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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O porquê do desprezo de Serra pelas mulheres

Mauro Carrara

Nesta eleição, com em nenhuma outra, as mulheres foram desprezadas, ofendidas e humilhadas. Sem qualquer constrangimento, as forças conservadoras reativaram mitos e preconceitos que julgávamos sepultados há pelo menos 30 anos.

Nessa cruzada dos vanguardeiros do atraso, assistimos surpresos aos dramas encenados por um candidato à Presidência da República.

O teatro de agressões culminou com a exortação do comício em Uberlândia (MG), em que o candidato neoliberal misturou política com cafetinagem e tentou converter o processo eleitoral em um esquema de concessão negociada de favores femininos.

Sem ruborizar, determinou José Chirico Serra:

- Se você é uma menina bonita, tem que conseguir 15 votos. Pegue a lista de pretendentes e mande um e-mail. Fale que quem votar em mim tem mais chance com você.

Difícil imaginar uma mulher de bem, um pai, um irmão ou um avô que aprove o método de José Serra. Aliás, difícil conceber que o cidadão não se cubra de indignação diante desse episódio.

Sintomaticamente, Serra pronunciou essas palavras ao lado de Aécio Neves, conhecido por resolver na porrada suas diferenças com as namoradas. No entanto, essa foi apenas mais uma de tantas agressões à mulher, durante um transe em que o tucano não poupou a própria família.

Sabe-se que sua mulher, Mônica, praticou um aborto, tempos atrás. E desolada comunicou o fato a suas alunas na Unicamp. Obviamente, não convém apresentar julgamento sobre as razões da mulher do ex-governador paulista.

Estarrecedor foi o empenho de Serra em converter o tema no pilar de sua campanha. A hipocrisia é condenável. Mas ainda é a construção de um argumento que certamente feriu a esposa, compelida a recordar episódio doloroso de sua biografia.

Os esquemas de golpismo midiático do candidato envolveram a própria filha. Ao utilizar com propósitos eleitorais as quebras de sigilo encomendadas por seu "aliado" Aécio, o candidato expôs Verônica Serra de forma pública.

Nessa manobra, permitiu que a boa imprensa revelasse o escândalo da quebra de sigilo de quase 60 milhões de brasileiros, em 2001, malfeito da Decidir.com, empresa que tinha entre seus donos Verônica Serra e Verônica Dantas Rodenburg.

No contato com imprensa, Serra costuma desrespeitar as jornalistas. Um exemplo foi o barraco que armou antes da gravação do programa Jogo do Poder, da CNT. Inconformado com o fato de não poder definir, ele próprio, a pauta de perguntas, o candidato não poupou grosserias para intimidar a jornalista Marcia Peltier

Serra lida tão mal com as mulheres que chegou a protagonizar discussão acalorada até mesmo com uma aliada da imprensona, a jornalista Mirian Leitão, que sugeriu ser uma lobista do setor financeiro. Para completar, classificou a pergunta da profissional sobre a gestão do BC como "bobagem".

Não é preciso rememorar os inúmeros questionamentos enviesados de Serra sobre a competência de Dilma Rousseff. Em tom de sutil deboche, o tucano sugere que adversária seja incapaz, e que no comando do país será um fantoche do homem Lula.

Percebe-se claramente essa postura na construção obliqua de suas frases, na impostação de voz e nas demonstrações de desprezo que se revelam nas flexões de canto de boca.

Pode-se cogitar de que essa conduta seja resultado da influência dos fanáticos de extrema-direita que compuseram o agressivo e criminoso batalhão eleitoral de Serra: a TFP, a Opus Dei, a ala conservadora da CNBB, os monarquistas e os gestapo-boys da Tribuna Nacional.

Uma análise mais detalhada da trajetória política do candidato, no entanto, indica o contrário. Registram-se em sua biografia inúmeros eventos que revelam inequívoca tendência à ginofobia. Nesse caso, parece natural que Serra tenha se aproximado desses bandos. Pelo menos nisso, exibiu coerência.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

As mulheres decidem, e podem se orgulhar

Por Sulamita Esteliam
Encontro Rede Mulher em Comunicação em Maragogi/AL, promovido pelo Centro de Mulheres do Cabo/PE - 22 e 23 de outubro de 2010. Foto Paulo Lopes
Nós mulheres somos mais da metade da população brasileira: 51,3%, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/2007. De há muito ocupamos as universidades – 57% das matrículas no ensino superior. No mercado de trabalho, também, beiramos a metade: 49,7% da população economicamente ativa, pelos dados de 2009 do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Podemos, sim, governar um país. E devemos nos orgulhar de termos essa oportunidade, ainda rara no mundo.
 
Comandamos nossos lares, não apenas como mães, donas de casa, cuidadoras: 65,8% das mulheres casadas contribuem com 40,9% das despesas dos lares, ainda segundo o IPEA. A cada ano, mais e mais mulheres são responsáveis pelo sustento de suas famílias: na classe C, esse percentual chega a 32%; nas classes A e B, 25%. Ombro a ombro com os homens ou sozinhas, somos cada vez mais protagonistas de nossos destinos.

Ganhamos salários menores que os homens, mesmo em funções idênticas. Somos minoria, ainda, nos cargos de direção, postos executivos, públicos e privados, legislativos, judiciários, sindicais, religiosos. Ainda reclamamos parceria na dupla, tripla jornada.

Não obstante, estamos a um passo da Presidência da Republica. Só depende de nós. Afinal, somos a maior parte do eleitorado: 51,8%, de acordo com o TSE – Tribunal Superior Eleitoral.


Amassamos barro, manejamos enxadas, rodos e vassouras. Pilotamos fogão, tanques e máquinas de lavar. Mas também dirigimos empresas, clínicas, hospitais, escolas, hoteis, mercados. Comandamos obras, redações, linhas de produção, veículos individuais e coletivos – lares, templos, terreiros e bordeis. Brilhamos nos palcos das artes e da vida.

Nos perdemos e nos achamos em meio a fraldas, livros, cuecas, computadores, laços, tratores,  espinhas, terços, cólicas,  textos, véus, tintas, cálculos, desejos, culpas e odores – redes, humores e lençóis. Sangramos, regularmente. “Bicho esquisito”, já cantou Rita Lee.

Parimos. “Somos metade da humanidade e mãe da outra metade”, ecoa a frase de uma líder comunitária recifense, há coisa de 10 anos.  Somos mãe, e isso é sublime, quando temos o direito de escolha. Nosso existir vale mais do que querem nos fazer crer o moralismo obsceno e o fundamentalismo conveniente. Também temos o direito ao cuidado da vida.

Semeamos. Esperneamos. Plantamos. Regamos e colhemos. Pintamos e bordamos. Muitas vezes, tudo ao mesmo tempo: somos estéreo – múltiplos canais para diferentes ressonâncias. Talvez por isso, nos traduzam anjas ou demônias – trôpegas, loucas, absolutas. Quem não é?

Mulher assertiva é autoritária, agressiva? Ou é fêmea que se impõe num mundo onde o macho sempre deu as cartas? “Mulher que nega, nega o que não é para negar”? Ou valoriza o direito de ser senhora dos seus próprios caminhos.

Há quem ache que mulher pode, no máximo, ser sindica de prédio. Claro, miss simpatia, também. O estereótipo da imagem não sustenta nossa realidade. Nosso cotidiano é faina. Nosso tecer é teia delicada, muitas vezes, nas dobras do talvez. Ainda assim seguimos adiante, dominamos nossos medos, galgamos escarpas, construimos trilhas – passo a passo.

Somos de Vênus, sim. Mas também somos de Marte. Navegamos conforme a maré. Todavia,  sabemos nadar contra a corrente, contornar obstáculos, feito o rio que traça seu próprio curso. Temos mãos que afagam e pulso que sustenta.
Por que não podemos governar um país?


Minha geração levou duas décadas para poder votar para presidente da República. Vivenciamos  o obscurantismo da negação da nossa cidadania por 21 anos. Esta reles escriba faria 29 anos quando votou para governador pela primeira vez, em 1982. Fomos para as ruas na campanha das diretas, muitas de nós empurrando carrinhos de bebê ou com filhos no colo e/ou pelas mãos. Nas camisetas, o fato: Minha mãe (Meu pai) nunca votou para presidente. Diretas, JÁ!

Só conquistamos o direito de escolha cinco anos depois, em 1989.

A nova geração de mulheres brasileiras vive outro tempo, outra realidade. Quem tem hoje 17 anos, como minha caçula, pôde dar seu primeiro voto para uma mulher, no primeiro turno destas eleições.

Melhor, meninas de todas as idades puderam optar entre duas mulheres. Não duas mulheres quaisquer, porque mulheres existem de diferentes matizes. Mas duas mulheres forjadas na luta, na defesa dos direitos democráticos e da cidadania plena. Uma delas se tornou a mulher mais votada de todos os tempos no Brasil, quiçá do Planeta – por livre expressão da vontade popular.


Estamos a dois passos de decidir os destinos da Nação, numa segunda oportunidade de escolha. Um gesto, aparentemente, simples, mas de profundo impacto no futuro de várias gerações.

Há dois projetos, bem distintos, em disputa. E ainda há muito o que fazer para o Brasil se tornar um país mais justo e igualitário, um país com oportunidades reais para todos seus filhos e filhas. Podemos avançar ou retroceder.

Nós decidimos.

Sobretudo, as mulheres decidem. Não fujamos de nossa responsabilidade. Antes, dela nos orgulhemos.


Extraído do blog A Tal Mineira