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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Iniciativa Moscou/Cairo ‒ Nova ação pró-paz na Síria e por que Obama quer matá-la

14-16/11/2014, [*] Shamus Cooke, Counterpunch
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Por que não há conversações sérias de paz para pôr fim à guerra na Síria? Depois de ter roubado a vida de mais de 130 mil pessoas e gerado mais de 9 milhões de refugiados expulsos de suas casas, a guerra na Síria infectou praticamente toda a região do Oriente Médio. Mas, mesmo assim, não há qualquer sinal, entre os EUA e seus aliados regionais, de discussão em torno de algum plano viável de paz; só se ouve conversa de guerra.

É difícil discutir projetos de paz, quando os EUA só fazem manobrar para obter mais guerra, já entregaram recentemente a rebeldes sírios mais de meio bilhão em armas e para custear treinamento militar, ao mesmo tempo em que negociaram um acordo com a Arábia Saudita para abrir novo campo de treinamento de rebeldes, além do que já funciona na Jordânia. Em vez de mobilizar para a paz a vasta influência que tem no Oriente Médio, Obama usou-a para promover mais e mais guerra.

O impressionante fracasso das conversações de paz sobre a Síria conduzidas pelos EUA em Genebra, foi resultado de movimento executado sem a seriedade exigida pela ação de liquidação de uma nação, como se vê na Síria. Obama serviu-se das conversações para promover “interesses dos EUA”, e excluiu propositalmente o Irã daquelas conversações, tentando alavancar poder desproporcional para os rebeldes do “Exército Sírio Livre” de Obama, que têm poder microscópico em campo e que usaram as conversações de paz exclusivamente para ali introduzir demandas descabidas, irrealistas e inaceitáveis.

Obama adotou posição passiva nas conversas de paz, deixando que gorassem, em vez de fazer valer propostas sérias, que expressassem a real situação em campo. Desde janeiro não há conversação alguma, e Genebra III não tem data para começar, com Obama ocupado exclusivamente com aumentar o poder de barganha dos rebeldes, via sempre mais guerra. Afinal, a lógica é a de armar cada vez mais e treinar o mais possível o maior número possível de rebeldes, os quais, adequadamente armados e treinados acabarão por controlar território suficiente para forçar o governo de Assad a barganhar em pés de igualdade.

O vácuo gigante no mercado da paz abriu oportunidades para que Rússia e Egito operem para introduzir-se, como já se sabe que estão fazendo, como novos líderes confiáveis na diplomacia do Oriente Médio, em parte para ampliar a própria influência, em parte para protegerem-se da conflagração do extremismo islâmico que o conflito está gerando.

Treinamento do ESL patrocinado pelos EUA 
Como Mint Press noticia, da história em andamento:

Moscou e Cairo preparam-se para uma conferência entre o regime sírio e a oposição, na esperança de aproximá-los para que constituam um governo de transição que ‘combata o terrorismo’  (...) Na agenda da conferência que acontecerá entre os dois lados, prevê-se o estabelecimento, de um governo sírio de transição, com amplos poderes, e que preservará a autoridade do presidente Bashar al-Assad da Síria sobre o exército e as forças de segurança.

Se essa proposta chegar a confirmar-se, será preciso reconhecer amplamente os méritos da iniciativa no cenário mundial e defende-la – porque o mais provável é que Obama faça todo o possível para sabotar a paz. Isso, porque os rebeldes de Obama em campo na Síria — frouxamente reunidos sob o rótulo do “Exército Sírio Livre” – não têm qualquer poder, o que o processo de paz liderado pela Rússia deixará bem visível. Além disso, a Rússia usará essa evidência para forçar um tratado de paz, o que deixará pouco espaço de influência para o governo Obama, no novo governo. Aí está um acordo de paz que Obama prefere ver bem morto.

Os rebeldes de Obama continuam a ser força muito débil, e o governo sírio continua a obter avanços militares substanciosos. Fato imensamente importante (embora absolutamente não noticiado no ocidente) é que já se assinou um acordo de paz na maior cidade da Síria, Aleppo, modelado conforme os termos do acordo de paz assinado em Homs, e pelo qual os rebeldes foram autorizados a retirar-se, depois de entregar as armas, o que devolveu ao governo do presidente Assad o governo de fato da cidade.

Robert Fisk
Interessante, o veterano jornalista Robert Fisk, especialista em Oriente Médio, questionou recentemente, não a importância do Exército Sírio Livre de Obama, mas a própria existência do tal exército. Como Fisk explica:

Que eu saiba, o Exército Sírio Livre anda bebendo café demais em Istambul. Nunca cruzei com eles – exceto nos primeiros meses da luta, jamais vi sequer prisioneiros do Exército Sírio Livre... Vocês entendem. O Exército Sírio Livre, aos olhos dos sírios, não tem existência real, não existe. Os sírios conheceram a al-Qaeda, Nusrah, vários outros grupos islamistas e agora, claro, também o ISIS ... Mas acho que não dão muita importância ao Exército Sírio Livre. Um oficial me disse que alguns “rebeldes” já estão sendo aceitos de volta no Exército Sírio, para poderem voltar para casa. Outros foram autorizados a voltar para casa, mas não poderão servir nunca mais no Exército Sírio. Na minha opinião, o Exército Sírio Livre não passa de mito. Acho que não existe, e os sírios também pensam como eu.

A análise de Fisk, sobre o Exército Sírio Livre mostra a perspectiva de muitos que há muito tempo dizem que o Exército Sírio Livre já foi totalmente absorvido nas milícias islamistas extremistas. Se ainda existir, o Exército Sírio Livre só sobrevive precariamente em bolsões irrelevantes. Mas Fisk suspeita que o Exército Sírio Livre não passe de mito, pura invenção do governo Obama, usado para justificar o prosseguimento da guerra na Síria.

À parte a fragilidade das forças de Obama em solo, há razões geopolíticas mais amplas pelas quais Obama rejeitará qualquer acordo de paz liderado por Rússia/Egito. Para começar, o governo Obama ainda recentemente, fez mais um gordo investimento na guerra, doando $500 bilhões aos rebeldes sírios e treinando milhares mais na Arábia Saudita, ações que, de fato, impossibilitaram qualquer reconciliação significativa com o Irã.

Obama optou por reforçar íntimas alianças com estados párias, Arábia Saudita e Israel, e esses dois querem a Síria destruída. Ao se re-comprometer com Arábia Saudita, Turquia e Israel, Obama, de fato, abandonou qualquer ideia de paz com Síria e Irã, porque esses aliados de Obama querem a destruição de Síria e Irã.

Egito (al-Sisi) e Rússia (Putin) querem paz na Síria... Mas os EUA querem guerra
Se Obama seguir o comando de Rússia e Egito no processo de paz, seus aliados o abandonarão, porque já investiram quantidades descomunais de dinheiro, armas e a própria sobrevida política, em esforço total para que seus governos e empresas ‘nacionais’ extraiam todo o lucro possível do fim do atual governo sírio.

Essa é a base do total impasse geopolítico que se vê no Oriente Médio.

Claro que as empresas norte-americanas gigantes que se beneficiam do domínio dos EUA sobre o Oriente Médio vivem hoje de pressionar Obama para que mantenha a guerra. O impasse já se tornou tão óbvio e destrutivo na Síria, que Rússia e Egito se autointrometeram como negociadores no processo de paz, movimento que ajudará a promover a alavancagem deles na região, ao mesmo tempo em que força os EUA para fora.

Independente de lutas pelo poder regional, se algum acordo racional de paz – negociado pela Rússia, pelo Egito ou por quem for – chegar a poder ser discutido, o mundo terá de exigir que todos procurem a paz, porque não se pode admitir que a catástrofe síria continue.


Obama e seus aliados regionais já se mostraram totalmente incompetentes e incapazes de produzir qualquer proposta exequível de paz – sempre mais interessados em manter a guerra. Obama tem aí mais uma chance para reconhecer o fracasso de sua guerra por procuração; para aceitar uma paz que já terá custado 100 mil vidas humanas. Ou continuará obcecadamente avante, expandindo a matança. Pôr fim à guerra na Síria é tão fácil quanto reconhecer fatos que aí estão à vista de todos. E redigir um tratado que manifeste os mesmos fatos.

[*] Shamus Cooke é trabalhador de Serviço Social, sindicalista e escritor ligado a Workers Action.


sábado, 26 de abril de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 11-18/4/2014

26/4/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Yezid Sayigh
É “perspectiva melancólica, com certeza”, escreve Yezid Sayigh, do Carnegie Middle East Centre. “Mas o momento em que Assad poderia ter sido derrotado por uma oposição inepta e por um movimento rebelde dividido, já passou”. O artigo de Sayigh é peça para ler com atenção. Embora reproduza a narrativa parcial da oposição, o que se vê claramente no tom melancólico, Sayigh mesmo assim é um dos mais conscientes analistas estratégicos da questão síria. Está na linha de frente do pensamento ocidental dominante sobre a Síria. Para muitos, hoje, o que mais surpreende na atual posição dele é a declaração, clara, de que “na verdade, todo o contexto de Genebra está morto”.

De fato, a iconoclastia de Sayigh vai além: ele também demole o mantra dominante segundo o qual, a Síria, sem Genebra, permaneceria condenada a ser inevitável “refém de um impasse militar infindável”. “Verdade é que, com o conflito entrando já no quarto ano, o impasse absolutamente já não parece infindável” – diz ele, refutando a fantasia do “impasse”. Observa que evidentemente os EUA não planejam aumentar substantivamente sua oposição militar; e que a Arábia Saudita está sendo contida, ao mesmo tempo, pela pouca disposição da Jordânia para facilitar a escalada militar através de seu território e, também, por Obama insistir em que o suprimento de armas seja limitado. “Quase três anos depois que o exército sírio interveio para conter o levante popular no país” – Sayigh escreve em outro artigo  – “o treinamento militar superior, a organização e o poder de fogo [do exército sírio] começaram a traduzir-se em vantagem decisiva. O regime avançou posições no norte e está em boa posição para frustrar o avanço dos rebeldes a partir do sul”.

John Brennan
Sayigh continua: “como John Brennan, diretor da CIA, disse em fala pública em março de 2014, “a Síria tem exército de verdade”, que é “uma grande força militar convencional, com tremendo poder de fogo”. “Beneficia-se significativamente, também, de aconselhamento de iranianos e russos, com novo treinamento para guerra em ambiente urbano, e da contribuição de força de combate não síria, sobretudo do Hezbollah libanês, de milícias xiitas iraquianas, da Guarda Revolucionária do Irã e de outros voluntários. E está fazendo mais do que manter posições”. E acrescenta: “Se a tendência atual se mantiver – e nada sugere que não se mantenha – nesse caso, o regime sírio [de Assad] estará em posição dominante, com efetivo controle sobre massa crítica do país, até o final de 2015, se não antes”.

A formulação de Brennan, não surpreendentemente, é seca e técnica. Mas, em essência, ambos, Sayigh e Brennan, estão dizendo que a Síria é o ponto crucial onde medem forças duas irreconciliáveis visões de futuro – não só do futuro da Síria, mas do futuro de todo o Oriente Médio.

De um lado, o mundo estreito, dogmático, intolerante dos jihadists e seus patrões; de outro lado, uma visão pluralista, mais ampla, não sectária, mais tolerante [de Assad, Khamenei, Nasrallah], para o Oriente Médio. O que Sayigh e Brennan, cada um à sua maneira, estão sinalizando, é que, nessa disputa de forças, essa segunda visão [de Assad, Kamenei, Nasrallah] está prevalecendo. Isso é imensamente significativo para a região como um todo; mas só depois de que se cristalize o resultado desse teste de força – não antes –, a política poderá voltar à cena.

Bashar al-Assad
A conclusão de Sayigh é que – por mais que os chamados “Amigos da Síria”, por hora, ainda clamem por solução internacional – também os agentes ocidentais já estão vendo que o “processo de Genebra” está esvaziado. O presidente Assad permanecerá no governo para comandar qualquer transição; e o mais melancólico é que talvez ainda se passem anos, antes de que possa emergir qualquer nova oposição legítima. Para Sayigh, o mais provável é que nenhuma nova oposição “se materialize, até que a oposição que há hoje e a rebelião armada tenham perdido completamente a batalha” (itálicos de CF).

Mas a expectativa de que se venha a criar um “espaço” político vazio, como resultado inevitável do fracasso do “processo” de Genebra, é, parece, excessivamente “polarizada”. A própria cristalização dessa disputa épica de forças gerará uma nova política. De fato, já começou a gerar, como comentamos adiante.

A “realidade” de Sayigh é uma, mas em vasta medida, visão externa – da diáspora no exílio & da maioria dos especialistas de think-tanks – e pode ser resumida como “nada de Genebra + nada de papel para a oposição no exílio = nada de solução”. Mas há outra “realidade” (à qual Sayigh não se refere, e que ele rotula pejorativamente como pacificação coerciva.

Essa outra história é história interna síria – e, essa, nada tem de melancólica.

O que hoje gera amplo interesse dentro da Síria é uma dinâmica de reconciliação –inclusive entre alguns elementos armados. Muitos sírios (incluídos muitos que não aderem à oposição externa, e, também, muitos dos que aderem a ela) deixaram de crer no “processo” de Genebra, depois de ouvir os discursos em Genebra-2. Não poucos sírios concluíram, do que ouviram lá e daqueles procedimentos, que o Ocidente não tem qualquer interesse numa solução política para o país; que o Ocidente só faz insistir que Assad “tem de sair”, e que todos os poderes executivos foram delegados à oposição de exilados da Coalizão Nacional Síria, inventada e cevada no Ocidente, e que tem ralo, ou nenhum, apoio dentro da Síria, em nenhum dos campos.

Essa outra realidade recebe pouca atenção da imprensa-empresa ocidental e, particularmente, dos think-tanks ocidentais, precisamente porque não considera nem o “processo” de Genebra, nem a Coalizão Nacional Síria. É realidade absolutamente contrária ao consenso que o Ocidente fixou, de alívio orquestrado internacionalmente para o conflito. Mas se Sayigh acerta ao dizer que alguns diplomatas ocidentais já viram que o “processo” de Genebra está morto, faltou dizer que devem também começar a ver que militarmente, politicamente e socialmente, a Síria caminha cada vez mais na direção de coisa diferente – uma nova dinâmica interna que, talvez, venha a exigir atenção mais séria no futuro.

O processo de reconciliação não foi lançado como uma política; aconteceu espontaneamente, e foi essencialmente um processo de baixo para cima que emergiu à medida que os sírios comuns descobriram uma via para “ação-agenciamento humano” – essencialmente em contexto local. Em resumo, surgiu quando as pessoas passaram por uma mudança de consciência: passaram a ver-se de outro modo, começaram a agir em defesa própria, em nome de si mesmos. Em vários sentidos, os comitês de reconciliação que agora existem e surgem em número sempre crescente de vilas e cidades, assemelham-se aos comitês populares que brotaram durante as Intifadas palestinas (e depois foram reprimidos pelos movimentos políticos palestinos).

Combatente do ESL passa por oficial do Exército sírio (17/2/2014)
Outro componente – talvez o mais evidente – foi o aspecto militar desse processo de reconciliação: cessar-fogos foram diretamente negociados entre grupos da oposição armada e o Exército Sírio; ou populações locais expulsaram os grupos insurgentes de suas vilas, bairros ou cidades; ou, simplesmente, os próprios moradores organizaram milícias para defender as próprias vilas – e pediram armas ao governo sírio.

O governo sírio respondeu a essas iniciativas e permitiu que ex-insurgentes conservassem suas armas (leves) – e preservassem o próprio status e a autoestima como combatentes. Ex-dissidentes, de fato, estão sendo absorvidos nos grupos locais, ajudando a defendê-los e participando do processo local de tomada de decisões. Nada disso aconteceu sem aguda controvérsia. Muita gente que sofreu ou teve parentes mortos, ainda guarda muito ressentimento e insiste em que os criminosos têm de ser processados, não recuperados. Mas a posição do governo é que a reconciliação tem de prosseguir – apesar da muita dor que cause a alguns.

O outro aspecto do que está ocorrendo é, precisamente, a redescoberta da ação-agenciamento humano. E é esse aspecto que tem imenso potencial político. Já se formaram comitês populares em muitas cidades e vilas. O Ministério da Reconciliação [1] supre esses comitês locais com fundos, mas eles também recebem doações de voluntários e colaboradores privados.

Embora mantidos com ajuda do Ministério da Reconciliação, esses comitês, que incluem funcionários locais, profissionais da educação, elementos das forças de segurança, sindicalistas, mulheres, ativistas e voluntários, tomam suas próprias decisões. Tentam encontrar professores voluntários para substituir professores ausentes nas escolas; organizam mutirões para reconstruir moradias; organizam abrigo e alimentação para famílias desabrigadas; dão apoio a mulheres atacadas ou violentadas; e reúnem comerciantes e empresários locais para repor em funcionamento pequenas fábricas em diferentes áreas. Como disse um analista, as pessoas já não esperam que as decisões venham de Damasco: fazem as coisas ali mesmo. E aí está o importante: sírios comuns estão redescobrindo as possibilidades da ação-agenciamento humano, mas de modo muito diferente – e em oposição – ao que fizeram os grupos armados radicais.

Combatentes do ESL caminham por bairro pacificado em Aleppo (17/2/2014)
O que temos aqui? Em certo sentido é mudança quase impalpável; é difícil de definir empiricamente, precisamente porque é iniciativa local; é condicionada por situações locais, e é iniciativa atomizada. Mas é o que se vê, muito frequentemente, em sociedades que conheceram conflitos e crises (a África do Sul, por exemplo): a própria sociedade reemerge psicologicamente transformada. A experiência do trauma existencial – individual ou coletivo – pode levar à ruptura psíquica, ou, alternativamente, a um fortalecimento, mesmo, até, a um endurecimento, e a uma atitude psíquica reenergizada.  

No caso da Síria, quem visite Damasco pode sentir que, apesar de os combates continuarem, provocados pelos insurgentes, com morteiros lançados sem alvo, diariamente, nos arrabaldes da cidade, as pessoas comuns mostram-se mais determinadas, mais resolutas e mais autossuficientes.

Como isso se manifestará politicamente, no plano nacional? Ainda é muito cedo para dizer, mas a experiência do Irã, no início de 2009, mostra que, ao sair de uma crise nacional, é possível unir-se nacionalmente para construir uma nova direção política (no Irã, nas eleições presidenciais do ano passado, houve mudança clara de direção, mas mudança que, como os eleitores desejavam que acontecesse, acomodou-se dentro do sistema vigente).

Por que acontece assim? Os sírios dizem que o que disparou a mudança que se vê hoje, com mudança de consciência, foi a súbita percepção (generalizada na população), de que o que acontecia na Síria nada tinha a ver com reformas, democracia ou participação popular no governo; que se tratava, exclusivamente, de derrubar uma sociedade síria que existia e prosperava, para substituí-la por outra, algo distante do modo de viver dos sírios, da história social, política e cultural dos sírios.

Por hora, o foco não está em detalhes políticos (por exemplo, emendar o Artigo 8º da Constituição) – isso virá à sua hora. As pessoas sentem-se envolvidas num conflito de vida ou morte, uma guerra. E, em guerra, todas as energias concentram-se em sobreviver, viver e vencer o combate de hoje. Política é coisa para depois.

Mesa de negociações de Genebra II
O senso de luta existencial foi reforçado recentemente, por várias coisas: pelo linguajar e ações emanados dos estados do Golfo; pelo linguajar de Genebra II; pelos padecimentos dos palestinos; e, com absoluta certeza, pelos recentes eventos na Ucrânia.

Um veterano especialista em Síria disse-nos que, há duas semanas, praticamente não se ouvem discussões na Síria sobre o próprio conflito sírio: que só se fala da Ucrânia. É evidente: a Síria e o Irã (tanto no plano das discussões entre os cidadãos, quanto no plano do governo) compreenderam imediatamente e plenamente a importância dos eventos que se desenrolam na Ucrânia. Os sírios comuns conseguem muito facilmente identificar o próprio sofrimento e o sofrimento dos ucranianos e “admiram Putin por levantar-se contra as maquinações ocidentais que se veem por lá” – como disse bem claramente um sírio.

Por hora, toda a política, na Síria, condensa-se numa única demanda: a volta da vida em segurança, e a normalização da vida diária. Por isso se vê ali – como também se vê no Irã – um reposicionamento em torno do sistema existente, enquanto, simultaneamente, se articula o desejo de viver sob uma nova política. As lideranças, na Síria e no Irã parecem também compreender com clareza esse movimento, razão pela qual se veem tantos esforços para fazer avançar os processos de diálogo nacional interno e de reconciliação.
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Nota dos tradutores 
[1] Não se encontra notícia alguma sobre esse Ministério da Reconciliação na Síria, na imprensa-empresa ocidental. Mas há notícia na mídia chinesa, por exemplo, 13/2/2013, Xinhuanet: Syrian minister confirms readiness for talks with opposition (notícia do ano passado, portanto).
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

sábado, 29 de março de 2014

Pepe Escobar: “EUA desesperados para isolar a Rússia em todos os fronts”

28/3/2014, [*] Pepe Escobar, Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Reunião do G7 na residência oficial do Primeiro Ministro holandês em Haia (24/3/2014) discutem as linhas de contorno do Nuclear Security Summit (NSS).- Foto: Jerry Lampen
O governo Obama não carregará prisioneiros em sua sanha para tentar “isolar” a Rússia em todos os fronts possíveis – até agora, sem resultados importantes.

Já listei algumas razões pelas quais a Ásia não isolará a Rússia. E também algumas razões pelas quais a União Europeia não pode isolar a Rússia. Mesmo assim, o governo Obama prossegue, incansável, e continua a atacar em três grandes fronts – o G-20, o Irã e a Síria.

Primeiro, o G-20. A ministra de Relações Exteriores da Austrália, Julie Bishop, lançou um balão de ensaio, especulando que a Rússia e o presidente Vladimir Putin poderiam ser barrados da reunião do G-20 em Brisbane, em novembro.

A reação dos outros quatro nações-membros BRICS foi imediata:

A custódia sobre o G-20 pertence a todos os estados-membros igualmente, e nenhum estado-membro pode determinar, unilateralmente, sua natureza e caráter.

Austrália, sempre subserviente aos EUA, teve de calar o bico. Por hora.

Presidentes dos países BRICS em Durban 2013
Os BRICS, não por acaso, são a aliança chave do mundo em desenvolvimento dentro do G-20, que atualmente está discutindo o que interessa nas relações internacionais. O G-7 – que “expulsou” a Rússia de sua próxima reunião em Sochi, já transferida para Bruxelas – não passa de balcão de conversas de autopromoção.

De sanção em sanção

Então, há o Irã. O vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Ryabkov deixou muito claro que se os EUA e fantoches selecionados insistirem em lançar sanções econômicas por causa do referendo da Crimeia,“nós tomaremos também medidas de retaliação”. E falava das negociações do P5+1 sobre o dossiê nuclear iraniano.

EmThree Reasons Why Russia Won't Wreck the Iran Nuclear Negotiations[Três razões pelas quais a Rússia não arruinará as negociações nucleares iranianas], 25/3/2014, Suzanne Maloney, Brookings], lê-se uma exposição bem acurada de o que o establishment norte-americano pensa sobre o papel da Rússia naquelas negociações.

É verdade que a revelação, em 2009, de uma instalação iraniana secreta, subterrânea, de enriquecimento de urânio não agradou a Moscou – a qual, em resposta, cancelou a venda do sistema S-300 de defesa aérea a Teerã.

Mas mais crucial é o fato de que Moscou quer que o dossiê nuclear iraniano permaneça sob o guarda-chuva do Conselho de Segurança da ONU – onde a Rússia pode exercer seu poder de veto; qualquer solução terá de ser multilateral, não engendrada por neoconservadores psicótico(a)s.

O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon (C) abre as chamadas negociações de paz de Genebra II ao lado do emissário da ONU-Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi (E) em 22 /1/2014 em Montreux. (Foto: Fabrice Coffrini)
Facções políticas conflitantes no Irã talvez ainda duvidem do comprometimento de Moscou a favor de alguma solução justa – considerando que Moscou não fez grande coisa para aliviar o terrível pacote de sanções. E, sim, Rússia e Irã são concorrentes, como exportadores de energia – e sanções que castiguem o Irã são presentes para a Rússia (50% menos petróleo iraniano foi exportado desde 2011, e o país não se qualifica como grande exportador de gás natural).

Mas se o frenesi das sanções dos EUA engolfar também a Rússia, haverá fogos no céu: Moscou acelerará a troca de mais de 500 mil barris/dia de cru iraniano em troca de a Rússia construir mais uma usina nuclear; haverá outros movimentos russos para detonar a parede de sanções ocidentais; e Moscou também pode decidir vender não só os sistemas de defesa S-300 mas os S-400 ou o futuro e ultra sofisticado sistema de defesa S-500, a Teerã.

É tempo de ataques forjados, sob bandeiras falsas

Vadim Lukov
Há, finalmente, a Síria. Mais uma vez, os BRICS estão na vanguarda. O embaixador russo Vadim Lukov acertou o olho do alvo, quando disse que:

Falando bem francamente, sem a posição dos BRICS, a Síria já estaria, há muito tempo, convertida em Líbia.

Os BRICS aprenderam a lição para o caso da Síria, quando permitiram, com as abstenções em votação na ONU, que se abrisse a via para o bombardeio humanitário da OTAN que destruiu a Líbia e converteu o país em estado arruinado. Subsequentemente, a diplomacia russa interveio, para salvar o governo Obama de bombardear a Síria por causa de uma estúpida, sem sentido, autoinfligida “linha vermelha” – com consequências potencialmente cataclísmicas.

Agora, o enredo novamente se adensa. O enviado da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi anda dizendo que o reinício das conversas de paz de Genebra-2 está “fora de questão” por enquanto. Em briefing ao Conselho de Segurança da ONU no início de março, Brahimi culpou o governo sírio pela interrupção.

É completo absurdo. As incontáveis facções de oposição na Síria, todas oportunistas, jamais quiseram, nunca, qualquer negociação; só queriam mudança de regime. Para nem falar da nuvem de jihadistas – as quais, até recentemente, vinham criando fatos em campo com armas fornecidas a todas elas pelos petrodólares do Golfo.

Agora, abundam os boatos de que o governo Obama estaria pronto para “isolar” a Rússia – e por extensão os BRICS – também no caso da Síria.

O governo Obama, servindo-se dos proverbiais ‘funcionários’ não identificados, anda distribuindo relatos de desinformação sobre ataques de jihadistas contra interesses ocidentais, partidos do norte e do nordeste da Síria. Pode ser o prelúdio para um perfeito ataque de “terceiros”, apresentado sob bandeira falsa, a ser usado como pretexto para “justificar” uma intervenção ocidental – atropelando, obviamente, a ONU. Os doidos pró-guerra nunca pararam de sonhar com a tal zona de exclusão aérea sobre a Síria.

Mercenários da al-Qaeda (Frente al-Nusra) em 4/2013, próximo de Aleppo, Síria.
Foto: Guillaume Briquet
Esse cenário articula-se claramente com o escândalo em curso no governo Erdogan na Turquia: o que todos vimos por YouTube é exatamente uma conversa no plano da segurança regional, sobre como um membro da OTAN, a Turquia, poderia forjar um ataque, sob bandeira falsa, e atribuí-lo à Síria.

A conclusão é que a OTAN está longe de ter desistido da “mudança de regime” na Síria. Há notáveis simetrias em tudo isso. Putsch na Ucrânia. Ataque forjado na Síria. Ataque da OTAN à Síria? Ataque russo no leste da Ucrânia. Pode não ser tão delirante quanto parece. Daí que... abriram-se as apostas.

Todo o Novo Grande Jogo na Eurásia está sendo de tal modo distorcido, que agora temos Obama, o especialista em Direito Constitucional, a legitimar a invasão e a ocupação do Iraque (“os EUA procuramos trabalhar dentro do sistema internacional, não reivindicamos nem anexamos território iraquiano”) e os doidos fazedores-de-guerra na Think-tankelândia norte-americana a pregar embargo de petróleo contra a Rússia, como para o Irã, com Washington a usar seus fantoches sauditas para completar o serviço.

Depois de dar aulas aos europeus, em Haia e Bruxelas, sobre os desígnios “maléficos” dos russos, e desfilar em Roma feito neo-Cesar, Obama encerra seu tour triunfal precisamente lá, em sua satrapia saudita. Temos de nos preparar para uma imunda caixa de docinhos que vem por aí.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.