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domingo, 27 de outubro de 2013

O que o ministro do Qatar disse ao ministro saudita?

Confusão (muita!) na Liga Árabe (e na “oposição” síria)

26/3/2013, [*] Jean Aziz, Al-Akhbar, Beirute [Ed. em inglês - orig. em árabe]

What Did the Qatari Minister Tell His Saudi Counterpart?

Traduzido da edição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu


Ahmed Moaz al-Khatib, chefe da delegação da "oposição" síria, em discurso na abertura da
reunião de cúpula da Liga Árabe em Doha, dia 26/3/2013. (Foto Karim Sahib, AFP)
Funcionário do governo libanês, familiarizado com os desenvolvimentos regionais, contou que aconteceu uma discussão – que, para ele, ficou entre briga e reprimenda –entre os ministros do Exterior da Arábia Saudita e do Qatar, numa das reuniões que estão acontecendo paralelas à uma conferência internacional para arregimentar apoio armado a grupos da oposição síria.

A discussão focou-se nas causas do fracasso na Síria; teve de tudo: de procurar desculpas a recusar qualquer culpa pelo que aconteceu. O funcionário libanês disse que o ministro saudita vinha adotando tom acusatório, até que ouviu pesada resposta do ministro do Qatar.

Hamad bin Jassim bin Jabr Al Thani,
1º Ministro e Chanceler do Qata
r
Em resumo, o ministro qatari disse que

Nós fizemos tudo na Síria durante dois anos e conseguimos que todo o planeta abraçasse a causa da oposição síria. Você [príncipe Bandar] assumiu, e bastaram dois meses para que todo o planeta se transferisse para o lado de Bashar al-Assad.

Esse parágrafo pode resumir todos os desenvolvimentos na Síria e no Oriente Médio nas últimas semanas ou, mais especificamente, desde que Moscou e Washington firmaram um acordo para destruir as armas químicas da Síria, e começaram a surgir sinais de reaproximação entre os EUA e o Irã.

Mas o curso de todos esses eventos começou, de fato, há uma década, quando os EUA decidiram derrubar Saddam Hussein. Os sauditas apoiaram, mas a Síria opôs-se.

Bandar bin Sultan
Pouco depois da queda de Bagdá, em abril de 2003, começou a tornar-se cada vez mais claro que os sauditas, aliados do vencedor da guerra do Iraque, estavam perdendo no campo político o que tinham suposto, erradamente, que teriam ganho graças à força militar de outros. Simultaneamente, os sírios, que se mantiveram aliados da parte derrotada, começaram a colher benefícios políticos, paralelos aos ganhos geoestratégicos de seus aliados iranianos.

As primeiras semanas do ataque contra a síria podem ser identificadas nesse paradoxo observado naquele momento, sobretudo quando a coalizão dos derrotados começou a aumentar, incluindo George W. Bush, Jacques Chirac e a Casa de Saud e seus aliados no Líbano, os quais tinham muito a ganhar e muito a perder, tanto em Damasco quanto em Beirute.

Assim aconteceu a decisão de tirar do Líbano as forças de Assad – para destruir seus ganhos em Bagdá. Mais uma vez, os sauditas foram convencidos pelo comportamento de seus “delegados” norte-americanos. Mas a coisa durou pouco. Apenas alguns meses depois que o exército sírio saiu do Líbano, dia 26/4/2005, começou a ficar visível que os norte-americanos estavam também se recolhendo aos limites demarcados pelo próprio pragmatismo.

Os sauditas exigiam que os EUA apontassem a pistola para a cabeça da Síria, mas, em vez disso, Bush preferiu seguir uma abordagem de “porrete-e-cenoura”. Os sauditas queriam a “des-Baath-ificação” na Síria, mas os norte-americanos queriam mudar o comportamento do regime, não mudar o próprio regime.

Saud al-Faisal
A violenta resposta dos sauditas a Washington não demorou a aparecer. Como aconteceu outra vez recentemente, dia 20/9/2005 o ministro de Relações Exteriores saudita, Saud al-Faisal, criticou furiosamente o governo dos EUA, em discurso no Conselho de Relações Exteriores em New York City.

Faisal disse então que a política dos EUA no Iraque estava aprofundando divisões sectárias, preparando a balcanização do país, o que poderia levar o Iraque a cair nas mãos do Irã.

A briga entre Riad e Washington por causa do Iraque continuou durante anos, até que surgiu uma ocasião para que os dois países novamente convergissem. O primeiro ponto de convergência entre ambos acontecera no momento de expulsar do Líbano as forças sírias de Assad; o segundo foi o acordo para restaurar o equilíbrio no Iraque, apoiando Iyad Allawi nas eleições de 2010.

Saad al-Hariri
Quando Assad aceitou o projeto Allawi em Bagdá, a coordenação Síria-sauditas começou em Beirute. Todas as questões que envolviam os sauditas no Líbano foram postas na gaveta, inclusive o cargo de primeiro-ministro para Saad al-Hariri, o Tribunal Especial para o Líbano, as armas do Hezbollah e a presença síria – como se dispôs num famoso “documento de concessões” do movimento “14 de Março”, que Walid Jumblatt divulgou dia 21/1/2011, poucas semanas depois de o projeto Allawi estatelar-se contra o muro, em Bagdá.

O timing não foi simples coincidência. De fato, nas últimas semanas de 2010, o eixo Síria-Irã conseguiu, mais uma vez, abortar o sonho saudita. Allawi venceu as eleições no Iraque, mas foi Nouri al-Maliki quem, afinal, constituiu o governo. O eixo Síria-sauditas teve morte súbita em Beirute. E pouco depois começou o “levante” em Damasco. 

Esses são os elementos de uma equação bem ampla que afinal se pôde ver: em 2003, os sauditas perderam o Iraque; os EUA então decidiram garantir-lhes compensação no Líbano e na Síria, pelas perdas sauditas no Iraque. Em 2005, os EUA recuaram em Damasco. Pela terceira vez, sauditas e EUA perdiam: no Líbano, na Síria e no Iraque. Então decidiram virar a mesa toda, de vez, na cadeia central, e derrubar o governo de Assad em Damasco.

Os EUA são lacaios do Reino Saudita, ou é exatamente o contrário?

Mas os cálculos no Oriente são seguidamente muito complexos e, talvez, difíceis demais para que os compreendam um cowboy distante ou um beduíno próximo. Os EUA então voltaram à região, com um projeto inspirado, agora, na Primavera Árabe.

Recep Tayyip Erdogan
O projeto, de fato, era ideia bem simples, com roteiro assinado por Recep Tayyip Erdogan da Turquia e dirigido pelos arquitetos dos “levantes coloridos”: entregamos o poder em toda a Região à Fraternidade Muçulmana, e os Irmãos, em troca, atendem três demandas – garantem a segurança de Israel, os interesses dos EUA e a estabilidade dos governos, sem que Washington tenha de pagar a conta.

O trem até que andou bem por esses trilhos nos primeiros tempos, na Tunísia, no Egito e na Líbia, mas a hostilidade dos sauditas contra a Fraternidade Muçulmana os levava a temer que os Irmãos, mais dia menos dia, tomassem o poder nas “cidades de sal” no Golfo.

Os sauditas, contudo, mantiveram-se em silêncio por quase um ano e meio. Opor-se a projeto bem-sucedido é sempre tática não recomendável, e eles se mantiveram recolhidos, até que, afinal, amadureceram as condições para o fracasso do projeto dos EUA.

Dia 11/9/2012, a promessa de proteger os interesses de Washington entrou em colapso em Benghazi, com o assassinato do embaixador dos EUA. Em novembro, a demanda de que a segurança de Israel seria preservada também fracassou, quando irromperam confrontos em Gaza, e o Hamás não conseguiu fazer valer o compromisso firmado entre a Fraternidade Muçulmana e Israel. E, no início de 2013, já era absolutamente evidente que a promessa de estabilidade nos países da Primavera Árabe estava reduzida a simples piada.

Tudo estava maduro para que os sauditas retomassem a iniciativa. Tinham tudo preparado para um contra-ataque, pelo menos desde meados de julho de 2012, quando o príncipe Bandar foi nomeado espião-chefe do reino.

Mohamed Mursi
Por muitos meses, os sauditas haviam feito todo tipo de pressão contra os EUA e os países árabes, persuadindo Washington pela quarta, ou centésima-milionésima vez, a fazer o jogo: Mohamed Mursi fora derrubado. O Qatar fora pacificado. A Turquia fora marginalizada. E Riad assumiu para ela todos os dossiês.

Até aí, parecia que os sauditas teriam triunfado completamente, e só eles, pela primeira vez em décadas. Mas naquele momento, surgiu o acordo das armas químicas, construído por Moscou. O sorriso nuclear de Hassan Rouhani surgiu em New York. E tudo veio abaixo.

É esperável e normal que Riad perca completamente a compostura, a sobriedade e até a razão. Todas as arenas converteram-se em caixas de mensagens a transmitir as objeções e rejeições dos sauditas, de Maaloula a Trípoli; e do Tribunal Especial para o Líbano ao Conselho de Segurança da ONU, com Bandar a esbravejar e berrar, e todos confusos, sem entender o relacionamento com os sauditas: os EUA são lacaios do Reino Saudita, ou é exatamente o contrário?

(...)
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[*] Jean Aziz é jornalista do Al-Monitor e colunista do jornal Al-Akhbar em Beirute; apresentador de um talk show semanal político na OTV, estação de TV libanesa; professor de comunicação social na American University of Technology e na Université Saint-Esprit em Kaslik no Líbano


terça-feira, 26 de março de 2013

Os BRICS e a questão síria


25/3/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Encontro dos BRICS em Durban, África do Sul em 26/27 de março de 2013

O encontro dos BRICS em Durban prossegue, e ouvem-se os tambores da guerra pela Síria, cada vez mais próximos, dia a dia.

A reconciliação, na 6ª-feira que o Presidente Obama dos EUA costurou entre Turquia e Israel foi premontada em cenário dramático, na pista do aeroporto Ben Gurion próximo de Telavive, num trailer, quando Obama já partia, depois de concluída a visita a Israel. Foi preparada como espetáculo para a Região: para fazer crer que os EUA estão mudando de marcha para atacar a questão síria.

Dois dias antes, no domingo, veio a grave acusação, feita pelo poderoso presidente da Comissão de Inteligência do Senado e destacado Republicano, Mike Rogers, de que “acumulam-se evidências” de que o regime sírio já ultrapassou “completamente” a chamada “linha vermelha” que Obama fixou, sobre deslocamento e uso de armas químicas, pelas forças do governo sírio.

Tudo parece bem orquestrado. Na véspera, Obama anunciara em Jerusalém que qualquer uso de armas químicas pelas forças sírias seria fator para “mudança no jogo”. Agora, Obama tem o argumento perfeito para intervir militarmente na Síria.

CIA - Central Intelligence Agency Headquarters
Simultaneamente, o New York Times noticiou que a CIA já está metida até o pescoço no conflito sírio com tudo preparado para expandir suas operações clandestinas.

E Israel, por sua vez, já testa as defesas sírias nas colinas do Golan. O Ministro da Defesa israelense, Moshe Yaalon, alegou “ataque à soberania”, pela Síria. E tudo, na sequência imediata da visita de Obama a Israel e à Jordânia.

Ahmed Moaz al-Khatib
O mais revelador é a reestruturação na liderança da Coalizão das Oposições na Síria. No final da semana, Ahmed Moaz al-Khatib renunciou à presidência da coalizão. Khatib estava com viagem marcada a Moscou, para conversações.

Evidentemente, alguém ficou aflito com a possibilidade de Khatib ser persuadido pelos russos a dar uma chance ao diálogo nacional interno, na Síria.

Ghassan Hitto
Bingo! Um novo Primeiro-Ministro para a oposição síria surgiu repentinamente, do nada, no fim de semana, um sírio-norte-americano, profissional de Tecnologias da Informação, com base nos EUA: Ghassan Hitto.

Hitto tem sido vagamente apresentado como caixeiro-viajante a serviço da Fraternidade Muçulmana, mas o Embaixador dos EUA na Síria, Robert Ford, já apareceu citado pela Agência France Press, dizendo, simploriamente, que “ele é mais texano que da Fraternidade Muçulmana”.

De fato, não faz diferença que Hitto seja norte-americano ou Irmão. Mohamed Mursi do Egito é mais ou menos da mesma espécie. E os EUA estão bastante satisfeitos com o desempenho dos Irmãos até aqui, no Egito; e parecem bem interessados em ter mais regimes comandados pelos Irmãos no Oriente Médio Muçulmano. O Qatar e a Turquia não teriam o que objetar. 

Robert Ford
Sem dúvida alguma, o plano do jogo é estruturar um “governo no exílio” para a Síria firmemente controlado pelos EUA, antes de começar a intervenção militar de destruição total, ao estilo do que foi feito na Líbia, dessa vez na Síria. Nada de repetir as tolices que George W. Bush cometeu antes de partir para destruir o Iraque. Obama é gelado, cerebral e meticuloso, quando se trata de planejar eventos de tipo bélico.

Obama fará com que esses tumultos de mudança de regime agitem Damasco, quando os iranianos estiverem focados na eleição presidencial de junho, e a crucial formação de novo governo em Teerã (que jamais é fácil, dada as muitas divisões que cortam a política dos xiitas) estiver em curso. Obama foi a Israel e a Jordânia especificamente para organizar a guerra contra Síria e Irã, nada mais, nada menos.

No domingo, Obama despachou o Secretário de Estado, John Kerry, para Bagdá, em visita surpresa, para ler os mandamentos ao Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki e fazê-lo pôr fim aos voos sobre território iraquiano, até a Síria. Apertem os cintos. Turbulências pela frente.

Encontro dos BRICS em Durban - 26 e 27 de março de 2013
Mas, voltando aos BRICS: essa reunião em Durban será crucial, como marco do desenvolvimento do grupo. Pelo sim, pelo não, Tio Sam está de olho no que os estadistas dos BRICS fazem em Durban.

Interessante: o Brookings Doha Centre, think-tank que opera nos EUA e no Qatar, conclamou abertamente os BRICS para um motim! Querem que os presidentes de África do Sul, Brasil e Índia metam a coleira em Rússia e China, na questão síria

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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A estratégia dos EUA na Síria falhou


13/3/2013, Sean Fenley, Asia Times Online – Speaking Freely
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sean Fenley é autor independente, que trabalha para implantar alguma sanidade no presente e no futuro político dos EUA, entre os militares dos EUA e nas políticas externa e doméstica dos EUA. Escreve e publica em vários websites e veículos da imprensa não-empresa em todo o mundo.

Comentário de internauta (na mesma página): Te Pu Win, Top Commenter - Toronto, Ontario
Fazer de Assad o vilão é tolice “jornalística” simplória, pessoal. Sugiro que aproveitem o tempo e leiam um pouco sobre o Líbano. Antes de 1967, Beirute era a “Veneza do Oriente Médio”, elo de ligação entre a Europa e o mundo árabe. O ataque de Israel aos países árabes mudou essa equação para todo o meio século seguinte, que foi de guerra e sangue. Os israelenses incitaram os cristãos libaneses, o que resultou na destruição da sociedade deles, o que destruiu Beirute.
Lembram o massacre de Sabra e Shatila, em que palestinos foram assassinados nos campos de refugiados? Foi crime instigado por Ariel Sharon. E Israel continuou a agredir o Líbano – até os bombardeios bem recentes. Com essa ação, Israel provocou reação cada vez mais extremista. Quantos outros civis inocentes foram mortos é informação que a imprensa-empresa oligárquica ocidental esconde.
Façam avançar o filme até o Iraque, a Síria e o Irã, e vocês verão o mesmo padrão vil, com Israel a incitar cada vez mais violência e mais guerra, sempre aos gritos de “querem destruir Israel” (e por isso seria preciso demonizar meio mundo, sem parar).
Os EUA estão-se comportando como vassalos de Israel e, por isso, perdem amigos por todo o planeta.

Kirsten Gillibrand
Quando a senadora Kirsten Gillibrand sabatinava o ex-senador de Nebraska, Chuck Hagel, na audiência no Senado para a confirmação do ex-senador como secretário de Defesa, ela mencionou armas químicas e Síria.

Acho que a boa senadora Gillibrand precisaria ser informada de que a verdadeira ameaça não é a Síria, mas o chamado “exército sírio livre” e suas armas químicas. Foram e continuam a ser apoiados por aliados dos EUA, como Arábia Saudita e Qatar, estados wahhabistas que reprimem as mulheres e nada sabem de liberdades civis e direitos democráticos. São estados antidiluvianos, já maduros para primaveras árabes, à espera de que alguma genuína democracia brote por ali. A Arábia Saudita invadiu o vizinho Bahrain, e não se cansa de reprimir movimentos revolucionários de base também ali.

Bashar al-Assad
A Síria é sociedade complexa, onde convivem diferentes religiões e seitas, muito mais bem protegidas, todas elas, sob o governo árabe nacionalista de Bashar al-Assad, do que algum dia seriam sob governo de algum estado salafista ou da Fraternidade Muçulmana, fascistas que aspiram a ocupar o lugar do Presidente Bashar – algum estado como o Egito de Mohamed Mursi (do qual todos os cristãos coptas já se afastaram).

Temo muito pelos alawitas, os drusos e os cristãos sírios: os melquitas, siríacos, maronitas, caldáicos e outros grupos, no caso de esses assassinos salafistas e wahhabis, apoiados pelos mais retrógrados governos aliados dos EUA, chegarem ao poder. Laurent Fabius, Ministro de Relações Exteriores da França, disse que:

Não podemos permitir que a Síria degenere num conflito de milícias.

Gerard Araud, representante permanente da França na ONU, disse que:

Estamos criando uma Somália, no coração do Oriente Médio.

A melhor saída é exigir que Arábia Saudita e Qatar ponham fim ao seu projeto de desestabilização de toda aquela região. A única saída é uma solução política não violenta, que assegure que os sunitas fundamentalistas não cheguem ao poder.

Os siríacos/aramaicos – que falam aramaico, a língua de Jesus Cristo – querem um diálogo entre todos os grupos sem precondições; querem o cessar-fogo; querem o fim da importação e do contrabando de todo e qualquer armamento estrangeiro; querem o fim das sanções econômicas; e querem o fim do recrutamento de milicianos estrangeiros mercenários para guerrear contra o país deles e dentro do país deles.

Moaz al-Khatib
Moaz al-Khatib, que lidera a Coalizão Nacional Síria – o grupo de exilados que apoia a intervenção armada contra o governo sírio, e que são apoiados pelo ocidente e pelos países do Golfo – já fala, agora, também, de conversações com Bashar al-Assad. Vários grupos civis que rejeitaram a luta armada e se opõem à intervenção estrangeira na Síria também são favoráveis a um imediato cessar-fogo e a uma solução negociada.

Os EUA e a OTAN que recolham imediatamente aos canis os seus cães de guerra (a Turquia também se misturou nesse mix sórdido). Que todos procuremos pensar com a cabeça limpa, em vez de só pensar em derrubar um governo cujos principais “defeitos” são ser independentes de EUA e OTAN; não dar rédea livre às empresas daqueles países; não se deixar manobrar como fantoches.

A Síria, aliada ao Hezbollah e ao Irã, está além de qualquer possibilidade de ser comandada pelo ocidente, mas também é imperativo que os fundamentalistas sunitas não consigam chegar ao poder.

Em vez de fixarem-se em objetivos geopolíticos caolhos e capengas, sempre atentos exclusivamente ao interesse de Israel, EUA e OTAN têm de começar a trabalhar imediatamente na direção de uma solução política, e já! Têm de deixar de crer, exclusivamente, na força das armas. Essa estratégia é depravada, é ignóbil e, em todos os casos, obedece ao comando de gente que, em matéria de negociação política, só conhece o “argumento” dos esquadrões da morte e da selvageria mais brutal e que, como já se lê de várias fontes confiáveis, já se aliou, até, aos terroristas.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Khamenei joga duro com Obama


E o Irã vai cozinhando a “única” potência...

8/2/2013, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Irã cozinhando...
Foi semana excepcional para a política do Oriente Médio e acabou, adequadamente, com um choque de realidade: que as imaginações não saiam de curso.

Bashar al-Assad
Três grandes acontecimentos, numa semana, têm de ser alinhados e considerados como inevitável confluência de desenvolvimentos e processos: a oposição síria ofereceu diálogo bilateral ao regime de Bashar al-Assad; o presidente do Irã fez visita histórica ao Egito; e os EUA ofereceram conversações diretas ao Irã – que o Irã aceitou prontamente.

Não há dúvida de que são eventos interconectados. Primeiro, o caleidoscópio sírio está mudando de configuração muito dramaticamente, embora continue o banho de sangue. A menos que os países europeus levantem o embargo de armas que impuseram à Síria (o qual, seja como for, expirará dia 1º de março) e decida armar os rebeldes, o impasse continuará.

O humor nas capitais ocidentais mudou, na direção de mais cautela e circunspecção, ante o fantasma de grupos afiliados à al-Qaeda que se estão beneficiando do caos reinante. Se mais não fosse, bastaria o furacão de islamistas militantes armados que varre o Mali, para aumentar as preocupações e a relutância.

Ahmed Moaz al-Khatib
O que levou o líder islamista da Coalizão Nacional Síria, Moaz al-Khatib, semana passada, a manifestar disposição para construir conversações diretas com representantes do regime sírio – e empurrou-o ao encontro dos Ministros de Relações Exteriores de Rússia e Irã – foi tanto a confusão reinante dentro da oposição síria e o fracasso na tentativa de formar algo semelhante a um verossímil “governo-no-exílio”, quanto a aguda certeza de que o humor ocidental já dá sinais de extrema cautela em relação à Síria.

Não há dúvidas de que o Irã, já há alguns meses, desempenha papel crucial na dura batalha de nervos em torno da Síria. Curiosamente, é o Irã quem, hoje, está “do lado certo da história”, ao clamar por diálogo e negociações urgentes e por eleições democráticas, como chaves indispensáveis para reformar e promover mudanças na Síria – e, também, no que tenha a ver com isso, no Bahrain.

A mudança que se vê na Síria realmente deu instrumentos ao Irã para derrubar as barreiras entre sunitas e xiitas, que tão tenazmente foram criadas e impostas para isolar o Irã. Por isso, a visita histórica do Presidente Mahmud Ahmedinejad ao Egito, essa semana, tem dimensão muito mais ampla em termos regionais para o Irã, que apenas a restauração de relações bilaterais entre Irã e Egito. O encontro trilateral que houve entre Ahmedinejad e os presidentes do Egito e da Turquia, Mohamed Mursi e Abdullah Gul mostra muito mais sobejamente a crescente relevância do Irã como interlocutor, que qualquer inimizade implacável que houvesse entre o Irã xiita e os dois grandes países sunitas.

Mohamed Mursi
Interessante o que acrescentou Mursi:

A revolução egípcia passa agora por condições similares às da Revolução Iraniana. Dado que o Egito não tem condições de progresso rápido, como o Irã teve, acreditamos que expandir os laços e a cooperação entre Egito e Irã é movimento crucialmente importante e necessário.

Desnecessário dizer que a diplomacia iraniana jogou magistralmente em tudo que teve a ver até agora com o regime da Fraternidade Muçulmana no Cairo: nem bajulou nem diminuiu, empurrou ou pressionou: apenas deixou que os Irmãos definissem o ritmo dos eventos. Fator básico nessa abordagem é a confiança, em Teerã, de que a avançada do islamismo no Oriente Médio por vias democráticas, sem especial preocupação com algum “islamismo sunita”, operará sempre, e ao final das contas, a favor dos interesses do Irã.

Ahmed al-Tayyeb
A recepção cordial que Sheikh Ahmed al-Tayyeb, líder da mesquita egícia Al-Azhar do Egito, ofereceu a Ahmedinejad e a alta probabilidade de que visite Teerã em futuro bem próximo manifestam muito claramente o desejo comum de estreitar laços e afinidades.

Dito em termos simples, a crise síria vai aos poucos saindo do espaço das questões difíceis entre Irã e Egito. É verdade que a Coalizão Nacional Síria (CNS), que tem base na Turquia, continua a rejeitar qualquer negociação com o regime sírio, e a Fraternidade Muçulmana controla a CNS. Mas aí pode estar também uma janela de oportunidades para que Turquia, Egito e Irã forcem-se mutuamente a melhor afinação.

De fato, a CNS não tem qualquer influência real sobre os rebeldes em luta; e Ancara irrita-se cada dia mais com o rumo geral da crise síria.

Foi afinal nesse contexto complexo, que o vice-presidente Joe Biden dos EUA disse em Munique, no último fim de semana, que Washington está pronta para iniciar conversações diretas com o Irã sobre o programa iraniano de energia nuclear. A resposta imediata do Irã foi otimista cautelosa. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi disse que:

Ali Akbar Salehi
Estou otimista. Sinto que o novo governo dos EUA, dessa vez, tenta, pelo menos, afastar-se do modo como vinha tratando o meu país.

Mas já no dia seguinte, começou a modular o entusiasmo:

Vemos positivamente esse movimento. Parece-me uma boa abertura... Mas temos de esperar um pouco mais, para ver se, dessa vez, o gesto deles é gesto real... E tomaremos nossas decisões de acordo com a real configuração.

Adiante, Salehi explicou que:

A análise do passado mostra que sempre que mantivemos conversações com os norte-americanos, inclusive com esforços para estabilizar o Afeganistão, o outro lado, infelizmente, jamais cumpriu plenamente as obrigações que assumiu. Não se negocia em tom de ameaça, dizendo que todas as opções estão sobre a mesa [porque] vê-s aí, bem aparente, uma contradição (...) Pressionar e convidar para conversar são atitudes incompatíveis. Se as intenções se comprovarem honestas, podemos, sim, incluir negociações sérias em nossa agenda.

Obviamente, Salehi falou por duas bocas; a retração final é a “autêntica” voz de Teerã.

Aiatolá Ali Khamenei
Na 5ª-feira, quando o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei afinal quebrou seu silêncio, rejeitou a possibilidade de conversações diretas com os EUA. Disse ele:

Vocês [norte-americanos] apontam a pistola contra o Irã e dizem que é “ou negociação ou bala”. A nação iraniana não se deixará intimidar por essas ameaças (...) Alguns ingênuos gostam da ideia de negociar com os EUA, [mas] nenhuma negociação resolverá os problemas. Quem tente estabelecer novamente o poder da América no Irã, verá que a nação se erguerá contra eles.

Um modo de interpretar a dura declaração de Khamenei na 5ª-feira é pô-la no contexto do anúncio de novas sanções contra o Irã, anunciadas na véspera, em Washington, as quais foram explicadas pelo governo dos EUA como “mais um aperto significativo no parafuso” que “aumentará significativamente a pressão econômica contra o Irã”.

Mahmud Ahmadinejad
Mas nem assim se explica o manifesto endurecimento e a total rejeição que se vê nas palavras de Khamenei. Três outros fatores têm de ser considerados. Primeiro, a política doméstica está esquentando no Irã; a dramática irrupção pública de discordância e desarmonia entre Ahmedinejad e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, semana passada, é prova de que há tempos difíceis à frente, quando Khamenei, como o grande timoneiro, estará mergulhado em problemas.

Verdade é que terá muito a joquear, à medida que se aproximarem as eleições presidenciais marcadas para maio. Khamenei pode bem entender que conversações com os EUA serão mais oportunas depois das eleições. (Diga-se de passagem, essa pode ser também a preferência de Obama).

Em segundo lugar, Khamenei disse, nas entrelinhas, que Teerã espera algum sério gesto de boa vontade, dos EUA, antes de iniciar quaisquer conversações. Lembrou que os EUA já várias vezes no passado não agiram de boa fé – como quando o Irã ajudou os EUA a derrubar o regime dos Talibã no Afeganistão.

Ali Larijani
Um terceiro fator é que Khamenei vê, profunda e genuinamente, que o Irã está, sim, “do lado certo da história”, no que tenha a ver com os levantes regionais no Oriente Médio; ao mesmo tempo em que as estratégias regionais dos EUA mostram-se cada dia mais sem rumo e sem sentido.

Em resumo, por mais que a propaganda norte-americana repita que as sanções “mordem fundo na carne do Irã” e que o regime no Irã estaria sitiado, o que se tem é uma bizarra situação, na qual só Washington acredita na própria propaganda, por mais que as realidades em campo sejam amplamente diferentes do que diga a propaganda.

Por mais que a propaganda nos faça crer que o regime em Teerã viva temeroso de que irrompa em Teerã um levante como o da Praça Tahrir, as palavras de Khamenei não mostram qualquer vestígio de medo ou timidez. Simultaneamente, Khamenei avalia atentamente a capacidade (ou a falta de capacidade) de Obama para controlar os cães do lobby israelense e iniciar processo genuíno de normalização das relações com o Irã.

Barack Obama e o tamanho do "pepino"
Quando Richard Nixon trabalhou com a China, no início dos anos 1970s, beneficiou-se de um amplo consenso favorável de opiniões dentro do establishment político nos EUA. Ao contrário, no que tenha a ver com o Irã, o pensamento e os discursos de muitos norte-americanos influentes ainda são regidos por orgulho e preconceito.

A mensagem de Khamenei a Obama é que trabalhe com seriedade e decida com clareza o que deseja, em vez de mandar recado por Biden, sem qualquer elo de conexão e sem se comprometer a coisa alguma.

Khamenei já enfrentou vários presidentes dos EUA ao longo de 22 anos; dessa vez, apenas devolveu a bola para a quadra adversária. Agora, Khamenei esperará a próxima jogada de Obama, que visitará Israel, mês que vem. 
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistãoe Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e o Blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.