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sábado, 28 de dezembro de 2013

Serviços secretos dos EUA trabalham para derrubar o presidente do Equador

28/12/2013, [*] Nil Nikandrov, Strategic Culture  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Rafael Correa, Presidente do Equador
Rafael Correa é um dos presidentes latino-americanos que os círculos governamentais norte-americanos consideram incontroláveis e, portanto, especialmente perigosos. Para livrar-se desse tipo de político [eleito], Washington usa um vasto arsenal de meios, desde interferir no processo eleitoral até a eliminação física. Depois da estranha morte de Hugo Chavez, que liderava a resistência latino-americana contra o Império, é Correa que, cada dia mais, vem sendo visto como seu sucessor, o líder de “forças populistas” no continente.

No centro das atividades de política externa de Correa está o fortalecimento de organizações regionais latino-americanas nas quais não há representante dos EUA: a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC), a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), a Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA) e outras. Correa sempre apoiou as iniciativas de Hugo Chávez que viabilizaram uma menor dependência da região em relação ao Império, o esvaziamento da Doutrina Monroe no Hemisfério Ocidental e a interação entre países latino-americanos com outros centros de poder. Nessa direção, o Equador está fixando um novo padrão e um exemplo, ao estabelecer relações amplas com China e Rússia nos campos político, econômico e militar. A presença dos EUA no país está diminuindo, e o governo Obama tenta romper essa tendência. O presidente Correa foi declarado principal responsável pela deterioração das relações EUA-Equador.

Foi Correa quem iniciou a campanha internacional contra a empresa Chevron. A Corte de Arbitragem em Haia dispensou a empresa de ter de pagar multas de vários bilhões de dólares por poluir a bacia do Rio Amazonas em território do Equador. Correa não aceitou a decisão, que o Equador considerou humilhante e injustificada. Visitou pessoalmente a zona do desastre e mostrou a jornalistas e câmeras de televisão as mãos cobertas de óleo cru deixado a vazar num antigo ponto de extração, e disse: “Esse é o resultado de a empresa usar aqui tecnologias ultrapassadas”.

Correa conclamou os consumidores a não comprar produtos da Chevron. Um tribunal equatoriano acolheu processo iniciado por índios que habitam a área do desastre ecológico, que exigiu que a empresa pagasse multa de 19 bilhões de dólares em danos ao meio ambiente e contra a saúde da população. Fazendo bom uso da grande experiência que acumulou nesses processos, Chevron conseguiu obter uma sentença favorável da Corte Internacional de Arbitragem em Haia.

UNASUL
Mas Correa não desistiu. Obteve o apoio da UNASUR e da ALBA e conclamou a comunidade internacional a manifestar solidariedade ao Equador. Já não há propriedades da empresa Chevron no Equador, mas a multa exigida pelos equatorianos poderá ser paga com propriedades da empresa na Argentina, Brasil ou Canadá – o que implica graves consequências financeiras para a empresa.

O governo Obama decidiu defender os interesses da Chevron a qualquer custo. Esse é um dos fatores pelos quais está direcionando os serviços secretos dos EUA para que deem solução radical ao “problema Correa”.

O presidente do Equador também trabalha contra o avanço da Aliança do Pacífico, um dos projetos geopolíticos dos neoliberais de Washington e que inclui México, Colômbia, Peru e Chile. A Aliança foi criada para neutralizar o bloco da ALBA, e a presença do Equador na ALBA não contribui para os objetivos estratégicos dos EUA naquela região do Pacífico.

A espionagem dos serviços secretos dos EUA contra o presidente do Equador é cada dia mais visível. Conversas telefônicas e comunicações em geral interceptadas no círculo mais próximo do presidente, de seus agentes de segurança e de sua escolta pessoal ajudam os norte-americanos a saber de todos os movimentos do presidente, eventos aos quais comparece, listas de participantes e sistemas de segurança. O monitoramento ininterrupto oferece farto material para identificar pontos de vulnerabilidade na organização da segurança. Recentemente, na sua já tradicional fala dos sábados, por televisão, o presidente Correa falou aos equatorianos sobre a suspeita concentração de pessoal militar na embaixada dos EUA em Quito.

Todas as embaixadas têm adidos militares – disse Correa. – A maioria, tem um. Mas aqui no Equador eles têm mais de 50!

Ricardo Patino
Disse também que instruiu o Ministro de Relações Exteriores, Ricardo Patino, que:

(...) verifique essa informação! Esse número gigante de militares norte-americanos aqui não é possível! Terão de reduzi-lo ao nível normal.

O presidente também exigiu que seja investigado um incidente na fronteira Equador-Colômbia, de queda de um helicóptero equatoriano, com vários militares dos EUA a bordo. A preocupação de Correa é compreensível; a base dos EUA em Manta foi fechada em 2009, mas assessores militares do Pentágono e agentes dos serviços secretos dos EUA continuam a manter operações em território equatoriano sem qualquer limitação.

A intensificação da espionagem e de atividades de subversão por agentes norte-americanos no Equador é óbvia. Segundo informação obtida de especialistas cubanos, divulgadas pelo site Contrainjerencia.com, só o número de agentes da CIA já dobrou, entre 2012-2013, na “base” equatoriana. Dúzias de novos agentes chegaram ao país. Operam não só a partir da embaixada dos EUA em Quito, onde há, no mínimo, uma centena de diplomatas (!), mas também usam o consulado em Guaiaquil. Para criar acomodações para o número crescente de agentes norte-americanos de espionagem (“pessoal de inteligência”) nessa importante cidade portuária, estrategicamente crucial, o Departamento de Estado teve de construir um novo prédio para o consulado, o qual, segundo agência de inteligência que colabora com o Equador, abriga o equipamento eletrônico da Agência de Segurança Nacional dos EUA. O cônsul dos EUA em Guaiaquil é David Lindwall, chegado ao país depois de ter servido no Iraque como Conselheiro de Assuntos Político-Militares. Lindwall também serviu como Adido Político nas embaixadas em Bogotá, Manágua, Tegucigalpa, Assunção e outras capitais latino-americanas.

David Lindwall
O nome de Lindwall aparece com alta ocorrência nos telegramas diplomáticos distribuídos por WikiLeaks. Qualquer rápida pesquisa nos telegramas assinados por ele obriga a concluir que Lindwall é experiente funcionário de carreira da CIA, muito informado sobre a América Latina, enviado ao Equador para resolver problemas muito sensíveis.

O presidente Correa várias vezes falou dos EUA como “potência arrogante” que tenta impor ao mundo o que entende que sejam “valores democráticos universais” e vive a dar aos outros “lições de moral e boas maneiras”. O presidente frequentemente repete que os EUA têm um dos sistemas eleitorais mais imperfeitos do mundo, que permite a eleição de candidatos derrotados nas urnas. Correa considera “insultantes” as tentativas da Agência de Desenvolvimento Internacional (USAID), para impor padrões da democracia norte-americana ao Equador e outros países, como se fossem colônias dos EUA. Recentemente, ao comentar o fim do financiamento que a USAID dava a projetos no Equador, no valor de 32 milhões de dólares, Correa sugeriu, não sem sarcasmo, que Washington aplicasse a mesma quantia para aprimorar a democracia norte-americana.

O escritório da USAID está deixando o Equador, mas as operações de espionagem dos EUA para desestabilizar o país continuam. Ao que tudo indica, novos ataques nessa área podem estar em conexão com planos de Correa para reduzir o tamanho das forças armadas e transferir parte do pessoal militar para as agências policiais. “Exércitos de dissidentes” anônimos já divulgaram declaração hostil a Correa e suas “tentativas para tomar o lugar de Chávez no continente”. Até o palavreado indica quais são as forças por trás da campanha que está sendo lançada contra Correa.

Durante levante policial em setembro de 2010, o presidente do Equador foi apanhado no fogo cruzado de atiradores postados em prédios; daquela vez, escapou ileso. É perfeitamente possível que a inteligência dos EUA esteja planejando coisa semelhante para futuro próximo. Afinal, depois dos ataques contra New York em 2001, as agências norte-americanas de espionagem receberam carta branca para eliminar todos os declarados inimigos dos EUA. Ninguém cancelou essa ordem.
_____________________

[*] Nil Nikandrov é um jornalista sediado em Moscou cobrindo a política da América Latina e suas relações com os EUA; crítico ferrenho das administrações neoliberais sobre as economias nacionais latino-americanas. Especializou-se em desmascar os esforços feitos pela CIA e outros serviços de inteligência ocidentais para minar governos progressistas na América Latina. Autor de vários livros - tanto de ficção e estudos documentais - dedicados a temas latino-americanos, incluindo a primeira biografia em língua russa de Hugo Chávez.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Editorial da Vila Vudu/redecastorphoto de 15/11/2013


Passamos adiante, aqui, uma mensagem publicada hoje por "The Saker", do blog The Vineyard of the Saker, que não se sabe quem é, e cujo trabalho na rede foi divulgado por Pepe Escobar, pelo Facebook, onde o descobrimos.

The saker
A mensagem pareceu-nos interessante e está, na íntegra (em inglês), em “An amazing week has turned to an amazing month - heartfelt thanks for all those who made this possible (UPDATED)”, porque o Saker (é um tipo de falcão, foto acima) parece trabalhar numa linha semelhante à nossa: escreve  e posta no blog (no nosso caso, traduzimos, postamos e espalhamos pela rede) sem qualquer tipo de “seleção” entre os destinatários: se o cara diz que quer receber, mandamos. O blog redecastorphoto é depositário da totalidade das traduções e manifestações do pessoal da Vila Vudu desde 2010.

Gostamos do que o Saker escreveu, porque ele pôs, num parágrafo, praticamente o resumo de algo que nós (também) pensamos -- e que pode ser o “fundamento teórico”, se algum houver, do que a gente pensa, com alguma variação nos “exemplos”:


Finalmente, a grande lição [da surpresa, para ele, que foi descobrir o que ele escreve traduzido para zilhões de línguas e distribuído pelo planeta inteiro] é que há uma sede no planeta por um tipo diferente de pensamento. As velhas categorias - Esquerda vs Direita, Leste vs Oeste, Progressistas vs Conservadores - estão morrendo e muita gente está farta delas. Muita gente também está farta das regras estritas do “politicamente correto” que *todos* os establishments sempre impõem. Digo isso, porque recebemos pouquíssimos e-mails de ódio. Não há dúvidas de que há “algo novo” em gestação no mundo. Na Rússia, esse “algo novo” aparece encarnado em Putin; na França, em Soral e Dieudo; na América Latina provavelmente em Morales; no Oriente Médio, em Nasrallah. Talvez, algum “consenso” pós-capitalista?

Cá na Vila Vudu / redecastorphoto, ainda não demos por morto-e-enterrado o discurso da esquerda. Nos declaramos completamente “de esquerda”. Entendemos que a luta continua, mas que, sim, que a esquerda europeia, sim, acabou-se, autodiluída em grupelhismos. E diríamos que “há algo de novo no Brasil, em Lula-Dilma”; na América Latina talvez, mais, em Correa (do Equador), melhor herdeiro do chavismo, nos parece, que Evo Morales”.

Na França, não sabemos e, assim, demos divulgação ao que pareceu “novo” ao Saker. E no Oriente Médio, sim, parece que, sem dúvida, “há algo de novo em Hassan Nasrallah” que traduzimos frequentemente já há muito tempo e que Assange entrevistou há um ano (entrevista que fica cada dia mais atual, se se consideram os desenvolvimentos contemporâneos na Síria, e que pode ser relida na redecastorphoto), e que é personagem DESCONHECIDO dos leitores/ espectadores/ ouvintes da imprensa-empresa brasileira (censurado também pelos blogueiros jornalistas ditos “progressistas” brasileiros).

No caso da Vila Vudu/ redecastorphoto, deve-se acrescentar que nós empenhadamente nos dedicamos a divulgar matérias e publicações que se encontram na rede, pelo mundo, e que NUNCA, JAMAIS, EM CASO ALGUM, apareceram ou algum dia aparecerão publicadas em língua portuguesa do Brasil nos JORNAIS/ REVISTAS/ RÁDIOS/ TVs brasileiros.

Nesse sentido, costumamos dizer, cá entre nós, que fazemos um trabalho DES-JORNALÍSTICO.

Em todos esses casos, o que fazemos é alguma espécie vaga de “seguir a multidão” - um conceito importante e utilíssimo, que aprendemos (e continuamos a aprender) criado por Antônio Negri - mais do que insistir em supor que saberíamos mais que a multidão.

Em todos os casos, nos interessam sempre mais as vozes que NÃO LEEM JORNAIS e REVISTAS BRASILEIROS E NÃO ASSISTEM À REDE GLOBO, nem TV comercial brasileira em geral, nem ouvem noticiários radiofônicos (tipo CBN, a rádio que troca notícias, p. ex.).

Se os muitos hoje, no mundo, são islamistas e só esses, no mundo, estão fazendo a oposição política (e armada) ao capitalismo selvagem que os EUA tentam impor pelas armas, pelo planeta, então oferecemos nossos ouvidos e dedos a Nasrallah, da resistência xiita, que parece ser o mais consequente, politicamente falando, dos islamistas.

Entendemos que o jornalismo que há no Brasil, jamais, em tempo algum -- e por definição -- será instrumento útil para construir e distribuir a informação que interessa ao esclarecimento e formação (no sentido complexo, de “ilustração”) da opinião pública brasileira.

O jornalismo brasileiro é o pior do mundo? É.

O jornalismo brasileiro tem de ser EXTINTO. As empresas têm de ser fechadas e o terreno salgado, para que ali nada mais do mesmo jamais torne a brotar. E para que os terrenos salgados e devolvidos ao estado de terra bruta, ali permaneçam, secos e estéreis, como monumento fúnebre, para que todos vejam, bem graficamente, o mal que o jornalismo brasileiro (teoria e prática) fez ao Brasil, por mais de um século e, hoje, ainda mais do que nunca antes.

Decidimos distribuir hoje este EDITORIAL para não deixar aí, como última palavra, ao nos desligarmos das listas “nômade”, as tolices/ besteiróis publicados por “nômades” do Rio de Janeiro, para os quais nós não faríamos outra coisa além de “inundar a lista com material islamista”. De fato, esse tipo de tolice jamais havia sido escrito, sequer, pelos sionistas que vivem a nos espinafrar e até ameaçar.

Há um risco muito específico da internet, que é o risco da palavra escrita por impulso.

Paul Virilio
A rede -- que é vastamente AÇÃO POR ESCRITO -- é lugar muito perigoso onde se vê, muito claramente, o que há de verdade no que Paul Virilio escreveu:

A Internet nos deu o tempo do reflexo e roubou-nos o tempo da reflexão.

Isso, precisamente, é o que fazem também o jornal, o rádio e a televisão comerciais liberais (no sentido de “liberal udenista”) que há no Brasil.

Nesse sentido, e se for usada só para distribuir reflexos & xiliques hiper-mega-over grupelhistas ou de clusters acadêmicos ou individualistas e roubar a todos o tempo da reflexão, a rede TAMBÉM é ferramenta a favor do capitalismo selvagem e seus comanditários.

O mesmo vale também para o jornalismo “ninja”, o qual é “comunicação” e como tal não nos interessa, porque nenhuma “Teoria da Comunicação” capitalista nos interessa, como nenhuma teoria do jornalismo liberal capitalista nos interessa, ainda que metida a “ninja”.

Sobre os black blocs, adotamos a posição dos Zapatistas: venham, se quiserem vir, mas,

escrevam meia página sobre o que pensam e sobre por que fazem o que fazem como fazem: mais importante que a quebradeira cenográfica, é vocês explicarem-ensinarem POR QUE vocês fazem a parte quebradeira, da luta comum de todos.

Por hora, é isso.


Vila Vudu e redecastorphoto

domingo, 6 de outubro de 2013

Entrevista: Rafael Correa, presidente do Equador em 4/10/2013

4/10/2013, Russia Today (vídeo)
Enviado e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

“Em entrevista exclusiva a Russia Today TV, o presidente do Equador, Rafael Correa, compara as declarações de Barack Obama sobre o “excepcionalismo” norte-americano e o discurso nazista, e destaca a dupla moral que há nas relações: para os EUA, na América Latina só há ditaduras; na Europa, só democracias.

Reflete sobre a aliança antinatural entre a imprensa-empresa latino-americana corrupta de direita e uma pseudo extrema esquerda – e comenta os chamados “neoecologistas” (“que lhes interessa a ecologia? Nenhuma direita, antes, jamais se preocupou com a natureza. Agora, de repente, são os maiores defensores da natureza?!”) [ouviu bem, Al Gore?! Ouviu bem, Marina Silva, sua udenista moralista DETESTÁVEL, metida a “excepcional”? Ouviram bem?] que trabalham hoje para prejudicar governos progressistas”.

Ante a pergunta do jornalista sobre “a alternância de poder, a questão da reeleição nos governos”, Rafael Correa riu: “Excelente pergunta para fazer a Angela Merkel”.

Assistam a entrevista completa (em espanhol) a seguir:


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Política à moda Lula do Brasil: como derrotar os “anti-Presidente”


20/2/2012, *M. K. Bhadrakumar, Russia & India Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Luiz Ignácio Lula da Silva e Manmohan Singh. Foto: Reuters
Para governo que esteja no poder em democracia que funcione, o momento mais aterrorizante acontece quando se trata de tentar a reeleição, ao final de um primeiro mandato. Até políticos de nervos de aço tremem. A mística da democracia está em que não há jamais garantia alguma do rumo que tomará o veredicto das urnas.

Se chega ao final do mandato carregando o peso de maus resultados, o governo que aspire à reeleição se torna particularmente vulnerável. As estimativas podem provar-se completamente erradas – como se viu, por exemplo, quando o governo da Aliança Democrática Nacional que estava no poder na Índia antecipou as eleições parlamentares em 2004, certo de que venceria, empurrado por intensíssima campanha de mídia, que repetia incansavelmente que “a Índia brilha”. Terminou triturado nas urnas e despachado para o ponto mais escuro do mato político.

Rafael Correa, Presidente do Equador
Tudo isso torna absolutamente emocionante a reeleição de Rafael Correa à presidência do Equador, para um segundo mandado de seis anos.

Eleger-se para um segundo mandato, derrotando o peso das forças “antigoverno” e “anti-Presidente”, e com maioria ainda mais ampla que antes – e, além do mais, alcançando 58% dos votos logo no primeiro turno das eleições – não é coisa fácil em nenhuma democracia. Na Índia, ao que me recorde, só aconteceu uma vez desde a independência, quando Indira Gandhi beneficiou-se da euforia nacional que se seguiu à “criação”, por ela, de Bangladesh, em 1972.

Mas o novo mandato de Correa não está ancorado a qualquer nacionalismo inflado, que ele deliberadamente afastou, quando renegou as tradições regressivas do populismo demagógico sob líder carismático. A conquista de Correa é resultado de sólidas realizações no processo de transformar a economia política de seu país.

Até a revista Forbes teve de reconhecer, embora sem entusiasmo, que “seus programas sociais foram aclamados”. Em termos simples, Correa assumiu o controle sobre a fabulosa riqueza do petróleo equatoriano, arrancando-a das mãos de empresas estrangeiras predatórias e, pode-se dizer, obsessivamente se dedicou a usar melhor os recursos para criar melhores condições de vida para os milhões de seus compatriotas pobres e despossuídos. O que Correa conseguiu fazer é fácil de ver: assistência pública gratuita à saúde, educação para os pobres. E, isso, em apenas seis anos. Não surpreende que os equatorianos o adorem. Quem disse que o socialismo morreu?

Vários sindicatos indianos estão iniciando uma greve nacional de dois dias, sem precedentes, a partir da 4ª-feira, para pressionar na direção de suas reivindicações, entre as quais assistência médica e salário mínimo. O Wall Street Journal observa que “as greves nacionais chamam a atenção para o descontentamento entre os trabalhadores que se sentem marginalizados da prosperidade econômica da Índia ao longo da última década”. A magnífica vitória de Correa deve servir para abrir os olhos do Congress Party que governa a Índia e que luta contra uma onda de “antigoverno”, “anti-Primeiro Ministro” e “anti-Presidente” que, sim, talvez já se tenha esvaziado até as eleições parlamentares de 2014.

Como derrotar os “anti-Presidente” em democracia que funcione e manter o poder político em eleições livres e justas?

Hugo Chávez
As democracias latino-americanas oferecem chave muito útil para responder essa pergunta. Primeiro, foi Hugo Chávez, que mostrou o caminho na Venezuela. E agora Correa, no Equador.

Mas, de fato, não há qualquer grande segredo. Ambos, Chávez e Correa, recorreram a políticas econômicas que nunca perdem de vista que a maioria do povo em seus países era desesperadamente pobre; os dois líderes jamais perderam de vista a evidência de que tinham de governar para o povo. Ambos construíram e executaram políticas de maior investimento para melhorar a vida da sociedade, e o Equador, em especial, conseguiu diminuição notável nos índices de pobreza, de quase cinco pontos percentuais nos primeiros quatro anos da presidência de Correa.

Mas, poder-se-ia dizer, Venezuela e Equador são países pequenos, comparados à Índia, país de dimensões continentais. A analogia com esses dois países faria algum sentido para a Índia? Em minha opinião, sim. De comum a todos é que a questão do desenvolvimento, nesses três países, está intimamente ligada à questão da pobreza. E democracia de melhor qualidade terá, necessariamente, de atacar esse problema.

Foi também a experiência de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil. Em certo sentido, a analogia com os governos Lula é mais interessante para a Índia. Lula também foi eleito em 2002 com plataforma popular/populista – variante da campanha que o Congress Party conduziu na Índia para vencer as eleições parlamentares de 2009, projetando-se assertivamente como partido da causa dos pobres. Depois de eleito, Lula aplicou políticas neoliberais dirigidas a estimular a taxa de crescimento da economia brasileira, cortando déficits de orçamento e abandonando subsídios sociais. A inflação subiu e a corrupção cresceu aos saltos, quase na mesma escala em que se viram os mesmos fenômenos na Índia em anos recentes.

O Brasil foi tomado por onda de descrença e cinismo, em tudo semelhante ao que se viu também na Índia. Mas Lula farejou, a tempo, o perigo. Quando viu que havia risco de seu governo ter tomado rumo errado, tão errado que comprometeria toda a sua massiva popularidade e a continuação de seu projeto político, Lula mudou o curso de seu governo.

Perry Anderson
Claro: aí está a real diferença, em relação às elites que governam a Índia. Para Lula, a mudança de curso foi processo natural, porque é político essencialmente comprometido com os mais pobres. Como Perry Anderson explicou a correção de rumo, em ensaio magnífico intitulado “O Brasil de Lula” (excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu) publicado na London Review of Books (Lula's Brazil) há dois anos:

Combinados, o rápido crescimento econômico e a forte transferência de renda conseguiram a maior redução na pobreza de toda a história do Brasil. Segundo algumas estimativas, o número de pobres caiu, de cerca de 50 para cerca de 30 milhões em apenas seis anos; a pobreza foi reduzida em 50%. Metade dessa transformação dramática pode ser atribuída ao crescimento, metade aos programas sociais – financiados pelos maiores ganhos, advindos do crescimento.

Para encurtar essa história, sob todos os aspectos, emocionante, Lula obteve a mesma maioria na reeleição de 2006, que obtivera quatro anos antes: 61% no segundo turno eleitoral. Mas, nessa reeleição, havia diferença essencial na alquimia da vitória eleitoral. Explica Anderson:  

Dessa vez a composição social do eleitorado era outra. Afastados por causa do “mensalão”, grande parte dos eleitores de classe média que se haviam reunido em torno de Lula em 2002 desertaram; e os pobres e os brasileiros de mais idade votaram em Lula, em maior número do que antes.
O Congress Party da Índia ainda tem muito o que aprender da história épica de Lula no governo do Brasil.


*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e seu blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ENTREVISTA: Rafael Correa, presidente reeleito do Equador


18/2/2013, Russia Today [vídeo]
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Russia Today (RT): Bom dia, e muito obrigado por nos receber. Para começar, quero felicitá-los pela vitória. Gostaria de saber como passou a noite? Teve tempo para dormir o descansar um pouco?

Rafael Correa: Obrigado a RT e, através de RT, vai meu abraço a toda a América Latina e a todo o mundo. Nesse trabalho, não há muito tempo para descansar. Chegamos em casa à 1h da manhã. Faço o possível para não perturbar a vida cotidiana de minha família. Então, às 7h levo meus filhos à escola e dali vou para o Palácio, continuar trabalhando. Temos cansaço acumulado. Já estamos habituados.

RT: As pesquisas previam 60% dos votos. Acertaram.

Rafael Correa: É, foram bem precisas, porque havia indecisos. Temos alguma experiência... Tínhamos 62-61%, mas havia cerca de 20% de indecisos, os que não se haviam decidido por proposta forte como a nossa; o mais provável é que escolhessem outros setores políticos. Assim, sabíamos que os números poderiam ser menores. Seja como for, começamos a campanha com 52%. Nosso objetivo era não perder nenhum desses votos. Começamos a subir e chegamos a 57-58%. Só tenho a agradecer ao povo equatoriano.

RT: Mas não houve nervosismo. Nenhum presidente do Equador fez o que o senhor fez. E, seja como for, nenhum se manteve no poder durante todo o mandato.

Rafael Correa: Algum nervosismo sempre há. Trabalhamos, na campanha, como se não tivéssemos nenhum voto. Foram 32 dias muito intensos de campanha, fiquei sem voz, mas foi uma bela campanha, bastante bem coordenada, con mensagem profunda. Tudo funcionou quase perfeitamente: equipe de campanha, organização política, autoridades, militantes, os comitês da Revolução Cidadã, que são grupos de cidadãos que se organizam para dar apoio a essa revolução. E aí estão os resultados. São resultados contundentes. E insisto: só tenho a agradecer ao nosso povo. Claro, também, que mantenho o compromisso de não falhar com os equatorianos.

RT: O senhor diz que foi uma bela campanha. Mas o senhor criticou os meios eletrônicos e há boatos de que a CIA prepara um golpe para desestabilizar o Equador. De que se trata, exatamente?

Rafael Correa: Foi uma bela campanha, de nossa parte, porque foi campanha com alegria, com música, com um programa muito bem elaborado de governo, resumido em 10 eixos, com 35  propostas muito concretas. Sinceramente, é o melhor plano de governo da história do Equador. Mas, sim, enfrentamos campanha suja, na qual intervieram serviços de inteligência daqui e do exterior. Parte dos nossos opositores, os menos éticos, são militares da reserva, com experiência em inteligência, os quais, quando não conseguem vencer nas urnas, trabalham para destruir a moral, agridem a família, agridem a honra de amigos nossos. Tivemos, sim, algumas dessas patrañas e, sim, foram organizadas, principalmente, pelas redes sociais. Graças a Deus o povo equatoriano soube ignorá-las. A CIA também... falou-se, mas nada foi provado, que haveria 87 milhões de dólares para financiar a oposição, com o objetivo de desestabilizar o Governo, para impedir que vencêssemos e, no caso de vencermos, como aconteceu, para nos desestabilizar. Não se pode nem confirmar nem desmentir essas denúncias gravíssimas, sem investigação muito mais profunda.

RT: Sua imagem não foi abalada durante a campanha?

Rafael Correa: Não. Mas sem dúvida houve campanha suja. E a campanha de sempre, de alguns veículos , que tomam partido e não faz o trabalho de informar (...).

RT: Em 2010, houve aqui uma tentativa de golpe de Estados, que ninguém previu naquele momento. Deve-se esperar algo parecido agora? Provocação semelhante?

Rafael Correa: Não se pode excluir completamente o risco. Olhe à volta: o contexto daquele golpe de Estado foi a imprensa desinformando... E a oposição política, que se diz democrática, foram os primeiros a apoiar os golpistas, pediram a renúncia do presidente – o mais violentamente agredido. Tomaram medidas para desestabilizar o governo. E agora, na campanha, proclamavam o quanto respeitam a Constituição. Evidentemente, não se pode excluir o risco da imprensa corrupta – porque também há melhor imprensa –, a imprensa que nada tem de ética, a mesma imprensa que já não tem poder para impor e derrubar presidentes. Ontem, ficou demonstrado. Mas, sim, aquela imprensa corrupta ainda tem capacidade para provocar grande dano. Sempre podem difundir alguma outra mentira, que, sim, pode nos prejudicar muito. Por isso, não se exclui essa possibilidade. Temos de nos manter muito atentos, sempre, a essas tentativas de desestabilizar governos eleitos.

Grande parte do que houve dia 30/9/2010 aconteceu porque a imprensa informou mal, disse aos policiais e militares que perderiam benefícios, salários, até as medalhas... De fato, foram canceladas várias dessas coisas, que, em seguida, foram unificadas em salário muito maior. Mas isso, precisamente, a imprensa não informou. Enganaram muita gente. E, sim, podem criar outra vez clima semelhante. É preciso atenção extrema.

RT: Seu opositor nessas eleições, Guillermo Lasso, que alcançou 24% dos votos, disse que o senhor é o presidente dos ricos.

Rafael Correa: Eu?! Considero Guillermo Lasso homem inteligente e não acredito que tenha dito tal coisa. Até que o ouça dele mesmo, dou-lhe o benefício da dúvida, porque seria a mais rematada tolice que Lasso jamais disse. E, afinal, não chegará aos 24%. Faltam alguns votos.

RT: Mas há quem diga também que algumas reformas feitas no país, reformas tributárias, por exemplo, funcionam em benefício só dos ricos. O que o senhor tem a dizer?

Rafael Correa: Que reforma tributária beneficiou só os ricos? [risos]

RT: Foi o que disseram os opositores.

Rafael Correa: A única proposta de todos os demais candidatos foi reduzir impostos. Porque, pela primeira vez no Equador, os ricos pagam impostos. A evasão ficou impossível. Antes, eles nem se preocupavam se os impostos eram altos ou baixos, porque não pagavam imposto algum, sonegavam e nada lhes acontecia. Por isso, agora que a sonegação e a evasão ficaram impossíveis, e a proposta de eliminar todos os impostos foi derrotada nas urnas, já duas vezes. Mas os ricos nunca pagaram impostos e agora pagam. Duvido, sinceramente, que Guillermo Lasso, pessoa inteligente, tenha dito tal barbaridade. Em todo o caso, é extremamente claro quem é o candidato das elites no Equador.

RT: Ano passado, houve muita polêmica em torno do caso de Julian Assange. Quais os objetivos do Equador, quando decidiu dar-lhe asilo?

Rafael Correa: Que polêmica? Por que teria havido polêmica? Da próxima vez que a Suécia, onde vivem muitos asilados latino-americanos, decidir dar asilo a alguém, também haverá ‘polêmica’? Na minha opinião, há, nessa história, muito de neocolonialismo. Esse governo, esse presidente e esse país não aceitarão essas manobras. Não temos de pedir licença a ninguém para exercer nossa soberania. É figura definida, bem claramente, no direito internacional. O Equador exerceu a própria soberania, nos termos do Direito Internacional, e não devemos explicações a ninguém, nem temos de pedir desculpas, nem de pedir autorização a seja quem for.

Na prática, toda a solução da questão Julian  Assange depende hoje da Europa. Se, amanhã, a Grã-Bretanha lhe dá o salvo conduto, acaba o problema. Se a Suécia o interrogar, como a lei sueca admite – e ninguém aqui fez qualquer coisa para impedir a marcha da justiça sueca. É bom esclarecer, porque, também aqui, não faltou informação errada –, por vídeo, como pode fazer; se enviar um Promotor à Embaixada do Equador em Londres, como também pode fazer, acaba a confusão. Assange foi convocado para interrogatório. Não há, sequer, acusação formal contra ele, de coisa alguma. Se o advogado do Sr. Assange nas cortes europeias, o Dr. Baltasar Garzón, obtiver autorização para que o asilado deixe a Embaixada do Equador em segurança, acaba-se a questão. Agora, tudo depende da Europa. O Equador fez o que tinha de fazer, no exercício de sua soberania. Não pedimos nem vamos pedir licença a seja quem for. Não devemos desculpas a ninguém, nem explicações. País algum jamais pediu desculpas a alguém, por exercer a própria soberania.

RT: Sim, mas parece que Julian Assange está convertido em prisioneiro eterno. Não vejo saída para essa situação...

Rafael Correa: Nesse caso, diga isso à Europa... Toda a solução está em mãos de países europeus: Grã-Bretanha, Suécia, as Cortes europeias.

RT: E quando o senhor supõe que se resolverá isso?

Rafael Correa: Amanhã, se a Grã-Bretanha quiser resolver. Mas há aí muita soberba, muita arrogância, muito de neocolonialismo. Querem de nós demos explicações por conceder um asilo? Como assim? O que significa isso? E querem também que revertamos decisão já tomada. Não o faremos. Nunca.

RT: O senhor acredita, como o próprio Julian  Assange, que pode acontecer de ele ser extraditado para os EUA, não para a Suécia?

Rafael Correa: Bem... Havia alta probabilidade. O caso do Sr. Assange foi estudado detidamente, durante várias semanas, aqui no Equador. Entendemos que aquele pedido de asilo tinha fundamento e concedemos o asilo.

RT: Digamos que, ontem, não foi noite só de sua vitória, que foi uma pequena vitória também para Hugo Chávez, que voltou à Venezuela. O senhor foi dos primeiros a visitá-lo em Cuba e dedicou sua vitória também a Hugo Chavéz. O que sabe de seu estado de saúde e quanto imagina que possa voltar às suas funções?

Rafael Correa: Bem, estive com ele antes da operação, sem dúvidas operação delicada, mas quem o visse, sem saber da doença, diria que estava perfeitamente normal, com bom ânimo, muito bom aspecto. Mas, sim, que se tratava de operação delicada, todos sabíamos. A notícia que temos é de que se está recuperando. Excelente notícia, que tenha podido voltar à sua amada Venezuela. Ama Cuba, mas a Venezuela é sua pátria, a terra natal, e estou certo de que estar em casa será o melhor remédio para a rápida recuperação de Hugo. Desejo-lhe rápida recuperação. Que não seja cabeça dura. Das primeiras coisas que fez, depois de agradecer à Venezuela, foi mandar-me felicitações... Ele agora tem de não pensar, por uma semana, no que acontece na América Latina e concentrar-se na recuperação.

RT: O senhor acredita que a recuperação seja possível?

Rafael Correa: Não sei. São desejos. Não sei se realizarão.

RT: Digamos, no caso de que Hugo Chávez não possa voltar às funções de antes. O senhor está disposto a assumir papel mais importante na América Latina?

Rafael Correa: Sempre me fazem essa pergunta e, com todo o respeito, o que mostra é desconhecimento do que se passa na América Latina. Quem aqui está buscando algum protagonismo? Hugo tem liderança natural.

RT: Mas a questão existe, na arena internacional. Vê-se como…

Rafael Correa: Há alguns fatos, há práticas, mas ninguém busca ascensão continental. Essas coisas não funcionam assim, entre nós: se vou ser novo líder depois de Hugo, mas Hugo está aí e continua. Então eu seria o vice-líder. Nada disso funciona assim, aqui. Estamos aqui para servir o povo, ninguém está procurando... E falo por mim, por Cristina, por Evo, por Hugo, por Dilma, por todos os coordenadores desse processo de mudança histórica na nossa América Latina. Nenhum de nós busca poder para si, nada queremos para nós; queremos tudo para os nossos povos. Estaremos onde o povo mais necessite de nós, como o mais humilde dos cidadãos, como qualquer operário que constrói a pátria todos os dias, o camponês ou o presidente da República, mas sempre para servir ao povo, sem ambições pessoais

RT: Barack Obama foi reeleito. Hugo Chávez também, e o senhor, essa noite. Todos os atores chaves nesse hemisfério mantêm as respectivas posturas. Até que ponto, com os mesmos jogadores, pode mudar a situação no continente?

Rafael Correa: Mudar em que sentido?

RT: No sentido das mudanças que esse bloco queria. Para a Revolução Cidadã, por exemplo.

Rafael CorreaEntendo que o presidente Obama seja boa pessoa, mas Infelizmente nada mudou na política externa dos EUA. A moral dupla prossegue. Insistem em dar-nos aulas de Direitos Humanos e tal, e mantêm as torturas em Guantánamo. Se os grandes ditadores por aqui, os mesmos que massacram sua gente, se são aliados incondicionais dos EUA, viram grandes democratas, e são promovidos, dão-lhes emprego e os põem a dar aulas em Washington. E presidentes totalmente democráticos, você viu, ontem, como esse que aqui lhe fala, que dá a vida em defesa dos direitos humanos de seus cidadãos, se não somos seguidores incondicionais de Washington, somos nós, os ditadores, os que atentamos diariamente contra a liberdade de imprensa, contra as liberdades fundamentais. Isso, infelizmente, não mudou. Repito que o presidente Obama parece ser bom ser humano, boa pessoa, mas a política externa dos EUA, sobretudo para a América Latina, absolutamente não mudou. E tem de mudar, porque essa dupla moral é inaceitável.

RT: Depois de vencer as eleições, o senhor disse que sua meta é que a Revolução Cidadã seja irreversível. Mas que passos devem ser tomados para que assim seja?

Rafael Correa: Temos de acabar de consolidar a nova instituição do Estado. O ponto de partido é mudar as relações de poder. O problema da América Latina sempre foi as elites dominantes. Nunca foram elites progressistas, modernizadoras, que trabalhassem para o bem comum. Foram elites que se apropriaram dos frutos do progresso técnico e apropriaram-se deles de forma excludente, para ter seus bairros exclusivos – num dos quais mora o Sr. Lasso, que diz que eu representaria as elites.

A senhora, se quiser entrar no condomínio onde mora o Sr. Lasso, onde há lagos artificiais, precisa ter um cartão magnético de identificação. Eu não entro, porque sou escurinho. Para ter esses bairros exclusivos, emparedados, para ter suas escolas exclusivas que nem por isso são as que dão melhor educação, mas são tão caras que só os ricos podem frequentá-las... E os ricos casam-se entre os ricos. Para casar ‘bem’ também os filhos e perpetuar a linhagem e a dominação. Eles têm seus clubes exclusivos... Esse é o tipo de elite que manobrou a América Latina. São os poderes que manobraram nossos países, que se traduziram em estados aparentemente burgueses, de fato, aristocráticos, que representam um poucos, bem poucos, excluindo as grandes maiorias. A Revolução Cidadão implica, basicamente, mudar essa relação de poderes com vistas a atender os cidadãos, em função das imensas maiorias, em função do ser humano, antes do capital. Porque o capital também nos dominou como está dominando na Europa, vale lembrar. E converter esses estados só aparentemente burgueses em estados integrais, populares, que nos represente todos e todas.

Já avançamos muitíssimo, mas tudo ainda pode ser perdido. Essa é a mensagem do povo equatoriano, nessa reeleição. Temos de tornar irreversíveis as mudanças que já alcançamos nas relações de poder, para que, no Equador, os cidadãos, os seres humanos continuem a governar como governam hoje. Para que nunca mais voltem a governar, aqui, os banqueiros, os meios corruptos de comunicação, os países hoje hegemônicos, as burocracias internacionais como o FMI e – ainda pior – muito especialmente, o capital financeiro – todos os agentes que dominavam e governavam o Equador, antes da Revolução Cidadã.

RT: Trata-se também, um pouco, de mentalidade. Quanto mudou a mentalidade das pessoas, nesse sentido?

Rafael Correa: Mudou muitíssimo. A senhora dizia, antes da entrevista, que não conhecia o Equador, que só conheceu o país esse ano. Mas se tivesse vindo há seis anos, não havia estradas, não havia bons serviços públicos, não havia nada. Recebemos um país destroçado. Mas, mais importante que as estradas, as escolas, os hospitais, as represas, os portos e aeroportos, é a mudança na mentalidade dos equatorianos. Nos haviam castigado tanto, uma oposição com líder político medíocre, uma imprensa que, para nos controlar, roubava-nos qualquer esperança, nos convencia de que éramos os mais inúteis, mais corruptos, mais preguiçosos seres do planeta. Tanto nos bombardearam com esse discurso, que se pode definir a situação, antes, como o país da desesperança.

Essa é a maior mudança que observo: vê-se que as pessoas estão motivadas, orgulhosas do que se faz em sua terra, sentem-se representadas pelo próprio Governo, recuperaram a autoconfiança. É o essencial para seguir adiante, mais importante que as estradas e a infraestrutura reconstruída: a atitude das pessoas. E essa atitude mudou radicalmente. Mudança de 180 graus.

RT: Mas têm também muita confiança no senhor e em seu governo. Sua popularidade é incrível e continua crescendo. A que se deve isso, depois de tantos anos de governo?

Rafael Correa: É como diz Cristina Fernández [de Kirchner]: são processos inéditos na América Latina. Antes, na América Latina, um governo vencia eleições com 52% dos votos. Em um ano, o apoio popular despencava para 15%, quer dizer, o desgaste no exercício do poder era muito rápido. Agora é o contrário: o apoio popular consolida-se. Uma das explicações, de nossa querida amiga Cristina Fernández de Kirchner, presidente da Argentina, é que, afinal, os governos se parecem com o povo. Antes, eram governos que queriam imitar estrangeiros, obedeciam a interesses estrangeiros, falavam espanhol, mas pensavam em inglês, quando pensavam. Hoje temos governos honestos, que trabalham, que cometem erros, mas são dedicados, sacrificam-se, amam o país como o amam os que os elegem para representá-los. As pessoas, afinal, sentem-se representadas pelos governos.

RT: Que visão o senhor tem para o Equador dentro de quatro anos? Como vê o país?

Rafael Correa: Quando sair, quero deixar um país. Obviamente, não conseguiremos resolver todos los problemas. Mas somos o país que mais reduz a pobreza na América Latina; somos o país que mais reduz a desigualdade, e a América Latina é a região mais desigual do mundo. Somos uma das três economias que mais crescem. Somos a economia com menor taxa de desemprego, 4,1%. Mas, apesar de todos esses sucessos, não conseguiremos, nos próximos quatro anos, resolver todos os problemas. Ainda haverá pobreza, desemprego, desigualdade.

O importante é deixar o país posto, irreversivelmente, na trilha rumo à justiça social, ao desenvolvimento, na trilha desse conceito que propusemos ao mundo – o conceito do buen vivir bom viver. Para isso, como já disse, o básico é mudar as relações de poder: que o Equador seja governado pelo povo do Equador, não por banqueiros, não por empresas jornalísticas, não por países estrangeiros. Que, no Equador, o ser humano domine. Não o capital.

RT: Senhor presidente, tenho uma pergunta. Chegamos ao Equador há, mais ou menos, uma semana. Conversamos muito pelas ruas, com gente que o apoia. Mas também há quem diz que a pobreza caiu, se não me engano, em torno de 7%. Mas, hoje, há mais gente, que antes, que recebe a ‘bolsa pobreza’. Queria, por favor, que o senhor explicasse.

Rafael Correa: É o argumento que a imprensa inventou. É tão infantil. Quem diz que o Equador é o país que mais reduziu a pobreza não é o meu governo: é a ONU. Não são indicadores locais. São números da Comissão Econômica para a América Latina, CEPAL, da ONU. Para desmentir esses números, inventaram um argumento infantil.

Hoje transferimos dinheiro para os mais pobres, principalmente para mães que trabalham em casa, as mais pobres da população. Quando chegamos ao governo, eram 1.200.000; hoje, são cerca de 1.900.000. A imprensa olha esses números e conclui: a pobreza aumentou... Ninguém jamais considera que as estatísticas eram precárias, que a base era errada. Nós corrigimos a base. Incluímos cerca de 400 mil mães excluídas e retiramos da base 200 mil que não deviam estar lá. De fato, foram incluídos novos 200 mil que recebem o auxílio-pobreza. Nos depuramos, corrigimos a base. A imprensa ‘interpreta’ que há, hoje, mais pobres... Dia seguinte, não há estatísticas de tuberculosis. Construímos a pesquisa e a estatística. Descobre-se que há 20 casos de tuberculose. A imprensa ‘noticia’: “Aumentou a tuberculose”. Nada disso. Hoje já temos estatísticas. Mas... que absurdo! Antes, o auxílio-pobreza não era dado aos portadores de necessidades especiais. Agora, com as políticas de vanguarda que se desenvolvem no Equador, cerca de 150 mil deles já recebem essa transferência monetária, que é de 50 dólares. Antes, os idosos não recebiam o auxílio, nem tinham direito a aposentadoria. Dos 700 mil idosos sem aposentadoria que temos no Equador, 500 mil já recebem a transferência monetária.

Some tudo e terá os quase 2 milhões de auxílios que distribuímos. Para os gênios da mídia, significa que a pobreza aumentou. Merecem o Prêmio Nobel de Economia. Veja o nível de oposição e os jornais, jornalistas e redes comerciais de comunicação que temos de enfrentar aqui... A pobreza, aí sim, parece, sem remédio: pobreza intelectual e ética.

RT: O senhor disse também que é seu último mandato. Que se vai, depois desses quatro anos. Não imagino uma pessoa como o senhor, deixando serviço por terminar. Mas é impossível terminar todas essas mudanças em quatro anos.

Rafael Correa: Sim, mas também há outros que podem continuar construindo a patria nueva. Veja... fui imerecidamente feliz em todas as etapas da minha vida. Antes de ser presidente, estive, toda a vida, na Universidade. Era feliz dando aulas, de tênis, jeans, camiseta. E também fui muito feliz na presidência, cuidando de fazer o melhor possível pelo meu povo. Quando me aposentar, se Deus quiser, também serei feliz com minha família; Devo muito à minha família, cuja vida familiar foi muito gravemente perturbada, porque, eu na presidência, minhas filhas perderam privacidade, têm de andar com seguranças, recebem ameaças, ouvem campanhas horrendas de difamação, realmente repugnantes. Então, devo esse tempo à minha família.

E também, como a senhora já disse, minha presença é forte demais. Com certeza não perturbarei a existência de quem venha depois de mim, se continuar na política. É o que menos desejo.

Temos sido muito cuidadosos na preparação de quadros, que venham os novos quadros. Depois desses quatro anos, penso retirar-me, não só da presidência, mas também da vida pública.

RT: O senhor mencionou sua família. Dizem que leva seu filho à escola.

Rafael Correa: Sim. Hoje cedo, deixei os dois na escola.

RT: Hoje, um dia depois da reeleição? E como encontra tempo para...

Rafael Correa: Sou rápido. Retomar a vida normal, na medida do possível. Porque, não se engane, tudo isso altera a vida. Minha família não mora aqui no Palácio. Continuamos na mesma casa de classe média, ao norte de Quito. Mas foi preciso instalar segurança, sistemas de vigilância... Tudo isso atrapalha. Minha esposa, minhas filhas, têm de ter um séquito de agentes de segurança. Há quem goste, mas, para mim, essa é uma das partes mais difíceis da presidência: ter de viver cercado de seguranças, a sensação de perigo sempre iminente, nenhuma privacidade. Além dos que vivem para justificar o próprio ódio: “Correa, odeio você.” E põe-se a inventar ataques, até que ... “Ah, já entendi porque odeio você: porque você fez tal coisa...” Têm sempre de provar algum mal, para justificar o ódio. Nada é mais terrível que isso!

RT: Muito obrigada, presidente, pela entrevista e pela atenção. E, mais uma vez, desejo-lhe felicidades.