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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pepe Escobar: Preparar, “resetar” e... Já (direto para Guerra Fria 2.0)!

28/7/2014, [*] Pepe Escobar, RT, Russia Today – Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Voluntário federalista guarda fronteira entre a RPD  e a Ucrânia em 22/7/2014
O Novo Grande Jogo na Eurásia nunca deixa de arrepiar, com as viradas extremas no roteiro. Os Três Grandes atores são sempre os mesmos: EUA, Rússia e China. O diabo mora nas subtramas concêntricas.

De Washington, já se viu que a “política” profunda de estado para a Rússia são sanções, sanções e mais sanções; por causa da Crimeia, por causa do apoio aos federalistas no leste da Ucrânia, por causa da tragédia do MH17.

Há sanções contra a energia, a defesa e as finanças da Rússia – e andam rápidas na trilha rumo a guerra econômica total, o que, por si só já é declaração de guerra. Como contra Cuba; como contra o Iraque (até que haja mudança de regime); como contra o Irã (até que aconteça um acordo nuclear, mas nem isso é garantido).

Temei a ira do Império do Caos! A prescrição nunca muda: sanções; guerra geoeconômica/política sem lei ou limite; subversão provocada dentro do país (NED, variado sortimento de ONGs); e boataria envenenada em tempo integral pela imprensa-empresa, marinada em muita arrogância e húbris.

Em Moscou não há ilusões: não importa o que o Kremlin faça na Ucrânia, não haverá reset algum. A histeria das sanções em Washington – que já ultrapassou há muito o nível da “contenção” – é já vista meio para (e o que mais seria?!) mudança de regime, não obstante a imensa popularidade de Putin. Não surpreende que a Think-tank-elândia dos EUA já se tenha posto a cacarejar sobre o tema.

Em termos gerais, há, nas esferas do poder russo, uma escola atlanticista – neoliberal – que se quer render ao Império do Caos; esses atlanticistas estão em luta contra os Eurasianistas, que sonham com ser respeitados pelos EUA como iguais. Ora! O Império do Caos absolutamente não reconhece iguais. Para ter certeza, basta consultar a doutrina da Dominação de Pleno Espectro do Pentágono.

Os melhores e mais brilhantes na Rússia sabem muito bem que ninguém consegue vencer quando a força descomunal da grande finança do Império do Caos – embora já em processo de acelerada decadência – e dos vassalos do Império do Caos são postas a trabalhar contra você. Mas isso não implica que Moscou vá encolher-se e resignar-se a ser “isolada”. Até um Irã muito mais fraco que a Rússia soube combater com sucesso contra o “isolamento”, durante anos.

Moscou conta hoje com cerca de US$ 500 bilhões de reservas. Elas e o capital doméstico podem ser usados para fortalecer o rublo e apoiar investimentos na indústria russa. A porta está aberta para diversificar a economia russa e fazê-la deixar para trás a figura de uma Rússia exportadora de matérias primas, tomando o rumo da manufatura pós-moderna; no percurso, geram-se milhões de oportunidades de negócios para as PMEs (pequenas e médias empresas) russas.

Soldados carregam caixão com as vítimas do MH17
Agora, sobre o capítulo União Europeia

É onde entra em cena uma Europa fragilíssima. A Rússia é o terceiro maior parceiro comercial da Europa. Grandes economias como Alemanha, França e Itália estão muito profundamente integradas com a economia russa.

Etapa chave da estratégia de Washington é desconectar Europa e Rússia, parte de uma agenda muito mais ampla, para impedir por todos os meios que se desenvolva qualquer integração comercial/de trocas/de desenvolvimento econômico de toda a Eurásia. Tudo isso depende da Alemanha.

E esse é o debate chave, hoje, em Berlim. O business alemão – e até políticos conservadores – estão chegando à seguinte clara conclusão: ninguém ali quer relacionamento gravemente disfuncional com a Rússia. 57% da opinião pública quer que a política externa alemã seja mais independente dos EUA (as intrusões do complexo orwelliano/Panopticon dos EUA, na Alemanha e contra alemães, foram decisivos nessa virada de jogo).

Os EUA aplicaram pressão furiosa sobre a União Europeia na questão da tragédia do MH17. Moscou apresentou quantidade substanciosa de provas convincentes à UE. Washington não apresentou coisa alguma – nem apresentarão porque não têm prova alguma, além do que se vê em Facebook, Twitter e YouTube.

Enquanto Moscou insiste, desde o primeiro dia, na necessidade de haver investigação independente, internacional e tecnicamente confiável, Washington só faz “ordenar” que a União Europeia “ignore” e “não comente” as provas muito sólidas que Moscou distribuiu. Já há inteligência alemã que confirma, até, que a já duvidosa inteligência dos EUA sobre o caso foi “manipulada”.

Mas é difícil subestimar a capacidade de uma União Europeia terrivelmente dividida conseguir atirar nas próprias costas. Vejam-se as sanções que a UE propôs contra o gasoduto “Ramo Sul” da Gazprom sob o Mar Negro, que suprirá, quando completo, 15% da demanda europeia – e, também, um pacote de sanções contra o acesso ao mercado de capitais, no campo da defesa, do uso mútuo de bens e de tecnologia sensível (leia as Sanções contra a Rússia que estão sendo discutidas em Bruxelas, a íntegra do não documento, que vazou).

As principais parceiras da Gazprom no gasoduto Ramo Sul são a italiana ENI, a francesa EDF, a austríaca OMV e a Wintershall da Alemanha, subsidiária da BASF. A construção do Ramo Sul depende fortemente de know-how europeu.

Tubulação do gasoduto "South Stream"
Se a lista total de sanções vier a ser aplicada pela União Europeia (e inclui restringir o acesso dos russos a extração, perfuração, administração e plataformas flutuantes ou submersíveis de perfuração e a poços flutuantes), atrasará por muito tempo os projetos do Oleogasodutostão, e o desenvolvimento do mercado europeu de gás natural liquefeito [orig. liquefied natural gas (LNG)]. A União Europeia precisa do Ramo Sul muito mais do que a Rússia – que sempre pode vender mais gás para a Ásia, em todos os casos.

BRICS e mais BRICS...

A verdadeira razão, absolutamente sem limites, para a guerra econômica obsessiva que o Império do Caos insiste em fazer contra a Rússia, é que Moscou, como país membro dos BRICS, ao lado, sobretudo, de China e Brasil, estão na linha de frente das potências emergentes que se opõem à (des)ordem financeira/política global – que se espoja no capitalismo de cassino – comandada pelo Império do Caos.

E a coisa vai ficando cada vez mais intrigante-interessantíssima, porque o efeito da histeria de sanções foi gerar e fazer acumular mais e mais simpatias pró-Rússia, no mundo em desenvolvimento. O conversê insistente da propaganda típica de Washington, sobre “o mundo” que se teria unido para “isolar” a Rússia – perfeito replay do caso do Irã – só se aplica à OTAN.

Acompanhei bem de perto os últimos capítulos na integração da Eurásia, do “negócio do século”, de gás, entre Rússia e China, firmado entre Xangai e o Fórum Econômico de São Petersburgo; e, depois, ainda mais perto, a integração Eurásia-América do Sul, na reunião de cúpula dos BRICS no Brasil, que criou o Novo Banco de Desenvolvimento e reforçou o impulso dos BRICS para desenvolverem suas próprias instituições globais paralelas.

O presidente Putin propôs até uma coalizão de energia entre os BRICS, que se completa com acordos de energia nuclear, um “banco de reserva de combustível e um instituto de política energética.” Moscou – como Pequim – está construindo e firmando ativamente acordos de energia por toda a América do Sul, como no caso da Rosatom já contratada por Argentina e Brasil para construir usinas nucleares.

A integração da Eurásia , no front asiático, prossegue sem descanso. A Rússia venderá mais gás a baixo preço não só à China, mas também, em futuro próximo, ao Japão à Coreia do Sul. E Pequim, entrementes, move cuidadosamente suas peças financeiras, econômicas e geopolíticas sobre o tabuleiro de xadrez, e agora já sob alerta vermelho total contra a histeria das sanções. A liderança coletiva chinesa sabe muito bem que o alvo um dia pode ser a Rússia por causa da Ucrânia, mas, dia seguinte, pode ser a China, por causa do Mar do Sul da China ou mesmo uma Hong Kong que atualmente já caminha para um impasse: os candidatos do alto Executivo de Hong Kong serão escolhidos por democracia direta, ou por comitê, como Pequim prefere?

O ponto chave é: esqueçam o reset EUA-Rússia. A parceria estratégica Rússia-China será fortalecida. A China prepara-se para quando chegar a vez dela no show das sanções histéricas. E, no futuro previsível, o novo jogo no tabuleiro de xadrez é Guerra Fria 2.0.

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Guerra psicológica nos mercados financeiros: o acordo sino-russo do gás

1/6/2014, [*] Madhi Darius Nazemroaya −Global Research
Traduzido por Mberublue


Presidentes da Rússia, Vladimir Putin e da China, Xi Jinping (em pé), na cerimônia de assinatura do Acordo Santo Graal (21/5/2014) entre a Gazprom e a CNPC 
Já havia negociações há tempos para um acordo de gás natural entre a Rússia e a China. Por que a gritaria quando finalmente aconteceu?

Quanto aos acontecimentos mundiais, é prudente que a pessoa olhe para além das manchetes. Muitos destes acontecimentos são, de forma sensacionalista, grosseira e tacanha, desarticuladas e mal interpretadas por uma espécie de novilíngua, combinadas a uma visão estreita. O anúncio de um mega acordo (também chamado de “Acordo Santo Graal” [Nrc]) energético que representa cerca de 36.8 bilhões de metros cúbicos (1.3 trilhões de pés cúbicos) de gás natural fechado entre a Federação Russa e a República Popular da China em 21 de maio de 2014 é apenas mais um exemplo disso.

Apesar de não se tratar, nem sinalizar nada de novo, em termos políticos ou econômicos, nem significar um estreitamento dos laços entre os dois países, o acordo atingido por Moscou e Pequim está sendo visto dessa maneira.

De qualquer maneira, de uma ou de outra forma, as notícias destacam e distorcem a natureza do acordo energético sino-russo e a grande maioria delas enfatiza este acontecimento em particular apenas nos seus termos puramente políticos. Na realidade, com perdão ao trocadilho, este acordo já está no gasoduto há algum tempo e tanto Pequim quanto Moscou tem falado e estão em negociação sobre algum tipo de acordo de exportação/importação de gás natural há dez anos. Qualquer um que estivesse seguindo essas negociações (realmente importantes) saberia disso e identificaria, no ato, a forma sensacionalista, distorcida e desarticulada com que se relata atualmente o acordo do gás.

Especialistas e meios de comunicação hostis a Moscou estão apresentando o acordo como um sinal de que a Rússia tem planos de apertar os parafusos sobre o fluxo de energia que manda para a União Europeia. Usam então esta suposição para argumentar por uma diversificação urgente das fontes de energia da União Europeia, encorajando seus líderes a reduzir seus laços econômicos com a Rússia e promover o começo de uma “revolução do gás de xisto” a ser promovida pelos Estados Unidos com a exploração das reservas de gás natural e petróleo através do processo de fracionamento hidráulico (fracking).

Poluição dos aquíferos causada pela extração de gá de xisto por "fracking"
Por outro lado, especialistas e meios de comunicação que claramente apóiam a Moscou retratam o acordo do gás entre a Gazprom e a Corporação Nacional de Petróleo da China (China National Petroleum Corporation – CNPC) como uma movimentação do Kremlin para minimizar as perdas econômicas e direcionar seus negócios para o leste a partir de quando foi confrontado com sanções econômicas e desrespeito diplomático pelo ocidente em relação à Ucrânia e a península da Criméia.

Reclassificar uma tendência existente.

Sem dúvida, o acordo sino-russo de gás indubitavelmente não marca o começo de uma política de “olhar para o oriente” ou de desdolarização. A precipitação da crise ucraniana também não causou uma aliança estratégica entre a Rússia e a China que germinou como consequência da crise. Qualquer coisa que tentar mostrar o contrário não passa de sensacionalismo projetado pelas fontes midiáticas e especialistas desinformados que fazem vista grossa sobre fatos reais que acontecem entre Rússia e China. Em vez disso há, por parte desses veículos de mídia e especialistas, ou um déficit de compreensão abrangente dos fatos que estão moldando o mundo, relatados e analisados por eles ou eles tentam uma malversação que enquadre tais fatos a uma conveniência aos seus atuais interesses políticos.

De qualquer maneira, nada há de novo em tudo isso.

Primeiro, não há novidades no acordo firmado entre a Gazprom e a CNPC.
Segundo, desde quando os Estados Unidos e a OTAN atacaram a República Federal da Iugoslávia em 1999 que a Rússia e a China se tornaram parceiros na estratégia de se opor aos sonhos dos EUA por um mundo unipolar.

O acordo do gás em si mesmo é parte de uma tendência e um processo que já se desenvolvem há vários anos. Na realidade há uma década, a Federação Russa intentou aumentar seu comércio com a Ásia.

Quanto à desdolarização, há muito tempo os governos da China e da Rússia anunciaram sua decisão de tentar essa via, negociando com suas moedas locais em vez do dólar.

Em 2007, os governos de China e Rússia iniciaram a programação para a criação de um grupo de trabalho que visava a desdolarização do comércio bilateral através de um acordo formal.

Em 2008, quando Vladimir Putin exercia o cargo de primeiro ministro russo, ele e seu homólogo chinês, o então primeiro ministro Wen Jiabao, estavam envolvidos neste processo. Acordos semelhantes existem entre Moscou e Pequim e seus outros parceiros da Eurásia.

O acordo do gás natural anunciado em Xangai foi elaborado em conjunto por tecnocratas dos dois países. É o resultado de um trabalho de anos de negociações insistentes – e não um acordo que surgiu de repente no espaço de poucos meses de trabalho. Também não se trata o acordo sino-russo de uma iniciativa da Rússia como esforço para fugir das sanções econômicas que são feitas a toda hora por Washington e seus parceiros.

De uma forma ou de outra, o negócio que atualmente é avaliado em US$ 400 bilhões seria fechado e assinado, independentemente das tensões entre Moscou e Washington sobre a crise que arde na Ucrânia.

Malha de ferrovias e o Oleogasodutostão unindo Rússia (Sibéria) e China
(clique na imagem para aumentar)
Por causa das sanções econômicas contra a Federação Russa, a revelação da finalização do acordo, feita na última semana durante a cúpula reunida na Conferência sobre Interação e Medidas de Confiança na Ásia em Xangai teve destaque político e foi politicamente encenada, enfatizando cuidadosamente as ramificações trazidas pelo anúncio do acordo.

Mesmo sendo verdade que o negócio foi destacadamente tecnocrático, há forte possibilidade de que o preço de compra do gás tenha sofrido alteração por parte dos russos em relação ao que pediam anteriormente aos chineses, o que teria feito ambos os lados acelerarem o processo de fechamento do acordo, daí sim baseados em considerações políticas. Falando de outra forma, a guerra econômica desencadeada contra a Federação Russa pode sim ter apressado o fechamento do acordo com a introdução de variáveis ou objetivos políticos para o que até então era apenas uma questão tecnocrática para ambos os países.

O acordo do gás e a guerra psicológica.

A frase que importa neste instante é: confiança dos investidores. O que marcará definitivamente o acordo do gás é o fato de que a China e a Rússia têm de volta a arma da confiança dos investidores na guerra do mercado. Em larga medida, o anúncio do acordo fechado em Xangai é uma resposta da Rússia e da China aos Estados Unidos e seus aliados que estão estrategicamente tentando minar a confiança dos investidores na economia russa.

Em seu depoimento de 08 de maio de 2014 ao Comitê de Política Externa da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos da América, Victoria Nuland, secretária assistente do Estado para assuntos da Europa e da Eurásia, afirmou o que segue, de uma declaração adrede preparada:

Victoria Nuland
A economia russa já está se curvando à pressão das sanções internacionais que lhe foram impostas. Sua classificação de crédito paira um pouco acima do status “junk” (lixo). 51 bilhões de dólares de capital externo saíram da Rússia desde o início deste ano e aproximadamente 61 bilhões de dólares durante o ano de 2013. Os títulos russos têm o rendimento negociado mais alto de toda a Europa, mais que a dívida de qualquer outro país. Com a queda do rublo, o Banco Central teve que elevar as taxas de juros por duas vezes e gastou cerca de 30 bilhões de dólares americanos de suas reservas desde o início do mês de março apenas para estabilizá-lo.

Embora Nuland não tenha dito de forma clara que o povo russo era o alvo das sanções e dos danos colaterais destas, acabou por ficar muito claro entre os ouvintes que o alvo das sanções sempre foi, na realidade, o povo russo. O deputado Albio Sires, durante a palestra e algo candidamente, deixou bem claro que o povo russo “tem que sentir” as sanções, e mais: pediu provas para a administração Obama de que o povo estava sofrendo na pele o castigo das sanções econômicas que os Estados Unidos lhes impunham. Sires foi tranqüilizado por representantes do Departamento de Estado e do Tesouro dos EUA, que declararam que o povo russo “começará a sentir” a punição das sanções econômicas com o estrago no comércio entre a Rússia e a União Europeia, com a alta desenfreada do custo dos empréstimos e com a inflação se expandindo.

As palavras de Nuland encontraram eco em Daniel Glaser, secretário assistente para terrorismo financeiro (grifo do tradutor) no Departamento do Tesouro, na mesma audiência no Capitólio. Deixaram ambos bem claro que o governo dos Estados Unidos está trabalhando para impor custos econômicos severos aos russos que devem crescer como uma bola de neve. Glaser deixou bem claro porém, que é preciso tempo para que os danos infligidos à economia russa pelos EUA tenham reflexos políticos. A intenção é que a criação de uma recessão econômica na Rússia possa tornar o povo russo tão miserável que eles mesmos exigirão que o Kremlin se renda às imposições dos Estados Unidos.

Daniel Glaser
Eis o depoimento de Glaser:

As sanções, e a incerteza que certamente trarão ao mercado, terão impacto direta e indiretamente na já combalida economia russa. Com o aumento das sanções, não só os custos aumentarão como também a possibilidade da Rússia mitigar seus efeitos diminuirá. Os analistas de mercado já estão prevendo saídas pesadas e contínuas de capital estrangeiro e local, e um enfraquecimento das perspectivas de crescimento para este ano. O FMI reviu para baixo as expectativas de crescimento da Rússia para 0,2% este ano, sugerindo que não está fora de questão o surgimento de uma recessão.

Ele também fez as seguintes observações:

  • Desde o início de 2014, o mercado de ações da Federação Russa caiu cerca de 13%.
  • Pesadas saídas de capital começaram a prejudicar a economia russa, o que teve como resultado a degradação da classificação do crédito soberano da Rússia pela Standard and Poors para BBB-, apenas um nível acima do que a S & P chama de “status de lixo” (junk status).
  • Investidores em títulos russos exigem agora mais retorno, já que o investimento na Rússia envolve riscos maiores.
  • O Banco Central da Rússia gastou quase 50 bilhões de dólares americanos, ou 10% de toda a sua reserva em moeda estrangeira para defender sua moeda (e seu valor) ante o ataque financeiro desfechado por Washington.
  • Apesar da substancial intervenção do Banco Central Russo no mercado, a um aumento nas taxas de juros, a moeda nacional russa depreciou-se cerca de 8% desde o início de 2014.

O que Glaser parece ter “esquecido” de dizer é que a classificação supostamente má de BBB- à qual foi reduzida a economia russa pela S & P, é a mesma classificação dessa agência para outros dois parceiros dos russos no BRICS, que sejam a Índia e o Brasil, os quais não parecem estar tremendo de medo ou em pânico por causa disso. Também esqueceu que as análises feitas pela S & P, como a economia, não estão livres de manipulação por interesses políticos. A própria ênfase na classificação como sendo “um nível apenas acima do status de lixo” não passa de teatro deliberadamente destinado a causar alarme e medo.


O método de Washington contra a Rússia, claramente envolve estratégias para insuflar incertezas no mercado com a intenção de desestabilizar a Rússia ou, como Nuland colocou, “criar condições no mercado que tornem a Rússia cada vez mais vulnerável a ataques financeiros”. A guerra psicológica para minar a confiança na economia da Federação Russa usando manipulação financeira foi lançada e a oportunidade temporal do anúncio do acordo sino-russo do gás está ligada a isso.

Mesmo que o negócio já estivesse em negociações e independentemente da situação na Ucrânia, e que a Rússia está se voltando para a China como forma de obter apoio econômico contra a guerra financeira que está enfrentando, a revelação extremamente pública do acordo de energia fechado em Xangai foi um contraponto às ações de Washington contra a Rússia.

Não apenas a realização finalizada do acordo sino-russo de gás indica que a Rússia tem alternativas econômicas, como o seu anúncio serviu como um “jab” psicológico para contrapor aos ataques financeiros do governo dos Estados Unidos contra a Rússia, destinados a minar a confiança dos investidores na economia russa. Supostamente, o que o acordo faz é tornar segura a confiança na economia russa, ao mostrar que a Rússia terá ganhos elevados pelos próximos 30 anos.

[*] Mahdi Darius Nazemroaya é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras são reconhecidas internacionalmente em uma ampla série de publicações e foram traduzidas para mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, chinês, coreano, polonês, armênio, persa, holandês e romeno. Seu trabalho em ciências geopolíticas e estudos estratégicos tem sido usado por várias instituições acadêmicas e de defesa de teses em universidades e escolas preparatórias de oficiais militares. É convidado freqüente em redes internacionais de notícias como analista de geopolítica e especialista em Oriente Médio.   
Atualmente, em viagem pela América Central, está com a Frente Sandinista de Libertação Nacional, em sua base em León, na Nicarágua. Esteve como observador internacional em El Salvador, no primeiro turno das eleições em El Salvador, onde esteve em contato com funcionários do governo salvadorenho.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Sanções, Vladimir Putin e talvez... Um novo sistema financeiro, livre de Wall Street e da City de Londres?

22/3/2014, Slobodan Tomic entrevista [*] Umberto Pascalli, Global Research

Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Tradução de trechos transcritos da entrevista concedida por Umberto Pascalli, dia 19/3/2104, ao programa The People Voice, TV Macedonia, apresentado por Slobodan Tomic.

Acho que você usou toda a sua tinta na LINHA VERMELHA... da Síria
Na Ucrânia trata-se, basicamente, do exato oposto do que a imprensa-empresa e políticos não param de repetir nos EUA e na Europa. O que dizem é que uma suposta ‘comunidade internacional’ teria ‘isolado’ a Rússia e Vladimir Putin. De fato, quem está isolado são, isso sim, os patrocinadores do golpe de estado e de toda a violência na Ucrânia; e não estão isolados só moralmente: estão isolados também estrategicamente.

E é Putin, o primeiro que fez frente e derrotou a estratégia norte-americana de dominação, quem recebe o mais entusiasmado apoio de seu próprio povo e a crescente admiração de todo o mundo. A imprensa-empresa sempre dependente do grande (e também do pequeno) capital e políticos “midiáticos” de todos os tipos não admitem nem ouvir tal coisa. Mas essa é a realidade. Sem exagero, pode-se comparar a resistência que se vê hoje à resistência contra Napoleão e contra Hitler.

Bem poucos sabem exatamente o quanto a situação foi perigosa. O quanto se chegou perto de uma verdadeira guerra.

Os incompetentes representantes da tal “comunidade internacional” perderam completamente o senso de realidade e usaram armas de desestabilização social, insurreição armada, assassinato por matadores profissionais, uma marcha fascista em Kiev em tudo semelhante à Marcha sobre Roma de Mussolini, tomando como alvos a população russa.

Tentaram dar à Rússia o tratamento que deram a Líbia – e sequer fizeram segredo de seus “planos”.

Mikhail Gorbachev
Depois da garantia que George H W Bush deu a Mikhail Gorbachev de que a OTAN não seria usada para avançada militar contra o Leste, sucessivos governos dos EUA fizeram repetidamente exatamente o que os EUA haviam-se comprometido a não fazer... O objetivo é cercar a Rússia. Com a sorridente hipocrisia das hienas, deixaram bem claro que não haveria alternativa além de a Rússia render-se ao poder militar e às capacidades de propaganda da OTAN.

Nada de concessões, nada de negociações. Ou, melhor dizendo, tão logo houve negociações e as negociações levaram a um acordo, dia 21/2, as gangues neonazistas em Kiev foram incitadas a escalar a violência armada, tomar o Parlamento e outros prédios do governo, espancar e intimidar quem não aceitasse...

“Diplomatas” ocidentais imediatamente reconheceram o golpe de estado neonazista como “governo legítimo”. Yatsenyuk, candidato de Victoria Nuland, declarou-se primeiro-ministro, enquanto membros do Parlamento estavam sendo brutalmente espancados na rua, suas residências invadidas, suas famílias aterrorizadas... no caso de não apoiarem o “processo democrático”...

Esses criminosos levaram a situação até bem próximo de uma verdadeira guerra nuclear. Putin deixou bem claro que a Rússia – que perdeu importante parcela de sua população na guerra contra o nazismo e aceitou ver Moscou em chamas, para conseguir derrotar as forças de Napoleão – não se renderia. Aquele foi momento ainda mais perigoso que a crise dos mísseis em Cuba, em 1962. Mas Putin denunciou o blefe.

Então, quando a população da Crimeia (e não só os crimeanos) pediu ajuda e proteção contra as gangues armadas e apoiadas pela OTAN, a máquina de propaganda entrou em alta rotação no ocidente. Mas já era tarde demais. Nesse sentido, Putin não salvou só a Rússia: Putin deu uma chance a toda a Europa, como a Rússia já fizera antes, na IIª Guerra Mundial.  

A insurreição fascista armada e o golpe em Kiev não foram guerra contra a Rússia ou, pelo menos, não foram guerra só contra a Rússia. A insurreição fascista armada e o golpe em Kiev foram também guerra contra a Europa. Não só contra a burocracia na União Europeia (UE), cuja lealdade corre sempre na direção das grandes instituições financeiras, mas contra a Europa dos vários países reduzidos à miséria e ao desespero pelas medidas de austeridade e pelo saqueio econômico operado por Wall Street e pela City de Londres.

A Ucrânia foi desestabilizada, como tentativa para conseguir que a Europa entrasse em guerra perene contra a Rússia.

De fato, os interesses de ambos, da Europa e da Rússia, estão postos num plano econômico comum a esses dois lados, de desenvolvimento de toda a área. Esse plano foi proposto por Putin e por ex-líderes alemães, como os ex-chanceleres Helmut Kohl e
Gerhard Schroeder
Gerhard Schroeder. Esse projeto, precisamente, é que teve de ser “contido” com os US$ 5 bilhões que Victoria Nuland consumiu para “ajudar a democracia”. E agora, apesar de toda a retórica, a propaganda, o dinheiro e o barulho em geral, aquele plano inicial ainda é a melhor e mais óbvia direção a seguir.

O ponto mais importante a compreender é que essa guerra e a correspondente política dos EUA, de saque e “loteamento” de parte do mundo não interessam aos europeus e nem, menos ainda, aos próprios norte-americanos.

Esse é o grande segredo que já ninguém conseguirá manter oculto. Os governos de EUA e países europeus NÃO SÃO entidades independentes, não são soberanos, não mandam no próprios destinos. Não têm o desejo político e nem, sequer, a competência e a habilidade para agir em benefício dos próprios cidadãos. Esses governos são controlados por bancos poderosos e seus poderosos interesses. São governos que foram já tomados, ocupados, pelas forças de dois centros financeiros que pouca importância dão à economia real. Wall Street e a City só se interessam por especulação e saqueio.

Em resposta, dia 4/3, Sergey Glaznyev, conselheiro econômico de Putin, declarou abertamente que, se os abutres financeiros insistirem, a Rússia pode criar um sistema financeiro independente, separado do dólar norte-americano. Glazyev explicou aos urubus vampiros:

Sergey Glaznyev
A Rússia mantemos maravilhosas relações econômicas e de comércio e trocas com nossos parceiros do sul e do oriente. Haveremos de encontrar meio para pôr fim à nossa dependência dos EUA, e, também, arrancaremos lucros dessas sanções. Se se aplicarem sanções contra a estruturas do estado russo, seremos obrigados a nos deslocar para outras moedas e a criar nosso próprio sistema de compensação. Seremos forçados a reconhecer a impossibilidade de pagar empréstimos que bancos norte-americanos fizeram a estruturas estatais russas. Sanções sempre são facas de dois gumes. Se os EUA resolverem congelar nossos bens, “congelaremos” alguns de nossos negócios em dólares...

Essa estratégia está sendo chamada de “Opção Nuclear Financeira”. Pode reduzir a cinzas e ruínas todo o sistema de predação e saque de Wall Street.

Os parceiros do sul e do oriente dos quais falou Glazyev são, é claro, os países BRICS, Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul – a parte saudável, não podre, da economia mundial, o futuro.

E isso, exatamente é o que o porta-voz oficial do Kremlin,
Dmitry Peskov
Dmitry Peskov, indicou em entrevista à BBC:

Sanções contra a Rússia podem ser o gatilho que falta para forçar muitos países a criar um sistema financeiro novo, independente, baseado na economia real. O mundo está mudando rapidamente. Quantas civilizações nasceram e morreram no curso da história? Quem saberá resistir contra a pressão de sistemas moribundos, e indicar ao povo o caminho para o futuro?

A possibilidade de um novo sistema financeiro independente do império, já em colapso do dólar, como consequência das sanções anti-Rússia também foram assunto de influentes veículos da imprensa-empresa russa, entre os quais Russia Today [ver Sanctions effect: Rússia to change its economic partners…for the better (Efeito das sanções: Rússia trocará de parceiros econômicos... para melhor)], Sanções ocidentais podem empurrar a Rússia na direção de aprofundar a cooperação com os estados BRICS, em especial podem levar o país a estreitar laços com a China – o que, adiante, pode acabar por ser grande catástrofe para EUA e Europa.

Dia 18/3, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que a Rússia trocaria de parceiros, caso lhe fossem impostas sanções pela União Europeia e pelos EUA. Lembrou que o mundo contemporâneo já não é unipolar e a Rússia tem fortes laços também com outros estados, por mais que a Rússia deseje manter-se em boas relações com os parceiros ocidentais, especialmente com a União Europeia, dados o volume de comércio e os projetos conjuntos em andamento.

Presidenta do Brasil Dilma Rousseff; Primeiro-Ministro da Índia, Manmohan Singh; Presidente da Rússia, Vladimir Putin; Presidente da China, Xi Jinping e o  Presidente da Áfricado Sul, Jacob Zuma; em 5/9/2013 São Petersburgo.
(Foto: Irina Sukhoparova)
Esses “novos parceiros” não são, de fato, novos, dado que a Rússia já vive intimamente conectada com eles há mais de 13 anos. Trata-se, é claro, dos chamados países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Os BRICS representam 42% da população do planeta e cerca de ¼ da economia mundial, fatores que fazem do bloco de estados um importante ator global.

Os países BRICS pensam de modo semelhante no apoio e no respeito aos princípios da lei internacional, sobre o papel central do Conselho de Segurança da ONU e os princípios que mandam não usar a força nas relações internacionais; por isso estão tão ativos na esfera do encaminhamento e solução de conflitos regionais. Mas a cooperação entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vai além dos aspectos políticos e se evidencia também num comércio dinâmico e em muitos projetos em várias áreas.

Hoje, há no total mais de 20 formatos de cooperação em desenvolvimento entre os países BRICS. Por exemplo, em fevereiro os estados-membros firmaram acordo sobre 11 possíveis projetos de cooperação científica e técnica, da aeronáutica à bio e nanotecnologia.

Para modernizar o sistema econômico global, no centro do qual estão EUA e a União Europeia, os líderes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul criaram a BRICS Stock Alliance (2011 [1]) e estão criando um banco próprio de desenvolvimento, para financiar grandes projetos de infraestrutura. No total, apesar das ferozes críticas contra os BRICS, como organização sem futuro, aqueles países estão desenvolvendo e ampliando a cooperação entre seus membros e, sim, os BRICS têm mostrado resultados bastante bons.

Com a suspensão da participação da Rússia no G-8 e o reforço de sanções econômicas contra a Rússia, indústrias específicas podem vir a ser atingidas, inclusive com limites à quantidade de bens importados. Enquanto o ocidente dedica-se a agredir duramente a Rússia, é boa hora para começar a ver que a Rússia há muito tempo se prepara para mudar-se para outros mercados, dentre os quais os países BRICS, sempre pensando em expandir suas alternativas comerciais.




Nota dos tradutores

[1] 18/10/2011, Gazeta Russa (com matéria das agências): “Bolsas dos BRICS anunciam aliança”: A Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros do Brasil, BM & F BOVESPA; a Bolsa Interbancária de Câmbio de Moscou (MMVB, na sigla em russo); a corporação de bolsas de Hong Kong; a Bolsa de Valores de Joanesburgo (JSE); a Bolsa indiana NSE; e a Bolsa de Valores de Bombaim, anunciaram, durante a 51ª reunião anual geral da World Federation of Exchanges (WFE), em Johanesburgo, sua intenção de criar uma aliança. Há notícia também no Boletim Interno da BV de São Paulo. MAS PARECE ABSOLUTAMENTE NÃO HAVER NOTÍCIA ALGUMA SOBRE ISSO nos noticiosos e em lugar algum, EM NENHUM dos veículos do Grupo GAFE (Globo-Abril-Folha de S.Paulo-Estadão).
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[*] Umberto Pascali é escritor e analista independente de geopolítica sediado em Washington DC. Trabalha usualmente em análise de questões estratégicas e de geopolítica europeias. Também faz pesquisas de campo em países em conflitos bélicos e econômicos. É considerado um dos mais argutos observadores da política externa dos EUA.