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quarta-feira, 25 de março de 2015

França: a extrema-direita constrói-se sobre a fraqueza da esquerda

22/3/2015, [*] Nikos Smyrnaios, Ephemeron, Grécia –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

França - Eleições Regionais, 2015
Eleições regionais realizadas nesse domingo na França confirmaram que prossegue por lá o avanço da Frente Nacional, que começou em 2011, quando Marine Le Pen assumiu a liderança do partido. A presença dos fascistas no 2º turno da eleição presidencial de 2017 é agora altamente provável, o que pode levá-los à presidência do país.

O establishment político francês, ou seja, a direita, trouxe de volta Sarkozy. O resultado de um confronto hipotético Le Pen-Hollande-Sarkozy em 2017 é bastante incerto. A possibilidade de vitória da extrema direita no segundo maior país da União Europeia já não é irrealista.

Há duas razões principais que explicam esse pesadelo, mas é cenário provável. Por um lado, a estratégia eleitoral reconhecidamente bem-sucedida do partido de Le Pen. Por outro, o abandono, pelos socialistas, dos estratos pobres da sociedade; e a fragmentação da esquerda radical. Aconteceu na atmosfera insalubre circundante, na qual a islamofobia cresceu, insuflada por alguns dos veículos da mídia-empresa, o que piorou após o ataque terrorista contra Charlie Hebdo.

Marine Le Pen votando em 22/3/2015
Desde 2011, quando tomou as rédeas do partido fundado por seu pai, Marine Le Pen fez a Frente Nacional ganhar ares de partido “decente”, na consciência de grande parte da opinião pública – embora sem jamais ter exercido o poder nem jamais se ter manifestado como partido antissistema. Na verdade, a retórica de Marine Le Pen tem-se centrado na crítica ao governo de Sarkozy e do governo da União Europeia (partidos socialistas e UMP). E trabalha em dois eixos: explora a imagem de “trabalhadora francesa” e uma tal “insegurança cultural”, de que fala sempre.

A retórica social da Le Pen contém muitas bandeiras que são bandeiras tradicionais da esquerda, mas foram deixadas para trás: defesa dos trabalhadores, crítica aos bancos e ao capital, denúncia da hipocrisia social-democrata, a favor de a França sair da Eurozona, etc.). E com essa retórica, a Frente Nacional surgiu como o maior partido entre os eleitores da classe trabalhadora. Mesmo que essa retórica seja absolutamente hipócrita, pois o partido é partido do capital francês, é retórica particularmente eficaz com vistas a eleições.

Simultaneamente, Le Pen refinou o seu discurso racista. Já não inclui bandeiras antissemitas brutais de IIª Guerra Mundial, como faz seu pai. Agora, a filha fala de “incompatibilidade” entre “valores culturais europeus” e o Islã. Para Le Pen, mesmo que jamais o diga tão claramente, a grande “ameaça” que a Europa enfrenta é a conquista pacífica do Ocidente, por ondas de imigração em massa.

Certamente a maioria dos membros e simpatizantes da Frente Nacional, xenófobos e intolerantes, ainda estão em conflito com a maioria dos eleitores. É o que se comprova pela baixa recepção e pouca simpatia que os delírios racistas dos candidatos às eleições locais receberam nas redes sociais.

A fraqueza da esquerda radical

Jean-Luc Mélenchon do Parti de Gauche
Mas a esquerda radical aparece fragmentada e fraca. A dinâmica do candidato Mélenchon nas presidenciais de 2012 parece que evaporou. Há pelo menos três razões para isso:

(1) A competição eleitoral entre partidos de esquerda, que não favorece uma estratégia eleitoral comum, embora, nos discursos, todos concordem, teoricamente, sobre a importância de uma esquerda unida.
(2) Disputas políticas sérias que estão em curso em campos importantes: em torno da questão do Islã na França; da relação com a Rússia de Putin e sua posição sobre a guerra na Ucrânia; a ecologia radical, que contrasta com a abordagem tradicional de desenvolvimento, etc. O mais recente exemplo desse desentendimento político dentro da esquerda em toda a Europa é o modelo do partido SYRIZA e estimativas sobre a eleição.

Mas há mais uma importante razão:

(3) para a queda da esquerda radical na França: a impotência do movimento sindical e social, que não traduz a insatisfação dos cidadãos organizados no confronto com o governo. Isso explica, dentre outras coisas, o fracasso da liderança sindical (ver CGT) e a política de repressão rigorosa e muitas vezes violenta de manifestações e protestos, que recentemente resultou na morte de manifestante Rémi Fraisse, por granadas de efeito moral.

Nicolas Sarkozy
A gradual retomada do Estado francês por Sarkozy (Ministro da Ordem Pública e Presidente entre 2002 e 2012) e depois por Manuel Waltz (antes Ministro de Política Pública dos socialistas e agora Primeiro-Ministro) prossegue, sem qualquer abalo, desde depois do ataque a Charlie Hebdo: mobilização massiva de soldados para proteger a ordem, medidas extraordinárias de segurança, prisões arbitrárias... Os socialistas estão pavimentando o caminho para Marine Le Pen (ou Sarkozy). Provavelmente já é tarde demais para mudar qualquer coisa.
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[*] Nikos Smyrnaios (Nick Smyrna) Nasceu em Atenas, Grécia, em 1976; vive e trabalha na França desde 1995. Recebeu seu PhD em 2005 pela Universidade de Grenoble. Atualmente é professor sênior da Universidade de Toulouse onde leciona História, Sociologia, Cultura & Economia de Massa e Mídia Digital. Sua pesquisa centra-se em parâmetros socioeconômicos e questões políticas da internet. Atua intensamente no jornalismo online, mídia digital e o no uso político de sites de redes sociais. Anima seu blog Ephemeron publicando artigos em grego e francês, mas também em inglês.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O “affaire” Assange, Venezuela, a mídia golpista na América Latina


4/9/2012, Jean-Luc Mélenchon, Front de Gauche, França (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jean-Luc Mélenchon
Em vez de repetir “elementos de linguagem” copiados de releases das embaixadas dos EUA e despachos “orientados”, bastaria que algum jornalista viajasse ao Equador. Ali, ele ou ela logo constataria, muito jornalisticamente, que no Equador reina a mais ampla e total liberdade para caluniar e insultar o governo eleito: toda a imprensa-empresa equatoriana, de propriedade de seis famílias, é absolutamente livre para publicar despachos do Departamento de Estado dos EUA ou todas as mentiras que qualquer jornalista invente ou queira repetir, ouvida de alguma ‘fonte’ também mentirosa ou viciada.

De fato, nada mais difícil de encontrar no Equador que algum jornal, programa de televisão ou de rádio, ou livro nas livrarias, que seja favorável ao governo eleito pela maioria dos eleitores! A oligarquia, no Equador, é completamente livre para fazer campanha eleitoral durante todo o ano e, sempre, sempre, contra o voto da maioria que, afinal, elegeu o presidente Correa.

Julian Assange
O affaire Assange é questão de Estado para os EUA. A partir do momento em que se interpôs, o governo progressista de Rafael Correa atraiu contra si o assalto das agências de influência norte-americanas, pústulas fétidas. Os grandes jornais do “bloco” puseram-se em movimento. E com eles vieram, de modo surpreendente, também jornais da periferia, como Charlie Hebdo, ao qual Maxime Vivas e Le Grand Soir responderam de modo argumentado, considerando a importância desse jornal nos meios da outra esquerda. Mas o essencial da dita “grande imprensa” rapidamente pôs-se em posição de atirar para matar. Primeiro, insidiosos; em seguida, abertamente acusatórios. O assalto aconteceu em dois planos.

Primeiro, contra a pessoa de Assange. Descrito como personagem isolado, cujos apoiadores lhe teriam retirado apoios e se desdito; sujeito psicologicamente instável e, além do mais, acusado de “violações e agressões sexuais”, no plural, claro!

O outro plano de ataque visa o presidente do Equador. Todo o governo do Equador foi apresentado como inimigo da liberdade de imprensa, que professaria concepção de geometria variável do que seja o direito de asilo. Nesses registros apareceram todos os modelos menos recomendáveis, no domínio da repetição de elementos importados de linguagem, abundantes em algumas colunas do Figaro. É um exemplo, e nem todos os artigos seguem a mesma linha, variando conforme os autores. Assim, variando, eles afinam a mira e alcançam diferentes pessoas.

Rafael Correa - Presidente Eleito do Equador
A técnica é sempre a mesma: soma de opiniões apresentadas como se fossem “fatos bem conhecidos”, e que não passam de mentiras, apresentadas de tal modo que o leitor não pode saber que são só opiniões e mentiras. Na mesma linha, meia página no Monde  sobre o direito de asilo que teria sido negado a um bielorrusso no Equador, e exemplo de jornal que se rende à influência de certos “amigos”. Em todos os casos, dizem o que lhes dê na cabeça; depois, publicam notas quase invisíveis, em que as mentiras mais flagrantes são “corrigidas” e desditas.

O que se vê, de fato, é que os “argumentos” das seis famílias que são proprietárias de praticamente toda a imprensa equatoriana são repetidos em toda a imprensa-empresa internacional. Como é possível que a repetição seja tão “unânime”? Será assim, perfeita repetição, porque os jornalistas das editorias internacionais dos grandes jornais da grande imprensa-empresa em todo o mundo leem diariamente todos os jornais do Equador? É claro que não. Então, quem distribui as “notícias”?

Seja quem for, o resultado aí está. Rafael Correa é apresentado, em todos os veículos, sempre com as mesmas palavras e os mesmos registros em que aparece pintado na imprensa-empresa de direita e de extrema direita no Equador, como “desinteressado em defender as liberdades de expressão”. E o Equador – sem qualquer nem vestígio de fato que justifique a ‘'versão'’ ‘'jornalística'’ – é apresentado como “estado conhecido por repetidas violações da liberdade de imprensa” (Le Figaro), como “gestor incompetente da liberdade de expressão” (Le Monde), quando não é abertamente chamado de “ditador” (nos jornalões da América Latina). Ah! Todos conhecemos bens os “veículos independentes”! O problema é que muitos dos maiores jornais são super nada-independentes!

No Equador, por exemplo, os “jornais e televisões independentes” são propriedade de seis famílias completamente empenhadas em fazer oposição de direita e extrema direita ao governo eleito de Rafael Correa. Conhecem bem o affaire Assange, é claro, desde que proibiram seus veículos de publicar os telegramas diplomáticos do Departamento de Estado dos EUA, publicados por Wikileaks.

Mas até Le Monde, El Pais, Der Spiegel, The Guardian e o The New York Times publicaram aqueles telegramas. Naquela ocasião, com grande alarido e muitas manifestações de autoelogio e bla-bla-blá de autocelebração da “imprensa livre”.

Todos deveríamos olhar com extrema desconfiança o que aqueles jornalões publicaram – e, sobretudo, o que não publicaram. Ocorre-me que, muito provavelmente, publicaram o que lhes pareceu que ajudava os interesses deles. E muito provavelmente não publicaram o que mais interessaria ao grande público. O que se sabe é que todos esses grandes jornais triaram o material bruto, o que não deixa de ser surpreendente. Triar por quê?

A verdade é que os telegramas de WikiLeaks publicados pela imprensa francesa só mostraram aos franceses algumas cenas estranhíssimas: um desfile infindável de socialistas em reuniões com os EUA, sempre a garantir que apoiavam a Guerra do Golfo – o que a França acabara de recusar-se a fazer, por iniciativa do presidente Jacques Chirac.

Mas, pouco tempo depois, o micromundo “midiático” virou casaca. Abandonaram Assange e, com ele, abandonaram toda a doxa tradicional sobre a preservação e proteção das fontes; e Assange foi convertido em alvo do vingancismo mais furioso das agências de segurança dos EUA!

De modo muito significativo, quer dizer, como manifestação coordenada, os golpes concentram-se em atacar e por sob suspeita o Equador e seu governo progressista. É mais do que razoável supor que não haja e jamais tenha havido algum “affaire Assange”; que o que houve foi o affaire das agências norte-americanas de segurança numa parte do mundo onde as práticas imperiais estão sob discussão e crítica, e os braços armados do “império” enfrentam derrota sobre derrota!

Em vez de repetir “elementos de linguagem” das embaixadas e despachos “orientados”, bastaria que algum jornalista viajasse ao Equador. Ali constataria, muito jornalisticamente, que no Equador reina a mais ampla e total liberdade para caluniar e insultar o governo eleito: toda a imprensa-empresa equatoriana, de propriedade de seis famílias, é absolutamente livre para publicar todas as mentiras e despachos do Departamento de Estado dos EUA que queira. De fato, nada mais difícil de encontrar no Equador que algum jornal, programa de televisão ou de rádio, ou livro nas livrarias, que seja favorável ao governo eleito! A oligarquia, no Equador, é completamente livre para fazer campanha eleitoral durante todo o ano e, sempre, contra a maioria que elegeu o presidente Correa.

Não há quem não saiba de onde vêm as subvenções que sustentam os “Repórteres Sem Fronteira” franceses – verdadeiro ninho de cobras peçonhentas onde habita o neo-LePenista Robert Ménard, mas citado como autoridade com competência para classificar o Equador em 104º lugar, de 179 países, como local de fracasso quase total da liberdade de expressão!

E quem conhece os critérios da tal “classificação”?! Evidentemente, não são nem “repórteres” ou “jornalistas” que trabalhem para noticiar o assalto que aquelas meia dúzia de famílias “midiáticas” promovem contra a opinião pública.

Baltazar Garzon
Só assim se compreende que o Le Fígaro dê a palavra a um ex-ministro de Aznar, que se põe a falar sobre “fraude ao Estado de direito” no caso de Assange, porque o advogado de Assange é agora o juiz Baltasar Garzon, contra o qual o governo de Aznar moveu céus e terra – mas esse detalhe, o tal “grande jornal independente” jamais noticia!

Em seguida, o grande jornal da direita francesa apresenta-se como autoridade para declarar o caráter ditatorial do governo de Correa... o que o jornal “prova”! A “prova” é que Correa recebe o apoio da Aliança Bolivariana das Américas (ALBA)... quer dizer, o governo do Equador é apoiado pela Venezuela e por Cuba! Claro! Está(ria) provado!

E houve também a investigação judicial feita pelo Monde, que, sem esperar pela sentença da Justiça equatoriana, denuncia “a hospitalidade equatoriana de geometria variável”, no caso do bielorrusso Alexandre Barankov. Dever mínimo de respeito aos leitores, do Monde, seria mencionar que o presidente Correa vive sob leis de separação dos poderes entre Executivo e Judiciário e não poderia ter-se pronunciado sobre a extradição de Aliaksandr Barankov na Suprema Corte do Equador.

É o tal jornalismo de mentiras, de insinuações, de desavergonhada calúnia. A função desse “jornalismo” é condicionar a opinião internacional para que não reaja no caso de golpe de Estado. Porque, evidentemente, o império jamais se desarma e nunca para de tentar golpes de Estado: tentou golpes contra Correa, Chávez, Evo Morales. Conseguiu recentemente derrubar Fernando Lugo no Paraguai e Manuel Zelaya em Honduras. Nesses dois casos, a “notícia” calou. Calou-se até o corporativismo ordinário dos jornalistas, porque nesses dois países houve jornalistas presos e assassinados. Nem por isso se viu movimento de indignação dos jornalistas de consciência de economia variável.

O encarniçamento contra o presidente Correa tem também uma âncora local, se se pode dizer assim. Por toda a América do Sul em processo de libertação, está posta a questão do papel dos meios de informação! Em cada país, nossos amigos definiram diferentes estratégias de ação. Mas hoje estamos por cima. Os trabalhos de emancipação e de libertação estão postos também na esfera midiática. Discutem-se e votam-se novas leis de liberdade de imprensa democráticas e republicanas. Sem exceção, visam a quebrar os monopólios da imprensa e a garantir a pluralidade de expressão. Também o Equador abraçou essa luta.

O governo do presidente Correa está firmemente decidido a aplicar a Constituição do país, aprovada em referendo pela população por maioria de 63,9% dos votos. A nova Constituição prevê, sobretudo pelo artigo 17 a proibição de oligopólios ou monopólios nas empresas de imprensa e o apoio aos veículos públicos, comunitários e privados. Para adaptar-se ao que ordena a Constituição, o governo Correa está propondo uma lei orgânica das comunicações. A oposição, claro, em primeiro lugar as próprias empresas midiáticas, já se puseram a denunciar o projeto de lei, que chamam “ley mordaza”, “lei da mordaça”.

Mas a nova lei é, de fato, o fim da mordaça: a lei proíbe qualquer tipo de censura prévia à publicação ou difusão; e cria um conselho de regulação da informação, com a missão de combater a censura. E também sempre a posteriori, a nova Constituição oferece meios para punir qualquer apologia da violência, as discriminações (do racismo, da toxicomania, do sexismo e da intolerância religiosa ou política), nos termos da Constituição do Equador. O texto obriga os veículos à transparência sobre o modo como operam. Obriga o governo a por em ação todos os meios necessários para garantir o acesso de todos os cidadãos a uma informação plural. Legendagem e tradução em língua dos sinas [no Brasil, Libras, Língua Brasileira de Sinais, NTs] também serão obrigatórias.

Quanto à pluralidade, será assegurada por uma divisão em três, do espectro de frequências de rádio e televisão: 1/3 serão privadas, 1/3 serão associativas (sem objetivos de lucro) e 1/3 serão frequências para uso público (de propriedade do Estado, mas também de coletividades territoriais). Eis aí a “lei terrível” que ameaça a oligarquia equatoriana e que os veículos da imprensa-empresa internacional denunciaram em coro, sem qualquer atenção à necessidade da pluralidade das informações ou respeito ao voto dos equatorianos.

(...) Todos conhecemos os pontos negros da imprensa-empresa que conhecemos. (...) Para começar, o horrendo corporativismo que vicia, sem exceção, até à completa traição à verdade dos fatos e que, apesar disso, nunca se cansa de propagandear a infalibilidade dos novos “grandes sacerdotes”. Além disso, a grosseria dos insultos que esses ridículos budas empresários “da mídia” nunca se cansam de vomitar contra quem bem entendam, porque os desagrade, falhando sempre na tão alardeada luta da imprensa contra a violência e a intolerância que os mesmos empresários “jornalistas” nunca se cansam da alardear, hipócritas. Em vários campos, a lei da omertá, de criminosos que protegem criminosos, reina absoluta na imprensa-empresa. (...). De fato, já praticamente nem mais nos surpreendemos: uns dão dinheiro aos partidos políticos; outros, diretamente a jornais e jornalistas. Grande diferença!

Em todos nossos países em vias de libertação, nossos amigos governam sem a mídia e contra a mídia. A França, quando a hora chegar, terá de aprender a fazer o mesmo.

Mas o que nossos amigos do sul têm a nos ensinar é que, por mais encarniçada campanha de difamação e mentiras que sofram da empresa-imprensa, nada perdem em termos de popularidade.

Há décadas, as seis famílias dos empresários da imprensa-empresa sempre fizeram chover e fazer sol em matéria de política no Equador. Continuam a ser o que sempre foram e a fazer o que sempre fizeram. Mas o presidente Correa mantém seus 80% de intenções de votos, às vésperas de novas eleições. Pior para os inimigos! A chuva deles chove, o vento deles venta, e as provas dos progressos obtidos pelo governo do presidente Correa são tão tangíveis para os equatorianos e as equatorianas, que as mentiras da imprensa-empresa já não surtem efeito.

O mesmo se vê na Argentina, da qual a França em breve ouvirá falar, e da qual falarei em breve, nessa página. Antes disso, falarei sobre o posto que vou assumir na Venezuela, onde a campanha eleitoral caminha bem.

Nesse mês de setembro, efeito de vários artigos e “dossiês” armados pela empresa-imprensa venezuelana, correrão rios de lama sobre nossos amigos. A palavra de ordem das agências já é preparar a opinião pública com vistas a mais um golpe de Estado que está, como já é hábito, em preparação. Se ganharmos por larga margem nas urnas também na Venezuela, os reacionários nada poderão fazer. Mas se ganharmos vitória mais apertada, criarão espaço para vastíssima campanha de desestabilização e, sem dúvida, para operações violentas.

Voltarei em breve ao assunto... (...)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A luta continua: agora, atacam a Venezuela!


6/6/2012, Jean-Luc Mélenchon, Blog da Front de Gauche (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jean-Luc Mélenchon
La semaine passée, la droite imposait à l’ordre du jour...

Semana passada, a direita impôs na ordem do dia do Parlamento Europeu, a votação de uma resolução condenando a Venezuela. Momento escolhido a dedo, com a Venezuela em plena campanha eleitoral.

Comissão Interamericana de DD HH
Qual o pretexto? A decisão, do governo venezuelano, de retirar-se da Comissão Interamericana dos Direitos do Homem [orig. Commission Inter-américaine des Droits de l'Homme (CIDH) e da Corte Interamericana dos Direitos do Homem [orig. Cour Inter-américaine des Droits de l'Homme]. São, ambos, organismos de proteção dos direitos humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A direita, que nunca condenou o golpe de Estado em Honduras, é lépida ao condenar a decisão da Venezuela. Bastaria dizer isso, para que todos soubessem quem é quem.

Mas, não. Estou empenhado em praticar toda a pedagogia necessária, para que todos entendam essas condenações e indignações “de vitrine”, nas quais os direitos humanos sempre entram como pretexto que os reacionários usam contra os governos democráticos.

Preparem-se. Porque, depois dessa e depois da condenação da nacionalização do petróleo na Argentina, não demorará, e vocês verão ondas da mais ardente indignação contra violações dos direitos humanos na Grécia. E nem uma palavra a favor de se por fim ao real martírio dos gregos. Assim será, enquanto os martirizados sejamos nós, não os banqueiros.

Só até aqui, em mais esse ataque contra a Venezuela, vê-se já um certo excesso de zelo com os tais direitos humanos, na OEA: porque a direita, mais uma vez, condenou antes de votar. A decisão legal ainda não foi tomada. O processo legislativo apenas começou: e a notícia já corre o mundo, como se já fosse caso decidido. Só a Assembleia Geral poderá decidir. E ainda nada decidiu.

Mais cette Cour des Droits de l’Homme, que vaut-elle?

Corte Interamericana de DDHH
E, afinal, o que vale essa Corte dos Direitos Humanos? Dos 34 países da OEA, só 24 estão lá representados. Nem os EUA nem o Canadá participam. Mas... ora! Nada disso faz qualquer diferença para a direita europeia!

A direita europeia jamais apresentou qualquer protesto contra os EUA, que repetidamente violam resoluções aprovadas por quase unanimidade na ONU contra o embargo a Cuba. Nem contra outros estados que também se retiraram dessa “Corte”.

Essa não é a primeira vez que um país decide desligar-se da OEA. Em 1998, Trinidad y Tobago também lhes deu as costas e partiu.

E quem, na Europa, protesta conta esse santo trono das virtudes humanistas e liberais que é o nobre parlamento da União Europeia? Ninguém, é claro.

Na Venezuela, os cidadãos têm boas razões para nada esperar, de útil, dessa “Corte” da OEA e de sua concepção do que sejam Direitos Humanos. Durante os 30 anos de repressão que os venezuelanos sofreram, entre 1969 e 1999, a Corte Internacional de Direitos Humanos da OEA só acolheu cinco denúncias contra o Estado venezuelano. E houve ali muitas violações de direitos humanos, repressão violenta, gente desaparecida, tortura, assassinatos denunciados de todos os lados.

Hugo Chávez
Contudo, desde a eleição do presidente Hugo Chávez, em 1999 – quer dizer, em 12 anos –, a CIDH já acolheu mais de 36 denúncias contra seu governo, ignorando todos os grandes avanços que a Venezuela conseguiu, também no campo dos direitos humanos. Mas o pior não é isso.

O pior aconteceu dia 11/4/2002, quando a Corte Internacional dos Direitos do Homem da OEA reconheceu e tentou legitimar o golpe de Estado tentado contra o presidente Chávez! E por acaso seria justo e belo que uma Corte de Direitos do Homem aprove e apoie um putsch? Nada mais coerente e lógico, pois, que, desde 2002, a Venezuela recuse-se a receber visitas da CIDH em seu território.

E a CIDH, por sua vez, admite toda e qualquer denúncia que por lá apareça contra a Venezuela, por mais imprecisa, vaga, sem qualquer prova, sem nomes, sem datas, sem local preciso onde a “violação” denunciada teria ocorrido. Muitas vezes aquela “corte” funcionou como caixa de ressonância do que dizem a imprensa e outras organizações políticas abertamente hostis ao governo do presidente Chávez.

A CIDH também tem acolhido e divulgado denúncias mentirosas contra hipotéticas consequências ditas “perigosíssimas” de leis aprovadas no Parlamento. Mas jamais alguém ouviu qualquer tipo de retratação, depois que não se veem os “efeitos” que as tais denúncias tanto temiam.

Em resumo, a Corte Interamericana dos Direitos do Homem da OEA é instrumento hostil e sem qualquer influência. O mundo está cheio de outras referências em matéria de Direitos Humanos e muitas dizem coisa muito diferente do que diz a CIDH da OEA.

Ainsi ces prises de position contrastent singulièrement...

Conselho de DD HH da ONU
As posições da corte interamericana contrastam espantosamente com as do Conselho de Direitos do Homem da ONU – que reconhece que a Venezuela adotou a maioria das recomendações do Conselho. Dentre as quais, vale lembrar, também recomendações de nosso amada União Europeia. O Conselho de Direitos Humanos da ONU também reconheceu que a Venezuela continua a aprofundar esforços para fazer avançar o respeito aos direitos humanos na Venezuela.

Na declaração dos sociais-democratas, dos Verdes e da GUE/NGL (meu bloco no Parlamento Europeu), apresentada ao Parlamento Europeu, registra-se, precisamente, o reconhecimento, pela ONU, dos avanços da Venezuela no campo dos direitos humanos. Mas o que diz a direita, agora, é mensagem dirigida exclusivamente a influenciar o processo eleitoral na Venezuela.

O próprio texto da “resolução” está construído, na prática, para pautar os jornais “éticos” e “independentes”: “Europa denuncia a Venezuela de Chávez”.

CIA vista por WikiLeaks
Agências que operam sob influência da CIA-EUA, que montam esse tipo de encenação, podem, na sequência, justificar a própria existência e pedir mais dinheiro para manter-se. Isso, sim, é golpe que dá resultado, porque a moção da direita foi lida e acolhida. Agora, os cretinos de sempre passarão a declarar-se “preocupados com os direitos humanos”, e o resto é a novela de sempre. Boa jogada, Tio Sam!

Aviso que eu não estava presente àquela sessão do Parlamento Europeu. Estava em Pas-de-Calais, em campanha para eleger deputados da Front de Gauche. Em Pas-de-Calais, as mesmas agências e agentes só fazem repetir a cantoria de sempre, a favor dos candidatos de madame Le Pen.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Alexis Tsipras, da Coalisão Syriza, Grécia, na França!


21/5/2012, Parti du Front de Gauche, Assembleia Nacional, Paris
Vídeo e entrevista transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras, da Coalizão Syriza, da esquerda radical grega, foi recebido na Assembleia Nacional Francesa pela Frente de Esquerda e saudado por Martine Billard, Jean-Luc Mélenchon e Pierre Laurent.

Em seguida, Tsipras falou à imprensa europeia:


“Não sei se estamos causando medo na Europa, mas acho que, sim, surpreendemos um pouco. Pelo menos, se se avaliar pelo número de jornalistas aqui [riso].

Esse é, mesmo, um dos nossos objetivos: forçar a inteligência europeia a considerar os fatos, a olhar de frente a realidade. É preciso que todos compreendam que a crise não é grega, não concerne exclusivamente à Grécia, concerne a todos os povos europeus. Trata-se portanto de encontrar solução europeia comum, para um problema que é comum.

Queremos que todos tomem consciência do fato de que povo algum, seja onde for, no planeta, na Europa, jamais se deixou levar, sem resistência, a uma espécie de suicídio induzido. O que se passa na Grécia há dois anos é uma espécie de indução ao suicídio do povo grego.

Ouve-se muito falar de programa de ‘austeridade’, mas o que está sendo implantado na Grécia não é simples programa de ‘austeridade’: trata-se de uma experiência, de uma experimentação europeia, do que possa vir a ser uma “solução neoliberal ‘de choque’”.

A Grécia vive hoje uma crise absolutamente sem precedentes, com características de crise humanitária. Estamos por isso hoje em Paris, e amanhã na Alemanha, para dizer aos povos europeus que absolutamente nada temos contra nenhum deles.

Na Grécia, estamos em pleno combate, uma luta que combatemos em nome do povo grego, do povo francês, do povo alemão e de todos os povos da Europa.

Porque, se prosseguir aquela experimentação, aquela experiência de aplicar na Grécia aquela “solução neoliberal ‘de choque’”, a experiência, imediatamente depois, será exportada para outros países europeus.

Mas a guerra que vivemos hoje na Europa não é guerra entre nós, os povos europeus: é guerra em que se enfrentam, de um lado, as forças do trabalho e, de outro lado, as forças invisíveis da finança e dos bancos. Para nós, é difícil afrontar para vencer esses nossos inimigos.

Nossos adversários políticos, como todos vimos durante a campanha eleitoral, não têm qualquer projeto, não têm programa, não estão representados por nenhum partido ou coalizão clara de projetos ou ideias. Apesar disso, são eles que governam.

“Eles”, os que governam, são o capital financeiro, os bancos, os que detêm os capitais, e que se aliaram, no seio de uma Europa que faz guerra à Europa, guerra aos europeus, guerra ao povo grego, para arregimentar os meios necessários para, amanhã, poder generalizar a sua ‘solução’ de choque neoliberal, contra outros povos europeus.

Mas, afinal, depois das eleições de 6 de maio, estamos às vésperas de um novo pacto, que o povo grego espera conseguir construir, para firmar sua vitória. Queremos mudar as coisas na Grécia, para, assim, emitir, bem clara, uma mensagem de esperança para toda a Europa. Para fazer lembrar, aos que esquecem a história, que o Memorando nos levou ao desastre.

E para buscar, com todos os povos europeus, uma refundação da Europa – outra Europa que, dessa vez, será criada sob princípios de solidariedade e coesão social.

Muito nos alegra constatar que, mesmo que ainda não tenhamos chegado aos cargos e responsabilidades de governo, já sopram ventos de mudança em todo o continente.
Prova disso é que haja aqui tantos jornalistas.

Prova disso, também, é que questões e ideias que, há bem pouco tempo, pareciam absolutamente extemporâneas, são hoje fatos que se veem e discutem-se por toda parte. Até nossos adversários são obrigados a discutir. E temos, sim, de obrigá-los a discutir, porque estamos sob chantagem, mas a verdadeira chantagem que se arma contra nós é outra, muito mais séria que a que vemos hoje à superfície.

A verdadeira chantagem não está em nos ameaçarem com o fim da Grécia, se não nos acomodarmos sob o imperativo do choque neoliberal.

A verdadeira chantagem, hoje, é ameaçarem toda a Europa com o fim do euro e da União Europeia enquanto tal.

Por tudo isso, acreditamos que, dia 17/6, na Grécia, as forças da esperança vencerão o medo. A esquerda grega alcançará vitória decisiva, histórica, contra o Sr. [ininteligível], que nada é além de simulacro, cópia, do que foi, na França, o Sr. Sarkozy.

Entendemos que nossa vitória será o começo de grandes mudanças em toda a Europa.

Estou à disposição dos senhores, se houver perguntas [fim do vídeo].
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Assista também (em francês):
Alexis Tsipras e Mélenchon, em Paris: Front de Gauche Europeia
21/5/2012, 2ª feira, Paris – E o moço também é bom de palanque!

Segunda-feira, 21 de maio, 2012, a Europa estava na agenda dos líderes da Frente de Esquerda francesa e europeia. Sob a bandeira da PGE, Pierre Laurent, Alexis Tsipras e Jean-Luc Mélenchon falaram na Praça Herriot Edouard, a poucos passos da Assembleia Nacional


segunda-feira, 7 de maio de 2012

“Au Revoir” Sarkozy


O que podemos aprender com a experiência francesa.

Juliana Medeiros
Por Juliana Medeiros

Acompanho com interesse o processo eleitoral na França desde 2007, quando Sarkozy concorreu com Ségolène Royal. Esta, por sinal, ex-mulher do socialista François Hollande, eleito hoje presidente.

Já naquela época me assustou a vitória do presidente Nicolas Sarkozy falando de proteção às “origens e tradições” da França, contra uma candidata que falava em “integração, solidariedade e pluralismo”. 

Pode parecer distante, mas acompanhar os debates entre candidatos na França é uma grande lição para nós brasileiros. Recomendo a quem tiver interesse, buscar os textos dos discursos (alguns disponíveis em português na internet) dos candidatos François Hollande, Jean-Luc Mélenchon – ver abaixo - Marine Le Pen e do agora derrotado Nicolas Sarkozy. Com todas as demonstrações de intolerância e xenofobia dos dois últimos, a corrida eleitoral francesa é uma aula de democracia, soberania e de autonomia do seu povo.

Não posso afirmar com certeza se isso acontece da mesma forma em outros países da Europa porque não acompanho seus processos eleitorais tão de perto, mas acredito que seja parecido, principalmente se observada a escolaridade média do europeu.

Esse indicador social faz com que nenhum candidato na França possa prescindir de uma profunda formação política, do conhecimento detalhado das políticas públicas contidas em suas propostas, do domínio do discurso – não como mera ferramenta de retórica eleitoreira – mas sim de convencimento de um público que conhece sua história e que contextualiza essa história com o mundo em que vive, econômica e socialmente. E isso considerando que os candidatos falam hoje, em grande parte, para... Continue lendo è


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