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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Pepe Escobar: “Socorro! Convoquem a Al-Qaeda!”

5/8/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ministério da Verdade, George Orwell - 1984
Quando a coisa pega à vera, é só convocar o Ministério da Verdade, [1] que ele logo dá jeito.

Aproximava-se o fim do Ramadan. Os jihadistas daquela entidade vaga, a al-Qaeda na Península Arábica [al-Qaeda in the Arabian Peninsula (AQAP)], entraram em surto de hiperatividade. Foi aquela multidão de gente saindo das prisões, da Líbia ao Paquistão, via Iraque. E tudo em perfeita sincronia com duas fatwas lançadas em rápida sucessão pelo bicho-papão perene, ex-braço direito de Osama bin Laden, Ayman “Doutor Maldade” al-Zawahiri.

Edward Snowden
Imagine reunião de emergência, crise total, nos mais altos escalões do complexo orwelliano/Panopticon: “Cavalheiros, temos aqui uma oportunidade de ouro. Estamos sitiados pelo espião desertor Edward Snowden – que os soviéticos libertaram – e o hack-terrorista Greenwald. Snowden pode estar ganhando: até na opinião pública nos EUA cresce a percepção de que nós talvez sejamos ameaça ainda maior que a al-Qaeda.

Assim sendo, temos de mostrar que vigilantemente protegemos nossas liberdades. Taí! Todos juntos, ao mesmo tempo, gritando Térã, Térã, Térã! [2] .

Instantaneamente haverá fechamento, com muita fanfarra, de muitas embaixadas e consulados dos EUA no “mundo muçulmano” e o Departamento de Estado lançará alerta “mundial” para viagens aéreas – que a Interpol imediatamente expandirá. Segue-se vasta confusão – com muitos tentando descobrir se “mochilar” na Tailândia ou comer caviar fresco em Baku serão atividades nas quais você, garantido, não corre(ria) o risco de acordar explodido.

Glenn Greenwald
Instantaneamente, temos também toda a imprensa-empresa nos EUA e no “ocidente” tombando de amores pelo meme Térã, Térã, Térã, tudo outra vez. E amaldiçoados os que pensam que isso teria algo a ver com islamofobia. Você pensou que Térã, Terá fosse coisa do passado? Não, Térã, Terã é onipresente, onisciente, espiando por todos os lados. Terá quer pegar você. Térã Wants You. Trens e barcos e aviões – você jamais estará a salvo, esteja onde estiver.

Pois o fabuloso específico telegrama “de inteligência” que o Ministério da Verdade deu jeito de desenterrar resume-se a alguns jihadi de baixo escalão que se jactam, pela rede, de eles e seus camaradinhas estarem preparando alguma coisa bem suja, em algum lugar, mas em vários lugares e não especificados, por todo o Oriente Médio-Norte da África [orig. Middle East-Northern Africa (MENA)].

Operação clandestina [orig. False flag] à vista

Exame mais detalhado dos “milhares” de al-Qaeda libertados das prisões e prontinhos para fazer o inferno por todo o planeta mostra que muitos deles, afinal de contas, parecem ser “nossos” amigos.

A fuga em massa em Benghazi (fugiram provavelmente 1.000 prisioneiros) – não chega realmente a preocupar os Amigos da OTAN do tipo Grupo de Combate Islâmico Líbio [orig. Libyan Islamic Fighting Group]; essas milícias já estão no poder, ocupadíssimos em destruir a Líbia até o status de estado falhado para sempre.

Na dupla fuga em massa em Bagdá (podem ter escapado algo como 1.400 prisioneiros), o destino geral foi o deserto da Síria, para unir-se em jihad com os Amigos de Obama/Cameron/Hollande/Casa de Saud, no saco de gatos conhecido como Frente Jabhat al-Nusra/Estado Islâmico do Iraque e Levante. Mas... peraí! Se são “nossos” amigos na Líbia e na Síria, como é possível que sejam nossos inimigos no Paquistão e no Iêmen?

Só falta o Rei Abdullah...
No Paquistão (fugiram provavelmente 500), eles se dispersarão pelas áreas tribais e por lá ficarão quietos – ou serão dronados conforme ordene O-Oh!-Bama, o que tem lista de licença para matar. Por falar nisso, não houve alerta para o Paquistão (nem para a embaixada em Islamabad, nem para o consulado em Peshawar, por exemplo), nem na Indonésia. Quer dizer: não se trata de “mundo muçulmano”; é basicamente o MENA. E especificamente o Iêmen. Mas Obama, semana passada, disse ao presidente do Iêmen que a al-Qaeda está(ria) em retirada. Mas então... O que é isso? A Al-Qaeda na Península Arábica optou por uma des-retirada?

Em resumo, é o seguinte: o continuum Bush-Obama nunca nos decepciona – e, isso, para nem falar de al-Zawahiri, a velha raposa. O Doutor Maldade, estrategista afiadíssimo que é, percebeu, há algum tempo, que se o mito do bicho-papão global chamado “al-Qaeda” está hoje “mais forte do que nunca” é graças ao governo Obama e aos seus poodles, com bases na Europa e no Golfo Persa, com sua estratégica de Três Patetas para da Líbia até a Síria. O Afeganistão é outra história, completamente diferente; não restou ali qualquer al-Qaeda histórica; só um punhado, nas áreas tribais do Paquistão.

Assim sendo, al-Zawahiri logo percebeu que o bicho papão seria inevitavelmente ressuscitado, em perfeita sincronia com suas recentes fatwas, porque guerra “longa” – ou “infinita” = dinheiro perpétuo para o complexo orwelliano/Panopticon. E é essencial que haja um conveniente inimigo estrangeiro. E ninguém em Washington, em tempo algum, de modo algum, jamais admitirá publicamente que o “inimigo” real, como concorrente estratégico, é o dragão chinês.

Ayman al-Zawahiri
O Doutor Maldade e o complexo orwelliano/Panopticon estão do mesmo lado – e isso explica por que lhe será permitido continuar como máquina perpétua de emissão de fatwas enquanto quiser, e ele não será preso como qualquer pateta, pelo modelito da bomba na cueca. O complexo está ofendido. Reformar a Agência de Segurança Nacional? Meterem o nariz nos nossos metadados? Para quê? Pois se acabamos de alertar o governo dos EUA em níveis “pré 11/9” de papo terrorista!

É possível que a Al-Qaeda na Península Arábica decida não participar desse roteirinho mundial “pré 11/9”. Verdadeiros jihadistas, afinal, não são idiotas a ponto de se deixarem apanhar pelo programa XKeystroke. Eis aí, pois, um quebra-cabeças [Bob] Dylanesco para vocês. All along the watchtower [da torre do sentinela, da trincheira], [3] aproxima-se uma bandeira falsa – “disse o coringa [o piadista, o falastrão] para o ladrão”. Há muita Terã confusão, e não teremos paz. [4]



Notas dos tradutores

[1 ] No livro 1984, de George Orwell, o Ministério da Verdade (em Novilíngua, Miniver ou Minivero) é um dos quatro ministérios que compõem o governo da Oceania. Analogamente aos demais ministérios, (Ministério do Amor, Ministério da Fartura, Ministério da Paz), o seu objetivo é exatamente o oposto da Verdade: este ministério é diretamente responsável pela falsificação da história. Em Novilíngua, porém, o nome é apropriado, já que “verdade” é aquilo que o Estado quer que seja verdade. O protagonista do livro, Winston Smith, trabalha no Ministério da Verdade. Na parede externa do Ministério da Verdade estão os três slogans do Partido: “Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é Força”. O Ministério da Verdade cuida das notícias, entretenimento, artes e educação. O seu propósito é reescrever a história e alterar os fatos, de forma que eles se encaixem na doutrina do Partido. Por exemplo, se o Grande Irmão fez uma previsão que se revelou errada, os funcionários do Ministério devem reescrever a história, de forma que a previsão do Grande Irmão seja precisa. Dentro da novela, Orwell discute qual é a razão para a existência deste ministério: o seu objetivo é criar a ilusão de que o Partido é absoluto. O Partido não muda suas diretrizes (por exemplo, ele não troca seus aliados ou inimigos entre Lestásia e Eurásia), não comete erros (o Partido não demite membros nem faz previsões erradas sobre suprimentos), porque isto implicaria fraqueza, e para manter o poder o Partido deve parecer eternamente correto e forte.

[2] Modo como Bush pronuncia a palavra “terroristas”.

[3] All Along the Watchtower é título de canção de Bob Dylan, de 1968, gravada por Jimi Hendrix. Leia matéria sobre a canção, em que a letra é analisada quase linha a linha (em inglês). Ouve-se a seguir:


[4] São palavras “rearranjadas”, dos versos de All along the Watchtower: “There must be some way out of here”, said the joker to the thief, / “There's too much confusion, I can't get no relief. / Businessmen, they drink my wine, plowmen dig my earth, / None of them along the line know what any of it is worth.”/ “No reason to get excited,” the thief, he kindly spoke, / “There are many here among us who feel that life is but a joke. / But you and I, we've been through that, and this is not our fate, / So let us not talk falsely now, the hour is getting late.” / All along the watchtower, princes kept the view / While all the women came and went, barefoot servants, too. / Outside in the distance a wildcat did growl, / Two riders were approaching, the wind began to howl.
_______________________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes The Real News Network TV Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.

Livros

sexta-feira, 28 de junho de 2013

GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORÂNCIA É FORÇA

Leia abaixo, um pedacinho e aqui inteirinho e grátis, em português.
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário do Brigaboa na redecastorphoto após ler o livro 1984 inteiro: “Qualquer semelhança com o programa PRISM da NSA - Agencia Nacional de Segurança dos EUA, revelado por Edward Snowden, NÃO é mera coincidência”.


George Orwell
Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos acima do nível do solo, e correspondentes ramificações no subsolo. Espalhados por Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatro ao mesmo tempo.

Eram as sedes dos quatro Ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto. 

O Ministério do Amor era realmente atemorizante. Não tinha janela alguma. Winston nunca estivera lá, nem a menos de um quilômetro daquele edifício. Era um prédio impossível de entrar, exceto em missão oficial, e assim mesmo atravessando um labirinto de rolos de arame farpado, portas de aço e ninhos de metralhadoras. Até as ruas que conduziam às suas barreiras externas eram percorridas por guardas de cara de gorila e fardas negras, armados de porretes articulados. Winston voltou-se abruptamente.


Afivelara no rosto a expressão de tranquilo otimismo que era aconselhável usar quando de frente para a teletela. Atravessou o cômodo e entrou na cozinha minúscula. Saindo do Ministério àquela hora, sacrificara o almoço na cantina, e sabia que não havia na casa mais alimento que uma côdea de pão escuro, que seria a sua refeição matinal, no dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com um rótulo branco em que se lia GIN VITÓRIA. Tinha cheiro enjoado, oleoso, como de vinho de arroz chinês. Winston serviu-se de quase uma xícara de gin, contraiu-se para o choque e engoliu de vez, como uma dose de remédio. Instantaneamente, ficou com o rosto rubro, e os olhos começaram a lacrimejar. A bebida sabia a ácido nítrico, e ao bebê-la tinha-se a impressão exata de ter levado na nuca uma pancada com um tubo de borracha. No momento seguinte, porém, a queimação na barriga amainou e o mundo lhe pareceu mais ameno.

Tirou um cigarro do maço de CIGARROS VITÓRIA e imprudentemente segurou-o na vertical, com o quê todo o fumo caiu ao chão. Puxou outro cigarro, com mais cuidado. Voltou à sala de estar e sentou-se a uma pequena mesa à esquerda da teletela. Da gaveta da mesa tirou uma caneta, um tinteiro, e um livro em branco, de lombada vermelha e capa de cartolina mármore. Por um motivo qualquer, a teletela da sala fôra colocada em posição fora do comum.

Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, donde poderia dominar todo o aposento, fôra posta na parede mais longa, diante da janela. A um dos seus lados ficava a pequena reentrância onde Winston estava agora sentado, e que, na construção do edifício fôra, provavelmente, destinada a uma estante de livros. Sentando-se nessa alcova e mantendo-se junto à parede, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que respeitava à vista. Naturalmente, podia ser ouvido mas, contanto que permanecesse naquela posição, não podia ser visto. Em parte, fora a extraordinária topografia do cômodo que lhe sugerira o que agora se dispunha a fazer. Mas fora-lhe também sugerido pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um livro lindo. O papel macio, cor de creme, ligeiramente amarelado pelo tempo, era de um tipo que não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Era de ver, entretanto, que devia ser muito mais antigo. Vira-o na vitrina de um triste bricabraque num bairro pobre da cidade (não se lembrava direito do bairro) e fora acometido imediatamente do invencível desejo de possuí-lo.


Os membros do Partido não deviam entrar em lojas comuns (“transacionar no mercado livre”, dizia-se), mas o regulamento não era estritamente obedecido, porque havia várias coisas, como cordões de sapatos e giletes, impossíveis de conseguir de outra forma. Relanceara o olhar pela rua e depois entrara, comprando o caderno por dois dólares e cinquenta. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para nenhum propósito definido. Levara-o para casa, às escondidas, na sua pasta.


Mesmo sendo em branco, o papel era propriedade comprometedora.

domingo, 21 de abril de 2013

O estado de guerra orwelliano nos EUA: Carnificina e duplifalar da imprensa-empresa


17/4/2013, Norman Solomon, Commondreams
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Norman Solomon
Depois das bombas que mataram e mutilaram tão horrivelmente na Maratona de Boston, políticos e jornalistas da imprensa-empresa dos EUA [sempre caninamente repetidos por políticos e jornalistas da imprensa-empresa no Brasi] não se cansam de repetir discursos de compaixão – e incansáveis “duplipensar e duplifalar”, que George Orwell definiu como:

...empenho em apagar e fazer esquecer todos os fatos inconvenientes.

Em sincronia com veículos comerciais em todo o país, o New York Times estampou manchete de apavorar, na 1ª página da edição da 4ª-feira:

Bombas de Boston Carregadas para Estraçalhar, dizem autoridades.

A matéria falava de uma panela de pressão cheia de pregos e pedaços de metal;

...montada para disparar fragmentos pontudos de metal, contra todos que estivessem no campo de explosão.

Explosão da bomba caseira próxima da chegada da maratona de Boston
Muito menos improvisadas e pesando quase 500 kg, as bombas CBU-87/B de fragmentação estavam classificadas sob a categoria de “munição de efeitos combinados”, quando foram disparadas, há 14 anos, por um bombardeiro que levava o nome de “Tio Sam”.

A imprensa-empresa nos EUA praticamente nem noticiou o “evento”.

Bomba de fragmentação (ing. cluster bomb) aberta e as "bolinhas" (ing. bomblets)
Numa 6ª-feira, ao meio-dia, forças da OTAN lideradas pelos EUA lançaram bombas de fragmentação sobre a cidade de Nis, na área vizinha de um mercado de legumes e frutas.

As bombas explodiram perto de um complexo hospitalar e de um mercado, causando mortes e cobrindo de estilhaços as ruas da terceira maior cidade da Serbia – leu-se em despacho do San Francisco Chronicle, dia 8/5/1999.

E:

Numa das ruas que leva ao mercado, viam-se corpos estilhaçados, entre cenouras e vegetais, em poças de sangue. Um dos cadáveres coberto por um lençol, de uma mulher, ainda tinha na mão a cesta de compras cheia de cenouras.

Destacando que bombas de fragmentação “explodem no ar e espalham pregos e fragmentos de metal sobre vasta área”, o correspondente da BBC, John Simpson, escreveu no Sunday Telegraph:

Usadas contra alvos humanos, as bombas de fragmentação estão entre as armas mais selvagens do moderno arsenal bélico.

Nos EUA, “armamento selvagem” não significa armamento proibido. De fato, para o então comandante-em-chefe, Bill Clinton e seus cérebros militares belicistas,  assessores em Washington, “selvagem” é um dos atributos positivos das bombas de fragmentação. Cada uma delas dispara cerca de 60 mil fragmentos afiados de metal contra o que o fabricante das bombas descreve como “alvos moles”.

Funcionamento das Bombas de Fragmentação e suas "bomblets" (ing.)
Um raro repórter diligente, Paul Watson do Los Angeles Times noticiou, de Pristina, Yugoslavia:

Em cinco semanas de ataques aéreos, dizem testemunhas locais, os aviões da OTAN têm disparado bombas de fragmentação, que lançam bombas menores, de explosão retardada, sobre vastas áreas. No jargão militar, essa munição menor é chamada bomblets  [ap. “bombinhas”]. O Dr. Rade Grbic, cirurgião e diretor do principal hospital de Pristina, vê, diariamente, provas de que a expressão “bombinha” apenas mascara o trágico impacto desse tipo de munição. Grbic, que salvou a vida de dois meninos albaneses feridos quando outras crianças brincavam com uma bomba de fragmentação não detonada encontrada no sábado, disse que nunca, em toda a vida, fez tantas amputações.

A matéria do LA Times citava o Dr. Grbic:

Sou ortopedista há 15 anos, trabalhando em região de conflito onde sempre se veem ferimentos terríveis, mas nunca antes vimos, nem eu nem meus colegas, o que vimos depois que as bombas de fragmentação começaram a ser usadas. São ferimentos extensos e profundos. Os membros estão de tal modo destroçados, que a única via possível é a amputação. É terrível, terrível.

O relato prossegue:

Só o hospital de Pristina já recebeu entre 300 e 400 feridos por bombas de fragmentação desde que começou a guerra aérea da OTAN, dia 24 de março. Metade das vítimas são civis. Esse número não inclui os mortos pelas bombas de fragmentação, nem os feridos em outras regiões da Iugoslávia. O número total de vítimas é muito superior. A maioria das vítimas são atingidas pelas bombas menores, programadas para explodir algum tempo depois de lançadas, quase sempre já no solo.

Adiante, já durante a invasão e nos primeiros tempos da ocupação, militares dos EUA lançaram bombas de fragmentação no Afeganistão. E também usaram munição de fragmentação no Iraque.

Hoje, o Departamento de Estado ainda se opõe à proibição desse tipo de arma, como se lê na página oficial 
As bombas de fragmentação são comprovadamente úteis do ponto de vista do interesse militar. A eliminação delas do arsenal dos EUA poria em risco a vida de nossos soldados e dos soldados de nossos parceiros de coalizão.

E o Departamento de Estado prossegue:

Além disso, as bombas de fragmentação frequentemente resultam em muito menos dano colateral que bombas unitárias, como o que seria causado por bombas maiores ou fogo mais amplo de artilharia, se usados para a mesma missão.

Vai-se ver... Os que encheram uma panela de pressão com pregos e pedaços pontiagudos de metal e a explodiram em Boston raciocinaram exatamente como, e tão pervertidamente quanto, o Departamento de Estado!

Mas que ninguém espere esse tipo de leitura dos jornais comerciais diários ou das redes comerciais de televisão – nem, sequer, de redes “públicas” do tipo da National Public Radio (NPR) em programas como “Morning Edition” e “All Things Considered”, ou do Public Broadcasting System (PBS) e seu “NewsHour”.

Quando o assunto é matança e mutilação de seres humanos, esses veículos imediatamente assumem o pressuposto “alto padrão moral” preventivo da Casa Branca.

Em seu romance 1984, Orwell escreveu sobre o reflexo condicionado de:

...paralisar, encurtar, como que por instinto, parar sempre um passo antes de qualquer pensamento ousado, considerado perigoso (...), para não ser perturbado, entediado ou repelido por qualquer ideia ou linha de pensamento que leve a alguma heresia.

Esse duplipensar e duplifalar – incansavelmente reforçado pelo jornalismo comercial de massa – preserva-se ainda dentro de uma zona proibida à crítica, na qual nenhuma ironia radical é admitida, e que admite, no máximo alguma autossátira, pressuposta menos danosa à coerência intelectual e moral.

Todo o noticiário distribuído por veículos das empresas de jornalismo comercial sobre as crianças mortas e feridas em Boston, cada relato da horrenda mutilação de braços e pernas, faz-me lembrar de Guljumma, uma menina que tinha sete anos quando a encontrei em um campo de refugiados afegãos, num dia do verão de 2009.

Guljumma
Naquela época, escrevi que 
Guljumma contou o que aconteceu uma manhã, ano passado, quando ela dormia em casa, no vale Helmand, no sul do Afeganistão. As bombas explodiram às 5h da manhã. Morreram parentes seus. Ela perdeu um braço.

Os EUA não ofereciam qualquer tipo de ajuda humanitária às várias centenas de família que viviam, em condições miseráveis, no campo de refugiados nos arredores de Cabul. O único contato significativo que jamais houve entre Guljumma, o pai dela e o governo dos EUA foi quando a casa deles foi bombardeada.

A guerra favorece todo tipo de abstrações jornalísticas, mas Guljumma não é abstrata. É tão concreta quanto as crianças cujas vidas foram arruinadas para sempre, pelas bombas na Maratona de Boston.

Problema é que os mesmos veículos de jornalismo comercial que não se cansam de falar da preciosidade das crianças feridas em Boston mantêm-se absolutamente indiferentes às crianças como Guljumma.

11 crianças assassinadas pelo terrorismo dos EUA-OTAN no Afeganistão em 7/4/2013
Pensei também nela quando vi o noticiário e uma foto horrenda, dia 7/4/2013, de um dia em que 11 crianças, no leste do Afeganistão, tiveram ainda menos sorte que Guljumma. Aquelas crianças morreram num ataque aéreo da OTAN-EUA.  
Para os jornalistas empregados do jornalismo comercial norte-americano, ali nem havia notícia; para os militares norte-americanos, não foi grande coisa.

Os cachorrinhos de circo dançam quando o domador estala o chicote – escreveu Orwell – mas os cachorrinhos realmente bem treinados são os que dão seus saltinhos, quando nem se ouve o chicote.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Lawrence Davidson: “Algo de podre no estado de Israel”


25/3/2013, Lawrence Davidson, To the point analysis 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Lawrence Davidson
Diz-se que o diabo arrasta com ele um fedor de fogo e enxofre. Os feitos do diabo são frequentemente descritos como “o mal mais alucinado” [1]. E quem pareça (seja ou não seja) inocente é sempre descrito como “cheirando a rosas”. Parece haver, pois, associação antiga entre feitos e fedores.

O exército israelense recentemente se empenhou em demonstrar essa associação. Dia 6 de março, o Middle East Monitor noticiou que:

...o exército de Israel atacou casas de palestinos na vila de Nabi Saleh com jatos de água podre de esgoto, como punição aos palestinos que organizavam protestos semanais contra o Muro do Apartheid construído em terra roubada. O grupo de defesa de direitos humanos B’Tselem publicou um vídeo (a seguir) no qual se veem caminhões-tanques blindados israelenses, armados com “canhões d’água”, lançando água podre de esgotos sobre casas de palestinos.


A água podre de esgoto é líquido tão mal-cheiroso que não há quem não se afaste para o mais longe que possa, de quem feda como fede aquela água podre. Não é a primeira vez que o exército de Israel usa esse tipo de tática imunda.

Os colonos sionistas orgulham-se muito da prática de lançar os esgotos bem longe das próprias colônias, quase sempre erguidas nas áreas mais altas, diretamente nos campos e cidades palestinas, nos vales abaixo. Ao que tudo indica, são práticas conhecidas e, muito provavelmente, aprovadas pelo estado de Israel.

Duvido que muitos dos israelenses envolvidos nessas manobras tenham algum dia lido O Inferno, de Dante. Naquele poema épico, o inferno é lugar afogado em esgoto e podridão: as ações dos israelenses parecem desejar reproduzir o mesmo cenário. Estarão os israelenses dedicados a converter em inferno a Terra Santa? Sim, pelo menos no que tenha a ver com os palestinos. Por isso os colonos e os soldados copiam os passos dos amaldiçoados de Dante.

David Ward
Até onde vai o fedor das ações dos israelenses? Com certeza chega até Londres. Recentemente, o deputado David Ward, do partido Democrático Liberal escreveu num livro de visitas do Memorial do Holocausto que:  

...tendo visitado Auschwitz duas vezes (...) muito me entristece ver que os judeus, vítimas de níveis inacreditáveis de perseguição durante o Holocausto, já estivessem, poucos anos depois de libertados daqueles campos de morte, a infligir tais atrocidades aos palestinos no novo Estado de Israel e que continuem a fazer o mesmo até hoje, diariamente, na Cisjordânia e em Gaza.

A referência que Ward fez a “os judeus” é qualificada, porque nem todos os judeus apoiam o sionismo, nem a ideia de que Israel tenha algum direito a ocupar “Judéia e Samaria”, muito menos a comandar pogroms  como se veem hoje, em ações de limpeza étnica em áreas que o estado israelense controla. A verdade é que cada dia mais e mais judeus norte-americanos manifestam-se contra o que Israel faz na Palestina.

Mas Ward acerta no que diz do comportamento do “estado judeu”. E é possível que a generalização errada, na frase de Ward, seja resultado da propaganda israelense, que nunca se cansa de repetir que Israel representa(ria) todos os judeus do mundo.

Mas nem todos dão sinais de desgostar do fedor que emana do estado de Israel: há os que gostam. O partido Liberal Democrático do deputado Ward chamou-o às falas, pelo crime de ter denunciado que os crimes do mal mais alucinado continua a ser praticados contra os palestinos, por autoproclamados representantes de todos os judeus.

Teria bastado uma advertência discreta, que lembrasse Ward de que, em todos os casos, devem-se evitar generalizações. Mas, usando processo semelhante ao que se vê nos regimes totalitários, o partido Liberal Democrático ordenou que o deputado

...procure a divisão do partido chamada Amigos de Israel, para informar-se sobre o correto linguajar que os deputados devem empregar sempre que falarem sobre o conflito Israel-palestinos.

O deputado obedeceu e distribuiu as exigidas desculpas públicas. Meu nariz fareja aí um horrível fedor de censura.

Mas uma coisa é punir alguém por chamar a atenção para o abjeto comportamento de Israel. Outra, diferente, é insistir no desatino de pretender que o que é insano e abjeto seria justo e bom. Haveria alguém suficientemente cínico, impiedoso, a ponto de impor a outros seres humanos esse tipo de castigo nauseabundo e em seguida elogiar o castigo e todo o fedor, ante as câmeras de televisão de todo mundo? Parece que há. Parece que vive em Washington, onde negar os fedores que emanam de Israel é prática quase unânime. Parece que é presidente dos EUA.

Dia 15/3, antes de partir para visitar Israel, o presidente Obama disse, em entrevista ao Canal 2 da televisão israelense (ver a seguir, em inglês e legendado em ídiche), que admira muito “os valores centrais” de Israel.


Em análise que publicou depois, o jornalista israelense Gideon Levy – que tem nariz honesto e fareja podridões onde as haja – perguntou:

Gideon Levy
...de que valores Obama falava? De desumanizar os palestinos? Da atitude contra migrantes africanos? Da arrogância? Do racismo? Do nacionalismo? Obama admira isso? Será que jamais, antes, ouviu falar de ônibus segregados (palestinos não entram)? Será que jamais antes ouviu falar de comunidades convivendo no mesmo território, uma com todos os direitos, a outra sem nenhum direito? Terá esquecido... tudo?!

Dizer que admira “os valores centrais” de um dos países mais racistas do mundo, onde há muro e políticas de apartheid, significa, isso sim, trair todos os valores centrais do movimento pelos direitos civis nos EUA – o movimento que tornou possível o milagre-Obama.

O caso é que, chegado a Israel, o presidente Obama disse que o apoio dos EUA àquela Israel que Levy descreve será “eterno”, forever. Deve-se acrescentar que, ao mesmo tempo, o presidente insistiu que os palestinos parem de querer o fim das construções nas colônias em território ocupado e das correspondentes políticas de esgoto podre... ou jamais terão qualquer conversação de “paz” com os israelenses.

No que tenha a ver com Israel, nem o presidente Obama, nem a maior parte dos políticos no Congresso dos EUA são capazes de ver a diferença entre o certo e o errado, entre o justo e o “mal mais alucinado”. Por isso vivem num mundo à parte, estanque, só deles, cujos parâmetros e “valores” são definidos e “ensinados” a eles por um lobby sionista ao qual se deram poderes orwellianos.

Nesse mundo excepcional, abunda o duplipensar. Racismo, apartheid, limpeza étnica e o uso tático de água podre de esgotos e Skunk desaparecem, substituídos por imaginários “valores centrais” que cheiram a rosas.

O presidente, se quiser, que se afogue o quanto queira, privadamente, nos fedores mais nauseabundos, e chame-os de cheiro de rosa o quanto queira. Mas quando tenta vender a nós todos a falcatrua, é a credibilidade de seus discursos que se vai pelo esgoto. Lembremos o que George Orwell ensinou sobre o mau uso do discurso político 

Usada para o mal mais desatinado, a fala política torna possível “defender o indefensável” e “foi construída para fazer mentiras soarem como verdades, para tornar respeitável o assassinato e para dar ao vento aparência de solidez”. A isso está reduzida a fala da maioria dos políticos, no que tenha a ver com Israel/Palestina.

Que isso continuará forever, como quer o presidente Obama, é puro exagero, hipérbole. Considere-se um recente relatório da CIA, que questiona a capacidade do estado sionista para conseguir sobreviver outros vinte anos.

A verdade é que o fedor que emana de Israel indica podridão sociopolítica intestina, tão podre quanto as táticas podres que Israel usa contra moradores não judeus. Mais cedo ou mais tarde, qualquer homem, qualquer mulher que ainda preserve boa consciência humana (e melhor se mantiverem também nariz honesto e em funcionamento) passarão a recusar a ter qualquer associação ou contato com esse estado, na prática, já estado de apartheid.



Nota dos tradutores

[1] Orig. most foul”. A expressão aparece em Hamlet, ato 1, cena 5, quando o espectro do rei assassinado conta a Hamlet sobre o crime de que foi vítima: Murder most foul, as in the best it is, but this most foul, strange and unnatural” [aprox. “Assassinato é sempre [o mal] mais alucinado, mas esse do qual falo é o mais alucinado de todos, estranho, contra a natureza”]. Foul sempre significa “mau”, em algum sentido. O espectro diz a Hamlet que, dentre os assassinatos, sempre o pior dos crimes, assassinar o próprio irmão é o crime pior.