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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pepe Escobar − “Atenção: inferno saudita à vista”

21/2/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Caia fora, Peter O’Toole! Chegou o Charles da Arábia. O príncipe Charles entrou em modo Lawrence, quando fofocava e dançava em Riad, 3ª-feira passada (18/2/2014), com os nativos. E, certinho como relógio, dia seguinte a empresa BAE Systems – principal fabricante de armas da Europa – já anunciava que a Grã-Bretanha e a Casa de Saud haviam acertado “novos preços” em negócio extremamente sumarento: 72 jatos Eurofighter Typhoon.

O jato Eurofighter é concorrente direto do espetacularmente invendível Rafale francês e dos extraordinariamente caros F-35s e F-16s norte-americanos. A Associated Press incluiu devidamente na notícia – repetida em praticamente todos os jornais impressos do planeta – o meme impingido por Washington segundo o qual

(...) a Arábia Saudita e outros países do Golfo estão reforçando suas capacidades militares para fazer frente à ameaça já identificada, de rivais regionais, especialmente do Irã.

Como se Teerã fosse bombardear a Casa de Saud amanhã cedo.

Eurofighter Typhoon totalmente armado
O Eurofighter, porém, já foi usado contra irmãos árabes – por exemplo, no bombardeio humanitário contra a Líbia, pela Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, até converter a Líbia em estado arruinado. Está aberto o debate sobre se a Casa de Saud pode ser tentada a usá-lo também contra o inimigo interno: mulheres em luta para obter licença para dirigir.

Brandindo a desculpa oficial de que o quase nonagenário rei Abdullah não teve condições de saúde que lhe permitissem recebê-lo, Charles da Arábia não discutiu com a Casa de Saud a situação escandalosa dos direitos das mulheres, dos direitos dos trabalhadores migrantes, e, no que tenha a ver com direitos, de todos os direitos humanos no reino. Claro que não. Só se fala de direitos humanos quando se trata de demonizar Rússia, China e/ou Irã.

François Hollande
Além do mais, Charles da Arábia não poderia mesmo agitar demais as penas, porque os franceses também se estão posicionando como concorrentes no jogo-show de “aconchegue-se-aí-com-um-saudita”, do complexo industrial-militar (total de mais de US$70 bilhões, só nos anos mais recentes). O presidente francês, François Hollande – nulidade abissal em casa, mas Grande Libertador da África e da Síria – visitou Riad em dezembro, tentando empenhadamente roubar dos anglo-americanos uma fatia significativa do mercado. O problema de Hollande é que ninguém, no perfeito usufruto das próprias faculdades mentais, jamais cogitaria, que fosse, de comprar um Rafale.

Aí está a grana. Passe p’rá cá a minha bomba

Significa que a Casa de Saud está armazenando toneladas de armas. OK. O príncipe saudita da Arábia, Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, continua solto, financiando/armando seu exército sempre crescente de mercenários no Levante. OK. E a Casa de Saud está arquitetando alguma com seu aliado Paquistão. OK.

Apenas um dia antes de Charles da Arábia desembarcar em Riad, o ministro da Defesa saudita – e, o que é importantíssimo, príncipe coroado – Salmam bin Abdul Aziz estava em Islamabad. A alma do negócio foi – e o que mais poderia ser – um pacto de defesa.  

Ministro da Defesa da Arábia Saudita, Salman Bin Abdul Aziz e o Primeiro Ministro,  Nawaz Sharif do Paquistão em 18/2/2014 em Islamabad
Crucialmente importante, há também aí uma reverberação para o Oleogasodutostão. Em meados de 2013, o primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, andava excitadíssimo por causa do gasoduto Iran-Paquistão (IP) que, teoricamente, entraria em operação em 2015. Agora, já não tem muita certeza. Não é preciso ser o perspicaz Charles da Arábia para farejar pegadas dos sauditas em tudo isso – desmontando ativamente a parceria energética Irã-Paquistão.

Rei Abdullah
A paranoia da Casa de Saud em torno do Irã não tem similar no sistema solar; e a “mudança de regime” na Síria é elemento chave no cenário da retribuição. Por mais que Washington negue-sem-negar, sempre repetindo o mote do “não estamos envolvidos”, a rede de Bandar Bush em breve já estará fornecendo armamento antiaéreo às gangues mercenárias no Levante.

E adivinhem quem está correndo nas pegadas de Charles da Arábia rumo a Riad, mês que vem? Ele. O presidente Barack Obama. Como parte do ataque de vários braços pela Casa de Saud, o rei Abdullah praticamente suplicará a Obama (da Arábia?) que dê um empurrão decisivo para a “mudança de regime” na Síria.

Entrementes, a Casa de Saud tenta reunir a maior quantidade possível de “conselheiros” paquistaneses, para treinar seus paus alugados na Síria. A negativa-sem-negar oficial do Paquistão é que eles não mandarão aqueles exércitos à Síria. Mas, numa operação remix do Afeganistão durante a jihad dos anos 1980s, um pequeno punhado de “conselheiros” experientes será mais que suficiente.

E há também a cena nuclear da Casa de Saud. Já em 2012 andaram anunciando o ímpeto para construir nada menos que 16 reatores comerciais, que começariam a operar em 2030 e, como se não bastasse, foi assinado um acordo de cooperação técnica com Pequim.

Bandar Bush bin Sultan
A Casa de Saud gastou muito dinheiro no programa de armas atômicas do Paquistão. Não se trata sequer de “adquirir tecnologia nuclear” contra o Irã (demoraria tempo demais). Dependendo do resultado das conversações do grupo P5+1 com o Irã, a hiper paranoica Casa de Saud pode fazer chover cataratas de dinheiro sobre os cofres hiper quebrados de Islamabad e, simplesmente, comprar uma daquelas bombas atômicas.

Afinal, Riad acaba de oferecer secos 3 bilhões de dólares ao exército libanês, para que compre armas da França – movimento que franceses super excitados interpretaram imediatamente como um “divórcio tático” dos sauditas, separando-se do governo Barack Obama.

Seja qual for o ângulo pelo qual se examine tudo isso, há inferno provocado pelos sauditas, aí, logo à frente. Até em Teerã já há preocupação em torno da (in)sanidade dos sauditas – e o gabinete do Supremo Líder Aiatolá Khamenei sabe tudo o que há para saber sobre a paranoia cósmica, o velho rei Abdullah, 89, encaminhando-se rumo ao ocaso, a furiosa guerra pelo trono que advirá em seguida e, daqui até lá, a furiosa ofensiva de guerra de Bandar Bush.

Charles da Arábia e a Dança das Espadas
O que nos leva de volta ao perspicaz Charles da Arábia. Ele com certeza percebeu que há um continuum direto que liga o wahabismo medieval e um certo Osama bin Laden. Até recentemente, todos e quaisquer líderes de qualquer gangue de islamistas linha-duríssima partilhavam três traços comuns: estudaram na Arábia Saudita; foram financiados por fontes sauditas (pública ou privada); e alcançaram a “maturidade” no Afeganistão. Hoje, a paisagem jihadi está mais diversificada. Cabe então a Bandar Bush arregimentar a nova geração jihadi-Google, para suas “Frentes Islâmicas”.

Mas para a Casa de Saud, a agenda nunca muda: demonizar o Irã; fazer o serviço de menino de recados da superpotência e de “poderes” menores ocidentais; e comprar quantidades oceânicas de armas. Não surpreende que Charles da Arábia tenha dançado tão satisfeito, conforme aquela música; afinal, aqueles bons velhos amigos são os “nossos” filhos-da-puta medalha de ouro.



[*] Pepe Escobar 1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Rússia constrói pontes sobre ravinas no Oriente Médio


11/10/2012, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Um negócio multibilionário de armas com o Iraque; uma reunião de cúpula com a Turquia; um exercício de remendar cercas com a Arábia Saudita, um debut nos contatos com a esfíngica Fraternidade Muçulmana egípcia – tudo isso só num mês no turbulento Oriente Médio. E tudo isso acontecendo justamente quando o “retorno” dos EUA à região depois da agitação da eleição de novembro ainda é sonho distante. Em versão curta, a Rússia, de repente, apareceu em todo o Oriente Médio.

Nouri al-Maliki
Moscou anunciou ontem, 3ª-feira, que o Primeiro-Ministro do Iraque Nouri al-Maliki estava em visita à capital e que os dois países assinaram contratos de “mais de” US$4,2 bilhões em armas, aí incluída a compra, pelo Iraque, de 30 helicópteros de ataque Mi-28 e 42 sistemas de mísseis terra-ar Pantsir-S1, úteis também na defesa contra ataque de jatos.

A declaração conjunta russo-iraquiana divulgada em Moscou revelou que o negócio estava em discussão há pelo menos cinco meses e que as discussões prosseguiam, agora para a compra, pelo Iraque, de jatos MiG-29, veículos pesadamente blindados e outros tipos de armamentos. Um anúncio saído do Kremlin dizia que Maliki deve reunir-se com o presidente Vladimir Putin na 4ª-feira (hoje) e que a agenda de discussões é dedicada à cooperação entre Rússia e Iraque no campo da energia.

Os políticos norte-americanos entrarão em frenesi. Há notícias de que o telefone não parou de tocar no gabinete de Maliki em Bagdá, a partir do instante em que começaram a circular notícias de que viajara a Moscou e que alguma coisa “grande” poderia estar em andamento. Não paravam de chegar consultas do Departamento de Estado e do Conselho de Segurança Nacional sobre quem armara aquela visita, nesse ponto dos acontecimentos.

A questão, de fato, é que Maliki continua a ser perfeito enigma para Washington. Sem dúvidas é amigo dos EUA, mas bem pode ser mais amigo do Irã. Agora, pelo que se vê, também se sente atraído pela Rússia – como Saddam Hussein.

Washington e Ancara muito o perturbaram, trataram Maliki como galinha morta e chegaram a dar por encerrado seu futuro político, quando se aproximaram do norte do Curdistão, à caça de lucrativos negócios de petróleo, ignorando os protestos de Maliki, de que o Iraque é país soberano, a capital é Bagdá e há uma Constituição ali que diz que países estrangeiros não têm autorização para negociações diretas com “partes” do país, ignorando o governo central.

Vendas militares, sim. O “Big Oil”, não

Bashar al-Assad
Não só ignoraram os protestos de Maliki como também o puniram por opor-se ao golpe (“mudança de regime”) na Síria e por apoiar fortemente o presidente Bashar al-Assad. Nos últimos tempos começaram a agulhar-lhe o flanco, por ajudar o Irã a enviar suprimentos ao combalido regime sírio. Cometeram até a afronta máxima de dar asilo a um líder sunita iraquiano, já condenado por tribunais iraquianos e, portanto, fugitivo.

Atualmente, EUA e Turquia dedicam-se a unificar os vários grupos sunitas no Iraque, movimento sórdido, que pode levar à balcanização do Iraque.

O Curdistão já é região independente, de facto, por efeito da interferência de EUA e Turquia. O plano de jogo é continuar a minar o Iraque, patrocinando a criação de uma entidade sunita no Iraque central, como o Curdistão no norte, o que deixaria os xiitas iraquianos confinados no sul paupérrimo.

A visita à Rússia mostra que Maliki ainda não se deu por vencido e que não mais admitirá esse tipo de afronta à soberania do Iraque. O que é praticamente certo é que proporá a Putin que as empresas de petróleo russas voltem ao Iraque, trazendo a combate todos seus investimentos e sua tecnologia, retomando assim os fios no ponto em que foram deixados quando os EUA invadiram o Iraque em 2003.

Deve-se esperar que Maliki chute para fora do Iraque as petroleiras do “Big Oil” americano e as petroleiras turcas – o que terá implicações profundas no mercado mundial de petróleo, porque as fabulosas reservas iraquianas são comparáveis às sauditas.

Bem evidentemente, Maliki decidiu afirmar a soberania do Iraque.

Recentemente, cancelou acordo com a Turquia, remanescente dos tempos de Saddam, que permitira presença de militares turcos no norte do Iraque para monitorar as atividades dos separatistas do PKK. Mas Ancara rugiu e ignorou Maliki. O negócio, agora, com os russos, permitirá que Maliki reconstrua as forças armadas do Iraque e forçará os turcos a pensar duas vezes antes de violarem o espaço aéreo iraquiano ou supor que os militares turcos continuarão indefinidamente no norte do Iraque, sem serem perturbados.

Significaria que o Iraque esteja optando pela via de desafio estratégico aos EUA? Não. Os EUA ainda são o principal fornecedor de armas para o Iraque. Empresas americanas já venderam e devem entregar ao Iraque 30 jatos F-16. Nada mais distante do projeto de Maliki do que desafiar os EUA – pelo menos por hora.

O movimento de Maliki deve ser interpretado mais como “declaração” bem assertiva de que o Iraque é país independente. Pode-se dizer que não é movimento muito diferente do que anda fazendo o presidente Mohammed Mursi do Egito.

Mohamed Mursi
Posto em termos simples, os EUA terão de aprender a conviver com movimentos desse tipo: com o movimento do Iraque para reaquecer suas relações militares com os russos e com o movimento de Mursi de dedicar à China a sua primeira visita como chefe de Estado. Quase se pode prever que o próximo movimento de Mursi será também ressuscitar os laços entre Egito e Rússia. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov é esperado no Cairo no início de novembro, para o primeiro contato de alto nível com o governo de Mursi.

Verdade é que muito dependerá da compostura e da elegância que os EUA sejam capazes de mobilizar, no processo de adaptar-se às novas realidades no Oriente Médio. No pé em que estão as coisas, os EUA conseguiram vender $6 bilhões de armas ao Iraque. Os negócios, pois, prosperam.

A primeira reação do Departamento de Estado dos EUA ao contato entre Maliki e os russos, foi mostrar tranquilidade. A porta-voz Victoria Nuland disse que o negócio com os russos não implicaria qualquer estresse nos laços “militares-militares” EUA-Iraque, que são “muito amplos e muito profundos”.

Victoria Nuland
Revelou que prosseguem as negociações para “umas 467 vendas militares” para o Iraque, no valor de mais de $12 bilhões “se tudo avançar”. Nuland disse que “estamos negociando cerca de $12,3 bilhões em negócios militares com o Iraque. Entendo que ninguém precisa se preocupar, porque nossas relações são, simplesmente, fortíssimas”.

Uma nova química, ainda não testada

Mas não pode passar sem registro o toque de ansiedade nas palavras de Nuland. A verdade nua e crua é que “os russos estão chegando” e, dessa vez, vêm capitalistas e globalistas; também conhecem o mercado iraquiano, e o soldado iraquiano está habituado às armas russas. Durante a era Saddam, o Iraque era o maior comprador de armas russas e estima-se que Moscou tenha perdido cerca de $8 bilhões em vendas de armas, depois do golpe (“mudança de regime”) patrocinado pelos EUA em Bagdá, em 2003.

Mais do que previsivelmente, a Rússia fará o possível para repor as garras no mercado iraquiano e recuperar o tempo perdido. Mas negócios que envolvam armas invariavelmente carregam componente político e estratégico. No curto prazo, o “não-conhecido não conhecido” é se Maliki escolherá partilhar as capacidades iraquianas com seus aliados íntimos, iranianos e sírios.

Mahmoud Ahmadinejad
Significativamente, delegações síria e iraniana de alto nível também estiveram em visita a Moscou nos últimos meses. O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmedinejad está agendando visita a Bagdá. De fato, no mesmo momento em que russos e iraquianos assinavam o negócio de armas em Moscou, o Comandante da Marinha dos Guardas Revolucionários do Irã chegou ao Iraque, para uma visita – mostrando que há laços ainda fortes entre Bagdá e Teerã. Que ninguém duvide: Washington assiste ansiosa a essa movimentação nesse front.

Especialistas russos escreveram, no passado, sobre a emergência de um novo “bloco” no coração do Oriente Médio, compreendendo Irã, Iraque, Síria e Líbano, com o qual Moscou pode esperar ter laços especiais.

Mesmo assim os sinais que se veem hoje são de que a diplomacia regional de Moscou no Oriente Médio está mudando de marcha, determinada a construir pontes sobre as divisões geradas na região pela crise síria.

Sergei Lavrov
Sim, claro, a empreitada parece estranha, audaciosa demais. Mas, sim, Putin visitará a Turquia na próxima semana; Lavrov espera viajar a Riad no início de novembro para participar da segunda reunião do Diálogo Estratégico entre Rússia e os estados do Conselho de Cooperação do Golfo (que já foi abruptamente adiado uma vez pelo regime saudita, como represália contra o claro apoio dos russos ao regime de Assad na Síria); e Lavrov fará “visita sincronizada” ao Cairo, para reunir-se com os novos líderes egípcios e com representantes da Liga Árabe.

Ao divulgar a agenda das missões diplomáticas de Lavrov, o Vice-Ministro russo de Relações Exteriores, Mikhail Bogdanov acrescentou que “Nós [a Rússia] estamos interessados no diálogo e em discutir abertamente uma parceria com nossos colegas árabes do Golfo, os quais, especialmente a Arábia Saudita, o Qatar e outros, têm papel considerável, não pequeno, nos assuntos sírios. Sempre favorecemos a discussão dessas questões, inclusive os desacordos, em mesa de negociações, sobretudo depois que instalamos o mecanismo do Diálogo Estratégico”.

Mikhail Bogdanov
Bem visivelmente os alquimistas russos andam testando fórmulas novas, que possam ajudar na cicatrização das feridas sírias. Mas, como Bogdanov procurou deixar claro, essas formulações são ainda remédios de amplo espectro, que devem servir para estimular o metabolismo basal das relações russas na região, com parceiros recalcitrantes, muito incomodados com o atual quadro relacionado à Síria. Em termos ideais, Moscou gostaria de ver a cura surgir no quadro mais amplo de laços econômicos que beneficiem os dois lados.

Os laços entre russos e turcos e russos e sauditas, por exemplo, estavam-se fortalecendo no período de pré-crise síria. Os laços com a Turquia de certo modo estagnaram; e os laços entre russos e sauditas entraram em período de aguda turbulência.

Evidentemente, Moscou trabalha para restaurar o status quo ante.

Interessante é a avaliação feita pela diplomacia russa, segundo a qual a atual conjuntura oferece uma janela de oportunidades para oferecer aberturas a Ancara e Riad, independente da hemorragia que continua a sufocar a Síria.

O pano de fundo para essa avaliação é significativo. Pela avaliação que faz, Moscou evidentemente entrevê sinais de renovada possibilidade de que se alcance alguma solução política para a crise síria, apesar de o céu continuar carregado de nuvens negras. É avaliação audaciosa, carregada de méritos.

No pé em que estão as coisas, Turquia e Arábia Saudita enfrentam problemas graves na Síria. Ninguém supôs que o regime sírio tivesse vontade política e base social suficientes para resistir tanto; nem turcos nem sauditas esperavam que a “mudança de regime” se convertesse no que hoje se vê, com desenlace ainda incerto e consequências cuja extensão ninguém previu, não só para a nação síria mas para toda a região e, inclusive, para Turquia e Arábia Saudita.

Oriente Médio expandido
Mais uma vez, e sem cederem um passo na oposição a qualquer intervenção estrangeira na Síria, que Moscou e Pequim já expuseram amplamente, continua fora de cogitação qualquer tipo de mandato a arrancar do Conselho de Segurança. E, sem autorização da ONU, qualquer intervenção ocidental é cada dia mais improvável, além do fato de que os EUA não dão qualquer sinal de interesse nessa direção; quanto aos europeus, suas atitudes serão guiadas pelas prioridades das respectivas crises econômicas nacionais, as quais, segundo a mais recente estimativa do Fundo Monetário Internacional, escorregam para recessão prolongada, sem qualquer perspectiva de recuperação no curto prazo.

Sultanato e Prêmio Nobel

Em resumo, Turquia e Arábia Saudita tem nas mãos uma caixa de vermes, onde estão os rebeldes sírios, grupos de elementos disparatados que são receita certa de problemas futuros. Quanto à Turquia, com ou sem autorização da ONU, a opinião pública turca é massivamente contra qualquer tipo de intervenção na Síria.

O povo turco absolutamente não se deixou convencer que de algum interesse nacional vital dos turcos, esteja sendo ameaçado na Síria. Além do mais, a economia turca também está crescendo menos, e alguma recessão profunda na Europa criará grave tumulto para o destino econômico dos turcos. Até agora, o partido governante de Erdogan, o AKP tem jogado a carta da prosperidade econômica sem precedentes no país.

Recep Endorgan
Cada vez mais, portanto, todo o proativismo em relação à Síria mostra-se muito mais como ideia brotada do cérebro de acadêmico convertido em ministro das Relações Internacionais da Turquia, Ahmet Davitoglu, e do primeiro-ministro Recep Erdogan, do que como qualquer tipo de iniciativa bem pensada de política externa. Mas ainda que fosse iniciativa política bem amadurecida, as prioridades políticas de Erdogan estão às vésperas de mudar muito, agora que se prepara para candidatar-se à presidência da Turquia, sob uma nova constituição, em 2014.

Envolvimento sem fim à vista na Síria pode ameaçar suas ambições eleitorais, e já é visível a pressão do atual presidente Abdullah Gul, cujos índices de aprovação popular são visivelmente melhores que os de Erdogan.

Erdogan quer “mudança de regime” na Síria, e ainda trabalha para isso, mas tem de acontecer já. Erdogan não pode esperar muito, ou a Síria atropelará sua agenda eleitoral pessoal. Incomoda-o, portanto, muito, que o presidente Barack Obama não dê qualquer sinal de urgência na “mudança de regime” na Síria e que os europeus estejam concentrados nos próprios padecimentos.

Tudo isso considerado, pois, não surpreende que Putin tenha dado absoluta e urgente prioridade à visita à Turquia – apesar de Erdogan ter estado na Rússia há apenas dois meses. Putin tem excelentes relações pessoais com Erdogan. A qualidade dessas relações foram muito úteis para por as relações russo-turcas no novo plano qualitativo em que se veem hoje e nos últimos anos.

Vladimir Putin
Putin é estadista fortemente focado e decidiu dar nova vida ao tango russo-turco. No processo, o contrato para construir uma usina nuclear de $25 bilhões na Turquia pode sair do papel, e a Rússia também pode fechar bons negócios de venda de armas para a Turquia.

Pelo cálculo dos russos, a ideologia subjacente de Erdogan, que tenta construir política externa independente, precisa ser encorajada, não obstante alguns desvios recentes, como a decisão de acolher em solo turco o sistema de mísseis de defesa dos EUA.

Putin investe na possibilidade de que, no contexto de um renascer da velha chama entre russos e turcos, e tirando vantagem do dilema e das dificuldades de Erdogan na Síria, seja possível alguma discussão forte e significativa entre Moscou e Ancara, da qual, por sua vez, talvez seja possível evoluir para encontrar real solução política para a crise síria.

Estamos em tempos de Prêmio Nobel. Se Erdogan for persuadido de que pode ser o primeiro (e, provavelmente, também o último) sultão de toda a história otomana a receber um Prêmio Nobel da Paz, Putin terá dado, pessoalmente, valiosa contribuição para a paz do mundo.
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Fabricante brasileira do setor de defesa contesta acusações de revista alemã

Brasileira CBC assumiu alemã MEN em 2007

A Companhia Brasileira de Cartuchos, CBC, assumiu a fabricante alemã MEN em 2007. Desde então, segundo a revista "Der Spiegel", a empresa tenta burlar a legislação alemã de controle de armas. A CBC responde às acusações.

A edição 30/2010 da revista Der Spiegel colocou o grupo CBC no olho do furacão. A reportagem do semanário alemão afirma que a fabricante brasileira de armas e munições faz negócios com a Líbia e "até mesmo" com o Irã, insinua problemas no controle de qualidade dos produtos e que os funcionários trabalham sob pressão. E ainda: a tentativa de contornar a legislação alemã de controle de armas de guerra.

Mas o que a Companhia Brasileira de Cartuchos, CBC, tem a esconder? "A nossa empresa sofreu sérias acusações, mas nós nunca tivemos a chance de falar. Ficamos absolutamente chocados ao ler o artigo, sem termos tido a oportunidade de expressar o nosso lado da história", afirmou a direção da CBC à Deutsche Welle.

Em 2007, a brasileira CBC comprou a alemã MEN – Metallwerke Elisenhutte Nassau, cuja a fábrica está instalada na cidade de Nassau, região oeste do país. Segundo a reportagem da Der Spiegel, desde que a brasileira assumiu o comando da unidade alemã, há dúvidas sobre o cumprimento da lei alemã que regulamenta o setor de fabricação de armas.

"O artigo faz uma série de acusações baseadas em entrevistas com ex-funcionários, que foram demitidos com a nova administração. (...) O autor não tomou cuidado em apresentar qualquer prova, ou de checar os fatos em profundidade." A direção da empresa CBC disse que se prepara para processar a revista alemã.

O outro lado

Logo após a publicação do artigo, a fábrica alemã MEN enviou um comunicado aos seus clientes, em que rebate as afirmações. Segundo o documento, qualquer transferência de tecnologia exige autorização prévia da BAFA, autoridade alemã que controla as exportações. "Sem autorização, não há exportação", diz o texto. Martin Dettmer, diretor da unidade de Nassau citado na revista, assina a carta.

"A CBC nunca fez qualquer tipo de negócio com Líbia e Irã. Somos um dos principais fornecedores de armas de pequeno porte e munições para as forças armadas europeias da Otan. Vender para Líbia e Irã seria um equívoco político. (...) Nós consideramos cada aspecto das leis alemãs", respondeu a CBC ao questionamento feito pela Deutsche Welle.

A legislação alemã sobre exportação de armas é considerada uma das mais severas do mundo. Além do monitoramento rigoroso, as normas também consideram a responsabilidade pessoal dos gestores. "Desde o começo do ano, eu pessoalmente dei treinamento sobre o controle de exportações para mais de 50 trabalhadores da MEN", assinala Dettmer.

A direção do grupo ressalta ainda: "Ao fazer essas acusações, o artigo lança dúvidas não somente sobre nossa companhia, mas também sobre as autoridades que controlam nossas exportações."

Comércio e lei

O último estudo divulgado pelo Instituto Internacional de Pesquisa de Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) mostrou que a Alemanha duplicou suas exportações de armas nos últimos cinco anos. Entre 2005 e 2009, a participação do país como exportador no mercado bélico mundial saltou de 6% para 11%. A Alemanha ocupa o terceiro lugar entre os maiores exportadores de armas, atrás dos EUA (30%) e da Rússia (23%).

Os principais clientes da Alemanha são Turquia, Grécia e África do Sul. Segundo o Ministério da Economia, ao qual o BAFA é ligado, grande parte do equipamento bélico só é vendido a países da União Europeia e Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Nos últimos dois anos, a Alemanha autorizou exportações no valor entre 8 e 9 bilhões de euros. A permissão ou o indeferimento do negócio dependem de diversos fatores: não apenas questões técnicas, mas também a finalidade do produto comprado. A situação do país em questão também é importante. É necessário avaliar se os armamentos a serem exportados podem acirrar ainda mais os conflitos já existentes ou contribuir para a violação dos direitos humanos.

"Sem dúvida, a legislação alemã sobre exportação de armas é uma das mais rígidas do mundo," avalia Oliver Sprage, especialista da Anistia Internacional. Segundo ele, a globalização das indústrias de defesa também tem impactos negativos: há companhias que se esquivam de leis severas mudando bases de produção para nações onde o controle não seja tão sistemático.

Oliver Sprage também acompanha o trabalho de fiscalização das agências federais que controlam o setor. "Eu diria que, se fôssemos escolher algum lugar no mundo onde seria muito difícil driblar a legislação sobre armas, a Alemanha estaria nessa lista, com certeza."

Sobre as diferenças entre as leis brasileira e alemã, a CBC se posiciona: "O princípio básico é o mesmo: as empresas que estão no setor de defesa podem fazer negócios somente com aqueles países autorizados por seus próprios governos. Brasil e Alemanha são membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas e precisam respeitar os embargos".

A matriz brasileira

A Companhia Brasileira de Cartuchos foi fundada em 1926 e exporta aproximadamente 75% de sua produção para mais de 70 países. A compra da MEN, em 2007, e da tcheca Sellier & Bellot, em 2009, fazem parte da internacionalização da empresa, iniciada na década de 1990.

A alemã MEN atua há mais de 50 anos no fornecimento de munições militares e policiais para as forças armadas e polícias de vários países do continente europeu. A fábrica lidera o mercado alemão, com capacidade de produção de 180 milhões de cartuchos.

Autora: Nádia Pontes
Revisão: Roselaine Wandscheer


extraído do Deutsche Welle