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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Mércia Albuquerque, advogada eterna



Publicado em 31/01/2013 por Urariano Motta*

Recife (PE) - Em 29 de janeiro, fez 10 anos a morte da advogada Mércia Albuquerque. Não sei se foi por isso, mas nos últimos dias a sua presença voltou com uma força que eu não imaginava. Tornou-se impossível fugir da sua pessoa em cada linha ou leitura que eu fazia. Por isso lembro.

Rua Sete de Setembro, 197, Edifício Ouro. Na década de 70, era para lá que rumávamos. Entrávamos no edifício sem olhar para trás, rápido, como se ladrões fôssemos, como se fôssemos criminosos, como se já estivéssemos no Chile de Pinochet e ali penetrássemos para nos salvar em uma embaixada. Ali, no apartamento 52 do Edifício Ouro, uma mulher de estatura média, de olhos abrasantes, nos atendia.

“Advogada Mércia Albuquerque, presente”. Não eram essas as palavras, não era bem assim que ela nos vinha, mas era exatamente esse o ar, que a sua presença nos sugeria. “Descansem. Eu estou presente. Sim, eu conheço esses milicos. Essa canalha do DOPS eu já sei como age. Descansem, vocês estão em casa”. Não lembramos bem se essas eram as palavras, se algum dia ela assim se expressou, mas sentimos que do seu corpo frágil, agitado, andando pela sala do apartamento, sem se sentar, vinha a insinuação delas. “Tranqüilizem-se, se fizermos a denúncia, a vida dele está salva”. Elétrica, agitada, e no entanto nos dava uma grande calma.

Agora que ela não mais habita no Edifício Ouro, agora que seu corpo se acha definitivamente ausente, agora que superamos a ditadura, nesta altura em que ficou fácil ser democrata, ah, o factual, o seu currículo de advogada de perseguidos políticos, de presos torturados, tudo isso tende a se fundir em versões e esquecimento. Não sabemos se é sempre assim quando a gente se ausenta, mas de Mércia fica uma impressão íntima, uma forma de orquídea violeta que não sabemos de onde nem por que nos vem. Agora mesmo, enquanto digito estas mal traçadas, a voz de Bienvenido Granda me chega insistente aos ouvidos, embora em torno só haja o tique-taque do relógio no silêncio da madrugada. “Egoísmo” é o bolero que nos chega, não sabemos por quê.

E no entanto sabemos a razão, ou pelo menos desconfiamos do porquê. A doutora Mércia Albuquerque era um ser passional. É isto o que a violeta roxa, na voz de Bienvenido Granda, quer me dizer. Mércia, mal saída da universidade, resolveu defender Gregório Bezerra porque o viu arrastado por uma corda ao pescoço em 1964, em Casa Forte. Mais tarde, ao se tornar advogada de Abelardo da Hora, um comunista e escultor fundamental, ela abrigou os filhos de Abelardo no apartamento 52 do Edifício Ouro. Ao ser sequestrada por agentes do DOPS, foi atirada de volta na Rua da Guia, que, à época, era a última e mais miserável rua do bairro de putas do Recife antigo. Ali, ela recordaria depois, recebeu dinheiro e solidariedade de uma prostituta que atendia pelo nome de Biscuit. Defensora de radicais materialistas, de jovens socialistas ou de jovens simplesmente desesperados, sem saída, era, ela própria, católica, até meio mística, e nisso não via nada que fosse obstáculo à defesa daqueles “terroristas”, como os difamava a propaganda da ditadura militar.

Ninguém passa imune pela luta e drama desses jovens, até hoje. Em 29 de janeiro de 2003 a doutora Mércia foi ali e não voltou, vítima de um câncer que lhe devastou o ovário. Ainda que esse câncer sintomático lhe tenha minado a vida, traiçoeira e silenciosamente, não foi bem essa infâmia que a matou. Pois foi a esta mulher, tantas vezes presente nas aflições dos perseguidos políticos, que tanto perigo correu por defender “terroristas”, que presa 12 vezes sem culpa, sem inquérito, sem acusação formal, como de resto se continua a fazer com os pobres e miseráveis do Brasil, que conviveu com a destruição física e humana de militantes, e também com o heroísmo imenso desses torturados, pois foi a esta mulher que parecia ter flertado com a eternidade, porque tantas vezes esteve perto do fim e dele se safou e o pulou como acrobata, pois foi a esta mulher que a morte colheu numa mesa de operações! A causa mortis apontou parada cardíaca.

Para uma advogada passional, para uma mulher que lembrava a rara orquídea roxa, faz sentido uma morte assim, de parada no coração. A vida da gente é estúpida, é certo, mas ao fim sempre guarda algum sentido. Um sentido que não sabemos se conseguimos realizar, doutora, neste espaço curto, nesta lembrança curta de quem a viu uma vez, mas jamais esqueceu de que seus olhos queimavam na gente feito urtiga.
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Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O cabo Anselmo e Soledad Barrett



Publicado em 24/05/2012 por Urariano Motta*

Recife (PE) - A Comissão de Anistia teve esta semana uma sessão histórica, daquelas que fazem a gente dizer “um anúncio distante de justiça se faz na terra”. Na terça-feira, quando se negou qualquer reparação para o cabo Anselmo, os crimes do agente infiltrado voltaram à tona e, com eles também voltou o nosso livro “Soledad no Recife”, publicado pela Boitempo.

Divulgo aqui uma página do livro, escrito sob uma pesquisa histórica, documental, de tal modo que difícil nele é separar o factual da imaginação literária. A página a seguir fala do horror e da surpresa de Soledad, ao descobrir entre os policiais a cara do marido, o agente duplo a quem amava:  

A cara de Anselmo, no conjunto dos sinais, Soledad não via. Não tanto porque a desconfiança nunca lhe houvesse batido à percepção. Mas porque isso era tão horrível, que o seu senso estético repugnava. Uma coisa que o seu peito de justiça não queria nem podia aceitar. E recuava, no mesmo passo em que os indícios cresciam. Mas o Cartório de Registro dos Sonhos existe, ainda que fora do domínio civil de uma cidade. Ele existe ao lado dos lugares onde se bebe, come-se e se morre. Os seus documentos, se não têm efeitos legais, recuperam no real os direitos. Os sonhos, quando muito fortes, os pesadelos, quando inescapáveis, tornam-se tangíveis. Houve então um momento em Soledad, houve um espaço e lugar nas suas antevisões, em que se passou do antes para o agora, sem mediação para o horror que jamais havia se apresentado com a sua cara. Nas  representações anteriores, nos indícios, não se mostrava assim tão claro.    

- Por quê? Por quê?!

A pergunta que Soledad não se fizera diante das imagens que a perseguiam nos últimos meses, por quê?, qual a razão delas, agora à luz do dia em Boa Viagem, em uma butique da ensolarada praia de Boa Viagem, aonde ela foi para vender roupas, onde ela está com  Pauline, ali, sob a prazenteira luz física do Brasil, a pergunta pelas razões dos sonhos e pesadelos que ela não se fizera, agora vêm com um susto, um terror, diante do real bruto. José Anselmo dos Santos se encontra entre os homens que lhe batem na cabeça com armas e punhos.

- Por quê? Por quê?

Pauline está muda e petrificada, incapaz de correr e falar. Soledad olha para os olhos do homem que pensara ser o seu companheiro, e isso, essa realidade, o pesadelo por guardar uma altura ética jamais mostrou. O pesadelo fora incapaz de exibir toda a crueza. Anselmo não sorri agora, sorrirá depois, quando lhe perguntarem

- Você dorme bem?

- Putz, tranquilamente. 

Ou mais textualmente:

- Você dorme tranquilo? Nunca sentiu pesadelo durante a noite? Não tem remorso pelo que fez?        

- Absolutamente (risos)....

Por enquanto, não, agora na butique em Boa Viagem ele não ri, embora a cena lhe pareça um tanto cômica.

- Por quê? Por quê?

Ele apenas assiste ao espancamento e suplício. Como uma prova de que é contra esses terroristas.

“Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério.... em um barril estava Soledad Barret Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto”.

Quando Mércia Albuquerque declarou essas palavras, não era mais advogada de presos e perseguidos políticos. Estava em 1996, 23 anos depois do inferno. Mércia estava acostumada ao feio e ao terror, ela conhecia há muito a crueldade, porque havia sido defensora de torturados no Recife. Ainda assim, ela, que tanto vira e testemunhara, durante o depoimento na Secretaria de Justiça de Pernambuco falou entre lágrimas, com a pressão sanguínea alterada em suas artérias. Dura e endurecida pela visão de pessoas e corpos desfigurados, o pesadelo de 1973 ainda a perseguia: “Soledad estava com os olhos muito abertos, com uma expressão muito grande de terror”.

No depoimento da advogada não há uma descrição técnica dos corpos destruídos, derramados no necrotério. Mércia Albuquerque é uma pessoa se fraterniza e confraterniza com pessoas. “Eu fiquei horrorizada. Como Soledad estava em pé, com os braços ao lado do corpo, eu tirei a minha anágua e coloquei no pescoço dela”. Distante dos manuais exatos da Medicina Legal, a advogada Mércia não se refere a cadáveres, mas a gente. Chama-a pelos nomes, Pauline, Jarbas, Eudaldo, Evaldo, Manuel, Soledad. Recorda a situação vexatória em que estavam – porque eram homens e mulheres – despidos. O seu relato é como um flagrante desmontável, da morte para a vida. É como o instante de um filme, a que pudéssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cadáveres a pessoas, retornássemos à câmara de sofrimento. “A boca de Soledad estava entreaberta”.   

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contosem Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação