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sábado, 29 de março de 2014

Pepe Escobar: “EUA desesperados para isolar a Rússia em todos os fronts”

28/3/2014, [*] Pepe Escobar, Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Reunião do G7 na residência oficial do Primeiro Ministro holandês em Haia (24/3/2014) discutem as linhas de contorno do Nuclear Security Summit (NSS).- Foto: Jerry Lampen
O governo Obama não carregará prisioneiros em sua sanha para tentar “isolar” a Rússia em todos os fronts possíveis – até agora, sem resultados importantes.

Já listei algumas razões pelas quais a Ásia não isolará a Rússia. E também algumas razões pelas quais a União Europeia não pode isolar a Rússia. Mesmo assim, o governo Obama prossegue, incansável, e continua a atacar em três grandes fronts – o G-20, o Irã e a Síria.

Primeiro, o G-20. A ministra de Relações Exteriores da Austrália, Julie Bishop, lançou um balão de ensaio, especulando que a Rússia e o presidente Vladimir Putin poderiam ser barrados da reunião do G-20 em Brisbane, em novembro.

A reação dos outros quatro nações-membros BRICS foi imediata:

A custódia sobre o G-20 pertence a todos os estados-membros igualmente, e nenhum estado-membro pode determinar, unilateralmente, sua natureza e caráter.

Austrália, sempre subserviente aos EUA, teve de calar o bico. Por hora.

Presidentes dos países BRICS em Durban 2013
Os BRICS, não por acaso, são a aliança chave do mundo em desenvolvimento dentro do G-20, que atualmente está discutindo o que interessa nas relações internacionais. O G-7 – que “expulsou” a Rússia de sua próxima reunião em Sochi, já transferida para Bruxelas – não passa de balcão de conversas de autopromoção.

De sanção em sanção

Então, há o Irã. O vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Ryabkov deixou muito claro que se os EUA e fantoches selecionados insistirem em lançar sanções econômicas por causa do referendo da Crimeia,“nós tomaremos também medidas de retaliação”. E falava das negociações do P5+1 sobre o dossiê nuclear iraniano.

EmThree Reasons Why Russia Won't Wreck the Iran Nuclear Negotiations[Três razões pelas quais a Rússia não arruinará as negociações nucleares iranianas], 25/3/2014, Suzanne Maloney, Brookings], lê-se uma exposição bem acurada de o que o establishment norte-americano pensa sobre o papel da Rússia naquelas negociações.

É verdade que a revelação, em 2009, de uma instalação iraniana secreta, subterrânea, de enriquecimento de urânio não agradou a Moscou – a qual, em resposta, cancelou a venda do sistema S-300 de defesa aérea a Teerã.

Mas mais crucial é o fato de que Moscou quer que o dossiê nuclear iraniano permaneça sob o guarda-chuva do Conselho de Segurança da ONU – onde a Rússia pode exercer seu poder de veto; qualquer solução terá de ser multilateral, não engendrada por neoconservadores psicótico(a)s.

O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon (C) abre as chamadas negociações de paz de Genebra II ao lado do emissário da ONU-Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi (E) em 22 /1/2014 em Montreux. (Foto: Fabrice Coffrini)
Facções políticas conflitantes no Irã talvez ainda duvidem do comprometimento de Moscou a favor de alguma solução justa – considerando que Moscou não fez grande coisa para aliviar o terrível pacote de sanções. E, sim, Rússia e Irã são concorrentes, como exportadores de energia – e sanções que castiguem o Irã são presentes para a Rússia (50% menos petróleo iraniano foi exportado desde 2011, e o país não se qualifica como grande exportador de gás natural).

Mas se o frenesi das sanções dos EUA engolfar também a Rússia, haverá fogos no céu: Moscou acelerará a troca de mais de 500 mil barris/dia de cru iraniano em troca de a Rússia construir mais uma usina nuclear; haverá outros movimentos russos para detonar a parede de sanções ocidentais; e Moscou também pode decidir vender não só os sistemas de defesa S-300 mas os S-400 ou o futuro e ultra sofisticado sistema de defesa S-500, a Teerã.

É tempo de ataques forjados, sob bandeiras falsas

Vadim Lukov
Há, finalmente, a Síria. Mais uma vez, os BRICS estão na vanguarda. O embaixador russo Vadim Lukov acertou o olho do alvo, quando disse que:

Falando bem francamente, sem a posição dos BRICS, a Síria já estaria, há muito tempo, convertida em Líbia.

Os BRICS aprenderam a lição para o caso da Síria, quando permitiram, com as abstenções em votação na ONU, que se abrisse a via para o bombardeio humanitário da OTAN que destruiu a Líbia e converteu o país em estado arruinado. Subsequentemente, a diplomacia russa interveio, para salvar o governo Obama de bombardear a Síria por causa de uma estúpida, sem sentido, autoinfligida “linha vermelha” – com consequências potencialmente cataclísmicas.

Agora, o enredo novamente se adensa. O enviado da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi anda dizendo que o reinício das conversas de paz de Genebra-2 está “fora de questão” por enquanto. Em briefing ao Conselho de Segurança da ONU no início de março, Brahimi culpou o governo sírio pela interrupção.

É completo absurdo. As incontáveis facções de oposição na Síria, todas oportunistas, jamais quiseram, nunca, qualquer negociação; só queriam mudança de regime. Para nem falar da nuvem de jihadistas – as quais, até recentemente, vinham criando fatos em campo com armas fornecidas a todas elas pelos petrodólares do Golfo.

Agora, abundam os boatos de que o governo Obama estaria pronto para “isolar” a Rússia – e por extensão os BRICS – também no caso da Síria.

O governo Obama, servindo-se dos proverbiais ‘funcionários’ não identificados, anda distribuindo relatos de desinformação sobre ataques de jihadistas contra interesses ocidentais, partidos do norte e do nordeste da Síria. Pode ser o prelúdio para um perfeito ataque de “terceiros”, apresentado sob bandeira falsa, a ser usado como pretexto para “justificar” uma intervenção ocidental – atropelando, obviamente, a ONU. Os doidos pró-guerra nunca pararam de sonhar com a tal zona de exclusão aérea sobre a Síria.

Mercenários da al-Qaeda (Frente al-Nusra) em 4/2013, próximo de Aleppo, Síria.
Foto: Guillaume Briquet
Esse cenário articula-se claramente com o escândalo em curso no governo Erdogan na Turquia: o que todos vimos por YouTube é exatamente uma conversa no plano da segurança regional, sobre como um membro da OTAN, a Turquia, poderia forjar um ataque, sob bandeira falsa, e atribuí-lo à Síria.

A conclusão é que a OTAN está longe de ter desistido da “mudança de regime” na Síria. Há notáveis simetrias em tudo isso. Putsch na Ucrânia. Ataque forjado na Síria. Ataque da OTAN à Síria? Ataque russo no leste da Ucrânia. Pode não ser tão delirante quanto parece. Daí que... abriram-se as apostas.

Todo o Novo Grande Jogo na Eurásia está sendo de tal modo distorcido, que agora temos Obama, o especialista em Direito Constitucional, a legitimar a invasão e a ocupação do Iraque (“os EUA procuramos trabalhar dentro do sistema internacional, não reivindicamos nem anexamos território iraquiano”) e os doidos fazedores-de-guerra na Think-tankelândia norte-americana a pregar embargo de petróleo contra a Rússia, como para o Irã, com Washington a usar seus fantoches sauditas para completar o serviço.

Depois de dar aulas aos europeus, em Haia e Bruxelas, sobre os desígnios “maléficos” dos russos, e desfilar em Roma feito neo-Cesar, Obama encerra seu tour triunfal precisamente lá, em sua satrapia saudita. Temos de nos preparar para uma imunda caixa de docinhos que vem por aí.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Goodbye Afeganistão, alô Mali!


6/11/2012, Blog 7our, Argélia
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido numa mesa de dominó na Vila Vudu: Mas pô... O William Waack e seus “especialistas” NÃO SABEM (nem) disso?!

Ev’rybody’s talkin’ ’bout
Bagism, Shagism, Dragism, Madism, Ragism, Tagism
This-ism, that-ism, ism ism ism
All we are saying is give peace a chance
All we are saying is give peace a chance
John Lennon – The Beatles


Que lições o Afeganistão oferece para o conflito no Mali?

Declaração do Ansar al-Dine
Há negociações em curso [novembro de 2012] em Ouagadougou e Argel com o grupo islamista Ansar al-Dine (AD), um dos grupos islamistas que ocupam o norte do Mali. Ainda não sabemos o que resultará dessas discussões, se haverá um processo de paz com as autoridades de Bamako, e se a comunidade internacional fará demandas moderadas e aceitáveis. Em sua primeira declaração nessa 3ª-feira (2/1/2013), o grupo Ansar al-Dine “rejeita todas as formas de extremismo e terrorismo e está comprometido com a luta contra o crime transnacional organizado”.

Vale observar que essas conversações foram recebidas com muitos comentários negativos e duros. Para começar, alguns veículos de imprensa já trabalham para aumentar a confusão.

Em recente documentário exibido pelo canal francês de televisão M6, os jihadistas do Movimento pela Unidade e pela Jihad na África Ocidental. MUJAO (que não tem nome no documentário) em Gao são mostrados como se fossem membros do movimento Ansar al-Dine.

Ansar al-Dine numa aldeia do Magreb (observe a bandeira símbolo do grupo)
E – dito com clareza – qualquer conversação que inclua o movimento AD irrita muitos círculos. Exemplo dentre outros, um artigo do Figaro apresentava uma das primeiras conversações secretas em Argel, entre um oficial militar do Mali e delegados do grupo AD com membros do Movimento Nacional para Libertação do Azawad (MNLA) e líderes tribais, como negociações diretas, que já estariam em andamento, entre “autoridades da Argélia e islamistas do norte do Mali”.

Quem são os líderes do movimento Ansar al-Dine (em Jeune Afrique)? 

Iyad Ag Ghali
São, quase todos da tribo tuaregue dos Ifoghas. Iyad Ag Ghali e Ahmada Ag Bibi foram rebeldes nos anos 1990. Alghabass Ag Intallah foi membro da Assembleia Nacional do Mali e é provável sucessor de seu pai como chefe dos Ifoghas.

Assim sendo, cuidado com comentários impensados que “exijam” que os insurgentes tuaregues islâmicos sejam arrancados de seu próprio território.

Quem leia ou ouça os apoiadores de intervenção militar ou de guerra no Mali, perceberá forte tendência a sobrevalorizar as possibilidades de sucesso de qualquer solução militar. Segundo eles, não haveria diferença alguma entre os jihadistas estrangeiros e os islâmicos locais, e o único alvo de qualquer futuro ataque deve ser o grupo AD. Os que assim pensam não veem o quadro geral em campo.

Por que uma intervenção militar estrangeira teria de neutralizar os tuaregues islâmicos insurgentes? Esses combatentes ameaçam algum “interesse” estrangeiro no Mali? O grupo Ansar al-Dine jamais fez reféns, nem planejou ou executou qualquer ataque em território estrangeiro e tem agenda exclusivamente local. Sim, eles têm crenças fundamentalistas, mas não têm agenda jihadista internacional.

Essa é a avaliação, inclusive, do novo emir da Al-Qaeda no Maghreb Islâmico no Sahara. Perguntado sobre suas relações com o grupo AD, Yahya Abu El Hamam, disse em entrevista (em árabe):  

Yahya Abu El Hamam
Ansar al-Dine é um grupo islamista local que trabalha para implantar a religião de Alá e escolheu a Jihad em nome de Alá para fazê-lo. Embora nós discordemos desse grupo por sua visão limitada à dimensão local, partilhamos com eles vários outros traços, dentre os quais a fraternidade islâmica e tudo que essa fraternidade implica em termos de cooperação para fazer o bem e cumprir os deveres religiosos, apoiar os oprimidos, lutar por justiça para os oprimidos, defender a honra dos muçulmanos e lutar pela restituição dos direitos a seus legítimos beneficiários. Essa é a pauta que serve de base a todas as nossas conversações e contatos com todos os grupos islâmicos.

Gostem ou não gostem deles, o movimento Ansar al-Dine já era ator da cena política no norte do Mali, muito antes de as muitas manchetes sobre “Mali, o novo Afeganistão” começarem a brotar como cogumelos na imprensa dominante em todo o mundo.

É boa hora para lembrar o que houve no Afeganistão e ouvir o que disse, em 2008, o ex-enviado especial da ONU ao Afeganistão, Lakhdar Brahimi – que negociou a formação de um governo afegão de transição depois da queda do governo dos Talibã em 2001.

Em 2008, Bhahimi confessou, em artigo intitulado Uma nova estratégia para o Afeganistão, publicado no Washington Post:

Lakhdar Brahimi
Há sete anos, os Talibã foram desalojados e desapareceram de Cabul e outras grandes cidades, mas jamais se renderam a quem quer que fosse. Sempre foi evidente que suas intenções e capacidades teriam grande peso no futuro do país. A ONU apresentou então duas sugestões, no início de 2002: buscar os membros dos Talibãs que tivessem interesse potencial em participar do processo político; e implantar unidades da International Security Assistance Force (ISAF) fora de Cabul, com capacidade militar significativamente ampliada. As duas sugestões caíram em ouvidos surdos. Lamento amargamente não ter insistido mais nessas duas propostas junto aos mais altos níveis de poder. Tivessem sido seguidas, essas sugestões poderiam ter mudado o curso dos eventos no Afeganistão.

11 anos depois de iniciada a operação “Liberdade Duradoura”, o Afeganistão ainda está longe de ser país em paz e estabilizado. Sim, mas os Talibãs já foram convidados, aceitaram o convite e já chegaram à mesa de negociações com os EUA (Huffington Post, 24/4/2012, em: Taliban Peace Talks: U.S. Eyes Options To Restart Negotiations. (...)

ATUALIZAÇÕES: 7/11/2012

Sanda Ould Bouamama
1. No postado acima, não falei de outros elementos que também compõe, além dos tuaregues, o movimento Ansar al-Dine. Por exemplo, o grupo de Timbuktu, sobre o qual fala o “porta-voz do AD”, Sanda Ould Bouamama.
Na minha visão da crise no Mali, há pelo menos dois grupos AD: um tem base em Kidal, em torno de líderes tuaregues islamistas; o outro tem base em Timbuktu e tem composição mista. Mas a diferença crucial entre eles é a atitude em relação a negociações. O grupo AD-Kidal participa no processo político e parece disposto a negociar concessões. No extremo oposto do espectro islamista, o grupo AD-Timbuktu tem posição radical e tensa a favor da rígida aplicação de uma visão feroz da Xaria. Não surpreendentemente, muitos líderes da AD-Timbuktu são ex-membros da Al-Qaeda no Magheb Islâmico, AQIM. Seria interessante saber como receberam as declarações do AD-Kidal em Ouagadougou.

2. Sim, alguns chefes do grupo AD-Kidal estiveram envolvidos como intermediários no negócio de reféns. Devem os únicos condenados por isso? Antes de mais nada é atuação menos condenável que a de oficiais do exército do Mali do governo/presidência anterior no mesmo negócio de reféns; em atividades de lavagem de dinheiro; e no contrabando de drogas. E quanto às negociações com reféns, há outros intermediários, entre os quais um coronel francês, JMG, o negociador da Air France e intermediários da Areva... Tem-se de admitir que o grupo AD-Kidal não é o único envolvido nesse negócio.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A proposta do Irã ao ocidente, sobre a Síria

12/8/2012, MK Bhadrakumar*, Rediff Blogs, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O artigo publicado essa semana no Washington Post e assinado pelo ministro das Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi foi claramente dirigido às potências ocidentais. Os processos de pensamento são complexos, mas diretos – um mix de advertências e aberturas.

Lakhdar Brahimi
O timing da coluna no WaPo merece atenção: a missão de Kofi Annan gorou e Lakhdar Brahimi está saindo das sombras. Brahimi é o especialista em conflitos que envolvam forças islamistas — logo vêm à cabeça o Líbano, o Afeganistão – preferido do ocidente. Tem currículo consistente na arte de criar a ilusão de que haja negociações em curso onde nenhuma negociação exista, e a real discussão prossiga, inalterada, no campo de batalha. Kofi é independente demais; Brahimi obedece, em tempo integral. No momento, o ocidente quer muitíssimo Brahimi.

Em segundo lugar, a luta na Síria está trocando de marcha. A guerra civil começa a pleno vapor. O suprimento de mísseis Stinger, da Turquia para os rebeldes sírios, está pensado para mudar completamente o jogo. Contra esse pano de fundo, a visita que a Secretária de Estado Hillary Clinton dos EUA fez nesse fim de semana a Istambul também é altamente simbólica. Foi pensada para inflar a moral murcha da liderança turca. Isso dito, Teerã avalia que também pode ser inspirador avançar sobre o ocidente – Washington incluída – com vistas aos movimentos futuros. No momento, Teerã já se habituou à retórica de Clinton, nuvem para encobrir a angústia.

Kofi Annan
Em terceiro lugar, Rússia e China recolheram-se às coxias e estão cuidando, cada uma, da própria vida rotineira. Assim, a arena da paz ficou deserta. Todos os spots estão acesos, mas o palco está vazio. Então o Irã avança, com uma abertura letalmente atraente e super excitante.

É difícil dar simplesmente as costas à oferta iraniana, embora seja também oferta intrigante de aproximação a uma porta que, sabe-se lá, talvez abra diretamente para o jardim florido. Claro: é oferta que não serve aos EUA – e, provavelmente, Salehi também sabe disso. Mas ninguém perde nada por tentar.

Salehi alerta que o Irã não permitirá que EUA e Turquia marchem sobre a Síria como se marchassem sobre grama fofa. A guerra civil será sangrenta, dura e longa e é possível que faça os 15 anos de conflitos no Líbano parecerem piquenique. (Por falar nisso, dos cacos do Líbano brotou o Hezbollah.) Obviamente, a aposta é alta, para o Irã, porque vive na mesma região, e o Irã defenderá seus interesses essenciais absolutamente a qualquer custo. Mas o ocidente ou a Turquia suportarão uma guerra longa na Síria?

Salehi destaca que usar o islamismo como instrumento de política tampouco funcionará. Por quê? Porque o aliado natural dessas forças históricas é o Irã, não os EUA e a Turquia. É o mesmo que dizer que, no longo prazo, só o Irã pode vencer na Síria (ou no Egito), com ou sem mudança de regime. Além do mais, o Afeganistão também é prova de que a volta do chicote no lombo do chicoteador é inevitável, se o mundo cristão tenta manipular forças islâmicas.

Contudo, o Irã está interessado em cooperar com o ocidente, dado que seus interesses repousam, primariamente, na estabilidade regional e em campo de jogo limpo e aplainado. Assim sendo, o Irã deseja jogar o mesmo jogo que jogou quando auxiliou a invasão dos EUA ao Afeganistão para derrubar o regime dos Talibã e quando se mostrou tão extraordinariamente comedido no Iraque (onde o Irã, se quisesse, poderia ter tornado as coisas muito mais sanguinolentas para os EUA).

A grande questão é a natureza da “cooperação” que Teerã tem em mente. Salehi deixa bem claro que o Irã considera inaceitável que Bashar seja derrubado da noite para o dia. É indispensável que haja alguma transparência e clareza no processo, antes de Bashar deixar o governo. Bashar, afinal, também é parte da nação síria e tem também seus direitos.

Assim sendo, Salehi tenta o ocidente com uma proposta: a comunidade internacional deve conseguir que Bashar candidate-se e concorra a uma eleição à presidência da Síria, eleição livre e justa, sob supervisão internacional. Afinal, só a nação síria tem direito e competência para rejeitá-lo.

Bashar al-Assad
Agora... A proposta de Salehi será aceita em Washington ou Ankara (Istambul), Riad ou Doha? A resposta é rotundo “não”. O espectro que assombra o ocidente é que, em eleições livres e justas, é perfeitamente possível que os sírios escolham Bashar como âncora de estabilidade para seu país. Sem dúvida, sim, o fator NHA (“Não Há Alternativa” a Bashar) tem seu peso, se se espera que a frágil sociedade multicultural síria não rache em pedaços.

Para piorar, eleição livre e justa na Síria (depois da que houve no Egito, com resultado diferente do previsto) sempre será anátema para os xeiques árabes do Golfo. É ideia perigosa, essa de o chefe de estado ser eleito. Se a perniciosa ideia funciona para a Síria, o povo saudita bem pode começar a pensar que também merece a mesma prerrogativa, afinal, já na segunda década do século 21. E muito obviamente, tampouco os EUA quererão libertar o gênio da garrafa democrática. Salehi jogou uma bela cartada. Abaixo, podem lê-lo, de viva voz, no artigo publicado no Washington Post.

Assumir a liderança, na solução para a Síria

 

Ali Akbar Salehi

8/8/2012, Ali Akbar Salehi, Washington Post

Taking the lead on Syria(traduzido)


Os humanos frequentemente erramos quando não aprendemos com a história, mesmo a história recente. Guerra civil no Levante não é coisa do passado remoto. Com a Síria mergulhando em violência sempre crescente, os 15 anos de guerra civil no Líbano deveriam servir como assustadora lição sobre o que acontece quando se rompe a tessitura de uma sociedade.

Quando o Despertar Islâmico – também chamado Primavera Árabe – começou em dezembro de 2010, todos vimos as multidões em levante, clamando por seus direitos. Todos testemunhamos a emergência de movimentos civis que exigiam liberdade, democracia, dignidade e autodeterminação.

Em Teerã, acompanhamos deslumbrados e felizes aqueles desenvolvimentos. Afinal, um movimento de cidadãos a exigir as mesmas coisas que muitos árabes desejam hoje foi o que levou à emergência de nossa República Islâmica, em 1979. Ao longo das últimas três décadas, o Irã afirmou e reafirmou consistentemente que é dever de todos os governos respeitar os desejos e clamores do próprio povo. Mantivemos essa posição enquanto se desenrolava o Despertar Islâmico, sem mudanças enviesadas que variassem conforme a localização do movimento civil. Sempre estivemos a favor da mudança para atender aos clamores populares, fosse na Síria, no Egito, ou em qualquer outro ponto.

Mas o que querem para a Síria outros membros da comunidade internacional? Infelizmente, tem havido respostas conflitantes aos movimentos civis que varrem o mundo árabe. Exemplos gritantes dessas contradições veem-se no Bahrain e no modo como alguns países responderam à brutalidade da repressão contra a população naquele país.

A resposta europeia à crise na Síria tem sido particularmente contraditória. Pouco, praticamente nada, se diz sobre a presença de número sempre crescente de extremistas armados na Síria. Apesar de sempre preocupados com o crescimento do extremismo no Afeganistão, a milhares de quilômetros de distância, os líderes europeus não dão sinal de preocupação ante o fato de que, muito rapidamente, poderão ter um Afeganistão bem ali, à porta de casa.

Tomando emprestadas palavras de meu respeitado amigo Kofi Annan, que há poucos dias renunciou ao posto de enviado especial da ONU para o conflito sírio [1], depois de ver seus esforços para construir a paz serem repetidamente boicotados, meus militares sozinhos não conseguirão por fim à crise, e qualquer agenda política que não seja nem inclusiva nem compreensiva também falhará.

O Irã busca uma solução que interesse a todos. A sociedade síria é um belo mosaico de etnias, fés e culturas, e será reduzida a cacos, se o presidente Bashar al-Assad for deposto por meio violento. A ideia de que, depois da remoção violenta do presidente sírio, seja possível algum tipo de transição ordeira não passa de ilusão.

Embora os esforços de Annan para por fim a crise estejam encerrados, seu plano de seis pontos para mudança política mantém-se vivo e forte. Por que continuar a semear a discórdia, quando a situação pode ser resolvida racionalmente, com sabedoria e prudência? Os que apoiam a violência na Síria não veem que jamais conseguirão o que querem, pelos meios que usam.

Mudança política abrupta sem um mapa do caminho para uma transição política administrada só levará a situação cada dia mais precária que desestabilizará uma das regiões mais sensíveis do mundo. O Irã é parte da solução, não do problema. Como o mundo testemunhou durante a última década, atuamos como força de estabilização no Iraque e no Afeganistão, dois outros países muçulmanos jogados hoje em torvelinho. A estabilidade de nossa região é essencial para a paz e a tranquilidade mundiais.

Algumas potências mundiais e certos estados na região têm de parar de usar a Síria como campo de batalha para definir disputas por influência. A única saída para o impasse é oferecer aos sírios uma chance de encontrarem, eles mesmos, a saída.

Tomando em consideração o plano de seis pontos de Annan, o Irã espera conseguir reunir países que pensem da mesma forma para implementar três pontos essenciais: obter imediato cessar-fogo, para por fim à matança; enviar ajuda humanitária ao povo sírio; e preparar o terreno para um diálogo que resolva a crise.

Anuncio aqui a disposição do Irã para receber, como anfitrião, uma reunião de países comprometidos a implementar imediatamente esses passos, com vistas a por fim à violência. Como parte de nosso compromisso com resolver a crise, reitero nossa disposição para facilitar conversações entre o governo sírio e a oposição e para realizar no Irã, esse diálogo.

Além disso, alinhado com o plano de seis pontos de Annan, declaro mais uma vez o apoio do Irã a um processo de reforma política na Síria, que permita que o povo sírio decida sobre o próprio destino. Aí se inclui assegurar que os sírios têm pleno direito de votar em eleições livres e justas, a serem organizadas, sob supervisão internacional.

Com o mês sagrado do Ramadan aproximando-se do fim, rezo para que os sírios possam quebrar seu jejum em paz e estabilidade, o mais rapidamente possível – em nome dos interesses dos sírios e de todo o mundo.



Nota de rodapé:


MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.