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domingo, 26 de junho de 2011

Humala e Cabral, dois extremos


Publicado em 26/06/2011 por Mário Augusto Jakobskind

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre as transformações que estão a ocorrer no continente americano, o vizinho Peru pode servir de exemplo concreto sobre este novo tempo que desagrada os setores conservadores. Até bem pouco tempo, a Aliança Popular Revolucionária Americana, mais conhecida como Apra, o partido do atual Presidente Alan Garcia, mandava e desmandava. Mas nas últimas eleições teve um resultado pífio só conseguindo eleger quatro deputados. Ou seja, nem poderá formar um bloco parlamentar e consequentemente não terá forças para continuar dando as cartas políticas, como fazia anos atrás.

O partido de Alan Garcia tem raízes históricas, mas nem por isso conseguiu sobreviver aos novos tempos no país, que acabou resultando na eleição de Ollanta Humala. Vinculado à socialdemocracia, que hoje passou a ser uma linha auxiliar dos apologistas do esquema neoliberal e do deus mercado, a Apra colheu os frutos de sua prática, imaginando sempre que o processo político é imutável.

O exemplo peruano deve servir de reflexão não apenas para cúpulas partidárias que sucumbem à burocracia, transformando as suas agremiações políticas em meros departamentos cartoriais, como a políticos que imaginam estar acima do bem e do mal. No Brasil já temos exemplos, sobretudo à direita, mas de alguns partidos de esquerda, ou que se julgam de esquerda, embora nos últimos tempos venham adotando práticas diferenciadas do que defendiam antes.

Em termos regionais, o exemplo mais elucidativo está a ocorrer no Rio de Janeiro, onde partidos que se consideram de esquerda apoiam um governador, Sergio Cabral que reprime violentamente bombeiros que ganham salários de fome e ainda por cima concede as maiores facilidades para empresários em troca de favores especiais.

Já se imaginava que isso acontecia, embora a opinião pública estivesse iludida, como nas eleições de outubro do ano passado, quando sufragou Cabral por maioria absoluta. Agora, depois de uma tragédia em que morreram sete pessoas na queda de um helicóptero na Bahia, caiu a máscara. Isso tem um nome: promiscuidade. Ou será que tem outra denominação o fato de um governador estar usufruindo das benesses de um empresário, como Fernando Cavendish, proprietário da construtora Delta, a empreiteira responsável pela reforma milionária do Maracanã em associação com as do mesmo ramo Odebrecht e Andrade Gutierrez?

Escondendo o jogo, como faz sempre, Cabral foi a Bahia para participar de uma festa milionária de Cavenish, a quem presta favores. E o que dizer em pegar carona a hora que quiser no avião do trilionário Eike Batista? O empresário e o governador acham isso perfeitamente normal.

Há denúncias segundo as quais o governo Sergio Cabral está fazendo obras no Estado sem concorrência pública, o que mereceria pelo menos uma investigação mais apurada da Assembleia Legislativa e do Ministério Público.

Em outros países, por muito menos,  governos caíram porque os chefes do Poder Executivo se envolveram em jogadas prejudiciais ao Estado.

Cabral tem maioria na Assembleia Legislativa e dificilmente se conseguirá algum tipo de ação, salvo se a opinião pública se mobilizar e exigir, pois, afinal de contas, o Estado é responsável em gerir os impostos arrecadados de honestos cidadãos contribuintes.

O momento é grave. O Rio está na antevéspera de dois megaeventos que vão lidar com muitos milhões. Tudo agora gira em torno disso, inclusive no âmbito da Prefeitura, onde o alcaide Eduardo Paes está aprontando, como, por exemplo, promovendo  remoções de favelas que não estão em área de risco, mas são cobiçadas pela especulação imobiliária há tempos. O Morro dos Prazeres, em Santa Tereza, que o diga. E perguntem também que grupos econômicos apoiaram Paes.

Aliás, que pouca sorte tem o Rio de Janeiro. Depois de um Cesar Maia aparece um Paes. E um Maia que responde na Justiça pelo que foi feito na Cidade da Música, na Barra da Tijuca, que ainda por cima ganhou o nome de Roberto Marinho, um cidadão acima de qualquer suspeita, mas que em nenhum momento teve algum envolvimento com a música, seja clássica ou popular, salvo as editorias de cultura de seus meios de comunicação.

Maia imaginava que colocando o nome do finado proprietário das Organizações Globo poderia tudo que fez de errado ficar por isso mesmo. Mas como as denúncias se avolumaram, Cesar Maia terá de responder na Justiça as acusações de ilegalidades cometidas  na Cidade da Música.

O Rio de Janeiro, claro, merecia coisa melhor, mas como a região historicamente sempre primou pela resistência, embora nos últimos tempos, Cabral, Paes e antes Maia, para não falar em tempos mais distantes de Moreira Franco e Marcelo Alencar, que ocuparam o espaço político, transformando a área em uma verdadeira vergonha nacional, não se descarta que em algum momento o povo desperte e exija que sejam tomadas providências enérgicas para acabar com o atual estado de coisas. O integral apoio popular aos bombeiros vitimados por Cabral foi um aviso,.

No Peru, o esquema meliante de Fujimori foi derrotado nas urnas e o partido de Alan Garcia, que apoiou a filha do ex-Presidente, a Keiko Fujimori, sofreu um revés sem precedentes históricos, que não imaginava poderia acontecer. Nos tempos de transformações porque passa o continente americano, não pode mais haver lugar para tipos como Alan Garcia, Alberto Fujimori, Cabral, Paes, ou Maia, muito menos para Moreira Franco, que virou Ministro de Assuntos Estratégicos, embora já se conheça há tempos que tipo de estratégia ela adota no seu fazer político.

Ah, sim, neste time fica faltando o chileno Sebastián Piñera, que conseguiu se eleger depois da falência do esquema da Concertación, mas, segundo as pesquisas, já é repudiado pela maioria da população.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Peru: mais respeito aos fatos e à democracia

Max Altman

Confirmada a vitória eleitoral de Ollanta Humala, os grandes meios de comunicação internacionais e brasileiros estamparam seu sentimento com manchetes e matérias em duas direções: “mal menor e reação do mercado.

O povo peruano não votou majoritariamente no mal menor entre Humala e Fujimori. Elegeu conscientemente Ollanta Humala como seu presidente.

Já em 2006, Humala saiu à frente no primeiro turno contra Alan Garcia, obtendo 30,6% contra 24,3%.

No segundo turno, contra tudo e contra todos, com frágil base partidária, isolado e sem poder montar alianças, perdeu para Garcia por 52,6% contra 47,3%.

Desta vez, contando com o apoio dos partidos de esquerda e seu próprio Partido Nacionalista melhor estruturado, Ollanta obteve no primeiro turno contra quatro fortes opositores -- Alejandro Toledo, ex-presidente; Pedro Pablo Kuczynski, ex-ministro e apoiado pelo empresariado; Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori; Luis Castañeda, ex-prefeito de Lima -- robustos 31,7%. Ou seja, insistentemente um terço do eleitorado votava por um bem maior.

No segundo turno, conquistando adesões de setores da classe média e de personalidades políticas, alcançou a vitória com 51,5% contra 48,5% de Keiko.

O voto consciente evidenciou-se também nas eleições parlamentares, que se feriram no mesmo dia do primeiro turno: a coalizão Gana Peru de Humala, de um parlamento unicameral de 130 assentos, obteve 47 cadeiras, tornando-se o maior agrupamento partidário, majoritário, embora com maioria relativa; a Fuerza 2011 de Fujimori, 37; Peru Posible de Toledo, 21; Alianza por El Cambio de PPK, 12; Solidaridad Nacional de Castañeda, 9; APRA de Alan Garcia, 4.

Quanto à reação do mercado, em especial dos especuladores, não passa de terrorismo econômico. Como o foi o anúncio de que latas de leite irão escassear nos supermercados. A postura da mídia, ao destacar a voz do mercado, simplesmente reflete os interesses das classes dominantes, ao mesmo tempo em que adverte como vão atuar: está bem, você ganhou, mas as regras do jogo nós é que estabelecemos. Quando os privilégios dessa gente, que vive apregoando seu amor à democracia, à liberdade, aos direitos, são ameaçados, mandam às favas todos esses valores, dão as costas à voz do povo, partem para a violência institucional.

Todos os meios de comunicação de massa, impressos, televisivos e radiofônicos do Peru, com exceção do jornal La Republica, tudo fizeram para impedir o triunfo de Humala.

O diário centenário El Comercio, porta-voz das elites locais e que detém uma poderosa rede de mídia, assumiu com total desfaçatez o papel de partido político anti-Humala, distribuindo sem cerimônia as mais grosseiras calúnias e infâmias contra o candidato da coligação Gana Peru, batendo na tecla de sua ligação íntima com o presidente Chávez e praticamente orientando ideologicamente a campanha eleitoral de todos os demais concorrentes.

Enfim, um exemplo acabado de campanha suja.

Também não é segredo para ninguém que o Departamento de Estado desencadeou todo um esforço político, financeiro e de propaganda para evitar que alguém de fora do establishment assumisse a presidência.

Estamos falando, por exemplo, de Roger Noriega, conhecido homem-forte da diplomacia norte-americana para a região, que “denunciou” ter Humala recebido 12 milhões de dólares de Chávez para financiar sua campanha. E da CNN. Quem assistiu à entrevista da âncora Patrícia Janiot com Humala presenciou uma bateria de perguntas, na verdade interrogatório, que expressavam as preocupações de Washington. Alan García também não foi um mero espectador. Valeu-se da máquina do Estado para engrossar a campanha direitista com o fim de derrotar Humala.

Muito se fala do sucesso do crescimento econômico do Peru que na última década alcançou a média de mais de 7% ao ano. Um verdadeiro milagre peruano. Não deixa de ser expressivo, apesar do milagre, de o Peru não ter conseguido reduzir a pobreza e a extrema pobreza nem a desigualdade social, tampouco enfrentar a lógica da acumulação capitalista que gera a concentração da riqueza e polariza a sociedade. A participação salarial no Peru é de 22 por cento do PIB contra cerca de 44 por cento no Brasil. A porcentagem de trabalhadores informais é extraordinariamente alta, mais da metade da força de trabalho.

Aqui cabe a pergunta: o que quer dizer milagre econômico?

Altos índices de crescimento a ditadura militar brasileira conseguiu alcançar também, ao lado uma perversa distribuição da riqueza o que levou o Brasil a ser um dos países mais desiguais do mundo.

Agora, se esse milagre significa vultosas rendas das grandes corporações mineiras, do sistema financeiro e das empresas multinacionais então o neoliberalismo existente no país incaico está sendo certamente bem-sucedido.

Contudo, se o sucesso significar inclusão social, distribuição de renda, justiça social, qualidade de vida para as grandes massas, independência econômica, proteção ambiental, em suma o bom viver segundo a expressão dos povos originários, o milagre peruano é um rematado fracasso. Pois foi essa grande massa de trabalhadores pobres oprimidos, o fator essencial da vitória de Ollanta Humala.

No momento em que a reação e o império tentam passar ao contra-ataque, com insólita agressividade, a vitória de Humala muda notavelmente o cenário geopolítico regional em sentido contrário aos interesses da Casa Branca.

De imediato, a Aliança do Pacífico conformada por países com governos de direita, México, Colômbia, Peru e Chile, persistentemente alinhavada por Washington com o fim de se contrapor à UNASUR e à Alba, perdeu uma de suas duas peças vitais para o controle da Amazônia.

Reforça-se o clima de transformação política e social que se iniciou em nossa região nos últimos anos do século passado, visto que consolida um grande bloco de países progressistas e revigora a UNASUR e todos os organismos regionais independentes, como o Banco do Sul e o Conselho de Defesa Sulamericano.

Entretanto, Ollanta Humala se verá diante de severos desafios. A batalha contra a direita peruana será obstinada e feroz em todos os terrenos.

No plano político, o primeiro grande desafio será o de consolidar a governabilidade, montando em bases programáticas uma maioria sólida no parlamento. E, principalmente, ampliar sua base social em organizações e setores populares ainda distantes e em fatias da classe média, a par de consolidar a frente política que seu partido formou com os partidos de esquerda e centro-esquerda.  

No terreno governamental, iniciar com vigor programas de inclusão social sem desarrumar a economia.

Como fazê-lo, porém, num país em que a carga tributária é de míseros 15 por cento do PIB? Como pode o Estado com isso ser indutor do desenvolvimento com distribuição de renda?

A taxação dos lucros extraordinários das mineradoras não será suficiente. Havia um imposto sobre transações financeiras, instituído em 2002 para financiar a educação no Peru, cuja meta de dispêndio deveria ser 6 por cento do PIB. Esse imposto foi reduzido no governo Toledo porque distorcia o mercado. Poderia ser recuperado.

Sem recursos, Humala terá as mãos atadas para cumprir o programa anunciado nos palanques e nas ruas.

Ollanta Humala, no entanto, é um líder combativo e honrado que há muito vem denunciando as injustiças que se praticam contra o povo peruano.

Há razões de sobra a alimentar as esperanças de que será fiel aos compromissos e ao povo que o elegeu.

enviado por Max Altman em 09 de junho de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

Um continente que se move

 

Publicado em 17/04/2011 – por Mário Augusto Jakobskind

As atenções na semana que passou estiveram voltadas para a América Latina, em especial Peru, Uruguai, Argentina e Brasil. No Peru, conforme indicavam as pesquisas ganhou no primeiro turno o candidate nacionalista Ollanta Humala (foto) com pouco mais de 31%  dos votos, seguido de Keiko Fujimori com cerca de 22% dos 20 milhões de eleitores.  

Os demais candidatos, dos vários segmentos da direita ficaram para trás,  e um deles, exatamente o que teve apoio da Embaixada dos Estados Unidos, Pedro Pablo Kuzynsky, que além de peruano tem a nacionalidade estadunidense, em sua primeira declaração após a derrota eleitoral acusou Humala de ter recebido financiamento do Presidente venezuelano Hugo Chávez na campanha. É o típico choro de derrotado. Kuzynsky naturalmente era também o preferido das multinacionais.

Keiko Fujimori, como se sabe, é filha do ex-Presidente Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos e corrupção, e pretende indultar o pai e todos os implicados na justiça nos dez anos de mandato do referido. Além disso, há evidências fortes segundo as quais a candidata que disputará o segundo turno a 20 de junho próximo recebeu ajuda substancial de um grupo, conhecido como Paredes, mafioso e que se locupleta com o tráfico de drogas. Empreiteiras brasileiras como a Camargo Correa e a Queiroz Galvão também doaram dinheiros para a campanha de Keiko.


É possível que Keiko venha a ter o apoio de candidatos que a acusavam no primeiro turno. Afinal de contas, entre Keiko, que teria recebido 10 milhões de dólares do grupo mafioso que se apresenta como do setor mineiro, segundo as denúncias, e Ollanta Humala, a direita vai se alinhar com ela, por entender que poderá manter inalterado os esquemas de facilidades a grupos empresariais dos mais diversos setores, como aconteceu no governo do famigerado Fujimori.

A propósito, vale lembrar que quando Fujimori estava cai não cai quem saiu em sua defesa foi o ex-Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. É sempre bom lembrar este fato, pois a memória é curta e se depender da mídia de mercado jamais se voltará ao assunto.

Ollanta Humala realmente é o único fato novo da política peruana, porque promete mudar os rumos do Peru, não aceitando mais a receita neoliberal que estava inclusive sendo colocada em prática pelo atual Presidente, o social democrata Alan Garcia.

No Uruguai, o Senado, por 16 a 15 anulou a Lei da Caducidade, que concede anistia a torturadores e assassinos, civis e militares, da época da ditadura (1973 – 1984). Agora, a matéria será votada na Câmara dos Deputados, onde já tinha sido aprovada, mas como sofreu algumas emendas no Senado volta para aquela Casa Legislativa.

A direita uruguaia, representada em sua maioria pelos Partidos Nacional e Colorado, bem como por setores militares remanescentes da repressão, está furiosa e usa um argumento discutível, mas evita aprofundar o tema e citar uma definição jurídica. Alega que em dois plebiscitos o povo se manifestou a favor da manutenção da lei que protege quem violou direitos humanos. Mas silencia diante do fato de a Corte Suprema de Justiça já ter se manifestado em três ocasiões arguindo a inconstitucionalidade da Lei de Caducidade.

Até o próximo dia 20 de maio, como se espera, a Câmara dos Deputados já terá votado a matéria e, segundo os analistas, vai aprovar o fim da lei que protege os torturadores. Confirmando-se as previsões,  vai para a sanção do Presidente José Mujica, também um ex-preso político.

Dia 20 de maio é uma data emblemática, pois os uruguaios lembram sempre os desaparecidos e mortos no período ditatorial, que por sinal teve apoio dos generais de plantão brasileiros e de governos estadunidenses, conforme comprovam os arquivos implacáveis do Departamento de Estado norte-americano tornados públicos.

Na Argentina mais um ex-ditador, desta vez Reinaldo Bignone, foi condenado à prisão perpétua pela série de violações de direitos humanos cometidos durante o período em que mandavam e desmandavam no país vizinho, também com o apoio incondicional de Geisel e Figueiredo, os generais de plantão que comandavam de fato o Brasil naquele período.

No Brasil, militares sem comando e tropas lançaram um abaixo assinado, a ser encaminhado ao Ministério Público exigindo a suspensão da telenovela “Amor e Revolução”, que retrata os acontecimentos ocorridos após a derrubada do Presidente constitucional João Goulart. A censura à novela que está sendo mostrada no SBT foi pedida antes mesmo dela entrar no ar. Só isso dá bem a ideia de quem apoia este tipo de restrição à liberdade de expressão.

Claro que quem torturou presos políticos não gosta de rever o fato desabonador na TV. Temem serem reconhecidos em algum momento e mesmo pagarem pelo que fizeram. Devem ficar ainda mais raivosos quando ao final de cada capítulo ex-presos políticos contam para os telespectadores o que sofreram nas masmorras.

Estes militares que elaboraram o abaixo assinado não se emendam. Envergonham a instituição militar e se apegam a ela para evitar desdobramentos que podem se voltar contra os próprios.

A telenovela de Tiago Santiago é também um fato novo na TV brasileira, sem dúvida. Jornalões como a Folha de S. Paulo e O Globo acionaram seus escribas para malharem o trabalho inovador. A direção da Folha, que cedia carros para a repressão, ficou raivosa com o depoimento da jornalista Rose Nogueira, que quando foi presa e torturada trabalhava num dos jornais da família Frias e foi ignorada enquanto profissional. Perdeu o emprego por abandono do cargo, quando todos os jornalistas e os postes de São Paulo sabiam que ela estava presa e consequentemente não tinha como voltar ao trabalho.

Como no Tribunal de Nuremberg, é importante não se esquecer do que fizeram em matéria de hediondez, para evitar que fatos dessa natureza venham a se repetir.

Enviado por Direto da Redação

domingo, 10 de abril de 2011

Hoje é a vez dos peruanos

Voluntária trabalhava ontem em um
comitê eleitoral de Humala em Lima, Peru

10/4/2011, Carlos Noriega [de Lima], Página 12, Buenos Aires
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
  
Segundo todas as pesquisas, Humala, demonizado até a exaustão pelos jornais, televisões e jornalistas, é o favorito, mas não ganharia no primeiro turno e terá de disputar outra vez em junho contra Fujimori, Toledo ou Kuczynski.

A burguesia peruana está à beira de um ataque de nervos. Nas ruas dos bairros ricos respira-se o medo de uma vitória de Ollanta Humala, candidato das esquerdas, nas eleições presidenciais de hoje.

A grande dúvida é saber quem competirá com o candidato progressista no segundo turno. Na briga estão o ex-presidente Alejandro Toledo, que fez governo neoliberal entre 2001 e 2006, a deputada Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000) e o economista Pedro Pablo Kuczynski, candidato dos grandes grupos econômicos e favorito das classes alta e média-alta.
Os peruanos que hoje elegem o presidente e todos os 130 congressistas (congresso unicameral) são 19,850 milhões – incluídos os 754 mil que vivem no exterior e que também votam, dos quais 106.665 vivem na Argentina. Os 4.573 centros de votação abrem às 8h da manhã (10h na Argentina) e fecham às 16h.

Segundo as últimas pesquisas de ontem, às quais esse jornal teve acesso – a lei proíbe a publicação de pesquisas desde a 2ª-feira passada –, Humala consolida-se no 1º lugar com cerca de 30% dos votos, porcentagem praticamente idêntica aos 31% com que venceu o 1º turno em 2006. Na disputa pelo 2º lugar, onde até há alguns dias havia empate triplo, Keiko Fujimori conseguira vantagem, entre 2-5%, sobre Kuczynski e Toledo, que continuavam empatados. Mas é vantagem que nada garante.

Toledo e Kuczynski centraram a campanha, nos últimos dias, no esforço para apresentarem-se como melhor alternativa para “deter Humala” e evitar um segundo turno contra o candidato de esquerda, que temem por suas propostas para mudar o modelo econômico, e a filha do ditador condenado a 25 anos de cadeia por crimes de lesa humanidade e corrupção. Tanto fizeram entre si e contra Fujimori, que acabaram por deixar espaço para que Keiko Fujimori crescesse e se aproximasse do segundo turno, embora com pequena vantagem.

O partido do governo acabou sem candidato, quando a candidata virtual da situação, a ex-ministra da Economia Mercedes Aráoz, renunciou em janeiro, quando pesquisas mostraram que não teria mais que 3% dos votos. O presidente Alan García, com 70% de rejeição em todas as pesquisas, apoiou primeiro o ex-prefeito de Lima e direitista Luis Castañeda, enquanto seu nome apareceu no topo das pesquisas. Mas Castañeda desabou. Nos últimos dias, o secretário-geral do partido do governo pediu votos para Kuczynski, mas outros grupos do seu partido o desautorizaram. Toledo também procurou o apoio do partido do governo. Contudo, ante a impopularidade do governo, qualquer apoio oficial hoje pode ser abraço de afogado.

A campanha passou por várias fases. Luis Castañeda começou no 1º lugar, com folga. Sentia-se eleito. Mas logo começou a cair e hoje não tem qualquer possibilidade de ser eleito. Em janeiro, Toledo passou a liderar todas as pesquisas; para logo cair, tão depressa quanto subira. E Humala saltou de um distante 4º lugar, com cerca de 10% das preferências, onde permanecera por vários meses, para o primeiro lugar. Foi quando passou a ser furiosamente atacado pelos jornais, televisões e jornalistas. O ataque foi de tal modo violento que teve efeito contrário ao que os atacantes esperavam obter e Humala continuou ampliando a vantagem. Kuczynski, apoiado pelos jornais, televisões e jornalistas, ganhou terreno no último mês, sobretudo na classe alta e média alta que desertou da candidatura de Toledo e também se envolveu na disputa. No sobe e desce das pesquisas, Keiko Fujimori conservou sempre cerca de 20% dos votos – o chamado “voto fujimorista duro”.

Ollanta Humala, hoje o candidato favorito, capitalizou o descontentamento de amplos setores da população que não viram qualquer benefício do crescimento econômico do país. Propõe mudar o modelo econômico neoliberal, melhorar a redistribuição da riqueza, restaurar direitos trabalhistas, aumentar a participação do Estado em atividades estratégicas como energia e portos, e renegociar a relação com as multinacionais que exploram recursos naturais do país, fazendo com que paguem mais impostos, o que dará ao Estado maior capacidade para decidir sobre o uso daqueles recursos.

Keiko Fujimori é a continuidade do modelo neoliberal, imposto ao país pelo regime autoritário de seu pai, mas, como Humala, também se beneficia da ira de setores populares contra os políticos, que ainda veem Fujimori como o ‘não-político’ que, nos anos 90 tirou do poder os políticos tradicionais. Keiko Fujimori também tem apoios entre os pobres, que se beneficiaram do vasto clientelismo instaurado no Peru durante o governo de seu pai. Alejandro Toledo propõe-se a preservar o modelo político, mas garante que dará prioridade a programas sociais e a melhor redistribuição da riqueza. E Kuczynski é o homem do establishment econômico-financeiro.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O significado de "austeridade"

por James Corbett

http://iconoclasistas.com.ar É um velho truque exprimir uma realidade penosa como uma platitude floreada. Ouvimos isto o tempo todo nas nossas vidas diárias e a maior parte das vezes sabemos como ler nas entrelinhas quando alguém tenta fazer isto connosco.

Quando o médico lhe diz que "Isto só vai doer um pouco", você sabe bem que será um procedimento penoso. Quando o seu patrão lhe diz que tem um novo projecto excitante para si, você sabe que está prestes a ficar atado à tarefa que mais ninguém quis fazer. Quando um vendedor lhe conta que um carro usado precisa algumas reparações, você sabe que está na frente de um chaço.

Analogamente, quando o FMI diz a um país que
tem de implementar "austeridade" a fim de se livrar de uma crise financeira , também aqui há um fosso abissal entre a linguagem e a realidade.

"Austeridade" é daqueles termos orwellianos que foram injectados no nosso discurso político precisamente porque é uma palavra que soa bonito para uma realidade muito penosa. "Austeridade" implica disciplina, auto-controle, mesmo nobreza. A "austeridade" é prudente. A "austeridade" é modesta. A "austeridade" é uma virtude. Ela é um fim em si mesmo.

Se o FMI ou o Banco Central Europeu se dirigirem ao povo de um país europeu em colapso e lhes disserem para sacrificar as suas pensões, as suas poupanças e o seu próprio padrão de vida por uma dívida que o seu governo fraudulentamente acumulou em seu nome, ninguém deveria acreditar nisso – e com muita razão.

Mas conte a este mesmo povo que ele precisa por em prática "medidas de austeridade" a fim de economicamente "voltar a ficar de pé" e muito aceitarão viver nas mais duras condições, satisfeitos em suportar o desmantelamento do seu próprio país na vã esperança de que ao dar mais poder às instituições financeiras internacionais possam de algum modo evitar o colapso económico.

O truque, naturalmente, é que a realidade é completamente oposta. Como o médico ao dar suas falsas garantias de que isto só doerá um pouco, a amputação económica que os banqueiros têm no armazém para os outrora orgulhosos países do mundo industrializado será excruciante.

Simplesmente pergunte a qualquer um no terceiro mundo. Eles deveriam saber. Têm estado a atravessar estes planos de "austeridade" durante décadas.

Pergunto ao povo da Etiópia se a "terapia económica" do FMI/Banco Mundial da década de 1980 funcionou em favor do seu país. Pergunte-lhes acerca da liquidação de activos do estado, de empresas públicas, de unidades agrícolas e fábricas vendidas por centavos de dólar a corporações multinacionais. Pergunte-lhe como
a USAID ajudou a despejar excedentes de colheitas geneticamente modificadas que não podiam ser vendidas na Europa sobre países africanos pobres como ajuda alimentar caridosa.

A extensão dos horrores infligidos à Etiópia pelos financeiros internacionais quase ultrapassa a descrição.

Os banksters não ficaram contentes em retalhar o país em bocados e vender as partes aos seus cúmplices do big business. Eles então tiveram a audácia de
roubar a própria comida das mesas dos agricultores pobres e substituí-la por alimentos frankenstein geneticamente modificados que o resto do mundo nem mesmo tocaria.

Esta é a face real da "austeridade". É nada menos do que escravização económica a um grupo de elite de banksters que criaram a sua própria riqueza por decreto a partir do nada.

Nem a Etiópia é o único exemplo deste procedimento. Exactamente ao contrário. Um processo semelhante foi efectuado em quase todo país em que os oligarcas das finanças internacionais tentaram "por direito" com os seus procedimentos que "só doerão um pouco".

No
Brasil , as reformas do FMI realmente alteraram a natureza da constituição brasileira, travando transferências de fundos federais para governos estaduais de modo a que estes fundos pudessem ser utilizados para pagar aos banqueiros o que exigiam.

O programa de ajustamento estrutural no
Peru devastou a economia agrícola local e tornou ilegal a produção de coca, o único meio viável para muitos agricultores ganharem a vida. Desde o primeiro pacote de "reforma económica" patrocinado pelo FMI em 1978 ao segundo round da reforma do FMI no princípio da década de 1990, a produção de coca aumentou mais de 400%.

Um empréstimo de 4,8 mil milhões de dólares do FMI à Rússia no fim da década de 1990 nunca sequer chegou a entrar nos cofres russos, com milhares de milhões sendo
depositados directamente em contas bancárias offshore ligadas a gangsters, políticos e banksters. Apesar do facto de o povo russo não ter visto um único rublo deste dinheiro sifonado, ainda assim ficou responsável por pagá-lo de volta aos banqueiros internacionais que foram gentis em emprestá-lo, a juros.

Vezes sem conta, país após país, em todo canto do globo, os empréstimos do FMI resultam em desastre para o povo que tem de aguentar as consequências.

O ponto crucial de toda a questão é que nada disto é inesperado. De facto, faz parte da concepção dos próprios programas de austeridade do FMI.

Como foi revelado por Joseph Stiglitz, o antigo economista chefe do Banco Mundial, o modus operandi do FMI é efectuar ataques económicos a países devedores, desmantelando e liquidando infraestrutura em benefício de corporações estrangeiras e assegurando que todo dinheiro público seja utilizado para pagar os banqueiros.

Ele tem mesmo um nome para o que acontece após o plano de "austeridade" inevitavelmente resultar na dissolução de uma sociedade: os
tumultos FMI .

Os bolivianos fizeram tumultos por causa dos preços da água, os indonésios por causa dos subsídios a alimentos e combustível, os equatorianos por causa dos preços do gás de cozinha, os argentinos por causa do total colapso de um país que outrora fora rico. O denominador comum em todos os casos foram "medidas de austeridade" e o FMI.

Agora, os princípios de tumultos FMI estão a tomar forma na Europa. O povo está a tomar as ruas para protestar contra as medidas que estão prestes a serem tomadas a fim de reembolsa aos banqueiros o que governos corruptos roubaram do povo. Do outro lado posta-se a polícia, cada vez mais militarizada e de prontidão ao serviço dos banksters e de políticos. As linhas de batalha estão a formar-se.

Mas haverá uma outra saída?

Poderão os povos da Europa aprender com os exemplos da Islândia? Aquele minúsculo país insular no Atlântico Norte também se encontrou a enfrentar a bancarrota completa quando a bolha alimentada por derivativos do sector financeiro islandês explodiu na sequência do Lehman Bros. O povo era mais uma vez deixado para aguentar as consequências dos milhares de milhões de dólares em dívidas para com bancos estrangeiros e as ruas tranquilas da sonolenta Reykjavik explodiam em violência.

Mas na Islândia, o povo não combateu o governo. Ele tornou-se o governo. Um movimento popular forçou o
colapso antecipado do governo da Islândia e políticos foram varridos do poder .

Eles
efectuaram um referendo no qual o povo esmagadoramente rejeitou a ideia de que iriam pagar milhares de milhões de dólares a banksters estrangeiros por uma dívida que não era sua. Ela era fraudulenta. Eles não a pagarão.

Está para ser visto se os países do G20 serão capazes de seguir o exemplo islandês quando o apodrecimento começar a corroer as economias dos países industrializados "ricos". O primeiro teste quanto a isto pode acontecer no princípio desta semana na cimeira G8/G20 em Toronto, onde fantoches políticos do governo canadiano endividaram o povo do país nuns estarrecedores
mil milhões de dólares para pagar por uma polícia de estado totalitário que inevitavelmente provocará tal insensibilidade, reacções violentas.

Estamos numa encruzilhada, onde o povo pode levantar-se em massa contra os oligarcas financeiros que estão a manipular esta queda e livrar-se dos fantoches políticos em fileira cerrada com os abutres da Wall Street não importa quem se sente na Casa Branca... ou, não entendendo o que está a acontecer ou quem realmente está por trás disto, o povo pode ser levado a actos de violência sem sentido contra polícias vestidos de negro em batalhas que não tratarão da raiz do problema mas levarão à dor e ao sofrimento.

O primeiro passo é promover o entendimento de que a "austeridade" oferecida pelos banksters não é solução para os nossos problemas, mas o princípio deles. Então saberemos o que significa o FMI contar-nos que "isto só doerá um pouco".

O original encontra-se em:

The Meaning of "Austerity"



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