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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Meninos no lixo



Publicado em 06/11/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - O Jornal do Commercio, do Recife, nos últimos dias arrancou do sono o jornalismo impresso do Brasil. Quem lê a reportagem No Recife, infância perdida na lama e no lixo não sabe o que mais se destaca, se o texto de Wagner Sarmento e Marina Borges, ou se as fotos de Diego Nigro. As imagens de fotógrafo a esta altura correm o mundo, que se espanta pela composição da cena: uma cabeça de menino mergulhado no lixo e na lama de tal forma, que se torna ele próprio lixo também.

Escreveram os repórteres:

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina....

O trio de crianças se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes.


O escândalo, o falso espanto que causa a reportagem, é na verdade a descoberta desta coisa comum, a miséria de meninos que sobrevivem entre o descaso e a morte. Isso é tão onipresente que não vemos.

A transformação da pessoa – perdão, do menino, que há quem julgue não ser uma pessoa -, a mudança de alguém em coisa, e o pior tipo de coisa, a sem valor, descartável, é tão secular que virou natural, como se fossem restos de plástico ao lado dos quais nós passamos imersos em nossas vidas, que achamos ser a mais digna da paisagem. A vida, este bem nosso a que outros não têm o direito.

Por que deitar os nossos olhos sobre o que não é gente?

Sobre os meninos do Recife eu já havia notado que as ruas, as avenidas onde eles dormem, jazem, têm nomes poéticos, belos: da Aurora, do Sol, da Boa Vista. Mas essa poesia não lhes cola na pele, ou melhor, neles se cola uma poesia invisível, até porque ninguém mesmo os vê. Eles são à semelhança de ratos pela madrugada, porque com ratos se confundem ao sair das cavernas e cloacas da cidade no escuro da noite. Então eles ficam todos negros, na pele ou na camuflagem dos animais que correm pelo asfalto da avenida.


Quando em grupos, aos bandos, ainda assim ninguém os vê. Ou melhor, às vezes, sim, quando rondam como símios as bolsas e os relógios dos adultos.

Veem-se sem serem vistos, assim como vemos e evitamos no solo um buraco, um obstáculo ou grandes montes de merda. As pessoas fazem a volta e tratam de assuntos mais sérios. Todos estamos já acostumados àqueles figurantes, no cenário.

Os meninos nas ruas são personagens que nem falam, porque estão sempre em porre de sonho, delirantes, com a voz trôpega, plenos do sonho que a cola dá. De repente, alguns deles, os mais sóbrios, os que podem, saltam para a traseira de um ônibus. Então os meninos se transformam em morcegos, à beira da morte nos testes que o motorista faz, ao frear e acelerar e a fazer voltas velozes com os ônibus, para ver se os morcegos se estendem no chão. Às vezes os motoristas conseguem.

Na foto do Jornal do Commercio, procura-se no canal do Arruda uma criança no meio do lixo espesso na água suja. Onde está Wally? Ninguém vê uma cabecinha negra perdida no lixo e podridão do rio. Ou do canal, que no Recife é um braço do rio.

Se o colunista fosse poeta, poderia compor um poema com o nome Os Meninos–Urubus. Ou meninos-ratos. Ou meninos-lixo, simplesmente. Meninos-lixo? Não. Lixo Tudo e Igual, pois uma bola escura à semelhança de cabeça flutua entre plásticos.

Para que tentar a poesia que escapa ao colunista? João Cabral de Melo Neto já expressou como ninguém o encontro de lama e rio, de resistência do homem que procurar sair do que o mata no Capibaribe.

Com as devidas adaptações, porque o menino da foto ainda não é o homem do poema de João Cabral, dele podemos dizer nesta livre interpretação de O Cão sem Plumas:

Aquele canal jamais se abre aos peixes,
ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores pobres e negras como negros.
Abre-se numa flora suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro.

No Canal do Arruda difícil é saber onde começa o canal
onde a lama começa do canal
onde a terra começa da lama;
onde o novo, onde a pele começa da lama;
onde começa o novo homem daquele menino.


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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Norma Bengell (1935 - 2013)


Norma Bengell (Paris, 1973)

Publicado em 13/10/2013 por [*] Rui Martins
Berna (Suiça) - Às vezes é importante desenterrar o passado, principalmente quando se pode dele tirar lições para o futuro. Nestes dias, tenho vivido revoltado e tenho mesmo perdido o sono com um intolerável retrocesso na política brasileira da emigração, digna dos tempos da ditadura.
Em síntese, vai se gastar dinheiro público e se promover num hotel caro perto de Salvador na Bahia, uma encenação chamada IVª Conferência Brasileiros no Mundo, sob o pretexto de se estabelecer uma interlocução entre o governo e os emigrantes, intermediada pelo Itamaraty. Como se os engravatados do Instituto Rio Branco tivessem algum gene que os identifique com os trabalhadores emigrantes, como se sair do Brasil num voo de primeira classe tivesse alguma coisa a ver com a viagem sofrida de um emigrante brasileiro.
Por que chamo de encenação esse circo que vai se montar em Salvador? Se não fosse só pela tutela dos diplomatas, que inclui inclusive o controle da agenda e a proibição de visitantes indesejáveis, proibidos de falar e de votar, a ignomínia está no fato de 85% dos chamados representantes dos emigrantes chamados à conferência terem sido "nomeados" pelos Consulados. Entre 60 desses convidados, menos de 10 foram escolhidos pela comunidade brasileira local.
Minha primeira palavra foi de "pelegos", as figuras que representavam os antigos governos nos sindicatos. Alguns acharam muito forte a palavra e me sugeriram "biônicos", como se designavam aqueles prefeitos e governadores nomeados pelos militares durante a ditadura. De qualquer forma, pelegos ou biônicos, todos esses convidados são ilegítimos.
Mas o que a atriz Norma Bengell, falecida há pouco, tem a ver com essa história?
Pouca coisa talvez, mesmo se nos anos 72 e 73 foi atriz emigrante na França, tendo mesmo trabalhado na televisão francesa, ex-ORTF. Mas o episódio lembra o comprometimento de diplomatas do Itamaraty com a ditadura, capítulo que esperamos seja devidamente apurado pela Comissão da Verdade.
E podem nos ajudar a entender como e por que, em pleno governo voltado para os segmentos até então marginalizados da população, o ex-ministro Patriota conseguiu substituir um texto preparado durante a administração Lula, que não era perfeito, por outro não apenas imperfeito, mas reacionário e que faz a política brasileira da emigração parecer ter sido elaborada por gente ainda saudosa da época em que a elite brasileira dividia a população em pessoas capazes e, lá embaixo, os pobres dos infelizes juridicamente incapazes.
Porque a tutela dos emigrantes pelos diplomatas rima com censura.
E fica ainda mais indecente quando são eles que escolhem os representantes dos emigrantes, desvirtuando até os Conselhos de Cidadania, cujos membros são convidados por eles e não eleitos pelos emigrantes. E os poucos conselhos eleitos, 7 ou 8, não são dirigidos pelos emigrantes mas pelos cônsules ou vice-cônsules.
E agora vamos à Norma Bengell.
Assim que Norma chegou a Paris, com intenções de ficar, consegui fazer uma reportagem comprada pela antiga revista Manchete - uma entrevista com a atriz, gravada numa praça perto do Boulevard St. Michel, com vista para a Notre Dame.
Naquela época, a Manchete era dirigida em Paris por Sílvio Silveira (um dos primeiros emigrantes brasileiros na França, na época fazia parte de um grupo musical), que reunia também as funções de contador e de vendedor de publicidade dessa revista da família Bloch.
Entregues as laudas datilografadas com a entrevista, fiquei surpreso ao constatar que não tinham sido colocadas no malote cortesia da Varig para chegar rapidamente à Redação, no Rio de Janeiro, naquela época chefiada pelo Justino Martins.
E perguntei ao Sílvio, preocupado em receber logo meu frila: por que a entrevista não seguiu no malote?
E ele muito calmamente me explicou ser praxe naquela casa, quando se tratasse de questões mais delicadas, se levar ao embaixador em Paris, que poderia fazer os cortes necessários antes de ser enviada ao Rio. “Eu não nasci ontem, aqui não quero confusão!”, disse Silvio com um sorriso debochado.
Por que estou irritado? Porque tudo que se deixar discutir em Salvador terá de passar pelo crivo do Itamaraty, como minha entrevista com Norma Bengell.
A diferença é que não vivemos mais na época da Operação Condor, da denúncia vinda de Santiago que levou à morte o deputado Rubens Paiva e do apoio logístico dado à ditadura uruguaia contra os Tupamaros.
Minha luta pela emancipação política dos emigrantes tem também no seu bojo esse gosto amargo dos anos de chumbo. 


[*] Rui Martins é natural de Santos, SP e atualmente reside em Berna, Suiça. É jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão; exilado durante a ditadura, é líder emigrante, membro eleito do Conselho Provisório e do atual Conselho de emigrantes (CRBE) junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes. Escreveu o livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças secretas de Maluf. Colabora com o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

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domingo, 6 de outubro de 2013

Um rendimento base para todos


Publicado em 01/10/2013 por [*] Rui Martins

Berna (Suiça) - Pelo menos dois livros já foram publicados na França sobre essa utópica mas revolucionária ideia – a de se garantir a todo cidadão, ao chegar na maioridade, um rendimento (como se fosse um salário), suficiente para viver durante toda vida.

Este ano, essa ideia com mais de cinco séculos, pois o inglês Thomas Morus defendia esse projeto no livro Utopia, se transformou num projeto realista e, será provavelmente submetido à votação popular na Suíça.

Para provocar uma votação popular nacional, na democracia direta suíça, são necessárias 100 mil assinaturas, já foram reunidas 70 mil e ainda existem alguns meses pela frente para angariar novas assinaturas.

A ideia surgiu na Suíça de língua alemã, de um coletivo de visionários formado por artistas, intelectuais e mesmo alguns políticos. E logo teve o apoio de suíços de língua francesa, reunidos na associação Bien-Suisse, fundada em 2001, cuja sigla significa Basic Income Earth Network. O projeto propõe a criação de um rendimento básico de 2.500,00 francos suíços, cerca de 6.000,00 reais, pagos mensalmente mesmo se a pessoa está desempregada.

Sem margem de erro, pode-se imaginar que esse projeto será rejeitado pela grande maioria do povo suíço, porém um importante passo será dado em direção ao futuro, quando as sociedades humanas mais avançadas e mais solidárias não aceitarão a existência de pobres sem condições de vida digna. E é mesmo provável que logo surja um partido político colocando o rendimento básico universal como o principal objetivo do seu programa.

Angela Merkel
Pode parecer absurda e fora de contexto tal iniciativa justamente quanto, na União Europeia, se aplica uma política econômica totalmente inversa. Para fazer face à dívida pública e a uma situação de quase insolvência, alguns países, a Grécia, Portugal e Espanha, estão sendo submetidos a uma austeridade, ditada principalmente pela chanceler alemã Angela Merkel, que consiste em se diminuir salários e aposentadorias.

Ora, é evidente que com salários e pensões reduzidos os gregos, espanhóis e portugueses consomem muito menos. Como na teoria do dominó, a retração do consumo repercute nas indústrias fabricantes de bens, que não conseguem escoar como antes seus produtos e o movimento diário dos supermercados é a constatação dessa nova situação, provocadora de sintomas de recessão. A impressão é a de que o remédio é muito forte e vai matar os doentes.

Ao contrário, se as pessoas têm dinheiro para consumir, isso agiliza o consumo e disso decorre o escoamento rápido dos bens produzidos pelas fábricas, provocando o crescimento econômico do país.

Antes mesmo de alguns visionários suíços e economistas franceses terem lançado a praticabilidade de um rendimento básico para todos, o Brasil tinha sido, sem o alarde esperado, o pioneiro.

Na verdade, o Bolsa Família, Cesta Básica e o Bolsa Escola, e outros tipos de ajuda do governo brasileiro aos menos favorecidos já constituem a aplicação prática da Utopia de Thomas Morus. Para que não haja descontentes na avaliação dessa medida revolucionária, lembramos que foi FHC quem lançou e Lula quem ampliou essa concessão de um rendimento básico, ainda mínimo, para a parcela mais carente da população.

Thomas Morus
E os resultados foram extremamente positivos – com um mínimo disponível para viver, a população beneficiada com essa medida começou a consumir, acionou supermercados e fábricas e o Brasil deslanchou, enquanto a União Europeia fazendo o inverso entrou numa fase de estagnação e de desemprego, da qual não sabe ainda como vai sair, pois já não há, como no passado, as guerras continentais que dizimavam a população e destruíam cidades, impedindo o desemprego e a recessão.

A solução pacífica para o desemprego e contra a recessão não seria o rendimento básico para todos os cidadãos? Ao contrário do aumento da idade da aposentadoria, como querem os neoliberais, isso criaria igualmente condições para se diminuir as horas de trabalho, como se falava nos anos 60, quando as pessoas sonhavam com a nova sociedade do lazer, torpedeada pela ganância neoliberal.

Haveria condições para o Estado garantir tal iniciativa? Imagina-se que sim, pois todos os rendimentos estariam sujeitos aos impostos normais e o funcionamento do consumo e a boa saúde das indústrias garantiriam a contribuição dos outros impostos necessários ao funcionamento do Estado.

Chegamos a um fim de linha – a coletivização não deu certo e o neoliberalismo com sua gula de lucros utiliza a automatização para dispensar empregados em lugar contribuir para a sociedade do lazer. A insistência no atual modelo econômico levará a choque e revoltas.

Tudo indica ter chegado a hora de se buscar novos comportamentos econômicos e novas soluções sociais, criadores de solidariedade social evitando desigualdades e o mergulho na miséria de uma parcela da população. Um rendimento básico para todos será também a garantia de educação, escolas e formação profissional para a juventude.

O mundo futuro não poderá continuar tendo esses bolsões de miséria e pobreza. A concessão de um rendimento básico para todos não impedirá que muitos tenham salários superiores, dependendo da criatividade de cada um. E nem criará aproveitadores e vagabundos.

É hora de se começar a curtir e imaginar a concretização dessa utopia.
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[*] Rui Martins – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, membro eleito do Conselho Provisório e do atual Conselho de emigrantes (CRBE) junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreveu o livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças secretas de Maluf. Colabora com o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

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sábado, 5 de outubro de 2013

A paz que o mundo anseia


Hassan Rouhani, presidente do Irã

Publicado em 01/10/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O Presidente do Irã, Hasan Rohani (foto) tem sido a principal figura da política internacional nesta última semana, seguido da Presidenta Dilma Rousseff com a proposta apresentada no plenário das Nações Unidas de fazer frente à espionagem dos Estados Unidos. O Presidente Barack Obama conversou por telefone com Rouhani, o que não acontecia com dirigentes dos dois países desde a revolução de 1979 que derrubou o Xá Pahlevi.

A conduta dos representantes de Israel na ONU, retirando-se quando do pronunciamento de Rohani, confirma que o governo de Benjamin Netanyahu é realmente adepto de ações bélicas na região, como quer também o complexo industrial militar estadunidense. Prefere optar por um bombardeio contra as usinas nucleares iranianas do que pelo menos tentar um acordo com o país que desenvolve programa nuclear que o governo garante ser para fins pacíficos. Netanyahu e o complexo industrial militar norte-americano andam de braços dados e não querem nem ouvir falar em acordo que reduza o estado de tensão na região.

O novo Presidente do Irã apresentou uma proposta concreta, o da desnuclearização no Oriente Médio. Muito positiva a sugestão, que Israel deveria ser obrigado também a seguir, já que tem estocadas armas nucleares, mas prefere o silêncio sobre a matéria.

Mordecai Vannunu
Nesse sentido, uma figura importante já revelou ao mundo, nos anos 80, que Israel possui bombas atômicas. Mordecai Vanunu pagou caro pela revelação, tendo ficado 18 anos preso e 11 em cárcere isolado. Isso depois de ter sido sequestrado em Londres pelo serviço secreto de Israel, o Mossad.

Mesmo tendo cumprido a pena, Vanunu segue monitorado pelo serviço secreto e impedido de deixar o país. Foi convidado para vir ao Brasil receber o prêmio internacional de direitos humanos, instituído pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa, mas o pedido às autoridades israelenses para que fosse permitida a viagem sequer foi respondido. Claro, o silêncio é concretamente uma negativa. Vanunu deve ser sempre lembrado, sobretudo no momento em que o tema armas nucleares está na ordem do dia no Oriente Médio e o mundo olha com otimismo uma possível luz no fim do túnel das trevas em que está mergulhada a região.

Quando se aborda o tema Irã, não se pode deixar de analisar o que acontece na Síria, que para muitos analistas é uma questão chave para se entender todo o contexto do Oriente Médio. Há uma luta fratricida estimulada pelos Estados Unidos e países do Golfo que não primam pelo respeito aos direitos humanos, muito pelo contrário. Lá estão também a Arábia Saudita e Qatar, duas monarquias autoritárias que armam e subvencionam os chamados rebeldes sírios, do qual fazem parte grupos vinculados ao grupo terrorista al Qaeda. De quebra, aproveitando o embalo, o governo turco procura ganhar terreno com a guerra civil síria e se cacifar para exercer forte protagonismo na área. E Israel está também presente.

Nesse quadro em que a ONU diz terem sido mortos mais de 100 mil sírios desde o início das hostilidades, um ataque de armas químicas, que os Estados Unidos responsabilizam o governo de Bachar al Assad e a Rússia a oposição bancada pelo Ocidente e monarquias, matou mais de 1.200 pessoas.

A questão das armas químicas merece também algumas observações que não estão sendo levadas em conta. Que empresas fabricam armas químicas? A empresa dos alimentos genéricos, do agente laranja, do napalm, que tantas vítimas provocou no Vietnã e com reflexos nefastos até hoje, para não falar da participação no projeto Manhattan que produziu a bomba atômica, a Monsanto é uma delas.

Outra pergunta que não quer calar: além da Síria, quais os países que têm estocadas armas químicas? Algum organismo internacional já inspecionou Israel e o próprio Estados Unidos?
Se existem armas químicas e países a estocam, significa também que empesas integrantes do complexo industrial militar lucram com isso. Mas esse ângulo da questão tem sido pouco abordado. Ainda está em tempo, portanto, de se colocar o boca no trombone.

O que importa agora é neutralizar o poder da indústria da morte, portanto, pressionar governos no sentido de alcançar uma paz duradoura em que, em vez de se gastar em armamentos, se combata a fome e se direcione os gastos para o bem estar da população mundial. E para alcançar esse objetivo é necessário que a comunidade internacional não assista impassível a ação militarista de governos como o de Israel e das monarquias dos países do Golfo, como a Arábia Saudita e Qatar, não ficando de fora também o dos Estados Unidos.
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

De espionagem e arapongas


Publicado em 24/09/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

Glenn Greenwald
A recente espionagem feita pelos serviços de inteligência estadunidense no Brasil e na América Latina, reveladas graças, entre outros, a figuras como Edward Snowden, Julian Assange e Glenn Greenwald, não chegam a se constituir em fato novo propriamente dito. O que mudou apenas foi a tecnologia utilizada. Em décadas anteriores, arapongas da CIA e maus brasileiros que ajudavam no serviço faziam o jogo.

Muitos dos apoiadores de então, ou já estão ardendo no inferno ou, impunes, aproveitando a aposentadoria pelos serviços prestados como mercenários. Um ou outro segue até ocupando espaços midiáticos com a mesma linguagem de ódio da época da Guerra Fria, Tem alguns residindo próximo da área onde se localiza a sede da CIA, em Richmond, na Virgínia.

Na história contemporânea são vários os países que sofreram com a ação da CIA, entre os quais o Irã, em 1953, com a derrubada do nacionalista Mohammed Mossadegh, que ficou em prisão domiciliar para o resto da vida. O líder iraniano é lembrado em livros de história e com a revelação dos documentos da época confirmou-se a intervenção da CIA, do serviço secreto inglês e israelense no golpe de estado.

Edward Snowden
Uma figura importante daquela época, embora não tão conhecida como Mossadegh é a do então Ministro dos Negócios Estrangeiros daquele governo, o jornalista Hossein Fatimi, um dos idealizadores do projeto de nacionalização do petróleo iraniano. Ele foi fuzilado por ordem do preposto dos EUA, o Xá Rheza Parlevi, que ainda chegou a manter relações amistosas com alguns ditadores brasileiros, como Castelo Branco, Costa e Silva e Médici que hoje, já se sabe oficialmente com os arquivos revelados, tomaram o poder com a ajuda da CIA.

O Brasil não esteve de fora das artimanhas da CIA, presentes em 1954 com seus arapongas e mercenários que levaram Getúlio Vargas ao suicídio. Hoje se sabe também que depois da negativa de Vargas em mandar tropas brasileiras para lutar na Coreia em ajuda aos EUA, somado à criação da Petrobras, os quinta-colunas destas bandas intensificaram ações de desestabilização do governo eleito pelo povo.

Julian Assange
O golpe de abril de 1964, que provocou a ruptura constitucional e lançou o Brasil em uma longa noite escura, só foi possível acontecer com o respaldo logístico e financeiro da CIA. Quase 50 anos depois, as informações sobre esse período nefasto são maiores do que as de 1954. É possível até que os pesquisadores não se debruçaram tanto para certificar muitas ocorrências até hoje não totalmente esclarecidas.

Nem tudo, entretanto, ainda foi revelado. Recentemente, por exemplo, o jornalista Continentino Porto, autor do livro JK segundo a CIA e SNI, teve mais acesso a documentos da CIA que comprovam a participação de um agente secreto a serviço dos EUA acompanhando em um hospital militar o então Ministro da Guerra (na época tinha essa denominação), Jair Dantas Ribeiro, que se afastara do cargo dias antes do golpe de 64 por motivo de saúde. O araponga da CIA produzia relatórios diários, que provavelmente eram repassados para os golpistas militares e civis brasileiros.

Tais fatos, que fazem parte da memória deste país continente, devem ser sempre lembrados, porque se alguém imagina que a CIA e outros serviços de inteligência deixaram o Brasil sossegado, enganam-se redondamente. Quanto mais o país ganha importância no cenário internacional, o que aconteceu, sobretudo, nos últimos 10 anos, maior a ação dos serviços secretos estrangeiros por estas bandas.


Nesse sentido, os brasileiros devem ficar atentos para não caírem em armadilhas sofisticadas gestadas por grupos que historicamente sempre estiveram vinculados aos interesses de potências como Estados Unidos.

Antes do golpe que derrubou o Presidente constitucional João Goulart, a CIA encheu com muitos milhões de dólares as comportas de institutos como o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e o IPES (Instituto de Pesquisas Econômicas e Socais). O objetivo do IBAD era formar uma bancada que defendesse os interesses norte-americanos e consequentemente divulgar a catilinária anticomunista da época da Guerra Fria. O IPES, capitaneado pelo então coronel Golbery do Couto e Silva, procurava também fazer cabeças preparando-as para o apoio incondicional ao golpe de 64.

Aaron Swartz
Tais fatos não chegam a ser uma grande novidade, porque depois de tantos anos decorridos, o que muitos já sabiam, através de indícios ou pesquisas de campo, os arquivos públicos informativos a respeito deixam claros.

Nos dias de hoje, o grande mérito dos personagens mencionados no início desta reflexão é que eles revelaram (e devem continuar revelando mais fatos) antecipadamente muitas informações que se tornariam públicas, se é que se tornariam, daqui a 30, 40 ou 50 anos.

Por estas e muitas outras pode ser explicado o ódio do establishment estadunidense a figuras como Snowden, Assange, Manning e Swartz,. que na sexta-feira (20) foram homenageados com o Prêmio Internacional de Direitos Humanos instituído pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
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[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

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