Mostrando postagens com marcador Stepan Bandera. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stepan Bandera. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O fascismo ucraniano reciclado/reciclável


Fascismo: um “ismo” para o século 21

6-8/6/2014, [*] Peter Lee, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fascistas (neonazistas) desfilam  com suástica estilizada e efígie de Stepan Bandera
Leitores não europeus talvez não saibam, mas a primavera é a estação preferida para as marchas dos fascistas nas repúblicas do Báltico. Na Estônia, é dia 16 de fevereiro; na Lituânia, 16 de fevereiro e 11 de março (aniversários das declarações de independência); e 16 de março, na Letônia (dia 16/3/1944, pela primeira vez a Legião Letoniana lutou ao lado da Wehrmacht contra o Exército Vermelho), os fascistas locais desfilam para celebrar seus grandes fascistas e seus fascistas heróis, a maior parte dos quais colaboraram com a Alemanha nazista durante a IIª Guerra Mundial, em guerra contra a União Soviética.

O grande evento dos fascistas ucranianos é 1º de janeiro, aniversário do nascimento de Stepan Bandera (1909-1959), líder do grupo fascista OUN-B (Organização dos Ucranianos Nacionalistas-Bandera).

Em 2014, 15 mil pessoas marcharam à luz de archotes, pelas ruas de Kiev, dia 1º de janeiro, para homenagear Bandera.

O fascismo no leste da Europa é ideologia durável e alarmantemente vital. Não se trata só de afeto atávico por Hitler e o nazismo, por um poucos doidos fanáticos.

E o fascismo ucraniano é mais durável e mais vital que vários outros fascismos. Foi forjado nas condições mais adversas que se possam imaginar: na fornalha do stalinismo, sob governo de Hitler e durante o esforço polonês para destruir a nacionalidade ucraniana.

Kruchev
Entre as duas guerras mundiais, o nacionalismo ucraniano ficou sob ataque feroz. A URSS ocupava a parte leste da Ucrânia, submetida à coletivização sob Stálin, e implantou repressão feroz; e a fome matou milhões. De início, os soviéticos tentaram cooptar o nacionalismo ucraniano, apoiando a expressão cultural ucraniana, ao mesmo tempo em que reprimiam as aspirações políticas ucranianas; as políticas para as nacionalidades da URSS eram “nacionalistas na expressão e socialistas na essência”. Então, em 1937, Stálin fechou todo o aparelho cultural ucraniano e o aparelho comunista num só expurgo, e implementou um controle central russificado, servindo-se de seu instrumento sob medida: Nikita Kruchev.

Entrementes, a parte leste da Ucrânia estava sob o tacão da República da Polônia, que tentava impor-se, antes que ou alemães ou russos reaparecessem para dificultar outra vez a ação do mesmo tacão. Implicou avançada organizada dos poloneses, política, de segurança, cultural e demográfica, contra a Galicia ucraniana. O governo polonês expulsou intelectuais e fazendeiros ucranianos, atacou a cultura e a religião deles (tomou inclusive igrejas ortodoxas, transformadas em prédios católicos romanos), marginalizou os ucranianos dentro de sua própria terra, e reprimiu os ativistas ucranianos pró-independência (como Bandera, que passou seis anos – de 1933 a 1939 – na prisão polonesa de Wronki, depois de ter tentado assassinar o ministro polonês do Interior).

Nacionalistas ucranianos, portanto, não conseguiram levar ao poder nem o comunismo nem a democracia burguesa. O comunismo era ferramenta do expansionismo soviético, não de empoderamento de classe; e a democracia polonesa não oferecia qualquer proteção, nem direitos, nem expressão política – muito menos algum estado ucraniano –, à minoria ucraniana.

Muitos nacionalistas ucranianos voltaram-se na direção do fascismo, especificamente na direção do conceito de “nacionalismo integral”, o qual, na ausência de governo nacional aceitável, manifestava-se ele próprio num desejo nacional que ainda havia no espírito dos militantes, não manifestado pelo estado, ou limitado por suas leis, mas como que encarnado num líder carismático e exercido mediante uma organização-partido, cuja legitimidade supera a do estado, e cujo compromisso com a violência a converte, a própria organização-partido, em lei.

Stepan Bandera, já coronel nazista, entre 2 oficiais alemães na IIa. Grande Guerra
O líder, pelo menos para muitos ucranianos de convicção fascista, era Stepan Bandera. A organização, a sua OUN-B (Organização dos Ucranianos Nacionalistas-Bandera).

Esse estado de coisas persiste no Setor-Direita, (Pravy Sektor) grupo sucessor, hoje, da OUN-B, com seus uniformes fascistas, culto ao líder, e braço paramilitar. A ascensão do segundo maior grupamento fascista, o Partido Svoboda, mais parece uma reembalagem estratégica, que oculta os antecedentes fascistas, em busca de maior sucesso eleitoral.

Fato é que, infelizmente para os defensores e apoiadores do atual regime de Kiev, o adjetivo correto para descrever esses dois partidos não é nem “nacionalistas” nem “ultranacionalistas”; é “fascistas”.

Fatalmente, o governo ucraniano voltou-se para o nacionalismo e os heróis fascistas, para tentar forjar uma identidade pós-soviética essencialmente ucraniana, para aquele estado no pós-1991.

Numa repetição de uma tendência no leste da Europa para fazer ressurgirem os nacionalistas fascistas da IIª Guerra Mundial – alguns dos quais colaboraram ativamente com os nazistas – para reforçar o sentimento anti-russo, Bandera foi também adotado como herói nacional ucraniano: em 2010, o presidente Yuschenko condecorou Bandera postumamente (e também ilegalmente, segundo sentença de uma corte de Donetsk), como “Herói da Ucrânia”.

Viktor Yushenko
A verdade inconfortável é que o governo investiu tanto esforço para reinventar e celebrar Bandera como herói nacional, que o epíteto “banderista”, que os pró-Rússia usam para o regime de Kiev, não está muito distanciado da verdade.

Por razões óbvias, a propaganda russa muito trabalhou para caracterizar Bandera como nazista, até condená-lo como colaborador de Hitler em sua guerra contra a URSS e contra o mundo, não como combatente independentista contra a Rússia e o governo soviético – brutal e extremamente impopular (pelo menos entre os ucranianos étnicos) – no leste da Ucrânia.

Na verdade, o fascismo banderista, com seu foco em criar um estado ucraniano puro, só tangencialmente se relacionava às extravagâncias expansionistas hitleristas, centradas numa guerra apocalíptica contra o “judeu-bolchevismo” que, na ideia de Hitler, plantava-se como obstáculo entre a Alemanha e o lugar que lhe caberia por direito como governante de uma Europa racialmente limpa e império global comparável aos EUA e à Grã-Bretanha.

Bandera não foi colaborador nazista importante, mas é verdade é que jamais encontrou espaço real para tentar ser mais. Ativistas independentistas ucranianos de todas as estirpes lançaram-se no nazismo nos anos 1930s, vendo a Alemanha como única força que poderia destruir os dois opressores que eles odiavam: a Polônia, odiada pelos ucranianos do oeste; e a URSS, pelos ucranianos do leste.

Mas os nazistas sempre desconfiaram dos eslavos, aos quais na nova ordem ariana receberiam tarefas degradantes. Os trabalhadores ucranianos levados para trabalhar na Alemanha eram submetidos a condições miseráveis e tratamento subumano, por mais que suassem a serviço do Reich.

As conhecidas formações militares de ucranianos étnicos, “SS Galiciana” e “Nachtigall” e “Roland”, sempre mantidas sob rédea curta pelos alemães, não fizeram muita coisa durante a IIª Guerra Mundial, e só viram ação às veras quando os nazistas ficaram realmente desesperados.

Os nazistas estavam decididos, sobretudo, a manter total controle sobre a Ucrânia, região central para o conceito nazista de uma Lebensraum sem eslavos e zona chave para suas operações militares contra a URSS. Sabiam que o interesse pétreo de Bandera era criar um estado ucraniano que nenhum estrangeiro controlaria, e sabiam de sua tendência à violência física. Os nazistas o mantiveram preso por quase toda a IIª Guerra Mundial e só o libertaram no esforço “pouco-demais-tarde-demais” para deter o Exército Vermelho que já varria a Alemanha da Europa Oriental em 1945.

Pós-guerra, um oficial alemão observou – observação eloquente – que a guerra no leste não foi perdida em Stalingrado; foi perdida “muito antes – em Kiev, quando hasteamos a swastika em vez de hastearmos a bandeira ucraniana!”.

Stepan Bandera foi fascista e terrorista convicto, cuja organização OUN-B lançou campanha de limpeza étnica com massacres de brutalidade inimaginável durante a IIª Guerra Mundial. Thomas Snyder, historiador de Yale, elogiador incansável de praticamente tudo que tenha acontecido na praça Maidan em Kiev, suspende os elogios no momento em que Bandera entra em cena.

Os nazistas mataram dezenas de milhões de anônimos no leste da Europa como parte de uma guerra de conquistas que visava a germanizar a Europa até os Urais; os ucranianos da OUN-B assassinaram dezenas de milhares dos próprios vizinhos, ao mesmo tempo em que tentavam arrancar um estado nacional só deles, do tecido político do leste da Europa.

Como Hitler, Bandera queria purificar a “pátria” dos seus elementos impuros. Diferente de Hitler, Bandera só pode aplicar sua fúria contra seus inimigos – basicamente os poloneses da Galicia – por alguns meses.

5 mil policiais ucranianos desertaram com as armas para unir-se ao grupo de Bandera, quando o poder dos nazistas começava a desmanchar-se na Ucrânia, e garantiram os músculos necessários para a mais famosa ação de Bandera na IIª Guerra Mundial: o massacre de poloneses onde hoje está o que se chama “oeste da Ucrânia”.

Os historiadores concordam em que as forças de Bandera cometeram atrocidades sistemáticas para gerar um reino de terror que espantaria dali os poloneses.

Norman Davies
Norman Davies:

Cidades foram incendiadas. Padres católicos romanos foram empalados ou crucificados. Igrejas foram incendiadas com todos os paroquianos que haviam procurado refúgio ali. Fazendas isoladas foram atacadas por gangues armadas com ancinhos e facas de cozinha. Houve degola. Mulheres grávidas foram mortas à baioneta. Crianças cortadas ao meio. Homens foram emboscados no campo e nunca mais foram vistos.

Timothy Snyder:

Timothy Snyder
Os partisans ucranianos queimaram casas, mataram a tiros ou obrigaram a entrar nas casas os que tentavam fugir, e usaram foices e ancinhos para matar os fugitivos capturados. Houve degola, crucifixão, esquartejamento, corpos com as vísceras expostas foram deixados nas estradas, para aterrorizar poloneses remanescentes e fazê-los fugir.

Várias estimativas falam de algo entre 35 mil e 100 mil poloneses mortos, durante o terror banderista.

Os que defendem Bandera lembram que ele ainda estaria preso na Alemanha, quando aconteceram os massacres, e que não haveria provas de que ele tivesse ordenado os massacres. Mas, dada sua ideologia, o ódio manifesto contra os poloneses e seu papel como líder carismático de sua facção, é pouco provável que seus seguidores tivessem empreendido os massacres sem orientação superior.

Roman Shukhevych
Um dos tenentes de Bandera foi Roman Shukhevych. Em fevereiro de 1945, Shukhevych distribuiu ordem que dizia:

Em vista do sucesso das forças soviéticas, é necessário acelerar a liquidação dos poloneses, que têm de ser totalmente varridos, vilas queimadas (...) só a população polonesa deve ser destruída.

Para incômodo ainda maior de Bandera, Shukhevych era também comandante do batalhão Nachtigall [rouxinol] organizado pela Wehrmacht.

Hoje, a principal preocupação da academia histórica ucraniana nacionalista é desmontar alegações (muito convincentes), de historiadores russos, poloneses e judeus, de que o batalhão Nachtigall foi participante ativo e importante no massacre de judeus de Lviv orquestrado pelo exército alemão depois de chegar, em junho de 1941.

Mas é batalha pode-se dizer, perdida. Bandera classificou os judeus como “inimigos de segunda ordem”, graças ao papel que teriam tido como colaboradores e adjuntos da estratégia russo e polonesa de “dividir e conquistar” contra o nacionalismo ucraniano.  O antissemitismo, de fato, é parte do moderno fascismo ucraniano e sem dúvida contribuiu para a emigração de 60% dos judeus ucranianos – 340 mil pessoas –, desde a independência.

Shukhevych continua a ser um dos heróis dos fascistas ucranianos, até hoje. Mais importante – porque Bandera foi assassinado em Munique pela URSS em 1959 sem deixar herdeiro – ele serve como o ancestral, em linha direta, que levou à formação do principal grupo fascista ucraniano ativo até hoje, o Setor Direita, Pravy Sektor.

Em fevereiro de 2014, Andrew Higgins do New York Times redigiu passagem muito embaraçosa, em que apresenta em alta conta a ocupação de Lviv – cidade galiciana, no coração do fascismo ucraniano, base de Roman Shukhevych e do batalhão Nachtigall, e cidade natal também de Simon Wiesnthal – por forças anti-Yanukovich, em janeiro de 2014:

Yurii Shukhevych
Alguns dos adversários de longo tempo do presidente assumiram linha cada vez mais radical.

Como conselheiro e inspiração, lá estava Yurii Shukhevych, veterano nacionalista cego, que passou 31 anos em prisões e campos de trabalhos forçados soviéticos e cujo pai, Roman, liderou o Exército Insurgente Ucraniano contra os poloneses e, depois, contra os soviéticos.

Mr. Shukhevych, 80 anos, que perdeu a visão no tempo que permaneceu preso no gulag soviético, ajudou a orientar a formação do Setor Direita, organização informal, cujos combatentes ergueram e hoje controlam as barricadas em torno da Praça Independência [depois, Euromaidam], no epicentro do movimento de protesto em Kiev

O papel de Yuriy Shukhevych no moderno fascismo ucraniano não é simplesmente inspirar e fazer relembrar os atos heroicos de seu pai contra a URSS, aos olhos de nacionalistas ucranianos contemporâneos. Ele próprio é figura essencial na emergência da principal formação fascista ucraniana de hoje, o Setor Direita e seus corpos paramilitares.

E os paramilitares do Pravy Sektor – UNA-UNSO – não são absolutamente “organização informal”, espécie de coleção de guerreiros de fim-de-semana, como Mr. Higgins, do NYT, tenta fazer crer que seriam.

A organização UNA-UNSO foi constituída durante os tumultos do início dos anos 1990s, principalmente por ucranianos étnicos veteranos da amarga guerra da URSS no Afeganistão. Desde o início, a UNA-UNSO manifestou gosto por aventuras em solo estrangeiro, mandando destacamentos a Moscou, em 1990, para fazer oposição ao golpe comunista contra Ieltsin, e para a Lituânia, em 1991. Com razões provavelmente bem sólidas, os russos também acusaram milicianos da UNA-UNSO de terem lutado ao lado das forças anti-Rússia, na Geórgia e na Chechênia.

Depois da independência formal da Ucrânia, os milicianos elegeram seu líder Yuriy Shukhevych – filho do comandante banderista Roman Shukhevych – e constituíram uma ala política, que adiante viria a ser o Setor Direita.

Também depois da independência em 1991, foi constituído o Partido Social Nacionalista, declarada e assumidamente fascista – com seu próprio inevitável braço paramilitar, “Patriotas da Ucrânia” – e sob a liderança de Andriy Parubiy.

Andriy Parubiy, um neonazista no Comando das Forças de Segurança do Governo de Kiev
Parubiy deixara o Partido Social Nacionalista em 2004, quando se tornou veículo das aspirações políticas de Oleh Tyahnybok e converteu-se em Partido Svoboda. As motivações de Parubiy não são perfeitamente identificáveis, mas eu diria que ele se tornou uma espécie de cavalo de Troia fascista, dentro do partido da Pátria de Yulya Tymoshenko. De fato, enquanto o comando político de Tymoshenko enfraquecia enquanto ela esteve na cadeia, Parubiy continuou como organizador chave de “voluntários” na Praça Maidan, e emergiu como secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, encarregado das operações “antiterroristas” no leste.

Análises sempre muito otimistas-panglossianas do fascismo ucraniano têm assumido, como ponto a considerar, o resultado que os partidos Pravy Sektor e Svoboda obtiveram nas eleições presidenciais de 2014.

Somados, os dois partidos fascistas não alcançaram 2% dos votos nas eleições presidenciais de 2014. Mas esse, creio, é indicador pouco significativo da forças dos fascistas. Yarosh, do Setor Direita, anunciou que não faria campanha eleitoral ativa (provavelmente, parte do negócio firmado com os apoiadores ocidentais dos fascistas da Praça Maidan, para ajudar Petro Poroshenko a evitar uma disputa de segundo turno contra Yulia Timoshenko). Quanto a Tyahnybok, o partido Svoboda obteve 10% dos votos nas eleições parlamentares de 2012, e parece implausível que esse apoio tenha simplesmente sumido depois do palanque triunfante da troika de Maidan, em que Tyahnybok aparecia ao lado de Klitschko e Yatsenyuk.

Seja como for, os fascistas não consideram o estado, a Constituição e o processo eleitoral como veículos para as aspirações nacionais ucranianas. Esse é o papel do líder, do partido e dos paramilitares. Aos fascistas, o que interessa é a influência que tenham nos assuntos da nação; e, na Ucrânia, essa influência deles é significativa.

Quando o leste da Ucrânia levantou-se, o atual governo de Kiev, enfrentando reconhecidos problemas de ilegitimidade, incompetência e penúria, teve imensas dificuldades para reunir uma nação ucraniana multiétnica. É conclusão praticamente indiscutível que paramilitares fascistas serão chamados para suplementar ou, até, para substituir, as já desgastadas forças em campo, do regime.

Dmytro Yarosh, lider do "Pravy Sektor" e comandante do
Batalhão Donbass (esquadrão da morte sob as expensas do
Governo de Kiev e dos EUA)
Numa espectral – mas, talvez, sim, previsível – recapitulação da colaboração militar oportunista entre a OUN de Bandera e aWehrmacht, o líder do Setor Direita, Dmytro Yarosh, organizou o “Batalhão Donbass”, para ajudar as operações do governo ucraniano no leste. Líderes e escalões inferiores do Setor Direita também aparentemente aumentaram, se não constituíram completamente, o Batalhão Dniepr, financiado por oligarcas – e atualmente um das poucas formações militares que opera no leste e que é brutal e violentamente leal ao governo de Kiev.

Ainda que se possa dizer que a Rússia está incitando e apoiando a resistência, o ressentimento local contra Kiev e suas táticas de violência extrema são inegavelmente presentes e parecem crescentes, e talvez com ele a necessidade de mais homens e armas fascistas para subjugar o leste insubordinado.

O cenário europeu otimista prevê que os problemas com fascistas na Ucrânia (até aqui praticamente nem reconhecidos) desfaçam-se, à medida que avance a integração europeia, e a prosperidade decorrente opere como fator de moderação, e aconteça a Ucrânia floresça como outra Polônia: politicamente estável, unida, democrática e confiavelmente anti-Rússia.

Mas a feia verdade é que a Polônia teve suas questões de identidade nacional resolvidas por Hitler, Stálin e pelo Holocausto, que extirparam todas as complicadas questões de nacionalidades criadas por suas populações de alemães, de ucranianos e de judeus. Antes da IIª Guerra Mundial, um terço da população da Polônia eram “minorias”. Hoje, a Polônia é 96% “polonesa”.

A Ucrânia, por sua vez, carrega um legado de divisões graças à administração pela URSS no leste da Ucrânia antes da IIª Guerra Mundial, e a dominação pela elite de Kiev durante o período soviético. 18% dos ucranianos são russos étnicos; mas 30% da população é falante de russo como primeira língua. Nas oblasts [províncias] do leste que atualmente dá combate a Kiev, a porcentagem de falantes de russo varia de 72% (Dnipropetrovsk) a 93% (Donetsk). Na Crimeia, já reintegrada à Federação Russa, essa porcentagem chega a 97%.

Ucrânia - mapa étnico-linguístico
A menos que o regime de Kiev sem o ter desejado ou planejado resolva o problema escalando a crise ao ponto de a Rússia incorporar as províncias do leste e remover os russo-ucranianos da equação nacional, o futuro mais plausível para a Ucrânia é fracasso, polarização, pobreza, violência – e sucesso político dos fascistas, com identidade de russos étnicos e linguísticos convertida em significante de sempre crescentes ameaças ao estado ucraniano.

Mas, ao avaliar as possibilidades do fascismo na Europa, é erro supor que os fascistas estejam combatendo a última guerra – para completar a des-bolchevização e a des-russificação do leste da Europa que Hitler só pôde começar.

O comunismo não é a única luz que já fraqueja.

Os fascistas ucranianos adoram ver a Rússia a martelar contra a OTAN, mas detestam ver União Europeia supranacional a acertar os ponteiros com a Rússia.

Nisso, não estão sozinhos. O fascismo – e um sentimento anti-União Europeia – invade também partes da Europa que jamais conheceram a ira de Stálin. Nas mais recentes eleições para o Parlamento Europeu, os “eurocéticos” e ultranacionalistas xenofóbicos ganharam muitos votos, liderados por Marine Le Pen, cujo Front National obteve 25% dos votos franceses naquele Parlamento.

Thomas Piketty
Muito disso tudo tem a ver com a trilha equivocada que o capitalismo neoliberal globalizado seguiu ao longo da última década. Já que agora, somos todos Pikettyistas... parece que dentre os principais resultados obtidos pelo neoliberalismo lá estão a desigualdade de renda e grande número de oligarcas.

É anátema para os liberais democratas, mas já tristemente evidente, que o fascismo prospera, largamente como resultado da percepção crescente de que o neoliberalismo e a globalização não estão conseguindo entregar justiça e igualdade de bens econômicos e sociais às maiorias.

A democracia já está sendo vista como brinquedo preferencial dos oligarcas, que manipulam o sistema atual para proteger e expandir a riqueza e o poder DELES; constituições liberais, com suas garantias aos direitos das minorias, parecem receitas para gerar impotência nacional. Mercados livres transnacionais em bens e capitais alimentam a austeridade local, o desemprego local e a miséria local. Governos democráticos parecem obedecer ao manual dos livres mercados, só para se verem mergulhados em problemas que não conseguem gerir, e rendem-se entregando a própria soberania a grupos de euro-financistas.

O fascismo, com a exaltação que promove do particular, do emocional e do des-democrático, oferece o núcleo ideológico e político duro necessário para contra-arrestar aquelas outras forças externas.

O fascismo já se converteu em elemento importante da política de oposição: uma força que obstrui a imposição das normas da globalização, e uma ideologia que justifica protegerem-se interesses locais contra as demandas da democracia liberal, do capital transnacional e dos direitos de propriedade e das minorias.

Talvez se trate de neoliberalismo, não de fascismo. E talvez o neoliberalismo esteja passando por crise de legitimidade e aceitação.

Assim sendo, não passam de delírio e pensamento delirante-desejante as ideias de que o fascismo possa ser tratado como criação delirante do século 20, e de que o desafio do fascismo contra a ordem neoliberal possa ser ignorado.

Ainda que a União Europeia cresça e floresça, continuará a enfrentar grandes dificuldades para superar a percepção de que só garante seus benefícios a um subconjunto bem limitado de países, empresas e indivíduos, à custa dos demais, muitos.

No leste da Europa, acrescente à mistura incendiária a percepção de que a União Europeia, aquele bastião dos ideais liberais democráticos e do livre mercado, tem muito pouca vontade, nem tem, sequer, qualquer interesse, em se opor à Rússia.

Esse sentimento não apenas espalhará movimentos progressistas benignos como os “Verdes” e os “Occupy”, que combinam (i) compromisso com a democracia e com direitos humanos e individuais, com (ii) bem merecida reputação por falta de coerência interna, grupelhismo, muitas divisões internas, impotência política e falta de disposição para o confronto.

Para muita gente, o ressentimento inevitavelmente tomará o rumo do nacionalismo e da percepção de que a oposição fascista, de desafio militante, sem programa ou compromisso, e irracional, racialista, des-democrática e antidemocrática exclusionária e brutal, é o melhor instrumento para alcançar alguma (qualquer) identidade local e agenciar poder – e em grandeza continental: maior, mais perigosa, menos aberta ao diálogo civilizado.

Temo que o fascismo não seja apenas parte do passado da Europa: é parte também do futuro da Europa.



[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O levante popular no leste da Ucrânia

Rebelião contra o Primeiro Governo Fascista implantado pelos EUA-Europa no Pós-Guerra

17/5/2014, [*] Lionel Reynolds, Global Research
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

@akarlin88 Mais ucranianos morreram em 90 dias de governo dos fascistas aliados dos EUA, que em três anos de presidência de Yanukovych

É absoluto, é total escândalo, que EUA, União Europeia e OTAN, com seus/suas “rainhas da bateria” nas empresas de imprensa comercial, estejam promovendo, fazendo propaganda e divulgando um governo que deixa correr, com rédeas soltas, os grupos de fascistas mais ensandecidos, e justamente na área onde se localiza o coração da classe trabalhadora industrial da Ucrânia.

Membros do Batalhão nazista do Donbass sediado na pequena cidade de Dnipropetrovsk 
Essa semana, a guerra no leste da Ucrânia continuou, apesar dos referendos realizados em Donetsk e Lugansk no domingo. Nas circunstâncias, os referendos foram bem organizados. O grau de acuidade dos resultados pode ser questionado, mas já não cabe dúvida de que os grupos regionais que se opõem ao regime de Kiev gozam, sim, de apoio forte e declarado da população.

O regime ucraniano rotulou os “rebeldes” de “terroristas”. Ao mesmo tempo, recrutaram batalhões de bandidos mascarados e armados dos grupos de direita e os enviaram para o Donbass. Esses homens vestidos de negro, cuja existência nem a empresa-imprensa mais comercial consegue negar (ver também em: 14/5/2014, Kiev Post, em: Volunteer Donbass Battalion takes up arms to defend Ukraine, defeat separatists), são pagos, pelo menos em parte por interesses comerciais e empresariais bem íntimos do próprio governo de Yatsenyuk. Semana passada, assassinaram civis em Mariupol e Slavyansk.

Ao longo dos referendos, os veículos comerciais da imprensa-empresa falaram muito de a votação estar acontecendo “sob mira de fuzis”. Até que acertaram, dessa vez: os eleitores tiveram de enfrentar o perigo de serem fuzilados, para conseguir votar. Em Krasnoarmeisk um grupo de bandidos armados neonazistas pró-governo de Kiev tentou impedir que eleitores se aproximassem das zonas eleitorais. Ouviram-se tiros e houve civis feridos. Foi ação sem qualquer lógica militar. Não há motivo algum pelo qual o regime devesse dar “tratamento especial” ao referendo nessa específica cidade. O mais provável é que tenha sido ação de puro exibicionismo terrorista, com o objetivo de intimidar os votantes e criar “noticiário” para a campanha de propaganda pró-Kiev de toda a imprensa-empresa comercial ocidental. Praticamente com certeza, foi ato de alguma gangue de bandidos neonazistas pró-Kiev & EUA.

Bem-vindos à Ucrânia-EUA: primeiro governo neofascista na Europa do pós-guerra

O regime neofascista e seus apoiadores no “bloco atlanticista” (Washington, União Europeia, OTAN) e a imprensa-empresa comercial dominante muito falaram sobre os rebeldes do Donbass, que seriam agentes russos. E ainda insistem em falar da rebelião antifascista como se fosse terrorismo “pró-russos”.

É possível até que funcione, como propaganda, entre os que nada saibam do elemento etnocultural russo crucialmente importante dentro da Ucrânia. RT publicou recentemente matéria interessante sobre correlação que há entre o empenho com que os norte-americanos apoiam o regime golpista na Ucrânia, de um lado; e, de outro, a total ignorância dos norte-americanos sobre a própria Ucrânia que eles, sequer, sabem encontrar num mapa.

Mas se a rebelião fosse “coisa” “pró-Rússia”, por que, afinal, estaria acontecendo exatamente agora, em 2014. Por que não aconteceu em 2004? É absolutamente óbvio que há mais aí, do que a imprensa-empresa ocidental mostra.

Onde estão as provas de que os “homens polidos vestidos de verde” são russos? Provas, não meras fotografias distribuídas por conta de instagram e “tratadas” para fazer ver dois homens, igualmente barbudos, onde parece haver um único homem, em duas imagens cortadas-coladas sobre diferentes cenários. Fosse aquilo verdade confirmada, não há dúvida de que a imagem estaria em todas as manchetes. O fato de não estar já fala por ele só.

Arsen Avakov, comemora o assassinato de 30 civis na região do Donbass em 6/5/2014
O regime ucraniano e seus apoiadores falam dos rebeldes antigoverno golpista de Kiev como “terroristas”. O ministro do Interior, Avakov, escreveu recentemente em sua página de Facebook que “a única atitude contra terroristas é atirar para matar”. Estranho, para dizer o mínimo, vindo de ministro do Interior de regime que chegou ao poder mediante golpe! E em fevereiro de 2014? Por acaso não estavam ali, perfeitamente visíveis, todos os traços e pegadas de terrorismo, pré-organizado, de ataques armados planejados com antecedência contra a política e as forças de segurança e executados por gangues de bandidos de extrema direita organizados na praça Maidan, já em fevereiro de 2014?!

Yanukovich fez inúmeras concessões ao movimento da Praça Maidan e, inclusive, assinou acordo de paz. O atual regime não tomou conhecimento do acordo que ele próprio assinara. Resolveu que não negociaria com “terroristas”. A resposta do governo golpista de Kiev e seus apoiadores norte-americanos foi armar as gangues de bandidos de direita já reunidos na Praça Maidan e lançá-los, como matilha de cachorros loucos, contra os cidadãos no Leste da Ucrânia.

Os russos, a Organização de Segurança e Coordenação da Europa (OSCE) e o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha, todos, já se manifestaram: entendem que o regime golpista de Kiev tem de aceitar o início de negociações com os rebeldes. De fato, como todos sabemos – apesar das mentiras do regime ucraniano e do bloco atlanticista – os rebeldes têm considerável apoio nas suas respectivas regiões. Mas o regime golpista de Kiev-EUA não aceita negociar: continua a fazer guerra contra civis ucranianos.

Assim sendo, e deixando de lado a propaganda simplória sobre os tais “agentes russos” e “terroristas pró-Rússia”, é hora de examinarem-se mais a fundo as razões reais do levante popular antifascista que se vê em andamento no leste da Ucrânia.

O contexto de fundo

O estado da Ucrânia que temos hoje é recente e pode-se dizer que seja uma espécie de entidade política artificial, que incorpora regiões com normas culturais e experiência histórica muito diferentes. Em linhas gerais, a Ucrânia é constituída de quatro regiões: o Oeste, cujo núcleo são as províncias (Oblasts) de Galicia, Ternopil e Volhynia; o Centro, baseado em Kiev e Dnieper; o Sul, que inclui Odessa e Dnipropetrovsk; e o Leste, essencialmente o Donbass e Carcóvia.

De fato, os atuais residentes na Ucrânia só coexistiram sob política unificada em 1939 (deixando de lado, por hora, a complexa história da Crimeia e de algumas outras pequenas áreas de fronteira).

A Ucrânia central e do oeste, inclusive Kiev, é área em que predomina o idioma ucraniano. Na Ucrânia do leste, predominam os falantes de russo como primeira língua; como na maioria das áreas urbanizadas no Sul. Muitos falantes de ucraniano são ucranianos étnicos. Cerca de 65% dos falantes de russo são russos étnicos. A Crimeia, já reincorporada à Federação Russa, é etnicamente e linguisticamente predominantemente russa.

Mapa linguístico da Ucrânia
Paralelas às distinções étnicas e linguísticas, há também variações religiosas. Os ucranianos étnicos tendem a pertencer ou à Igreja Católica Ucraniana (fortemente concentrada no oeste do país) ou à Igreja do Patriarcado Ucraniano Ortodoxo de Kiev. Os russos étnicos pertencem à igreja do Patriarcado Ortodoxo de Moscou.

Muitos ucranianos do oeste, e números cada vez maiores de ucranianos do centro do país e de Kiev, apoiam fortemente um nacionalismo aspiracional nascido de um senso de destino histórico frustrado. O nacionalismo ucraniano clássico tem raízes no início do século passado. Como muitos movimentos nacionalistas europeus, tem inimigos declarados – grupos que ameaçam ou oprimem a nação, negando-lhe a realização de algum destino manifesto. Para os nacionalistas ucranianos, o “inimigo” sempre teria sido os judeus, os poloneses e os russos. No atual clima político, os nacionalistas ucranianos entraram em modo de ataque ao elemento semita, traço que sempre se observou no nacionalismo ucraniano clássico. O elemento anti-polonês também sempre foi muito marcado, no passado.

O inimigo ideológico do nacionalismo ucraniano é o comunismo, que é visto como uma espécie de “disfarce” a encobrir a dominação pelos russos étnicos. Sempre houve amargo ressentimento contra os russos, vistos como responsáveis pelo sofrimento terrível pelo qual passaram os camponeses ucranianos durante a coletivização forçada da agricultura nos anos 1930s, quando milhões morreram de fome.

Os russos étnicos na Ucrânia têm senso de identidade completamente à parte. Identificam-se como parte de um espaço etnocultural pan-russo, e descendem, sobretudo, de duas ondas de colonização. A primeira foi a criação da Novorossiya, como resultado da expansão imperial russa no final do século 18. A segunda, a criação da União Soviética. Os russos étnicos não são tipicamente comunistas; de fato, o leste da Ucrânia é algo como um reduto comunista dentro do espaço ex-soviético.

Mapa étinico da Ucrânia
Além do mais, há grande número de ucranianos que falam russo. São ucranianos étnicos que foram socializados no idioma russo no contexto da urbanização industrial. Isso porque nas áreas nas quais predomina o russo a predominância sempre foi mais comum nas cidades, que no campo.

São dois grupos etnolinguísticos básicos (há outros grupos, mas relativamente pequenos e sem impacto considerável na questão em curso), cada um deles com suas específicas memórias históricas partilhadas – o que tende a reforçar, simultaneamente, tanto a solidariedade intragrupo como a exclusividade extragrupo.

O que se pode chamar de “etnocultura ucraniana” memorializa o terrível sofrimento dos tempos das coletivizações soviéticas (interpretadas sempre como “russas”). É fator usado como justificação histórica básica para a colaboração de muitos dos ucranianos do oeste, com os nazistas. Mas essa colaboração jamais foi “simples” e sem oposição, dado que os nazistas alemães sempre manifestaram o mais absoluto desprezo pelos povos eslavos; o único interesse dos nazistas sempre foi explorar os sentimentos anti-Rússia, a favor dos objetivos nazistas.

Por outro lado, o que se pode chamar de “etnocultura russa” memorializa o horrendo genocídio nas garras dos invasores nazistas e seus colaboradores, e a eventual vitória do Exército Vermelho. Muitos, o maior número de ucranianos, lutaram no Exército Vermelho que contra ele, mas, dada a atual ascendência do nacionalismo ucraniano, esse equilíbrio não se reflete na história contemporânea como é hoje “reimaginada”.

Os ucranianos étnicos tendem mais facilmente a votar pelo centro direita, com os partidos burgueses liberais de orientação “ocidental” [norte-americana e/ou União Europeia & OTAN]. Os russos étnicos tendem mais a votar pelo centro-esquerda e partidos mais “estatizantes”, de orientação “eurasiana”. Os partidos nacionalistas praticamente não têm apoio entre os russos. Os partidos comunistas têm pouco apoio entre os ucranianos.

As duas “etnoculturas” internalizaram narrativas históricas que são potencialmente antagônicas. Para um lado, o inimigo são os russos (soviéticos), e os heróis são os nacionalistas ucranianos que combateram contra os russos (soviéticos) na IIª Guerra Mundial. Para o outro lado, o inimigo são os nazistas, além dos nacionalistas ucranianos os quais, ou lutaram com os nazistas ou lutaram contra os soviéticos; e os heróis são os soviéticos – ucranianos étnicos e russos étnicos.

Numa cultura política pluralista e inclusiva, essas diferenças não são necessariamente problema insolúvel, desde que os grupos consigam construir o próprio senso de identidade de modo respeitoso e tolerante.

Infelizmente, a Ucrânia contemporânea viu crescer uma onda virulenta de etnonacionalismo entre os que se autoidentificam como “ucranianos”. Esses nacionalistas rejeitam furiosamente o aspecto “russo” da identidade civil e política da Ucrânia. Veem a Rússia como inimiga e, no mínimo, desconfiam muito dos russos étnicos na Ucrânia. Ressentem-se também do uso disseminado do idioma russo; e dos remanescentes históricos e culturais do Comunismo Soviético.

Stepan Bandera (ao centro) com farda de coronel do exército nazista na IIa. Grande Guerra
O confronto resultante de narrativas etnoculturais e identidades histórico-políticas pode ser exemplificado pela “batalha dos monumentos”. Em anos recentes, monumentos em homenagem a Stepan Bandera brotaram por todo o oeste da Ucrânia. Os monumentos em homenagem a Lênin concentram-se agora quase totalmente no leste e no sul da Ucrânia. Havia um em Kiev, mas foi derrubado como parte da “ação” do golpe de Maidan. Para muitos, no leste, Bandera foi criminoso, colaboracionista e fascista. Para muitos, no oeste, Lênin foi criminoso e precursor das coletivizações stalinistas (além de ser russo).

Deve-se enfatizar que a Ucrânia conseguiu manter a própria unidade durante 80 anos, apesar de todas essas diferenças. Mas a unidade da nação ucraniana está, agora, sob pesado estresse.

A Praça Maidan e o golpe nacionalista

O levante fascista da Praça Maidan, e o golpe subsequente contra o governo de Yanukovich foi apoiado pelo bloco atlanticista e pela imprensa-empresa comercial dominante, como se fosse vitória de forças liberais e democráticas contra regime estatizante, corrupto e – pior! – “pró-Rússia”.

Essa é a narrativa padrão que os atlanticistas usam para “colorir” as “revoluções” que produzem; é o meio para expor a vitória do lado que interessa ao bloco atlanticista como se fosse vitória de algum bloco “naturalmente” democrático; os interesses desse bloco, coincidentemente, correspondem também “naturalmente” aos interesses do mesmo bloco (i) atlanticista; e (ii) golpista. Essa narrativa, como se demonstra aqui, adiante, no caso da Ucrânia, e como se pode demonstrar também no caso da Síria, é uma sequência de mentiras em cadeia ou, pelo menos, é uma cadeia em que se ligam mais mentiras, que fatos demonstráveis e confirmáveis.

A narrativa atlanticista também encobre outro fato crucialmente importante. O movimento da Praça Maidan e o regime pós-golpe são, em vasta medida, criação de apenas um dos dois amplos grupo políticos e etnoculturais que coabitam na Ucrânia. Essa evidência é determinante e tem de ser bem compreendida para que se possa avaliar com clareza a resposta de muitos no leste e no sul, aos eventos recentes.

O movimento de protesto de Maidan foi gerado, sobretudo, pelo sentimento nacionalista ucraniano e por manifestantes do oeste e do centro da Ucrânia. O regime que está hoje no poder é uma coalizão de três partidos políticos. O centro de gravidade geográfico dos três partidos está no Oeste/Centro da Ucrânia, com presença menor no sul (especialmente Dnipropetrovsk), mas apoio muito atenuado no leste.

Neonazistas do Svoboda desfilam em Kiev com o retrato de Stepan Bandera
Um desses partidos, o Svoboda fascista (adiante, mais sobre ele), tem praticamente toda a sua base concentrada exclusivamente no oeste do país. Nas eleições para o Parlamento, em 2012, o partido fascista Svoboda recebeu apenas cerca de 1-2% dos votos dos milhões de eleitores do leste industrializado falante de russo. Mas tiveram mais de 30% dos votos em cidades do oeste da Ucrânia, como Ternopil e Lyviv.

A natureza anti-russos, como um dos elementos significativos no novo governo pós-Maidan, já ficou bem evidente desde o primeiro momento. Ouviram-se vozes que exigiam que o ucraniano fosse tornado língua oficial obrigatória, com proibição do uso do idioma russo, websites em russo foram derrubados; estações de televisão que transmitem em russo foram bloqueadas e jornalistas russos influentes tiveram cancelados os passaportes ou os vistos de residência ou de passagem pelo país.
Em Kiev, fascistas russofóbicos andavam acintosamente pelas ruas atacando oponentes; por exemplo, invadiram e saquearam os escritórios do Partido das Regiões e do Partido Comunista, e atacaram jornalistas de televisão que divulgavam notícias favoráveis à reincorporação da Crimeia à Federação Russa, a pedido dos crimeanos.

E como se isso não bastasse, à luz do contexto histórico acima exposto, é difícil avaliar a extensão da ofensa da qual a classe trabalhadora industrial socialista russa da região do Donbass ressentiu-se, cometida contra ela, quando os mineiros e trabalhadores deram-se conta de que um golpe do qual não participaram, feito à revelia deles, havia instalado um novo governo que incluía fascistas do oeste da Ucrânia.

A natureza etnocultural viciosa, orientada só por uma visão, cega e surda às diferenças que dividem o país, marca registrada do golpe da Praça Maidan e do regime que dali se espalhou para todo o país, terá provocado alguma preocupação entre os apoiadores atlanticistas – EUA, União Europeia, OTAN, esses bastiões de defesa do pluralismo e da inclusão? Não e não. Não lhes fez nem cócegas. Por quê? Porque o único interesse desse grupo era explorar a situação para seu próprio ganho geopolítico.

Sempre se tratou exclusivamente de ganhar a Ucrânia para o bloco atlanticista, aprofundar a presença e o engajamento da OTAN, estender os tentáculos da oligarquia empresarial da União Europeia; criar mais um estado endividado a ser “depenado” pelo Fundo Monetário Internacional; e “punir” Putin por ter feito gorar os esquemas do bloco atlanticista para vaporizar a Síria do Partido Ba’ath e converter o Oriente Médio em quintal um pouco mais seguro para EUA, União Europeia, OTAN e Israel – ou, como os “jornalistas” da imprensa-empresa comercial ocidental denominam o mesmo grupelho: para a “comunidade internacional”.

Na busca dessa meta, não apenas o bloco atlanticista tratou os falantes de russo e o leste de tendências socialistas como se não existissem, mas, também, o bloco “ocidental” não se envergonhou de alistar-se abertamente ao lado dos fascistas!

O bloco atlanticista teve de encobrir o fato de que atropelara todas as delicadas divisões na Ucrânia para obter o que se pudesse apresentar como “vitória” geoestratégica, pondo sob grave ameaça o próprio tecido da unidade ucraniana pluralista [que fazia contrapeso ao etnonacionalismo extremista]. Teve de explicar por que tantos no leste, no sul e na Crimeia puseram-se a protestar em número crescente, muitos dos quais acenando com bandeiras russas – brandidas como signo de “nova via”, ante a identidade etnocultural ofendida dos ucranianos.

Para obter isso, o bloco atlanticista teve de inventar e distribuir até implantar na opinião pública uma narrativa histérica, fortemente enviesada anti-Rússia, conspiracional, na esperança de, mediante essa narrativa histérica, conseguir empurrar a opinião pública para bem longe do fato de que as divisões na Ucrânia de hoje foram, de fato, em larga medida PROVOCADAS, numa sequência de eventos que o bloco atlanticista explorou desavergonhadamente a seu próprio favor e para seu próprio e exclusivo benefício.

Por exemplo, segundo o “noticiário” dos veículos de imprensa-imprensa atlanticista, a Crimeia não se autosseparou da Ucrânia: a Crimeia teria sido invadida. Culpa dos russos. Assalto, puro e simples, com roubo e ocupação de terras. Não é verdade. Essa é a versão mentirosa. Essa versão ignora convenientemente o fato de que, por todas as normas existentes e concebíveis de autodeterminação nacional democrática – as mesmas que o bloco atlanticista tanto defende quando lhe interessa, quanto agride quando os interesses mudam – a Crimeia sempre foi, deve continuar e requereu legalmente para continuar a ser, república autônoma incorporada à Federação Russa, como deve ser e quer ser.

A Crimeia só foi dada à Ucrânia em 1954. Antes sempre tivera e nutrira sua forte identidade russa. O apoio da população crimeana à reintegração à Federação Russa foi gigante.

Vladimir Putin assina acordo de reintegração da República da Crimeia à Federação russa
Por que, em março de 2014, a Crimeia optou por voltar a ser parte da Rússia? Por que não antes? Por que não em 2004? A resposta para essas perguntas é que os eventos em Kiev provocaram completa, compreensível e genuína reação irredentista. [1] Para a Crimeia, o negócio com a “Ucrânia”, concluído em 1954 sem o consentimento formal dos cidadãos, já era assunto velho e ultrapassado. Etnicamente a Crimeia russa não tinha, como não tem, qualquer interesse em ser parte integrante de um regime ucraniano nacionalista fantoche do sistema atlanticista. Especialmente não, se, como se sabe, o atual governo nacionalista e fantoche de EUA-UE-OTAN é aliado a partidos fascistas.

Quanto ao crescimento, no leste, do movimento de base contra o governo de Kiev, especialmente no Donbass, é também um fenômeno puramente reflexivo. Não houve “homens polidos vestidos de verde e armados” antes que os “fascistas de camisas negras” tomassem o poder e tratassem o leste russófilo, com ódio russofóbico.

Em Kiev, membros do Parlamento há muitos meses ameaçavam banir o Partido Comunista e o Partido das Regiões. Esse tipo de non sense antidemocrático apenas recomeçou logo depois do referendo de Donetsk, em larga medida porque elementos do Partido das Regiões e do Partido Comunista haviam tido coragem suficiente para denunciar que a culpa pelos eventos no Donbass não cabia nem jamais coubera aos russos, mas, sim, ao regime golpista de Kiev e aos seus patrocinadores internacionais.

Mas há ainda um aspecto mais importante que esses. A natureza da rebelião em Donetsk está sendo sistematicamente distorcida desde o primeiro momento. A imprensa-empresa fala sempre de que seria movimento “pró-Rússia” ou que seria movimento “separatista”.

De fato, no plano popular, a rebelião em Donetsk é, antes de tudo, ANTIFASCISTA.

Quem tenha visto fotos dos cartazes, faixas e pôsteres exibidos nas barricadas em torno de prédio ocupados ou bloqueios em estradas, ou que tenha visto os cartazes e faixas exibidos nas manifestações, ou que tenha ouvido os gritos de “fascistas!” contra as forças ucranianas que atacavam ucranianos em Mariupol ou Slavyansk, não deixará de perceber que, ali, se trata de a rebelião, antes de tudo, ANTIFASCISTA.

Mas por que o povo do Donbass define como fascista, o regime de Kiev? Será simples efeito da propaganda russa, explorando velhos medos históricos?

O fascismo ucraniano – de “movimento” a “governo”

Dia 21/2/2014, o governo de Yanukovich concluiu um acordo de paz com os três principais partidos que davam base política à liderança dos protestos da Praça Maidan. Esse acordo foi negociado por Alemanha, França e Polônia. Foi firmado depois de ataque armado violento, que provocou mais de cem mortos na praça; incluía um compromisso para construir um governo de unidade nacional; realizar eleições sem grande demora; anistia a todos os manifestantes; e investigação ampla e transparente, sob supervisão internacional, para esclarecer os ataques à bala na praça, contra os manifestantes, que haviam ocorrido nos três dias antes de o acordo ser assinado.

Se esse acordo tivesse sido honrado, é altamente provável que a Ucrânia, hoje, estivesse em situação bem diferente. Mas não foi honrado, e por razão bem simples – quando a liderança do Parlamento ucraniano levou o acordo ao conhecimento do “comando” da linha mais dura do “movimento” em Maidan, ele simplesmente rejeitaram o acordo e, na sequência, lançaram os ataques mais violentos contra inimigos do regime. Dia seguinte, Yanuokovich desapareceu, muito provavelmente para tentar salvar a vida (e ainda mais provavelmente, para tentar salvar o dinheiro). O Partido das Regiões implodiu; e o velho regime foi alvo de “impeachement”, embora em condições de constitucionalidade e de legalidade que eram, no mínimo, muito duvidosas.

A força por trás de tudo isso eram os radicais da Praça Maidan, já nesse momento mobilizados em torno da liderança do conhecido Pravy Sektor (Setor Direita) – grupo de fascistas armados. O que temos hoje como “governo de Kiev” – que a imprensa-empresa chama de “regime de Yatseniuk” – é governo que chegou ao poder mediante golpe e violência fascistas.

Quanto a isso, a posição da Rússia sempre foi rigorosamente a mais acertada, a mais ponderada e a única posição moralmente defensável: a Rússia sempre insistiu em que se retomassem os termos negociados no acordo do dia 21/2/2014. Os EUA opuseram-se. E os EUA apoiaram 100% o governo pós-golpe – vale dizer: o governo dos fascistas – ignorando completamente o acordo de paz multilateral que os fascistas da Praça Maidan haviam atropelado.

Mas há muito mais de presença fascista no atual regime de Kiev, que as circunstâncias que cercam o golpe.

Pode-se voltar ao ano de 1991, à fundação do Partido Social-nacionalista. Como qualquer aluno estudante de fascismo sabe, “social-nacionalista” significa Nazi-socialista, em ordem invertida, só para soar menos apavorante: o significado é o mesmo.

Nacionalismo social = Socialismo nacional = Nazismo = Fascismo

O Partido Nacional Social foi inspirado pelo nazismo histórico, e tem conexões com o nacionalismo radical do oeste da Ucrânia. São grupos cujos tentáculos alcançam até as torcidas organizadas de times de futebol. Operam uma organização paramilitar, chamada “Os Patriotas da Ucrânia”, liderada por um dos cofundadores do Partido, um certo Andriy Parubiy. Só se admitem como membros do partido, ucranianos étnicos.

Andriy Parubiy, neonazista do Svoboda, tornou-se o no Chefe das Forças Armadas, Polícia  e dos Serviços de Inteligência da Ucrânia.
Curiosamente, a atual encarnação desse partido nazista é que está hoje no governo da Ucrânia. E Andriy Parubiy é diretor da Segurança Nacional desse governo... E esse mesmo governo conta com irrestrito apoio dos EUA, da União Europeia, da OTAN e de toda a imprensa-empresa comercial planetária.

Em 2004, o Partido Nacional-Social trocou de nome para Partido “Liberdade” [Svoboda], e abandonou o símbolo cripto-rúnico que o mundo sempre identificou e sempre identificará como emblema fascista, e que usara desde os tempos em que o partido congregava skinheads (já chefiados, então, por Parubiy).

Oleh Tyahnybok com a tradicional saudação nazista
Naquele mesmo ano, o líder, Oleh Tyahnybok, o qual, durante os tumultos na Praça Maidan apareceu nas telas de televisão do mundo ao lado de figuras como Catherine Ashton e John McCain, fez um discurso, na cerimônia de enterro de um ex-comandante do Exército Ucraniano colaboracionista; nesse discurso, conclamou os ucranianos a lutar contra a “máfia judeu-moscovita”, e elogiou a Organização dos Nacionalistas Ucranianos por terem lutado contra “moscovitas, alemães, judeus e o resto da escória que queria roubar nosso estado ucraniano”. Esse discurso está gravado e provocou grave controvérsia na Ucrânia já em 2004.

Quando aconteceu a Revolução Laranja, o partido era insignificante, mas ao longo da segunda metade daquela década houve crescimento considerável, sobretudo no oeste na Ucrânia. Esse desdobramento tem de ser visto no contexto do crescimento de toda uma extrema direita pan-europeia – organizações como Jobbik na Hungria; a Frente Nacional na França, e o BNP no Reino Unido. Em 2009, o partido Svoboda uniu-se à Aliança de Movimentos Nacionais Europeus como membro-observador; nessa aliança, os ucranianos passaram a ter contato íntimo (e armado e de treinamento) com fascistas italianos, húngaros, espanhóis e portugueses.

Em 2009, o partido Svoboda também conheceu o seu maior sucesso eleitoral, obtendo mais de 30% dos votos nas eleições da região [oblast] de Ternopil. Em 2010, tornou-se a maior força na Galicia; e em 2012, nas eleições parlamentares, obteve 38 assentos com direito a voto; mais de 10% do total de votos e conseguindo multiplicar por catorze o número de votos recebidos, em comparação a 2007. No oeste da Ucrânia, o partido Svoboda obteve 40% dos votos; mas no leste, não alcançou nem 2%.

Nas eleições de 2012, o partido Svoboda fez um pacto eleitoral com o Partido Batkivshchyna, de Yatseniuk/Yulia Timoshenko (para derrubar a legislação proposta, que impediria propaganda fascista na Ucrânia). Depois da eleição, o partido Svoboda fez acertos no Parlamento com o partido de Yatsenyuk e com o partido UDAR, de Vitali Klitschko. Esses três partidos constituem o núcleo duro do Parlamento que se transferiu para a Praça Maidan e, dali, para formar o atual governo apoiado pelos EUA-União Europeia e OTAN.

Verdade chocante é que, em 2004, houve a Revolução Laranja e, em 2014, a Revolução das Camisas Marrons fascistas.

A diferença entre 2004 4 2014 é o renascimento do fascismo do oeste da Ucrânia, ao longo da década que separa as duas datas. Assim aconteceu de, hoje, haver na Ucrânia um governo do qual participam partidos fascistas: é o primeiro caso, na história da Europa do pós-guerra. Aconteceu com pleno apoio do bloco atlanticista, e em aliança com nacionalistas burgueses antiesquerda e com os neoliberais neoconservadores. Hoje, o partido Svoboda conta com cinco membros fascistas, com cargos no governo da Ucrânia.

O Donbass , onde em 2012 havia cerca de 20 votos comunistas para cada voto fascista, vê-se hoje governado por um regime putschista, constituído de russófobos e de fascistas ocidentais profundamente anticomunistas.

Militantes do Pravy Sektor 
Há ainda mais um elemento na cena fascista na Ucrânia e que também está conhecendo extraordinário renascimento nos últimos seis meses – o facinoroso Pravy Sektor (Setor Direita). O Setor Direita foi formado de uma associação de vários grupos paramilitares fascistas, inclusive os Patriotas da Ucrânia, que se organizaram dentro do Partido Svoboda, quando os fascistas decidiram passar a participar da vida política nacional oficial na Ucrânia, em 2004.

O Setor Direita passou a ser a força de rua decisiva durante o levante fascista da Praça Maidan, e liderou o putsh até expulsar do governo o regime de Yanukovich, depois que o comando do golpe rompeu o acordo assinado dia 22/2/2014. O Setor Direita também desempenhou papel significativo ao fornecer voluntários para as milícias secretas e batalhões ilegais do novo governo. É grupo bem armado, e recentemente realocou sua liderança, de Kiev para Dnipropetrovsk, com o explicitado objetivo de estar mais próximo da “ação”, no Donbass.

A imprensa-empresa comercial dominante tentou pintar o golpe de Maidan e o governo que dali se originou pela força como alguma espécie de “revolução colorida” – parte da gradual nas inevitável vitória do capitalismo burguês liberal nos espaços antes ocupados pelo bloco soviético. Mas há muito mais marrom-cor-de-merda, que de laranja, nessa revolução.

É absoluto, é total escândalo, que EUA, União Europeia e OTAN, com seus/suas “rainhas da bateria” nas empresas da imprensa-empresa comercial, estejam promovendo, propagandeando e divulgando um governo que deixa correr, com rédeas soltas, os grupos de fascistas mais ensandecidos, e justamente na área onde se localiza o coração da classe trabalhadora industrial da Ucrânia.

Guerra Civil?

Esse, afinal, é o contexto real da rebelião no Donbass; e explica não só por que está acontecendo, mas, também, por que está acontecendo agora.

O regime ucraniano é regime neofascista que chegou ao poder por ação de golpe violento, perpetrado por forças nacionalistas de extrema direita. E a Crimeia e o Donbass levantaram-se contra essa usurpação inconstitucional do poder do estado.

O bloco atlanticista deu pleno apoio ao golpe e esperava que a Rússia se curvasse obedientemente à autodeclarada hegemonia global do bloco EUA-UE-OTAN. Putin tinha outros planos. E a Crimeia voltou a reintegrar-se à Rússia.

A Ucrânia, apoiada pelo bloco atlanticista, armou grupos fascistas e lançou-os contra o Donbass. Só conseguiram piorar as coisas, e, no referendo, afinal, o povo do Donbass declarou, para que todos vissem e ouvissem, a sua própria posição e seu próprio desejo.

O obsceno ataque pelas forças fascistas ucranianas contra o Donbass tem de parar. Se não parar, a Ucrânia deslizará cada vez mais diretamente para a guerra civil. Se isso acontecer, a culpa será deposta, integralmente, à porta do amaldiçoado estado-governo imperialista de Washington, da União Europeia e da OTAN.

[*] Lionel Reynolds é autor/analista independente dos sítios Global Research, OpEd News, The 4th Media e Strategic Culture Foundation. Também anima o próprio blog: Dispatches from the Empire onde posta seus artigos e outros selecionados em vários blogs e sítios.
Utiliza o twitter: @DispFromEmpire
_____________________

Nota dos tradutores

[1] Irredentismo indica a aspiração de um povo a completar a própria unidade territorial nacional, anexando terras sujeitas ao domínio estrangeiro ("terras irredentas") com base em teorias de uma identidade étnica ou de uma precedente posse histórica, verdadeira ou suposta. O irredentismo, portanto, diz respeito aos povos que, vivendo em uma terra sujeita à autoridade de um certo Estado, desejam separar-se deste para fazer parte do estado do qual sentem a paternidade e a origem, ou constituir um próprio estado nacional separado. Nem sempre as disputas territoriais são irredentistas, mas frequentemente vêm colocadas como tais para conquistar o apoio internacional e da opinião pública.