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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Israel e Arábia Saudita: A Contrarrevolução Permanente

20/9/2013, [*] Asa WinstanleyMiddle East Monitor
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Primavera árabe, manifestação de 1 milhão na Praça Ibrahim al-Qaed em Alexandria, Egito
O que o saldo dos levantes árabes de 2011 nos ensinou até aqui? Podem-se listar muitas coisas, mas, para mim, o que mais chama a atenção é a natureza, agora já completamente exposta e visível, da aliança entre Arábia Saudita e Israel.

Essa aliança representa uma contrarrevolução permanente que domina, em conjunto, a região – plenamente apoiada pela hegemonia imperial em ruínas de Washington DC.

Os dois regimes são ambos ditaduras militares, embora de modos diferentes. E os dois regimes são também teocracias, cada um a seu modo. A visão wahhabista extremista da família saudita que domina o país poderia levar alguém a supor que os sauditas detestariam o autodeclarado “estado judeu”. Nada disso.

Conquanto a mídia-empresa do regime saudita volta e meia exiba o mais escandaloso antissemitismo, o movimento sionista jamais deu qualquer importância a antissemitismos, exceto como chibata para vergastar os inimigos do sionismo. Nada disso. A verdade é que se vê com muita frequência, na mídia-empresa de Israela Arábia Saudita apresentada como “regime moderado”.

Esse regime “moderado” é monarquia absolutista cruel, que sequer se dá ao trabalho de fingir que realiza eleições – a família real, com seus milhares de príncipes senis, simplesmente governa o país com mão de ferro, encarcerando os opositores.

Zein eldin Ben Ali
De fato, para onde fugiu o ditador tunisiano Zein eldin Ben Ali, depois de derrubado do poder pelos levantes populares de 2011? Para a Arábia Saudita, onde foi recebido de braços abertos pelo rei. Desde então, o reino tem recusado todos os pedidos de extradição do governo da Tunísia.

Os sauditas, apoiados na sua aparentemente ilimitada riqueza em petróleo, exportam morte e destruição para toda a região. Na Síria, os sauditas comandaram o movimento pró-guerraonde, de fato, os sauditas fazem guerra à distância.

No Líbano, os sauditas estão entre os principais suspeitos de uma recente [em 2013] onda de explosões de carros-bombas cujo objetivo provável parece ter sido incitar e incendiar oposições sectárias subjacentes. O dinheiro saudita circula fartamente pela região, pelos bolsos de “jornalistas” estenógrafos da corte, que usam suas plataformas para papagaiar os objetivos da política externa dos sauditas e disseminar sempre mais o ódio e o sectarismo.

Falando recentemente ao New York TimesAlon Pinkas, ex-cônsul geral de Israel em New York, assim resumiu a atual [em 2013] política israelense na Síria:

Deixar os dois lados sangrarem, hemorragia, até a morte: eis o pensamento estratégico por aqui. Enquanto durar [a guerra na Síria], não há ameaça real a temer da Síria.

Michael Oren
Mas essa semana [em 2013] o embaixador de Israel à ONU, Michael Oren, disse que o pensamento israelense era mais complexo, naquela questão:

Sempre quisemos que Bashar al-Assad saísse, sempre preferimos bandidos que não fossem apoiados pelo Irã, a bandidos apoiados pelo Irã.

Nada estará algum dia mais alinhado com os objetivos políticos da Arábia Saudita, de derrubar o presidente Assad – apesar de uma curta entente em 2009, quando o rei Abdullah visitou Damasco.

Qualquer que tenha sido o pensamento estratégico prevalecente na cúpula israelense, fato é que a aliança sauditas-israelenses, que antes foi tácita, agora já se deixa ver abertamente declarada.

Oren esclareceu tudo:

(...) nos últimos 64 anos provavelmente jamais houve mais ampla confluência de interesses entre nós e vários estados do Golfo. Com esses estados do Golfo, temos acordos sobre a Síria, o Egito e a questão palestina. Evidentemente, também temos acordos sobre o Irã. É uma das boas oportunidades criadas pela Primavera Árabe.

No Egito, os sauditas realmente lideraram diretamente a contrarrevolução – com apoio diplomático de Israel – encorajando autoridades norte-americanas a apoiar fortemente o ditador Hosni Mubarak quando enfrentava pressão máxima em 2011. Os sauditas parecem não ter gostado da relutância do governo de Barack Obama, apanhado no contrapé, sempre sem saber como reagir aos levantes árabes.

Egito - golpe MILICANALHA (julho 2013)
A partir dali, o Egito foi dominado por uma contrarrevolução. O golpe militar do general Sisi, que tomou o poder em julho/2013, foi e continua a ser totalmente apoiado pelos sauditas. A monarquia prometeu bilhões de ajuda ao regime, no caso de a ajuda militar dos EUA vir a ser suspensa (possibilidade muitíssimo improvável).

Escrevendo em Jewish Chronicle mês passado (agosto/2013), o correspondente em Londres do jornal Haaretz, Anshel Pfeffer, disse que o governo de Israel está satisfeitíssimo com o golpe, embora se mantenha em silêncio. “Conhecemos al-Sisi e se pode fazer negócios com ele” – escreveu Pfeffer, citando uma alta autoridade da segurança de Israel.

No Bahrain, outro levante popular em 2011 foi esmagado mais diretamente – por tanques e soldados sauditas.

O papel dos sauditas no financiamento da contrarrevolução e da violência política tem longa história – e não só na região. Eis aí mais um aspecto em torno do qual há perfeita harmonia entre Israel e a monarquia saudita.

Nos anos 1980s, durante algum tempo, o Congresso dos EUA bloqueou as tentativas, do governo Reagan, para financiar e armar os “Contras” – esquadrões da morte que a CIAestava usando para combater o governo democrático de esquerda na Nicarágua (esquadrões da morte que, segundo a mídia-empresa nos EUA, seriam constituídos de “revolucionários” e “combatentes da liberdade”).

A quem a CIA recorreu, para resolver o caso? À Arábia Saudita e a Israel. De fato, o mesmo príncipe saudita encarregado de armar os esquadrões da morte na Nicarágua é hoje (2013) encarregado de contrabandear armas para a Síria – o príncipe Bandar bin Sultan – mais uma vez com a ajuda da CIA (e de espiões britânicos).

Bandar (Bush) bin Sultan
Enquanto o despótico regime saudita continuar a exportar petróleo e violência política para toda a região, praticamente não há qualquer possibilidade de genuína mudança democrática no mundo árabe – e nada existe que meta mais medo a Israel, que democracia no mundo árabe.

Apesar da onda de guerras civis, quase guerras civis ou estados já virtualmente falidos ou colapsados, só uma coisa parece absolutamente inalterada: a impopularidade de Israel. Quando baixar a poeira, Israel ainda será impopular.
__________________________________________

[*] Asa Winstanley, nascido no sul do País de Gales, é um jornalista investigativo que vive em Londres, que escreve sobre a Palestina e no Oriente Médio. Visita regularmente a Palestina e a Cisjordânia ocupada desde 2004.
Escreve para o site de notícias palestina premiado The Electronic Intifada, onde ele é um editor associado.Mantém coluna regular no Middle East Monitor.
Escreve para outras publicações incluindo: Al-Akhbar (Líbano), Middle East Eye, The National, Jacobin, Ceasefire Magazine, New Left Project, Jerusalem Media and Communications Centre, Morning Star e Free Morning Star e Freedom.
Contribuiu com um capítulo de livro para Israel e Gaza: Behind the Media Veil, publicado pelo MEMO em 2014. Junto com Frank Barat, foi editor de Corporate Complicity in Israel's Occupation (Pluto Press) uma coleção de provas escritas e faladas de Sessões do Tribunal Russell, de Londres, sobre a Palestina .
É membro da National Union of Journalists.
Recebe e-mails em: mail@asawinstanley
Twitter: @asawinstanley

sábado, 27 de setembro de 2014

Olhadela por dentro do acordo secreto EUA-Arábia Saudita

(que gerou o ataque contra a Síria)

25/9/2014, [*] Tyler DurdenZeroHedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bashar al Assad é saudado em Damasco
Para aqueles a cujos olhos o recente ataque dos EUA à Síria parece cena déjà vue da tentativa de criar “próxima guerra” do verão passado para derrubar o presidente Bashar al-Assad, e que foi impedida no último segundo graças a muito bem vinda intervenção dos russos e um quase início de guerra no Mediterrâneo entre navios russos e norte-americanos, o seguinte: parece déjà vu, porque é déjà vu. Lembro também que, como no ano passado, o coringa-agente na intervenção contra o estado sírio soberano, ou, como alguns já dizem, invasão ou mesmo guerra, não são (só) os EUA, mas a Arábia Saudita – relembrem agosto de 2013, Conheçam Bandar Bin Sultan da Arábia Saudita: é quem movimenta os fantoches por trás da Guerra à Síria (ing.).

Bin Sultan foi oficialmente demitido pouco depois que falhou a campanha de 2013 para derrubar o governo sírio e substituí-lo alguém mais “maleável”, mas as ambições sauditas para a Síria continuaram.

É o que noticia hoje (25/9/2014) o Wall Street Journal, em artigo no qual revela as negociações secretas entre EUA e Arábia Saudita para que os EUA obtivessem “luz verde” para iniciar os ataques contra partes de Iraque e Síria, ditos ‘ataques contra o ISIL’. E, como não surpreende ninguém, mais uma vez o principal item da barganha para pôr os sauditas no mesmo lado que os EUA é o destino do presidente Assad.

Verdade é que, para lançar ataque militar contra o território do estado sírio soberano, “foram necessários meses de trabalho secreto entre líderes dos EUA e árabes, que concordavam quanto à necessidade de cooperarem contra o Estado Islâmico, mas não quanto ao quando e ao como. O processo deu força aos sauditas para extrair dos EUA compromisso renovado para aceitarem treinar rebeldes para a luta contra Assad, cuja derrubada é alta prioridade para os sauditas”.

Em outras palavras, John Kerry veio, viu e prometeu tudo e qualquer coisa que tivesse, até, e inclusive, a peça que faltava do quebra-cabeças – a própria Síria numa bandeja de prata – só para fugir de outra humilhação diplomática.

Quando Kerry pousou em Jeddah para reunião com o rei Abdullah dia 11/9/2014, não sabia com certeza o que mais os sauditas estariam dispostos a fazer. Os sauditas haviam informado os norte-americanos, antes da visita, que estariam dispostos a oferecer poder aéreo – mas só se estivessem convencidos de que os norte-americanos falavam a sério sobre um esforço sustentado na Síria. Os sauditas, por sua vez, não tinham certeza sobre até que ponto Obama estaria disposto a ir – segundo os diplomatas.

Kerry visitou o Rei Abdullah da Arábia Saudita
Dito de outro modo: a libra de carne que a Arábia Saudita exigiu para “abençoar” os bombardeios norte-americanos e dar-lhes a aparência de representar alguma espécie de “coalizão”, é a derrubada do regime Assad. Por quê? Para que – como também explicamos ano passado – o gás dos grandes campos de gás natural do Qatar possa afinal tomar o rumo da Europa, o quê, não por acaso, também é desejo dos EUA. Que melhor modo para castigar Putin por suas ações recentes, que neutralizar o principal poder que o Kremlin tem sobre a Europa?

Mas voltemos aos sauditas e à montagem do negócio que levou ao bombardeio contra a Síria:

Os EUA sabiam que havia muita coisa em jogo naquela reunião de 11/9/2014 com o rei da Arábia Saudita, no seu palácio de verão no Mar Vermelho.

Um ano antes, o rei Abdullah ficara furioso quando o presidente Obama cancelou os ataques contra o regime de Bashar al-Assad da Síria. Agora, os EUA precisavam do compromisso do rei, de que apoiaria uma outra missão à Síria – contra o grupo Estado Islâmico –, sabendo que havia baixíssima possibilidade de conseguir reunir qualquer frente árabe, sem os sauditas.

No palácio, o secretário de Estado John Kerry pediu ajuda para, inclusive, ataques aéreos, segundo altos funcionários dos EUA e do Golfo. “Daremos todo e qualquer apoio de que precisem” – disse o rei.

Mas, isso, só depois de os sauditas terem obtido a garantia de que Assad seria derrubado. E para conseguir essa promessa, prenderam Obama numa chave de braço:

Desconfiados de que Obama novamente voltasse atrás, os sauditas e os Emirados Árabes Unidos conceberam uma estratégia para dificultar o mais possível que Obama mudasse de rota: “Peçam eles o que pedirem, digam que sim” – eis como um conselheiro do bloco do Golfo descreveu a tal estratégia. – “O objetivo era não dar aos norte-americanos nenhuma razão para adiar ou desistir”.

A participação árabe nos ataques aéreos tem valor mais simbólico que militar. Os norte-americanos estão fazendo tudo e já lançaram mais bombas que todos os “coligados” árabes. Mas a mostra de apoio dada por um grande estado sunita para campanha contra grupo sunita militante, dizem funcionários dos EUA, deixou Obama confortável para autorizar ataque contra o qual, antes, ele resistira.

Verdade é que até aqui Obama tem resistido contra bombardear Assad diretamente, mas o início dos bombardeios é só questão de tempo: “A duração da aliança dependerá de como os dois lados reconciliam suas diferenças fundamentais sobre a Síria e outras questões. Líderes sauditas e membros da oposição síria moderada apostam que os EUA podem vir a ser empurrados na direção de apoiar militarmente rebeldes que ataquem o presidente Assad, não só o Estado Islâmico. Funcionários dos EUA dizem que o governo não tem intenção de atacar forças do governo sírio” – por enquanto.

Barack Obama
Mas por que a Arábia Saudita tanto quer, tão empenhadamente, derrubar Assad? Eis o que escreve o Wall Street Journal:

Para os sauditas, a Síria tornou-se uma linha de frente crítica na batalha contra o Irã, aliado de Assad, pela influência regional. Com Assad ampliando seu poder doméstico, o rei decidiu fazer o que fosse preciso para derrubar o presidente sírio. É o que dizem diplomatas árabes.

Na última semana de agosto, uma delegação de militares e do Departamento de Estado voou a Riad para preparar o terreno para um programa militar de treinamento para a oposição síria moderada que combateria ao mesmo tempo o governo de Assad e o Estado Islâmico – operação que os sauditas haviam solicitado há muito tempo. A equipe dos EUA pediu autorização para usar instalações sauditas para o treinamento. Os principais ministros sauditas, depois de consultar o rei durante a noite, concordaram e ofereceram-se para pagar quase toda a conta. Mr. Jubeir foi ao Capitólio, para pressionar congressistas chaves a aprovar legislação que autorizasse o treinamento.

E, depois que os EUA mais uma vez dobraram-se à exigência dos sauditas para atacarem país soberano, o resto foi só questão de planejar:

Horas antes de a campanha militar estar pronta para começar, funcionários dos EUA reuniram-se em teleconferência para discutir os últimos preparativos. Nessa conferência, oficiais militares levantaram questões de último minuto, sobre se o Qatar tomaria parte no ataque e se os países divulgariam a própria participação.

Kerry estava numa suíte no 34º andar do hotel Waldorf Astoria em New York, em reunião com líderes que participavam dos trabalhos na ONU. Telefonou aos seus contrapartes no Golfo, para confirmar que continuavam no mesmo barco. Continuavam.

Os Emirados Árabes Unidos, que alguns funcionários da Defesa chamam de “Pequena Esparta”, por causa da desproporcional força militar, ficariam com o papel mais pesado. Um dos jatos de combate dos EAU era pilotado por uma mulher. Dois dos pilotos de F-15 eram membros da família real saudita, inclusive o príncipe Khaled bin Salman, filho do príncipe coroado. Na terceira onda do ataque inicial, metade dos aviões de ataque no céu eram de países árabes.

Bandar bin Sultan
A melhor notícia para Obama é que é só uma questão de tempo e ele poderá novamente empurrar goela abaixo do mundo a falsa bandeira que a aliança EUA−Sauditas já empurrou goela abaixo do mundo no verão de 2013, para justificar o primeiro atentado para derrubar Assad; talvez até obtenha a “simpatia” do mundo, com a ajuda, claro, da imprensa-empresa norte-americana.

Mas como se pode saber que não passa, mais uma vez, de encenação? O parágrafo seguinte explica tudo:

Os sauditas encarregaram também o príncipe Bandar bin Sultan, principal espião do rei que, ano passado, foi também enganado pela política de Kerry para Síria e Iraque, de participar da reunião do dia 11/9. Funcionários dos EUA interpretaram a presença de Bandar como sinal de que o rei quer ter certeza de que sua corte está unida.

A verdade é que a presença do príncipe Bandar é sinal, isso sim, de que o mesmo manobrador de fantoches que comandava os bonecos, e falhou, em 2013, e não derrubou Assad, e que, pelo menos oficialmente, foi logo depois removido do palco, está outra vez pessoalmente encarregado da guerra contra a Síria. Apenas que, dessa vez, não oficialmente; e com Obama completamente atado e controlado.


[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pepe Escobar − “Atenção: inferno saudita à vista”

21/2/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Caia fora, Peter O’Toole! Chegou o Charles da Arábia. O príncipe Charles entrou em modo Lawrence, quando fofocava e dançava em Riad, 3ª-feira passada (18/2/2014), com os nativos. E, certinho como relógio, dia seguinte a empresa BAE Systems – principal fabricante de armas da Europa – já anunciava que a Grã-Bretanha e a Casa de Saud haviam acertado “novos preços” em negócio extremamente sumarento: 72 jatos Eurofighter Typhoon.

O jato Eurofighter é concorrente direto do espetacularmente invendível Rafale francês e dos extraordinariamente caros F-35s e F-16s norte-americanos. A Associated Press incluiu devidamente na notícia – repetida em praticamente todos os jornais impressos do planeta – o meme impingido por Washington segundo o qual

(...) a Arábia Saudita e outros países do Golfo estão reforçando suas capacidades militares para fazer frente à ameaça já identificada, de rivais regionais, especialmente do Irã.

Como se Teerã fosse bombardear a Casa de Saud amanhã cedo.

Eurofighter Typhoon totalmente armado
O Eurofighter, porém, já foi usado contra irmãos árabes – por exemplo, no bombardeio humanitário contra a Líbia, pela Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, até converter a Líbia em estado arruinado. Está aberto o debate sobre se a Casa de Saud pode ser tentada a usá-lo também contra o inimigo interno: mulheres em luta para obter licença para dirigir.

Brandindo a desculpa oficial de que o quase nonagenário rei Abdullah não teve condições de saúde que lhe permitissem recebê-lo, Charles da Arábia não discutiu com a Casa de Saud a situação escandalosa dos direitos das mulheres, dos direitos dos trabalhadores migrantes, e, no que tenha a ver com direitos, de todos os direitos humanos no reino. Claro que não. Só se fala de direitos humanos quando se trata de demonizar Rússia, China e/ou Irã.

François Hollande
Além do mais, Charles da Arábia não poderia mesmo agitar demais as penas, porque os franceses também se estão posicionando como concorrentes no jogo-show de “aconchegue-se-aí-com-um-saudita”, do complexo industrial-militar (total de mais de US$70 bilhões, só nos anos mais recentes). O presidente francês, François Hollande – nulidade abissal em casa, mas Grande Libertador da África e da Síria – visitou Riad em dezembro, tentando empenhadamente roubar dos anglo-americanos uma fatia significativa do mercado. O problema de Hollande é que ninguém, no perfeito usufruto das próprias faculdades mentais, jamais cogitaria, que fosse, de comprar um Rafale.

Aí está a grana. Passe p’rá cá a minha bomba

Significa que a Casa de Saud está armazenando toneladas de armas. OK. O príncipe saudita da Arábia, Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, continua solto, financiando/armando seu exército sempre crescente de mercenários no Levante. OK. E a Casa de Saud está arquitetando alguma com seu aliado Paquistão. OK.

Apenas um dia antes de Charles da Arábia desembarcar em Riad, o ministro da Defesa saudita – e, o que é importantíssimo, príncipe coroado – Salmam bin Abdul Aziz estava em Islamabad. A alma do negócio foi – e o que mais poderia ser – um pacto de defesa.  

Ministro da Defesa da Arábia Saudita, Salman Bin Abdul Aziz e o Primeiro Ministro,  Nawaz Sharif do Paquistão em 18/2/2014 em Islamabad
Crucialmente importante, há também aí uma reverberação para o Oleogasodutostão. Em meados de 2013, o primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, andava excitadíssimo por causa do gasoduto Iran-Paquistão (IP) que, teoricamente, entraria em operação em 2015. Agora, já não tem muita certeza. Não é preciso ser o perspicaz Charles da Arábia para farejar pegadas dos sauditas em tudo isso – desmontando ativamente a parceria energética Irã-Paquistão.

Rei Abdullah
A paranoia da Casa de Saud em torno do Irã não tem similar no sistema solar; e a “mudança de regime” na Síria é elemento chave no cenário da retribuição. Por mais que Washington negue-sem-negar, sempre repetindo o mote do “não estamos envolvidos”, a rede de Bandar Bush em breve já estará fornecendo armamento antiaéreo às gangues mercenárias no Levante.

E adivinhem quem está correndo nas pegadas de Charles da Arábia rumo a Riad, mês que vem? Ele. O presidente Barack Obama. Como parte do ataque de vários braços pela Casa de Saud, o rei Abdullah praticamente suplicará a Obama (da Arábia?) que dê um empurrão decisivo para a “mudança de regime” na Síria.

Entrementes, a Casa de Saud tenta reunir a maior quantidade possível de “conselheiros” paquistaneses, para treinar seus paus alugados na Síria. A negativa-sem-negar oficial do Paquistão é que eles não mandarão aqueles exércitos à Síria. Mas, numa operação remix do Afeganistão durante a jihad dos anos 1980s, um pequeno punhado de “conselheiros” experientes será mais que suficiente.

E há também a cena nuclear da Casa de Saud. Já em 2012 andaram anunciando o ímpeto para construir nada menos que 16 reatores comerciais, que começariam a operar em 2030 e, como se não bastasse, foi assinado um acordo de cooperação técnica com Pequim.

Bandar Bush bin Sultan
A Casa de Saud gastou muito dinheiro no programa de armas atômicas do Paquistão. Não se trata sequer de “adquirir tecnologia nuclear” contra o Irã (demoraria tempo demais). Dependendo do resultado das conversações do grupo P5+1 com o Irã, a hiper paranoica Casa de Saud pode fazer chover cataratas de dinheiro sobre os cofres hiper quebrados de Islamabad e, simplesmente, comprar uma daquelas bombas atômicas.

Afinal, Riad acaba de oferecer secos 3 bilhões de dólares ao exército libanês, para que compre armas da França – movimento que franceses super excitados interpretaram imediatamente como um “divórcio tático” dos sauditas, separando-se do governo Barack Obama.

Seja qual for o ângulo pelo qual se examine tudo isso, há inferno provocado pelos sauditas, aí, logo à frente. Até em Teerã já há preocupação em torno da (in)sanidade dos sauditas – e o gabinete do Supremo Líder Aiatolá Khamenei sabe tudo o que há para saber sobre a paranoia cósmica, o velho rei Abdullah, 89, encaminhando-se rumo ao ocaso, a furiosa guerra pelo trono que advirá em seguida e, daqui até lá, a furiosa ofensiva de guerra de Bandar Bush.

Charles da Arábia e a Dança das Espadas
O que nos leva de volta ao perspicaz Charles da Arábia. Ele com certeza percebeu que há um continuum direto que liga o wahabismo medieval e um certo Osama bin Laden. Até recentemente, todos e quaisquer líderes de qualquer gangue de islamistas linha-duríssima partilhavam três traços comuns: estudaram na Arábia Saudita; foram financiados por fontes sauditas (pública ou privada); e alcançaram a “maturidade” no Afeganistão. Hoje, a paisagem jihadi está mais diversificada. Cabe então a Bandar Bush arregimentar a nova geração jihadi-Google, para suas “Frentes Islâmicas”.

Mas para a Casa de Saud, a agenda nunca muda: demonizar o Irã; fazer o serviço de menino de recados da superpotência e de “poderes” menores ocidentais; e comprar quantidades oceânicas de armas. Não surpreende que Charles da Arábia tenha dançado tão satisfeito, conforme aquela música; afinal, aqueles bons velhos amigos são os “nossos” filhos-da-puta medalha de ouro.



[*] Pepe Escobar 1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Quem pilota o carro rumo a Genebra-2

21/1/2014, [*] Wayne MADSEN, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Na semana antes do início das conversações de 22 de janeiro, quem pilota o carro rumo à chamada Conferência Genebra-2 é sem dúvida o presidente Assad. Diferente do que os EUA e outras potências ocidentais desejam, o presidente Assad continuará a ter papel dominante na vida política síria. Não por milagre, mas por sua capacidade para resistir e pelo total colapso da coalizão que se construiu contra ele”

Sergey Lavrov (E) e Bashar al-Assad (D)
Inquestionavelmente, jamais haveria a conferência Genebra-2 sobre a Síria, não fosse a estratégia brilhante do ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, que ofereceu proposta positiva ao presidente da Síria, Bashar al-Assad, pela qual a Síria entregaria ao ocidente seu arsenal químico, para evitar ataque militar de forças ocidentais. 

Kerry introduzira a entrega das armas químicas como “condição” para não atacar a Síria, em conferência de imprensa, em setembro de 2013, em Londres, com o Secretário de Relações Exteriores britânico, William Hague. Respondendo a uma pergunta de jornalista, sobre o que Assad poderia fazer para deter um ataque de forças dos EUA e OTAN, Kerry respondeu:

Umm... ora... Ele poderia entregar todas as suas armas químicas à comunidade internacional semana que vem. Entregue tudo! Tudo, sem demora. e permita total e completa transparência. Mas é claro que ele nunca fará tal coisa. Obviamente não é possível. 

John Kerry (E) e William Hague (D)
O tom de voz de Kerry baixou, na última parte da fala, porque percebeu que metera o pé, até o joelho, numa montanha de excremento. Hoje já é evidente que Kerry, já ali, começou a preocupar-se porque, se Assad viesse a fazer o que Kerry supunha que fosse impossível e entregasse seu arsenal químico, não haveria ataque militar do ocidente contra a Síria, porque o casus belli imposto pelos EUA teria sido retirado da mesa.

Lavrov respondeu rapidamente ao ultimatum irrefletido e tolo de Kerry, anunciando que Assad aceitava os termos dos norte-americanos. Kerry então foi obrigado a reunir-se com Lavrov em Genebra, onde Rússia e EUA definiram um contexto para o desarmamento químico da Síria. Diferente de Kerry, que nunca trabalhou como diplomata em campo, Lavrov é diplomata experimentado, que trabalhou na União Soviética e no Sri Lanka, falante do idioma Sinhala, que já ocupou inúmeras posições do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, inclusive como embaixador à ONU. Antes de ser nomeado ao Sri Lanka, o embaixador Lavrov serviu na República Russa de Tuva, de maioria budista.

Críticos que trabalharam na campanha de 2004 dizem que, se Kerry dedicasse mais tempo à campanha presidencial que ao próprio corte de cabelo, poderia ter derrotado George W. Bush.

As ondas de choque geradas pela notícia de que o ocidente planejava ataque militar contra a Síria agitaram as fileiras do Conselho Nacional Sírio “rebelde”, (SNC) em Istambul e nos corredores do poder em todas as capitais regionais pró-guerra – Ancara, Riad, Doha, Paris e Jerusalém. Lavrov e o presidente Vladimir Putin podem orgulhar-se de ter arrancado o Oriente Médio da beira da guerra, para a mesa das negociações de paz.

Kofi Annan
A Conferência Genebra-2, que, de fato, acontecerá em Montreux, Suíça, acontece depois de Genebra-1 realizada sob os auspícios do Grupo de Ação na Síria da ONU, em junho de 2012. Essa conferência, presidida pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, aceitou a formação de um governo de transição para a Síria, composto de membros da oposição síria e do governo sírio. Genebra-2 estava prevista para acontecer em julho de 2013 mas foi adiada até setembro. A Síria foi pressionada pelo governo de Mohamed Mursi no Egito, e também pelo governo da Turquia, a participar de Genebra-1 e fazer consideráveis concessões à oposição. Dificultando ainda mais a situação da Síria, as potências ocidentais rejeitavam a ideia de que o Irã participasse das conversações. A Síria, exceto pelo apoio da Rússia, estaria sozinha.

Com a derrubada de Mursi e de seu governo da Fraternidade Muçulmana no Cairo, pelos militares egípcios pró-Síria, e diante da surpreendente aceitação, por Lavrov e Assad das “condições” apresentadas por Kerry, de trocar um ataque militar por um acordo para entregar seu arsenal químico, Damasco assistiu a uma dramática mudança na correlação de forças; e a seu favor. Depois da derrubada de Mursi, Assad declarou, triunfante, o fim do “Islã político” como força no Oriente Médio. A própria facção síria da Fraternidade Muçulmana, apoiada pelo Qatar e que participa da coalizão “rebelde” foi eclipsada pelos salafistas ainda mais radicais apoiados pela Arábia Saudita, com a Al-Qaeda e outros grupos radicais.

Tamim bin Hamad al Thani (E) e Hamad bin Khalifa al Thani (D)
Dia 25/6/2013, outro movimento que beneficiou Assad, quando o emir do Qatar, Sheikh Hamad bin Khalifa al Thani, abdicou a favor de seu filho, Tamim bin Hamad al Thani. Quase imediatamente, Tamim começou a retirar o apoio dos qataris à Fraternidade Muçulmana. O novo emir deu ao líder espiritual da Fraternidade, Sheikh Yusuf al Qaradawi, 48 horas para deixar o Qatar. Tamim também começou a fechar a torneira do dinheiro qatari para a Fraternidade Muçulmana na Síria. Foi outro duro golpe, demolidor, contra os “rebeldes” sírios.

Recep Tayyip Erdogan
Na Turquia, o Primeiro-Ministro, Recep Tayyip Erdogan, passou também a enfrentar significativa oposição interna. O apoio dos turcos aos “rebeldes” na Síria também começou a diminuir, sobretudo depois de ações, dos “rebeldes” sírios, dentro da Turquia.

Mais ou menos ao mesmo tempo, surgiram fortes indicações de que os autores do mortal ataque com armas químicas em Ghouta, próximo de Damasco, dia 21/8 foram islamistas radicais sírios apoiados pela Arábia Saudita. As potências ocidentais e grande parte das empresas de mídia, televisões e jornais, muito se empenharam para tornar Assad responsável pelo ataque, na tentativa de fazer aumentar o apoio a um ataque militar de EUA-OTAN contra a Síria. A mão clandestina da inteligência saudita e do espião chefe dos sauditas, o príncipe Bandar bin Sultan foi identificada, não só no ataque em Ghouta, mas também em outros ataques químicos semelhantes, sempre em ações de “rebeldes” salafistas financiados e armados pelos sauditas, tanto na Síria como no Iraque.

Com notícias cada vez mais frequentes vindas dos fronts da guerra civil, sobre ataques violentíssimos de autoria de radicais salafistas do grupo Jabhat al Nusra, de Takfiris, da al-Qaeda, do ISIL/ISIS (Islamic State in Iraq and the Levant/al-Sham (ISIL/ISIS), contra minorias alawitas, cristãs, curdas, druzas e xiitas na Síria, entre as quais notícias que mostravam grupos de milícias financiadas pelo ocidente devorando órgãos dos cadáveres de suas vítimas, até as potências ocidentais passaram a considerar mais prudente suspender o fornecimento de armamento aos “rebeldes”. O grande influxo de mercenários pró-rebeldes em direção à Síria, saídos da França, Grã-Bretanha, EUA, Canadá, Bélgica, Espanha, Suécia e Alemanha também alarmaram os países ocidentais. O medo, então, já era de que, se esses cidadãos europeus fossem vitoriosos no ataque contra a Síria, poderiam voltar suas atenções para a Europa e os EUA, em ataques semelhantes aos da al-Qaeda contra o ocidente, depois de os Talibã terem-se implantado como governo no Afeganistão.

Terroristas da Frente al-Nusra na Síria. Notar a bandeira da al-Qaeda à direita...
Elementos do Exército Sírio Livre pró-ocidente passaram a engajar-se em duros combates contra os salafistas financiados pela Arábia Saudita e contra forças da Fraternidade Muçulmana. Enquanto os “rebeldes” devoravam-se entre eles mesmos, as forças de Assad conseguiram retomar posições e o controle em grandes partes do território, exceto algumas áreas próximas da fronteira turca e alguns bolsões em torno de Damasco e outras cidades sírias.

O fracasso dos EUA, que não puderam atacar a Síria, combinado ao movimento de “aproximação” de Washington em direção ao Irã, e a abertura de conversações bilaterais entre os dois países também fizeram esfriar as relações entre Washington e a Arábia Saudita. O príncipe Bandar deixou de ser visto em Washington como parceiro confiável, sobretudo depois que propôs ao presidente Putin “impedir” ataques terroristas dos salafistas e da al-Qaeda contra os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em troca de a Rússia suspender o apoio a Assad. Moscou rejeitou a “proposta” de Bandar. 

Bandar bin Sultan e Vladimir Putin quando da visita do primeiro a Moscou
Dado que a posição de Assad em campo na Síria é muito mais forte hoje do que há um ano, o Conselho Nacional Sírio tem falado de não participar da Conferência Genebra-2. Para alguns membros do CNS, essas ameaças seriam meio para fazer aumentar a pressão ocidental a favor de Assad ser obrigado a deixar o governo. E, por sua vez, o ocidente tem rejeitado essa frente rejeicionista e instado que participem das conversações de Genebra-2. Mas o ocidente, por sua vez, não aceita a possibilidade de Assad permanecer ativo num governo de transição; e não quer que o Irã participe das conversações. 

Ban Ki-moon
Apesar disso, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, já convidou o Irã para a Conferência Genebra-2; e o Irã já aceitou. 

É perfeitamente claro que Assad, antes de Genebra-2, está em sua posição mais forte desde a eclosão da rebelião síria. Os “rebeldes”aceitaram um cessar-fogo em Aleppo e uma troca de prisioneiros com Damasco. Há um ano, os “rebeldes” teriam rejeitado, sem maiores considerações, esse tipo de acordo com o governo de Assad.

Na semana antes do início das conversações de 22 de janeiro, quem pilota o carro da chamada Conferência Genebra-2 é sem dúvida o presidente Assad. 

Diferente do que os EUA e outras potências ocidentais desejam, o presidente Assad continuará a ter papel dominante na vida política síria. Não por milagre, mas por sua capacidade para resistir e pelo total colapso da coalizão que se construiu contra ele.




[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al Jazeera, Strategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.