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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Guerras sem vencedor; EUA sem influência


O Vice – Presidente Joe Biden dos EUA é tão ignorante que realocou Baku – capital do Azerbaijão – no Iraque!

Joe Biden

12/12/2011, Patrick Cockburn, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Patrick Cockburn
Os últimos soldados dos EUA estarão fora do Iraque dentro de três semanas. O presidente Obama e o primeiro-ministro do Iraque Nouri al-Maliki encontram-se em Washington[1], para declarar ao mundo que os EUA saem do Iraque tão fortes quanto lá chegaram e deixam, ao sair de lá, um país cada vez mais estável, mais democrático e mais próspero. Só mentiras, nada além de mentiras.

A operação de desinformação foi atentamente cronometrada, para que o presidente Obama entre no ano das eleições “declarando” aos quatro ventos que pôs fim a uma guerra muito impopular, sem ter sofrido qualquer derrota. Já vimos a pré-estréia desse discurso há algumas semanas, quando o vice-presidente Joe Biden visitou Bagdá, para louvar as magníficas realizações dos EUA.

Ao longo dos anos, os iraquianos habituaram-se a ver políticos estrangeiros que chegam em segredo a Bagdá, sempre cercados por monumentais arranjos de segurança e que, mal põem o pé no país, imediatamente se põem a emitir frases sobre os fantásticos progressos do país e altas realizações dos EUA em todos os campos.

Imediatamente depois das tais frases, todos embarcam nos aviões que os trouxeram e escafedem-se do Iraque. Mas mesmo para esses padrões muito baixos, o desempenho do vice-presidente Biden, dessa vez, ultrapassou tudo que os iraquianos já viram; foi, de fato, cômico. Reidar Visser, especialista em Iraque, escreveu:

“Biden serviu-nos o cardápio de sempre, de gafes, piadinhas e empáfia temperadas com autoconfiança arrogante e ignorância completa sobre o que se passa no mundo. Dentre outras, Biden tentou conquistar corações e mentes dos iraquianos elogiando os hospitais que os EUA teriam construído em Baku... capital do Azerbaijão, no Mar Cáspio, cidade que, para o vice-presidente, teria sido “transferida”, talvez, para o Iraque”.

Os candidatos Republicanos à eleição presidencial têm sido desacreditados (e ridicularizados) por gafes desse tipo. Pode-se avaliar o prestígio de Biden pela evidência de que, apesar dos longos e tediosos discursos, nenhum jornal dos EUA jamais, até hoje, percebeu que o vice-presidente dos EUA é praticamente analfabeto, no que tenha a ver com geografia do Oriente Médio. Visser destaca que Biden “disse que “conseguimos converter o limão em limonada”; falou do Iraque de hoje como “uma cultura política baseada em eleições livres e sob o império da lei”; e disse que “a cultura política do Iraque, emergente e inclusiva (...) é garantia absoluta de estabilidade”. Não disse coisa com coisa”.

Infelizmente, os EUA deixam atrás de si, na retirada, um Iraque em ruínas, dividido e destroçado.

A verdade é que o fracasso dos EUA, que nada conseguiram de positivo nem no Iraque nem no Afeganistão ao longo de uma década, apesar de seus gigantescos exércitos e muitas armas, e apesar de ter consumido vários trilhões de dólares naquelas guerras, comprometeu muito profundamente o seu status de única superpotência. Fossem quais fossem os planos quando invadiu o Iraque em 2003, Washington jamais supôs que, ao sair de Bagdá, veria no poder partidos religiosos xiitas, com laços estreitos com o Irã. E, no Afeganistão, nem o aumento do número de soldados nem os $100 bilhões/ano conseguiram derrotar 25 mil combatentes Talibã mal treinados.

As grandes potências dependem muito da imagem de invencibilidade; e a boa estratégia manda não arriscar-se demais. O Império Britânico jamais se recuperou, aos olhos do mundo, do esforço gigantesco que teve de fazer para derrotar umas poucas dezenas de milhares de fazendeiros Boer.

A evidente incapacidade dos EUA para vencer no Iraque e no Afeganistão fez muito mal ao país, sobretudo, porque, na medida em que a vitória não aparecia, a política e as políticas dos EUA foram sendo progressivamente militarizadas. O Congresso aprovou vastíssimos orçamentos para o Pentágono, e apenas alguns bilhões para o Departamento de Estado.

“O Departamento de Defesa é um gigante, comparado às demais agências federais” – observava já o Relatório da Comissão 11/9. – “Com orçamento anual maior que o PIB da Rússia, o Departamento de Defesa é um império”. 

Mas é império que fracassou, nos últimos anos, apesar do pesado peso político que pagou. Experiente diplomata dos EUA perguntou-me em tom de lástima, há alguns anos:

“Que fim levou a desconfiança que os generais nos inspiravam depois do Vietnã? Hoje, todos parecem acreditar nos generais... Mas general dizer a verdade é evento raríssimo!” 

Vale também para o Exército Britânico. As façanhas militares dos britânicos em Basra e Helmand foram ainda menos gloriosas que as dos norte-americanos, mas a tática de “incorporar” jornalistas entre os soldados deu bons resultados, e os militares britânicos foram poupados das críticas que muito fizeram para merecer.

Apesar do longo período, agônico, antes de decidir-se a mandar mais soldados para o Afeganistão em 2009, Obama, de fato, nunca teve escolha. Leon Panetta, então diretor da CIA e hoje Secretário da Defesa, enfurecia-se com a demora, enquanto a Casa Branca discutia se enviaria ou não mais soldados. Para Panetta, a realidade política era clara: “Nenhum presidente Democrata pode deixar de fazer o que os militares resolvam fazer, sobretudo se pediu a opinião dos militares. Agora, é mandar os soldados e pronto!” Para Panetta, a decisão de mandar mais 30 mil soldados para o Afeganistão teria de ter ser tomada em uma semana.

O assassinato de Osama bin Laden e o fracasso dos militares, que não derrotaram os Talibã, aumentaram o espaço de manobra do governo Obama e apressaram a retirada do Afeganistão. É muito pouco provável que, em ano de eleição presidencial, depois de ter-se retirado do Iraque e sonhando com conseguir sair a tempo também do Afeganistão, Obama inicie mais uma guerra, dessa vez contra o Irã. Nos EUA e em Israel quem insista em falar grosso com o Irã perde só alguns votos. Mas os votos fugirão em maior quantidade, se Obama arrastar os EUA a nova guerra, dessa vez contra oponente muito mais forte do que os EUA enfrentaram no Iraque; ou Israel, no Líbano.

Em meio à pior crise econômica desde os anos 1930s, o resto do mundo não agradecerá aos EUA e a Israel, se iniciarem um conflito que fechará o Estreito de Ormuz e mandará à estratosfera o preço do petróleo. Simultaneamente, a “desescalada” no conflito retórico parece também pouco provável, porque a ameaça do conflito interessa eleitoralmente a vários grupos, tanto em Washington e Telavive, quanto em Teerã. Norte-americanos, israelenses e iranianos, todos, identificam-se como salvadores messiânicos, em luta contra inimigos satânicos. Qualquer acordo que ponha fim à ameaça de conflito será sabotado, no plano político interno, nos EUA, em Israel e no Irã, como “pacto com o diabo”.

Acima de tudo isso, paira o fato de que os EUA perderam a influência que já tiveram no Oriente Médio, mas já não têm. Diga Biden o que disser, o Iraque foi completo desastre para os EUA. E, no Afeganistão, forças militares gigantescas produziram resultados políticos muito magros. Washington talvez festeje o fim de Muammar Gaddafi ou de Bashar al-Assad. Mas não há dúvidas de que os EUA perderam e continuam a perder a posição de liderança que tiveram na Turquia e no Egito, enquanto lá existiram ditadores e ditaduras militares.

A crise política provocada pelo Despertar Árabe em todo o Oriente Médio, não dá sinais de arrefecer. De fato, só dá sinais de intensificar-se, nas lutas pelo poder no Egito e na Síria. O resultado da guerra civil líbia poderia talvez estimular novas ações de intervenção estrangeira, mas a crise econômica torna cada dia mais arriscado, para os governos dos EUA e da Europa, qualquer tipo de envolvimento em guerras para as quais ninguém vê final à vista.

O grande sucesso do general David Petraeus como comandante dos EUA no Iraque foi ter persuadido muitos norte-americanos de que os EUA venceram as guerras nas quais foram derrotados. Também convenceu muita gente de que a guerra do Iraque havia acabado, porque diminuía o número de norte-americanos mortos, quando, na verdade, a guerra continuava. 

O veredicto do Iraque pairará como um fantasma sobre a política externa dos EUA ainda por muito tempo. A guerra do Iraque tem derrotados, mas o Iraque não é, tampouco, vencedor. Mesmo assim, a guerra do Iraque provou que força militar superior já não se traduz facilmente em vitória política.



Nota de tradução

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

EUA curvam-se ao Paquistão

11/1/2011, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu 


A visita repentina, não agendada, do vice-presidente dos EUA Joe Biden a Islamabad essa semana evidencia o embaraço e a ansiedade de Washington, que teme ser excluída de uma iniciativa regional com vistas ao processo de paz no Afeganistão que pode estar em vias de decolar. A rápida sequência de eventos da última quinzena surpreendeu Washington. 

Joe Biden
Houve muitos momentos díspares no relacionamento EUA-Paquistão ao dos últimos nove anos, desde a invasão norte-americana ao Paquistão. Mas a missão de Biden só pode ser comparada à visita a Islamabad de meados de outubro de 2001, pelo então secretário de Estado Colin Powell. Se a missão Powell foi seminal com vistas à invasão do Afeganistão pelos EUA, a missão Biden bem pode revelar-se um primeiro passo intimamente relacionado à semeadura de sementes de paz.

A rota que levou Biden a Islamabad começou em Istambul na véspera do Natal quando, como parte da iniciativa de Ancara iniciada há três anos, o presidente da Turquia Abdullah Gul hospedou um encontro de cúpula do fórum trienal que reúne além do presidente da Turquia, os presidentes do Paquistão e do Afeganistão, Asif Zardari e Hamid Karzai. Os turcos levam muito a sério o papel de mediadores e têm obtido relativo sucesso no trabalho de aproximar Kabul e Islamabad, como países vizinhos – missão na qual os EUA só conheceram repetidos fracassos. Nesse sentido, as credenciais da Turquia não podem ser subestimadas.

Um lar para os Talibãs

A Turquia é “aliada” de EUA, Rússia e Paquistão e há muito tempo amiga da China; mantém relações “normalizadas” com o Irã e a Arábia Saudita e é membro ativa da Organização da Conferência Islâmica; a Turquia reclama a herança “turca” da Ásia Central; Ankara mantém relação de equilíbrio com vários grupos afegãos e manteve uma linha aberta de contato com a liderança dos Talibãs no final dos anos 1990s; a Turquia é país membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), com forças que participam do contingente das Forças Internacionais de Assistência à Segurança [orig. International Security Assistance Force] e sempre se saíram bem; e a Turquia é generosa doadora de fundos para a reconstrução do Afeganistão. 

Istambul - Turquia
A política externa da Turquia passou a ser extremamente inovadora e ambiciosa. Ankara trabalhou muito para reunir Kabul e Islamabad e agora aspira a uma escalada audaciosa aos cumes do Hindu Kush. 

A Turquia está considerando a possibilidade de permitir a abertura de um “escritório de representação” dos Talibãs em território turco. Karzai diz que a ideia veio de “dignitários próximos dos Talibãs”. Seja como for, a ideia apareceu no encontro tripartite em Istambul, e Turquia e Paquistão manifestaram-se favoráveis. Interessante é que, até agora, os Talibãs tampouco manifestaram-se contra. 

O ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutglu disse depois da reunião que “Estamos prontos a corresponder a essas expectativas em todos os níveis. A Turquia acompanha de perto todos os passos. Estamos prontos para acompanhar, na Turquia, qualquer processo que interesse ao governo afegão e também estamos prontos a contribuir em processos que possam estar em andamento fora da Turquia.” 

Hamid Karzai
Pouco antes de Karzai deixar Kabul rumo a Istambul, mandou o presidente do Alto Conselho Afegão para a Paz [orig. Afghan High Council for Peace (HCP)] Burhanuddin Rabbani (ex-presidente) em visita a Teerã. Em apenas alguns dias, Teerã recebeu outro importante visitante afegão, Mohammed Fahim, figura chave na antiga Aliança do Norte e atualmente vice-presidente. (Curiosamente, um veterano “mão-afegã” de Moscou, Viktor Ivanov, ex-general da KGB que chefia hoje a agência russa anti-narcóticos, também chegou a Teerã no mesmo dia que Fahim).

Karzai obviamente sondou os iranianos sobre seu projeto de iniciar um diálogo intra-afegão. Mas a posição de Teerã parece ambivalente, embora as declarações sejam consistentemente no sentido de que a presença continuada de soldados dos EUA está agravando as tensões regionais. A visita de Fahim sugere que Teerã trabalha para manter abertas as opções. A recente discussão sobre o suprimento de petróleo iraniano para o Afeganistão sugere que haja algum atrito entre Teerã e Kabul. Kabul espera, em breve, a visita do poderoso presidente do Parlamento iraniano Ali Larijani. 

Antes de viajar a Teerã, Rabbani falou a uma grande assembleia-conselho (jirga) regional de paz em Nangarhar convocada pelo governo, com mais de 800 delegados de várias províncias do leste dominado pelos pashtuns, nas quais os Talibãs continuam ativos. Rabbani dirigiu-se aos Talibãs. “Esse é o seu país. O Afeganistão é o seu país. Claro que todos cometem erros. Temos de trabalhar juntos para corrigir os erros.” 

Loya Jirga de 30de dezembro de 2010
A Jirga decidiu que a reintegração dos Talibãs terá de ser feita conforme valores islâmicos. “Façamos o que fizermos, terá de ser baseado no Islã” – disse Rabbani. A Jirga tomou outra decisão importante: no processo de reconciliação, deve-se assegurar que os Talibãs tenham espaço para “negociar com companheiros afegãos, não com as forças da coalizão [liderada pelos EUA].” 

A virada paquistanesa

Depois que Karzai voltou de Istambul, as coisas aceleraram-se. Na última 3ª-feira, Rabbani liderou uma delegação de 25 membros que foi a Islamabad a convite do primeiro-ministro do Paquistão Yousuf Gilani. É virada significativa, pelo Paquistão, que, antes (como os Talibãs e o grupo Hezb-i-Islami), jamais deram grande importância ao Alto Conselho Afegão para a Paz. Evidentemente, Islamabad está reconsiderando posições assumidas antes.,

Verdade é que o chefe-geral do exército paquistanês general Parvez Kiani recebeu Rabbani em Rawalpindi na 4ª-feira. Os releases da imprensa oficial informavam que discutiram “temas de mútuo interesse”. O fato de Kiani ter empenhando o próprio prestígio é muito significativo.

O encontro em Rawalpindi indica apoio dos militares paquistaneses ao papel de liderança que Rabbani assumir em qualquer diálogo infra-afegão. Mas, muito mais importante que isso, inclui mensagem que chegou clara e alta a Washington – de que, com ou sem envolvimento dos EUA, e no caso bem provável de que em futuro próximo comece um diálogo, o Paquistão dará andamento a uma iniciativa regional que envolverá Karzai, porque não há tempo a perder e interessa a Washington aparecer na mesma página.

David Petraeus
O Paquistão criticou a estratégia de “avançada” [ing. surge], de David Petraeus no Afeganistão e recusou-se a assumir operações nas áreas tribais do Waziristão Norte, apesar de repetidamente ‘convocado’ pelos EUA.

Karzai não poderia ter escolhido melhor nome que Rabbani para iniciar o processo de paz. Rabbani tem antigos laços com os Talibãs que datam da jihad dos anos 1980s. Os contatos entre ele e o Paquistão são, de fato, ainda mais antigos, desde meados dos anos 1970s, antes da revolução comunista. Rabbani é intelectual islâmico muito conhecido nos círculos islâmicos no Paquistão, especialmente pela liderança dos partidos Pasand islâmicos, como Jamiat Ulema-e-Islam. Durante a jihad, Rabbani foi um dos “Sete de Peshawar” e manteve extensas negociações com militares e os serviços de inteligência paquistaneses.

Rabbani é também um dos principais líderes tadjiques que presidem o Jamiat-i-Islami, e é importante trazer os tadjiques para a discussão de qualquer acordo afegão. É veterano líder mujahideen e mantém ampla rede de contato com comandantes como Jalaluddin Haqqani que estão com os Talibãs. Rabbani pode ser muito útil para construir uma ponte pela qual figuras controversas como Jalaluddin possam trafegar rumo ao centro da política afegã, algum dia.

Tudo isso considerado, a decisão de Kiani, de apostar seu próprio prestígio em Rabbani pode ser vista como mudança significativa na estratégia do Paquistão.

Os EUA temem a “exclusão”


Frank Ruggiero
A velocidade com que Kabul e Islamabad estão construindo e implantando um diálogo intra-afegão pegou de surpresa os EUA. Os EUA ainda repetem que seria prematuro qualquer contato com os Talibãs. A missão de Rabbani em Islamabad, sobretudo, deve ter feito Washington saltar na cadeira. Os EUA não gostam de Rabbani por sua marcada tendência nacionalista-islâmica, por seus contatos intermitentes com o Irã e por seu virulento antiamericanismo, que Rabbani jamais se preocupou em esconder.

Washington sente que está sendo “excluída” em momento em que tantas coisas acontecem. Ironicamente, descobre que foi posta no mesmo barco que Teerã. O enviado especial dos EUA para o Afeganistão Frank Ruggiero imediatamente partiu para Islamabad na 3ª-feira, para tomar pé no rápido fluxo de eventos. Ruggiero foi recebido com muitas gentilezas, foi recebido por Kiani, mas tudo indica que o Paquistão não mudou os planos segundo os quais as conversações devem começar por contato com os Talibãs.

Imediatamente depois da viagem de Ruggiero, o presidente Barack Obama mandou Biden para Islamabad. A decisão de Obama, de escolher Biden como enviado, merece exame cuidadoso. Em poucas palavras, Biden tem repetido que o Talibã não representa qualquer ameaça real aos interesses da segurança nacional dos EUA; e que um meio de por fim à guerra seria negociar com ele.

Petraeus, por outro lado, espera poder intensificar as operações militares para enfraquecer os Talibãs a ponto de pô-los de joelho, reduzidos à condição de aceitar qualquer paz, sejam quais forem os termos, que os EUA lhes imponham. Petraeus trabalha com objetivos de longo prazo. Biden tem muita pressa.

Poucos acreditam, dentro do establishment de segurança dos EUA, no que diz Petraeus sobre sua estratégia estar começando a dar resultados. Ao nomear Biden para chefiar a missão em Islamabad, Obama parece estar sinalizando que mantém abertas outras vias.

Ali Asif  Zardari
Zardari visitará Washington essa semana, ao mesmo tempo em que Biden partiu às pressas para Islamabad. Essa estranha movimentação de “duas mãos” mostra bem a profundidade da ansiedade nos EUA ante o afrouxamento dos laços EUA-Paquistão e ante a evidência de que o interlocutor chave é Kiani. O assassinato do governador da província paquistanesa do Punjab, Salman Taseer, e as ondas de pós-choque que provocou na sociedade e na política do Paquistão só tornaram as águas ainda mais turvas, e fazem aumentar a ansiedade, na Casa Branca, sobre o rumo que tomaram as relações EUA-Paquistão, nos últimos meses.

Considerados os briefings distribuídos por vários altos funcionários do governo, o Washington Post assim resumiu os principais elementos da missão de Biden:

– Biden procurará uma “troca franca de ideias sobre visão e prioridades” com Kiani, sobre o fim da disputa no Afeganistão e “a estratégia de longo prazo para a região”.

– Os EUA não devem exigir início imediato de operações militares paquistanesas no Waziristão Norte.

– Biden afirmará categoricamente que os EUA não têm intenções de escalar nas operações militares além-fronteira em território paquistanês. 

– Biden verificará com certeza quais são as necessidades, expectativas e exigências que o Paquistão espera ver atendidas em troca de mais ampla cooperação na guerra. 

– Os EUA oferecerão novo pacote de assistência, com elementos militares, de inteligência e econômicos.

– Os EUA reforçarão a presença militar no lado afegão da fronteira com o Paquistão e intensificarão os acordos de cooperação e partilha de inteligência com o Paquistão, sobre as atividades da Índia no Afeganistão.


Barack Obama
O mesmo Washington Post chamava a atenção para “mudança significativa no pensamento do governo dos EUA” e para a inclinação de Obama na direção de unir-se ao processo de paz e reconhecer que o Paquistão tem “papel importante” a desempenhar, “senão papel dominante”, nas conversações de reconciliação com os Talibãs.

No fundo, o que Washington está fazendo é tentar converter em virtude e mérito dela, o que faz por imperiosa necessidade – o que fazem quase sempre os bons políticos. Em termos ideais, os EUA só desejam que o Paquistão contribua vigorosamente para o esforço de guerra dos EUA. 

Mas o “coração da matéria” é que, se e quando as conversações intra-afegãos ganharem ímpeto, brotadas de uma iniciativa regional de Afeganistão, Paquistão e Turquia (e, talvez, com a aquiescência do Irã), toda a posição dos EUA naufragará.

M K Bhadrakumar
O governo Obama estará reduzido à posição absurda e insustentável, de insistir cegamente em continuar uma guerra que nem o povo afegão nem as potências regionais desejam. 
  
Embaixador*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União  Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.