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terça-feira, 26 de março de 2013

Pepe Escobar: “BRICS conseguem furar o cerco”


26/3/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Notícias da morte prematura dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) são muitíssimo exageradas. A imprensa-empresa ocidental está inundada dessas tolices, perpetradas, nesse específico caso, pelo presidente do Morgan Stanley Investment Management. [Ver em: Broken BRICs. Why the Rest Stopped Rising [BRICs quebrados. Por que o resto parou de crescer], Foreign Affairs, nov.-dez.2012]

A realidade é outra. Os BRICS reúnem-se em Durban, África do Sul, nessa 3ª-feira, para, dentre outros passos, criarem sua própria agência de avaliação de riscos, escapando assim da ditadura – ou, no mínimo, das “agendas enviesadas”, como diz a diplomacia indiana – das agências tipo Moody's/Standard & Poor. Também tocarão adiante a criação de um Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com capital inicial de US$50 bilhões (faltam só se definir alguns detalhes estruturais), para ajudar em projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável.

Importante, mesmo, é que EUA e União Europeia não serão acionistas desse Banco do Sul – alternativa concreta, estimulada principalmente por Índia e Brasil, ao Banco Mundial e ao sistema de Bretton Woods controlados pelo Ocidente.

Jaswant Singh
Como observou o Ministro das Finanças da Índia, Jaswant Singh, esse banco de desenvolvimento poderá, por exemplo, canalizar o know-how de Pequim, para ajudar a financiar as obras massivas de infraestrutura das quais a Índia carece.

As grandes diferenças políticas e econômicas entre os países BRICS são autoevidentes. Mas, já agora reunidos e operando como grupo, o ponto já não é se podem proteger a economia global contra a crise non-stop do capitalismo-de-cassino avançado.

O ponto é que, além de medidas para facilitar o comércio mútuo, as ações do bloco vão-se tornando cada vez mais políticas. Os BRICS não apenas mostram seu poder econômico como, também, tomam medidas concretas na direção acelerada rumo a mundo multipolar. Nisso, o Brasil é particularmente ativo.

Inevitavelmente, os míopes fanáticos atlanticistas de sempre do consenso de Washington nada veem – miopicamente – além de “BRICS esperam mais reconhecimento das potências ocidentais”.

Claro que há problemas. O crescimento está mais lento no Brasil, China e Índia. Dado que a China, por exemplo, tornou-se principal parceiro comercial do Brasil – já ultrapassou os EUA – vastos setores da indústria brasileira sofreram com a concorrência das manufaturas chinesas baratas.

Mas há perspectivas futuras inescapáveis. Os BRICS muito provavelmente terão mais poder no Fundo Monetário Internacional. Detalhe crucialmente importante, os BRICS passarão a negociar em suas próprias moedas nacionais, servindo-se, de um Yuan globalmente conversível e afastando do dólar norte-americano e do petrodólar.

A China em momento menos acelerado

Jim O’Neill
O inventor da expressão “BRIC” (no início, ainda sem a África do Sul) foi Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs, nos idos de 2001. Muito interessante e esclarecedor ouvir o que O’Neill tem a dizer hoje, sobre o mesmo tema [em longa entrevista à revista Der Spiegel (21/3/2013, BRICS 'Have Exceeded all Expectations [Os BRICS superaram todas as expectativas], Der Spiegel). 

O'Neill destaca que a China, mesmo tendo crescido “meros” 7,7% em 2012, “Criou riqueza equivalente a uma economia grega inteira, a cada 11 semanas e meia”. A desaceleração na China foi “cíclica e estrutural” – um “desligar a máquina” planejado para controlar o superaquecimento e a inflação.

Os impulso adiante que se vê nos BRICS é parte de uma tendência global irresistível. Boa parte dessa tendência está bem decodificada num novo relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas [orig. United Nations Development Programme]. Em resumo: o norte está sendo ultrapassado na corrida econômica, pelo sul global, que corre a velocidade estonteante.

Segundo aquele relatório, “pela primeira vez em 150 anos, a soma dos resultados das três principais economias do mundo em desenvolvimento – Brasil, China e Índia – é praticamente igual aos PIBs somados das notórias potências industriais do Norte”.

Chefes de Estado dos BRICS (da esqerda para a direita) Dilma Rousseff - Brasil; Vladimir Putin - Russia; Manmohan Singh - Índia; Li Jinping - China;  Jacob Zuma - África do Sul
A conclusão óbvia é que “o crescimento do Sul global está reformatando radicalmente o mundo do século 21, com nações em desenvolvimento comandando o crescimento econômico, arrancando da miséria centenas de milhões de pessoas e empurrando bilhões mais para uma nova classe média global”.

E no coração crucial ardente desse processo, encontramos um épico eurasiano: o desenvolvimento de relação estratégica entre Rússia e China.

Sempre o Oleogasodutostão...

Vladimir Putin
O Presidente Vladimir Putin da Rússia não quer saber de arrastar prisioneiros: quer empurrar os BRICS no rumo de constituir “um mecanismo de cooperação estratégica em plena escala, que nos permitirá, juntos, procurar soluções para as questões chaves da política global”.

Isso implicará uma política externa comum para todos os BRICS – e não só alguma coordenação seletiva em torno de alguns temas. Não será fácil. Exigirá tempo. Putin está perfeitamente consciente disso.

O que torna tudo ainda mais fascinante é que Putin já expôs essas ideias ao novo Presidente da China, Xi Jinping, que o visitou em Moscou, por três dias. Putin não mediu palavras: fez questão de dizer e repetir que as relações sino-russas “são hoje as melhores, em séculos de história”.

Não é exatamente o que os atlanticistas hegemonistas gostariam de ouvir – sempre interessados, eles, em manter todas as relações no pé em que estavam na Guerra Fria.

Xi Jinping
Xi retribuiu em alto estilo: “Não viemos visitá-los à toa” – como se lê, parcialmente detalhado no China Daily. E esperem só, que a potência criativa dos chineses comece a gerar dividendos

Inevitavelmente, o Oleogasodutostão está no coração do projeto de relações complementares entre esses dois grandes BRICS.

A China precisa do petróleo e o gás da Rússia, como item de segurança nacional.

A Rússia quer vender mais e mais dos dois itens, diversificando a carteira de clientes, na direção do Oriente; mais que tudo, a Rússia receberia com enorme entusiasmo investimentos chineses no extremo oriental de seu território – a imensa região Trans-Baikal.

E, por falar nisso, não é verdade que o “perigo amarelo” esteja invadindo a Sibéria – como diz o ocidente. Só 300 mil chineses vivem hoje na Rússia.

Consequência direta da reunião de cúpula Putin-Xi é que de agora em diante Pequim pagará adiantado pelo petróleo russo que comprar – em troca de participar em inúmeros projetos, como, por exemplo, na prospecção de petróleo em alto mar nas áreas da CNPC e Rosneft no Mar de Barents e em outros pontos das águas russas.

A Gazprom, por sua vez, fechou negócio longamente esperado de gás com a CNPC: 38 bilhões de metros cúbicos por ano entregues pelo gasoduto ESPO, a partir da Sibéria, começando em 2018. E já no final de 2013, será finalizado e assinado um novo contrato chinês com a Gazprom, envolvendo fornecimento de gás para os próximos 30 anos.

As ramificações geopolíticas são imensas: importar mais gás da Rússia ajuda Pequim a, gradualmente, escapar do seu dilema Malacca e Ormuz – para não mencionar a industrialização das províncias do interior da China, imensas, muito densamente povoadas, duramente dependentes ainda da agricultura, e que ficaram à margem do boom econômico.

Eis como o gás russo encaixa-se no plano máster do Partido Comunista Chinês: para configurar as províncias do interior do país como base de apoio para a classe média chinesa – 400 milhões de chineses cada vez mais ricos, mais urbanizados, que vivem na costa leste.

Putin, ao dizer e insistir que não vê o bloco BRICS como “concorrente geopolítico” contra o ocidente, fez o que faltava fazer: negou oficialmente, para não deixar dúvidas de que, sim, sim, se trata exatamente disso. Durban será, provavelmente, a ocasião em que se sacramentarão apenas os primeiros movimentos dessa competição. Desnecessário dizer que as ‘'elites'’ ocidentais – ainda que estagnadas e à beira da bancarrota – não cederão, senão depois de muita luta, qualquer dos seus privilégios.



Os BRICS e a questão síria


25/3/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Encontro dos BRICS em Durban, África do Sul em 26/27 de março de 2013

O encontro dos BRICS em Durban prossegue, e ouvem-se os tambores da guerra pela Síria, cada vez mais próximos, dia a dia.

A reconciliação, na 6ª-feira que o Presidente Obama dos EUA costurou entre Turquia e Israel foi premontada em cenário dramático, na pista do aeroporto Ben Gurion próximo de Telavive, num trailer, quando Obama já partia, depois de concluída a visita a Israel. Foi preparada como espetáculo para a Região: para fazer crer que os EUA estão mudando de marcha para atacar a questão síria.

Dois dias antes, no domingo, veio a grave acusação, feita pelo poderoso presidente da Comissão de Inteligência do Senado e destacado Republicano, Mike Rogers, de que “acumulam-se evidências” de que o regime sírio já ultrapassou “completamente” a chamada “linha vermelha” que Obama fixou, sobre deslocamento e uso de armas químicas, pelas forças do governo sírio.

Tudo parece bem orquestrado. Na véspera, Obama anunciara em Jerusalém que qualquer uso de armas químicas pelas forças sírias seria fator para “mudança no jogo”. Agora, Obama tem o argumento perfeito para intervir militarmente na Síria.

CIA - Central Intelligence Agency Headquarters
Simultaneamente, o New York Times noticiou que a CIA já está metida até o pescoço no conflito sírio com tudo preparado para expandir suas operações clandestinas.

E Israel, por sua vez, já testa as defesas sírias nas colinas do Golan. O Ministro da Defesa israelense, Moshe Yaalon, alegou “ataque à soberania”, pela Síria. E tudo, na sequência imediata da visita de Obama a Israel e à Jordânia.

Ahmed Moaz al-Khatib
O mais revelador é a reestruturação na liderança da Coalizão das Oposições na Síria. No final da semana, Ahmed Moaz al-Khatib renunciou à presidência da coalizão. Khatib estava com viagem marcada a Moscou, para conversações.

Evidentemente, alguém ficou aflito com a possibilidade de Khatib ser persuadido pelos russos a dar uma chance ao diálogo nacional interno, na Síria.

Ghassan Hitto
Bingo! Um novo Primeiro-Ministro para a oposição síria surgiu repentinamente, do nada, no fim de semana, um sírio-norte-americano, profissional de Tecnologias da Informação, com base nos EUA: Ghassan Hitto.

Hitto tem sido vagamente apresentado como caixeiro-viajante a serviço da Fraternidade Muçulmana, mas o Embaixador dos EUA na Síria, Robert Ford, já apareceu citado pela Agência France Press, dizendo, simploriamente, que “ele é mais texano que da Fraternidade Muçulmana”.

De fato, não faz diferença que Hitto seja norte-americano ou Irmão. Mohamed Mursi do Egito é mais ou menos da mesma espécie. E os EUA estão bastante satisfeitos com o desempenho dos Irmãos até aqui, no Egito; e parecem bem interessados em ter mais regimes comandados pelos Irmãos no Oriente Médio Muçulmano. O Qatar e a Turquia não teriam o que objetar. 

Robert Ford
Sem dúvida alguma, o plano do jogo é estruturar um “governo no exílio” para a Síria firmemente controlado pelos EUA, antes de começar a intervenção militar de destruição total, ao estilo do que foi feito na Líbia, dessa vez na Síria. Nada de repetir as tolices que George W. Bush cometeu antes de partir para destruir o Iraque. Obama é gelado, cerebral e meticuloso, quando se trata de planejar eventos de tipo bélico.

Obama fará com que esses tumultos de mudança de regime agitem Damasco, quando os iranianos estiverem focados na eleição presidencial de junho, e a crucial formação de novo governo em Teerã (que jamais é fácil, dada as muitas divisões que cortam a política dos xiitas) estiver em curso. Obama foi a Israel e a Jordânia especificamente para organizar a guerra contra Síria e Irã, nada mais, nada menos.

No domingo, Obama despachou o Secretário de Estado, John Kerry, para Bagdá, em visita surpresa, para ler os mandamentos ao Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki e fazê-lo pôr fim aos voos sobre território iraquiano, até a Síria. Apertem os cintos. Turbulências pela frente.

Encontro dos BRICS em Durban - 26 e 27 de março de 2013
Mas, voltando aos BRICS: essa reunião em Durban será crucial, como marco do desenvolvimento do grupo. Pelo sim, pelo não, Tio Sam está de olho no que os estadistas dos BRICS fazem em Durban.

Interessante: o Brookings Doha Centre, think-tank que opera nos EUA e no Qatar, conclamou abertamente os BRICS para um motim! Querem que os presidentes de África do Sul, Brasil e Índia metam a coleira em Rússia e China, na questão síria

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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.