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domingo, 10 de junho de 2012

Esquerda vence legislativas francesas


Parlamento francês

Publicado em 10/06/2012 por Rui Martins*

Berna (Suiça) - Não é possível governar sem o Parlamento.

Embora o Brasil tenha um regime presidencialista, diferente do parlamentarismo francês, tanto o ex-presidente Lula como a atual presidenta Dilma sabem bem da necessidade de um apoio dos parlamentares para poder aplicar o programa do governo.

Na França, as coisas são bem mais claras que no Brasil, pois se o presidente eleito não consegue obter a maioria parlamentar não pode ter um primeiro-ministro e é obrigado a aceitar um primeiro-ministro da oposição o que se chamou coabitação no governo de Mitterrand e no governo de Chirac.

Disso decorre uma vantagem – não existe a possibilidade de se comprar os votos dos parlamentares pelos meios aceitáveis e não muito aceitáveis. Se o presidente tem maioria parlamentar pode colocar em execução sua plataforma de governo. Sem maioria parlamentar tem de se sujeitar à oposição.

O novo presidente francês, François Hollande, ao que tudo indica, pois falta ainda o segundo turno das legislativas, poderá contar com maioria na Assembléia Nacional francesa e assim transformar em lei todos os planos e projetos prometidos durante a campanha eleitoral.

Porém, essa maioria do governo socialista não poderá ser considerada absoluta mas relativa, já que será o resultado da soma dos votos socialistas com os votos das outras tendências de esquerda e ecologistas.

Em termos de cadeiras no parlamento, os socialistas terão de 275 a 329 deputados, números reforçados com mais 8 a 18 deputados verdes e outros 13 a 20 deputados da frente de esquerda, somando um total superior às 289 cadeiras necessárias para se ter maioria absoluta na Assembléia Nacional.

Houve um grande retração no número de votantes, pois no primeiro turno da eleição presidencial de 22 de abril tinham votado 79,5% dos eleitores, enquanto neste domingo votaram menos de 60%.

A derrota de Nicolas Sarkozy para um segundo mandato presidencial se refletiu num enfraquecimento do seu partido, o UMP, que sem o chefe, se defronta com uma disputa entre pretendentes à liderança da direita. Isso teve repercussão nos votos e o UMP, com 35% dos votos neste primeiro turno, poderá eleger apenas 210 a 270 deputados.

O partido da família de extrema-direita, Le Pen, agora comandada pela filha Marine, não conseguiu repetir os 17% obtidos nas eleições presidenciais, ficando com cerca de 14% dos votos, insuficientes para formar uma bancada.

Poucos deputados obtiveram a maioria absoluta para serem eleitos neste primeiro turno. O segundo turno será no próximo domingo, dia 17, quando se definirá a composição exata da nova Assembléia francesa.

Será também dia 17, o segundo turno para a eleição dos deputados emigrantes pelos chamados franceses do exterior ou vivendo no estrangeiro, sendo provável que, das novas 11 cadeiras criadas, 7 delas fiquem com a esquerda, socialistas e verdes.

Rui Martins*: jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação

domingo, 29 de janeiro de 2012

Irã corta petróleo à União Europeia


Comentário do sítio Resistir.info: O servilismo da UE aos diktats do governo estadunidense manifestou-se, mais uma vez, na decisão de 23 de Janeiro de sancionar o Irã. Verifica-se que as pressões do governo Obama encontraram plena aquiescência nas instâncias comunitárias. Mas este tiro poderá sair pela culatra. 
A mais penalizada por tal decisão será a própria Europa e não o Irã. 
Não faltam compradores para o petróleo iraniano — mas os países europeus que importavam petróleo do Irã terão agora de ir buscá-lo mais longe e mais caro.
Quanto ao congelamento dos ativos do Banco Central do Irã, foi uma mera palhaçada psicológica da UE pois o BCI não tinha nem um cêntimo depositado em bancos europeus. Além disso, tal medida contribuiu para desacreditar – ainda mais – o já debilitado sistema bancário europeu.
Bem fez o Presidente Chávez da Venezuela quando mandou retirar todos os ativos venezuelanos depositados na banca europeia.

Parlamento iraniano
TEERÃ (FNA) – Membros do Parlamento iraniano concluíram um projeto de lei sobre o corte das exportações de petróleo do país para estados europeus, como retaliação pelo embargo de petróleo da UE contra Teerã, declarou sábado, 28, um deputado iraniano.

“O diploma tem quatro artigos, incluindo um que declara que a República Islâmica do Irã cortará todas as exportações de petróleo para os estados europeus até que estes cessem suas sanções petrolíferas contra o país”, disse o vice-presidente da Comissão de Energia do Parlamento, Nasser Soudani.

Ali  Larijani, Presidente do
Parlamento do Irã
Por outro lado, acrescentou, outro artigo exige que o governo cesse de importar mercadorias dos países envolvidos nestas sanções contra o Irã.

Após meses de debates, os estados membros da UE, na sua reunião de 23 de Janeiro, alcançaram finalmente um acordo para sancionar importações de petróleo do Irã e congelar os ativos do Banco Central do Irã dentro da UE.

A seguir à decisão, a responsável pela política externa da UE, Catherine Ashton, afirmou as sanções destinam-se a pressionar o Irã a retornar às conversações sobre o seu programa nuclear.

Contudo, apesar das afirmações de Ashton, o Irã sempre sublinhou estar preparado para retomar conversações com o Ocidente, mas tem enfatizado que nunca aceitará quaisquer pré-condições para as mesmas.

Rostam Qasemi, Ministro
do Petróleo do Irã
O ministro iraniano do Petróleo, numa declaração segunda-feira passada, minimizou os efeitos das sanções petrolíferas unilaterais dos EUA e da UE contra Teerã, considerando que tais embargos simplesmente prejudicarão as economias europeias.

“A apressada decisão de estados da UE de utilizarem o petróleo como ferramenta política terá um impacto negativo sobre a economia mundial e especialmente sobre a recuperação de economias europeias que estão a combater para ultrapassar a crise financeira global”, declarou o ministro. E acrescentou que apenas 18 por cento do petróleo produzido pelo Irã é exportado para países europeus.

A notícia original, em inglês, pode ser lida em: Iranian Parliament Finalizes Draft Bill on Cutting Oil Supplies to Europe” 
Esta tradução foi extraída de: Resistir

quinta-feira, 28 de julho de 2011

“Pela porta dos fundos, Mr. Murdoch, please”

22/7/2011, Geoffrey Wheatcroft, The New York Review of Books Blogs, vol. 58, n. 12
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


No estranho vaudeville que foi o “interrogatório” de Rupert e James Murdoch no Parlamento britânico dia 19 de julho – que Rupert ensaiou aplicadamente –, desde a frase “Foi o dia mais triste da minha vida”, que desencadeou solidariedades e protestos, até o momento final, em que alguém tentou jogar uma torta-pastelão em Murdoch, que foi salvo por salto verdadeiramente acrobático de Mrs. Murdoch, parece que outra frase, dita já ao final do depoimento, passou despercebida: “Queria que eles me deixassem em paz”.

R. Murdoch por John Springs
“Eles”, naquela frase, são os principais políticos britânicos – líderes de partidos e primeiros-ministros – que jamais deixaram de cortejar Murdoch, incansável e descaradamente, inclusive David Cameron. Em maio do ano passado, Murdoch foi convocado para encontro em Downing Street 10, dois dias depois de Cameron assumir o cargo de primeiro-ministro; Murdoch disse que o encontro lhe pareceu pura perda de tempo. Por que Murdoch não entrou, como um dos deputados perguntou durante a audiência, pela porta da frente, como outros notáveis? “Porque me disseram que eu, por favor, entrasse pela outra porta”, Murdoch respondeu.

Murdoch dizer que gostaria que os políticos o deixassem em paz talvez soe arrogante ou pouco inteligente, mas não há dúvidas de que não tinha prazer algum naquelas reuniões; precisava, só, que os políticos lhe dessem o que queria. Quase sempre deram. E aí está o problema.

Um ou dois analistas tentaram defender Murdoch. Seu admirador e biógrafo indulgente William Shawcross defendeu-o na rede BBC. Disse, mais uma vez, que a derrota que Murdoch impôs aos sindicatos de gráficos há 25 anos beneficiou toda a imprensa. Matthew Parris, ex-deputado conservador e hoje colunista altamente remunerado do Times de Murdoch, disse que “essa história de grampos não passa de ridícula hiper encenação”; e Simon Jenkins, ex-editor doTimes e correspondentemente ex-empregado de Murdoch, escreve que “A Grã-Bretanha enlouqueceu (...) Morreu alguém?” e insiste que “sua [de Murdoch] influência na indústria da comunicação foi de inovador serial”.

A verdade é que alguém, sim, morreu, assassinada: a repulsa pública contra o grampo e a invasão ao correio de voz de uma menina assassinada não foi invenção dos inimigos de Murdoch. E os espantosos acontecimentos do mês – o fechamento sacrificial do jornal News of the World, a autodemissão de Rebekah Brooks e de Les Hinton (os dois que Murdoch mais quis proteger), a prisão de um ex-editor de News of the World, Andy Coulson, e depois de outro(a), Mrs. Brooks, a renúncia do chefe da Polícia Metropolitana e de seu vice – não são, exatamente, trivialidades.

A operação frenética de controle de danos que os Murdochs acionaram não está funcionando, como se pode ver. Cada dia, desde que estiveram em Westminster, trouxe-lhes alguma nova péssima notícia. Cameron dizer que nada houve de “não apropriado” em seus contatos com Mrs. Brooks equivaleu a ele admitir que o tema “BSkyB”, a operadora de televisão por satélite cujo controle acionário (mais 39% das ações, além das que já são suas) Murdoch queria comprar, sim, apareceu nas conversas da dupla.

Na mais recente reviravolta da história, dois ex-executivos da empresa News International publicamente desmentiram partes do depoimento de James Murdoch sobre o ex-jogador de futebol e hoje executivo do sindicato de jogadores ingleses Gordon Taylor, que teve seus telefones grampeados, processou o jornal News of the World e em seguida aceitou polpuda indenização extra-judicial para calar-se. À época do acordo, a empresa News International dizia que um único “repórter bandido” [ing. “rogue reporter”] seria responsável pelo grampo. Mas os advogados de Taylor apresentaram provas importantes de que os grampos telefônicos eram recurso amplamente empregado e, obviamente, autorizado: uma mensagem de e-mail dirigida a um dos principais repórteres do jornal News of the World, com a transcrição de uma mensagem de correio de voz extraída de telefone celular grampeado.

No Parlamento, James Murdoch disse aos deputados que jamais vira o e-mail crucial; ontem, Colin Myler, último editor de News of the World no momento em que o jornal foi fechado, e Tom Crone, chefe do departamento jurídico do jornal, desmentiram-no cabalmente: “A memória de James Murdoch, do dia e hora em que foi informado e concordou com o acordo no caso de Gordon Taylor, o traiu”. O filho de Murdoch disse que ninguém lhe falara sobre o e-mail. “A verdade é que nós o informamos” – disse Tom Crone.

E como se não bastasse, o escândalo expôs a extensão dos laços de corrupção crônica que ligavam a empresa News International e a Polícia Metropolitana de Londres. É quase inacreditável, mas agora se sabe que dez, dos 45 assessores de imprensa da Polícia Metropolitana eram ex-empregados da NI; também não há dúvida possível de que o jornal News of the Worl  pagava propinas a policiais, com regularidade.

Dado que o jornal é propriedade também de uma empresa norte-americana, a prática de corromper funcionários públicos pode gerar processo criminal também nos EUA. E o FBI já iniciou investigação de acusações de que empregados de Murdoch podem ter grampeado mensagens de voz de vítimas dos atentados de 11/9. Se as acusações forem comprovadas, além das consequências legais, o efeito na opinião pública norte-americana será devastador. Será interessante observar o que fará a claque de jornalistas leais a Murdoch, do Wall Street Journal, para tentar neutralizar esse efeito.

Pois mesmo assim, apesar de todos esses horrores barrocos, a verdadeira história não é a dos jornais de Murdoch e os métodos repulsivos usados por seus repórteres: é a força, o peso descomunal da influência política que Murdoch exercia através de seus jornais. 

Por mais que a responsabilidade pela conduta obscena dos jornais que comandava caiba a Murdoch, a culpa pelo modo como exercia esse poder político ilegítimo e arbitrário é dos políticos que, por tanto tempo, ajoelharam-se, reverenciais, à sua frente. Cameron é o mais recente, e talvez ainda consiga provar alguma inocência. Mas é preciso dizer que, em todos os casos, Cameron nunca foi tão cínico, tão sem princípios, tão amoral em seus negócios com Murdoch, quanto Tony Blair.

No dias das eleições em 1992, the Sun superou-se a si mesmo, com a manchete que pôs na primeira página (“Se Neil Kinnock vencer hoje, o último que sair da Grã-Bretanha apague a luz”). Depois que os Conservadores já estavam reeleitos (e Kinnock renunciara à liderança do Partido Trabalhista) um doador de campanha dos Conservadores disse off the records que os Conservadores deviam a vitória, de fato, aos tablóides. O comentário alimentou um surto de onipotência do jornal que manchetou, também na primeira página: “O Sun é o grande vitorioso”. Provavelmente, mais uma mentira. Mas Blair estava convencido de que o Sun fora, sim, eleito. 

Logo que assumiu a liderança dos Trabalhistas ingleses em 1994, Blair passou a trabalhar para firmar uma aliança com Murdoch; no ano seguinte viajou à Austrália, para discursar na reunião anual da News Corp mundial (onde fez discurso que o posicionou muito mais à direita que qualquer dos predecessores). Não há dúvidas de que o Sun apoiou Blair em três eleições, e o Times foi convertido em verdadeiro Pravda do Novo Trabalhismo, com acesso irrestrito aos meandros obscuros da cabeça de Blair, e falando pela boca de seu pestilento, imundo assessor de imprensa e porta-voz, Alastair Campbell.

Os dois jornais tinham acesso privilegiado às notícias. A data em que Blair convocaria as eleições de 2001 foi vazada para o Sun antes até de Downing Street ter comunicado à rainha e chefe de Estado. Lance Price, que trabalhou na Downing Street de Blair, disse que todos sempre sentiam que Murdoch era uma invisível 25ª presença nas reuniões do Gabinete. E nenhum jornalista foi mais íntimo da casa que Tom Baldwin do Times, que às vezes falava como boneco de ventríloquo de Campbell.

Essa aliança foi plenamente explorada durante os meses que levaram à invasão – desnecessária, inútil e ilegal – do Iraque. O próprio Murdoch disse, sobre a invasão, que “a maior coisa que sairá disso, para a economia mundial, se se pode dizer assim, será o petróleo a $20 o barril”. Mas o Sun entendeu que sinceridade tão brutal, em tão altas doses, seria excessiva para muitos de seus leitores. Então, em vez do que Murdoch dissera, o Sun publicou, no dia 15/3/2003, que “Saddam armazenou armas de destruição em massa e recusa-se a entregá-las”; simultaneamente, Richard Littlejohn, colunista do Sun, escreveu que “será guerra, a menos que Saddam Hussein entregue suas armas de destruição em massa. Ele as tem. Sabemos que as tem. Ele sabe que nós sabemos que as tem.”

Esse relacionamento sórdido e manipulatório entre o governo de Blair e a imprensa foi exposto, do modo mais repulsivo, quando Downing Street, subrepticiamente, vazou a identidade de David Kelly, o inspetor de armas que, horrorizado ante a desavergonhada barragem de propaganda, dissera à BBC, em entrevista off the record, que o que Downing Street estava dizendo sobre armas de destruição em massa no Iraque não passava de grosseiro exagero.

Depois que Blair, pessoalmente e privadamente, tomou a decisão de “demitir” Kelly, começaram a pingar pistas de sua identidade, e vários jornalistas foram sendo conduzidos até a completa identificação. O Financial Times foi o primeiro a publicar o nome completo de Kelly, mas os jornais de Murdoch chegaram imediatamente depois. Kelly foi arrastado até uma comissão parlamentar de inquérito, onde foi agredido, insultado e humilhado. Suicidou-se dois dias depois.

Seria de supor que, depois de tudo isso, os honrados e ‘éticos’ Conservadores afastar-se-iam de qualquer relação mais próxima com Murdoch (ou, no mínimo, que tentariam encobrir suas relações com mais eficácia), mas Cameron também já fora fisgado. Em julho de 2007, contratou Andy Coulson como seu “diretor de comunicações”, ou sua resposta a Campbell. 

Também é muito significativo que a coisa mais próxima de um verdadeiro emprego, que Cameron jamais tivera, antes de ser eleito ao Parlamento, foi o de chefe de Relações Públicas numa empresa de televisão de segunda classe, Carlton Communications – na qual nunca foi reconhecido, em tempo algum, pelos escrúpulos.

Quando Coulson foi contratado, os Conservadores haviam despencado nas pesquisas, e perderam a cabeça. Coulson foi recomendado a Cameron por George Osborne – o que Rebekah Brooks confirmou no depoimento ao Parlamento. Osborne é o atual ministro das Finanças da Grã-Bretanha [ing. Chancellor of the Exchequer], e só resta rezar para que mostre mais prudência no trato das finanças públicas. Cameron e Osborne eram muito conscientes do próprio pedigree, de filhos de famílias abastadas, educados em escolas caras, que uma vez trajaram os paletós azuis do afamado Bullingdon Club em Oxford. Careciam desesperadamente de alguém como Coulson, que sabia falar às massas, por direitos de nascimento.

E Coulson acabava de ser forçado a demitir-se da editoria do News of the World já acossado pelas primeiras nuvens do escândalo dos grampos. Mas as nuvens só fizeram aumentar. Antes da eleição, Cameron foi alertado, privadamente, por Alan Rusbridger, editor do Guardian (jornal que persistiu na investigação, até que a história dos grampos estourou), de que provas que apareceriam na investigação em andamento, de um assassinato, seriam muito graves, contra Coulson, em função do envolvimento dele com um detetive e escroque.

Mesmo assim, Cameron insistiu em trazer Coulson para Downing Street. E ele lá ficou mesmo depois de a New York Times Magazine noticiar, em setembro passado, que Coulson era cúmplice direto no crime de grampear telefones. Dia 5 de outubro, Cameron disse que “não temos uma única reclamação a fazer sobre como [Coulson] trabalhava (...). É homem que serviu ao governo e atualmente dirige um bem sucedido escritório de assessoria de imprensa”. Coulson só deixou Downing Street em janeiro, quando as nuvens, de tão inchadas, desabaram, como dilúvio e como inferno.

Se a tolice de Cameron, antes de tudo, ao contratar Coulson, já seria indesculpável, a insistência em manter-se colado a ele, enquanto mais e mais provas se acumulavam, pareceria incompreensível, não fosse essa uma daquelas questões em cuja explicação tropeça-se, mesmo sem procurá-la. Tudo, hoje, leva a crer que Cameron, sim, desejava manter um agente de ligação com a empresa News International: um laço direto com Murdoch. OK. Teve o seu. E vejam no que deu! 

Tudo isso deu a Ed Milliband sua primeira oportunidade para brilhar, depois de meses marcando passo na obscuridade, desde que se tornou líder dos Trabalhistas em setembro. E Milliband agarrou-se a ela, batendo o mais que pôde em Cameron, o qual, então, também estava obrigado a romper qualquer laço que o ligasse a Murdoch. A declaração de independência de Milliband aconteceu quando disse, depois das revelações, que Murdoch não poderia ser autorizado a comprar a BSkyB. No mesmo momento, Murdoch retirou sua proposta, tática de retirada, evidentemente, na esperança de depois voltar, apesar de, hoje, todo o negócio já ser politicamente inconcebível.

“Com visão panorâmica e a posteriori e considerado tudo o que se seguiu”, Cameron discursou na Câmara dos Comuns, falando de Coulson, “eu nunca lhe ofereceria o emprego e espero que ele nunca aceitasse”. Qualquer ser humano sabe que não seria necessária nenhuma visão panorâmica: bastaria o mais elementar bom senso, ou o talento básico conhecido como autopreservação. Milliband tem muito que dizer contra Cameron, sim. Mas... Quem Milliband contratou como seu “diretor de estratégia e comunicação”?! Ninguém menos que Tom Baldwin! 

O mais engraçado é que, ano passado, ainda no Times, Baldwin ostentou o furo – excitante –, de que Ed Milliband concorreria à liderança dos Trabalhistas, contra seu irmão David Miliband, até então, a aposta mais quente. E nem bem Ed assumira a nova função em janeiro, quando Baldwin mandou instruções para os deputados da linha de frente dos Trabalhistas, no sentido de que “evitassem comentários que dessem a impressão de ataque desmedido a um grupo jornalístico”. Um doce, a quem adivinhar que grupo Baldwin tinha em mente. Ainda não apareceu político inglês cujas mãos não sejam manchadas de murdochismo.

Nada autoriza a supor que os truques sujos de News of the World sejam exclusividade dos tablóides de Murdoch, ou que a imprensa popular ‘aprenderá a lição’: até que o crime de grampear telefones converteu-se em “grande notícia”, inevitável, inescapável, o que se ouvia era o silêncio ensurdecedor sobre o assunto no Daily Mail e no Daily Mirror. A única coisa que aconteceu, depois de tantos e tantos escândalos anteriores, é uma ostentação de arrependimento fingido, algum tempo de moderação e então, como viciado que não resiste à droga, tudo voltará a ser feito como antes, pelos velhos sujos caminhos.

Até aqui, a resposta dos tablóides tem sido “denunciar” a cobertura que a BBC ofereceu da história, e reclamar, furiosamente, contra qualquer tentativa de regulação da imprensa. 

Há, sim, urgente necessidade de reformar-se a lei da mídia, para obrigar a imprensa a respeitar a privacidade dos cidadãos e a servir ao interesse público. Mas, isso, é o que nos prometem há anos, e continuamos à espera.

Seja como for, pode-se afirmar, no mínimo, que a obscena influência que Rupert Murdoch exercia sobre a política britânica, se não acabou, sofreu duro baque. Quebrou-se o feitiço. Vince Cable, ministro do gabinete Liberal Democrata que já enfrentou Murdoch, comparou o estado de espírito reinante em Westminster ao êxtase popular quando cai um tirano. 

Cameron, em tom compungido-grandiloquente, diz que todos “temos de aprender as lições e fazer, do momento presente, momento de catarse”. Sim, sim. E a primeira lição é que, para o futuro, os magnatas bilionários das empresas de comunicação e mídia sejam mantidos bem longe da convivência com primeiros-ministros, ministros etc. Nada muda, de fato, se são obedecidos, se entram pela entrada principal ou pela porta dos fundos.

sábado, 17 de julho de 2010

Israel: A gangue do Parlamento

17/7/2010, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Telavive Tradução de Caia Fittipaldi

Quando fui eleito para o Parlamento de Israel pela primeira vez, assustei-me com o que vi lá. Com raras exceções, o nível intelectual dos debates aproximava-se de zero.

Era sempre um encadeamento de clichês, ampla variação sobre lugares comuns. Durante a maioria dos debates, o plenário permanecia vazio. A maioria dos deputados falava hebreu coloquial. Ao votar, muitos sequer entendiam sobre o que votavam, a favor ou contra; apenas seguiam a orientação do partido.

Era 1967, e eram deputados, dentre outros, Levy Eshkol e Pinchas Sapir, David Ben-Gurion e Moshe Dayan, Menachem Begin e Yohanan Bader, Meir Yaari e Yaakov Chazan, todos esses, hoje, nomes de ruas, estradas, praças e bairros.

Comparado ao que se vê hoje, aquele Parlamento foi a Academia de Platão.

O que mais me assustava era a rapidez com que o Parlamento aprovava leis irresponsáveis, para garantir sempre mais popularidade, sobretudo em tempos de histeria das massas. Uma de minhas primeiras iniciativas no Parlamento de Israel foi proposta de lei que criaria uma segunda Câmara, uma espécie de Senado, que teria o poder de impedir que novas leis tivessem vigência imediata, obrigando o plenário do Parlamento a reanalisar as leis aprovadas, depois de algum tempo. Com isso, esperava evitar que as leis fossem aprovadas e tornadas vigentes sob atmosfera de excessiva excitação.

Minha proposta nem chegou a ser considerada seriamente, nem pelo Parlamento nem pela opinião pública. Foi rejeitada no Parlamento por quase unanimidade. (Anos depois, vários deputados me disseram que lamentavam ter rejeitado aquela proposta.) Os jornais apelidaram a nova Câmara de “Casa dos Lordes”, para ridicularizá-la. O jornal Haaretz dedicou à proposta uma página inteira de quadrinhos e caricaturas; eu, com peruca de juiz britânico.

Portanto, a coisa continuou. E continuaram a aprovar leis irresponsáveis, muitas delas racistas e antidemocráticas. Hoje, é uma avalanche. Quanto mais o governo vai-se convertendo em assembleia de políticos oportunistas, mais improvável que a avalanche seja contida. O atual governo, o maior, o mais sórdido, o mais desprezado na história de Israel, coopera com os membros do Parlamento que apresentam propostas de lei e em muitos casos, apresenta, o próprio governo, suas propostas de leis.

O único obstáculo que resta a esse desmando é a Suprema Corte. Dado que Israel não tem Constituição escrita, a Suprema Corte assumiu o poder de anular leis absolutamente escandalosas que violam princípios democráticos e direitos humanos. A Suprema Corte só intervém em casos extremos. Mas também a Suprema Corte está tomada por juízes de direita e de ultra direita que trabalham para desmoralizá-la e, portanto, tem idéias muito típicas sobre o que sejam princípios democráticos e direitos humanos.

E assim se criou uma situação paradoxal: o Parlamento, que deveria ser expressão da democracia, é, hoje, a maior ameaça que pesa contra a democracia em Israel.

O homem que, mais que todos, personifica esse fenômeno é o deputado Michael Ben-Ari da facção “União Nacional”, herdeiro de Meir Kahane, cuja organização (“Kach”) foi tornada ilegal há muitos anos, pelo caráter abertamente fascista.

O próprio Kahane só foi eleito ao Parlamento uma vez. A reação dos demais deputados sempre foi clara: cada vez que Kahane levantava-se para falar, a sala praticamente se esvaziava. O rabino discursava para meia dúzia de seus partidários de ultra direita.

Há algumas semanas visitei o Parlamento pela primeira vez nessa legislatura. Quis assistir ao debate de um tema que me diz respeito diretamente: a decisão da Autoridade Palestina, de boicotar produtos produzidos nas colônias exclusivas para judeus, doze anos depois de o Bloco da Paz ter iniciado esse boicote. Passei algumas horas no prédio. E, de hora em hora, minha repulsa só aumentou.

A causa principal foi uma circunstância que eu não percebera de fora: o deputado Ben-Ari, discípulo e admirador de Kahane, é nome respeitado, hoje, no Parlamento de Israel. Não só não está isolado, nem posto à margem da vida parlamentar como seu mentor sempre esteve e foi; ao contrário: Bem-Ari está no centro da vida parlamentar. Vi deputados de praticamente todos os grupos à volta dele no cafezinho, e ouvindo com atenção empolgada os seus discursos no plenário. Não há dúvidas de que o Kahanismo – versão israelense do fascismo – deixou as coxias e ocupa hoje o centro do palco.

Recentemente, Israel ofereceu ao mundo uma cena escandalosa.

Na tribuna do Parlamento estava a deputada Haneen Zoabi, do grupo Balad dos nacionalistas árabes, que tentava explicar por que se reunira à Flotilha da Paz que tentara atracar em Gaza e fora atacada pela Marinha de Israel. A deputada Anastasia Michaeli, do partido de Lieberman, saltou de sua cadeira sobre a tribuna, aos gritos, sacudindo os braços, disposta a arrancar de lá Haneen Zoabi, arrastada. Outros deputados acorreram para ajudar Michaeli. Reuniu-se em torno da tribuna uma gangue ameaçadora de deputados. Só com grande dificuldade a segurança conseguiu salvar Zoabi de ser fisicamente agredida. A deputada agressora gritava, mistura de racismo e sexismo: “Vá para Gaza, aprender o que fazem com uma solteirona de 41 anos!”

Difícil imaginar contraste maior entre as duas deputadas. A família de Haneen Zoabi tem raízes seculares em Nazaré, provavelmente do tempo de Jesus Cristo. Anastasia Michaeli nasceu em Leningrado, quando se chamava Leningrado. Foi eleita “Miss Petersburgo”, tornou-se modelo, casou com cidadão israelense, converteu-se ao judaísmo, emigrou para Israel aos 24 anos, mas nunca desistiu do prenome russo. Teve oito filhos. É perfeita candidata ao título de Sarah Palin (que também foi miss) israelense...

Que eu saiba, nenhum deputado levantou um dedo para defender Zoabi durante o tumulto. No máximo, ouviu-se um débil protesto do presidente do Parlamento, Reuven Rivlin, e de um deputado do partido Meretz, Chaim Oron.

Em 61 anos de existência, jamais o Parlamento de Israel assistira a cena semelhante. Num segundo, uma assembleia democrática soberana converteu-se em gangue de linchadores.

Não é preciso apoiar a ideologia do partido Balad para respeitar a impressionante figura de Haneen Zoabi. Fala fluente e persuasivamente, é diplomada por duas universidades israelenses, luta pelos direitos das mulheres na comunidade árabe-israelense e é a primeira mulher eleita ao Parlamento de Israel por partido árabe. A democracia de Israel deveria orgulhar-se muito dela. É membro de uma vasta família árabe estendida. Um irmão de seu avô foi prefeito de Nazaré. Um de seus tios foi ministro; outro, juiz da Suprema Corte. (De fato, no meu primeiro dia como deputado eleito, propus o nome de outro membro da família Zoabi como candidato a presidente do Parlamento.)

Essa semana, o Parlamento de Israel aprovou, por larga maioria, proposta apresentada por Michael Ben-Ari, apoiada por deputados dos partidos Likud e Kadima, para caçar os direitos parlamentares de Haneen Zoabi. Antes, o ministro do Interior, Eli Yishai, havia pedido ao Advogado Geral que aprovasse seu plano para cassar a cidadania israelense de Zoabi, sob acusação de traição. Outro deputado gritou para ela: “Você não tem direito de estar no Parlamento de Israel! Você não tem direito de usar identidade israelense!”

No mesmo dia, o Parlamento israelense obrou contra o fundador do partido de Zoabi, Azmi Bishara. Em votação preliminar, aprovaram projeto de lei – também dessa vez apoiado por membros dos partidos Likud e Kadima – para cassar a aposentadoria que a que Bishara faz jus, depois de renunciar ao cargo de deputado (vive no exterior, ameaçado de condenação por espionagem se voltar a Israel.)

Os orgulhosos padrinhos dessas iniciativas, que receberam apoio massivo dos partidos Likud, Kadima, do partido de Lieberman e de todos os grupos de judeus religiosos, não escondem a intenção de expulsar todos os árabes do Parlamento, para constituir um Parlamento só de judeus em Israel.

As mais recentes decisões do Parlamento israelense são passos de uma mesma longa campanha, que todas as semanas gera novas iniciativas, por deputados sedentos de publicidade, que sabem que quanto mais racistas e antidemocráticas forem suas leis, mais votos ganham.

Foi o que aconteceu essa semana, nas decisões do Parlamento de Israel, que obrigam todos quantos aspirem à cidadania israelense a jurar fidelidade a “Israel, estado judeu democrático”. É lei que obrigará os árabes (sobretudo as esposas estrangeiras de cidadãos árabes) a subscrever a ideologia sionista. Equivalente dessa lei seria lei do Congresso dos EUA que exigisse que os cidadãos norte-americanos jurassem fidelidade aos EUA definido como “estado anglo-saxão, protestante e branco.”

A irresponsabilidade do Parlamento israelense já não tem limites. Todas as linhas da decência já foram derrotadas há muito tempo. E não se trata de deputados que representam 20% dos cidadãos. Há tendência crescente no sentido de privar da cidadania israelense todos os cidadãos árabes-israelenses.

Essa tendência relaciona-se ao cada dia mais violento ataque ao estatuto legal dos árabes que vivem em Jerusalém Leste.

Essa semana, assisti à audiência, na corte de magistrados de Jerusalém, sobre a prisão de Muhammed Abu Ter, um dos quatro deputados do Hamás no parlamento palestino em Jerusalém. A audiência foi realizada numa saleta diminuta, com espaço apenas para 12 pessoas. Só consegui entrar com muita dificuldade.

Eleitos em eleições democráticas, e como é obrigação clara de Israel nos termos do acordo de Oslo, esses deputados árabes foram empossados e admitidos como parte do governo em Jerusalém Leste. De repente, o governo de Israel anunciou que revogara o direito dos mesmos deputados à identidade de “residentes permanentes”.

O que significa isso? Quando Israel “anexou” Jerusalém Leste em 1967, o governo não imaginava conferir cidadania aos habitantes da cidade. Sem esses votos, diminuiu muito o número de eleitores árabes em Israel. Tampouco inventaram algum novo status para os árabes. Sem alternativas, os habitantes árabes de Jerusalém tornaram-se “residentes permanentes” – o mesmo status que Israel oferece a estrangeiros que queiram permanecer em Israel. O ministro do Interior tem o direito de revogar o visto dos “residentes permanentes” e pode deportar essas pessoas para seus países de origem.

Muito evidentemente, a definição de “residentes permanentes” não se aplica aos habitantes de Jerusalém Leste. Eles e seus ancestrais nasceram ali, não têm e jamais tiveram qualquer outra cidadania ou local de residência. Revogar o visto converte-os em politicamente ‘sem-teto’, pessoas sem qualquer proteção de qualquer tipo.

Na corte, os advogados do Estado de Israel argumentaram que, dado que seu visto de “residente permanente” fora cancelado, Abu Ter ter-se-ia tornado “pessoa ilegal”, depois que se recusara a abandonar a cidade. Por esses crimes, mereceria prisão por tempo ilimitado.

(Poucas horas antes, a Suprema Corte julgara pedido nosso, de investigação independente para o incidente da Flotilha da Paz em Gaza. Obtivemos vitória parcial, mas significativa: pela primeira vez em sua história, a Corte Suprema de Israel votou tema relacionado a comissões de inquérito. A Corte decidiu que os militares envolvidos no ataque à Flotilha da Paz devem ser interrogados e que, caso o governo tente evitar esses depoimentos, a Corte novamente interferirá.).

Se ainda há quem se iluda e creia que a gangue do Parlamento em Israel só atingirá “os árabes”, estão perigosamente errados. A única pergunta que resta é: quem será a próxima vítima?

Essa semana, o Parlamento analisou em primeira sessão de leitura, proposta de lei para impor pesadas penas a qualquer cidadão israelense que pregue boicote contra Israel em geral, e, em especial, contra empresas, universidades ou outras instituições do Estado, inclusive contra as colônias exclusivas para judeus. Qualquer dessas instituições passa a poder exigir indenização de 5.000 dólares, da organização que pregue o boicote, ‘por cabeça’ dos signatários de manifestos ou ‘apoiadores’ a qualquer título, de qualquer tipo de boicote.

Pregar boicotes é meio democrático de manifestação. Sempre fui contra boicote ‘genérico’ contra Israel, mas (aprendi de Voltaire) sempre defenderei o direito de qualquer cidadão que decida boicotar Israel. O real objetivo da proposta de lei que começa a ser votada é, claro, proteger as colônias exclusivas para judeus: visa a impedir a manifestação dos que pregam que se boicotem os produtos vendidos pelas colônias que produzem em território ocupado, ilegal, à margem do Estado. Tenho muitos amigos ameaçados. Eu também estou sendo ameaçado.

Desde a fundação, Israel jamais deixou de vangloriar-se de ser a “Única Democracia do Oriente Médio”. Esse mote é a jóia da coroa da propaganda israelense. E o Parlamento deveria ser símbolo dessa democracia.

Hoje, a gangue que assumiu o comando do Parlamento está determinada a destruir essa imagem de democracia, de uma vez por todas. Israel terá de conformar-se com ser conhecida como democracia igual a tantas, como a Líbia, o Iêmen, a Arábia Saudita.

Mensagem recebida por e-mail; reproduzida, em inglês, por The Panetary Movement sob o título: A Parliamentary Mob