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domingo, 7 de abril de 2013

Presidente Bashar al-Assad, da Síria: “Estamos cercados por países que estimulam o terrorismo”


5/4/2013, entrevista do Presidente da Síria, Bashar al-Assad à rede Ulusal Kanal, Turquia. Extraída do Information Clearing House
Vídeo e entrevista traduzida (do inglês) pelo pessoal da Vila Vudu


Ulusal Kanal (1): Senhor presidente, obrigado por nos receber. Minha primeira pergunta pode soar um pouco estranha, mas tenho de perguntar. O senhor pode confirmar, por favor, que está vivo e não deixou a Síria?

Bashar al-Assad, presidente da Síria: Em primeiro lugar, meus votos de boas vindas à Síria, a você e sua equipe. É um prazer para mim falar com vocês hoje. E, através de vocês, também com o povo da Turquia. Você pode ver que estou aqui, plenamente em campo. Não estou escondido num subterrâneo, como chegaram a dizer. São mentiras que se divulgam, de tempos em tempos, para abater o moral do povo sírio, que eu estaria vivendo no Irã, ou num navio de guerra. Vocês podem ver que estou aqui, na Síria, é claro.

Ulusal Kanal (2): Como o senhor sabe, em recente reunião da Liga Árabe, a cadeira que cabe à representação da Síria foi dada à oposição, o que abriu uma discussão sobre a sua legitimidade. Significará que a Liga Árabe retirou sua legitimidade, ao admitir o voto da oposição e pelo fato de que o senhor já não tem representação na Liga Árabe?

Presidente Bashar al-Assad: Falando bem francamente, a Liga Árabe, essa sim, não tem qualquer legitimidade. É organização que representa estados árabes, não os povos árabes. E não tem qualquer legitimidade já há muitos anos, pelo fato evidente de que os estados lá representados não manifestam a vontade do povo daqueles estados. Mesmo quando a Síria ainda participava da Liga Árabe, já sabíamos disso. Portanto, a Liga Árabe absolutamente não está em posição de “dar” ou “retirar” legitimidade a seja quem for ou a seja que país for.

Além disso, o movimento que se viu na Liga Árabe não passou de jogo de cena, um movimento apenas simbólico, para gerar uma ilusão de legitimidade. Nenhuma legitimidade brota de participar ou não participar de organizações políticas, internacionais ou quaisquer outras, nem nasce por doação de alguma nação estrangeira. Na Síria, só o povo sírio é fonte de legitimidade. E só isso nos interessa. O resto não nos diz respeito, nem nos interessa.

Ulusal Kanal (1): Há medidas, decisões, ações empreendidas contra seu país por alguns países árabes e também por países ocidentais. Por outro lado, os países BRICSs, que são observadores da situação síria, tomaram decisões diferentes das que foram tomadas pelos países árabes e outros países ocidentais. Como o senhor avalia as atitudes e posições tomadas pelos países BRICSs?

Presidente Bashar al-Assad: Sua pergunta chama a atenção para um ponto importante. Para começar, o conflito na Síria não é conflito local, doméstico. Há ativadas dinâmicas externas à Síria, a maioria das quais visam a redesenhar o mapa dessa região. E há na questão síria uma disputa, também, de interesses conflitantes das grandes potências. A criação do bloco de países chamados países BRICSs implica que os EUA já não são a única potência no mundo. Hoje, já é impossível ignorar os interesses difusos de outras forças, quando se tomam decisões na arena internacional.

BRICSs
Os países BRICSs não apoiam o presidente Bashar al-Assad ou o estado sírio: eles apoiam a estabilidade nessa região. Todos sabem que a agitação na Síria cria o risco de que forças terroristas assumam o controle na região. Todos sabem que, se o conflito em que a Síria foi jogada alcançar o ponto de rachar o país, ou se forças terroristas conseguirem chegar a controlar a Síria, ou no caso de que aconteçam as duas coisas, o que acontecer aqui imediatamente contagiará primeiro os países vizinhos, depois,
por efeito dominó, chegará a países em todo o Oriente Médio.

Nesse quadro, os países BRICSs apoiam uma solução política para a Síria, contra as demais potências ocidentais.

Se se consideram outros líderes árabes que se posicionaram contra a Síria, sabe-se que não são independentes, em termos políticos, daquelas mesmas potências ocidentais. São líderes que agem conforme o diktat daquelas potências ocidentais. Internamente, pessoalmente, é possível que também apoiem uma solução política. Mas quando o ocidente lhes dá ordens, são obrigados a obedecer. Em termos bem gerais, essa é a situação, na região e no plano internacional.

Ulusal Kanal(2): Nos dois últimos anos, temos assistido aos conflitos sobre a Síria e dentro da Síria. Esses conflitos são apoiados, por um lado, pelos EUA, França, Turquia e alguns regimes do Golfo. Esses regimes dizem que os grupos dentro da Síria combatem contra o seu governo. E mais de cem países declararam que o senhor deve deixar o governo. Isso posto, o senhor considera a possibilidade de deixar o governo e permitir que outro nome o substitua?

Presidente Bashar al-Assad: Sua pergunta implica que um grande número de países ocidentais, e nossos aliados, inclusive a Turquia, e muitos países árabes estariam contra essa presidência. Ao mesmo tempo, sua pergunta implica também [que os grupos internos] também estariam contra essa presidência. Nada disso explica que a Síria se tenha mantido firme, já há três anos. Não me incomoda que haja oposição ao meu governo. Sou presidente eleito pelo povo sírio. Disso se conclui que o presidente ficar na presidência ou deixar a presidência é uma grave decisão nacional, a ser tomada, exclusivamente, pelo povo sírio, não por outros estados que digam que desejam que a presidência fique ou saia. Sejamos francos. Será que todos esses estados estão preocupados com a Síria ou com o sangue do povo sírio?

A começar pelos EUA, que apoiam há décadas os crimes cometidos por Israel, desde que Israel foi criada em nossa região. Os EUA cometeram massacres no Afeganistão e no Iraque, que resultaram em milhões de mortos, feridos e mutilados. A França e a Grã-Bretanha cometeram massacres na Líbia, sempre com o apoio dos EUA. O atual governo turco está metido até os joelhos em sangue sírio. Volto a perguntar: quais desses estados estão preocupados com o sangue dos sírios?

A questão de se o presidente fica ou sai, é decisão que cabe ao povo sírio. Nenhum país do mundo tem qualquer coisa a ver com isso.

Ulusal Kanal (1): O senhor disse que o que está acontecendo na Síria é efeito de apoio que vem do exterior. Mas estamos em Damasco e se ouve o som de explosões e o som dos bombardeios, em diferentes distâncias nunca param. Por que isso tudo está acontecendo?

Presidente Bashar al-Assad: A Síria está cercada por países que estão ajudando terroristas a entrar em território sírio. Claro. Nem todos os países fazem intencionalmente e sabendo o que fazem. Por exemplo, o Iraque é contra esse movimento de infiltrar terroristas em território sírio, mas há circunstâncias que impedem que o estado tenha pleno controle de todas as fronteiras. No Líbano, a situação é de divisão: alguns partidos apoiam e outros se opõem à política de mandar terroristas para dentro do território sírio. A Turquia apoia e hospeda terroristas em termos oficiais e os está mandando para território sírio. Alguns grupos terroristas entram na Síria pela Jordânia e não se sabe ainda se com ou sem o apoio do governo jordaniano. Enquanto perdurar essa ação de contrabandear terroristas e armas para dentro do território sírio, nós continuaremos a lhes dar combate. É normal. É guerra, em qualquer sentido da palavra. Não há como separar os diferentes incidentes de segurança. Só é possível que terroristas continuem a entrar em território sírio, aos milhares, talvez dezenas de milhares – é difícil quantificar com precisão – se recebem apoio externo. E estão chegando de várias direções. Por isso há combates em várias regiões do país.

Recep Endorgan
Ulusal Kanal(2): Senhor presidente, o senhor disse que o governo turco apoia oficial e publicamente grupos terroristas, garantindo diferentes tipos de ajuda e apoio àqueles grupos terroristas. Mas sabe-se que, até bem recentemente, havia relações amigáveis entre Erdogan, o governo turco e o senhor. O que aconteceu, que mudou tanto essa situação?

Presidente Bashar al-Assad: É possível que Erdogan tenha visto, nos eventos em curso no mundo árabe, uma oportunidade para prolongar a própria vida política. É a mesma mentalidade da Fraternidade Muçulmana. Nossa experiência, na Síria, com a Fraternidade Muçulmana, ao longo de 30 anos, ensina que são um grupo de oportunistas. Usam a religião para obter vantagens pessoais. Ele [Erdogan] viu que em todos os países onde houve revoluções, ou golpes de Estado, ou intervenção estrangeira, a Fraternidade Muçulmana está hoje no poder. Erdogan viu, nisso, uma grande oportunidade para permanecer no poder, sob diferentes formas, ainda por muitos e muitos anos. Virou-se contra a Síria, porque viu aqui uma boa oportunidade para manter-se no poder. De início, tentou interferir em assuntos internos da Síria.

Já antes da crise, Erdogan estava mais interessado na Fraternidade Muçulmana, do que nas relações entre Síria e Turquia, muito mais do que no destino da Síria.

Esse pessoal pensa dessa forma. Dadas algumas circunstâncias, eles sempre pensam, primeiro, nos próprios interesses pessoais. Como já disse, Erdogan tentou, primeiro, interferir em assuntos internos da Síria. E depois o governo turco começou a apoiar publicamente vários grupos terroristas dentro da Síria. Hoje, estão muito profundamente envolvidos no derramamento de sangue dentro da Síria. Nesse contexto, as nossas relações deterioraram-se muito gravemente.

Ulusal Kanal (1): Perguntamos ao senhor Erdogan sobre as relações sírio-turcas. Ele diz que foi franco com o senhor e lhe fez várias propostas sobre reformas, que o senhor rejeitou. Por que o senhor não considerou as propostas que lhe foram feitas pelo senhor Erdogan?

Presidente Bashar al-Assad: Infelizmente, Erdogan não disse uma palavra franca e confiável desde que essa crise começou. Nenhuma. E não estou exagerando. As propostas eram muito gerais. Eu disse a ele que só o povo sírio decidiria quem seria presidente e que sistema de governo teríamos. Já comentei as propostas de Erdogan, com muitos detalhes, em vários pronunciamentos. Temos de preparar eleições, nas quais os vários grupos políticos apresentem candidatos. E assim decidiremos qual a melhor via para prosseguir. Por melhores e mais importantes que fossem as propostas de Erdogan, em nenhum caso seriam mais importantes ou melhores que eleições livres para saber o que o povo quer. O que poderia ser melhor que essa solução? Haverá eleições, e o que o povo decidir será implementado.

Mas há uma pergunta simples, que vocês deveriam fazer. Se Erdogan continua a dizer que suas propostas teriam resolvido todos os problemas na Síria, que relações haveria entre aquelas propostas que eu ouvi e o apoio que ele dá hoje a grupos terroristas? Hoje, nesse momento, Erdogan está recrutando, entregando armas, dando dinheiro, garantindo equipamento médico e outros detalhes de apoio logístico. E abriu a fronteira para que esses grupos entrem na Síria. O que isso tudo teria a ver com as propostas de Erdogan, que, sim, ouvi atentamente?

Erdogan sabe que, desde o primeiro dia, nós sempre aprovamos qualquer solução que implicasse diálogo político. Ele sabe. Nós anunciamos que aceitávamos o diálogo com todos os partidos políticos sírios. Quando nada disso funcionou, com a presteza que Erdogan precisava que funcionasse, ele mudou de conversa. E passou imediatamente a armar grupos terroristas. Erdogan mente. Aquelas propostas serviram-lhe como uma máscara.

Nós sempre aceitamos conselhos e contribuições de qualquer partido, em qualquer circunstâncias. Mas não aceitamos intervenção em assuntos internos da Síria. Parece que Erdogan entendeu mal nossa posição. Ele entendeu que as relações fraternas entre Turquia e Síria permitiriam intervenção em nossos assuntos internos, com o objetivo de derrubar um governo sírio legítimo. Mas, para mim, essa situação já estava bem clara, desde os primeiros dias.

Ulusal Kanal (2):  Há notícias na imprensa turca, de que há pessoal dos serviços de segurança envolvidos com em atividades terroristas e ajudando grupos terroristas, trabalhando para infiltrá-los em território sírio. Alguns jornais dizem que a Turquia comete crime, encobrindo esse tipo de atividade. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Presidente Bashar al-Assad: Como já disse, o atual governo turco não está, de modo algum, contribuindo para pôr fim à matança do povo sírio. Há quem esteja à espera de que a Síria adote a via da retaliação. Não o faremos.

Estamos contra o crime de infiltrar terroristas em território sírio, e contra todos os atos criminosos. Mas entendemos que o povo turco é povo irmão dos sírios. Em terceiro lugar, retaliação é, precisamente, o que Erdogan deseja. Ele quer criar um conflito entre o povo turco e o povo sírio, tentando angariar apoio popular para suas políticas. Está tentando restaurar parte da popularidade que teve, e já perdeu.

Os sírios não cairemos nessa armadilha. Por dois motivos: por princípios e porque os interesses sírios estão alinhados com os interesses do povo sírio, embora não, no momento, com os interesses do atual governo turco. Nenhum conflito entre o povo sírio e o povo turco jamais servirá a qualquer interesse dos nossos povos. E só fará complicar ainda mais as coisas. O que fizemos nos últimos dez, doze anos, desde que o presidente [Ahmet Necdet] Sezer foi eleito, em 2000, foi construir o debate entre nossos povos, entre árabes e turcos. Agora, o presidente Erdogan quer pôr a perder tudo o que foi feito. Não cometeremos nenhuma retaliação contra o povo turco. Para saber, consultem os serviços turcos de inteligência.

Mas, até agora, não capturamos nenhum agente da inteligência ou do exército turco que estivesse agindo na Síria. Isso não significa que não estejam aqui. Estão apoiando os grupos terroristas. Os serviços de inteligência da Turquia estão fornecendo todo o treinamento, todo o equipamento, todas as estruturas de comunicação – o necessário apoio da imprensa, indispensável – a grupos terroristas para que se infiltrem em território sírio.

Do que vários terroristas já confessaram, já sabemos que há indivíduos envolvidos na Turquia. O princípio desse envolvimento está no apoio que o atual governo turco dá à ação dos grupos terroristas. O fato de que não haja pessoal da inteligência turca operando dentro da Síria não implica que não estejam ativos.

Ahmet Davutoğlu
Ulusal Kanal (1): Suas declarações, senhor presidente, são bem claras sobre as políticas turcas. O Ministro de Relações Exteriores da Turquia, Davutoglu, disse que preferiria renunciar ao cargo, se tivesse de apertar a mão do presidente Bashar al-Assad, se ele permanecer no poder. O que significa isso, em termos das relações entre os dois países?

Presidente Bashar al-Assad: Não posso honrar essa declaração, com alguma resposta. Absolutamente não é o caso. Essa fala desonra o alto padrão moral do povo turco, que sempre testemunhei em minhas muitas visitas à Turquia. De minha parte, respeitado o alto padrão moral do povo sírio, não há o que responder. Minhas relações com Erdogan foram construídas como pontes entre nossos povos. Se o Primeiro-Ministro Erdogan e o atual governo turco já estão envolvidos na guerra que faz correr sangue sírio, já não se pode cogitar de pontes, nem pessoais, entre nós, nem entre eles, nem entre eles e o povo sírio.

Ulusal Kanal (2): Como o senhor deve ter sabido, quando o presidente Barack Obama esteve em Israel, o primeiro-ministro Netanyahu pediu desculpas à Turquia, sobre o que houve com o navio turco que levava ajuda a Gaza. Como o senhor interpreta esses desenvolvimentos?

Presidente Bashar al-Assad: Há uma pergunta clara e óbvia, nessa situação. O Primeiro-Ministro Netanyahu já era primeiro-ministro quando ocorreu o ataque ao navio turco, há três anos. Continua no mesmo posto. Por que jamais aceitou pedir desculpas antes, durante tanto tempo? O que mudou? É o mesmo Erdogan. É o mesmo Netanyahu. A grande mudança, de lá até hoje, é a situação na Síria. O que aconteceu prova, precisamente e muito claramente, que há um acordo entre Israel e Turquia, relacionado à situação síria. Também confirma que Erdogan está agora alinhado com Israel, trabalhando para agravar cada vez mais a situação na Síria. Nos últimos anos, Erdogan conseguiu mobilizar a opinião pública turca, como bem entendeu, contra a Síria. Também nunca desistiu de tentar cravar suas garras no estado sírio. A Síria continua a defender-se nessa batalha feroz. Erdogan não teria outro a quem recorrer, se não a Israel, potência ocupante, inimigo de todos os povos árabes.

Ao mesmo tempo, essas desculpas também ajudam Erdogan a restaurar, pelo menos em parte, a própria credibilidade, que ele perdeu, na Turquia.

Abdullah Ocalan
Ulusal Kanal (1): Quero retomar o que aconteceu em passado recente. Dia 21 de março, reuniram-se Erdogan e [Abdullah] Öcalan [do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) [1]]. Nessa reunião, discutiram a formação de um novo Oriente Médio, com árabes, sírios, curdos e turcos. O senhor acompanhou o desenrolar dessas reuniões e declarações?

Presidente Bashar al-Assad: Por hora, só temos a informação distribuída pela mídia. Ainda não recebemos os detalhes dessas conversações, de nenhum dos lados. Já há alguns anos, em todos os passos adotados para resolver a questão curda, nossa posição declarada sempre foi aceitar qualquer solução que satisfaça aos curdos e aos turcos, porque nunca quisemos mais e mais derramamento de sangue na Turquia, que sempre teria impacto negativo por aqui. Qualquer solução negociada e aceita entre essas duas partes terá nosso apoio, porque o povo curdo é parte natural do tecido da região. Não são hóspedes nem imigrados. Vivem aqui há séculos, há milhares de anos. Mas qualquer solução estável para a questão turco-curda depende hoje da credibilidade de Erdogan. É homem em quem não confio. Não cumpre o que promete. Todos os passos que está empreendendo hoje visam exclusivamente a angariar apoio político para ele mesmo. Aqui, outra vez, cabe a mesma pergunta óbvia: por que não tomou exatamente a mesma providência, de negociar com os curdos, há poucos anos? Outra vez a resposta é a mesma: isso, agora, também está relacionado à situação na Síria. E às eleições na Turquia.

Ulusal Kanal (2): O senhor disse que resolver a questão turco-curda é tema importante para toda a região. Podemos ouvir de Vossa Excelência uma opinião mais ampla sobre como resolver essa questão?

Presidente Bashar al-Assad: Temos de ser bem claros: nacionalidade é diferente de etnicidade. Vivemos em região mestiça. O fato de você ser turco não implica que não possa ser curdo ou armênio, ou de origem árabe. Somos árabes pela cultura e pela língua. A situação na Turquia é semelhante à situação na Síria. Quando digo “árabe” não falo de etnia ou raça.

Os dois nacionalismos, o turco e o árabe, mostram o quanto o modelo nacionalista pode ser civilizado, de inclusão de diferentes. O problema é que esse conceito, no passado, foi adotado por uma mentalidade de exclusão, de uma cultura rejeitar ou eliminar a outra. Eu entendo que um dos aspectos mais belos dessa região é a diversidade. E um dos maiores perigos que corremos é não ver essa diversidade como fator de enriquecimento e de empoderamento. Mas em vez disso, temos assistido a pessoas que convocam forças e interesses de fora, para nos lançar uns contra os outros e criar conflitos por aqui. Foi o que se viu acontecer no início do século passado, quando começaram os conflitos entre turcos e árabes, nos dias finais do Império Otomano.

Muitos grupos nacionalistas árabes quiseram que diferentes nacionalismos árabes florescessem dentro do Império Otomano. Mas isso gerou conflitos e levou a erros de todos os lados, o que facilitou a intervenção por atores estrangeiros.
Hoje, temos de ver a situação com interesse em promover a inclusão de todos. Somos feitos do mesmo tecido diverso, entretecidos de diferentes cores.

Ulusal Kanal (2): Senhor presidente, uma das questões mais difíceis atualmente em discussão na Turquia é a questão do PKK. Há discussões sobre organizações que estariam operando na Síria e teriam ligações com o PKK, que teria forte influência sobre aquelas organizações. O que se diz é que essas organizações estariam muito interessadas em criar um vácuo militar no norte da Síria, a ser preenchido por aquelas organizações. Como o senhor, presidente, lê essas informações?

Presidente Bashar al-Assad: Quando há caos em qualquer estado, como é o caso hoje na Síria, sempre aparecem muitos grupos interessados em preencher os vácuos. Às vezes, são gangues, interessados só em matar e roubar. Às vezes são grupos políticos, às vezes são partidos, com programa político. Existem na Síria, na Turquia, no Iraque, em outros locais. Não se pode generalizar, e incluir todos os curdos no que é agenda só de pequenos grupos. Muitos curdos são patriotas, querem viver na Síria. A emergência de alguns casos específicos não é motivo para que generalizemos, como se houvesse situação homogênea. A separação depende de outro tipo de ambiente. Tem de haver amplo apoio popular. Ou a luta é feita com interessados externos. Entre curdos sírios e curdos turcos, as circunstâncias são muito diferentes. No momento, essa questão não me preocupa.

Ulusal Kanal (1): Senhor presidente, temos agora uma questão muito importante. Desde o início dos eventos na Síria, alguns partidos e pesquisadores insistem em discutir outro projeto, envolvendo a superação dos estados no norte da Síria, norte do Iraque, sul e leste da Turquia, separando essas regiões de seus respectivos estados centrais. O senhor acha que há o risco de o norte da Síria acabar por superar o estado central?

Presidente Bashar al-Assad: Como eu já disse, as atuais circunstâncias na Síria não sugerem qualquer movimento nessa direção, sobretudo se se considera a opinião pública em geral. O povo sírio rejeita completamente qualquer ideia de separação do estado sírio. Nenhum estado soberano aceitaria que partes do território sejam cortadas do território principal. Essa posição é categoricamente inaceitável e absolutamente indiscutível.

Ulusal Kanal (1): Baseados em nossas perguntas e suas respostas: parece haver um plano bem claro, construído por países ocidentais, em cooperação e coordenação com alguns países da região, para criar um Grande Curdistão, que seria formado de uma parte do norte do Iraque, leste do Irã, norte da Síria, e sul e leste da Turquia. Parecem decididos a alcançar esse objetivo. Estamos andando nessa direção?

Presidente Bashar al-Assad: Não acredito que esses quatro países, Iraque, Síria, Irã e Turquia, subscreveriam essa proposta. Estados independentes, hoje, trabalham pela integração, não pela subdivisão e separação. Infelizmente, nossa região é uma exceção, e sinal de atraso. Hoje, o que se vê é a formação de grandes blocos de países. Os BRICSs são bom exemplo. Os estados buscam unir-se em blocos maiores, porque isso é uma exigência dos tempos que vivemos. Por que, então, em nossa região, andaríamos na direção contrária, buscando a segmentação? O que impediria que pessoas de diferentes nacionalidades, religião, etnia, vivam juntas?

Se aceitarmos a noção da separação, teremos de viver com as consequências, a saber: fragmentação em vários pequenos miniestados baseados em etnicidade, reforçando as diferenças. Assim se cria uma situação extremamente perigosa, que só gerará mais guerras no futuro. Por isso não me parece que essa proposta de divisão seja proposta a considerar, nem que seja proposta séria.

Esses quatro estados que a proposta divisionista considera deveriam, isso sim, dedicar-se a fazer com que todos os seus cidadãos sintam-se como cidadãos de primeira classe. Todos com direitos e acesso igual aos direitos. A solução, por essa via é clara e simples. Mas se, por outro lado, há cidadãos que se sentem humilhados, é normal que pensem em separação.

Ulusal Kanal (2): Senhor presidente, o senhor teve um projeto interessante. O senhor falava da construção de meios para a unificação política e econômica dos cinco ‘'curdistões'’ [orig. Five “Cs”]. Pode falar ao público turco sobre como todos poderíamos nos beneficiar do seu projeto?

Presidente Bashar al-Assad: É exatamente o que já disse, quando falei sobre a exigência, no mundo contemporâneo, de integração e unificação. A quem interessaria criar mais um estado, à maneira dos estados que existiam antigamente, em vastos impérios territoriais? Hoje é possível nos unirmos nós mesmos, com vistas aos nossos próprios objetivos gerais de todo o Oriente Médio. Por exemplo, todos podemos construir estradas, e diferentes vias para transporte terrestre. Vias regionais de fornecimento de água, gás, petróleo, outras formas de energia. Criar redes que unam nossos países, nessa região crucialmente estratégica do mundo que se designa como “os cinco curdistões”. Todos os países devem dirigir investimentos para essa região. Assim se fortaleceriam todos os países e também os vários nacionais de etnia curda.

Essa visão exige determinação, vontade e capacidade para tomar decisões independentes na nossa região, sobretudo se muitos grandes estados ocidentais não têm interesse algum em qualquer projeto que vise a beneficiar os cidadãos da nossa região, a fortalecer a região. Não têm qualquer interesse em promover a estabilização do Oriente Médio.

Não me parece que, hoje, haja condições objetivas para trabalhar na direção desse nosso projeto. Há muitos problemas na Síria, no Líbano, no Iraque. Praticamente todos esses problemas são resultado da intervenção do ocidente. E, na Turquia, por exemplo, entendo que não há governo independente. E a Turquia seria elemento central para implementar esse projeto, sobretudo por sua posição estratégica.

Mas nada disso significa que o projeto tenha sido cancelado. Temos de manter na cabeça a ideia de que o futuro dessa região depende de grandes projetos como esse. Se todos continuarmos confinados em nossas respectivas fronteiras nacionais, continuaremos a ser países pequenos, na escala global. Mesmo no caso de países de grande território, como Turquia e Irã, não conseguirão manter-se sozinhos, se não estruturarmos esses grandes projetos transfronteiras.

Ulusal Kanal (2): A partir de sua resposta, gostaria de passar a outra questão, relacionada às guerras sectárias. Muita gente fala de guerra entre sunitas e xiitas na região. Na sua opinião, os conflitos em curso podem ser vistos como sectários por natureza?

Presidente Bashar al-Assad: Essa questão foi levantada pela primeira vez em 1979, a partir da Revolução Iraniana, que derrubou do poder um dos mais importantes aliados dos EUA na região. A única solução foi apresentar aquela revolução como se fosse revolução xiita, para que outras seitas se opusessem a ela. Nesses termos, inventaram a guerra Irã-Iraque, que foi apoiada por alguns países do Golfo. Pouco depois, a Fraternidade Muçulmana na Síria foi usada para o mesmo objetivo: para criar oposições sectárias. Falharam nos dois casos, na primeira e na segunda tentativa. Agora, três décadas depois, não há outra escolha, além de criarem novamente a alternativa sectária. Por isso, voltam a levantar a mesma questão agora.

No início da crise, as posições foram sectárias. Falharam, até agora. Se tivessem sido bem sucedidos, o regime teria sido fragmentado, em resultado desse conflito. O aspecto positivo disso tudo, é que a opinião pública vai-se tornando cada dia mais consciente das ideologias sectárias. Mas há bolsões sectários, alimentados pela ignorância, que sempre há, em qualquer sociedade.

Acredito que, agora, a essência do conflito não é sectária. O conflito hoje se trava entre forças e estados que querem empurrar os povos para aqueles estágios atrasados, e forças e estados que querem que os povos da região possam avançar. Entre os que querem que os povos da região encontrem aqui uma pátria onde possam viver livres, e outros que querem que aqui só haja estados-satélites, exclusivamente para promover interesses daqueles estados e forças, não dos povos da região. Ao mesmo tempo, aquelas forças são parte de uma luta internacional de interesses conflitantes, da qual Síria e Turquia são parte. Essa luta está sendo afetada por diferentes fatores que podem levar à fragmentação dessa região, de modo a permitir que potências globais passem a controlar nosso destino e nosso futuro.

Mustafá Gamal Ataturk
Ulusal Kanal (2): Mesmo assim, fora da Síria, estão sendo adotadas políticas oficiais baseadas em divisões e fragmentação baseadas em etnicidade e por seitas religiosas. Por outro lado, vivemos e testemunhamos na Turquia o processo do qual o senhor fala, especialmente depois que a República secular foi criada e dirigida por Mustafá Gamal Ataturk. Mas, infelizmente, esses estados e governos afastaram-se daquele projeto, que trocaram por projetos religiosos e sectários. Como o senhor vê o futuro desses sistemas políticos?

Presidente Bashar al-Assad: Esses sistemas políticos e establishments que buscam a divisão e a fragmentação estão preparados para guerras que se arrastem por anos, mesmo séculos em nossa região. Destruir tudo. Impedir qualquer prosperidade, qualquer desenvolvimento, devolver à Idade Média vários aspectos de nossa vida. Isso é muito perigoso. Quando penso em secularismo, falo em liberdade para todas as nossas religiões e práticas religiosas. Nossa região é basicamente conservadora. Muitos são religiosos e devem ser livres para praticar a religião que prefiram, para cumprir seus rituais. Não devemos pensar nem por um momento, que haja alguma contradição entre etnicidade e religião. Essa é a essência de nosso pensamento sobre secularismo. Por isso, sempre trabalharei pela unificação dos nossos povos nessa região.

Como já disse antes, não importa a natureza das nossas questões entre Síria e Turquia, não se pode permitir que coisa alguma afete as relações entre nossos povos, entre os sírios e os turcos. Porque na aproximação entre nossos povos está a única garantia que temos para preservar a diversidade, que é a riqueza de nossas sociedades.

Ulusal Kanal (1): Senhor presidente, o senhor acompanha de perto os desenvolvimentos na Turquia?

Presidente Bashar al-Assad: É normal que acompanhe. O que acontece na Turquia acontece em outros grandes países, que ocupem posição estratégica e tudo que aconteça nesses países afeta a situação síria. Ao mesmo tempo, há tantas semelhanças: a natureza do povo, as emoções, a textura do tecido social na Turquia. Há muitas semelhanças. Repito: o que aconteça na Turquia sempre terá impacto sobre a Síria, Por isso entendemos que a estabilidade na Turquia é do mais alto interesse também da Síria. E vice-versa. Se vocês sofrerem turbulências, nós seremos afetados. O desafio, hoje, é convencer o atual governo turco, especialmente o Primeiro-Ministro Erdogan, de que fogo na Síria queimará a Turquia. Infelizmente, ele não vê essa realidade.

Ulusal Kanal (2): Quanto ao diálogo com a oposição, o senhor sempre falou a favor de solução política e diálogo direto com a oposição. Há prazos e limites [orig. red lines, linhas vermelhas] para esse diálogo?

Presidente Bashar al-Assad: A única “linha vermelha” é qualquer intervenção estrangeira. Qualquer diálogo terá de ser diálogo sírio, exclusivamente entre sírios. Não se admite nenhuma intervenção estrangeira nesse diálogo. Exceto por esse limite, absolutamente não há qualquer outro limite. Os sírios podem discutir tudo que queiram discutir, qualquer tema, qualquer questão. A Síria é a pátria deles todos e todos podem discutir o que queiram. Não há “linhas vermelhas”.

Mohammad al-Bouti
Ulusal Kanal (2): Muitos veículos de imprensa insistem em que a Síria seria governada por uma ditadura alawita, interessada exclusivamente em eliminar os sunitas. E até o assassinato de Mohammad Said Ramada al-Bouti entra nesse quadro. Como o senhor responde a essas acusações?

Presidente Bashar al-Assad: Falamos no início sobre a diversidade dessa região. E vivemos estáveis por muitas décadas, sem qualquer problema interno. Como teríamos conseguido aquela estabilidade, se não houvesse aqui um governo que é a imagem do próprio povo? Seja onde for, se o governo é controlado por um ou mais grupos, contra outros grupos sociais e, assim, não reflete as características de toda a população, o governo não pode sobreviver. Nenhuma dessas acusações é verdadeira. Vivemos em paz na Síria durante décadas, porque o governo sempre foi expressão da diversidade do próprio povo.

Quanto à morte do Dr. al-Bouti [muçulmano sunita tradicionalista], é ridículo acusar a Síria de qualquer envolvimento naquele assassinato. Essas acusações são feitas pelos mesmos grupos que, antes, o acusavam, apenas poucos dias antes, de ser porta-voz de autoridades religiosas, em assuntos religiosos. É operação pensada para ferir a popularidade do Dr. al-Bouti entre os sírios e entre seus seguidores no mundo muçulmano. Ele nunca teve autoridade, nem foi porta-voz de nenhuma autoridade. Jamais quis para ele qualquer autoridade. Nunca quis ser ministro, ou moufti, nunca pediu dinheiro a ninguém e era homem de vida simples. Seu único crime é que se pôs à frente do grupo de religiosos [sunitas] ativamente envolvido no trabalho de promover divisões sectárias entre os sírios. O Dr. al-Bouti estava à frente daquele grupo, primeiro, por sua posição na Síria e no mundo muçulmano. Segundo, porque tinha grande dificuldade para entender o que realmente está acontecendo.

Não há dúvida de que sem a concordância desses líderes religiosos é praticamente impossível criar os conflitos religiosos, mas os líderes acabam pagando com a própria vida, pelo sectarismo que pregam. Não há dúvidas de que o Dr. al-Bouti tinha grandes defeitos, sobretudo na posição que adotou nessa guerra. Não apoiava o Estado sírio e aliou-se aos estrangeiros. Por esse e outros erros, pagou com a vida, numa luta religiosa que ele mesmo incentivou. Mas outros líderes religiosos que não compactuam com o movimento para separar os grupos religiosos também têm sido assassinados. Mais um deles foi assassinado, há poucos dias, em Aleppo. Todos os líderes religiosos que não preguem divisionismos e ensinem sobre tolerância religiosa, sobre moderação, opõem-se a guerras religiosas, não as incitam.

Ulusal Kanal (1): Muito obrigado, senhor presidente, por essa entrevista a Ulusal Kanal. Há mais alguma coisa que o senhor queira dizer ao povo turco?

Ulusal Kanal (2): Estamos agora num momento crucial da história. Falo da Síria, da Turquia, de toda a região. Tudo que se vê acontecendo aqui tem alguns elementos espontâneos e tem também elementos planejados fora daqui, e que foram planejados com o objetivo de alcançar pleno controle de toda essa região. O que acontece hoje é, na essência, similar ao que aconteceu há 100 anos, em termos de projeto para redividir a região. Mas há 100 anos, nós aceitamos a redivisão da região: uma parte para eles, uma parte para nós, uma parte para outros interessados. Dessa vez, contudo, não podemos aceitar nenhum redesenho da região que não considere os interesses dos próprios povos da região. O povo terá de tomar suas decisões. Nós decidiremos. Infelizmente, vários governos da região não veem as coisas desse modo. E aceitam ordens e agem em obediência ao diktat dos interesses de estados estrangeiros, na maioria estados ocidentais.

Nos últimos tempos já se viram várias tentativas para semear a discórdia entre os povos sírio e turco. Quero dizer que o trabalho que iniciamos há dez anos, com o presidente Sezer deve ser retomado e continuado. Refiro-me ao trabalho para construir solidariedade e amizade entre turcos e sírios. Nada disso será jamais possível se não houver relações normais entre nossos estados. Como já disse, a prosperidade de um dos estados da região refletir-se-á nos demais. Pela mesma razão, o que haja de divisões e conflito num de nossos países, respingará fatalmente sobre o outro.

Governos passam e é importante que passem. Por isso temos de construir projetos que fortaleçam os povos da região, não projetos que só interessam a potências estrangeiras. É a mensagem que tenho para o povo turco. [despedidas e fim da entrevista]



Nota dos tradutores:
[1] Partiya Karkerên Kurdistan; em português, Partido dos Trabalhadores do Curdistão. O PKK tem um braço armado, Força de Defesa do Povo (conhecido pela sigla HPG), listado como “organização terrorista” pela Turquia e pelos EUA; até recentemente, também pela União Europeia, que o deslistou por ordem judicial.  

terça-feira, 26 de março de 2013

Obama organiza os cães da guerra contra a Síria


25/3/2013, MK Bhadrakumar*, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e Benyamin Netanyahu
A cortina de fumaça que envolvia a visita do presidente Obama a Israel afinal foi dissipada. Afinal de contas, ninguém engoliu a tese de que não passaria de visita rápida, de amigo saudoso, para fazer reaquecer a velha chama, bastante chocha, entre Obama e o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e que só isso arrastaria o Presidente dos EUA para o Oriente Médio, em rara excursão transoceânica.

Recep Tayyip Erdogan
A revelação surgiu, dramática, no último instante da visita e Obama, quando o presidente dos EUA preparava-se para embarcar no avião presidencial no aeroporto de Telavive, na 6ª-feira. Bem ali, na pista, num trailer improvisado, ele telefonou para o Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip Erdogan e, depois de rápida troca de piadinhas, estendeu o telefone a Netanyahu, que fez ali o que até então se recusara firmemente a fazer ao longo dos últimos dois anos: pediu desculpas oficiais à Turquia pelo assassinato de nove cidadãos turcos, em 2010, quando viajavam em flotilha em missão humanitária para ajudar os sempre maltratados palestinos no enclave de Gaza.

O incidente de Gaza agrediu as relações turco-israelenses, e as coisas degeneraram rapidamente quando Telavive recusou-se terminantemente a pedir desculpas formais e a pagar uma indenização, como Ancara exigia. Foi provavelmente a primeira vez em toda sua história diplomática, que Israel, que zela atentamente por sua imagem de “machão”, ajoelhou e pediu desculpas nacionais a país estrangeiro por pecados cometidos. O problema foi que, sem a Turquia, Israel ficava cercada e absolutamente sem ajuda possível na região, reduzida ao papel de mera espectadora numa conjuntura histórica em que a região vive em torvelinho e passa por um levante.

A aliança com a Turquia é vital para que Israel consiga salvaguardar seus principais interesses. Na declaração em que festejou a reconciliação Israel-Turquia, o Secretário de Estado de Israel disse claramente que esse desenvolvimento “auxiliará Israel a enfrentar os muitos desafios que enfrenta na região” e que a plena normalização de relações entre os dois países permitirá que ambos “trabalhem juntos para promover seus interesses comuns”.

Murat Yetkin
A conversa telefônica no aeroporto de Telavive não aconteceu de repente. Em história dos bastidores e antecedentes, o veterano editor turco, Murat Yetkin, comentarista muito bem informado que escreve de Ancara, revelou que, segundo “fontes de alto escalão”, Washington havia construído uma aproximação com Ancara há poucas semanas, com a conversa de que Obama desejava construir uma reaproximação entre Erdogan e Netanyahu e que gostaria de fazer da visita a Israel uma missão de mediação. Yetkin escreveu:

Tendo Ancara garantido que aceitaria os bons serviços dos EUA para acertar-se com Israel, desde que houvesse um pedido de desculpas, a diplomacia começou. Antes de Obama iniciar a visita, dia 20/3, já havia rascunhos dos termos de um possível acordo, que voavam para lá e para cá, entre Ancara e Jerusalém, sob os auspícios da diplomacia norte-americana.

Sinais bem evidentes

A grande questão é saber por que a normalização entre Turquia e Israel tornou-se tão terrivelmente importante para Obama, que já tem problemas suficientes com que se preocupar em tantas áreas – e também por que seria também tão importante para Erdogan e Netanyahu? A resposta deve ser buscada no depoimento dado pelo comandante do Comando Europeu dos EUA e alto comandante militar da OTAN, James Stavridis, à Comissão das Forças Armadas do Senado dos EUA na 2ª-feira, véspera da partida de Obama, de Washington para Israel.

James Stravidis
Stavridis insistiu, frente aos políticos norte-americanos, que postura mais agressiva dos EUA e aliados poderia ajudar a quebrar o impasse que se vê na Síria. Nas palavras dele, “Minha opinião pessoal é que ajudaria muito a quebrar o impasse e a derrubar o governo sírio”. O influente senador John McCain interrogou Stavridis sobre o possível papel da OTAN numa intervenção na Síria. Stavridis respondeu que a OTAN prepara-se para várias contingências. “Nós [OTAN] consideramos amplo espectro de operações e estamos preparados se for preciso agir, como estávamos preparados para agir na Síria” – disse ele.

Stavridis explicou que os mísseis Patriot da OTAN, hoje instalados na Turquia, à primeira vista para ajudar a defender o espaço aéreo turco, têm capacidade para atacar também a força aérea síria naquele país, e que operação desse tipo, pela OTAN, seria “poderoso desincentivo” para o regime sírio.

Também é significativo que os navios da OTAN do Standing NATO Maritime Group 1, SNMG1, que chegaram ao leste do Mediterrâneo no final de fevereiro, visitaram a base naval turca de Aksaz (onde o Grupo Tarefa Sul da Turquia mantém unidades especiais, como as de“ataque subaquático”), recentemente, a caminho de unir-se, semana passada ao US Strike Group formado do porta-aviões USS Dwight D. Eisenhower e navios de escolta. The SNMG1 é parte da Força de Resposta da OTAN, permanentemente ativada e mantida em alta prontidão, para responder a ameaças de segurança.

Assim, se vê emergir o quadro – além de outros sinais muito claros – no qual parece bem claro que está em produção uma intervenção militar ocidental na Síria. A questão central, agora, é o timing. O Irã prepara-se para uma eleição presidencial crucial em junho, e estará intensamente dedicado à política doméstica, no mínimo ao longo de vários meses.

Obama movimenta-se cuidadosamente, preparando tudo para que absolutamente não se considere a possibilidade de ter de haver coturnos norte-americanos em solo sírio. A opinião pública nos EUA se oporia a mais outra guerra. Mas os EUA e a OTAN (e Israel) podem oferecer valiosa cobertura aérea e lançar mísseis devastadores contra os centros de comando do governo sírio.

Bashar al-Assad
As potências ocidentais se concentrariam em eliminar o Presidente Bashar al-Assad, não mais em disseminar choque e pavor e ocupar fisicamente o país, como George W. Bush fez, pouco inteligentemente, na guerra do Iraque. Mas se, depois de ter degradado amplamente o governo sírio, for indispensável que tropas ocupem território sírio, a Turquia sempre se poderá encarregar disso. A Turquia, de fato, está em posição perfeita para fazê-lo: é país muçulmano e membro da OTAN.

Mas o aspecto crucial será que, para otimizar a operação EUA-OTAN-Turquia, Israel tem de participar. Cooperação próxima entre Turquia e Israel, no nível operacional, pode pulverizar o governo sírio simultaneamente, pelo norte e pelo sul. Daí o empenho e a diligência com que Obama tratou de resolver o impedimento que mantinha afastados Israel e Turquia.

A Turquia, é claro, tem forte motivações – históricas, políticas, militares e econômicas – para invadir a Síria, com a qual tem antigas disputas por acertar. O governo do partido Baa’th em Damasco jamais aceitou a hegemonia turca no Levante, e a Síria forte e assertiva é, há muito tempo, espinho cravado na carne de Ancara. Além do mais, há candentes disputas territoriais.

Zonas conflagradas na Síria em Ago/2012 - Não houve alteração significativa nos últimos meses
Para Israel, a destruição da Síria como uma das potências militares do Oriente Médio significará que as três potências árabes que ofereceram resistência a Israel no passado e foram repositórios do “arabismo” num ou noutro momento – o Iraque, o Egito e a Síria – terão sido varridas do mapa, despachadas de volta à Idade da Pedra.

Mas o renascimento do eixo estratégico Turquia-Israel tem outras grandes implicações também para a segurança regional. Do ponto de vista de Erdogan, já mamou aplicadamente até a última gota, politicamente falando, do que lhe poderia render a posição de quem enfrentou Israel e o sionismo, com o que lustrou sua imagem na “rua árabe” como verdadeiro líder muçulmano, defensor da causa árabe.

Erdogan sente, muito provavelmente, que as “desculpas” de Netanyahu ainda elevarão mais alto sua imagem como líder muçulmano que fez Israel baixar a cabeça, numa confrontação direta. Mas, isso posto, e como político astuto que é, Erdogan já deve ter percebido que sua imagem já entrou em fase de lucros cessantes e que é hora, agora, isso sim, de buscar algum apoio dos israelenses. (...) 

Num nível mais amplo, a reconciliação turco-israelense ajudará o futuro papel da OTAN no Oriente Médio. Os EUA esperam introduzir a OTAN em termos de longo prazo, como mantenedora da paz no Levante – descobriram-se massivas reservas de energia na Bacia do Levante, em anos recentes – e pré-requisito para tudo isso é que haja íntima coordenação com Israel.

Os esforços da OTAN nos últimos quatro a cinco anos para por Israel em plena ação no Mediterrâneo Leste como membro virtual da aliança estavam indo bem, até que aconteceu a rixa entre Turquia e Israel, em 2010. Durante os últimos dois anos, a Turquia bloqueou ferrenhamente os planos da OTAN para integrar Israel em seu programa de parceria. Ancara conseguiu até impedir que a OTAN estendesse a Israel o convite para participar à reunião de 60º aniversário da aliança, em Chicago, em 2010.

Basta dizer, em termos de equilíbrio geral estratégico no Oriente Médio, que a projeção da OTAN como organização global capaz de agir como provedor de segurança para a região – com ou sem mandado da ONU – só alcançará nível ótimo com a participação de Israel.

Assim também, a colaboração turco-israelense no plano militar e de segurança, tem profundas implicações para a questão iraniana. A Turquia vê o Irã como rival no Oriente Médio, e Israel vê o Irã como ameaça existencial. Ambas, Turquia e Israel avaliam que o crescimento do Irã como potência regional impõe limitações às suas próprias ambições regionais de longo prazo.Há pois congruência de interesses entre Turquia e Israel, que opera na direção de conter o Irã na região.

Turquia e fronteiras
Deve-se esperar que o eixo Turquia-Israel tenha papel crucial nos próximos meses, se os EUA decidirem algum dia atacar o Irã.

Em resumo: a missão de mediação de Obama a Israel e seu espantoso sucesso para superar a rixa turco-israelense fez a política do Oriente Médio recomeçar a andar. Em certo sentido, as políticas regionais dos EUA estão voltando à trilha de sempre, de perpetuar a hegemonia ocidental no Oriente Médio, para o século 21, não importa como, nem a que preço.

No processo, o problema palestino foi relegado ao fundo do poço; Obama sequer deu-se o trabalho de disfarçar que não vê qualquer necessidade de urgência para fazer avançar o processo de paz no Oriente Médio. O ressuscitamento do eixo estratégico Turquia-Israel é sinal inescapável de que o governo Obama muda de marcha na direção de intervir militarmente na Síria para forçar a tal “mudança de regime”. Daí que, com alta probabilidade, não tardará para que o Irã apareça no visor da mira de EUA-Israel-Turquia...

Vêm por aí tempos, sem dúvida, muito turbulentos para o Oriente Médio, e a visita de Obama a Israel ainda será vista, em retrospecto, como um dos momentos definitórios de sua presidência, quando abandonou decisiva e abertamente qualquer resto que ainda existisse das pretensões de se fazer ver como pacifista. Na verdade, Obama pode ter certeza de que sua missão em Israel foi unanimemente aplaudida no Congresso, o que terá efeitos positivos também para sua agenda doméstica. Também aí Netanyahu pode ajudar.
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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.