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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Irã desdenha das novas sanções norte-americanas

1/8/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Câmara dos Representantes (Deputados) dos EUA
A Lei Iraniana de Prevenção Nuclear [orig. Nuclear Iran Prevention Act] foi aprovada na Câmara de Representantes dos EUA, hoje, 5ª-feira, por 400 votos a favor e dois contra: manifestação impressionante do controle que o lobby israelense exerce sobre os políticos eleitos nos EUA. Mas nem por isso a lei conseguirá interromper e fazer retroceder o processo de os EUA “engajarem” o Irã.

A questão desdobra-se em duas partes. Por um lado, que impacto esse movimento bizarro dos deputados e senadores norte-americanos teria sobre a atitude dos iranianos? Até aqui, o Irã não deu sinais de ter-se deixado impressionar.

Por outro lado, os iranianos manter-se-ão distantes da mesa de negociações? É claro que não! A história mostra que nenhuma sanção ou conjunto de sanções jamais conseguiu subjugar o Irã, forçando-o a obedecer ao que dissessem os EUA. No pé em que estão as coisas, as declarações dos iranianos são muito realistas, sobre as limitações do governo Obama. 

Teerã sabe que há grupos de interesses entrincheirados nos EUA que não querem nenhum tipo de acordo; e que os israelenses contam com as tensões geradas em torno do Irã, para desviar as atenções da grande questão chave de todo o Oriente Médio: a questão palestina. 

Al Akbar Salehi (E) e William Hague (D) -Imagem de arquivo (23/6/2012)
Mas mais interessante é o telefonema  que o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi recebeu do secretário britânico de Relações Exteriores William Hague. O mais provável é que Hague tenha agido para manter as coisas no pé em que estavam, sem alterações dramáticas. Os britânicos sempre operam em comum acordo com os EUA nessas situações delicadas.  

Lei Iraniana de Prevenção Nuclear mostra os políticos norte-americanos sob luz bem pouco lisonjeira. Paul Pillar escreveu postado devastador sobre o comportamento acovardado daqueles políticos eleitos. Claro que não chega a acusar diretamente Israel, mas deixa bem claro que os deputados e senadores votaram sob violenta coerção. 




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Khamenei joga duro com Obama


E o Irã vai cozinhando a “única” potência...

8/2/2013, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Irã cozinhando...
Foi semana excepcional para a política do Oriente Médio e acabou, adequadamente, com um choque de realidade: que as imaginações não saiam de curso.

Bashar al-Assad
Três grandes acontecimentos, numa semana, têm de ser alinhados e considerados como inevitável confluência de desenvolvimentos e processos: a oposição síria ofereceu diálogo bilateral ao regime de Bashar al-Assad; o presidente do Irã fez visita histórica ao Egito; e os EUA ofereceram conversações diretas ao Irã – que o Irã aceitou prontamente.

Não há dúvida de que são eventos interconectados. Primeiro, o caleidoscópio sírio está mudando de configuração muito dramaticamente, embora continue o banho de sangue. A menos que os países europeus levantem o embargo de armas que impuseram à Síria (o qual, seja como for, expirará dia 1º de março) e decida armar os rebeldes, o impasse continuará.

O humor nas capitais ocidentais mudou, na direção de mais cautela e circunspecção, ante o fantasma de grupos afiliados à al-Qaeda que se estão beneficiando do caos reinante. Se mais não fosse, bastaria o furacão de islamistas militantes armados que varre o Mali, para aumentar as preocupações e a relutância.

Ahmed Moaz al-Khatib
O que levou o líder islamista da Coalizão Nacional Síria, Moaz al-Khatib, semana passada, a manifestar disposição para construir conversações diretas com representantes do regime sírio – e empurrou-o ao encontro dos Ministros de Relações Exteriores de Rússia e Irã – foi tanto a confusão reinante dentro da oposição síria e o fracasso na tentativa de formar algo semelhante a um verossímil “governo-no-exílio”, quanto a aguda certeza de que o humor ocidental já dá sinais de extrema cautela em relação à Síria.

Não há dúvidas de que o Irã, já há alguns meses, desempenha papel crucial na dura batalha de nervos em torno da Síria. Curiosamente, é o Irã quem, hoje, está “do lado certo da história”, ao clamar por diálogo e negociações urgentes e por eleições democráticas, como chaves indispensáveis para reformar e promover mudanças na Síria – e, também, no que tenha a ver com isso, no Bahrain.

A mudança que se vê na Síria realmente deu instrumentos ao Irã para derrubar as barreiras entre sunitas e xiitas, que tão tenazmente foram criadas e impostas para isolar o Irã. Por isso, a visita histórica do Presidente Mahmud Ahmedinejad ao Egito, essa semana, tem dimensão muito mais ampla em termos regionais para o Irã, que apenas a restauração de relações bilaterais entre Irã e Egito. O encontro trilateral que houve entre Ahmedinejad e os presidentes do Egito e da Turquia, Mohamed Mursi e Abdullah Gul mostra muito mais sobejamente a crescente relevância do Irã como interlocutor, que qualquer inimizade implacável que houvesse entre o Irã xiita e os dois grandes países sunitas.

Mohamed Mursi
Interessante o que acrescentou Mursi:

A revolução egípcia passa agora por condições similares às da Revolução Iraniana. Dado que o Egito não tem condições de progresso rápido, como o Irã teve, acreditamos que expandir os laços e a cooperação entre Egito e Irã é movimento crucialmente importante e necessário.

Desnecessário dizer que a diplomacia iraniana jogou magistralmente em tudo que teve a ver até agora com o regime da Fraternidade Muçulmana no Cairo: nem bajulou nem diminuiu, empurrou ou pressionou: apenas deixou que os Irmãos definissem o ritmo dos eventos. Fator básico nessa abordagem é a confiança, em Teerã, de que a avançada do islamismo no Oriente Médio por vias democráticas, sem especial preocupação com algum “islamismo sunita”, operará sempre, e ao final das contas, a favor dos interesses do Irã.

Ahmed al-Tayyeb
A recepção cordial que Sheikh Ahmed al-Tayyeb, líder da mesquita egícia Al-Azhar do Egito, ofereceu a Ahmedinejad e a alta probabilidade de que visite Teerã em futuro bem próximo manifestam muito claramente o desejo comum de estreitar laços e afinidades.

Dito em termos simples, a crise síria vai aos poucos saindo do espaço das questões difíceis entre Irã e Egito. É verdade que a Coalizão Nacional Síria (CNS), que tem base na Turquia, continua a rejeitar qualquer negociação com o regime sírio, e a Fraternidade Muçulmana controla a CNS. Mas aí pode estar também uma janela de oportunidades para que Turquia, Egito e Irã forcem-se mutuamente a melhor afinação.

De fato, a CNS não tem qualquer influência real sobre os rebeldes em luta; e Ancara irrita-se cada dia mais com o rumo geral da crise síria.

Foi afinal nesse contexto complexo, que o vice-presidente Joe Biden dos EUA disse em Munique, no último fim de semana, que Washington está pronta para iniciar conversações diretas com o Irã sobre o programa iraniano de energia nuclear. A resposta imediata do Irã foi otimista cautelosa. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi disse que:

Ali Akbar Salehi
Estou otimista. Sinto que o novo governo dos EUA, dessa vez, tenta, pelo menos, afastar-se do modo como vinha tratando o meu país.

Mas já no dia seguinte, começou a modular o entusiasmo:

Vemos positivamente esse movimento. Parece-me uma boa abertura... Mas temos de esperar um pouco mais, para ver se, dessa vez, o gesto deles é gesto real... E tomaremos nossas decisões de acordo com a real configuração.

Adiante, Salehi explicou que:

A análise do passado mostra que sempre que mantivemos conversações com os norte-americanos, inclusive com esforços para estabilizar o Afeganistão, o outro lado, infelizmente, jamais cumpriu plenamente as obrigações que assumiu. Não se negocia em tom de ameaça, dizendo que todas as opções estão sobre a mesa [porque] vê-s aí, bem aparente, uma contradição (...) Pressionar e convidar para conversar são atitudes incompatíveis. Se as intenções se comprovarem honestas, podemos, sim, incluir negociações sérias em nossa agenda.

Obviamente, Salehi falou por duas bocas; a retração final é a “autêntica” voz de Teerã.

Aiatolá Ali Khamenei
Na 5ª-feira, quando o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei afinal quebrou seu silêncio, rejeitou a possibilidade de conversações diretas com os EUA. Disse ele:

Vocês [norte-americanos] apontam a pistola contra o Irã e dizem que é “ou negociação ou bala”. A nação iraniana não se deixará intimidar por essas ameaças (...) Alguns ingênuos gostam da ideia de negociar com os EUA, [mas] nenhuma negociação resolverá os problemas. Quem tente estabelecer novamente o poder da América no Irã, verá que a nação se erguerá contra eles.

Um modo de interpretar a dura declaração de Khamenei na 5ª-feira é pô-la no contexto do anúncio de novas sanções contra o Irã, anunciadas na véspera, em Washington, as quais foram explicadas pelo governo dos EUA como “mais um aperto significativo no parafuso” que “aumentará significativamente a pressão econômica contra o Irã”.

Mahmud Ahmadinejad
Mas nem assim se explica o manifesto endurecimento e a total rejeição que se vê nas palavras de Khamenei. Três outros fatores têm de ser considerados. Primeiro, a política doméstica está esquentando no Irã; a dramática irrupção pública de discordância e desarmonia entre Ahmedinejad e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, semana passada, é prova de que há tempos difíceis à frente, quando Khamenei, como o grande timoneiro, estará mergulhado em problemas.

Verdade é que terá muito a joquear, à medida que se aproximarem as eleições presidenciais marcadas para maio. Khamenei pode bem entender que conversações com os EUA serão mais oportunas depois das eleições. (Diga-se de passagem, essa pode ser também a preferência de Obama).

Em segundo lugar, Khamenei disse, nas entrelinhas, que Teerã espera algum sério gesto de boa vontade, dos EUA, antes de iniciar quaisquer conversações. Lembrou que os EUA já várias vezes no passado não agiram de boa fé – como quando o Irã ajudou os EUA a derrubar o regime dos Talibã no Afeganistão.

Ali Larijani
Um terceiro fator é que Khamenei vê, profunda e genuinamente, que o Irã está, sim, “do lado certo da história”, no que tenha a ver com os levantes regionais no Oriente Médio; ao mesmo tempo em que as estratégias regionais dos EUA mostram-se cada dia mais sem rumo e sem sentido.

Em resumo, por mais que a propaganda norte-americana repita que as sanções “mordem fundo na carne do Irã” e que o regime no Irã estaria sitiado, o que se tem é uma bizarra situação, na qual só Washington acredita na própria propaganda, por mais que as realidades em campo sejam amplamente diferentes do que diga a propaganda.

Por mais que a propaganda nos faça crer que o regime em Teerã viva temeroso de que irrompa em Teerã um levante como o da Praça Tahrir, as palavras de Khamenei não mostram qualquer vestígio de medo ou timidez. Simultaneamente, Khamenei avalia atentamente a capacidade (ou a falta de capacidade) de Obama para controlar os cães do lobby israelense e iniciar processo genuíno de normalização das relações com o Irã.

Barack Obama e o tamanho do "pepino"
Quando Richard Nixon trabalhou com a China, no início dos anos 1970s, beneficiou-se de um amplo consenso favorável de opiniões dentro do establishment político nos EUA. Ao contrário, no que tenha a ver com o Irã, o pensamento e os discursos de muitos norte-americanos influentes ainda são regidos por orgulho e preconceito.

A mensagem de Khamenei a Obama é que trabalhe com seriedade e decida com clareza o que deseja, em vez de mandar recado por Biden, sem qualquer elo de conexão e sem se comprometer a coisa alguma.

Khamenei já enfrentou vários presidentes dos EUA ao longo de 22 anos; dessa vez, apenas devolveu a bola para a quadra adversária. Agora, Khamenei esperará a próxima jogada de Obama, que visitará Israel, mês que vem. 
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistãoe Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e o Blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Egito-Irã: eixo ou barganha?


31/8/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dentre as velhas platitudes de sempre nesses eventos, um “ponto de ação” a destacar na 16ª Conferência do Movimento dos Não Alinhados [Nota A] em Teerã, que termina hoje no final do dia, é a iniciativa sobre a Síria. Ainda não se conhecem os detalhes, mas o conteúdo pouco importa, porque, venha o que vier, será furiosamente contestado e talvez dê em nada. Só as grandes potências moem o que queiram ver moído, e na própria mó.

Mas aqui o que interessa é a forma. O ministro de Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi apresentou [1] a entusiasmante ideia [NotaB] de constituir-se um grupo dentro do Movimento dos Não Alinhados para buscar um acordo que ponha fim à crise na Síria. O grupo reúne os países que ocuparam a presidência do Movimento dos Não Alinhados, passado, presente e futuro – Egito, Irã e Venezuela – mais o Líbano e o Iraque.

Muito evidentemente, aí está um desses raros momentos em que se pode ver, ainda em formação, um novo “centro de gravidade” na geopolítica da região do Oriente Médio. É formação intrigante, porque o presidente Mohamed Mursi do Egito falou abertamente de “mudança de regime” na Síria [2], quando se sabe que Irã e Venezuela não aceitam irrestritamente sequer o conceito. Mas, ao que parece, os três partilham, como ponto comum, que a ideia de que a ‘transição’ que venha a acontecer tem de ser processo no qual só os sírios atuem, sem qualquer intervenção externa.

É a diplomacia iraniana exibindo seus melhores talentos, mostrando alta mestria na arte do possível. O que interessa infinitamente mais que todo o resto, do ponto de vista do Irã, é que Teerã e Cairo partilham afinal a mesma plataforma regional sobre a Síria. Os dois países são membros da Organização de Cooperação Islâmica; e o Egito é também membro da Liga Árabe.

O “consenso regional” é que tudo que EUA e Arábia Saudita tanto trabalharam para construir (ou inventar) acaba de ser pulverizado. [Nota C]

A debâcle da Turquia na questão síria[3] está-se convertendo em questão grave. A “entrada” do Egito força a Arábia Saudita a mudar de rota. A imprensa iraniana deixou bem claro que está previsto algum tipo de reaproximação entre Teerã e Riad.  [4] A restauração de laços diplomáticos entre Egito e Síria também obriga a Turquia a refazer os seus cálculos estratégicos.

Não é questão de somenos para Teerã que Mursi tenha declarado o Irã “parceiro estratégico” do Egito. [5] Até a rádio Voz da América admitia, em comentário, que o simbolismo da visita de Mursi ao Irã “preocupou países que tentam isolar o Irã, principalmente os EUA, país há longos anos aliado do Egito”. [Nota D]. O melhor que a Voz da América conseguiu produzir, em matéria de comentário [e prêmio de consolação], foi que a visita de Mursi não significa que o Egito “aprova irrestritamente o Irã”; e que “a aproximação aparente pode não passar de moeda de barganha” nas negociações do Egito com os EUA.



Notas de rodapé comentadas (em vermelho) pelos tradutores

[Nota A ] A Folha de S.Paulo/UOL, traduzindo matéria do New York Times, não escreve “Não Alinhados” nem no nome oficial do Movimento (!?); escreve “movimento dos ditos não alinhados” – o que deve ser recorde mundial de pior jornalismo jamais visto/lido/ouvido & requentado do NYT. Comprova-se em matéria datada de 27/8/2012, em Presidente do Egito planeja iniciativa de paz na Síria.

[1] 30/8/2012, ITAR-TASS News Agency, em: Iran announces NAM’s group on Syrian settlement – Ali Akbar Salehi

[Nota BNenhum jornal, jornalista ou “especialista” ouvido pelos veículos de jornal, rádio ou televisão do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) do dito “jornalismo” de massa, no Brasil, viu qualquer coisa de entusiasmante, intrigante, instigante, importante, nem, sequer, digna de notação jornalística nos eventos aqui comentados.
Além da FSP (que nem escreve O NOME do Movimento dos Não Alinhados, tal o ódio perverso que os jornalistas-empregados da FSP e a própria empresa nutrem por quem não se alinhe [risos, risos], a revista Época/Globo, por exemplo, só comenta, de todos esses eventos, que o presidente Mursi “exigiu mudança de regime na Síria”. E, mesmo para essa minguadíssima, ridícula “notícia”, a revista Época/Globo repete matéria da rede Al-Jazeera, porta-voz conhecida do... Emir do Qatar! Seria cômico, não fosse o jornalismo brasileiro o mais mequetrefe DO MUNDO. Comprova-se em:Presidente do Egito critica regime sírio e oferece apoio aos rebeldes (por exemplo).
E “O Estado de S.Paulo”, cujo pensamento udenista-golpista é ainda chamado de “pensamento conservador” por alguns últimos jabores & koras dramers babões, só noticiou que “Morsi chama o regime de Assad de opressor”. Nada de intrigante ou jornalisticamente relevante ou jornalisticamente bem noticiado: apenas a reiteração, a repetição fascistizante, de mais no mesmo jornalismo-zero e eterno golpismo. É o que se comprova em:Morsi chama regime de Assad de ‘opressor’ e sírios deixam cúpula”.


[2] 30/8/2012, Hurriyet Daily News em: Egypt’s Morsi harsh on Syria at Tehran summit

[Nota C] Essa, afinal, é a grande, enorme, importantíssima notícia, que nenhum “jornal”, “jornalista” ou “especialista” dentre as figurinhas sempre repetidas em tooooooooooooodos os jornais e televisões da imprensa-empresa no Brasil ofereceu à opinião pública. N-e-n-h-u-m.

[3] 31/8/2012, Hurriyet Daily News  em: Turkey’s Syrian debacle



[Nota D] Vejam bem: “até a rádio Voz da América” já admitiu. O problema do Brasil-2012 é que NENHUM jornal, jornalista ou especialista dos que se repetem infinitamente nas páginas dos jornais e nas telas de televisão dos veículos do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) no Brasil-2012, reconheceu coisa alguma que se pareça a essa conclusão. CRÓZES! É im-pre-ssi-o-nan-te! O Grupo GAFE é mais pró-Wall Street que a rádio Voz da América! (risos, risos, risos muitos) [PANO RÁPIDO]

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A proposta do Irã ao ocidente, sobre a Síria

12/8/2012, MK Bhadrakumar*, Rediff Blogs, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O artigo publicado essa semana no Washington Post e assinado pelo ministro das Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi foi claramente dirigido às potências ocidentais. Os processos de pensamento são complexos, mas diretos – um mix de advertências e aberturas.

Lakhdar Brahimi
O timing da coluna no WaPo merece atenção: a missão de Kofi Annan gorou e Lakhdar Brahimi está saindo das sombras. Brahimi é o especialista em conflitos que envolvam forças islamistas — logo vêm à cabeça o Líbano, o Afeganistão – preferido do ocidente. Tem currículo consistente na arte de criar a ilusão de que haja negociações em curso onde nenhuma negociação exista, e a real discussão prossiga, inalterada, no campo de batalha. Kofi é independente demais; Brahimi obedece, em tempo integral. No momento, o ocidente quer muitíssimo Brahimi.

Em segundo lugar, a luta na Síria está trocando de marcha. A guerra civil começa a pleno vapor. O suprimento de mísseis Stinger, da Turquia para os rebeldes sírios, está pensado para mudar completamente o jogo. Contra esse pano de fundo, a visita que a Secretária de Estado Hillary Clinton dos EUA fez nesse fim de semana a Istambul também é altamente simbólica. Foi pensada para inflar a moral murcha da liderança turca. Isso dito, Teerã avalia que também pode ser inspirador avançar sobre o ocidente – Washington incluída – com vistas aos movimentos futuros. No momento, Teerã já se habituou à retórica de Clinton, nuvem para encobrir a angústia.

Kofi Annan
Em terceiro lugar, Rússia e China recolheram-se às coxias e estão cuidando, cada uma, da própria vida rotineira. Assim, a arena da paz ficou deserta. Todos os spots estão acesos, mas o palco está vazio. Então o Irã avança, com uma abertura letalmente atraente e super excitante.

É difícil dar simplesmente as costas à oferta iraniana, embora seja também oferta intrigante de aproximação a uma porta que, sabe-se lá, talvez abra diretamente para o jardim florido. Claro: é oferta que não serve aos EUA – e, provavelmente, Salehi também sabe disso. Mas ninguém perde nada por tentar.

Salehi alerta que o Irã não permitirá que EUA e Turquia marchem sobre a Síria como se marchassem sobre grama fofa. A guerra civil será sangrenta, dura e longa e é possível que faça os 15 anos de conflitos no Líbano parecerem piquenique. (Por falar nisso, dos cacos do Líbano brotou o Hezbollah.) Obviamente, a aposta é alta, para o Irã, porque vive na mesma região, e o Irã defenderá seus interesses essenciais absolutamente a qualquer custo. Mas o ocidente ou a Turquia suportarão uma guerra longa na Síria?

Salehi destaca que usar o islamismo como instrumento de política tampouco funcionará. Por quê? Porque o aliado natural dessas forças históricas é o Irã, não os EUA e a Turquia. É o mesmo que dizer que, no longo prazo, só o Irã pode vencer na Síria (ou no Egito), com ou sem mudança de regime. Além do mais, o Afeganistão também é prova de que a volta do chicote no lombo do chicoteador é inevitável, se o mundo cristão tenta manipular forças islâmicas.

Contudo, o Irã está interessado em cooperar com o ocidente, dado que seus interesses repousam, primariamente, na estabilidade regional e em campo de jogo limpo e aplainado. Assim sendo, o Irã deseja jogar o mesmo jogo que jogou quando auxiliou a invasão dos EUA ao Afeganistão para derrubar o regime dos Talibã e quando se mostrou tão extraordinariamente comedido no Iraque (onde o Irã, se quisesse, poderia ter tornado as coisas muito mais sanguinolentas para os EUA).

A grande questão é a natureza da “cooperação” que Teerã tem em mente. Salehi deixa bem claro que o Irã considera inaceitável que Bashar seja derrubado da noite para o dia. É indispensável que haja alguma transparência e clareza no processo, antes de Bashar deixar o governo. Bashar, afinal, também é parte da nação síria e tem também seus direitos.

Assim sendo, Salehi tenta o ocidente com uma proposta: a comunidade internacional deve conseguir que Bashar candidate-se e concorra a uma eleição à presidência da Síria, eleição livre e justa, sob supervisão internacional. Afinal, só a nação síria tem direito e competência para rejeitá-lo.

Bashar al-Assad
Agora... A proposta de Salehi será aceita em Washington ou Ankara (Istambul), Riad ou Doha? A resposta é rotundo “não”. O espectro que assombra o ocidente é que, em eleições livres e justas, é perfeitamente possível que os sírios escolham Bashar como âncora de estabilidade para seu país. Sem dúvida, sim, o fator NHA (“Não Há Alternativa” a Bashar) tem seu peso, se se espera que a frágil sociedade multicultural síria não rache em pedaços.

Para piorar, eleição livre e justa na Síria (depois da que houve no Egito, com resultado diferente do previsto) sempre será anátema para os xeiques árabes do Golfo. É ideia perigosa, essa de o chefe de estado ser eleito. Se a perniciosa ideia funciona para a Síria, o povo saudita bem pode começar a pensar que também merece a mesma prerrogativa, afinal, já na segunda década do século 21. E muito obviamente, tampouco os EUA quererão libertar o gênio da garrafa democrática. Salehi jogou uma bela cartada. Abaixo, podem lê-lo, de viva voz, no artigo publicado no Washington Post.

Assumir a liderança, na solução para a Síria

 

Ali Akbar Salehi

8/8/2012, Ali Akbar Salehi, Washington Post

Taking the lead on Syria(traduzido)


Os humanos frequentemente erramos quando não aprendemos com a história, mesmo a história recente. Guerra civil no Levante não é coisa do passado remoto. Com a Síria mergulhando em violência sempre crescente, os 15 anos de guerra civil no Líbano deveriam servir como assustadora lição sobre o que acontece quando se rompe a tessitura de uma sociedade.

Quando o Despertar Islâmico – também chamado Primavera Árabe – começou em dezembro de 2010, todos vimos as multidões em levante, clamando por seus direitos. Todos testemunhamos a emergência de movimentos civis que exigiam liberdade, democracia, dignidade e autodeterminação.

Em Teerã, acompanhamos deslumbrados e felizes aqueles desenvolvimentos. Afinal, um movimento de cidadãos a exigir as mesmas coisas que muitos árabes desejam hoje foi o que levou à emergência de nossa República Islâmica, em 1979. Ao longo das últimas três décadas, o Irã afirmou e reafirmou consistentemente que é dever de todos os governos respeitar os desejos e clamores do próprio povo. Mantivemos essa posição enquanto se desenrolava o Despertar Islâmico, sem mudanças enviesadas que variassem conforme a localização do movimento civil. Sempre estivemos a favor da mudança para atender aos clamores populares, fosse na Síria, no Egito, ou em qualquer outro ponto.

Mas o que querem para a Síria outros membros da comunidade internacional? Infelizmente, tem havido respostas conflitantes aos movimentos civis que varrem o mundo árabe. Exemplos gritantes dessas contradições veem-se no Bahrain e no modo como alguns países responderam à brutalidade da repressão contra a população naquele país.

A resposta europeia à crise na Síria tem sido particularmente contraditória. Pouco, praticamente nada, se diz sobre a presença de número sempre crescente de extremistas armados na Síria. Apesar de sempre preocupados com o crescimento do extremismo no Afeganistão, a milhares de quilômetros de distância, os líderes europeus não dão sinal de preocupação ante o fato de que, muito rapidamente, poderão ter um Afeganistão bem ali, à porta de casa.

Tomando emprestadas palavras de meu respeitado amigo Kofi Annan, que há poucos dias renunciou ao posto de enviado especial da ONU para o conflito sírio [1], depois de ver seus esforços para construir a paz serem repetidamente boicotados, meus militares sozinhos não conseguirão por fim à crise, e qualquer agenda política que não seja nem inclusiva nem compreensiva também falhará.

O Irã busca uma solução que interesse a todos. A sociedade síria é um belo mosaico de etnias, fés e culturas, e será reduzida a cacos, se o presidente Bashar al-Assad for deposto por meio violento. A ideia de que, depois da remoção violenta do presidente sírio, seja possível algum tipo de transição ordeira não passa de ilusão.

Embora os esforços de Annan para por fim a crise estejam encerrados, seu plano de seis pontos para mudança política mantém-se vivo e forte. Por que continuar a semear a discórdia, quando a situação pode ser resolvida racionalmente, com sabedoria e prudência? Os que apoiam a violência na Síria não veem que jamais conseguirão o que querem, pelos meios que usam.

Mudança política abrupta sem um mapa do caminho para uma transição política administrada só levará a situação cada dia mais precária que desestabilizará uma das regiões mais sensíveis do mundo. O Irã é parte da solução, não do problema. Como o mundo testemunhou durante a última década, atuamos como força de estabilização no Iraque e no Afeganistão, dois outros países muçulmanos jogados hoje em torvelinho. A estabilidade de nossa região é essencial para a paz e a tranquilidade mundiais.

Algumas potências mundiais e certos estados na região têm de parar de usar a Síria como campo de batalha para definir disputas por influência. A única saída para o impasse é oferecer aos sírios uma chance de encontrarem, eles mesmos, a saída.

Tomando em consideração o plano de seis pontos de Annan, o Irã espera conseguir reunir países que pensem da mesma forma para implementar três pontos essenciais: obter imediato cessar-fogo, para por fim à matança; enviar ajuda humanitária ao povo sírio; e preparar o terreno para um diálogo que resolva a crise.

Anuncio aqui a disposição do Irã para receber, como anfitrião, uma reunião de países comprometidos a implementar imediatamente esses passos, com vistas a por fim à violência. Como parte de nosso compromisso com resolver a crise, reitero nossa disposição para facilitar conversações entre o governo sírio e a oposição e para realizar no Irã, esse diálogo.

Além disso, alinhado com o plano de seis pontos de Annan, declaro mais uma vez o apoio do Irã a um processo de reforma política na Síria, que permita que o povo sírio decida sobre o próprio destino. Aí se inclui assegurar que os sírios têm pleno direito de votar em eleições livres e justas, a serem organizadas, sob supervisão internacional.

Com o mês sagrado do Ramadan aproximando-se do fim, rezo para que os sírios possam quebrar seu jejum em paz e estabilidade, o mais rapidamente possível – em nome dos interesses dos sírios e de todo o mundo.



Nota de rodapé:


MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.