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sábado, 12 de outubro de 2013

Pepe Escobar: “Medo e ranger de dentes na Casa de Saud”

11/10/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e Hassan Rouhani e a aproximação Washington - Teerã
Qualquer bípede racional com cérebro operante vê que a possibilidade de pôr fim ao Muro de Desconfiança que há 34 anos divide Washington e Teerã é situação de ganha-ganha.
Eis alguns dos benefícios:
– O preço do petróleo e do gás do Golfo Pérsico cairá;
– Washington e Teerã poderão constituir uma parceria para combater contra os salafistas-jihadistas (como já houve, aliás, logo depois do 11/9) e coordenar suas políticas no Afeganistão, para manter sob controle os Talibã no pós-2014;
– Irã e os EUA partilham os mesmos interesses na Síria; ambos não querem anarquia nem o risco de islamistas radicais ganharem influência no poder. Resultado ideal seria contrabalançar a influência iraniana com um acordo de partilha de poder entre o establishment de Bashar al-Assad e uma oposição sensível não armada (que existe mas, no momento, está marginalizada);
– Sem a retórica da mudança de regime e sem sanções, o céu é o limite para mais e mais negócios, comércio, investimentos e opções de energia para o ocidente, especialmente para a Europa (o Irã é a melhor saída possível para que os europeus diminuam sua dependência atual da Gazprom russa);
– Uma solução para o dossiê nuclear permitirá ao Irã gerir o uso civil da energia nuclear como fonte alternativa de energia para sua indústria, o que aumentará a quantidade de petróleo e gás disponível para exportação;
– Geopoliticamente, com o Irã reconhecido pelo que é (o ator chave no Sudoeste da Ásia), os EUA poderão ser libertos do dogma autoinfligido de dependerem do eixo israelenses-sauditas. E Washington até poderá começar a pivotear-se às veras na direção da Ásia, e não exclusivamente mediante ações militares.
– Ah! Eis a questão! Todos sabem por que a direita israelense combaterá contra qualquer acordo EUA-Irã como contra a peste, porque o Irã como “ameaça existencial” é o pretexto perfeito para desencaminha o debate e impedir que se aproxime da verdadeira questão: a ocupação/apartheid que Israel impôs aos palestinos.
Quanto à Casa de Saud, o acordo Irã-EUA é praticamente Apocalypse Now.
Sou um modesto matador moderado
Começa com a Síria. Todo mundo sabe que o mestre das sombras Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, está integralmente encarregado da guerra na Síria, desde que foi nomeado Diretor da Inteligência Nacional por seu tio, o rei Abdullah saudita.
Bandar não leva prisioneiros. Primeiro, eliminou do quadro o Qatar – principal financiador do chamado Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)]; depois de ter recebido boa ajuda do emir do Qatar, Sheikh Hamad, que se autodepôs no final de junho, em benefício do filho, Sheikh Tamin.
Sheikh Hamad (pai) (D) e Sheikh Tamin (filho) (E) emires do Qatar
Em seguida, no final de julho, Bandar ressurgiu espetacularmente em público, numa sua hoje já famosa viagem “secreta” a Moscou, na qual tentou subornar/extorquir o presidente Vladimir Putin e fazê-lo desistir da Síria.
Todos sabem que a “política” da Casa de Saud para a Síria é mudança de regime, ponto, parágrafo. É inegociável, em termos de acertar um golpe naqueles “apóstatas” em Teerã, e impor a vontade dos sauditas à Síria, ao Iraque e, de fato, a todo o Levante predominantemente sunita.
Zahran Alloush
No final de setembro, o “Exército do Islã” [Jaish al-Islam] entrou em cena. É um combo “rebelde” de mais de 50 brigadas, que vão de salafistas linha-duríssima a supostos “moderados”, coordenados por Liwa al-Islam, que, antes, fora parte integrante do Exército Sírio Livre.
O senhor-da-guerra que manda no Jaish al-Islam chama-se Zahran Alloush – filho de Abdullah, clérigo salafista de linha duríssima ativo na Arábia Saudita. E os petrodólares que o mantêm ativo são sauditas – e chegam até ele via Bandar Bush e seu irmão príncipe Salman, vice-ministro da Defesa da Arábia Saudita.
Se estiver parecendo requentamento do “Despertar Sunita” urdido por David Petraeus no Iraque em 2007, é porque é exatamente a mesma coisa: a diferença é que esse “despertar” movido a dinheiro saudita está sendo requentado não para combater a al-Qaeda, mas para forçar o golpe (“mudança de regime”).
Pelo YouTube ouve-se (em árabe, no vídeo acima) exatamente o que Alloush deseja: uma ressurreição do Califato Umayyad (que teve capital em Damasco), e “limpar” Damasco de iranianos, xiitas e alawitas. Todos esses são considerados kafir (“não crentes”, “infiéis”). Das duas, uma: ou se submetem ao Islã salafista ou tem de morrer. Só lunáticos veriam nisso alguma espécie de discurso “moderado”.
Ayman al-Zawahiri
Por incrível que pareça, até Ayman al-Zawahiri – do comando central da al-Qaeda – já lançou uma proclamação na qual proíbe a matança de xiitas.
Pois fato é que Alloush, o “moderado”, está no âmago da atual campanha de Relações Públicas comandada por Bandar Bush: senhores-da-guerra como Alloush estão sendo “suavizados”, até que se tornem palatáveis para um grande número de fontes de dinheiro do Golfo e, claro, também para ocidentais crédulos.
O xis da questão, porém, é que o Exército do Islã [Jaish al-Islam] prega ideias que são como uma variante cromática, quase idêntica, mas não idêntica, chamado “Estado Islâmico do Iraque e Levante [“Levante” = al-Sham = Síria] – a organização guarda-chuva ligada à al-Qaeda, que é a principal força em combate dentro da Síria: são bandos de fanáticos pesadamente armados e dependentes de um poderoso cristal de metanfetamina (religioso).
Paraíso Paranoia
Rei Abdullah 
Para complicar ainda mais as coisas, a Casa de Saud está engalfinhada na batalha pela sucessão. O príncipe coroado Salman foi o último filho do rei Abdul Aziz, fundador da dinastia saudita, que teve chances de chegar e permanecer no poder.
Agora todos os demônios estão soltos – com hordas de príncipes engalfinhados na luta pelo grande prêmio. E ali, no meio do pandemônio, encontramos ninguém menos que o próprio Bandar Bush – o qual, hoje, para todas as finalidades práticas, é a mais poderosa entidade na Arábia Saudita, depois de Khalid Twijri, o chefe de gabinete do rei Abdullah.
O nonagenário rei Abdullah está bem próximo de reunir-se ao seu Criador. Twijri não é da família real. Então... Bandar corre contra o relógio. Ele carece, de modo absoluto, de uma “vitória” na Síria, que lhe servirá como passaporte para a glória total.
Foi quando o acordo EUA-Rússia sobre as armas químicas sírias apareceu. Toda a Casa de Saud, literalmente, entrou em surto – e puseram-se a culpar não só os suspeitos de sempre (Rússia e China, membros do Conselho de Segurança da ONU); mas, também, Washington. 
Saud al-Faisal
Não surpreende que o ministro perpétuo das Relações Exteriores, príncipe Saud al-Faisal, não tenha aparecido para seu discurso anual na Assembléia Geral da ONU semana passada. Não se pode dizer que sua ausência tenha sido lamentada ou que tenha feito alguma falta.
O pesadelo da Casa de Saud é amplificado pela paranoia. Depois de tantos e tantos avisos do rei Abdullah a Washington (“decepe a cabeça da serpente”, o Irã), que os telegramas vazados por WikiLeaks imortalizaram; depois de tantas súplicas, para que os EUA bombardeassem a Síria e instalassem ali uma zona aérea de exclusão e/ou armassem até os dentes e até o Juízo Final os “rebeldes”... Eis o que, afinal, a Casa de Saud está obtendo: Washington e Teerã já bem próximos de um acordo, à custa de Riad.
Assim sendo, não surpreende que medo, ranger de dentes e aguda paranoia reinem supremos. A Casa de Saud está fazendo e continuará a fazer tudo que puder para bombardear a emergência do Líbano como produtor de gás. Continuará a soprar as chamas do sectarismo em todo o espectro, como Toby Matthiesen documentou num livro excelente.
Bandar Bush
E o eixo israelense-saudita continua a dar brotos venenosos. Poucos sabem, no Oriente Médio, que uma empresa israelense – com experiência na repressão a palestinos – foi contratada para fazer a segurança em Meca. Muitos que soubessem disso – com a hipocrisia da Casa de Saud exposta mais uma vez – e a rua árabe explodiria em massa, em várias latitudes.
Uma coisa é certa: Bandar Bush, como o eixo saudita-israelense, não economizarão golpes para fazer descarrilar qualquer tipo de reaproximação entre Washington e Teerã.
Quanto ao Grande Quadro, a verdadeira, a real “comunidade internacional” sempre pode sonhar que, um dia, as elites em Washington afinal verão a luz e compreenderão que a aliança estratégica selada entre os EUA e os sauditas em 1945, por Franklin D Roosevelt e o rei Abdul Aziz ibn Saud absolutamente não faz sentido algum.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
Livros

Novas ordens de Ayman al-Zawahiri à al-Qaeda: “Não atacar nem cristãos nem xiitas”

10/10/2013, [*] Radwan Mortada, Al-Akhbar (trad. do árabe ao ing.)
Traduzido da versão em inglês pelo pessoal da Vila Vudu

O líder da Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri distribuiu novas instruções, recebidas como ordens, para a próxima fase da luta. O emir da organização internacional mudou de tom e ordena agora que o grupo evite agressões a xiitas, cristãos, hindus e sufistas, no contexto de “varrer o pecado”; e que todos se concentrem no ataque contra as forças infiltradas dos EUA.

Ayman al-Zawahiri, líder máximo da al-Qaeda
De modo geral, os emires recebem fidelidade e obediência, mas os emires jihadistas na Síria são diferentes. O grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante [orig. Islamic State of Iraq and the Levant, ISIS] não gostou da ação de mediação empreendida pelo chefe da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, para resolver a disputa contra a Frente al-Nusra, preferindo “deixar as coisas como estavam”. O Emir do Estado Islâmico do Iraque e Levante, Abu Bakr al-Baghdadi, separou-se de seu antigo emir, e proclamou que “o Estado [ISIS] permanecerá”.
Zawahiri anunciou uma nova abordagem em relação ao trabalho da al-Qaeda, deixando para trás o mote anterior, que priorizava “os apóstatas próximos”, em vez de combater “infiéis distantes”. E anunciou uma nova palavra de ordem: “Ataque a cabeça do cão, e ele baixará o rabo” – na versão de um dos jihadi.
Exame mais atento da segunda mensagem de Zawahiri – a primeira foi distribuída em junho passado – intitulada “Orientações Gerais para Atividades Militares” [ing. General Guidelines for Military Activities] revela profunda mudança no movimento da organização. De mais importante, que a nova mensagem pode ser interpretada como uma crítica ao trabalho do grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante – que continua a matar seus detratores.
Inúmeras páginas jihadistas estão distribuindo a mais recente mensagem de Zawahiri, produzida pela Fundação Sahab de Produção para a Mídia [org. Sahab Foundation for Media Production], usada oficialmente pela al-Qaeda. Na mensagem, Zawahiri falou de duas principais questões que têm de ser encaminhadas na atual fase: uma é a questão militar; a outra tem relação com a “conclamação” [orig. the “call”].
A ação militar visará, doravante,
(...) primariamente aos cabeças dos infiéis internacionais: EUA e sua aliada, Israel. Em segundo lugar, visará aos aliados locais dos cabeças dos infiéis internacionais, que governam nossos países – disse Zawahiri.
Tomar os EUA como nosso alvo significa desgastá-los e exaurir seus recursos, até que acabem como a União Soviética e tenham de retirar-se daqui, de volta às próprias bases, por causa das perdas militares, humanas e econômicas. Assim se enfraquecerão as garras que mantêm cravadas na carne de nossos países, e seus aliados tombarão, um após o outro.
Os golpes dos mujahideen no Afeganistão e no Iraque consumiram os EUA – disse Zawahiri. Por causa da ameaça à segurança dos EUA depois de 11/9/2001, os EUA começaram a inflar a fúria popular [na região], e essa fúria explodiu ante seus colaboradores.
Em sua mensagem, dirigida à “Nação Islâmica” da al-Qaeda, Zawahiri mencionou que muitos países estão assistindo a um renascimento das atividades da al-Qaeda.
O confronto em al-Sham [Síria] é confronto contra colaboradores dos EUA que não permitirão que uma entidade islâmica exista, muito menos se for entidade da Jihad. A história sangrenta das tentativas dos EUA para erradicar o Islã está bem à vista e é bem conhecida.
Apesar de falar de “colaboradores dos EUA que governam nossos países” e falar de atacar seus agentes locais, Zawahiri entende que “é diferente, de um local para outro”. Em princípio, o conflito não deve ser conflito direto contra eles, exceto nos países onde a confrontação seja necessária”.
Quanto a Jerusalém, o confronto básico e principal é contra os judeus. É preciso toda a paciência possível com os governantes locais na autoridade de Oslo. Zawahiri também disse que: o confronto contra [governantes locais] no Afeganistão está relacionado à luta contra os norte-americanos.
Quanto ao Paquistão,
(...) complementa a luta contra os norte-americanos, pela libertação do Afeganistão, criando-se assim uma região segura para mujahideen no Paquistão, para em seguida tentar criar um regime islâmico no Paquistão.
O objetivo da luta no Iraque é livrar áreas sunitas, dos herdeiros xiitas dos EUA – acrescentou Zawahiri.
Na Argélia,
(...) onde a presença dos EUA é pequena e desprezível, a luta é contra o regime, para enfraquecê-lo e ampliar a influência da Jihad no Maghreb Islâmico, nos países da costa oeste da África e nos países sub-saharianos.
Na Somália,
(...) a luta é contra os colaboracionistas, porque são a ponta de lança da ocupação pelos cruzados.
Zawahiri deu algumas orientações aos mujahideen, os quais, para ele, são “vitais nessa fase de acumular dividendos e expulsar o pecado”. Conclamou-os a “não lutar contra grupos desviantes como os rawafid” [termo pejorativo usado para designar os xiitas], “os ismailis, o grupo Qadiyania e os sufistas desviantes, a menos que ataquem os sunitas”.
Zawahiri entende que as lutas devem
(...) limitar-se às frentes ativas [contra os grupos acima], mostrando que já estamos em posição de autodefesa e que se deve evitar atacar os não combatentes e famílias deles nos locais de moradia ou casas de oração e culto, nas festividades ou nas reuniões de caráter religioso. Mas a denúncia de suas falsidades e de seus desvios de ideologia e comportamento deve prosseguir.
Zawahiri põe todos esses grupos
(...) sob controle e comando dos mujahideen; esses grupos devem ser tratados com sabedoria, depois que aceitarem a conclamação; com consciência, sem suspeitas, promovendo a virtude e combatendo o vício, por tanto tempo quando seja necessário, enquanto não causarem maiores danos, e a ação deles não ameaçar expulsar os mujahideen dessas áreas, nem haja risco de revolução das massas contra eles.
Zawahiri conclamou os muçulmanos a
(...) tomar como alvos os interesses da aliança sionistas-cruzados ocidentais em qualquer ponto do mundo; esse é um dos seus deveres mais importantes.
Zawahiri ordenou que
(...) evitem atacar cristãos, sikhs e hindus em terras islâmicas. Se forem beligerantes, a resposta deve ser equivalente à agressão, não maior. Temos de deixar bem claro que não iniciamos nem iniciaremos qualquer confrontação, porque estamos ocupados no combate contra os cabeças dos infiéis internacionais, e temos todo o interessem em viver em paz e harmonia quando a nação do Islã estiver erguida, o mais depressa possível, pela graça de Deus.
Em suas diretivas, Zawahiri ordenou que,
(...) sempre que possível, se evite matar não combatentes ou combater contra eles, ainda que sejam as famílias dos que lutam contra nós.
Conclamou seus seguidores a não atacar muçulmanos com bombas, sequestros ou mortes, e a não se apropriar de dinheiro ou danificar propriedades.
Não ataquem o inimigo em mesquitas, mercados e locais de reunião nos quais o inimigo mistura-se com muçulmanos que não nos agridem.
Quando à “conclamação”, ela
(...) visa a conscientizar a nação para a invasão dos cruzados, elucidando a significação da unidade e de que só a lei de Deus prevalece; para alcançar a irmandade de todos os islâmicos e a unidade das terras islâmicas – como prelúdio à volta do califato.
Esse é trabalho “em duas frentes” – Zawahiri explicou.
A primeira é educação e conscientização para a vanguarda jihadi, que carrega a tarefa de estabelecer o califato e continuará a fazê-lo. A segunda é elevar a consciência das massas, incitando-as, e mobilizando-as para que se levantem contra seus governantes e a favor do Islã e dos que lutam pelo Islã.
Zawahiri conclamou os muçulmanos a
(...) assumir que atacar os interesses da aliança sionistas-cruzados ocidentais em todos os pontos do mundo é um dos seus principais deveres.
Que os muçulmanos
(...) empreendam todos os esforços necessários para libertar prisioneiros muçulmanos, por todos os meios necessários, inclusive ataques a prisões ou sequestros com reféns de países que participem na invasão de terras muçulmanas, para usá-los como item de troca.
Em todos os locais onde haja chance de reduzir o conflito com os governantes locais, usá-lo para conscientização, para obter informação, para instigar a resistência, para arregimentar e alistar e para coletar fundos e apoiadores – deve-se investir nisso, no mais alto grau. Nossa batalha é longa e a jihad carece de bases seguras e de reforço contínuo, de homens, dinheiro e expertise.
Zawahiri também falou das desavenças com outros grupos islâmicos.
Desentendimentos com outros grupos islâmicos não podem levar-nos a negligenciar a confrontação com o inimigo e com os oponentes do Islã, nem militarmente nem politicamente.
Disse que:
(...) é necessário apoiar os grupos islâmicos, elogiá-los por todas as ações manifestações e declarações corretas, e aconselhá-los nos erros que cometam. Respostas e conselhos devem ser baseados em abordagem científica séria e devem-se evitar ataques e provocações. 
Se um grupo do campo islâmico está engajado em combate ao lado do inimigo infiel, sua luta deve ser combatida com a mínima luta possível para pôr fim à aliança, com o objetivo de não prolongar a luta entre muçulmanos e o sofrimento dos que não se aliam ao inimigo.
 ___________________
[*] Radwan Mortada é um jornalista libanês, editor do jornal Al Akhbar e repórter da Aljadeed TV. É especializado em grupos fundamentalistas islâmicos notadamente a al-Qaeda e seus tentáculos pelo mundo. Também cobre assuntos ligados à segurança interna do Líbano. Eventualmente produz documentários como free-lancer. 

sábado, 28 de setembro de 2013

Pepe Escobar: “Como os EUA estão criando o Siriastão”

27/9/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Terroristas da Frente al-Nusra /al-Qaeda armados e pagos pelos EUA e Arabia Saudita 
Se ainda faltasse alguma prova extra para destroçar o mito de uma luta “revolucionária” para alguma futura Síria “democrática”, as manchetes da semana acabaram com qualquer dúvida remanescente.

11, 13 ou 14 brigadas “rebeldes” (o número varia conforme a fonte) já fizeram descarrilar o tal Conselho Nacional Sírio, dito “moderado” e mantido pelos EUA, e o nada livre Exército Sírio Livre. Os líderes do bando são os jihadistas dementes da Frente al-Nusra – mas o bando inclui outras imundícies, como as brigadas Tawhid e Tajammu Fastaqim Kama Ummirat em Aleppo, algumas imundícies das quais eram, até recentemente, parte do Exército Sírio Livre, já em pleno colapso.

Na prática, os jihadis ordenaram que a miríade de “moderados” se submetessem, que se “unificassem num quadro claramente islamista” e que jurassem fidelidade a uma Síria futura na qual a lei da Xaria seja “a fonte única da legislação”.

Ayman al-Zawahiri
Um certo Ayman al-Zawahiri deve estar em festa, dançando em seu esconderijo confortável, à prova de drones, em algum ponto dos Waziristões. Não só porque sua conclamação para uma jihad multinacional – à moda do Afeganistão nos anos 1980s – está funcionando; também porque o Conselho Nacional Sírio comandado pelos EUA já está exposto como o roedor desdentado que de fato é.

E fatos em campo só fazem comprovar exatamente isso. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante, promovido pela al-Qaeda, acaba de tomar uma cidade próxima do ponto de passagem de Bab al-Salam na fronteira com a Turquia, que estava sob controle do Exército Sírio Livre, porque o Exército Sírio Livre foi acusado de lutar por “democracia” e de manter laços com o Ocidente. Errado. O Exército Sírio Livre deseja esses laços com o ocidente, sim; mas sob regime controlado pela Fraternidade Muçulmana. E o Estado Islâmico do Iraque e do Levante – do qual a Frente al-Nusra é o principal membro sírio – deseja um Siriastão talibanizado.

As gangues de jihadis linha duríssima na Síria somam cerca de 10 mil jihadistas; mas correspondem a cerca de 90% dos combates pesados, porque são os únicos com real experiência de combate (incluindo iraquianos que combateram contra norte-americanos, e chechenos que combateram contra russos).

Bandar bin Sultan
Paralelamente, e não por acaso, desde que o príncipe Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, foi nomeado pelo rei saudita Abdullah para comandar a jihad síria, com instruções para não deixar nem levar prisioneiros vivos, o Conselho Nacional Sírio dito “moderado” e aliado da Fraternidade Muçulmana do Qatar passou a ser cada dia mais deixado de lado.

Cortem a cabeça desses “pacifistas”

E, em matéria de descarrilamento catastrófico, nada se compara à desculpa do governo Obama para uma “estratégia”, a qual, teoricamente, se resume a armar e treinar extensivamente o elo mais fraco – gangues selecionadas do Exército Sírio Livre infiltradas por agentes da CIA – e que “impediriam” que as armas caíssem em mãos de jihadistas. Como se a CIA tivesse inteligência local confiável sobre as fontes do Golfo que garantem dinheiro e apoio logístico aos milhares de jihadistas.

O Conselho Nacional Sírio, o Exército Sírio Livre e o chamado “Comando Militar Supremo” (de exilados) comandado pelo grandiloquente general Salim Idriss já não passam, hoje, de piada.

A coisa toda aconteceu enquanto o presidente da Coalizão de Oposição Síria [Ahmed Asi] Al-Jerba, estava na Assembleia Geral da ONU em New York – onde se encontrou com o secretário de Estado John ("Assad é como Hitler”) Kerry. Kerry não falou sobre armas, mas sobre mais “ajuda” e futuras negociações na perenemente adiada Conferência Genebra-2. Al-Jerba ficou furioso. E, para piorar, várias das gangues do seu Exército Sírio Livre declaradamente bandearam-se para a al-Qaeda.

A Frente al-Nusra/al-Qaeda executa civis na região de Aleppo (Síria)
Por quê? Sigam o dinheiro. É assim que funciona. Pelo menos metade das “brigadas” do Exército Sírio Livre são mercenários – financiados do exterior. Lutam onde os patrões – que lhes pagam e lhes fornecem armas – mandam lutar. O “Comando Supremo” controla, no máximo, 20% das brigadas. E essa gente sequer vive na Síria; têm bases do lado turco ou jordaniano da fronteira.

Mas esses jihadis mercenários combatem em tempo integral. Eles são a efetiva força combatente, recebem salários em dia e suas famílias são protegidas e mantidas.

Assim sendo, trata-se hoje de guerra entre o Exército Sírio Árabe e um bando de jihadistas. Claro: nada disso será JAMAIS bem explicado pela imprensa-empresa à opinião pública ocidental.

Imaginem, então, se esses degoladores, comedores de fígados, fãs da Xaria, teriam algum desejo de aparecer na conferência Genebra-2 para negociar um cessar-fogo com o governo sírio e um possível acordo de paz com o eixo OTAN-Casa de Saud. Evidentemente nunca acontecerá – como Bandar Bush deixou bem claro, pessoalmente, em Moscou, para o presidente Vladimir Putin.

O pior, do ponto de vista de Washington, é que não há como explicar por que não pode acontecer nenhuma negociação significativa. Até os mais descerebrados infiéis que habitam os círculos do poder em Washington já viram que há conexão direta entre todas as hordas de “rebeldes”, e também, é claro, com os “rebeldes” sírios que abraçaram a al-Qaeda imediatamente depois que o grupo al-Shabaab atacou o shopping center Westgate em Nairobi.

Os degoladores da Frente al-Nusra/al Qaeda (financiados e armados pelos EUA via Arabia Saudita, Jordânia e Turquia) distribuem fotos e vídeos de seus "feitos e conquistas"  na internet

Nem é preciso dizer que Bagdá entrou em surto, ante esses desenvolvimentos. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante já aumentou os atentados com carros-bomba e homens-bomba no próprio Iraque – porque o governo de al-Maliki, “apóstata” xiita, é tão alvo preferencial quando o governo do secular Bashar al-Assad.

Quase nem acredito que há apenas cinco meses, eu mesmo escrevi sobre o advento do Emirado Islâmico do Siriastão. Agora já está bem claro que e como o “invisível” al-Zawahiri e o esperto Bandar Bush se apropriaram da “estratégia” de Washington para chegar, realmente, onde querem chegar.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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