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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Gregos em luta contra medidas “de austeridade” [Parte 1]


“Privatizações e desregulação jamais geraram ou gerarão qualquer crescimento”

20/10/2012, Paul Jay entrevista Costas Lapavitsas - TRNN
Vídeo traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu

PAUL JAY, editor sênior de TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Paul Jay, em Baltimore.

Na Grécia, a recessão aprofunda-se e a sociedade está em colapso. Hoje, conosco, temos Costas Lapavitsas, de Londres. Costas é professor de Economia da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres; membro do instituto de Pesquisas sobre Dinheiro e Finanças; e colunista do Guardian. A partir de agora, passa a trabalhar também como colaborador regular de TRNN. Seu mais recente livro é Crisis in the Eurozone [Crise na Eurozona]. Obrigado por nos receber mais uma vez, Costas.

COSTAS LAPAVITSAS: É um prazer.

JAY: Você está indo à Grécia praticamente a cada 15 dias. O que está acontecendo? Merkel visitou o país há poucos dias.

LAPAVITSAS: A visita da chanceler Merkel esteve em todas as manchetes, obviamente. A visita, em minha opinião, significou três coisas. Para começar, foi repentina. De repente, Merkel apareceu lá. Entendo que signifique três coisas.

Primeiro, mostra que os países centrais da Eurozona, a Alemanha principalmente, não expulsarão a Grécia. Digo isso, porque muito se discutiu, nos últimos tempos, sobre expulsar a Grécia, como meio para resolver todos os problemas. OK, a visita significa que não acontecerá. O núcleo duro da eurozona não expulsará a Grécia, desde que a Grécia continue a obedecer os termos do acordo, embora a Grécia esteja atrasada no processo, ande lentamente, etc. A Grécia terá ainda de aceitar alguns detalhes menores, mas, não, a Alemanha não expulsará a Grécia.

E a Alemanha não expulsará, porque o custo de expulsar a Grécia agora é, potencialmente, gigantesco. O próprio euro sofrerá terrivelmente. Pode chegar ao colapso. E o sistema financeiro global também sofrerá terrivelmente, se a Grécia for expulsa. A Grécia não será expulsa da eurozona: esse, então, é o primeiro significado da visita de Merkel.

A segunda coisa que se pode ver na visita da chanceler Merkel é que a elite grega, os que fazem as políticas – e falo não só dos partidos políticos, mas também dos burocratas e outros que tomam decisões políticas na Grécia – absolutamente não têm qualquer estratégia diferente, que não seja continuar na Eurozona. Não veem qualquer outra alternativa, não produziram qualquer outra visão estratégica que não seja permanecer na Eurozona. Farão o que tiverem de fazer para permanecer na Eurozona, seja o que for, não importa o que seja.

A terceira coisa que apareceu bem clara durante a visita de Merkel é que a sociedade grega, nesse momento, está catatônica, de fato, paralisada. É horrível de ver. As pessoas estão sem força, sem esperança. Não confiam em nada e ninguém. Estão em fúria, sim, mas o sentimento dominante é o desejo de que apareça alguém que os tire da situação em que estão. Em outras palavras, a sociedade está ruindo. Está sendo destruída, diariamente, um pouco mais a cada dia.

Ora... A combinação dessas três coisas é absolutamente instável, é explosiva. E esse é o sofrimento que aguarda os gregos no futuro imediato. Em outras palavras, os gregos só têm a esperar mais instabilidade, econômica e política, no futuro imediato, na Grécia.

JAY: Eu... Em entrevista que fiz há alguns anos, com Noam Chomsky, ele disse algo que me voltou à cabeça, agora... A sociedade alemã aceitou Hitler muito rapidamente, se se pensa em como andaram rapidamente de uma Berlim progressista, de vanguarda, para uma Berlim fascista. O que quero dizer é... Há perigo de acontecer coisa semelhante na Grécia?

LAPAVITSAS: Ah, o perigo é muito real. Muito real. Quero dizer... O centro da política, as organizações políticas que dirigiram a Grécia por 40 anos foram esvaziadas.

É que... As pessoas não entendem. Pensam que o estado grego sempre tenha sido muito fraco, ineficiente, que os políticos gregos sejam incompetentes, a conversa de sempre. Tudo isso é bobagem. O estado grego foi muito eficiente e capaz de oferecer muita coisa à sociedade grega. A Grécia é um país de renda média, o sistema político grego sempre foi dos mais estáveis, talvez o mais estável, da Europa. Dois partidos alternavam-se no poder e nada mudou por 30, 40 anos.

Agora, acabou. Aquela estabilidade acabou. Aqueles dois partidos estão completamente desacreditados. O centro foi esvaziado, está vazio. E partidos da esquerda e da extrema direita estão se fortalecendo.

Isso é reflexo do que lhe disse antes, sobre a confusão, a desilusão e a ira generalizada entre os cidadãos comuns. Já não procuram soluções nos espaços do centro: estão procurando soluções nos pontos extremos do espectro político. No momento, o lado predominante é a esquerda. Estão olhando para a esquerda, esperando soluções da esquerda, da coalizão SYRIZA.

Mas, sim, cada dia mais gente, gente habituada a seguir a direita, está hoje, também, olhando para a extrema direita. É reação lógica. Se o centro-direita acabou desacreditado, muita gente de centro olha para a extrema direita – que promete “mãos limpas”, “transparência”, o “fim da corrupção”, mais negócios com investidores estrangeiros (como eles entendem esses processos)... Esse processo, sim, pode ser muito rápido. Pode andar muito depressa.

JAY: Então... Em que pé estão as coisas, em termos de processo? Na última vez que conversamos, você – sabe... a questão era quanto tempo esse governo duraria, as pessoas completamente indignadas com aquelas medidas ‘de austeridade’, e que havia reais possibilidades de, se houvesse eleições, SYRIZA vencer... SYRIZA, essa aliança de forças de esquerda que se organizaram em partido eleitoral. Que chances há de novas eleições e vitória de SYRIZA?

LAPAVITSAS: Prefiro falar, antes, de economia e sociedade e, depois, falamos de política.

O que está acontecendo na economia é continuação do mesmo desastre que já se via há dois anos e sobre o qual conversamos, daquela vez. Todos os indicadores econômicos pioraram e continuam piorando. O mais recente, sobre o qual acho que não conversamos daquela vez, são as exportações.

Desde o final de 2010, o único indicador que ainda parecia levemente positivo na Grécia eram as exportações. O mercado interno grego ficou completamente sem saídas, e as exportações apareceram como saída ainda possível e funcionou, por algum tempo. Agora, isso também acabou. As exportações para a União Europeia já vinham caindo há algum tempo. Agora, outras exportações, para outros mercados fora da União Europeia também começaram a cair, provavelmente por falta de crédito para empresas exportadoras.

O que se vê, assim, é que todos os elementos da demanda encolhem. É situação completamente sem precedentes. O desemprego, consequentemente, também já alcança picos sem precedentes. O mais recente indicador de desemprego foi divulgado ontem: 25,1% de desemprego agregado. Entre os jovens, o desemprego já chega a 55%, ou bem perto disso. A economia real já está em colapso. Basicamente, a Grécia está recuando, está contraindo, passando de economia de renda média, para economia de baixa renda. O que está acontecendo é isso.

Ora, nesse contexto de declínio, a estabilização fiscal é inacreditavelmente difícil, como se pode imaginar. Se o PIB está em contração, é cada dia mais difícil, mais difícil, até ser absolutamente difícil, impossível, para o governo alcançar algum equilíbrio entre entradas e saídas. E o governo continua cortando, continua criando novos impostos... Acontece assim sempre, em economias em declínio, em que a base de arrecadação é declinante: o que já está ruim, só pode piorar. OK, o déficit diminui, mas sem nenhuma estabilização. Portanto, a qualquer momento, as contas do governo podem facilmente explodir. A estabilização fiscal é terrivelmente difícil, e cada dia mais difícil.

A última coisa que está acontecendo (e conectada a essas todas) é, claro, a dívida pública. A dívida grega está ficando completamente inadministrável. Em março, houve cancelamento de dívidas gregas, dívidas de credores privados. Foi terrível, o que aconteceu em março, porque aquele cancelamento foi organizado pelos próprios bancos credores. Em outras palavras: os bancos estrangeiros pularam fora, depois de obter para eles mesmos as melhores condições possíveis; e a pressão total do cancelamento das dívidas caiu sobre os bancos gregos e sobre os fundos de pensão gregos etc., que foram esmagados. E o impacto sobre o total agregado da dívida foi mínimo. Os bancos intermediários, que administram esse processo, tiveram lucros imensos. E, no final, a redução da dívida grega foi, de fato, quase zero. Volta-se ao ciclo dos empréstimos tomados pelo Estado.

Some a isso o PIB que só cai... e a pressão da dívida grega é hoje maior que antes. A dívida está completamente fora de controle.

De diferente, hoje, que a Grécia de hoje deve grande parte de sua dívida a bancos oficiais. Quando essa crise começou, há três anos, a Grécia tinha uma grande dívida externa, mas devia a credores privados, e a dívida era regida pela legislação grega.

[Nota da Vila Vudu: “Em momento semelhante, no Brasil, o governo Lula pagou o que devia ao FMI e despachou daqui aquele “sub-do-sub-do-sub”, lembram? Grande Presidente Lula! Grande Presidenta Dilma! #Haddad”]

Naquele momento, a Grécia teria podido reestruturar bem facilmente aquela dívida. Claro, reestruturar dívidas nunca é fácil, mas as condições, há três anos, eram favoráveis à Grécia. Hoje, três anos depois de resgates e ajudas, a Grécia padece sob dívida ainda maior. E agora deve a bancos oficiais e a dívida é regida pela legislação britânica. A Grécia perdeu a possibilidade de reestruturar unilateralmente a própria dívida. Claro que, hoje, a situação é muito, muito mais difícil.

A combinação de todos esses fatores – declínio da economia, finanças públicas cada vez mais precárias e dívida fora de controle – demonstra fartamente que todo o programa, até agora, já fracassou ou está fracassando dramaticamente.

JAY: E as privatizações? Como está o processo de vender patrimônio público? 

LAPAVITSAS: Essa é o outra face do mesmo programa. Chamo de “lado desenvolvimento”... Todos os programas do FMI sempre têm dois lados, um “lado estabilização” e um “lado desenvolvimento”. Falei até aqui sobre o “lado estabilização”, já absolutamente fracassado.

O “lado desenvolvimento” parece ter sido pensado e implantado pela mesma filosofia do FMI e da União Europeia, que envolve privatização, desregulação, baixos salários e aumentar a eficiência do Estado, que seria “modernizado”.

As privatizações, como se vê, não foram bem sucedidas, porque, obviamente, sem considerar todos os outros fatores, o momento atual, na Grécia, é o pior momento, em toda a história, para vender patrimônio público, porque os preços desabaram. É venda de liquidação, para “fechar”. Nunca, antes, houve pior momento para vender patrimônio público. As privatizações, portanto, na Grécia, pelo menos até hoje, foram total fracasso. 

JAY: Sim, foram fracasso para o povo grego e para o estado grego, mas foram excelente negócio para quem comprou.

LAPAVITSAS: Sim. E as privatizações também são cada dia mais difíceis, porque, hoje, já é difícil, até, encontrar compradores, porque a maioria dos bens à venda não têm situação legal clara sobre quem são os atuais proprietários. Digo, difíceis para o Estado que queira vender, porque a situação complicada dos bens públicos à venda abre também a possibilidade de os compradores oferecerem preços cada vez mais baixos. De fato, já nem há muitos compradores interessados, nem muitos bens à venda. Há alguma coisa, e o Estado grego planeja vender o que resta, mas não é muito e não gerará a quantidade prevista de dinheiro. As privatizações também não deram resultados excepcionais... E há as desregulações etc., etc., etc..

Quanto às desregulações, só se desregulou o mercado de trabalho, mais nada.

Estão acontecendo coisas, na Grécia, difíceis, até, de acreditar. Os salários foram esmagados, a negociação coletiva foi extinta, a situação do mercado de trabalho, sobretudo no setor privado, na Grécia, é inacreditável. Voltamos ao Velho Oeste. Verdade. O nível de exploração a que os trabalhadores estão submetidos é inacreditável. Isso, na Grécia, é, hoje, o dia a dia. Isso já está feito.

Pois a verdade é que essa combinação de fórmulas – desregulação e privatização, que foram aplicadas na Grécia - em doses gigantescas – não gerou crescimento, não induziu o crescimento e, em minha opinião, jamais gerará ou induzirá crescimento algum. 

Não há teoria que diga que algum crescimento possa ser gerado com medidas desse tipo, para enfrentar pressões recessionárias. Tudo isso é uma fantasia, um delírio nascido do cérebro dos neoliberais. Privatizações e desregulação são medidas que absolutamente não asseguram qualquer crescimento, embora, sim, haja quem discorde. Mas em todos os casos, ainda que essas medidas possam gerar algum crescimento, o crescimento, se vier, demorará décadas. 

Assim sendo, além do fracasso das privatizações, já se vê aí também o fracasso da desregulação. É o que se vê hoje no “lado crescimento” dos resgates e ajudas...

A terceira coisa que está acontecendo, é o Estado. A “modernização” do Estado que, nos termos em que foi proposta, só significa enfraquecer o Estado.

O estado grego foi terrivelmente enfraquecido nos últimos três anos, em praticamente todos os aspectos, da estrutura de impostos à prestação de serviços de bem-estar básicos, à segurança, até o exército. Cortes profundos e repetidos no setor público enfraqueceram o Estado como jamais se viu antes. O Estado grego, excluído o curto período em que a Grécia viveu sob ocupação, é hoje o mais fraco que a Grécia jamais conheceu, penso eu.

Ora... O resultado de tudo isso é, é claro, que aumenta a influência de “paraestados” – mecanismos marginais, laterais, que emergem para substituir o Estado que vai sendo afastado de suas funções anteriores. Nenhum desses mecanismos é confiável. Alguns, são ilegais. Falo de mecanismos nos quais já se implantaram genes de diferentes máfias. Ainda não se vê alguma plena máfia emergindo no que resta do governo grego, mas não falta muito para acontecer. Quanto mais rapidamente o Estado for enfraquecido, mais rapidamente será ocupado por organizações não governamentais nas quais já se implantaram genes de máfias.

JAY: Obrigado. Na segunda parte dessa entrevista com Costas Lapavitsas, conversaremos sobre a esquerda grega, sobre como a esquerda grega está respondendo a tudo isso.

[Continua]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Alexis Tsipras: “Manteremos a Grécia na Eurozona”


12/6/2012, *Alexis Tsipras, Financial Times, Londres
Traduzidopelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras
Para que não reste qualquer dúvida: nosso movimento – Syriza – compromete-se a manter a Grécia na eurozona.

O presidente Barack Obama acertou, quando disse, 6ª-feira passada: “Agora, faremos todo o possível para crescer, ao mesmo tempo em que nos engajamos num plano de longo prazo para estabilizar nossa dívida e nossos déficits, e começamos a forçá-los para baixo, de modo sensível, continuado”. O mesmo se aplica à Grécia. A necessidade de dar à Grécia uma chance de crescimento real e um novo futuro é hoje mais amplamente reconhecida do que jamais antes.

Creio firmemente que receberemos um claro aval democrático do povo da República Helênica, no próximo domingo. Com esse aval, entraremos em ação imediatamente para por fim à corrupção e às ineficiências dos sistemas político e regulatórios que devastam nossa economia há décadas. O povo grego também espera que assumamos imediatamente plena responsabilidade por tirar o país da crescente crise humanitária que nos assola.

A Coalizão Syriza é hoje, na Grécia, o único movimento político que pode oferecer estabilidade econômica, social e política ao nosso país. A estabilização da Grécia, no curto prazo, trará benefícios para a Eurozona, num momento crítico na evolução da moeda única. Se não alterarmos nosso rumo, a austeridade, ela sim, acabará por nos jogar para fora do euro.

Coalizão Syriza - Logo
Só a Coalizão Syriza pode garantir a estabilidade grega, porque não temos de carregar a pesada carga política dos partidos do establishment que arrastaram a Grécia até a beira da ruína. Por isso os eleitores apoiam nosso compromisso de salvar nosso país da destruição. Veremos a Grécia seguir nova trilha rumo ao desenvolvimento, com governo transparente. Uma Grécia renovada contribuirá para dar novas bases a uma Europa mais solidamente unificada. Os acontecimentos do fim de semana na Espanha confirmam que a crise é pan-europeia, e o modo como vem sendo conduzida até agora absolutamente não produziu qualquer bom resultado.

O povo grego quer substituir o fracassado Memorando de Entendimento (assinado em março com a União Europeia e o FMI), por um “plano nacional para reconstrução e crescimento”. É indispensável fazê-lo, para, simultaneamente, impedir que se alastre a crise humanitária na Grécia e salvar a moeda comum.

Os problemas fiscais sistêmicos da Grécia são, em larga parte, problema de não haver recursos públicos. Milhões em isenções de impostos e renúncia fiscal concedidos por governos anteriores para favorecer alguns interesses especiais, somados a impostos mal distribuídos sobre a renda pessoal e o capital, explicam grande parte do problema. E os problemas de arrecadação ineficiente explicam outra parte.

Segundo Eurostat, a Grécia está 4% abaixo da média da eurozona na relação recursos públicos/PIB. O sistema político bipartidário desperdiçou décadas ignorando, para sua conveniência, a grave necessidade de promover reforma fiscal profunda e efetiva. Concentrou-se em esforços para arrancar impostos de uma única fonte, limitada e exaurível: as famílias de renda média e baixa.

Nos termos do nosso plano de reconstrução e crescimento, a Coalizão Syriza compromete-se a seguir um programa de estabilização fiscal pragmático e socialmente justo. A estrutura desse programa implica estabilizar o gasto público em aproximadamente 44% do PIB e reorientar os gastos públicos para que sejam socialmente mais justos; aumentar a arrecadação com impostos diretos que acompanhem os níveis médios na Eurozona (cerca de mais de 4% do PIB), num período de quatro anos; e reformar o regime de impostos de modo a equalizar a riqueza e a renda de todos os cidadãos; e distribuir equitativamente a carga tributária.

A  Troika (FMI, BCE e CE)

Continua a faltar transparência financeira, mesmo que os bancos gregos sejam recapitalizados com empréstimos recebidos da Troika (União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu). Garantiremos que os bancos viáveis sejam recapitalizados de modo transparente e compatível com o interesse público. Só assim será possível garantir que todo o sistema financeiro recupere plena estabilidade.

Arthur Miller escreveu que “uma era pode ser considerada acabada, quando se esgotaram todas as suas ilusões básicas”. A ilusão básica de bom governo na Grécia sob o antigo regime de dois partido esgotou-se. O sistema velho é hoje absolutamente incapaz de assegurar que a Grécia volte a crescer e possa integrar-se plenamente à Eurozona.

No domingo, começaremos a construir novos tempos de crescimento e prosperidade. Segunda-feira, a Grécia entra em uma nova era.

*O autor deste artigo é candidato a presidente  da Grécia pela Coalizão Syriza, principal grupo da atual oposição grega.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Alexis Tsipras, da Coalisão Syriza, Grécia, na França!


21/5/2012, Parti du Front de Gauche, Assembleia Nacional, Paris
Vídeo e entrevista transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras, da Coalizão Syriza, da esquerda radical grega, foi recebido na Assembleia Nacional Francesa pela Frente de Esquerda e saudado por Martine Billard, Jean-Luc Mélenchon e Pierre Laurent.

Em seguida, Tsipras falou à imprensa europeia:


“Não sei se estamos causando medo na Europa, mas acho que, sim, surpreendemos um pouco. Pelo menos, se se avaliar pelo número de jornalistas aqui [riso].

Esse é, mesmo, um dos nossos objetivos: forçar a inteligência europeia a considerar os fatos, a olhar de frente a realidade. É preciso que todos compreendam que a crise não é grega, não concerne exclusivamente à Grécia, concerne a todos os povos europeus. Trata-se portanto de encontrar solução europeia comum, para um problema que é comum.

Queremos que todos tomem consciência do fato de que povo algum, seja onde for, no planeta, na Europa, jamais se deixou levar, sem resistência, a uma espécie de suicídio induzido. O que se passa na Grécia há dois anos é uma espécie de indução ao suicídio do povo grego.

Ouve-se muito falar de programa de ‘austeridade’, mas o que está sendo implantado na Grécia não é simples programa de ‘austeridade’: trata-se de uma experiência, de uma experimentação europeia, do que possa vir a ser uma “solução neoliberal ‘de choque’”.

A Grécia vive hoje uma crise absolutamente sem precedentes, com características de crise humanitária. Estamos por isso hoje em Paris, e amanhã na Alemanha, para dizer aos povos europeus que absolutamente nada temos contra nenhum deles.

Na Grécia, estamos em pleno combate, uma luta que combatemos em nome do povo grego, do povo francês, do povo alemão e de todos os povos da Europa.

Porque, se prosseguir aquela experimentação, aquela experiência de aplicar na Grécia aquela “solução neoliberal ‘de choque’”, a experiência, imediatamente depois, será exportada para outros países europeus.

Mas a guerra que vivemos hoje na Europa não é guerra entre nós, os povos europeus: é guerra em que se enfrentam, de um lado, as forças do trabalho e, de outro lado, as forças invisíveis da finança e dos bancos. Para nós, é difícil afrontar para vencer esses nossos inimigos.

Nossos adversários políticos, como todos vimos durante a campanha eleitoral, não têm qualquer projeto, não têm programa, não estão representados por nenhum partido ou coalizão clara de projetos ou ideias. Apesar disso, são eles que governam.

“Eles”, os que governam, são o capital financeiro, os bancos, os que detêm os capitais, e que se aliaram, no seio de uma Europa que faz guerra à Europa, guerra aos europeus, guerra ao povo grego, para arregimentar os meios necessários para, amanhã, poder generalizar a sua ‘solução’ de choque neoliberal, contra outros povos europeus.

Mas, afinal, depois das eleições de 6 de maio, estamos às vésperas de um novo pacto, que o povo grego espera conseguir construir, para firmar sua vitória. Queremos mudar as coisas na Grécia, para, assim, emitir, bem clara, uma mensagem de esperança para toda a Europa. Para fazer lembrar, aos que esquecem a história, que o Memorando nos levou ao desastre.

E para buscar, com todos os povos europeus, uma refundação da Europa – outra Europa que, dessa vez, será criada sob princípios de solidariedade e coesão social.

Muito nos alegra constatar que, mesmo que ainda não tenhamos chegado aos cargos e responsabilidades de governo, já sopram ventos de mudança em todo o continente.
Prova disso é que haja aqui tantos jornalistas.

Prova disso, também, é que questões e ideias que, há bem pouco tempo, pareciam absolutamente extemporâneas, são hoje fatos que se veem e discutem-se por toda parte. Até nossos adversários são obrigados a discutir. E temos, sim, de obrigá-los a discutir, porque estamos sob chantagem, mas a verdadeira chantagem que se arma contra nós é outra, muito mais séria que a que vemos hoje à superfície.

A verdadeira chantagem não está em nos ameaçarem com o fim da Grécia, se não nos acomodarmos sob o imperativo do choque neoliberal.

A verdadeira chantagem, hoje, é ameaçarem toda a Europa com o fim do euro e da União Europeia enquanto tal.

Por tudo isso, acreditamos que, dia 17/6, na Grécia, as forças da esperança vencerão o medo. A esquerda grega alcançará vitória decisiva, histórica, contra o Sr. [ininteligível], que nada é além de simulacro, cópia, do que foi, na França, o Sr. Sarkozy.

Entendemos que nossa vitória será o começo de grandes mudanças em toda a Europa.

Estou à disposição dos senhores, se houver perguntas [fim do vídeo].
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Assista também (em francês):
Alexis Tsipras e Mélenchon, em Paris: Front de Gauche Europeia
21/5/2012, 2ª feira, Paris – E o moço também é bom de palanque!

Segunda-feira, 21 de maio, 2012, a Europa estava na agenda dos líderes da Frente de Esquerda francesa e europeia. Sob a bandeira da PGE, Pierre Laurent, Alexis Tsipras e Jean-Luc Mélenchon falaram na Praça Herriot Edouard, a poucos passos da Assembleia Nacional


segunda-feira, 21 de maio de 2012

SYRIZA: o avanço magistral de uma experiência original de unidade


19/5/2012, Yorgos Mitralias Γιώργος Μητραλιάς – Rede Tlaxcala 
Traduzido do francês pelo pessoal da Vila Vudu

Yorgos Mitralias  é membro fundador do Comitê contra a Dívida Grega, organização afiliada do Comitê para a Anulação da Dívida dos Países do Terceiro Mundo (CADTM) .

Yorgos Mistralias
Espantalho para “os de cima”, esperança para “os de baixo”, a Coalizão SYRIZA faz entrada triunfal no cenário político dessa Europa em crise profunda. Tendo quadruplicado a própria força eleitoral dia 6/5, SYRIZA ambiciona agora, não só se tornar o primeiro partido nas eleições gregas de 17/6, mas, sobretudo, formar governo de esquerda que cancelará as medidas de “austeridade”, repudiará a dívida e expulsará, do país, a Troika. Não é surpresa, portanto, que SYRIZA intrigue tanto também fora da Grécia, e que praticamente todo o mundo interrogue-se sobre sua origem e verdadeira natureza, objetivos, ambições.

Mas SYRIZA não é assim tão plena novidade, na esquerda europeia. Formada em 2004, a Coalizão da Esquerda Radical (SYRIZA) já atrairia a atenção dos politólogos e da imprensa internacionais, porque, desde o surgimento, é formação política completamente inédita e original, na paisagem da esquerda grega, europeia e mundial. Para começar, por sua composição. 

Formada da aliança do partido Synaspismos (“coalizão”), partido reformista de esquerda, de vaga origem eurocomunista e com representantes no Parlamento, com uma dezena de organizações de extrema esquerda – que cobre praticamente todo o espectro, trotskistas, ex-maoístas e do “movimentismo” – a Coalizão da Esquerda Radical já era, desde o surgimento, rara exceção à regra que fazia crer – e continua a fazê-lo – que os partidos mais ou menos tradicionais, postados à esquerda da social-democracia, jamais se aliariam a organizações de extrema esquerda.

Coalizão Syriza (logo)
Mas a originalidade de SYRIZA não para aí. Concebida como aliança sobretudo conjuntural e eleitoral (foi fundada pouco antes das eleições de 2004), a Coalizão SYRIZA resistiu ao tempo e soube sobreviver aos altos e baixos, aos sucessos e principalmente aos fracassos e crises, para tornar-se grande exemplo de uma realidade que a esquerda radical internacional sofre para alcançar: a convivência de diferentes sensibilidades, correntes e até organizações, numa mesma formação política da esquerda radical.

Oito anos depois do nascimento da Coalizão SYRIZA, a lição a extrair salta aos olhos: sim, essa convivência não só é possível, como é também produtiva e frutuosa e, no longo prazo, autoriza a esperar por sucessos ainda maiores.

Mas, pode-se perguntar, como essa dúzia de “componentes” tão heteróclitos da Coalizão SYRIZA puderam encontrar-se e, em seguida, por-se de acordo e conseguir convivência organizacional tão original e tão duradoura? É pergunta pertinente e merece resposta detalhada e aprofundada. Não, o “milagre” de SYRIZA não caiu do céu nem aconteceu por acaso. O grupo amadureceu durante longo tempo e, principalmente, germinou nas melhores condições possíveis, nos movimentos sociais e alteromundistas dos últimos 15 anos.

Pode-se dizer que tudo começou há 15 anos, em 1997, com a constituição do ramo grego do movimento das Marchas Europeias [orig. Marches Européennes] contra o desemprego. Não foi apenas um primeiro passo na direção do que adiante se conheceria como o movimento altermundista dos Fóruns Sociais. Mais especialmente na Grécia, as Marchas Europeias tiveram outra função, talvez mais importante, de fazer algo que, até ali, parecia impensável: unificar a esquerda, na ação. Nas Marchas Europeias, viam-se sindicatos, movimentos sociais, partidos e organizações da esquerda grega (inclusive o KKE, pelo menos, durante algum tempo!), que jamais antes se haviam encontrado e que, em muitos casos, ignoravam-se uns os outros, ali postos lado a lado, para participar de um movimento europeu absolutamente sem precedentes, ombro a ombro com sindicatos, movimentos sociais e correntes políticas de outros países, a maioria dos quais absolutamente desconhecidos na Grécia.

Não é acaso, portanto, que esse primeiro golpe assestado contra o sectarismo visceral que sempre caracterizou a esquerda grega tenha gerado cenas emocionantes de reencontros, em alguns casos, quase sessões de psicodrama, entre militantes que, até ali, absolutamente não sabiam uns da existência dos demais e que, de repente, descobriam que “o outro” nem era muito diferente deles mesmos. A mistura claramente estava ‘dando liga’, com cada vez mais militantes gregos que saíam do país e descobriam a realidade de militantes europeus em carne e osso, os quais, antes, para os gregos, não existiam.

Fortalecidos nessa primeira aproximação pela ação, tanto mais firme, porque acontecia dentro de um novo tipo de movimento social, a maioria dos diferentes elementos políticos que compunham as Marchas Europeias gregas participaram, desde 1999, de uma segunda experiência original, que viria a aprofundar a necessidade de que todos se unissem. Foi o Espaço de Diálogo e Ação Comum [orig. Espace de Dialogue et d’Action Commune] que, ao aprofundar o necessário debate político e programático, preparava os espíritos para a experiência seguinte, unitária e movimentista – o Fórum Social, que marcaria profundamente a evolução da esquerda grega.

Com o enorme sucesso do Fórum Social, abriu-se caminho para a constituição da Coalizão da Esquerda Radical, caminho que foi percorrido quase espontaneamente, na onda de entusiasmo dos anos 2003-4. Os militantes dos vários grupos que constituíram a Coalizão SYRIZA, que se haviam conhecido nas lutas, que haviam viajado e participado juntos das manifestações, aos milhares, em Amsterdam (1997) e Colônia (1999), em Nice (2000) e em Gênova (2001), em Florença (2002), em Paris (2003) etc., não haviam construído só laços políticos, mas também laços humanos. Tudo isso levou à fundação de sua Coalizão da Esquerda Radical. E a Coalizão andava no contrapelo do que se via em outros pontos da Europa, nos quais uma aliança entre um partido reformista de esquerda e grupos da extrema esquerda ainda era, simplesmente, impensável...

Apesar do nascimento tão bem-sucedido, o andamento da aventura de SYRIZA nem sempre foi tranquilo, longe disso; em vários momentos, a coalizão foi interrompida. Evidentemente, houve crises de confiança entre o ramo da SYRIZA formado pelo partido Synaspismos e os parceiros de extrema-esquerda, o que, afinal, era ‘lógico’ e esperado. Mas, com o tempo, a coalizão SYRIZA foi-se homogeneizando, e a homogeneização trouxe, como efeito, que as crises – como também os debates – não só atravessavam praticamente toda a Coalizão e cada um dos componentes, mas também se manifestavam... no interior do próprio partido Synaspismos, ao qual enfurecia ver as próprias tendências afrontadas e em permanente recomposição.

Mas afinal a Coalizão SYRIZA encontrou certa paz interna, depois que, em 2010, separaram-se da coalizão a ala social-democrata do partido Synaspismos (da qual nascera a Esquerda Democrática) e seu ex-presidente Alecos Alavanos. Alavanos, depois de ter “entronizado” seu sucessor, o jovem Alexis Tsipras, converteu-se em seu mais feroz inimigo. Com isso, a linha política da Coalizão tornou-se mais clara (e mais à esquerda). E o jovem Alexis Tsipras instalou-se em autoridade, começou a mostrar serviço e a acumular os primeiros sucessos que dariam a uma SYRIZA cada vez mais radicalizada, a credibilidade necessária para poder beneficiar-se das circunstâncias excepcionais criadas pela crise da dívida. SYRIZA estava então pronta para assumir o papel da formação política que mais bem encarnaria as esperanças e anseios de fatias inteiras da sociedade grega em revolta contra as políticas de ‘austeridade, a Troika, os partidos burgueses e o próprio sistema capitalista.

A lição a extrair dessa história quase exemplar é clara: feitas as contas, a história da Coalizão SYRIZA é história de sucesso que só os sectários impenitentes (e há muitos, na Grécia) ainda tentam negar. Mas a história da Coalizão SYRIZA está longe de terminar, e a parte séria está apenas começando. Em resumo, o saldo que se extrai hoje é provisório. Mas infeliz quem disser, já esperando impacientemente a primeira falta grave ou “traição” de SYRIZA: “Eu bem que avisei”. Não. O saldo, embora até aqui provisório e inacabado, tem de ser calculado com rigor, nos (duros) tempos que correm. Ninguém pode dar-se o luxo, na esquerda radical europeia, de deixar de aproveitar as experiências, sucessos e fracassos, uns dos outros.

Formação política cujo programa é marcado sempre por um... toque artístico, a Coalizão da Esquerda Radical praticamente sempre se equilibrou entre o reformismo de esquerda e um anticapitalismo consequente. E é possível que tenha extraído sua força, precisamente, desse oscilar eterno. Mesmo assim, é preciso ser claro: o que funcionou quase sempre positivamente nos períodos “normais” pode revelar-se como handicap, ou, mesmo, virar bumerangue, em períodos de crise aguda e de exacerbamento da luta de classes. Em termos mais simples, a Coalizão SYRIZA, que conseguiu magistralmente avançar até aqui, se vê transformada, no período de poucas semanas (!), de pequeno partido minoritário na esquerda grega já minoritária, em partido dominante, com pretensões de chegar a ser governo. E, isso, não em um país qualquer, em um momento qualquer, mas nessa Grécia “laboratório” e caso-teste para essa Europa da ‘austeridade’ em pleno ataque de nervos...

A mudança de escala é tão abrupta, que quase dá vertigens. Convertida, em tempo recorde, de espantalho para os grandes, em esperança dos pobres e sem voz na Grécia e, mesmo, em toda a Europa, a Coalizão SYRIZA é convocada hoje a assumir tarefas absolutamente gigantescas e históricas, para as quais não está preparada, nem politicamente, nem em termos de organização. Assim sendo, que fazer?

A resposta tem de ser categórica e clara: Temos, sim, de ajudar SYRIZA! Por todos os meios. E, desde já, não a deixar só. Nem na Grécia nem na Europa. Em termos simples, temos de fazer exatamente o oposto do que fazem os que não conseguem casar suas críticas à Coalizão SYRIZA com a solidariedade e o apoio que temos de dar à SYRIZA, na sua luta contra o inimigo de classe que é inimigo de toda a esquerda, em todo o mundo. Apoio crítico, que seja, mas desde que seja apoio firme. E não para amanhã, mas hoje. Porque, além de divergências de táticas ou outras, o combate que a Coalizão SYRIZA combate hoje é o combate que todos combatemos. Abster-se equivalerá ao crime de omissão de socorro, a alguém em situação de perigo iminente. Ou, melhor dito, a populações e a países inteiros que estão hoje em situação de perigo iminente, sob grave risco!