dos Talibã no final dos anos 1990s?

Dito de outro modo: alguém parece muito empenhado em convencer Ashgabat (cuja política externa é orientada pelo princípio da “neutralidade positiva”) de que o Turcomenistão necessita muitíssimo de ajuda dos EUA e da OTAN para garantir-lhe a segurança.

Por coincidência, o incidente do dia 1º de março na fronteira turcomeno-afegã aparece ao mesmo tempo em que surgem relatos de que a inteligência dos EUA está procurando instalações na Ásia Central para apoiar as ações de vigilância pelos seus drones.

Pelo sim, pelo não, todos os regimes da Ásia Central passarão a observar de perto os desenvolvimentos na Ucrânia. Já sabem, à luz de relatórios de inteligência, que Moscou já “informou” que os sinos estão tocando também para eles. Sintomática dos medos latentes na região é a decisão, tomada por Dushanbe, de bloquear todas as transmissões da Radio Liberty & Free Europe, financiada pelo governo dos EUA.

Variante curiosa, na atual “revolução colorida” na Ucrânia é que a inteligência dos EUA organizou os ultra-nacionalistas como soldados de campo para encenar o golpe. Acontece que os regimes pós-soviéticos na Ásia Central, especialmente Uzbequistão e Cazaquistão, também estimularam (por razões variadas) a implantação de sentimentos nacionalistas nas respectivas sociedades. E eles podem vir a assombrá-los, se potências estrangeiras cooptarem os ultra nacionalistas, como se viu na Ucrânia.

Os eventos na Ucrânia mostram a facilidade com que ressentimentos populares represados podem ser explorados por potências estrangeiras para promover “mudança de regime”. Na superfície, as regiões da Ásia Central mantêm-se calmas, mas praticamente todos os elementos que converteram a Ucrânia num vulcão também estão lá, esperando para entrar em irrupção.

A presença militar russa na Ásia Central contrapõe-se às bases dos EUA 
O crescimento da presença militar russa na Ásia Central tem, portanto, um vastíssimo enquadramento geopolítico. Até aqui, o pensamento russo foi que Rússia de um lado e EUA e OTAN de outro teriam interesses convergentes para minimizar, senão para eliminar, os fatores de instabilidade que afetam a segurança e a estabilidade da Ásia Central e do Afeganistão.

Mas, conforme os eventos na Ucrânia se desdobram, começa a haver necessidade de mudar paradigmas. É como dizer que passa a ser arriscado demais, para o Kremlin, continuar a ver EUA e OTAN como parceiros benignos. Impossível que Moscou não saiba que o inventor do famoso Grande Tabuleiro de Xadrez, Zbigniew Brzezinski, está hoje pregando abertamente a mobilização da OTAN, “com tropas na Ásia Central, para que estejamos em posição de responder, se a guerra eclodir e espalhar-se”.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.