Mostrando postagens com marcador Recife. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Recife. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Meninos no lixo



Publicado em 06/11/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - O Jornal do Commercio, do Recife, nos últimos dias arrancou do sono o jornalismo impresso do Brasil. Quem lê a reportagem “No Recife, infância perdida na lama e no lixo” não sabe o que mais se destaca, se o texto de Wagner Sarmento e Marina Borges, ou se as fotos de Diego Nigro. As imagens de fotógrafo a esta altura correm o mundo, que se espanta pela composição da cena: uma cabeça de menino mergulhado no lixo e na lama de tal forma, que se torna ele próprio lixo também.

Escreveram os repórteres:

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina....

O trio de crianças se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes.


O escândalo, o falso espanto que causa a reportagem, é na verdade a descoberta desta coisa comum, a miséria de meninos que sobrevivem entre o descaso e a morte. Isso é tão onipresente que não vemos.

A transformação da pessoa – perdão, do menino, que há quem julgue não ser uma pessoa -, a mudança de alguém em coisa, e o pior tipo de coisa, a sem valor, descartável, é tão secular que virou natural, como se fossem restos de plástico ao lado dos quais nós passamos imersos em nossas vidas, que achamos ser a mais digna da paisagem. A vida, este bem nosso a que outros não têm o direito.

Por que deitar os nossos olhos sobre o que não é gente?

Sobre os meninos do Recife eu já havia notado que as ruas, as avenidas onde eles dormem, jazem, têm nomes poéticos, belos: da Aurora, do Sol, da Boa Vista. Mas essa poesia não lhes cola na pele, ou melhor, neles se cola uma poesia invisível, até porque ninguém mesmo os vê. Eles são à semelhança de ratos pela madrugada, porque com ratos se confundem ao sair das cavernas e cloacas da cidade no escuro da noite. Então eles ficam todos negros, na pele ou na camuflagem dos animais que correm pelo asfalto da avenida.


Quando em grupos, aos bandos, ainda assim ninguém os vê. Ou melhor, às vezes, sim, quando rondam como símios as bolsas e os relógios dos adultos.

Veem-se sem serem vistos, assim como vemos e evitamos no solo um buraco, um obstáculo ou grandes montes de merda. As pessoas fazem a volta e tratam de assuntos mais sérios. Todos estamos já acostumados àqueles figurantes, no cenário.

Os meninos nas ruas são personagens que nem falam, porque estão sempre em porre de sonho, delirantes, com a voz trôpega, plenos do sonho que a cola dá. De repente, alguns deles, os mais sóbrios, os que podem, saltam para a traseira de um ônibus. Então os meninos se transformam em morcegos, à beira da morte nos testes que o motorista faz, ao frear e acelerar e a fazer voltas velozes com os ônibus, para ver se os morcegos se estendem no chão. Às vezes os motoristas conseguem.

Na foto do Jornal do Commercio, procura-se no canal do Arruda uma criança no meio do lixo espesso na água suja. Onde está Wally? Ninguém vê uma cabecinha negra perdida no lixo e podridão do rio. Ou do canal, que no Recife é um braço do rio.

Se o colunista fosse poeta, poderia compor um poema com o nome Os Meninos–Urubus. Ou meninos-ratos. Ou meninos-lixo, simplesmente. Meninos-lixo? Não. Lixo Tudo e Igual, pois uma bola escura à semelhança de cabeça flutua entre plásticos.

Para que tentar a poesia que escapa ao colunista? João Cabral de Melo Neto já expressou como ninguém o encontro de lama e rio, de resistência do homem que procurar sair do que o mata no Capibaribe.

Com as devidas adaptações, porque o menino da foto ainda não é o homem do poema de João Cabral, dele podemos dizer nesta livre interpretação de O Cão sem Plumas:

Aquele canal jamais se abre aos peixes,
ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores pobres e negras como negros.
Abre-se numa flora suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro.

No Canal do Arruda difícil é saber onde começa o canal
onde a lama começa do canal
onde a terra começa da lama;
onde o novo, onde a pele começa da lama;
onde começa o novo homem daquele menino.


____________________________________________________

Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


Enviado por Direto da Redação

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Eldorado para todos



Publicado em 06/06/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - As imobiliárias, as construtoras, são irônicas e bárbaras em um só movimento quando põem nomes nas suas armadilhas, mais conhecidas pela alcunhas de Residenciais e Edifícios. Não têm escrúpulos nem limites. Vão de Leonardo da Vinci, de Praia do Sol, de Costa Azul a Paraíso Tropical. Ou de Morada dos Deuses, de Céu de Anil a Recanto das Acácias, e a tudo o quanto o cérebro do lucro inventar.

Existe toda uma poética de logro e embuste, de roubo e furto, para enganar incautos e necessitados. Que chegam, que caem, sempre caem, pois a carência de um lar, de uma casa, é um desejo que resiste a todas as ilusões.

O recente caso do Conjunto Residencial Eldorado, de 14 prédios juntos no Recife, é ilustrativo dos edifícios de nomes belos que se revelam trágicos. A começar por sua localização. A partir do bairro onde precário se plantou houve uma primeira vitória da imobiliária e corretores, que levaram bem na lábia os compradores das arapucas.

O Eldorado foi construído, mal e porcamente construído, como se viu depois, em um subúrbio mais conhecido por Água Fria, mas as notícias e moradores mais bem nascidos (pois sempre há nobres nos que se envergonham da pobreza) teimam em chamar de Arruda, como se houvesse um salto de qualidade, quem sabe de renascimento, do Arruda para Água Fria.

E para quê tanta distinção, se o destino de todos nós é comum, amigos?

As primeiras notícias anunciaram que a fachada do prédio, de um só em todo o Eldorado das 14 construções de ouro, havia cedido e os moradores correram às pressas para a rua. A desgraça veio com um estrondo, que gritou para exibir rachaduras profundas no paraíso. Então o que era perpendicular, ou quase firme e perpendicular à terra, ficou penso, oblíquo.

O que fazer?

Os técnicos da Defesa Civil, que atuam como enfermeiros da doença avançada, avaliaram o dano e concluíram, “sem dúvida, vai cair”. E tomaram a justa medida de providenciar caminhões de mudanças para os que possuíam alguma família de abrigo um pouco mais sólido.   

Depois, o que começou em um bloco de estrondo se alastrou por todo o Residencial Eldorado. Então a Prefeitura do Recife decidiu pela retirada dos moradores de todos os blocos dourados de Água Fria, ou do Arruda, na Rua da Regeneração (o nome é esse mesmo), por conta do risco de desabamento de todos os prédios.

Daria uma comédia se o assunto não fosse trágico.

Os administradores públicos atuam como bombeiros sem mangueira, dotados apenas da boa vontade em conjunturas e sociedades em fogo. Jogam água em um incêndio aqui, ele rebenta em outro. A população pede providências. O prefeito vai à comunidade, sorri, conversa, anota, dá ordens e sai declarando que o governo está ao lado dos sem teto, enquanto a ganância do capital se alastra e prospera. Mas o governo está a seu lado.

Então vem o mais comovente. Os ex-donos de apartamentos comprados em sacrificadas economias, que decoraram suas paredes com quadros, cores e pensavam ali estar em morada que atravessasse os tempos como herança para os filhos e netos, e que, por outro lado, julgavam-se diferentes dos que nada têm lá nas favelas, então vem o mais deprimente, para usar a palavra mais precisa.

Os ex-donos fazem protestos com apitos e cartazes cuja maior reivindicação é um auxílio-aluguel. Ou auxílio-moradia. Pois estão sem nada, mas ainda têm direitos, pelo menos o da miséria de uma ajuda municipal.
 
E a construtora, a criminosa?

Dizem que ela faliu, deixando como legado a falência para os que ansiavam morar nos apartamentos do Eldorado.

No final, houve à sua maneira o que descobri no romance O filho renegado de Deus:  

Ali, a casa possuía um valor de vida, sonho e morte....

É de se notar que havia uma profunda e indecifrável ironia nos nomes que em tudo cercavam aquela gente.

A fieira, ou enfileirado correr de quartos, era chamada de Vila Alegria. A estreita faixa onde passavam pessoas em fila, o beco, era Rua do Éden, que de um lado saía para a Rua Esperança....

No entanto, esse aluvião irônico, tamanha era a sua riqueza e impacto, não era então percebido. Talvez como um choque, uma descarga de altíssima voltagem, que abalasse e ferisse tão rápido e forte, que deixava a impressão de destruir sem dor a vida.

Assim, mesmo que corra o risco de não ser maturado, digerido no espírito de quem lê estas linhas, acrescento que havia em torno da Vila Alegria uma Vila Felicidade, uma Rua Alegre, mais a Rua das Moças, e uma Rua dos Sete Pecados, que não distava da Rua da Regeneração.
_______________

Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).

Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Carnaval em três dias


 

Publicado em 16/02/2012
 por Urariano Motta

Recife (PE) - No primeiro deles, era domingo de carnaval 1958 em Água Fria. Ali, em frente ao Cinema Império, no largo do bairro, passavam mulheres, meninos, homens, piratas, colombinas, vedetes, palhaços, toureiros, zorros, ursos, lança-perfumes, bisnagas, perfumes, promessas de corpos nus que não podíamos pegar. 

Havia um suor bom onde se colavam os confetes, umas peles abrasadas, uns sovacos mal raspados que eram em si mesmos fetiches do sexo feminino, esbarrando-se num fogo que desejava a tudo queimar, ardendo até a alma pobre da gente.

Era uma explosão de braços e pernas no frevo, uma multidão revolta, uma humanidade negra, mulata, branca, revoltada, que se anunciava, e não sabíamos: atenção, menino, atenção, infância: “nós passaremos”.

Acaso sabíamos que nem sombra de sêmen e amor restaria no corpo imperioso, flamante daquela mulher endemoninhada? Que suas coxas não seriam eternas, sabíamos?

Ah, mas pressentíamos e, sem ciência aprendida, somente com o saber da urgência do nosso sangue, com a percepção transmitida de gente a gente, que corria a multidão, que vem de gerações desde que o homem se fez na terra, gritávamos:

“Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-Fum,
Dos carnavais saudosos?

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Morais:
‘Adeus, adeus, ó minha gente,
que já cantamos bastante..’
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia....” 

Então vinham os acordes, letais. Que em letras de fogo deveriam estar gravados.

Ouçam:


No segundo dia, é segunda-feira de carnaval em 2005. Eu me recupero de uma cirurgia, que se não foi ruim, fora rim sem dúvida. 

Sentado espiono os blocos que passam na rua. 

O som dos metais, o chamamento à desordem é uma ordem lá fora. As fantasias e os mascarados passam como os navios e os trens passam, como o gozo proibido e negado passa. A música do frevo estoura em todo o ar e paisagem como uma perseguição. 

Assim sentado sinto-me como o personagem de Hitchcock, o fotógrafo Jeff, de Janela Indiscreta.

A vida é irônica.

No fim de 2004, eu havia dito à mulher e aos filhos, como todos os anos repito e reclamo: “O próximo carnaval eu não brinco. Chega! Quero distância desse barulho”; e a trincar os dentes acrescentara, como todos os anos: “eu não suporto mais tamanha agitação. Chega!”.

Deus me ouviu. À sua maneira me ouviu: aqui estou, longe da folia, conforme o desejo inicial, mas sob estrita recomendação médica, incapaz absoluto de pular, de saltar, tão frágil quanto o homem de vidro, aquele em que se transformou O licenciado Vidraça, de Cervantes. “Este ano eu não brinco”, dissera, e os deuses me ouviram.

Então ouço uma canção na rua, “neste carnaval, quá-quá-quá-quá, meu prazer é gargalhar”.  

Ouvia isso e o paradoxo vinha: agora que não podia sair, brincar, pular, beber, beber até cair, agora que estava na paz do recolhimento, agora que ganhava o privilégio de ser evitado pelos alegres foliões, justamente agora sentia uma falta extraordinária de carnaval. 

No momento em que podia ficar em casa a ler e a ouvir música suave, ah, como desejava “Olinda, quero cantar”, como me acendia o desejo de estar na multidão, com os metais a gritar o mais alto frevo, ah, como desejava receber cotoveladas e empurrões à altura do rim, da cicatriz no ventre!

Ah, como e quanto desejava mergulhar de cabeça no álcool, na cachaça, no sol quente, no azul luminoso, mergulhar até virar éter, lança-perfume, porque forte era a consciência do quanto breve e estúpida era, é a nossa existência.

Agora, hoje, no terceiro dia são vésperas do carnaval de 2012. A casa se enche de máscaras, coroas de pano de rei, coroa de latão de rainha. E mais licor de jenipapo, de caju e de laranja-cravo. Um filho chega do Rio, louco e ansioso por Olinda, a filha vai para um bloco de jovens na Cidade Alta.

À minha revelia, a senhora esposa é toda preparação para os urgentes, alegres e felizes três próximos dias.

Por mim, não, eu não brincava, sem dúvida. Por mim, eu me recolhia para altos estudos, leituras, silêncio e meditações. Mas como vou decepcioná-los? É coisa muito feia atrapalhar a felicidade dos outros. E depois, não sou mais, como antes, um convalescente sem câmera a imitar o fotógrafo de Janela Indiscreta.

Chega.

Por enquanto, a fantasia é outra.

*Urariano Motta é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Lula chora no Recife

Urariano Mota

Na última terça-feira deste ano, o Recife viveu momentos raros de encantamento. No marco zero da cidade, uma emocionada multidão parou enfeitiçada como se fosse  uma só pessoa. Ali, o Presidente Lula, de camisa azul e sem cerimônia, despediu-se da presidência para os pernambucanos. 

Antes de tentar descrever o feitiço, se é que feitiços podem ser descritos, é bom notar o   que a imprensa falou desse momento no marco zero do Recife. Para a televisão, Rede Globo à frente, Lula chorou, chorou e chorou por 3 vezes na noite de 28 de dezembro. Ou mais precisamente isto, no Bom Dia Brasil: “O presidente Lula voltou a chorar em mais uma despedida pública, desta vez em Pernambuco...”. Chorão, chorão à toa, insinuou-se dizer. Nos jornais situados abaixo ou acima do Nordeste, as notícias destacaram o mais relevante, a saber, que o presidente chorou, chorou 3 vezes em seu adeus.  O que dá margem nos sites  para comentários do gênero, “chora porque vai ficar sem o poder”. E outras coisas mais ou menos chulas.

Na imprensa pernambucana, sob os ventos fortes do governo do estado que apoia Lula, os artigos e reportagens estiveram mais próximos, mais fieis, ao acontecido na última terça-feira. Apesar da tônica no choro. Como no Diário de Pernambuco:

Na despedida, lágrimas

Presidente Lula
No último discurso em Pernambuco antes de deixar a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chorou por três vezes e soluçou numa delas. “Se eu falhasse, quem falharia era a classe trabalhadora, os pobres que iriam provar que não teriam competência para governar”, disse Lula em festa promovida no Centro do Recife, enquanto enxugava as lágrimas e justificava a cobrança que se impôs após vencer a eleição de 2002. O momento de maior emoção de Lula se deu ao lembrar do seguinte episódio narrado por ele: “Eu lembro que um dia, aqui, uma mulher falou que não ia votar em mim porque eu ia tirar tudo dela. O que eu ia tirar dessa mulher? Eu falei: - Marisa, estou assustado, que eu fui num barraco e uma pessoa que não tinha nada, tinha medo de mim. Marisa (a primeira-dama) me dizia: - Não desiste que um dia você vai convencer - e isso aconteceu em 2002”.
Em seguida, ouvia-se pelo microfone Lula contendo o choro. Na plateia, dezenas de ouvintes o copiavam. A fala de Lula durou 33 minutos. Cerca de oitenta mil pessoas estavam no Marco Zero, segundo o coronel Eden Vespaziano, da Polícia Militar; 300 policiais participaram do esquema de segurança. Ao escutar a rima do jovem poeta Antônio Marinho, um pouco antes, Lula já havia lacrimejado, passado a mão no rosto várias vezes e franzido a testa. Logo no início do discurso, mencionou a vergonha de chorar. ´Uma coisa que admiro no povo é que o povo chora para fora, o povo “cafunga”, lacrimeja e político chora para dentro com vergonha. Com um rasgo de tempo, foi ele a “cafungar”. 

E no Jornal do Commercio, que vinha mantendo até então uma orientação “editorial crítica” ao governo do estado:

Popularidade mais alta da História
Emoção e choro na despedida

Uma despedida emocionada, com ares de "até breve", deu o tom da festa organizada pelo governador Eduardo Campos (PSB) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ontem à noite, no Marco Zero, Recife Antigo. Era de se esperar. Afinal, como disse o próprio homenageado em seu discurso, ‘lágrimas são feitas para serem derramadas’. E Lula não resistiu. Emocionado, chorou várias vezes. Ao ouvir a poesia declamada pelo sertanejo Antônio Marinho, ou ao som do repente dos violeiros Waldir Peres e João Paraibano. Chorou também ao escutar os emocionados agradecimentos do governador aliado – que o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito dos Guararapes – e, claro, chorou ao se despedir do público. ‘Deixo apenas a Presidência, mas não pensem que vocês vão se livrar de mim’, brincou.
No meio da multidão – cerca de 80 mil pessoas, segundo cálculos da Polícia Militar – muita gente, emocionada, acompanhou o pranto presidencial. Faixas e cartazes expressando gratidão e palavras de carinho se espalhavam pelo mar de gente, que suportou mais de duas horas de atraso para ouvir Lula fazer um balanço das ações executadas em Pernambuco durante seus dois mandatos. Mais uma vez dispensando o discurso previamente escrito, o petista fez o que gosta mais: falar de improviso. E foi assim que Lula, novamente, relembrou passagens da sua vida pessoal e episódios do início da carreira política, como as conversas com o ex-governador Miguel Arraes – “o primeiro a me apoiar em 1989” –, sua experiência nas “Caravanas da Cidadania” que percorreram o País e as várias eleições que precisou perder, antes de ganhar.

Entendam, por favor, não é que não tenham aflorado lágrimas nos olhos do presidente. Mas isso longe esteve de ser o mais relevante da noite. Aqui, mais uma vez, a imprensa cumpre a frase magnífica de Mark Twain:

“O jornal separa o joio do trigo. Publica o joio”.

Isso quer dizer, para a noite de 28 de dezembro de 2010: houve emoção e verdade no reencontro de um homem com os seus atos políticos, de um presidente com a gente que o ama. E carinho e coragem e pulsar de afetos são coisas que mexem nos nervos até das pedras. Em lugar das lágrimas nos olhos do presidente, melhor seria que se destacassem fatos como no Blog do Planalto:

Lula afirmou que sempre procurou viajar muito pelo Brasil para poder conhecer as pessoas, conversar com elas, olhando nos olhos e tocando, porque como disse “não há possibilidade do ser humano interagir se não houver um toque de mão, um abraço, um beijo, um carinho, um olhar olho no olho”. Disse ainda que aprendeu muito com as três derrotas que sofreu em eleições presidenciais (em 1989, 1994 e 1998). A lição principal: não é possível governar bem o País sem conhecer sua terra e sua gente:
“Era preciso que o presidente tivesse um olhar total do seu País, para conhecer o seu povo, e poder governar distribuindo possibilidades para que todos tivessem condições de participar do desenvolvimento desse País. Foi a partir da descoberta das eleições de 1989, em que eu descobri que era falsa a disputa eleitoral, que um presidente da República pegar um avião em São Paulo, descer no aeroporto de Recife, subir num palanque, voltar para o aeroporto e voltar para São Paulo não lhe permitia o povo pernambucano, era preciso que ele conhecesse um pouco mais. (…) Foi a partir daí que resolvi fazer as caravanas da cidadania. E comecei fazendo a primeira caravana percorrendo o trajeto que a minha mãe percorreu com oito filhos, saindo de Caetés até a cidade de Santos, em São Paulo. Parando em cada cidade, conversando com as pessoas. Depois eu percorri 91 mil km de carro, de trem, de ônibus, de barco. Para conhecer a cara, o jeito, o contar da piada, da graça, o cantar do povo pernambucano, o sofrimento do povo brasileiro. E isso me deu uma dimensão do Brasil que eu queria governar”.

E, na verdade, em toda imprensa, até mesmo no Blog do Planalto, se perde uma dimensão essencial para quem relata uma ação política: em vez de o foco ser o grande homem, o homem que está no poder em um foco único e exclusivo, maior significação teria se os olhos do repórter estivessem no público, nas pessoas fora do palco. Melhor seria que o repórter se fizesse um dos que estão do lado de cá, se a reportagem se fizesse por alguém que não entrou no céu, mas contempla o espetáculo. Lembro de outra vez, quando Lula visitou o bairro de Água Fria, no Recife, para inaugurar a primeira agência do Banco Azteca:

Povo do Recife
Espremida no meio do povo, uma senhora aperta nas mãos uma folha de caderno dobrada, com um pedido para o Presidente do Brasil. Estamos do outro lado da cerca, formada por cavaletes de ferro que circundam todo o Largo de Água Fria. Repórteres passam e não se dignam a nos dirigir um olhar, a misericórdia de uma atenção.  Como são conscientes de que a sua importância está na razão direta da distância desta massa! Dos periféricos, os que estamos do outro lado da cerca, espremidos entre pivetes e cavaletes. Uma repórter, muito jovem, se dirige a duas autoridades, isso devem ser, porque são gordos, altos, brancos, e vestem ternos de xadrez. A sua fotógrafa se aproxima, e como não pode ficar o tempo todo acompanhando uma conversa que não lhe diz respeito, dá-lhe as costas, vai caminhar em um diálogo co m o seu celular. Belas fotos teremos...
Súbito há um estouro, não de fogos, nem de boiada. Há um rumor que cresce, que se torna incontrolável, que mais lembra um orgasmo coletivo. Sofrido, querido e esperado. É Lula! É Lula! Todos gritam. Os berros se fazem ouvir mais alto, ensurdecedores. Mulheres, meninos, homens chamam a atenção do Presidente, querem chamá-lo, e ele não sabe para que lado do cercado de cavaletes se dirija. Na hora uma idéia tenebrosa me ocorre: se caísse um raio aqui, todos morreriam felizes. Mas essa idéia não atinge palavras. Lula vem para o nosso lado. É ele. A minha mulher, fotógrafa, se esquece em absoluto de mim, o repórter, e avança para o círculo estreito onde todos lhe querem tocar a mão. Aos gritos. Aos prantos. Aos empurrões. À força, ainda que contidos e reprimidos pelos jovens rapazes de negro...

Presidente Lula se despede do Recife
Assim como naquele dia, também nessa última terça-feira. Se os repórteres não vissem a multidão à distância, teriam visto cadeirantes pedido passagem, senhoras velhinhas apoiadas nos netos, indivíduos cegos a tatear com suas bengalas, jovens, muitos jovens, negros, muitos negros, negros na pele e no peito, que ouviam sérios, com absoluta atenção o presidente que lhes dizia, apontando para um menino da favela que toca violino: “Ele, Daniel, só queria uma oportunidade”. Teriam visto as pessoas se retirando do encontro, depois que Lula acabou a sua fala, a ponto de o locutor lhes pedir que ficassem, porque teriam ainda um show de Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Inútil, porque ainda assim as pessoas se retiravam, porque o ápice do drama, nessa noite, já havia sido atingido: o presidente lhes falara q ue do seu destino um homem  não desiste. Que nada pode ou não deve estar definido antes em razão de renda, lugar, sexo ou raça.

No final, muitos homens feitos lacrimejavam de felicidade. Choravam e sorriam um sorriso bom e não conseguiam parar de sorrir, em silêncio, enquanto se retiravam. Choraram mais de três vezes. Mas ninguém viu. Os chorões estavam todos do lado de cá, longe do palco.


enviado pelo autor: Urariano Mota

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Em situação de risco




Por: Sulamita Esteliam*

Na avenida beira-canal, em Boa Viagem, bem na esquina com a Ribeiro de Brito, na Zona Sul do Recife, há um acampamento que espelha uma realidade incômoda. Ali, vigiadas por uma ainda jovem e bem-fornida senhora, meia dúzia de crianças, da mais tenra idade à adolescência, se empenha em conseguir alguns trocados. Os alvos preferenciais são os motoristas que aguardam o sinal verde para seguir em frente ou dobrar à direita rumo ao trabalho, à residência, ao shopping, aeroporto ou outro destino qualquer. Algumas tentam lavar o para-brisas dos automóveis, outras mendigam, simplesmente. Até mesmo uma balinha, um bombom angariado, é entregue à capataz. Impassível e solenemente instalada em uma cadeira surrada, que chora o esforço de sustentar o traseiro colossal que a comprime sobre a calçada.

Faça chuva ou faça sol, logo nas primeiras horas da manhã, lá está a trupe maltrapilha, esfregando em nossos olhos classe-média o triste espetáculo da miséria execrável. O expediente se encerra quando a noite se anuncia.

Não se sabe se a tal mulher botou filhos no mundo para explorá-los, ou se se vale da miséria alheia para cobrir as próprias necessidades materiais, sem queimar suas abundantes calorias. Muito provavelmente, se questionada, a senhora alegará o “império da necessidade” para explicar sua atitude deplorável. Se confrontada com a ilegalidade, acenará com o desconhecimento.

Situações semelhantes proliferam, aos milhares, pelas esquinas de nossas capitais e áreas metropolitanas, sobretudo. Desafiam nossa compreensão, cotidianamente, num tempo que parece não ter princípio, nem fim. São os subprodutos de um sistema perverso, que gera riquezas e multiplica desigualdades. Desconhecem as políticas públicas que, por mais que se renovem e avancem, se revelam insuficientes.

Aquelas crianças do bairro-símbolo da Zona Sul do Recife nasceram sob o vigor do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, fruto da Constituição Cidadã, de 1988. A lei que o gestou acaba de completar 20 anos, dia 13 de julho. É um marco na defesa dos direitos humanos em nosso país. Do ponto de vista legal, alterou os paradigmas no tratamento de crianças e adolescentes, antes vistos como incapazes, hoje como sujeitos de direito. Sob o aspecto social, há sim o que comemorar: a redução da mortalidade infantil em 58% e a retirada de cinco milhões de crianças de postos de trabalho, por exemplo. Temos, seguramente, a legislação mais avançada do planeta em termos de proteção social da infância e da adolescência. Só precisa ser devidamente aplicada.

Não se pode fechar os olhos aos desafios, e eles são da estatura da lei. Sobretudo na educação, na saúde e na segurança.

Os meninos e meninas da beira-canal de Boa Viagem deveriam estar na escola, que é lugar de criança. Deveriam estar brincando, que é obrigação dos infantes. Deveriam ser e estar acolhidas pela família, se é que famílias há. Ao invés disso, mendigam, ou trabalham, expostas aos perigos do tráfego, a toda sorte de humilhações, doenças, violência e abusos. Estão à margem - do canal, da sociedade, da vida, como margilizados, certamente, também foram, e são, seus pais.

Na ótica dos direitos humanos, tal situação é definida como sendo “de risco” ou de “vulnerabilidade”. Brutalizadas pela pobreza, pela indigência humana e pela exclusão social, não são, apenas, alvos fáceis do preconceito, da hipocrisia, do oportunismo político, da ignorância - não raramente açulados pela mídia conservadora. São candidatas a engordar as estatísticas da violência infantojuvenil, que tanto nos preocupa – e que estimula a discussão sobre a redução da maioridade penal, ao arrepio da nossa Constituição. Estão na mira da marginalidade criminosa ou morrem como formigas, por esse e outros motivos.

Certamente, faltam políticas públicas que acolham a família, que a instruam sobre seus direitos, e deveres, de cidadania. Há quem avalie que falta, principalmente, diálogo que favoreça a aglutinação dos esforços do poder público, nos três níveis, entre si e com as organizações não-governamentais, os segmentos da Justiça responsáveis pela observância e aplicação da lei, a sociedade civil organizada – pelo menos aquela parcela que enxerga além do próprio umbigo. O juiz Paulo Brandão, da Vara da Infância e da Juventude do Recife e membro do Cica – Centro de Integração da Criança e do Adolescente, se insere nesse time: “É preciso menos discurso e mais ação. Trabalhar em redes para potencializar os esforços, formar comitês locais para solução de conflitos. O centro não são as instituições, são as crianças e os adolescentes”, ensina.

É preciso acordar para fazer valer o ECA e não mutilá-lo como querem alguns. Ser adolescente no Brasil tornou-se risco de vida. Aqui, 46% dos casos de mortes por homicídios se localizam na faixa etária de 12 a 18 anos. São dados oriundos de pesquisa da Secretaria Nacional de Direitos Humanos em parceira com o Fundo para as Nações Unidas para a Infância – Unicef, Observatório de Favelas e Laboratório de Análise da Violência da Uerj – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Divulgada em junho de 2009, calcula-se que, a prevalecerem as condições constatadas em 2006, data da pesquisa, 33.504 mil jovens dessa faixa etária terão sido assassinados até 2012. É um verdadeiro genocídio, que atinge, principalmente, os de sempre: jovens do sexo masculino, negros e pobres.

O Nordeste tem quatro dentre os 10 municípios brasileiros, acima de 100 mil habitantes, com mais alto IHA - Índice de Homicídios na Adolescência. Três são pernambucanos, pela ordem: Olinda em quarto lugar, com 6,5 mortes para grupo de mil adolescentes de 12 a 18 anos; Jaboatão dos Guararapes, em oitavo, com 6,0 e Recife em décimo, também com 6,0. Considerando-se apenas as capitais, Maceió capital das Alagoas, que ocupa o nono lugar geral, com 6,0, é a mais violenta. É seguida pelo Recife e Rio de Janeiro; por Vitória, Porto Velho, Belo Horizonte, Cuiabá, Curitiba, João Pessoa e Salvador. Os indicadores de São Paulo e Região, incluindo Campinas, surpreendentemente, colocam estes municípios abaixo das 20 primeiras na posição geral, e a capital paulista em 24º lugar dentre as capitais. A lista dos 10 municípios com maior índice é encabeçada por Foz do Iguaçu, no Paraná, com 9,7, seguida pela mineira Governador Valadares, com 8,5, e por Cariacica, no Espírito Santo, com 7,3. Sinal de alerta importante: os piores índices se localizam, em sua maioria, nas cidades de porte médio.

O IHA estima o risco de mortalidade de adolescente por homicídio. A ideia é que a informação ajude a mobilizar as pessoas para a gravidade do problema, que assume proporções de limpeza social e étnica. Ao mesmo tempo, pretende-se o monitoramento do fenômeno e a avaliação de políticas públicas preventivas e para reduzir a mortalidade adolescente. Este deveria ser o foco dos debates sobre os 20 anos do ECA: como barrar o crescimento da violência que vem dizimando nossos jovens, nosso futuro. Não é o que se vê em nossa mídia convencional.

Os dados oficiais preocupam também no terreno da violação de direitos. Pior, da parte de quem deveria zelar por eles – a própria Justiça. De 1996 a 2006, o número de adolescentes privados de liberdade deu um salto de 363%: passou de 4.245 para 15.436, segundo a Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Note-se que isso representa poucos mais de 3% da população carcerária adulta, estimada em 420 mil presos em 2007. Essa evolução, contudo, não espelha a tendência – mundial, aliás – de crescimento da participação de adolescentes em crimes violentos e de sua inserção em bandos e quadrilhas. Tais números estão contaminados pela aplicação indevida de medidas restritivas, segundo a própria secretaria.

Em 2009, 86% dos cerca de 18 mil jovens sob medida social-educativa estavam reclusos, aponta pesquisa nacional coordenada pela Universidade Federal da Bahia para o Ministério da Justiça. De acordo com a Subsecretaria Nacional de Promoção aos Direitos da Criança e do Adolescente, contudo, mais da metade não deveria estar presa, pois não praticou infração que signifique “grave ameaça ou atentado à vida”, conforme reza o Art. 122 do Estatuto. A maioria executou crimes contra o patrimônio – roubo ou furto – e está em sua primeira internação. Também aqui, a imensa maioria é formada pelos filhos da periferia excluída, aonde o Estado, normalmente, só aparece para mostrar a sua face repressora.

Ou seja, são vítimas em quaisquer circunstâncias: da família desagregada, da exclusão social, da violência a que estão expostos nas ruas - e da qual não escapam quando praticam infração da lei. Submetidos à Justiça, acabam em instituições que deveriam cuidar da recuperação, mas que não estão preparadas para a tarefa e, não raro, fazem uso da violência física como medida educadora. E aí, com perdão da imagem, o cachorro volta a correr atrás da própria cauda.

Sulamita Esteliam* é jornalista e escritora. Autora dos livros Estação Ferrugem, romance-reportagem que resgata a história da região operária de Belo Horizonte-Contagem, Vozes, 1998; Em Nome da Filha – A História de Mônica e Gercina, sobre violência contra mulher em Pernambuco; e o infantil Para que Serve Um Irmão, os dois últimos ainda inéditos. Apresenta, nas manhãs de sábado, o programa Violência Zero pela Rádio Olinda AM – 1030.


Colabora com esta nossaz Agência Assaz Atroz

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons