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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Obama no AfPak: só “marreta e ancinho”?

27/4/2011, *M K Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A protestor in Peshawar holds up a placard against U.S. drone strikes, a point of contention in the fragile U.S.-Pakistan relations. File photo
Manifestante em Peshawar, com cartaz contra os ataques dos aviões-robôs drones 
tripulados à distância – mais um complicador, na já muito frágil relação entre os 
EUA e o Paquistão (The Hindu, Nova Delhi, 27/4/2011,)

Em Washington, até as cerejeiras já sabiam há pelo menos 15 dias, que David Petraeus deixará o comando do exército dos EUA no Afeganistão e assumirá a direção da CIA. Agora, a AP noticia que Leon Panetta, diretor da CIA, assumirá a Secretaria de Defesa, onde hoje está Robert Gates no Pentágono, movimento que abrirá espaço para Petraeus. A AP, ontem, noticiava que Ryan Crocker, ex-embaixador dos EUA no Paquistão e no Iraque é principal candidato a substituir Karl Eikenberry na embaixada dos EUA em Kabul. Movimentos interessantes. O que passa pela cabeça de Barack Obama? 

Primeiro, Obama cuida de não tumultuar ainda mais sua relação com o Congresso e nomeia figuras conhecidas e muito prestigiadas entre deputados e senadores. Assim, garante que não haverá interrogatórios, convocações, audiências públicas: os nomes que indicou deslizarão suavemente pelo canais do Congresso, até a aprovação final. Não há dúvidas de que Obama não quer deputados e senadores a ‘investigar’ a guerra do Afeganistão, sobretudo agora, quando a maioria dos norte-americanos pela primeira vez mostram clara insatisfação com o modo como Obama conduz aquela guerra. 

Segundo, o embaixador dos EUA no Afeganistão, Eikenberry, e o presidente Hamid Karzai mal se toleram, e já estava na hora de fazer mudanças em Kabul. Crocker, dizem os boatos, entendeu-se às mil maravilhas com Petraeus quando estiveram juntos no Iraque, e os anos durante os quais serviu no Paquistão (2004-2007) foram os mais felizes da aliança EUA-Paquistão, de toda a guerra. Crocker conhece o Af-Pak como a palma de sua mão e, mais importante, sabe como as coisas funcionam em Islamabad e Rawalpindi, saberes que valem ouro, se tiver de operar fora da embaixada em Kabul. Claro que, sim, Karzai também o conhece. Até aqui, tudo bem. 

O que deixou os observadores orientais intrigados foi a “troca” Petraeus-Panetta. Ainda que se assuma que Obama não se queira expor ao risco de nomear gente desconhecida e “provocar” o Congresso nesse momento crucialmente decisivo da guerra, fato é que perde excelente oportunidade para injetar melhores ideias numa guerra que padece de anemia profunda no campo das ideias. Pôr Petraeus onde antes havia Panetta, e Paneta onde antes havia Gates... muda o quê, nas operações de “marreta e ancinho” (na famosa metáfora de Petraeus [1])?

O Paquistão se sentirá mais uma vez agredido com a evidência de que Obama está confirmando exatamente a linha que seguiu até aqui, de atacar os Talibã e outros grupos insurgentes e, em seguida, tentar envolver os elementos “bons”, “amigáveis” e “cooperativos” em parcerias de longo prazo que assegurem a presença militar dos EUA no Afeganistão por muito e muito tempo, com os norte-americanos sempre envolvidos na segurança da região. 

Evidentemente, os militares paquistaneses não receberiam com entusiasmo nem Petraeus nem Panetta, mas a decisão de Obama confirma que os generais em Rawalpindi terão, sim, de conviver com os dois, no mínimo pelos próximos dois anos. Por ironia, ambos, Petraeus e Panetta estão sendo “promovidos” por terem feito bom trabalho. Mas essas mudanças de gabinete de Obama significam que as relações EUA-Paquistão conhecerão em breve momentos difíceis [2]. 

A jogada de Obama parece temerária. Estará ele em condições de arriscar-se a arrepiar as penas paquistanesas? O fato que conta é que o Paquistão fica sem alternativa, além de desafiar estrategicamente os EUA, dado que interesses básicos, a soberania e a integridade do país estão sendo claramente ameaçados pelos EUA. 

Os jornais indianos, que depositam confiança imorredoura na onipotência do Tio Sam, dirão que os EUA podem prender o Paquistão em chave-de-braço ad infinitum, porque o Paquistão não sobrevive sem a ajuda norte-americana. Mas já começo a ter dúvidas de que as coisas ainda sejam exatamente assim.




Notas de tradução
[1]Queremos fazer mais operações de marreta e ancinho no Paquistão” (Daily Times, 27/12/2010).  NATO-Pak to hold “more hammer and anvil operations” on Pak-Afghan border: Petraeus

*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Clinton erra a mão no Afeganistão

(e as gargalhadas dos pashtuns)
Embaixador M. K. Bhadrakumar
23/2/2011, M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A indicação que o governo Barack Obama acaba de fazer, de Marc Grossman, para substituir o falecido Richard Holbrooke, ex-representante especial para o Afeganistão e o Paquistão, é importante por três razões. Se em sua carreira diplomática Grossman conheceu o Paquistão e os mujahideen afegãos, nos tempos em que o Paquistão era estado “linha de frente” para os EUA, suas duas temporadas de serviço na Turquia, em eras passadas, fazem dele “especialista” no estranho funcionamento de uma democracia política comandada por militares.

E Grossman também devotou sua carreira à reconstituição da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), incluindo a implantação das primeiras operações “fora-de-área” nos Bálcãs. Assim sendo, a nomeação de Grossman indica uma certa mudança no pensamento de Obama – que se afasta do “surge” militar no Afeganistão, em direção a uma trilha de reconciliação política e diplomática com os Talibãs.

Os “vazamentos” semana passada, de que o governo dos EUA está envolvido em conversações diretas com os Talibãs, por funcionários do governo, para o jornalista Steve Coll, Prêmio Pulitzer, aconteceram quase simultaneamente à indicação de Grossman. Coincidência ou não, foi essa também a tônica do discurso da secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton na Asia Society, em New York na 6ª-feira, sobre a guerra.

Com a indicação de Grossman, reforçam-se as mudanças nas políticas dos EUA. Mas a capacidade dos EUA para deter a expansão da guerra, sobre a qual Clinton falou, permanece duvidosa. Os principais pontos de seu discurso foram:
  • A transição para a segurança controlada pelo Afeganistão começará, como planejada, nas próximas semanas; e a retirada de soldados dos EUA estará completada no final de 2014.

  • Washington continuará a perseguir uma estratégia de três vias “que se reforçarão mutuamente”: uma avançada militar [orig. surge] combinada com esforço civil para revitalizar a economia política do Afeganistão e do Paquistão, e uma avançada [orig. surge] diplomática para por fim à guerra.

  • A reconciliação com os Talibãs, mas com pré-condições bem claras.

  • Os EUA atacarão sem parar para minar os Talibãs, os quais encararão um “ostracismo” internacional, até que se decidam a fazer concessões políticas.

  • Ao mesmo tempo, os EUA reconhecem que “jamais mataremos número suficiente de insurgentes, que ponha fim absoluto à guerra”.

  • Assim sendo, os esforços dos EUA, civis e militares, visam a dar suporte a um acordo político durável; e os EUA “intensificaremos nossa diplomacia regional para tornar possível um processo político”.

Clinton abriu alguma via nova? A resposta é “não”. A guerra está-se transformando rapidamente em “ferida hemorrágica” [orig. bleeding wound] – para usar a famosa expressão do líder soviético Mikhail Gorbachev, falando de outra guerra de superpotência no Afeganistão. Clinton reconheceu tacitamente o impasse, o empate. Assim sendo, tudo o que os Talibãs têm a fazer é “deixar andar” [orig. wait it out]. Washington quer impor precondições? Os Talibãs, também.

Em declaração no sábado, os Talibãs foram direto ao ponto e falaram precisamente sobre a negociação, em andamento, para que se instalem bases dos EUA no Afeganistão, no pós- 2014 (aspecto que Clinton contornou atentamente, em seu discurso).

Disseram os Talibãs:

“O Afeganistão não é país cujos nativos tolerem a presença de soldados estrangeiros (...). Os norte-americanos deveriam saber que nem os governantes do regime fantoche nem o parlamento ‘selecionado a dedo’ têm legitimidade para negociar o destino do Afeganistão (...) o estabelecimento de bases permanentes é sonho-de-ópio dos norte-americanos e não é realizável.”

Ainda mais significativamente, os Talibãs concluíram:

“Os países regionais veem com absoluta clareza os objetivos dos EUA, por trás dessa prolongada permanência no Afeganistão. Naturalmente, os países regionais não aceitam essa noção e se oporão a ela. Construirão até uma aliança contra ela, se tiverem oportunidade de fazê-lo e se esforçarão para aplicar golpe forte, devastador, contra o plano dos EUA.”

O presidente Hamid Karzai do Afeganistão parece concordar com os Talibãs. Karzai disse em Kabul, no sábado: “Não se trata [o acordo sobre as bases dos EUA] de algo a ser feito só pelo governo afegão, que nem tem autoridade para isso. Cabe aos afegãos decidir. Em todos os casos, o Afeganistão precisa de paz, como precondição; e deseja ter certeza de que os países vizinhos não se sintam ameaçados.”

Interessante é que Karzai fez eco ao que dissera o ministro das Relações Exteriores da Rússia, pouco mais cedo, no mesmo dia: “Essa informação [sobre as bases dos EUA] faz pensar e levanta questões. Por que seriam necessárias bases dos EUA, depois de já não haver qualquer ameaça terrorista no Afeganistão? Kabul conseguirá combinar negociações sobre presença de longo prazo dos EUA no país, e o processo de reconciliação? Como os países vizinhos do Afeganistão veem o estabelecimento de bases militares estrangeiras tão próximas de seus territórios?”

Karzai está convencido de que Washington trabalha sistematicamente para enfraquecê-lo. Karzai e os líderes militares paquistaneses verão a nova abordagem que surgiu no discurso de Clinton como mais um golpe contra seu empenho para dar início a um processo de paz “intra-afegão” e, em termos gerais, como tentativa de criar confusão entre os protagonistas afegãos.

Clinton errou, ao não assegurar papel central ao Paquistão, na busca de qualquer acordo. Definiu o papel do Paquistão como “encarregado” de destruir os santuários dos Talibãs, mantendo relações cordiais, entre estados, com o Afeganistão, sem interferência nos assuntos afegãos e, principalmente, mudando-se para uma trajetória sustentada de acerto entre as diferenças (inclusive sobre o próprio Afeganistão) e de normalização com a Índia. Em resumo, Clinton ofereceu ao Paquistão um “dividendo de paz”, com maior estabilidade interna e maior cooperação regional com a Índia.

Mas Clinton não soube ver os interesses “especiais” do Paquistão. Ao Paquistão não interessa nenhuma matriz mais ampla de segurança que inclua necessariamente o risco alarmante (do ponto de vista de Islamabad) de desequilíbrio regional que resultará de maior cooperação militar EUA-Índia e do reconhecimento unilateral, pelos EUA, da Índia, como potência nuclear.

Por outro lado, Clinton deixou fartamente claro que os comandos do processo político de reconciliação com os Talibãs, assim como as políticas regionais relacionadas ao problema afegão, permanecerão controlados por Washington.

É possível que Washington esteja contando com seus aliados não-pashtuns dentro do Afeganistão, para que frustrem qualquer processo de paz Afeganistão-Paquistão – que está além do alcance dos EUA e pode ameaçar seus objetivos; e, em segundo lugar, os EUA contam com a Arábia Saudita, para que opere como “equilibrador” regional em relação ao Paquistão e ao Irã, dados os velhos laços que há entre Riad e os Talibãs. Washington parece confiar que conseguirá criar alta confusão entre os líderes Talibãs, suficiente para dividir ou atomizar o grupo – com o quê conseguiria neutralizar o “trunfo estratégico” do Paquistão.

A estratégia dos EUA, esboçada no discurso de Clinton, bem pensada que tenha sido, ou não, pode gerar dificuldades para o plano de jogo de Karzai no Paquistão. Mas parece implicar esperança excessivamente ousada ou otimista.

As duras realidades aí estão, à vista de todos:

Os EUA têm capacidade limitada para persistir na linha tão prestigiada das avançadas (“surge”) civil e militar.

Os EUA repetem que os Talibãs estão enfraquecendo, mas não parecem convencidos e não soam convincentes. A situação da segurança é cada dia mais precária, a guerra expandiu-se para o norte, e o perímetro de segurança em torno de Kabul já foi invadido.

O mais recente acordo entre militantes na província de Kurram garante “profundidade estratégica” aos Talibãs que operam foram da área tribal do Waziristão Norte no Paquistão.

Os militares dos EUA estão presos na situação contraditória de, ao mesmo tempo em que atacam os Talibãs no front de combate, têm de reforçar um suposto “surge” político e diplomático.

A harmonia entre Washington, Kabul e Rawalpindi jamais foi mais precária do que hoje.

Os EUA não têm qualquer tipo de controle sobre as relações entre Afeganistão e Paquistão.

As relações entre Índia e Paquistão são um oceano de pontos de interrogação, e Washington está ante a tarefa de Sísifo de manter laços equilibrados com os dois estados inimigos no Sul da Ásia.

O “impasse” entre EUA e Irã entra agora em território desconhecido e não mapeado, depois dos eventos recentes no Oriente Médio e no Golfo Persa.

As potências regionais nutrem desconfianças profundas quanto à abordagem “unilateral” dos EUA e seus objetivos geopolíticos.

A guerra é questão cada dia mais controversa na opinião pública no Ocidente, e Obama aproxima-se de uma duríssima campanha de reeleição. Não há dúvidas de que demarcar prazos favorece os Talibãs.

Nada parece justificar o otimismo de Clinton, que disse: “Hoje, a pressão crescente imposta por nossa campanha militar obriga os Talibãs a decidir. Se romperem laços com a al-Qaeda, entregarem as armas e renderem-se à constituição afegã, poderão reintegrar-se à sociedade afegã. Recusem, e continuarão a enfrentar as consequências de aliar-se à al-Qaeda como inimigos da comunidade internacional. Não nos podem expulsar. Não nos podem derrotar. Não podem fugir da escolha”.

Falou grosso, sim. Mas... ah! Seria ótimo se a vida fosse assim tão simples, a estrada, assim tão reta, o futuro, assim tão certo.

Tariq Ali, comentarista e autor britânico-paquistanês, escreveu certa vez que sempre depois de surtos dessa retórica assim autoritária candente, “as montanhas do Hindu Kush reverberam ao som das gargalhadas dos pashtuns.”[1]



Nota de tradução
[1] Tariq Ali, “Farsa em Kabul, tragédia no Paquistão”, 23/10/2009, em português, em   . Orig. 20/10/2009, Counterpunch, em Farce in Kabul, Tragedy in Pakistan

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

EUA curvam-se ao Paquistão

11/1/2011, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu 


A visita repentina, não agendada, do vice-presidente dos EUA Joe Biden a Islamabad essa semana evidencia o embaraço e a ansiedade de Washington, que teme ser excluída de uma iniciativa regional com vistas ao processo de paz no Afeganistão que pode estar em vias de decolar. A rápida sequência de eventos da última quinzena surpreendeu Washington. 

Joe Biden
Houve muitos momentos díspares no relacionamento EUA-Paquistão ao dos últimos nove anos, desde a invasão norte-americana ao Paquistão. Mas a missão de Biden só pode ser comparada à visita a Islamabad de meados de outubro de 2001, pelo então secretário de Estado Colin Powell. Se a missão Powell foi seminal com vistas à invasão do Afeganistão pelos EUA, a missão Biden bem pode revelar-se um primeiro passo intimamente relacionado à semeadura de sementes de paz.

A rota que levou Biden a Islamabad começou em Istambul na véspera do Natal quando, como parte da iniciativa de Ancara iniciada há três anos, o presidente da Turquia Abdullah Gul hospedou um encontro de cúpula do fórum trienal que reúne além do presidente da Turquia, os presidentes do Paquistão e do Afeganistão, Asif Zardari e Hamid Karzai. Os turcos levam muito a sério o papel de mediadores e têm obtido relativo sucesso no trabalho de aproximar Kabul e Islamabad, como países vizinhos – missão na qual os EUA só conheceram repetidos fracassos. Nesse sentido, as credenciais da Turquia não podem ser subestimadas.

Um lar para os Talibãs

A Turquia é “aliada” de EUA, Rússia e Paquistão e há muito tempo amiga da China; mantém relações “normalizadas” com o Irã e a Arábia Saudita e é membro ativa da Organização da Conferência Islâmica; a Turquia reclama a herança “turca” da Ásia Central; Ankara mantém relação de equilíbrio com vários grupos afegãos e manteve uma linha aberta de contato com a liderança dos Talibãs no final dos anos 1990s; a Turquia é país membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), com forças que participam do contingente das Forças Internacionais de Assistência à Segurança [orig. International Security Assistance Force] e sempre se saíram bem; e a Turquia é generosa doadora de fundos para a reconstrução do Afeganistão. 

Istambul - Turquia
A política externa da Turquia passou a ser extremamente inovadora e ambiciosa. Ankara trabalhou muito para reunir Kabul e Islamabad e agora aspira a uma escalada audaciosa aos cumes do Hindu Kush. 

A Turquia está considerando a possibilidade de permitir a abertura de um “escritório de representação” dos Talibãs em território turco. Karzai diz que a ideia veio de “dignitários próximos dos Talibãs”. Seja como for, a ideia apareceu no encontro tripartite em Istambul, e Turquia e Paquistão manifestaram-se favoráveis. Interessante é que, até agora, os Talibãs tampouco manifestaram-se contra. 

O ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutglu disse depois da reunião que “Estamos prontos a corresponder a essas expectativas em todos os níveis. A Turquia acompanha de perto todos os passos. Estamos prontos para acompanhar, na Turquia, qualquer processo que interesse ao governo afegão e também estamos prontos a contribuir em processos que possam estar em andamento fora da Turquia.” 

Hamid Karzai
Pouco antes de Karzai deixar Kabul rumo a Istambul, mandou o presidente do Alto Conselho Afegão para a Paz [orig. Afghan High Council for Peace (HCP)] Burhanuddin Rabbani (ex-presidente) em visita a Teerã. Em apenas alguns dias, Teerã recebeu outro importante visitante afegão, Mohammed Fahim, figura chave na antiga Aliança do Norte e atualmente vice-presidente. (Curiosamente, um veterano “mão-afegã” de Moscou, Viktor Ivanov, ex-general da KGB que chefia hoje a agência russa anti-narcóticos, também chegou a Teerã no mesmo dia que Fahim).

Karzai obviamente sondou os iranianos sobre seu projeto de iniciar um diálogo intra-afegão. Mas a posição de Teerã parece ambivalente, embora as declarações sejam consistentemente no sentido de que a presença continuada de soldados dos EUA está agravando as tensões regionais. A visita de Fahim sugere que Teerã trabalha para manter abertas as opções. A recente discussão sobre o suprimento de petróleo iraniano para o Afeganistão sugere que haja algum atrito entre Teerã e Kabul. Kabul espera, em breve, a visita do poderoso presidente do Parlamento iraniano Ali Larijani. 

Antes de viajar a Teerã, Rabbani falou a uma grande assembleia-conselho (jirga) regional de paz em Nangarhar convocada pelo governo, com mais de 800 delegados de várias províncias do leste dominado pelos pashtuns, nas quais os Talibãs continuam ativos. Rabbani dirigiu-se aos Talibãs. “Esse é o seu país. O Afeganistão é o seu país. Claro que todos cometem erros. Temos de trabalhar juntos para corrigir os erros.” 

Loya Jirga de 30de dezembro de 2010
A Jirga decidiu que a reintegração dos Talibãs terá de ser feita conforme valores islâmicos. “Façamos o que fizermos, terá de ser baseado no Islã” – disse Rabbani. A Jirga tomou outra decisão importante: no processo de reconciliação, deve-se assegurar que os Talibãs tenham espaço para “negociar com companheiros afegãos, não com as forças da coalizão [liderada pelos EUA].” 

A virada paquistanesa

Depois que Karzai voltou de Istambul, as coisas aceleraram-se. Na última 3ª-feira, Rabbani liderou uma delegação de 25 membros que foi a Islamabad a convite do primeiro-ministro do Paquistão Yousuf Gilani. É virada significativa, pelo Paquistão, que, antes (como os Talibãs e o grupo Hezb-i-Islami), jamais deram grande importância ao Alto Conselho Afegão para a Paz. Evidentemente, Islamabad está reconsiderando posições assumidas antes.,

Verdade é que o chefe-geral do exército paquistanês general Parvez Kiani recebeu Rabbani em Rawalpindi na 4ª-feira. Os releases da imprensa oficial informavam que discutiram “temas de mútuo interesse”. O fato de Kiani ter empenhando o próprio prestígio é muito significativo.

O encontro em Rawalpindi indica apoio dos militares paquistaneses ao papel de liderança que Rabbani assumir em qualquer diálogo infra-afegão. Mas, muito mais importante que isso, inclui mensagem que chegou clara e alta a Washington – de que, com ou sem envolvimento dos EUA, e no caso bem provável de que em futuro próximo comece um diálogo, o Paquistão dará andamento a uma iniciativa regional que envolverá Karzai, porque não há tempo a perder e interessa a Washington aparecer na mesma página.

David Petraeus
O Paquistão criticou a estratégia de “avançada” [ing. surge], de David Petraeus no Afeganistão e recusou-se a assumir operações nas áreas tribais do Waziristão Norte, apesar de repetidamente ‘convocado’ pelos EUA.

Karzai não poderia ter escolhido melhor nome que Rabbani para iniciar o processo de paz. Rabbani tem antigos laços com os Talibãs que datam da jihad dos anos 1980s. Os contatos entre ele e o Paquistão são, de fato, ainda mais antigos, desde meados dos anos 1970s, antes da revolução comunista. Rabbani é intelectual islâmico muito conhecido nos círculos islâmicos no Paquistão, especialmente pela liderança dos partidos Pasand islâmicos, como Jamiat Ulema-e-Islam. Durante a jihad, Rabbani foi um dos “Sete de Peshawar” e manteve extensas negociações com militares e os serviços de inteligência paquistaneses.

Rabbani é também um dos principais líderes tadjiques que presidem o Jamiat-i-Islami, e é importante trazer os tadjiques para a discussão de qualquer acordo afegão. É veterano líder mujahideen e mantém ampla rede de contato com comandantes como Jalaluddin Haqqani que estão com os Talibãs. Rabbani pode ser muito útil para construir uma ponte pela qual figuras controversas como Jalaluddin possam trafegar rumo ao centro da política afegã, algum dia.

Tudo isso considerado, a decisão de Kiani, de apostar seu próprio prestígio em Rabbani pode ser vista como mudança significativa na estratégia do Paquistão.

Os EUA temem a “exclusão”


Frank Ruggiero
A velocidade com que Kabul e Islamabad estão construindo e implantando um diálogo intra-afegão pegou de surpresa os EUA. Os EUA ainda repetem que seria prematuro qualquer contato com os Talibãs. A missão de Rabbani em Islamabad, sobretudo, deve ter feito Washington saltar na cadeira. Os EUA não gostam de Rabbani por sua marcada tendência nacionalista-islâmica, por seus contatos intermitentes com o Irã e por seu virulento antiamericanismo, que Rabbani jamais se preocupou em esconder.

Washington sente que está sendo “excluída” em momento em que tantas coisas acontecem. Ironicamente, descobre que foi posta no mesmo barco que Teerã. O enviado especial dos EUA para o Afeganistão Frank Ruggiero imediatamente partiu para Islamabad na 3ª-feira, para tomar pé no rápido fluxo de eventos. Ruggiero foi recebido com muitas gentilezas, foi recebido por Kiani, mas tudo indica que o Paquistão não mudou os planos segundo os quais as conversações devem começar por contato com os Talibãs.

Imediatamente depois da viagem de Ruggiero, o presidente Barack Obama mandou Biden para Islamabad. A decisão de Obama, de escolher Biden como enviado, merece exame cuidadoso. Em poucas palavras, Biden tem repetido que o Talibã não representa qualquer ameaça real aos interesses da segurança nacional dos EUA; e que um meio de por fim à guerra seria negociar com ele.

Petraeus, por outro lado, espera poder intensificar as operações militares para enfraquecer os Talibãs a ponto de pô-los de joelho, reduzidos à condição de aceitar qualquer paz, sejam quais forem os termos, que os EUA lhes imponham. Petraeus trabalha com objetivos de longo prazo. Biden tem muita pressa.

Poucos acreditam, dentro do establishment de segurança dos EUA, no que diz Petraeus sobre sua estratégia estar começando a dar resultados. Ao nomear Biden para chefiar a missão em Islamabad, Obama parece estar sinalizando que mantém abertas outras vias.

Ali Asif  Zardari
Zardari visitará Washington essa semana, ao mesmo tempo em que Biden partiu às pressas para Islamabad. Essa estranha movimentação de “duas mãos” mostra bem a profundidade da ansiedade nos EUA ante o afrouxamento dos laços EUA-Paquistão e ante a evidência de que o interlocutor chave é Kiani. O assassinato do governador da província paquistanesa do Punjab, Salman Taseer, e as ondas de pós-choque que provocou na sociedade e na política do Paquistão só tornaram as águas ainda mais turvas, e fazem aumentar a ansiedade, na Casa Branca, sobre o rumo que tomaram as relações EUA-Paquistão, nos últimos meses.

Considerados os briefings distribuídos por vários altos funcionários do governo, o Washington Post assim resumiu os principais elementos da missão de Biden:

– Biden procurará uma “troca franca de ideias sobre visão e prioridades” com Kiani, sobre o fim da disputa no Afeganistão e “a estratégia de longo prazo para a região”.

– Os EUA não devem exigir início imediato de operações militares paquistanesas no Waziristão Norte.

– Biden afirmará categoricamente que os EUA não têm intenções de escalar nas operações militares além-fronteira em território paquistanês. 

– Biden verificará com certeza quais são as necessidades, expectativas e exigências que o Paquistão espera ver atendidas em troca de mais ampla cooperação na guerra. 

– Os EUA oferecerão novo pacote de assistência, com elementos militares, de inteligência e econômicos.

– Os EUA reforçarão a presença militar no lado afegão da fronteira com o Paquistão e intensificarão os acordos de cooperação e partilha de inteligência com o Paquistão, sobre as atividades da Índia no Afeganistão.


Barack Obama
O mesmo Washington Post chamava a atenção para “mudança significativa no pensamento do governo dos EUA” e para a inclinação de Obama na direção de unir-se ao processo de paz e reconhecer que o Paquistão tem “papel importante” a desempenhar, “senão papel dominante”, nas conversações de reconciliação com os Talibãs.

No fundo, o que Washington está fazendo é tentar converter em virtude e mérito dela, o que faz por imperiosa necessidade – o que fazem quase sempre os bons políticos. Em termos ideais, os EUA só desejam que o Paquistão contribua vigorosamente para o esforço de guerra dos EUA. 

Mas o “coração da matéria” é que, se e quando as conversações intra-afegãos ganharem ímpeto, brotadas de uma iniciativa regional de Afeganistão, Paquistão e Turquia (e, talvez, com a aquiescência do Irã), toda a posição dos EUA naufragará.

M K Bhadrakumar
O governo Obama estará reduzido à posição absurda e insustentável, de insistir cegamente em continuar uma guerra que nem o povo afegão nem as potências regionais desejam. 
  
Embaixador*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União  Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

OTAN, Karzai e outras relíquias de Cabul

21/11/2010, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O documento sobre segurança de longo prazo assinado entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o Afeganistão no sábado, no encontro da Aliança em Lisboa, tem 50 sobre 100 probabilidades de ser um marco histórico; e 50, de acabar como mais um caco histórico no vandalizado museu de Cabul.

Chegada à Região há sete anos, em operação “extra-territorial” da ONU de caçada à al-Qaeda, a Aliança do Leste está agora ampliando e aprofundando suo moto o próprio “envolvimento”, na esperança de fincar pé como residente permanente no Hindu Kush. Mas o museu de Cabul é cheio de relíquias.

Um sitiado e politicamente combalido Hamid Karzai, presidente afegão, lá apôs humildemente sua assinatura, como parceiro menor, com Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN. Capitais regionais tão distantes umas das outras quanto Teerã, Moscou e Islamabad certamente anotaram o gesto.

É absolutamente evidente, apesar do cronograma em fases para que a responsabilidade pela segurança seja entregue ao governo afegão no final de 2014, que as forças da OTAN esperam permanecer no Afeganistão.

O presidente Barack Obama dos EUA disse:

“Estou confiante de que depois de 2014 só teremos de manter uma capacidade [de ação] antiterrorismo [no Afeganistão], até obtermos total certeza de que a al-Qaeda já não seja operativa e não represente qualquer ameaça (...). E será importante para nós continuar a contar com plataformas que nos permitam executar essas operações de contraterrorismo.

Minha meta é assegurar que até 2014 a transição esteja completada, sob liderança dos afegãos, e é também meu objetivo garantir que já não estejamos envolvidos em operações de combate como essas em que estamos hoje envolvidos. Com certeza, nossas pegadas no local [orig. our footprint] terão sido significativamente reduzidas. Mas é difícil antecipar exatamente o que será preciso fazer além disso para manter seguros os EUA, em 2014. Decidirei sobre isso, quando chegar lá.”

Obama aumentou ainda mais a ambiguidade estratégica, ao confirmar que será assinado um acordo de longo prazo entre EUA e o governo de Karzai. Os EUA encarregaram Ashraf Ghani (ex-funcionário do Banco Mundial que os EUA apoiaram fortemente como possível candidato à presidência nas eleições afegãs de outubro passado) de conduzir a “transição”. Na prática, descartaram Karzai e não fizeram qualquer esforço para disfarçar o gesto.

Obama desconsiderou Karzai publicamente; disse que ele terá de aprender a conviver com as estratégias militares dos EUA, inclusive com os controversos ataques aéreos noturnos, contra os quais Cabul tem protestado com frequência. Deixando de lado seus notórios talentos persuasivos e charme, e ignorando até a cortesia mínima que se espera nos contatos entre Estados, Obama arrasou Karzai:

“Se nós [EUA] pusemos aqui bilhões de dólares, se querem que nossos soldados fiquem aqui para dar segurança aos afegãos e permitir que o presidente Karzai continue a construir e desenvolver seu país (...), ele terá de considerar também os nossos interesses (...) terá de entender que há legiões de jovens americanos e americanas, das menores às maiores cidades dos EUA, todos correndo o risco de morrer em terra estrangeira, obrigados a atravessar terrenos minados, à mercê de incontáveis IEDs [ing. improvized explosive devices, “explosivos de fabricação caseira”], e que todos eles têm de se autoproteger. Se estamos consertando tudo, onde nada conseguiram dos Talibãs, além de se porem como alvos fáceis ou interlocutores acessíveis, a resposta [de Karzai] não é aceitável.”

A melhor “explicação” que se pode tentar para o que disse Obama, e para como o disse, é que é possível que estivesse acuado, sob forte pressão e precisando mostrar ‘firmeza’. (Há boatos de que o general David Petraeus, o mais alto comandante dos EUA no Afeganistão, estaria prestes a jogar a toalha.) Seja como for, Obama subestimou a orgulhosa cultura do Hindu Kush e feriu Karzai muito gravemente.

À medida que as palavras de Obama se difundirem pelo Afeganistão, nos próximos dias e semanas, o prestígio de Karzai despencará; dificilmente se recuperará do violentíssimo ataque de Obama – exceto, talvez, se conseguir produzir manifestações ainda mais audaciosas de sua “afganidade”.

Uma crença dura de crer...
A Declaração de Parceria Duradoura [ing. Declaration on an Enduring Partnership] assinada em Lisboa não permite apenas que a OTAN cumpra um “compromisso de longo prazo” com a segurança, estabilidade e integridade do Afeganistão; também reconhece o Afeganistão como “importante parceiro da OTAN”, por sua contribuição “para a segurança regional”.

Em troca, a “promessa” assinada pelo governo afegão, de que Cabul atuará como “parceiro duradouro da OTAN e assegurará à OTAN a assistência necessária para cumprir as atividades da parceria”, também reconhece “a importância e a relevância de mais amplas cooperação, coordenação e confiança, regionalmente construídas entre todos os parceiros regionais.”

Nos termos da Declaração, OTAN e Afeganistão “reforçarão os contatos consultivos em questões estratégicas” e desenvolverão “medidas efetivas de cooperação”. Para isso, criar-se-ão “mecanismos para diálogos políticos e militares” e para “ligação permanente da OTAN no Afeganistão.”

Apesar de ser “mútuo entendimento” entre as partes que a OTAN não buscará estabelecer “presença militar permanente” e que não usará sua presença no Afeganistão contra outras nações, a cooperação futura entre Cabul e a Aliança será “adequadamente delineada, considerado o arsenal de instrumentos de cooperação da OTAN”.

Muito importante: os dois lados comprometem-se a “iniciar um diálogo sobre um “Acordo sobre o Estado das Forças” [ing.Status of Forces Agreement, SOFA] no prazo de três anos. Apesar de a Declaração ser assinada só por OTAN e Afeganistão, ela cria “a oportunidade” e “estimula” outros países que não sejam membros da OTAN e estão hoje envolvidos na guerra do Afeganistão (por exemplo, Austrália, Japão, Coreia do Sul e outros) a “contribuir para atividades que resultem dessa Declaração”.

Há três coisas a observar. Primeira, Rasmussen trabalhou absoluta e completamente como agente de Washington, o que é normal, dado que os EUA pagam 73% do orçamento da aliança de 28 membros; e quem paga manda. Não cabe qualquer dúvida de que a Declaração OTAN-Afeganistão tem o imprimatur dos EUA. Tudo, aí, absolutamente tudo, tem a ver diretamente com a presença estratégica dos EUA na Ásia Central.

Obama destacou espertamente para o público ocidental a data-limite de 2014, o que sugere que a guerra esteja terminando. Aí, responde também à crescente oposição à guerra, dentro dos EUA. E avançou ao mesmo tempo sobre dois trilhos paralelos, ao inventar acordos para a presença militar de longo prazo no Afeganistão, ao mesmo tempo em que ‘alinhou’ os aliados dos EUA na OTAN aos objetivos futuros dos EUA.

O problema está em que tudo isso pressupõe que seja fato indiscutível e comprovado o que Obama assegurou: “Estamos afinal atingindo nosso objetivo de deter o momentum dos Talibãs (...). Creio que alcançaremos plenamente nossa meta”. Não se sabe se a autoconfiança de Obama é tal, que o induza a realmente crer nessa crença. Seja como for, aí está crença muito dura de crer...

Peça de museu?
Em segundo lugar, Karzai não empenhou a própria alma nessa empreitada, e sua angústia apareceu sob diferentes formas ao longo da reunião de Lisboa. Há apenas uma semana, Karzai atacou muito duramente a estratégia dos EUA. Evidentemente, recebeu o troco e um tranco. O fato de  Ghani ter sido empossado no comando da “transição” e de, em seguida, Obama ter publicamente ‘destituído’ Karzai são sinais claros de que o presidente afegão não está em momento de forçar a própria sorte. Se interpretará o golpe como um revés da fortuna, ou entenderá o recado, eis a questão.

O bazaar afegão estará atentamente vigilante. Um realinhamento de forças políticas no tabuleiro da política nacional tornou-se agora quase inevitável. Significativamente, o ex-presidente e líder tadjique Burhanuddin Rabbani (chefe do Alto Conselho nomeado por Karzai para negociar com os Talibã) chegou no fim-de-semana a Teerã para consultas.

O Ustad [1]só muito raramente viaja ao exterior. Ao receber Rabbani, o poderoso líder do Parlamento iraniano Ali Larijani manifestou o apoio do Irã à política de conciliação nacional atribuída a Karzai, reconciliação que, como disse Larijani, é também o que deseja o povo afegão. Anunciou-se que o comandante tadjique Mohammed Fahim (primeiro-vice-presidente do Afeganistão) também visitará Teerã “em futuro próximo”.

A Declaração OTAN-Afeganistão é grave obstáculo que surge no caminho do plano de conciliação nacional de Karzai. A declaração – e os dois Acordos SOFA [sobre o Estado das Forças] previstos – deveriam ter acontecido no âmbito de um acordo. Claramente, os EUA só negociam se estão em posição de força. A abordagem da OTAN divulgada em Lisboa reforça a decisão dos EUA de enfraquecer militarmente os Talibãs, antes de aceitá-los em mesa oficial de negociações.

Por tudo isso, o período que vai de agora até julho de 2011 (quando começa a retirada de soldados dos EUA) será decisivo. Evidentemente, aconteça o que acontecer, Petraeus é o favorito dos Republicanos, e qualquer estratégia associada a ele conquistará apoios nos dois partidos em Washington.

Mas o trabalho preliminar de Karzai, até o ponto em que conseguiu chegar, de negociações eventuais com os Talibãs, está virtualmente paralisado e não será fácil ressuscitá-lo, pelo menos até que se conheçam os resultados do trabalho de Petraeus – o que só acontecerá no início do verão. Enquanto espera o reinício da “estação de combates”, no começo do verão, Petraeus já trouxe os tanques M1 Abrams, apresentados como sua mais moderna aquisição.

Mas os tanques M1 Abrams não sabem distinguir amigos e inimigos, e os “danos colaterais” continuarão, cada vez mais, como ônus político contra Karzai e bônus político a favor dos Talibãs. Além do mais... E se Petraeus fracassar e não derrotar militarmente a guerrilha afegã? Nesse caso, Obama terá perdido até sua última esperança de conseguir negociar de uma posição vencedora. Nesse caso, a Declaração OTAN-Afeganistão virará peça de museu.

Como todos sabemos, o Paquistão não acredita absolutamente em datas, prazos, 2014s etc. No exato momento em que Rasmussen e Karzai levavam as canetas ao papel para assinar a Declaração em Lisboa, guerrilheiros confiscavam, na região de Peshawar, mais um comboio que levava suprimentos para os soldados de Petraeus. 

Nota de Tradução
[1] Ustad (ár. “mestre”) é título honorífico (quase sempre para professores e artistas, muitas vezes para músicos) usado por muçulmanos no Sul da Ásia. 

Embaixador *M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira que serviu no Ministério de Relações exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União sovoética, Coreia do Sul Sri Lanka, Alemanha, Aeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait, e Turquia.