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terça-feira, 24 de março de 2015

Michael Hudson: Importância do novo banco chinês

20/3/2015, Sharmini Peries entrevista [*] Michael Hudson - TRNN
Vídeo e entrevista transcrita: traduzida pelo pessoal da Vila Vudu



SHARMINI PERIES, PRODUTORA EXECUTIVA, TRNN: Muito obrigada por nos receber. [...]

0’50” – MICHAEL HUDSON, prof. de Economia, University of Missouri-Kansas City: Muito bom estar com vocês.

PERIES: Considerando o nosso assunto hoje, Michael, acho que vamos falar sobre um livro que você publicou há muitos anos, com o título de Super Imperialism (1ª ed., 1972; reeditado em 2002). E há um capítulo especial do seu livro, para o qual chamo especial atenção, sobre o Banco Mundial. Quem se interesse pelo que Michael apresentará hoje, terá muito proveito se examinar aquele livro. Muito obrigada, Michael, pela sua atenção.

HUDSON: Ótimo falar com vocês, Sharmini.

PERIES: Então, Michael, comecemos pelo Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)]. Os chineses criaram esse banco, com investimento inicial de US$ 50 bilhões. E então? Chega a representar concorrência significativa contra o Banco Mundial?

HUDSON: Bem, a ideia é trabalhar sob uma filosofia do desenvolvimento alternativa à do Banco Mundial. Desde o começo, o Banco Mundial sempre foi, basicamente, uma extensão do Departamento de Defesa dos EUA, desde o primeiro presidente, que foi secretário de Defesa assistente, John J. McCloy, até Robert McNamara, de 1968 até 81, e, depois disso, o neoconservador e guerreiro da Guerra Fria, Paul Wolfowitz, de 2005 a 2007; e Larry Summers, o economista em chefe, com Bob Zoellick.

Assim se tem o objetivo dos empréstimos do Banco Mundial: emprestar para grandes plantadores do agrobusiness que colhem para exportar, principalmente para exportar grãos, por exemplo, a preços tão subsidiados, que os demais países e os agricultores locais nos diferentes países não consigam jamais produzir grãos que tenham condição de competir com os grãos norte-americanos.

Por mais que todas as missões do Banco Mundial que visitam os vários países só digam que os países devem promover distribuição de terras, fazer reforma agrária que ajudem a promover a agricultura familiar, para que os países se autoalimentem, a verdade é que o Banco Mundial jamais empresta dinheiro para essa finalidade.

O Banco Mundial, sob pressão do Congresso dos EUA disse: “Veja bem, não vamos financiar países que pensem em se tornar independentes dos EUA; nossa função é forçá-los a exportar sempre mais para os EUA e comprar mais dos EUA”.

Equivale a dizer que os financiamentos do Banco Mundial foram principalmente para financiar desenvolvimentos de infraestrutura, sempre com custos superestimados, em países do Terceiro Mundo, com o único objetivo de fazer dinheiro para as grandes construtoras norte-americanas e empresas de engenharia; também emprestaram dólares para fazer engordar as dívidas daqueles países; o pior de tudo, o objetivo final do “processo” sempre foi promover a privatização dos bens e dos recursos naturais dos países “alvo”.

Aí está o que vejo como a grande diferença entre a filosofia do Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, e a filosofia do Banco Mundial.

O Banco Mundial é pressionado, em todo o mundo, para fazer a privatização de bens e recursos públicos, da infraestrutura básica. Empresta dinheiro aos governos para desenvolver essa infraestrutura, ou estradas, e depois vende as empresas ou as concessões, ou o acesso aos recursos naturais, sempre baratos, a compradores norte-americanos, que, na essência, vão criar monopólios e transformar o que foi construído como infraestrutura, em empresa da qual extraem lucros, dividendos, taxas de administração que, em todos os casos, acabarão nos cofres de empresas ou do estado norte-americano. Esse é o mecanismo que faz subirem os preços de serviços básicos – comunicações, transporte, água e outros, em todo o Terceiro Mundo.

Esse é também o mecanismo que tornou aquelas economias incapazes de concorrer com as empresas norte-americanas, que tem economia mista, na qual o governo subsidia a infraestrutura.

O Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, que chamamos de Banco Chinês de Desenvolvimento vem para ajudar outros países a escapar desse tipo de filosofia econômica neoliberal de extrema direita, para trabalhar no plano de governos democráticos, governo-a-governo, e ajudar outros governos a desenvolver a própria infraestrutura, para que os estados locais possam prover serviços básicos a preços mais baixos ou a preços subsidiados ou, mesmo gratuitos. Essa não é alguma perigosa tática “comunista”. Esse é o modo como os países europeus e os EUA enriqueceram.

E o único modo de repetir esse processo é romper completamente com os EUA e com o Banco Mundial.

PERIES: Sim, mas... Sei que o Secretário de Estado Kerry disse que há muitas preocupações com os padrões do novo banco. Como podemos saber que o Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura dos chineses não seguirá o mesmo modelo do Banco Mundial? Porque o presidente da China, Xi Jinping, já disse que emprestaram políticas e padrões do Banco Mundial. Como responder ao que disse o secretário Kerry.

HUDSON: Acho que os chineses falaram de um modo polido. Os chineses são muito, muito polidos. Nas minhas muitas visitas a Pequim, sempre que os chineses disseram que aprenderam com o Banco Mundial, estavam dizendo que aprenderam o que não fazer.

Os “bons” padrões a que Kerry se referiu, naquela sua retórica orwelliana, são padrões da mais absoluta corrupção. São os padrões que levaram o FMI a emprestar dinheiro militar à Ucrânia, semana passada. São os padrões que sempre levaram o Banco Mundial a apoiar ditaduras e a armar governos por todo o mundo, e a isolar governos que não estejam integrados à órbita diplomática dos EUA, a isolar Cuba, Irã, Coreia do Norte; e a não emprestar coisa alguma a governos que tentem qualquer tipo de economia mista.

Não há dúvidas de que se a China diz que aprendeu com esses padrões, está dizendo que aprendeu o que evitar, para fazer o contrário, para criar sistema financeiro e de comércio independente e sistemas de desenvolvimento que não acabem gerando dinheiro e desenvolvimento exclusivamente nos EUA, para a economia dos EUA.

Há uns 30, 40 anos, o Banco Mundial produziu um documento intitulado “Parceiros no Progresso”. No meu livro Super Imperialism, eu o chamei de “Parceiros no Atrasismo”. Nas muitas discussões que tenho tido na China, na Rússia, os economistas com quem tenho falado sabem perfeitamente e dizem claramente que o Banco Mundial, por lá, só promoveu o subdesenvolvimento.

No caso da Rússia, por exemplo: colegas meus, especialistas em terras, que se reuniram em São Petersburgo e em Moscou, inclusive com Vladimir Putin, e já desde 1991, lá estavam para traçar o projeto pelo qual a Rússia poderia manter sua base de arrecadação se taxasse a terra, os recursos naturais. No momento em que saíram de lá, o Banco Mundial apareceu, visitou várias cidades russas que haviam aceitado a ideia de taxar a terra e os recursos naturais para gerar renda para as administrações públicas locais, e disse a todas as autoridades locais que haveria gordos e generosos empréstimos para todos, sob a condição de que não se criassem impostos sobre a terra e os recursos naturais locais. É indispensável acabar com os impostos e não taxar coisa alguma, para que a privatização atraia interessados. Deu certo, e a terra e muitos recursos naturais foram privatizados, vendidos a oligarcas cleptocratas.

Na sequência, o único modo pelo qual os oligarcas cleptocratas e outros proprietários que compraram terra e recursos naturais na Rússia podiam converter aquelas propriedades em dinheiro era vendê-las a investidores norte-americanos que investem em petróleo, gás, minérios, diamantes, níquel e outras matérias primas que a Rússia tinha.

Foi como a Rússia afinal entendeu – quando chegaram o Banco Mundial e a AID [International Development Agency (?)], com aqueles Harvard-boys, e com Larry Summers à frente do cortejo. Chegaram, para acabar com a Rússia.

Desse modo, os russos tiveram de aprender a tomar outras vias para o desenvolvimento, a construir independência alimentar, a ser independentes também em outros produtos, e a ser independentes sobretudo desse tipo de estratégia viciosa de desenvolvimento que os EUA espalham pelo planeta.

O novo banco, de modo especial, está sendo construído para financiar duas coisas:

(1) para financiar o desenvolvimento da infraestrutura na China e em outros pontos. Com certeza é melhor do que ver chegar as grandes empreiteiras norte-americanas, cobrando preços exorbitantes para construir estradas e aeroportos cuja construção sempre interessa mais às próprias empreiteiras do que aos locais. Muito melhor que venham os chineses.

Mas há outra razão para essa união China-Rússia, nesse novo banco:

(2) os EUA já começaram uma Guerra Fria financeira contra China, Rússia e os BRICS. Estão avançando, um país depois do outro.

Na Ucrânia, por exemplo, os EUA disseram: façam o possível para não pagar o que vocês devem à Rússia. Foram ao Sri Lanka e disseram: vamos voltar para a velha ditadura de direita do grupo que não paga a China. Significa que a China tem tido muito trabalho para receber o retorno dos investimentos gigantes em infraestrutura que foram feitos nesses países e que esses países deveriam estar começando a pagar.

Os EUA agora estão tentando endurecer para conseguir que vários países deem o calote, que não paguem nenhum empréstimo devido aos BRICSs ou a qualquer país fora da órbita militar da Guerra Fria dos EUA.

Além de tudo isso, a China pensa, bem, se tivermos um banco internacional da mesma estatura que o Banco Mundial e o FMI, no caso de os países deverem dinheiro e não pagarem, não farão como os EUA manda que façam hoje e se endividem para jamais pagar, porque no Banco de Desenvolvimento chinês há vários países associados, França, Itália e outros países asiáticos, nos quais os EUA não interferem.

O Banco chinês é também um meio de proteger os investimentos chineses no exterior, e os empréstimos que a China faça a governos para desenvolver infraestrutura local. No caso dos bancos controlados pelos EUA, quando o país devedor não pode pagar em dólares, vem o FMI, impõe austeridade, e fornece os dólares para que o país pague aos bancos... norte-americanos, aumentando a dívida do país, até uma nova rodada de “cobrança”. Não há qualquer indicação de que a China cogite de impor o mesmo tipo de austeridade incapacitante que o Banco Mundial e o FMI vivem de impor aos países.

PERIES: E como é que você sabe disso?

HUDSON: Nas discussões que tenho tido com especialistas chineses e russos, só se discute isso. O primeiro livro, dos meus, que foi traduzido para chinês e russo foi Super Imperialism, e, por causa dele, temos tido anos e anos de discussões.

PERIES: O que tenho visto é que, por exemplo, a China traz milhares de trabalhadores chineses, para trabalhar nos projetos de infraestrutura que constroem noutros países. Está importando trabalho, não contratando mão de obra local para esses projetos. Isso é o que tenho visto acontecer. Como poderemos saber que será diferente com a China, além do que eles dizem a você, nas reuniões que você tem com eles? Será que os chineses tentam associações mais colaborativas, com os países do sul?

HUDSON: Não há novidade alguma em a China trazer seus empregados e sua própria gerência, nesses projetos gigantes de infraestrutura que mantém pelo mundo. O Banco Mundial sempre trouxe, para os locais dos projetos financiados por ele, a caríssima mão de obra gerencial norte-americana e trabalhadores norte-americanos. A Grã-Bretanha faz exatamente o mesmo. A China, suponho, quer ter certeza de que está no controle dos projetos onde põe o seu dinheiro. Mas a verdade é que os chineses treinaram essa mão de obra super especializada para esses projetos.

O Banco Mundial e o FMI sempre tomaram todos os cuidados para impedir que outros países desenvolvessem o tipo de mão de obra e treinamento que permitiu a eles e só a eles criar infraestrutura, precisamente para manter os países sempre dependentes dos EUA e do Banco Mundial. Claro que, não havendo pessoal especializado, a China usará seu trabalho qualificado. Mas em princípio, obviamente, cada país tem de desenvolver essas competências, de tal modo que possam dizer, ‘não precisamos da mão de obra de vocês, também temos nossa força de trabalho’.

PERIES: Obrigada, Michael, no próximo programa, falaremos sobre a importância de países europeus participarem do projeto do Banco de Desenvolvimento chinês, e sobre os impactos que essa participação pode vir a ter no relacionamento – pelo menos, no relacionamento entre os EUA e aqueles países europeus.

[Fim da entrevista] 


[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends − ISLET) e um membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies − (ISCANEE).
Seus dois livros mais recentes sãoThe Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Principais aliados ignoram pedidos dos EUA e unem-se ao Banco de Desenvolvimento da China

17/3/2015, [*] Yves Smith, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Entreouvido na Boca do Fino na Vila Vudu: O Brasil seria muuuuito mais bem informado, mais ilustrado, menos ignorante, mais sábio, menos fascista-burrão, se NÃO EXISTISSEM os “veículos” do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), sempre a repetir bobajol de segunda-mão pró-EUA à moda da Guerra Fria.
E que ninguém se iluda: o jornalismo nos EUA é INFINITAMENTE MELHOR que o jornalismo de péssima qualidade que a empresa-imprensa “Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão)” impinge a consumidores pagantes no Brasil. Na verdade, o jornalismo brasileiro, em 2015, está entre os PIORES do mundo. Acredite.
#Dê umDELnoGrupoGAFE


Aqui quem lhes fala é Yves. A história principal apareceu no Financial Times, “Europeus desafiam EUA e unem-se ao novo Banco de Desenvolvimento liderado pela China”. Principais parágrafos do artigo:

França, Alemanha e Itália todos concordaram em acompanhar a Grã-Bretanha e unir-se ao banco de desenvolvimento internacional liderado pela China, segundo declararam funcionários europeus, o que é duro golpe contra os esforços dos EUA, que tanto se esforçou para manter os principais países ocidentais fora da nova instituição (...)

A decisão dos três governos europeus veio depois que a Grã-Bretanha anunciou, semana passada, que se unirá ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, BAII [orig. Asian Infrastructure Investment Bank, AIIB] com capital de US$ 50 bilhões, rival potencial do Banco Mundial comandado por Washington. (...)

O AIIB, que foi lançado formalmente, ano passado, pelo presidente Xi Jiping da China, é um dos elementos da empreitada para criar novas instituições econômicas e financeiras que ampliarão a influência internacional chinesa. Foi questão sempre central na crescente oposição entre China e EUA, na disputa pelo controle das vias econômicas e rotas comerciais na Ásia para as próximas décadas (...).

A Grã-Bretanha conta com estabelecer-se como principal destino das dos investimentos chineses, e funcionários britânicos não dão sinais de qualquer arrependimento. Um deles sugeriu que as críticas que estavam sendo feitas pela Casa Branca não passaria de caso clássico de ‘uvas verdes’: “Não conseguem que o Congresso aprove a associação com o banco chinês, por mais que a associação interesse aos EUA.

Repetido em Washington’s Blog.

Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia, Cingapura e Índia já assinaram. Quem será o próximo? Coreia do Sul?

Esta semana, dois dos principais aliados dos EUA – dois dos Cinco Olhos – atropelaram os pedidos dos EUA e uniram-se ao banco de desenvolvimento chinês (...) novo concorrente do FMI e do Banco Mundial controlados pelos EUA (antes, um terceiro membro dos “Cinco Olhos” – a Nova Zelândia – já se havia associado ao banco chinês.)

Esta semana, especificamente, Grã-Bretanha e Austrália incorporaram-se ao banco de desenvolvimento chinês.

Financial Times noticia, citando um alto funcionário do governo norte-americano:

[A decisão da Grã-Bretanha de unir-se ao banco chinês de desenvolvimento foi tomada], de fato, praticamente sem qualquer consulta ou discussão com os EUA.

Temos graves desconfianças dessa recorrente acomodação com a China, que não nos parece a melhor maneira de enfrentar uma potência emergente.

O New York Times já falava disso desde a semana passada:

Fundamentalmente, Washington encara a aventura chinesa como desafio declarado às instituições do pós-guerra, que são lideradas pelos EUA e, em menos extensão, pelo Japão, e o governo Obama já está pressionando seus aliados para que não participem (...)

***
Coreia do Sul e Austrália, dois países que contam com a China como principal parceiro comercial, consideraram seriamente a associação, mas ainda não se decidiram em grande parte por conta dos reiterados pedidos de Washington, inclusive apelo especial, feito pelo presidente Obama, diretamente ao presidente da Austrália.

Zero Hedge já avisava, semana passada:

Em rápida sequência, Austrália e Coreia do Sul provavelmente embarcarão na empreitada chinesa, e, quando acontecer, o estigma que os EUA criaram em torno do tal banco já terá desaparecido completamente (se é que já não desapareceu), abrindo a porta para que outros “aliados” dos EUA embarquem também ao lado da China (...).

Coluna em The Australian diz que:

A decisão tomada pelo governo Abbott de incorporar-se ao banco regional chinês (...) é mais uma derrota para a diplomacia norte-americana na Ásia.

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O movimento de Camberra segue de perto decisões semelhantes tomadas por Grã-Bretanha, Singapura, Índia e Nova Zelândia.

Que ninguém se engane: tudo isso representa derrota colossal para a diplomacia incompetente, sem foco, canhestra do governo Obama para a Ásia.

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Depois disso, o governo Abbott já não manifesta absolutamente qualquer boa vontade subjetiva em relação ao governo dos EUA.

É visão da qual partilham muitos dos aliados dos EUA.

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O governo dos EUA não teve nem presença continuada, nem prontidão tática, nem boa-vontade suficiente ou os necessários contatos para convencer Canberra, ou outros aliados, em questões não essenciais.

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Atualmente, o prestígio dos enviados dos EUA na Ásia depende, desproporcionalmente, dos militares norte-americanos.

Os EUA descuidaram e trataram muito mal seus aliados; resultado disso, Washington tem hoje menos influência que antes.

A saga do Banco da China é praticamente caso exemplar, a ser estudado, do fracasso da política exterior do governo dos EUA.

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Obama trata mal os aliados e, resultado disso, perde a influência que teria sobre eles e, depois, sempre se mostra surpresíssimo com o resultado.

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O consenso é que a Casa Branca é insular, isolada, autorreferente, focada só na imagem pessoal do presidente e impressionantemente ineficaz na política exterior.
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[*] Yves Smith passou mais de 25 anos na indústria de serviços financeiros e atualmente dirige a Aurora Advisors, empresa de consultoria sediada em New York, especializada em consultoria de finanças corporativas e serviços financeiros. Sua experiência inclui trabalho na Goldman Sachs (em finanças corporativas), McKinsey & Co. e Sumitomo Bank (como chefe de fusões e aquisições). Yves já escreveu para várias publicações nos EUA e na Austrália, incluindo The New York TimesThe Christian Science MonitorSlateThe Review Conference BoardInstitutional InvestorThe Daily Deal e na Australian Financial ReviewÉ graduada no Harvard College e no Harvard Business SchoolAnima o blog Naked Capitalism desde 2006.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

VIª Cúpula dos BRICS: as “sementes” de uma nova “arquitetura financeira”

29/6/2014, [*] Ariel Noyola Rodríguez, Contralínea, México
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No dia seguinte do final da Copa do Mundo de futebol no Brasil, acontecerá a VIª Cúpula dos BRICS (sigla de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Fortaleza e Brasília serão as cidades anfitriãs do encontro, que acontecerá dias 14, 15 e 16 de julho/2014, para assentar afinal uma arquitetura financeira de novo perfil, sob o slogan: “Crescimento inclusivo e soluções sustentáveis”.

Diferentes das iniciativas de regionalização financeira asiática e sul-americana, os países BRICS, ao não definir espaço geográfico comum, ao tempo em que estão menos expostos a sofrer turbulências financeiras todos ao mesmo tempo, aumentam a efetividade de seus instrumentos defensivos.

Um fundo monetário de estabilização, denominado “Acordo de Reservas de Contingência” (CRA, do inglês Contingent Reserve Arrangement) e um banco de desenvolvimento, chamado Banco BRICS, exercerão funções de mecanismo multilateral de apoio às balanças de pagamento e fundo de financiamento para o investimento. De fato, os BRICS estão se afastando do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, instituições criadas há 70 anos, sob a órbita do Departamento do Tesouro dos EUA. Em meio à crise, as duas iniciativas abrem espaços de cooperação financeira frente à volatilidade do US$ (dólar dos EUA), e alternativas de financiamento para países em situação crítica, sem submeter-se a condicionalidades mediante programas de ajuste estrutural e reconversão econômica.

Como consequência da crescente desaceleração econômica mundial, tornou-se mais complicado para os países BRICS alcançar taxas de crescimento superiores a 5%. A queda sustentada do preço das matérias primas para uso industrial, derivada de uma menor demanda do continente asiático e a volta dos capitais de prazo para Wall Street impactaram negativamente o comércio exterior e os tipos de câmbio.

Queda do US$ (dólar dos EUA) ante o Euro e moedas dos BRICS
Exceto uma pequena apreciação do Yuan, as moedas dos países BRICS perderam, de 8,80 (rúpia indiana) e até 16 (rand sul-africano) pontos percentuais frente ao US$, entre maio de 2013 e junho do ano em curso. Nesse sentido, o CRA dos BRICS – dotado de um total de 100 bilhões de US$ dólares, anunciados em março de 2013, com aportes da China, de 41 bilhões de dólares; de Brasil, Índia e Rússia, 18 bilhões cada um; e África do Sul, com 5 bilhões de dólares – uma vez posto em andamento, reduzirá substantivamente a volatilidade cambial sobre os fluxos de comércio e investimento, entre os membros do grupo.

Os céticos argumentam que o CRA terá importância secundária e só terá funções complementares às do FMI. Deixam sem considerar que, em contraste com a Iniciativa Chiang Mai, por exemplo (integrada por China, Japão, Coreia do Sul e dez economias da ASEAN, Associação de Nações do Sudeste Asiático), o CRA dos BRICS poderá prescindir do aval do FMI para fazer seus empréstimos, com o que garante maior autonomia política frente a Washington. A guerra de divisas das economias centrais contra as economias da periferia capitalista exige que esse CRA dos BRICS seja executado, e com a máxima rapidez.

Por outro lado, o Banco BRICS despertou muitas expectativas. O Banco que começará a operar com um capital de US$ 50 bilhões (aportes de US$ 20 bi e US$ 40 bi em garantias, de cada um dos membros), terá possibilidades de ampliar-se em dois anos, para US$ 100 bi; e em cinco anos, para US$ 200 bi; terá capacidade de financiamento de até US$ 350 bi de dólares para projetos de infraestrutura, educação, saúde, ciência e tecnologia, meio ambiente, etc. Contudo, para o caso da América do Sul, os efeitos no médio prazo têm caráter duplo. Nem tudo é mel sobre açúcar nos mercados de crédito. Por um lado, o Banco BRICS bem poderia contribuir para diminuir os custos de financiamento e fortalecer a função contracíclica da Corporación Andina de Fomento (CAF), mediante o aumento de créditos em momentos de crise, e assim descartar os empréstimos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Por outro lado, porém, como ofertador de crédito, o Banco BRICS entraria em concorrência com outras entidades financeiras de influência considerável na região, como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, brasileiro), a CAF e os bancos chineses com maior potencial (China Development Bank e Exim Bank of China). É inverossímil que as instituições financeiras façam convergir suas ofertas de crédito, de modo complementar, sem afetar as respectivas carteiras de credores.


Também há atritos entre os próprios países BRICS. A elite chinesa pretende fazer o aporte majoritário (a proposta russa é que os aportes sejam feitos por alíquotas) e que o organismo tenha sede em Xangai (não em Nova Delhi, Moscou ou Johannesburgo). No caso de os empréstimos do Banco BRICS serem denominados em Yuan, a moeda chinesa estará avançando na própria internacionalização e reforçará gradualmente sua posição, como meio de pagamento e moeda de reserva , em detrimento de outras divisas.

Mas, além da consolidação de um mundo multipolar, o CRA e o Banco BRICS representam as sementes de uma arquitetura financeira que emerge numa etapa da crise cheia de contradições, ao mesmo tempo caracterizada pela cooperação e pela rivalidade financeira.




[*] Ariel Noyola Rodríguez é membro do Observatorio Económico de América Latina e do Instituto de Investigaciones Económicas, da Universidade Nacional Autônoma do México.

domingo, 18 de setembro de 2011

O outono árabe: “3 grandes desafios para os levantes árabes”


17-18/9/2011, Esam Al-Amin, Counterpunch 
(ed. fim de semana)
(do autor, distribuído para tradução em todo o mundo, pela Rede Internacional Tlaxcala de Tradutores)
Esam Al-Amin comunica-se pelo endereço: alamin1919@gmail.com

Com a queda do quartel-general de Muammar Gaddafi em Bab Al-Aziziyyah em Trípoli, dia 23/8, a Líbia tornou-se o terceiro país em que o ditador de muitos anos foi deposto, depois da Tunísia e do Egito, onde caíram Zein-al-bedin Ben Ali e Hosni Mubarak, no início do ano.

Atentado fracassado para matar Ali Abdullah Saleh do Iêmen, dia 3/6, manteve mais esse ditador fora do país, recuperando-se de ferimentos, na Arábia Saudita. Simultaneamente, ampliaram-se as manifestações pacíficas de dezenas de milhares de iemenitas em várias cidades e províncias do país, exigindo que parentes e protegidos de Saleh deixassem o governo.

Na Síria, Bashar Al-Assad resiste há mais de seis meses, enfrentando protestos populares diários e mantém-se no poder para salvar seu regime cada dia mais enfraquecido e isolado.

Apesar disso, os levantes populares que varreram grande parte do mundo árabe, enfrentam três dificuldades cruciais. Como os diferentes lados em cada cenário político lidarem com essas questões cruciais determinará o futuro de suas respectivas sociedades, que passam por revoluções populares genuínas e mudanças nas lideranças, pela primeira vez em décadas.

Problemas prevalentes que em geral acompanham grandes agitações sociais, como caos político, relativa insegurança, corrupção endêmica e graves dificuldades econômicas na vida diária são sintomas de questões maiores. Não podem ser efetivamente enfrentadas até que se resolvam os grandes desafios nacionais.

Embora cada país viva suas próprias condições locais e circunstâncias específicas, há vários fatores comuns nos levantes da primavera árabe. Há, especialmente, três principais desafios intrincados que persistem nas revoltas árabes desde o início.

1. Os revolucionários não chegaram ao poder

São raras as revoluções populares, porque enfrenta a tarefa gigantesca de estabelecer uma nova ordem política e socioeconômica na sociedade, baseada na vontade do povo.

Revoluções bem sucedidas em geral dão poder aos revolucionários para instituir a nova ordem, primeiro mediante o desmonte da ordem velha, com desenraiza mento de seus apoiadores e aderentes. As revoluções America, francesa, soviética, cubana e iraniana são bons exemplos de sistema que foi realmente deixado para trás, limpado de seus remanescentes e substituído por nova ordem.

Mas as revoluções tunisiana e egípcia foram abortadas. Pouco antes de terem realmente conseguido derrubar os ditadores, nos dois países as alavancas do poder foram assumidas por gente que, ou participara do antigo regime ou não abraçara com suficiente espírito de compromisso os objetivos das revoluções populares.

Na Tunísia, por exemplo, partidários e afilhados de Ben Ali ou de seu predecessor Habib Bourgiba mantiveram o controle da vida política, e em algumas instâncias ainda viram aumentar o seu poder. Apresentam-se, apesar dos currículos tenebrosos, como salvadores da revolução popular. Assim, muitos dos funcionários associados ao execrado ministro do interior e à polícia secreta mantiveram os postos e reorganizaram seus feudos.

No Egito, o Conselho Supremo das Forças Armadas [ing. Supreme Council of the Armed Forces (SCAF)] repaginou-se e apresentou-se como salvador da revolução; mas, à medida que foi assumindo o controle do país, muitos dos revolucionários e das demandas populares foram ou adiadas ou instituídas com muita relutância, sempre sob intensa pressão das ruas.

Ao tomar o poder, depois da renúncia forçada de Mubarak, o conselho militar prometeu período de transição de não mais de seis meses, depois do qual haveria eleições livres e limpas. Desde então, as eleições já foram duas vezes adiadas, e agora não há data prevista para eleições parlamentares ou presidenciais.

Mas, desde março, mais de 12 mil civis já foram julgados em julgamentos sumários, em tribunais militares, muito mais, até, do que Mubarak jamais fez durante trinta anos de ditadura (a ditadura de Mubarak mandou no máximo mil casos para julgamento por tribunais militares). O Comissário de Direitos Humanos da ONU criticou duramente esses tribunais militares, exigindo que o comando das SCAF ordenasse que, pelo menos metade dos casos fossem julgados em tribunais civis, não secretos.

Num episódio recente, milhares de jovens egípcios foram à rua, exigindo manifestação adequada das SCAF, no caso do assassinato, por israelenses, de cinco soldados egípcios na fronteira Gaza-Egito. Os manifestantes denunciavam que os assassinatos foram resultado de as Forças Especiais terem-se posicionado a favor de Israel e EUA, ignorando a opinião pública egípcia; e que a resposta militar foi idêntica à que se via nos tempos de Mubarak.

Em fúria, os manifestantes atacaram a embaixada de Israel no Cairo, pondo abaixo o muro de contenção, chegando à entrada principal do prédio e pondo fogo à bandeira israelense que ali encontraram. No mesmo ataque, a multidão tomou posse de milhares de documentos que expuseram o grau de cooperação entre os dois países em questões sensíveis e políticas impopulares, como a manutenção do cerco e do bloqueio de Gaza durante o governo de Mubarak. Como resposta a essa manifestação, as Forças Especiais anunciaram a reimplantação das temidas leis de emergência, da segurança, que preveem ataques massivos contra a multidão e longas penas de prisão.

Consequência disso, muitos partidos políticos, movimentos sociais e os principais candidatos à presidência do Egito, alarmados e ofendidos pela ação das Forças Especiais, ameaçaram levar milhões de manifestantes às ruas, a menos que as leis de emergência fossem suspensas e se anunciassem eleições.

Em resumo, revoluções são mudanças fundamentais na estrutura política e nas relações de poder no país, além de determinar que recursos sejam partilhados dentro da sociedade. Não se pode falar de revolução se só mudam algumas personalidades e algumas modalidades de ação.

Até agora, só se viram mudanças cosméticas e superficiais. A menos que os que lideraram as revoluções árabes, com sacrifício de seu sangue e da própria vida, sejam eleitos e cheguem legitimamente ao poder, para liderar as reformar e responder com eficácia às exigências populares, não se pode falar de mudanças genuínas.

2. O papel do Islã na sociedade 

No calor da luta pra derrubar os regimes, em cada caso, a tensão entre os movimentos islâmicos, por um lado, e as tendências seculares e liberais, por outro lado, permaneceu encoberta sob a superfície, com todas as oposições políticas unidas no objetivo de derrubar cada ditadura, em cada caso. Mas, derrubados os regimes, reemergiram velhas rivalidades, e os debates ideológicos reemergiram, gerando discordâncias e desconfianças.

Ao longo de anos, secularistas e liberais temeram que os movimentos políticos islamistas visassem a impor um estado religioso, e não dessem real importância aos princípios democráticos, por mais que falassem a favor deles. Enquanto muitos islâmicos afirmam seu compromisso com a democracia, ao mesmo tempo não deixam de acusar os opositores de preservar, como agenda oculta, a convicção de que candidatos que se apresentassem como seculares e democráticos não passassem de candidatos antirreligião e fantoches da propaganda pró-ocidente.

Essa desconfiança entre os dois lados, no Egito, cresceu tanto, que em vários casos houve graves acusações públicas dos dois lados, com grupos pregando o boicote a manifestações populares dos adversários.

O campo secular e liberal crê que os grupos islamistas sejam muito mais organizados, mais bem posicionados para vencer eleições e, assim, para fazer aprovar uma nova constituição pró-islamista. Consequentemente, iniciaram uma campanha para conseguir que as Forças Especiais emitam um decreto que se sobreponha a qualquer futura constituição, com vistas a garantir que certos princípios não sejam feridos.

Esse decreto, dito “superior à constituição”, visa a garantir que a constituição não possa jamais ser alterada. Querem também que o exército sirva como ‘protetor’ do estado contra qualquer risco de a religião invadir os negócios oficiais, mais ou menos como na Turquia, onde o exército desempenhou papel semelhante ao longo de toda a segunda metade do século 20.

O campo islâmico argumenta que haver princípios considerados “superiores à constituição” já é, só isso, prática antidemocrática. Muitos dos líderes religiosos insistem em que buscam construir estado civil, com constituição moderna e democrática, que consagre o pluralismo e os direitos civis básicos.

Apesar de os dois campos concordarem com que a Xaria deve ser a fonte básica da legislação, há diferenças de opinião sobre como esse princípio deva ser aplicado de fato, e com a amplitude de interpretação que se possa admitir, na ‘releitura’ dita ‘democrática’ da Xaria. Também na Tunísia ouvem-se discussão e pronunciamentos semelhantes, enquanto o país prepara-se para eleger uma assembleia encarregada de redigir a futura constituição do país.

Na Líbia, na luta armada entre o Conselho Nacional de Transição [ing. National Transitional Council (NTC)] e os partidários do regime de Gaddafi, os dois grupos, os seculares pró-ocidente e os campos islâmicos, cooperaram na luta para depor Gaddafi. E os dois lados lutaram juntos, durante meses, contra os soldados fiéis a Gaddafi, apesar de, internamente, nada haver que aproximasse aqueles estranhos aliados contra Gaddafi.

Os islamistas líbios acusam os secularistas pró-ocidente reunidos no Conselho Nacional de Transição de estar negociando com os países da OTAN, contra os interesses nacionais líbios. Acusam-nos também de conspirarem contra, afinal, a própria Líbia. Em julho passado, por exemplo, o comandante militar pró-secularistas da oposição líbia, general Abdelfattah Younis, foi assassinado por seus comandados de orientação islâmica, em retaliação a uma alegada associação entre o comandante e a OTAN, para atacar os grupos armados de orientação religiosa.

Falando sob condições de anonimato, veterano oficial líbio recentemente indicado como representante do Conselho Nacional de Transição num importante país europeu, afirmou que Younis costumava dar à OTAN as coordenadas das posições de membros de seu próprio contingente, para que fossem bombardeados, por considerá-los “islâmicos demais”.

Por isso, em muitas instâncias, a OTAN várias vezes declarou ter bombardeado ‘alvos errados’; esses erros podem não ter sido simples erros técnicos, mas alvos deliberadamente atacados, indicados por informações viciadas de inteligência. O mesmo veterano oficial líbio diz que mais de 70% dos ‘rebeldes’ líbios que combateram em campo são islamistas que absolutamente não apóiam a intervenção pela OTAN e forças estrangeiras na Líbia.

Imediatamente depois da queda de Trípoli, essa disputa veio à tona, quando o primeiro-ministro de facto, Mahmoud Jibril, admitiu que o Conselho Nacional de Transição não tinha pleno controle sobre seus grupos armados. Ao mesmo tempo, Sheikh Ali Sallabi, importante e respeitado líder religioso, exigiu que Jilbril e vários de seus colegas ministros renunciassem, inclusive os ministros das finanças, das comunicações e do petróleo. Todos foram acusados de serem corruptos, trabalhando a favor da ganância ocidental, que estariam “roubando a revolução líbia”.

Por sua vez, o principal comandante militar da Brigada de Trípoli, Abdel Hakim Belhaj, e Ismail Sallabi, de Benghazi, encarregados, respectivamente, da segurança e defesa dessas duas principais cidades, foram acusados por oficiais da OTAN de serem islâmicos antiocidente. Belhaj, como se sabe, foi vítima de uma das “entregas extraordinárias” da CIA (a CIA entregou prisioneiros seus a serviços secretos estrangeiros para serem interrogados [torturados] fora de território dos EUA); Belhaj foi preso pelos EUA e entregue ao serviço secreto da Líbia, e torturado, durante o governo Bush.

Em entrevista recente, o secretário da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, alinhou-se, como era de esperar-se que fizesse, com os liberais pró-ocidente, manifestando preocupação com a possibilidade de “extremistas islâmicos” tentarem “aproveitar-se da situação” na Líbia. Sentimentos e preocupações semelhantes apareceram contra os levantes populares no Iêmen, Síria e Bahrain.

Mas o papel do Islã nessas sociedades não deveria ser fonte de tensão e discórdia entre grupos políticos. O Islã, como religião e cultura, sempre teve papel de destaque na modelagem da identidade e da história da região, há mais de mil anos. Essa herança e esse legado sempre terão papel significativo na modelagem do futuro político na região, presente na natureza democrática do estado civil.

Assim, no que tenha a ver com alcançar os objetivos das revoluções árabes, os dois campos políticos devem comprometer-se com os princípios do governo democrático e respeitar o desejo do povo, sem que um grupo tente impor sua visão ao outro.

3. O papel das potências estrangeiras 

Não há dúvidas de que a Primavera Árabe colheu de surpresa o ocidente. Nos primeiros dias dos levantes na Tunísia e no Egito, os EUA e a Europa apoiaram os ditadores que lá havia, antes de, pouco convincentemente, passar a manifestar apoio aos que lutavam para derrubá-los.

Na Líbia, o ocidente rapidamente posicionou-se contra Gaddafi, tentando aproveitar a oportunidade e empurrar a revolução na direção de implantar-se lá um regime favorável ao ocidente, em país riquíssimo em recursos naturais. Simultaneamente, potências ocidentais, principalmente os EUA, movimentaram-se nos bastidores, com a Arábia Saudita e outros países do Golfo, tentando salvar a ditadura de Saleh, protegendo-o contra as massivas manifestações de protesto que agitavam todo o Iêmen.

Os principais objetivos que sempre moveram as políticas do ocidente contra o Oriente Médio ao longo de 60 anos não mudaram. São elas: (1) controlar o acesso ao petróleo e a outros recursos naturais, aos portos e às fortunas gigantescas de umas poucas famílias do Golfo; (2) garantir proteção militar a política a Israel – nação ocupante e perene causa de insegurança e instabilidade na região; e (3) preservar a estabilidade regional, para assegurar acessibilidade plena aos mercados da região, mercados de compra de armamento e de outros produtos oferecidos por grandes corporações econômicas multinacionais.

Assim sendo, a tentativa, pelo ocidente, de manter as políticas das ditaduras que havia na região, é indiscutível. Quando o governo egípcio levantou o bloqueio de Gaza, em meados de maio, logo surgiram os primeiros senadores e deputados dos EUA, a declarar que a ajuda militar dos EUA poderia ser suspensa, e que estavam ameaçadas as relações EUA-Egito, pressionando o comando militar egípcio a reverter a decisão anterior e voltar a fechar a passagem de Rafah, o que foi feito três dias depois. 

Na decisão de manter a ajuda militar dos EUA ao Egito, o Congresso dos EUA – desconsiderando completamente o desejo do povo egípcio – incluiu uma cláusula humilhante, que exigia que “o secretário de Estado do Egito declare que o Egito não é controlado por organização terrorista estrangeira”, e que declarasse que o Egito “está tomando as providências necessárias para localizar e destruir a rede de contrabando e túneis entre o Egito e a Faixa de Gaza”. Exigiu ainda que o Egito usasse o dinheiro da ajuda militar oferecida pelos EUA “em programas para melhorar a segurança das fronteiras e atividades no Sinai, esperando que os militares egípcios continuem comprometidos com manter e implementar o Tratado de Paz entre Israel e Egito”. 

Na essência, a principal preocupação dos políticos dos EUA e de outros governos ocidentais é saber como manter os países do Oriente Médio presos à órbita de influência dos EUA, e manter controle sobre aquelas economias, como mandam o FMI, o Banco Mundial e as grandes empresas transnacionais. O Congresso dos EUA já previu em orçamento cerca de 120 milhões de dólares para “promover a democracia” no Egito e na Tunísia, dinheiro suficiente para influenciar, com impacto real, o resultado das eleições – o que será interferência direta em assuntos internos de nações soberanas.

A continuação da interferência externa nos negócios internos das nações do Oriente Médio, principalmente nos países nos quais os cidadãos já declararam o que desejam e tomaram as ruas para derrubar ditadores, continuará a indispor a opinião pública, no mundo árabe, contra o ocidente. Por causa dessa interferência sem justificativa democrática, é de duvidar-se que os EUA e outros países ocidentais tenham qualquer respeito ou trabalhem para honrar a vontade do povo árabe e sua luta por liberdade e autodeterminação.