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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O nacionalismo ucraniano – natureza e raízes

24/2/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Outra vez, por falta de tempo e espaço, não entrarei na história da Organização dos Ucranianos Nacionalistas [orig. Organization of Ukrainian Nationalists, OUN] de Stepan Bandera ou da Divisão SS Galizien “Ucraniana” – vocês podem ler sobre isso na Internet.

Direi apenas que essas forças estiveram entre as mais mortíferas e cruéis de todas, na IIª Guerra Mundial. De fato, as piores atrocidades da IIª Guerra Mundial, não foram cometidas pelas forças de Hitler, nem pela SS, mas por forças integralmente inspiradas e apoiadas pelo Vaticano: a Croatian Ustashe de Ante Pavelic e os nacionalistas ucranianos.

Afinal, a Ustashe e os Banderovsty foram derrotados, mas muitos de seus membros não apenas sobreviveram à guerra como também prosperaram no exílio, a maioria nos EUA e Canadá, onde a Anglosfera os manteve longe da política real, mas suficientemente ativos para serem “descongelados” no caso de haver necessidade deles.

Não há dúvida possível de que, depois do final da Guerra Fria, o Império Anglo-sionista viu uma oportunidade para subverter e enfraquecer seus inimigos: os descendentes dos Ustashe foram encarregados de destruir a Iugoslávia; e os descendentes de Bandera foram encarregados de destruir a Ucrânia, pondo os restos o mais longe possível da Rússia. Ao mesmo tempo, nos dois locais, na Iugoslávia e na Rússia, os anglo-sionistas dirigiram outra de suas franquias terroristas – o wahabismo internacional, também chamado “al-Qaeda”, para unir-se aos neonazistas e papistas, numa luta comum contra a Iugoslávia e a Rússia ortodoxa/socialista. Depois disso, todos sabemos o que aconteceu na Iugoslávia.

Parte III: Ucrânia, de volta para o futuro

2014 – O ventre do qual nasceu a besta continua fértil

Agora, quero falar um pouco sobre a (agora ex-) “oposição” ucraniana. Durante os últimos meses, fomos informados de que estaria representada por três homens: Vitalii Klichko e seu movimento UDAR; Arsenii Iatseniuyk e seu Partido Batkivshchyna; e Oleh Tiagnibok, conhecido líder do Partido Liberdade. Claro que o verdadeiro líder do Partido Batkivshchyna sempre foi Yulia Timoshenko; mas dado que estava na cadeia, para onde foi mandada por Yanukovich, ela não podia participar diretamente dos mais recentes eventos.

A maioria dos observadores ocidentais descuidaram de perguntar se qualquer dessas figuras políticas realmente poderia controlar os “manifestantes” da Praça Maidan. Tampouco cuidaram de verificar como uma multidão armada só de pedras, tacos de beisebol, barras de ferro e coquetéis molotov foi “repentinamente” substituída por uma força bem organizada e bem armada que só se pode chamar de insurgentes. A força que realmente reunia mais poder de fogo, não era constituída de membros do UDAR, nem do partido Batkivshchyna, nem sequer do partido Liberdade. Os reais senhores da Praça Maidan e agora já de toda a capital Kiev é o chamado “Setor Direita” (Pravy Sektor), organização terrorista chefiada por Dmytro Yarosh

Dmytro Yarosh fala às suas tropas
Se a foto acima parece ter sido feita na Chechênia durante a guerra, é porque bem pode ter sido feita lá mesmo: muitos nacionalistas ucranianos combateram ao lado dos wahabistas na Chechênia, não raro sob a bandeira da organização terrorista UNA-UNSO. Também combateram na Geórgia contra a Rússia, daí as duas visitas de Saakashvili à Praça Maidan.

Seria lógico perguntar qual porcentagem do povo ucraniano apoia Yarosh e seu Setor Direita. É difícil dizer, mas não passa de minoria considerável, mas pequena. Segundo muitas estimativas, os líderes mais populares do novo governo são Timoshenko e Klitschko, seguidos por Tiagnibok – ou pelo menos eram, antes do golpe armado de domingo passado. Mas é detalhe pouco importante: a maioria dos chechenos nunca foi wahabista; a maioria dos croatas nunca foi Ustashe; e a maioria dos albaneses do Kosovo não era pró Exército de Libertação do Kosovo [ing. KLA]. E nada disso impediu que esses grupos minoritários, mas bem armados, obtivessem controle decisivo dos eventos.

Isso põe o novo governo da Ucrânia em posição muito difícil: ou aceita a agenda de gente como Yarosh e seu Setor Direita, ou arrisca-se a ser varrido por insurreição armada. Não esqueçamos que as forças militares da Ucrânia só existem no papel, e que as forças policiais não estão em condições de impor sua autoridade aos terroristas.

Selo emitido pelo Governo Yushchenko com o retrato de Stepan Bandera
Pior que isso: a presidência de Yushchenko demonstrou que os chamados nacionalistas “moderados” constantemente unem-se aos terroristas. Yushchenko chegou a fazer de Bandera “herói da Ucrânia” (decisão depois rescindida) e imprimiu selos com o retrato dele. O problema é que esse tipo de ação aparentemente inócua é, na realidade, a reabilitação de uma ideologia de genocídio; e envia mensagem aterrorizante e revoltante aos ucranianos do leste e aos russos que vivem na Ucrânia: estamos de volta e não viemos para brincar.

O detalhe tem passado despercebido, mais houve situação semelhante na Croácia, no momento em que a Iugoslávia partiu-se: os croatas, mesmo os chamados “moderados” não acharam nada mais inteligente a fazer que reintroduzir imediatamente a conspurcada bandeira dos Ustashe de Pavelic, como “símbolo nacional da Croácia”. Pode-se discutir até que ponto isso estimulou os sérvios de Krajinas a pegar em armas, mas com certeza contribuiu.

O mesmo está acontecendo agora na Ucrânia. Ao lado das bandeiras amarelo-azuis do oeste da Ucrânia, já se veem muitas bandeiras preto-vermelhas, a bandeira do Banderovsty, ao lado de todos os tipos e variantes de símbolos neonazistas. Outra vez, não importa, de fato, como muitos ucranianos estejam manifestando tendências genocidas; o que importa é como essas bandeiras genocidas são vistas no leste da Ucrânia ou pelos 7 milhões de russos que vivem na Ucrânia.

A reação ao golpe em Kiev foi imediata. Este foto mostra um comício na cidade de Sebastopol:

Manifestação pró-Russia (ver bandeiras) em Sebastopol em 23-2-2014
Estão vendo as bandeiras? Antes do golpe, comícios no leste mostravam quase exclusivamente a bandeira amarelo-azul da Ucrânia. Agora, as bandeiras são quase todas russas, com algumas bandeiras, também, da Marinha da Rússia: o povo está ou furioso ou assustado. Provavelmente as duas coisas. E o potencial de violência, assim, aumenta rapidamente.

Observem esse vídeo de uma tentativa de ativistas pró-governo organizarem uma manifestação na cidade de Kerch e vejam, vocês mesmos, como a situação sai rapidamente de controle. A multidão enfurecida começa a gritar “Fora!” e “Fascistas!”, mas os policiais perdem logo o controle da situação, e uma multidão ataca os ativistas nacionalistas. É olhar e ver o vídeo:


Exatamente como aconteceu na Croácia e na Bósnia, políticos da União Europeia e dos EUA ignoraram (por estupidez ou deliberadamente) que o medo gera violência a qual gera mais medo, depois mais violência, num ciclo de realimentação positiva praticamente impossível de deter.

Assim sendo, vamos, daqui, para onde?

Bem francamente, tinha alguma esperança de que Yulia Timoshenko conseguiria salvar a Ucrânia. Não porque goste dela, mas porque reconheço a força da personalidade dela, sobretudo se comparada aos políticos ucranianos terminalmente imbecis (Tiagnibok, Klichko) ou sem espinha dorsal (Iatseniuk, Yanukovich). Como disse ontem um jornalista russo: é bom ver aparecer, afinal, “um homem de verdade” no cenário político da Ucrânia. E, apesar dos seus muitos erros, Yulia tem, pelo menos, três coisas a seu favor: é muito inteligente; é mulher de vontade forte e é muito popular. Ou, pelo menos, era, antes de Yanukovich metê-la na cadeia.

Mas quando a vi, pela televisão, falando na Praça Maidan, numa cadeira de rodas, o rosto inchado, soando histérica e completamente indiferente ao fato de que estava cercada por neonazistas, comecei a ter minhas dúvidas. É claro que ela passou tempos muito difíceis nos calabouços de Yanukovich. E aos que digam que ela sempre foi tão completamente corrupta quanto os demais oligarcas, eu responderia o seguinte: enquanto os demais oligarcas veem o poder como meio para fazer dinheiro, Timoshenko vê o dinheiro como meio para chegar ao poder. Aí há enorme diferença.

Assim sendo, e diferente de Tiagnibok ou Yarosh, Timoshenko não tem ares de genocida, nem jamais se interessou pelo papel de “um Bandera moderno”. E, também diferente dos neonazistas típicos, Yulia é nominalmente ortodoxa, não “católica grega” (quer dizer, latina). Não que eu suponha que alguém aí seja muito religioso, não. Mas Timoshenko pelo menos não foi criada no ódio maníaco contra tudo que seja russo, no qual os “católicos gregos” são tipicamente criados.

Por fim, Timoshenko, com certeza absoluta, é suficientemente esperta para compreender que não há meio para manter a Ucrânia como estado unitário, se os neonazistas forem o poder de facto, seja diretamente ou através de fantoches “moderados”.

Yulia Timoshenko em cadeira de rodas  fala aos ocupantes da Praça Maidan 22/2/2014
Fui provavelmente ingênuo, mas tive esperanças de que Yulia pudesse manter a Ucrânia unida. Não, não, não porque eu seja defensor da “Ucrânia Independente”, mas porque entendo que qualquer solução será preferível à divisão da Ucrânia que, inevitavelmente se tornará violenta.

Por que a violência é aí inevitável?

Paradoxalmente, a principal causa, aqui, não são os seguidores de Bandera. Alguns deles, até, já falaram a favor de uma separação do oeste da Ucrânia, do resto do país. Tanto quanto sei, são minoria, mas mesmo assim é interessante que pelo menos alguns deles estejam percebendo que a ideia de converter toda a Ucrânia numa Galícia é simplesmente ridícula. Muitos nacionalistas, contudo, opõem-se furiosamente a qualquer divisão, por duas razões. Prestígio: sabem que a Ucrânia “deles” é, de fato, muito menor que a Ucrânia herdada da era soviética. E dinheiro: eles sabem que toda a real riqueza da Ucrânia está no leste. E também, por último mas não menos importante, os verdadeiros patrões dos fantoches nacionalistas ucranianos (os EUA) querem privar a Rússia de toda a riqueza do leste da Ucrânia, e da costa ucraniana do Mar Negro. Assim sendo, se há alguém à espera que os nacionalistas cedam graciosamente o divórcio civil entre oeste e sudeste do país, desista. É delírio. Não acontecerá, não, pelo menos, por referendo ou qualquer outra modalidade de consulta ou conversações.

A história também ensina que é impossível obrigar dois grupos a conviver, quando se odeiam e se temem reciprocamente. É impossível, pelo menos, sem MUITA violência.

Viktor Yanukovich
A situação no leste é tão simples quanto desoladora: Yanukovich está politicamente morto. O Partido das Regiões praticamente explodiu e novos políticos estão surgindo em Carcóvia, em Sebastopol e em outras cidades. Estão-se organizando grandes forças de autodefesa local, e a população está basicamente pronta para a luta. Dadas as atuais circunstâncias, são desenvolvimentos positivos. Pelo lado negativo, há o fato de que os oligarcas do leste ainda estão ali, prontos para trair o próprio povo por mais lucros (como as elites ucranianas fizeram durante a União de Brest); e de que as forças políticas locais estão, segundo a maioria dos relatos, sendo organizadas de modo amadorístico. Por fim, ainda há muita incerteza sobre o que a Rússia realmente quer.

E a Rússia, em tudo isso?

Entendo que a Rússia realmente quer evitar uma guerra civil na Ucrânia e que prefere uma Ucrânia separada, a qualquer divisão. Por quê? Consideram o seguinte:

Para a Rússia, uma Ucrânia separada e independente é, em primeiro lugar e principalmente, um meio para evitar ser arrastada para uma guerra civil. Se, digamos, Timoshenko conseguir suprimir os neonazistas e negociar algum tipo de modus vivendi entre, por um lado, o oeste da Ucrânia e Kiev, e, por outro lado, o leste e o sul da Ucrânia, não há dúvidas de que ela e Putin podem encontrar algum meio pacífico e pragmático de coexistência. Oh, não estou falando de um mar de rosas, que não acontecerá, mas pode-se pensar, pelo menos, em relações mutuamente benéficas, civilizadas e pragmáticas. Essa quase certamente é a opção preferencial do Kremlin (e ajuda a demonstrar o quanto são estúpidos e paranoicos os nacionalistas ucranianos – e Susan Rice – quando se põem a alucinar sobre uma invasão russa na Ucrânia).

A outra opção é os nacionalistas tomarem pleno controle de toda a Ucrânia. É extremamente improvável, mas... sabe-se lá. Já me decepcionei tantas vezes com políticos ucranianos, que raciocino como se sempre fossem capazes de tudo, qualquer coisa, por pior que seja.

Isso implicaria converter a fronteira russo-ucraniana em alguma coisa como o Muro que separava as duas partes da Alemanha durante a Guerra Fria, ou a Zona Desmilitarizada entre as duas partes da Coreia. De um ponto de vista militar, não é problema. Já escrevi que, ainda que a OTAN desloque tropas para a Ucrânia, o que farão, a OTAN, ali tão perto do território russo, ficará automaticamente convertida em alvos lucrativos: a Rússia deslocará número suficiente de mísseis Iskander para dar conta da lista de alvos, e estaremos conversados.

Base naval russa em Sebastopol, Crimeia- Mar Negro
Quanto à Frota do Mar Negro, a Rússia pode simplesmente se recusar a sair e pagar para ver se a OTAN tem estômago para tentar expulsá-la; ou pode preferir a opção custosa, mas possível, de voltar a ancorar sua frota em Novorossiysk (não que seja boa opção; não é; mas é melhor que nada). Seja como for, repito, esse cenário é muito, muito improvável.

O que nos deixa com a opção três: os nacionalistas tentam subjugar o sul e o leste, e não conseguem. A violência escalará e, eventualmente, a Rússia acabará envolvida. Em termos puramente militares, a Rússia pode derrotar muito facilmente qualquer exército ucraniano que tente opor-se a ela. Quanto à OTAN e aos EUA, não têm meios para deslocar algum tipo de “força tarefa conjunta combinada” para repelir os militares russos que se instalem na Ucrânia. Assim, ante a iminência de iniciar uma guerra nuclear mutuamente destrutiva, eles terão de aceitar os fatos em campo. Mas imaginem o pesadelo que resultará de uma operação militar russa no leste da Ucrânia! Seria uma volta a uma nova Guerra Fria, mas, dessa vez, inchada com muitos esteroides: políticos ocidentais se engalfinharão entre eles, tentando todos ser o primeiro a denunciar, declarar, ameaçar, condenar, proclamar, sancionar e prometer só deus sabe que tipo de delírios e estupidezes.

A russofobia histérica se tornará ordem do dia, e o Império Anglo-sionista terá finalmente encontrado o tipo de eterno inimigo que procura tão desesperadamente desde o final da 1ª Guerra Fria.

Se a coisa ficar realmente feira, e provavelmente ficará, a China provavelmente também acabará envolvida. Assim teremos exatamente o tipo de planeta com que a plutocracia do 1% sonha há tantos anos: a Oceania presa numa guerra total contra Eurásia e Ásia do Leste, exatamente como Orwell previu em 1984. Vide mapa a seguir:

Clique na imagem para aumentar
Rússia – ou China – absolutamente não precisam de nada disso. Mas, sim, há risco real de guerra civil na Ucrânia. Opção “menos ruim” para evitar esse cenário é providenciar para que os ucranianos do leste e do sul sejam suficientemente fortes, eles mesmos, para repelir uma invasão nacionalista, de modo que os militares russos possam manter-se fora do conflito.

Por tudo isso, há uma difícil ponderação-julgamento a ser feita pelo Kremlin. O Kremlin tem de decidir se:

(a) o povo do leste e do sul da Ucrânia são gente desorganizada, desmoralizada, tornada passiva pela ação de oligarcas corruptos e, basicamente, gente incapaz de se autodefender;

ou se

(b) o povo do leste e do sul da Ucrânia são gente unida, organizada e decidida a fincar pé e dar combate aos neonazistas até o último tiro.

No primeiro caso, o Kremlin terá basicamente de proteger as fronteiras russas e preparar-se para gerir as grandes ondas de refugiados que inevitavelmente cruzarão a fronteira.

No segundo caso, o Kremlin garantirá forte incentivo para ajudar os ucranianos do leste e do sul por todos os meios possíveis, até o limite de intervenção militar direta.

As duas vias são perigosas e nenhuma delas é preferível a uma Ucrânia unida e governada por líder que seja, no mínimo, mais ou menos racional. Por isso eu, pelo menos no estágio inicial desse confronto, espero que a Rússia REALMENTE apoie qualquer governo que seja só 50% mentalmente são em Kiev, na esperança de evitar a divisão da Ucrânia.

E EUA e União Europeia, em tudo isso?

Escrevi recentemente que EUA e União Europeia têm objetivos muito diferentes na Ucrânia: a União Europeia quer mercado para seus bens e serviços; os EUA querem ferir a Rússia, o mais possível. Já vimos a total falta de capacidade e competência dos burocratas da União Europeia e suas ingênuas tentativas para encontrar uma solução negociada. O objetivo da política externa dos EUA tem a vantagem de ser simples além de clara: “foda-se a Rússia” e “foda-se a União Europeia”!


Do ponto de vista dos EUA, quanto pior a situação, melhor para o Tio Sam. No pior dos mundos, a Rússia sai ferida; no melhor dos mundos, o sacrifício da Ucrânia dá aos EUA um maravilhoso pretexto para “proteger” a Europa contra o “re-emergente urso russo”, ao mesmo tempo em que defende a civilização, a democracia e o progresso. O sonho molhado de qualquer neoliberal neoconservador...

É onde entra o “Fator E” (“E”, de Estupidez pura e simples). O que muitas vezes parece ser resultado de algum plano maquiavélico cozinhado num porão profundo da Casa Branca, da CIA ou do Pentágono é muitas vezes exemplo quase inacreditável da estupidez verdadeiramente fenomenal de nossos governantes. Eles se creem tão poderosos a ponto de estarem dispensados de compreender uma cultura, uma história, uma língua estrangeira.

Afinal, se alguma política dos EUA fracassar completamente aqui ou ali, a resposta pode ser sempre a mesma: que se fodam! Fodam-se os iugoslavos! Fodam-se os sérvios! Fodam-se os iraquianos! Fodam-se os afegãos! Fodam-se os paquistaneses! Fodam-se os líbios e os egípcios e os palestinos e fodam-se os coreanos, os colombianos e os venezuelanos e, claro, fodam-se os canadenses, os mexicanos, todos os africanos e, claro, fodam-se os russos, fodam-se os chineses e foda-se o mundo inteiro. Não importa o quanto estúpida e destrutiva seja uma política dos EUA contra alguém, ou a política funciona ou fodam-se eles por lá!  A frase da Sra. Nuland bem poderia ser impressa como lema oficial no logotipo do Departamento de Estado ou da CIA.

Minha conclusão? Pessimista, é claro :-)

Os que têm lido meu blog nos últimos tempos não se surpreenderão se eu disser que, mais uma vez, cheguei a conclusão muito pessimista: o futuro da Ucrânia me parece terrível: o país está arruinado, não tem economia, é socialmente, culturalmente e politicamente não viável, e o mais provável é que seja governado ou por imbecis ou por racistas maníacos – e a maior potência do planeta não poupará esforços para acrescentar gasolina à fogueira. Tenham em mente que nenhum político ucraniano, nem um, um, que fosse, tem qualquer coisa remotamente semelhante a um plano para ressuscitar a economia ucraniana que, hoje, jaz morta. A única e última chance que havia para a Ucrânia foi o “respirador financeiro russo” – mas já foi desligado, pelo menos para o futuro próximo: os ucranianos, se quiserem que façam sua Revolução Banderovita; mas os russos não pagarão por ela.

O inferno da Ucrânia está escondido atrás da bandeira...
Em novembro passado publiquei um postado intitulado: Ucrânia “colorida”: abrem-se as portas do inferno, no qual previ boa parte do que aconteceu desde então:

Assumo que os euroburocratas e os nacionalistas ucranianos podem, sim, prevalecer; e que o presidente Yanukovich ou ficará no “zag” e reverterá a decisão anterior, ou perderá poder. De um modo ou de outro, me parece, os nacionalistas ucranianos prevalecerão. Haverá festa e fogos de artifício em Kiev, tapinhas em mútuas costas arrogantes em Bruxelas, e, na sequência, abrir-se-ão as portas do inferno, para a Ucrânia.

Estamos agora nesse ponto: a Ucrânia já atravessou as portas do Inferno e mergulhou já num longo ciclo de tragédia e violência. É verdadeira e imensamente triste. E a culpa por tudo o que acontecerá cabe, em primeiro lugar, àquelas forças que temerariamente abriram a Caixa de Pandora de ódios medievais e do século 20, e que estimularam o demônio nacionalista a atacar novamente; a culpa cabe também aos que a tudo assistiram sem nada fazer: políticos e líderes dos EUA e da União Europeia, dentre os quais não apareceu um, que fosse, para dizer a verdade.

Que ardam no inferno pelo que fizeram à Ucrânia.

The Saker


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Pepe Escobar: “Socorro! Convoquem a Al-Qaeda!”

5/8/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ministério da Verdade, George Orwell - 1984
Quando a coisa pega à vera, é só convocar o Ministério da Verdade, [1] que ele logo dá jeito.

Aproximava-se o fim do Ramadan. Os jihadistas daquela entidade vaga, a al-Qaeda na Península Arábica [al-Qaeda in the Arabian Peninsula (AQAP)], entraram em surto de hiperatividade. Foi aquela multidão de gente saindo das prisões, da Líbia ao Paquistão, via Iraque. E tudo em perfeita sincronia com duas fatwas lançadas em rápida sucessão pelo bicho-papão perene, ex-braço direito de Osama bin Laden, Ayman “Doutor Maldade” al-Zawahiri.

Edward Snowden
Imagine reunião de emergência, crise total, nos mais altos escalões do complexo orwelliano/Panopticon: “Cavalheiros, temos aqui uma oportunidade de ouro. Estamos sitiados pelo espião desertor Edward Snowden – que os soviéticos libertaram – e o hack-terrorista Greenwald. Snowden pode estar ganhando: até na opinião pública nos EUA cresce a percepção de que nós talvez sejamos ameaça ainda maior que a al-Qaeda.

Assim sendo, temos de mostrar que vigilantemente protegemos nossas liberdades. Taí! Todos juntos, ao mesmo tempo, gritando Térã, Térã, Térã! [2] .

Instantaneamente haverá fechamento, com muita fanfarra, de muitas embaixadas e consulados dos EUA no “mundo muçulmano” e o Departamento de Estado lançará alerta “mundial” para viagens aéreas – que a Interpol imediatamente expandirá. Segue-se vasta confusão – com muitos tentando descobrir se “mochilar” na Tailândia ou comer caviar fresco em Baku serão atividades nas quais você, garantido, não corre(ria) o risco de acordar explodido.

Glenn Greenwald
Instantaneamente, temos também toda a imprensa-empresa nos EUA e no “ocidente” tombando de amores pelo meme Térã, Térã, Térã, tudo outra vez. E amaldiçoados os que pensam que isso teria algo a ver com islamofobia. Você pensou que Térã, Terá fosse coisa do passado? Não, Térã, Terã é onipresente, onisciente, espiando por todos os lados. Terá quer pegar você. Térã Wants You. Trens e barcos e aviões – você jamais estará a salvo, esteja onde estiver.

Pois o fabuloso específico telegrama “de inteligência” que o Ministério da Verdade deu jeito de desenterrar resume-se a alguns jihadi de baixo escalão que se jactam, pela rede, de eles e seus camaradinhas estarem preparando alguma coisa bem suja, em algum lugar, mas em vários lugares e não especificados, por todo o Oriente Médio-Norte da África [orig. Middle East-Northern Africa (MENA)].

Operação clandestina [orig. False flag] à vista

Exame mais detalhado dos “milhares” de al-Qaeda libertados das prisões e prontinhos para fazer o inferno por todo o planeta mostra que muitos deles, afinal de contas, parecem ser “nossos” amigos.

A fuga em massa em Benghazi (fugiram provavelmente 1.000 prisioneiros) – não chega realmente a preocupar os Amigos da OTAN do tipo Grupo de Combate Islâmico Líbio [orig. Libyan Islamic Fighting Group]; essas milícias já estão no poder, ocupadíssimos em destruir a Líbia até o status de estado falhado para sempre.

Na dupla fuga em massa em Bagdá (podem ter escapado algo como 1.400 prisioneiros), o destino geral foi o deserto da Síria, para unir-se em jihad com os Amigos de Obama/Cameron/Hollande/Casa de Saud, no saco de gatos conhecido como Frente Jabhat al-Nusra/Estado Islâmico do Iraque e Levante. Mas... peraí! Se são “nossos” amigos na Líbia e na Síria, como é possível que sejam nossos inimigos no Paquistão e no Iêmen?

Só falta o Rei Abdullah...
No Paquistão (fugiram provavelmente 500), eles se dispersarão pelas áreas tribais e por lá ficarão quietos – ou serão dronados conforme ordene O-Oh!-Bama, o que tem lista de licença para matar. Por falar nisso, não houve alerta para o Paquistão (nem para a embaixada em Islamabad, nem para o consulado em Peshawar, por exemplo), nem na Indonésia. Quer dizer: não se trata de “mundo muçulmano”; é basicamente o MENA. E especificamente o Iêmen. Mas Obama, semana passada, disse ao presidente do Iêmen que a al-Qaeda está(ria) em retirada. Mas então... O que é isso? A Al-Qaeda na Península Arábica optou por uma des-retirada?

Em resumo, é o seguinte: o continuum Bush-Obama nunca nos decepciona – e, isso, para nem falar de al-Zawahiri, a velha raposa. O Doutor Maldade, estrategista afiadíssimo que é, percebeu, há algum tempo, que se o mito do bicho-papão global chamado “al-Qaeda” está hoje “mais forte do que nunca” é graças ao governo Obama e aos seus poodles, com bases na Europa e no Golfo Persa, com sua estratégica de Três Patetas para da Líbia até a Síria. O Afeganistão é outra história, completamente diferente; não restou ali qualquer al-Qaeda histórica; só um punhado, nas áreas tribais do Paquistão.

Assim sendo, al-Zawahiri logo percebeu que o bicho papão seria inevitavelmente ressuscitado, em perfeita sincronia com suas recentes fatwas, porque guerra “longa” – ou “infinita” = dinheiro perpétuo para o complexo orwelliano/Panopticon. E é essencial que haja um conveniente inimigo estrangeiro. E ninguém em Washington, em tempo algum, de modo algum, jamais admitirá publicamente que o “inimigo” real, como concorrente estratégico, é o dragão chinês.

Ayman al-Zawahiri
O Doutor Maldade e o complexo orwelliano/Panopticon estão do mesmo lado – e isso explica por que lhe será permitido continuar como máquina perpétua de emissão de fatwas enquanto quiser, e ele não será preso como qualquer pateta, pelo modelito da bomba na cueca. O complexo está ofendido. Reformar a Agência de Segurança Nacional? Meterem o nariz nos nossos metadados? Para quê? Pois se acabamos de alertar o governo dos EUA em níveis “pré 11/9” de papo terrorista!

É possível que a Al-Qaeda na Península Arábica decida não participar desse roteirinho mundial “pré 11/9”. Verdadeiros jihadistas, afinal, não são idiotas a ponto de se deixarem apanhar pelo programa XKeystroke. Eis aí, pois, um quebra-cabeças [Bob] Dylanesco para vocês. All along the watchtower [da torre do sentinela, da trincheira], [3] aproxima-se uma bandeira falsa – “disse o coringa [o piadista, o falastrão] para o ladrão”. Há muita Terã confusão, e não teremos paz. [4]



Notas dos tradutores

[1 ] No livro 1984, de George Orwell, o Ministério da Verdade (em Novilíngua, Miniver ou Minivero) é um dos quatro ministérios que compõem o governo da Oceania. Analogamente aos demais ministérios, (Ministério do Amor, Ministério da Fartura, Ministério da Paz), o seu objetivo é exatamente o oposto da Verdade: este ministério é diretamente responsável pela falsificação da história. Em Novilíngua, porém, o nome é apropriado, já que “verdade” é aquilo que o Estado quer que seja verdade. O protagonista do livro, Winston Smith, trabalha no Ministério da Verdade. Na parede externa do Ministério da Verdade estão os três slogans do Partido: “Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é Força”. O Ministério da Verdade cuida das notícias, entretenimento, artes e educação. O seu propósito é reescrever a história e alterar os fatos, de forma que eles se encaixem na doutrina do Partido. Por exemplo, se o Grande Irmão fez uma previsão que se revelou errada, os funcionários do Ministério devem reescrever a história, de forma que a previsão do Grande Irmão seja precisa. Dentro da novela, Orwell discute qual é a razão para a existência deste ministério: o seu objetivo é criar a ilusão de que o Partido é absoluto. O Partido não muda suas diretrizes (por exemplo, ele não troca seus aliados ou inimigos entre Lestásia e Eurásia), não comete erros (o Partido não demite membros nem faz previsões erradas sobre suprimentos), porque isto implicaria fraqueza, e para manter o poder o Partido deve parecer eternamente correto e forte.

[2] Modo como Bush pronuncia a palavra “terroristas”.

[3] All Along the Watchtower é título de canção de Bob Dylan, de 1968, gravada por Jimi Hendrix. Leia matéria sobre a canção, em que a letra é analisada quase linha a linha (em inglês). Ouve-se a seguir:


[4] São palavras “rearranjadas”, dos versos de All along the Watchtower: “There must be some way out of here”, said the joker to the thief, / “There's too much confusion, I can't get no relief. / Businessmen, they drink my wine, plowmen dig my earth, / None of them along the line know what any of it is worth.”/ “No reason to get excited,” the thief, he kindly spoke, / “There are many here among us who feel that life is but a joke. / But you and I, we've been through that, and this is not our fate, / So let us not talk falsely now, the hour is getting late.” / All along the watchtower, princes kept the view / While all the women came and went, barefoot servants, too. / Outside in the distance a wildcat did growl, / Two riders were approaching, the wind began to howl.
_______________________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes The Real News Network TV Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.

Livros

sexta-feira, 28 de junho de 2013

GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORÂNCIA É FORÇA

Leia abaixo, um pedacinho e aqui inteirinho e grátis, em português.
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário do Brigaboa na redecastorphoto após ler o livro 1984 inteiro: “Qualquer semelhança com o programa PRISM da NSA - Agencia Nacional de Segurança dos EUA, revelado por Edward Snowden, NÃO é mera coincidência”.


George Orwell
Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos acima do nível do solo, e correspondentes ramificações no subsolo. Espalhados por Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatro ao mesmo tempo.

Eram as sedes dos quatro Ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto. 

O Ministério do Amor era realmente atemorizante. Não tinha janela alguma. Winston nunca estivera lá, nem a menos de um quilômetro daquele edifício. Era um prédio impossível de entrar, exceto em missão oficial, e assim mesmo atravessando um labirinto de rolos de arame farpado, portas de aço e ninhos de metralhadoras. Até as ruas que conduziam às suas barreiras externas eram percorridas por guardas de cara de gorila e fardas negras, armados de porretes articulados. Winston voltou-se abruptamente.


Afivelara no rosto a expressão de tranquilo otimismo que era aconselhável usar quando de frente para a teletela. Atravessou o cômodo e entrou na cozinha minúscula. Saindo do Ministério àquela hora, sacrificara o almoço na cantina, e sabia que não havia na casa mais alimento que uma côdea de pão escuro, que seria a sua refeição matinal, no dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com um rótulo branco em que se lia GIN VITÓRIA. Tinha cheiro enjoado, oleoso, como de vinho de arroz chinês. Winston serviu-se de quase uma xícara de gin, contraiu-se para o choque e engoliu de vez, como uma dose de remédio. Instantaneamente, ficou com o rosto rubro, e os olhos começaram a lacrimejar. A bebida sabia a ácido nítrico, e ao bebê-la tinha-se a impressão exata de ter levado na nuca uma pancada com um tubo de borracha. No momento seguinte, porém, a queimação na barriga amainou e o mundo lhe pareceu mais ameno.

Tirou um cigarro do maço de CIGARROS VITÓRIA e imprudentemente segurou-o na vertical, com o quê todo o fumo caiu ao chão. Puxou outro cigarro, com mais cuidado. Voltou à sala de estar e sentou-se a uma pequena mesa à esquerda da teletela. Da gaveta da mesa tirou uma caneta, um tinteiro, e um livro em branco, de lombada vermelha e capa de cartolina mármore. Por um motivo qualquer, a teletela da sala fôra colocada em posição fora do comum.

Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, donde poderia dominar todo o aposento, fôra posta na parede mais longa, diante da janela. A um dos seus lados ficava a pequena reentrância onde Winston estava agora sentado, e que, na construção do edifício fôra, provavelmente, destinada a uma estante de livros. Sentando-se nessa alcova e mantendo-se junto à parede, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que respeitava à vista. Naturalmente, podia ser ouvido mas, contanto que permanecesse naquela posição, não podia ser visto. Em parte, fora a extraordinária topografia do cômodo que lhe sugerira o que agora se dispunha a fazer. Mas fora-lhe também sugerido pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um livro lindo. O papel macio, cor de creme, ligeiramente amarelado pelo tempo, era de um tipo que não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Era de ver, entretanto, que devia ser muito mais antigo. Vira-o na vitrina de um triste bricabraque num bairro pobre da cidade (não se lembrava direito do bairro) e fora acometido imediatamente do invencível desejo de possuí-lo.


Os membros do Partido não deviam entrar em lojas comuns (“transacionar no mercado livre”, dizia-se), mas o regulamento não era estritamente obedecido, porque havia várias coisas, como cordões de sapatos e giletes, impossíveis de conseguir de outra forma. Relanceara o olhar pela rua e depois entrara, comprando o caderno por dois dólares e cinquenta. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para nenhum propósito definido. Levara-o para casa, às escondidas, na sua pasta.


Mesmo sendo em branco, o papel era propriedade comprometedora.