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sábado, 13 de agosto de 2011

Marinhas europeias procuram especialista em “Cultura da Pirataria”


Adam Rawnsley

12/8/2011, Adam Rawnsley, Danger Room, Wired  - Danger Room
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Ver também: 
“Somália, 2010: Os piratas estão vencendo!” (traduzido), 8/11/2010, Jeffrey Gettleman, New York Review Of Books, vol. 57, n. 15


Piratas?

Você entende de piratas da Somália? Sabe tudo sobre os prósperos mercados financeiros da pirataria da Somália? Não perca tempo. Envie seu currículo, com carta com informações sobre você para a Força-Tarefa Antipirataria da União Europeia (NavFor). Estão à procura de especialista em “Cultura da Pirataria”. 

A NavFor da União Europeia, a coalizão naval da União Europeia que opera na costa da Somália anunciou na 5ª-feira que estão à procura, para contratação imediata, de um “consultor cultural para assuntos de pirataria”, para ajudá-los a entender os meandros da cabeça dos mais temidos piratas do Oceano Índico. Considerando que os negócios da pirataria vão de vento em popa, parece ser boa ideia. 

Querem alguém que ofereça ao Comando Operacional da NavFor informações sobre “tendências e fragilidades dos piratas, inclusive noções sobre o que entendem que seja seu papel na Somália.” Interessam também informes sobre práticas culturais e religiosas. Mas o que a NavFor mais quer entender são os meandros de como os piratas operam taticamente e financeiramente. Para conseguir o emprego o candidato deve comprovar que conhece a fundo o modelo de negócios dos piratas e seu modus operandi  ático no mar.

O emprego parece talhado para ex-militares, o pessoal do mundo da segurança privada, com experiência em negociação de resgates em seqüestros com reféns ou quem ganhe a vida no negócio de seguros. Importante que o candidato consiga provar que jamais teve contato “interno” com grupos de piratas. Para ser admitido, o candidato terá de ser aprovado pelo serviço secreto da União Europeia e qualquer suspeita de participação em ações de pirataria em tempos recentes inviabilizará a contratação.

Se se considera a nenhuma informação com que a NavFor pôde contar até agora nesse campo, não há dúvidas de que podem aprender muito. Em novembro passado, a NavFor da União Europeia divulgou um panfleto dirigido a pescadores sequestrados, para ajudá-los a negociar com os piratas. O que dizia o panfleto? “Se você for seqüestrado, não provoque sequestradores armados nem se deixe seduzir por qualquer tipo de droga viciante, enquanto espera que o resgate seja pago”.

Conhecer mais sobre a cultura pirata pode ajudar os militares europeus a salvar vidas no processo de negociação. É questão urgente, agora que a pirataria e a indústria dos seqüestros no Oceano Índico começa a apresentar desenvolvimentos alarmantes. É verdade que o número de seqüestros por piratas caiu, de 27 no primeiro semestre do ano passado, para 21 no primeiro semestre de 2011. Mas os seqüestros que ocorreram levaram a um número maior de mortos e feridos. Os piratas mataram sete e feriram 39 reféns nos primeiros seis meses de 2011, contra um morto e 16 feridos no mesmo período de 2010.

sábado, 16 de julho de 2011

Quem são os verdadeiros Piratas da Somália?



Intrépidos...
Aventureiros...
Sedutores
Românticos...
E também um pouco loucos.
As histórias de piratas cativaram-nos desde sempre na literatura, cinema e televisão.
A pirataria é tão antiga como a própria navegação.
Mas... o que é um pirata?
O pirata é um bandido que se dedica ao roubo e ao saque marítimo.
Apropria-se daquilo que não lhe pertence e fá-lo fortemente armado e à margem da lei.
Por vezes contam com a proteção de um estado ou nação. e atuam em seu nome a coberto do que antes era denominado de "cartas de Corso". Nesse caso denominavam-se "Corsários".

"Os piratas somalis ampliaram o seu raio de ação"
"São dois dos piratas"
"O exército tentou capturar os piratas"
"Finalmente a fragata 'Canárias' alcança o batel e captura os dois piratas"
"Cerca de 60 piratas partilharam os despojos de 2 milhões e meio de euros"
"Houve fogo no 'Inters-Um-Dois' repelindo os piratas"
"Temos 63 piratas a bordo de momento"
"Os trinta piratas estão armados, consomem álcool e são muito agressivos"
"O inferno da Somália"

Na atualidade, a pirataria na Somália assola os meios de comunicação.
Mas... existirá tal pirataria? Em que consiste? E... quem são realmente os piratas? Para averiguá-lo é necessário retroceder até à origem "Piratas"

A Somália foi colonizada pela Itália e Inglaterra Consegue a sua independência em 1960, mas o governo democrático dura tão somente 9 anos.

Em 1969 o ditador Mohamed Siad Barré lança um golpe de estado e forma governo. Consegue-o com o apoio incondicional dos Estados Unidos. E não em vão: Graças a isso as principais companhias petrolíferas ianques conseguem contratos importantes para explorar o petróleo existente no país.

Situada no Corno de África, a Somália ocupa uma posição geoestratégica fundamental para as rotas de transporte marítimo que unem a Europa e a Ásia.
Mais de 20.000 barcos de carga atravessam anualmente as suas costas através do Golfo de Áden. transportando mais de 10% do comércio mundial e por ali transita também grande parte do petróleo extraído no Médio Oriente.

Há muito tempo que nações regionais e potências estrangeiras a disputavam
como ponto estratégico para as rotas de transporte marítimo.

O mandado militar de Siad Barré prolonga-se até 1988 quando o Movimento Nacional Somali se revolta contra a sua ditadura. O levante dá lugar a uma sangrenta guerra civil que se prolonga até 1991 ano em que Siad Barré se vê obrigado a abandonar o poder e a fugir do país.

Mas a sua saída não traz a paz. Ante o vazio de poder, vários clãs defrontam-se entre si para tomarem o controlo do país.

O que tem impedido a existência de um governo estável até à atualidade.

A guerra civil teve e tem consequências devastadoras para o povo somali. Mais de 300.000 mortos. Um milhão e meio de refugiados e uma fome terrível que afeta todo o país agrava pela persistente seca.

Hoje em dia, o frágil governo apenas consegue o controle da capital. Os confrontos entre as diferentes facções são constantes. A violência, o caos e a anarquia reinam nas ruas da Somália que é considerada o país mais perigoso do mundo.

Aproveitando-se desta situação caótica sem controlo nem governo um sem número de barcos de pesca procedentes de vários países começam a pescar sem nenhuma licença nas águas em frente à Somália. Incluindo as suas águas territoriais. Estes barcos, procedentes dos EUA, Ásia e da União Europeia praticam um tipo de pesca denominada: I.U.U.

Pesca ilegal, não declarada, não regulada.

A sua incessante e descontrolada atividade usando artes de pesca proibidas noutras regiões do planeta está a acabar com as reservas pesqueiras de um país que carece de autoridade e meios para proteger as suas costas

Na atualidade, mais de 800 barcos de distintos países pescam na zona. Estima-se que os lucros anuais gerados pela pesca ilegal ascendem a mais de 450 milhões de dólares.
A pesca de atum sofreu um vertiginoso e insustentável incremento nos últimos 10 anos.
Só a frota do atum, composta fundamentalmente por Espanha, com 60% das capturas e por França, com 40% captura na Somália umas 500.000 toneladas de atum por ano.

As frotas pesqueiras das grandes potências com a União Europeia à cabeça contribuem desta maneira para o empobrecimento de uma das regiões mais miseráveis do mundo.
Roubam a principal fonte de proteínas da sua população e acabam com a forma de vida e sustentos dos pescadores locais.
Desta forma, condena-se sem remédio a um país frágil que agoniza
e morre de fome.

Desde 1990 que a comunidade somali vem protestando reiteradamente na ONU e em diversos organismos internacionais. Os seus protestos nunca foram escutados nem atendidos

O grupo de supervisão para a Somália das Nações Unidas também constatou e alertou nos seus relatórios sobre a depredação sistemática da zona levada a cabo por frotas de pesca estrangeiras.

A ONU tampouco ouviu os seus próprios supervisores e não fez absolutamente nada para deter o saque.

Mas o pesadelo não termina aqui.

Desde a queda do governo, em 1991 outros barcos começaram a aparecer também na costa somali. A sua atividade é mais misteriosa. Os barcos entram nas suas águas territoriais vertem barris no mar e abandonam o lugar.
Esta atividade suspeita alerta os pescadores somalis, os quais tentam dissuadir os cargueiros que realizam os derrames, mas não têm êxito.
Os derrames continuam durante 14 anos. O conteúdo desses barris é um mistério até finais de 2004.

Ano em que um terrível tsunami assola o sudeste asiático. Quando a onda do tsunami chega à Somália centenas de barris são arrastados contra a costa. Os barris rompem-se e há fugas. O conteúdo sai à superfície e termina nas praias.

A gente da zona começa a adoecer. Infecções das vias respiratórias. Hemorragias intestinais... estranhas reações químicas na pele e mais de 300 mortes repentinas causam alarme entre a povoação. Após algum tempo ocorrem nascimentos com malformações e diversas enfermidades.

Nick Nuttall, porta-voz do programa do meio-ambiente das Nações Unidas, explicou que quando as embalagens se romperam pela força das ondas os contentores trouxeram à luz uma atividade espantosa:

"A Somália está sendo utilizada como vertedouro de resíduos perigosos desde o início dos anos 90, e continuou desde a guerra civil não-resolvida nesse país. O lixo é das mais diversas classes: há resíduos radioativos de urânio, o lixo principal, e metais pesados como Cádmio e Mercúrio. Também há lixo industrial, resíduos hospitalares lixo de substâncias químicas e o que se queira nomear.

O mais alarmante aqui é que se está descarregando lixo nuclear. “O lixo radioativo está matando potencialmente os somalis e está destruindo totalmente o oceano”. Ahmedou Ould Abdallah representante especial do ONU na Somália declarou à Al-Jazeera que as descargas de resíduos tóxicos continuam acontecendo na atualidade. O diplomata afirmou que possuía informações fidedignas de que são corporações europeias e asiáticas as que estão despejando químicos e resíduos nucleares nas costas da Somália.

Sim, as Nações Unidas enviaram os seus representantes para constatar a catástrofe. E sem qualquer embargo ou proibição, o capítulo foi encerrado. Por ora não existiu um único despacho judicial, detenção ou condenação por estes atos criminosos.

E isto não ocorre unicamente na Somália. As águas de outros países africanos como a Costa do Marfim, Nigéria, Congo ou Benim também são usadas como vertedouros tóxicos pelos países industrializados. Unicamente no ano 2011, chegaram a África 600.000 toneladas de resíduos tóxicos.

O continente africano converteu-se na lixeira de resíduos radioativos gerados pelos países ricos.

Um país devastado que morre de fome Os países ricos correm para lhes arrebatar a pesca e de passagem contaminar as suas águas com lixo tóxico e nuclear. Este é o contexto em que apareceram os homens que alguns meios de comunicação denominam de "piratas". Perante esta situação de absoluta impotência alguns pescadores reagiram de uma maneira desesperada. Começaram a aliar-se em pequenos grupos armados e usando lanchas rápidas tentam afugentar os barcos pesqueiros estrangeiros e dissuadir os navios que despejam resíduos nas suas águas.

"Há muitos anos conseguíamos pescar muitíssimo... o suficiente para comer e para vender no mercado. Mas depois chegaram os navios estrangeiros de pesca ilegal que muitas vezes despejam produto tóxicos que dizimam as reservas pesqueiras. Não me restou alternativa."

Chamam-se a si mesmos os "Guarda-Costas Voluntários da Somália" e contam com o total apoio da população local.

Segundo uma pesquisa, 70% da população somali apoia fortemente esta atividade como um meio de defesa das águas territoriais do país.

Um dos seus líderes, Sugule Alí, explicou os seus motivos:

“Parar a pesca ilegal e as descargas nas nossas águas. Não nos consideramos bandidos do mar. Consideramos que os bandidos do mar são os que pescam ilegalmente e despejam lixo.”

Mas inicialmente ninguém os leva a sério. As frotas pesqueiras estrangeiras continuam a pescar impunemente e as descargas tóxicas continuam. Tendo em conta que tudo isto ocorre num país cheio de armas e dividido em grupos rivais a estes pescadores rapidamente se unem ex-combatentes e acabam convertendo-se em grupos fortemente armados.

Pressentem um lucrativo negócio na captura destes barcos e na exigência de um resgate. Quando começam a reter barcos a zona vai-se esvaziando e as frotas estrangeiras deixam de chegar com tanta frequência. As grandes potências vêem agora ameaçadas em sua atividade de pesca lucrativa e vêem-se privados do seu particular e muito econômico vertedouro de resíduos tóxicos e nucleares.

A ONU, que ignorou sistematicamente as reclamações somalis agora atende às reclamações dos países afetados por estas ações. Espanha e França, países com importantes frotas pesqueiras na zona, encabeçam uma petição de uma reação militar conjunta. Desta maneira nasce a Operação Atalanta.
A missão dispõe inicialmente de 8 vasos de guerra, barcos de abastecimento e aviões de reconhecimento e vigilância. Após o fracasso inicial da operação, é ampliado o seu prazo e dotação, com mais de 20 navios e 1.800 militares. O custo estimado para o governo espanhol ascende a mais de 6 milhões de euros mensais.
A segurança privada dos atuneiros galegos e bascos ascende a meio milhão de euros mensais. O governo espanhol suporta metade desse custo por intermédio do Orçamento de Estado.

Recordemos a definição de pirata:

Roubam no mar, apropriando-se do que não lhes pertence.
Realizam as suas ações fortemente armados. E em algumas ocasiões contam com a proteção de um Estado ou de uma Nação. Mas.. Por que razão pescam ali estas frotas?
Não poderiam, por acaso, fazê-lo nas suas águas territoriais? Nos seus oceanos? Não... E a causa é terrível
Já não resta nada que pescar. Devastaram e saquearam todas as suas reservas. Os países ricos exterminaram a vida marinha dos seus próprios oceanos.

Os sistemas de pesca dos países capitalistas industrializaram-se. Os ecossistemas marinhos são explorados até ao limite com o intuito de maximizar os lucros. Destrói-se a capacidade de regeneração das espécies marinhas A cadeia alimentar é quebrada e as espécies extinguem-se.

Como denuncia a Greenpeace International pelo menos um quarto de todas as criaturas marinhas capturadas são atiradas de volta ao mar, mortas. Baleias, golfinhos, albatrozes, tartarugas... São o que a indústria pesqueira denomina frivolamente de capturas acessórias.

Desde os mares do Norte ao Golfo da Biscaia o Cantábrico e o Mediterrâneo esgotou-se e destruiu-se o habitat da maioria das espécies.

O professor de História do Pensamento Político José Carlos García Fajardo, afirma:

“Por isso as nossas frotas europeias foram à procura das ricas reservas de África, América Latina e Ásia. Em muitos países serviram-se de governantes sem escrúpulos da falta de meios para defender a pesca nas suas próprias águas ou de falsas joint ventures criadas para roubar as suas riquezas. No ano de 2006, tendo em vista proteger os seus recursos naturais o Senegal não renovou os acordos pesqueiros com os países da União Europeia. Mas parece impossível deter as frotas pesqueiras capitalistas. Estas burlam as leis criando joint ventures comprando licenças a outros países e agitando bandeiras de conveniência. Atualmente, através da Internet pode-se comprar uma bandeira de conveniência em alguns minutos e por menos de 500 euros. No Senegal, os barcos de pesca deixaram de ser úteis para a sua finalidade original e são agora usados para transportar imigrantes que procuram um futuro melhor em países europeus. Ironicamente os mesmos países que lhes arrebataram o seu futuro. Na Somália, os barcos deixaram de ser úteis para a pesca e são usado agora para a pirataria.”

A Conferência Global dos Oceanos anunciou que 75% dos bancos de pesca mundiais desapareceram. A FAO também alertou que 80% das reservas mundiais estão superexplorados e 30% das espécies marinhas se encontram abaixo do limite biológico de segurança.

Por tudo isso, diversos estudos científicos calculam que no ano 2048 estarão esgotados todos os recursos pesqueiros do planeta.

Documentário enviado por Raul Longo

Ler também:

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Somália, 2010: Os piratas estão vencendo! (traduzido)

Jeffrey Gettleman, New York Review of Books, 14/10/2010, vol. 57, n. 15 - The Pirates Are Winning!

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

6/11/2010, IstoÉdinheiro, AFP 
“O pagamento de um resgate recorde de 9 milhões de dólares foi efetuado para se conseguir a liberação de um petroleiro sul-coreano, o "Samho Dream" e seus 24 tripulantes, capturados no Oceano Índico, informaram os piratas somalis à AFP (...)”

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Abshir Boyah é um dos capitães-piratas da Somália. Ano passado, convidou-me para almoçar num pequeno restaurante, na calçada em frente ao palácio do governo regional semiautônomo de Puntland. Boyah já sequestrou dúzias de navios e barcos e é membro de um conselho secreto de piratas chamado “A Corporação”. Tem quase dois metros de altura, muito magro, rosto longo e expressão simpática, dentes branquíssimos e sorriso de inabalável total autoconfiança.

No instante em que entrou no restaurante, foi cercado por admiradores. No caminho até a mesa de plástico, onde almoçaríamos espaguete com carne de camelo, Boyah apertou meia dúzia de mãos. Evidentemente mantém as mais cordiais relações com membros do alto “governo” em Puntland – autoridade clânica, limitada, que se estabeleceu no norte da Somália –, inclusive com um comandante da Polícia que se sentou ao lado dele e tratava-o por “primo”. Boyah riu da situação: para ele, sentar-se e almoçar com brancos, era como “o gato almoçar com os ratos”. A cada instante, mais me convencia de que não se tratava apenas de Boyah operar livremente naquela parte da Somália; ali, Boyah é celebridade.

Boyah e seus camaradas (muitos dos quais, em verdadeiro espírito pirata, são conhecidos pelos codinomes “Bocão”, “Bunda Branca”, “Bundinha”, “Dente de Prata”, “Dente Vemelho”, “Abdi, O Mentiroso”) são risonhos, simples, surpreendentemente acessíveis – algumas gangues de piratas somalianos têm, cada uma, seu porta-voz oficial pirata para contatos com a mídia. Dizem a quem pergunte que trabalham exclusivamente pelo dinheiro. Mas o efeito do florescente empreendimento criminoso que organizaram nas águas de mais densa e complexa circulação de navios do mundo teve efeito muito mais amplo do que o simples sucesso comercial.

Nada, nos últimos anos, conseguiu atrair mais atenção internacional diretamente para a Somália – nem a fome que mata milhões, nem a guerra civil sem trégua, nem o primeiro homem-bomba americano nativo, que se autodetonou na Somália ano passado –,  que as histórias reais dos piratas do século 21 que, de seus barcos, jogam ganchos sobre a murada dos maiores navios que há no planeta, sobem a bordo pingando água e pesadamente armados e capturam tripulações inteiras, que mantêm como reféns durante meses, até que os milhões de dólares pagos para libertá-los caem sobre eles, literalmente, dos céus.

Ao longo dos últimos vinte anos, desde o colapso do governo central, a Somália é caso exemplar da história moderna, de país sem Estado. Nada parece funcionar ali como noutros lugares. Nem legiões de soldados norte-americanos desembarcados em 1992 com a missão de “conter” os senhores-da-guerra locais; os soldados retiraram-se dois anos depois, derrotados e humilhados, no fiasco narrado em livro (1999) e filme (2001), “Falcão Negro em Perigo” [ing. “Black Hawk Down”]. Nem os sete mil soldados dos batalhões de paz da União Africana que lutam hoje nas ruas em ruínas de Mogadishu. Centenas de milhares de vidas foram destruídas pela fome e pela guerra. E a violência não para de crescer, mais recentemente, no que é ostensivamente uma guerra religiosa entre um governo islâmico moderado que recebe milhões de dólares de ajuda do Ocidente, mas não tem controle sobre praticamente nenhum território, e uma guerrilha islâmica radical levada para a Somália pela al-Qaeda. Rivalidades seculares entre clãs e os que lucram com a guerra alimentam esse banho de sangue eterno. Nesse contexto, germinaram condições perfeitas para a pirataria: anarquia, a herança da Guerra Fria, que criou uma Somália armada até os dentes, e um litoral de mais de 3.000 km no Golfo de Aden, pelo qual cruzam anualmente 20 mil navios.

Claro que já houve outros estados fracos ou relativamente fracos com litorais estratégicos, como a Nigéria ou a Indonésia, onde a ausência de qualquer lei fez florescer a pirataria, e os piratas sempre utilizaram táticas semelhantes às que se veem na Somália – os ganchos para abordagem, os barcos rápidos e os chamados barcos-mãe. Mas a Somália é diferente, em pelo menos um aspecto crucialmente importante, o que também explica que personagens como Boyah deem-se tão bem.

Os piratas da Somália contam com um país inteiro, do tamanho do Texas, onde se escondem e escondem os reféns. Abordam e navios às vezes a dois mil quilômetros da costa; transferem os reféns para seus barcos rápidos e os levam para esconderijos só conhecidos dos piratas, onde jantam churrasco de bode recém-degolado e iniciam as negociações que levarão ao pagamento do resgate.

Para os reféns, pode ser espera longa, infernalmente difícil. Paul e Rachel Chandler, casal de aposentados britânicos, permaneceram numa vila a poucas milhas do litoral da Somália por quase um ano, depois que seu veleiro foi abordado em outubro de 2009, durante o que esperavam que viesse a ser “a viagem dos nossos sonhos”. Em 2008, quando mais de uma dúzia de navios foram sequestrados, e havia mais de 300 reféns, todos aprisionados em mar alto no litoral da Somália, Pottengal Mukundan, diretor do International Maritime Bureau em Londres, disse-me: “vêem-se imagens dos barcos no Google Earth. Nenhum outro Estado, no mundo, toleraria isso.”

Mais de 30 países já enviaram navios-patrulha armados, para águas da Somália, mas Mukundan não tem esperança de que consigam intimidar os piratas, porque são mais de seis milhões de quilômetros quadrados a patrulhar. Os estrangeiros resistem à ideia de atacar os refúgios dos piratas em terra, porque é muito mais simples e mais barato negociar com eles e pagar os resgates. Negociar com os piratas e pagar os resgates pode ser bom negócio e talvez faça sentido. Mas quando essa negociação se torna prática regular e frequente, ela acaba por atrair cada vez mais jovens somalianos, que veem na pirataria um excelente oportunidade de trabalho; ao mesmo tempo em que os piratas tornam-se cada vez mais ousados e mais ambiciosos.

Os piratas somalianos atacam qualquer tipo de embarcação: gigantescos navios-petroleiros, veleiros esportivos minúsculos com três pessoas a bordo; os tradicionais veleiros árabes dhows que transportam mercadorias; navios de transporte fretados para transporte de produtos de socorro, alimentos e remédios, ou para transporte de armas; um navio-tanque dos EUA carregado de benzeno altamente inflamável, que as autoridades dos EUA temeram que fosse usado como gigantesca bomba flutuante. Os piratas até já abordaram navios de guerra, supõe-se que por engano.

Ninguém sabe com precisão o quanto já arrecadaram em resgates recebidos nos últimos cinco anos, mas pode-se estimar o total em, no mínimo, 100 milhões de dólares. Vez ou outra o botim enlouquece os piratas. Depois de recolher o pacote com 3 milhões de dólares, que desceu de paraquedas sobre o convés do “Sirius Star” – resgate pago em troca da desocupação do superpetroleiro saudita, que um bando de jovens piratas somalianos sequestrou no final de 2008 –, os piratas saltaram para seus botes infláveis super rápidos, no meio de um vendaval em alto mar. Vários botes viraram e vários piratas afogaram-se. Um corpo veio dar ao litoral, dias depois, com mais de 150 mil dólares nos bolsos das calças e jaqueta.

Essas formidáveis quantias de dinheiro criaram uma cultura pirata cheia de extravagâncias. Os casamentos piratas são solenidades e negociações altamente elaboradas, que duram dois ou três dias, avançam noite adentro, com conjuntos musicais (e noivas) trazidos de outros países em comboios de moderníssimos veículos 4 x 4. As mais belas jovens nas vilas dos piratas sonham com noivo pirata; os meninos mal podem esperar crescer o suficiente para pendurar a metralhadora AK-47 ao ombro e partir para o mar. Nessas regiões, toda a economia local gira em torno do sequestro de navios, com centenas de homens, mulheres e crianças empregados como vigilantes, guardas, atendentes, cozinheiros, auxiliares de convés, mecânicos, contadores, guarda-livros e garçons para servir chá.

Não há dúvida de que, na Somália, o crime compensa. – De fato, é a única indústria na Somália que garante lucros aos investidores. Há uma Bolsa de Valores pirata que funciona em Xarardheere, na qual os cidadãos compram e vendem ações de 72 empresas piratas individuais, que rendem retorno considerável no caso de a empresa pirata ser bem sucedida. Mas, quase sempre, todos gastam todo o dinheiro sem qualquer controle.

Boyah, que já recebeu pessoalmente centenas de milhares, se não de milhões, de dólares, pediu-me que lhe comprasse cigarros, quando o encontrei. Perguntei-lhe se não tinha dinheiro nem para cigarros, e ele explicou: “Quando alguém que nunca viu dinheiro passa a receber pacotes de milhões, logo se aprende que assim como vêm, os milhões se vão, muito depressa”. Disse também que tem de manter uma rede muito grande de parentes e dependentes clânicos: “não é um milhão para dividir entre dois ou três. São trezentos, às vezes mais”.

Nos últimos dois anos, alguns países tentaram linha mais dura. Uma vez, não faz muito tempo, tripulações de navios mercantes enfrentaram os piratas com tomates e tentaram atacá-los com mangueiras. A marinha da Índia recentemente afundou um navio pirata, matando vários piratas e os reféns que estavam sendo transportados. No início de setembro, comandos da Marinha dos EUA conseguiram capturar nove piratas somalianos que haviam sequestrado um cargueiro alemão ao largo do Iêmen. Muitos navios mercantes já contratam segurança privada armada para viagens naquela área. Os piratas estão aprendendo que se vai tornando cada vez mais difícil sequestrar navios e, segundo informe recentemente distribuído pela ONU, a taxa de sucesso dos piratas despencou, de 63% de sequestros bem-sucedidos, para cerca de 20%. Dúzias de piratas têm sido capturados e levados para o Quênia, Paris, Amsterdã e até New York para serem julgados, embora número muito superior tenha sido detido, desarmado e devolvido ao mar. Ano passado, SEALS da Marinha dos EUA, mataram três piratas que mantinham como refém um norte-americano num bote salva-vida. Mas os sequestros prosseguem. Até meados de agosto de 2010, piratas somalianos haviam abordado, no ano, 31 navios – muito menos do que no ano passado.

O “Chifre da África”, aquela ‘ponta’ do continente africano que avança no Oceano Índico e quase toca a península Arábica, é uma das regiões menos democráticas, onde mais a fome faz vítimas, mais miseráveis e mais violentas do mundo – como se vê há 30 anos na Etiópia, Eritreia, Somália e Sudão.

Os EUA e a URSS definiram o Chifre como território de alta importância estratégica – o que o converteu em campo de batalha da Guerra Fria. Quantidades imensas de armas chegaram ininterruptamente àqueles países profundamente empobrecidos; e os ditadores do Chifre rapidamente perceberam que muito teriam a ganhar se não construíssem instituições e jamais pensassem em divulgar ideologias persuasivas e pacíficas. Os grandes ganhos só dependiam de manter contato íntimo ou com EUA ou com a URSS e exigir quantidades de armas cada vez maiores.

A Somália talvez seja o mais terrível exemplo de instabilidade social e política gerada pela Guerra Fria. Primeiro, a serviço dos russos, ali se instalou uma das principais bases de lançamento de mísseis teleguiados, em Berbera, junto ao Golfo de Aden. Visitei os bunkersquase todos subterrâneos, nos quais os russos armazenavam mísseis, e os estaleiros, hoje em ruínas, nos quais trabalhavam marinheiros russos. Naquele momento, os EUA apoiavam o arqui-inimigo da Somália, a Etiópia, então convertida em estado-cliente dos norte-americanos.

De repente, em meados dos anos 1970s, tudo mudou, quando um levante de oficiais do exército etíope assassinou o velho rei Haile Selassie, e o novo governo revolucionário optou por construir Estado comunista marxista. As duas superpotências ‘trocaram de campo’: os soviéticos abraçaram a Etiópia e os EUA mudaram-se para a Somália. O fluxo infindável de armas prosseguiu. Os ditadores locais, cada dia mais armados, foram-se tornando cada dia mais despóticos. Em 1991, quando se deu por oficialmente encerrada a Guerra Fria, os dois governos, da Somália e da Etiópia, desabaram, quase simultaneamente.

Siad Barre, ditador na Somália, já governava sem mandato legítimo há anos. Desde o início dos anos 1980, uma guerra civil entre clãs armados já vinha minando a autoridade do ditador; ao final da década, Barre já era conhecido como “o prefeito de Mogadishu”, porque as milícias já\ controlavam todo o resto do território.

Sempre foi difícil governar a Somália, apesar de ser um dos países mais culturalmente homogêneos do planeta. Praticamente todos os habitantes, estimados em sete milhões,  falam o mesmo idioma (o somaliano), praticam a mesma religião (islamismo sunita) e são de um mesmo grupo étnico e cultural. Mas os somalianos são divididos em número muito grande de clãs e subclãs.

Italianos e britânicos colonizaram diferentes partes do território, e todos fracassaram na tentativa de impor leis ocidentais aos somalianos. Na Somália, por tradição, as disputas resolvem-se em assembleias em que se reúnem os mais velhos de cada clã. Para a expressiva maioria da população, só há uma lei que todos compreendem: “Se você me matar, a ira do meu clã cairá sobre você e o seu clã.” Nos pontos do país onde as práticas sociais tradicionais foram menos violentadas, como na Somalilândia britânica, os frutos de longo prazo foram melhores do que na região centro-sul do país, onde a administração colonial italiana rapidamente destruiu a estrutura tradicional das assembleias de anciãos. A região centro-sul da Somália ainda é palco de confrontos sangrentos, de radicalismo islâmico e pirataria. Na Somalilândia acabam de ocorrer eleições pacíficas e – fenômeno raro na África – a transferência de poder fez-se sem violência.

Em seu novo livro Somalia: The New Barbary? [1], Martin Murphy, conselheiro da Marinha dos EUA e professor visitante no Corbett Centre for Maritime Policy Studies no King’s College, University of London, usa documentos e registros do período colonial, para demonstrar que desde os anos 1950s há piratas no Golfo de Aden, que já então atacavam veleiros árabes tradicionais [dhows] e barcos pesqueiros. Antes disso, tudo leva a crer que os somalianos contentavam-se com explorar restos de navios naufragados.

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Segundo Robert L. Hess, em seu livro Italian Colonialism in Somália [2] os sultões do que se conhece hoje como Puntland dirigiam “bem organizada indústria de operações de saque” já nos anos 1800s, quando assaltavam os navios europeus que tentavam ultrapassar o traiçoeiro Cabo Guardafui, o chifre do Chifre da África.

A Somália é estado com extenso litoral, mas a maioria dos somalianos vive no interior, distantes do mar. Mesmo nos tempos de alguma estabilidade, a Somália jamais desenvolveu indústria pesqueira significativa, apesar de os mares somalianos serem ricos de atuns, tubarões, lagostas, camarões de águas profundas e pescada. A cultura tradicional da Somália é pastoril, com criação de cabras e camelos, feita segundo a tradição nômade, de rebanhos conduzidos pelo território, acompanhando o ciclo das pastagens. “Comedor de peixe” é expressão extremamente ofensiva entre os somalianos. Uma das cenas mais impressionantes do livro clássico de Gerald Hanley sobre a Somália, Warriors, publicado pela primeira vez em 1971, comenta as impressões de um jovem do interior que vê o mar pela primeira vez:

Quando Mohamed afinal desceu do caminhão, parou, paralisado, os pés colados ali na areia, tremendo dos pés à cabeça, olhando e ouvindo o rugido terrível do mar que rolava em direção a ele. Jamais vira nada semelhante e ficou sem fala. Até osaskaris [soldados locais] calaram-se e ficaram a olhar para ele, que examinava tudo em volta, os olhos móveis, preocupados (...). Foi das experiências mais estranhas da minha vida: um selvagem do deserto tremendo ante o oceano que via pela primeira vez, como se temesse que o chão se abrisse e o engolisse para sempre. O homem um dia esteve como ele, entre raios e trovões, há um milhão de anos, no tempo da inocência”. [3]

Apesar de os somalianos não sentirem qualquer orgulho ou atração por seus mares, há quem os procure. No auge da temporada de pesca, a paisagem enche-se de traineiras e barcos pesqueiros de todo o planeta. Muitos usam técnicas predatórias, dinamitando recifes, ou gigantescas bombas de sucção que aspiram o fundo do oceano – peixes, corais, rochas, plantas – e destroem não uma, mas várias gerações de vida marinha.

Muitos dos piratas que entrevistei falam do sentimento de humilhação, quando não havia outro meio para ganhar a vida além do serviço temporário nos barcos pesqueiros estrangeiros. Quanto maiores os barcos, maior a quantidade de peixe roubado dos pescadores locais. Dizem que, há anos, antes de os piratas serem piratas e quanto muitos tentavam ganhar a vida como pescadores, muitas vezes os grandes barcos pesqueiros atiravam contra os botes locais, para impedi-los de pescar. Os piratas também protestam contra a quantidade imensa de barris com lixo tóxico que vêm dar à costa, ilegalmente lançados ao mar a alguns quilômetros da praia, por empresas estrangeiras que se aproveitam de não haver governo na Somália para impedir aquela prática ou para denunciar as empresas ao Tribunal Internacional. Organizações marítimas na África Oriental confirmaram esses relatos.

Boyah, conhecido em toda a Somália como pirata pioneiro, nasceu na cidade costeira de Eyl, acredita-se que em 1966, segundo documentos do Departamento de Estado dos EUA que recentemente congelou seus bens. Contou-me que ele e sua família foram deslocados, do litoral para o interior, como parte de um programa governamental de apoio a vítimas de enchentes. Deixou a escola aos oito anos e trabalhou como cozinheiro num barco pesqueiro. Tornou-se pescador. Sequestrou seu primeiro navio em 1993, um pesqueiro que entrara ilegalmente em águas da Somália.

Boyah conta que a pirataria começou na Somália quando pescadores como ele armaram-se e começaram a abordar traineiras clandestinas ilegais para exigir “uma multa”, no início, de alguns poucos milhares de dólares. Mas os pescadores rapidamente perceberam que recolher “multas” das traineiras podia ser muito mais lucrativo que pescar. Esforço que o governo de Puntland empreendeu em 1999, de contratar uma empresa britânica, Hart Security, para impedir que as traineiras e pesqueiros pescassem em águas da Somália, acabou por complicar ainda mais a situação, porque não conseguiu impedir a pesca ilegal e introduziu ainda maior quantidade de armas na região. Em meados dos anos 2000s, muitos pescadores amadores converteram-se em piratas profissionais e alguns deles enriqueceram inacreditavelmente, em pouco tempo. Graças a Boyah, sua cidade natal, Eyl, em pouco tempo converteu-se em nova capital planetária da pirataria.

Rapidamente, os piratas organizaram-se em grupos chamados “companhias”, que receberam nomes como “Marines da Somália”, “Guarda Costeira Central da Somália”, “Defensores das Águas Territoriais Somalianas” e, até, “Exército da Salvação do Oceano”. No passado, os piratas tentaram apresentar-se como guardiões do litoral da Somália, reivindicação que soa cada vez mais ridícula, posto que se aventuram milhas e milhas além dos limites territoriais, e já atacam navios em pontos mais próximos da Índia que da África. A verdade é que são, simplesmente, versão embarcada da absoluta ausência de qualquer lei ou ordem em que a Somália vive. Nos últimos vinte anos, no vácuo de qualquer autoridade central, personagens carismáticos que aprenderam a explorar as interconexões clânicas, o fácil acesso a armas e quantidades enormes de desempregados jovens e sem qualquer formação escolar, passaram a dominar a economia da Somália e aquela política envenenada. Controlam o contrabando de armas, o tráfico de drogas, importam alimento em pó para bebês, com prazo de validade vencido; são os mesmos que expropriaram prédios que foram propriedade do Estado e hoje alugam os quartos para famílias sem-teto.

Um dos maiores problemas da Somália é essa classe muito poderosa e profundamente enraizada, dos que lucram com a guerra. Alimentam-se há tanto tempo da anarquia, que se recusam a combatê-la. Combatem, sim, qualquer esforço para restabelecer qualquer tipo de governo, não importa que governo seja. “Impostos não são bem-vindos”, explicou um exportador de azeite de oliva, em Mogadishu, discorrendo sobre os motivos pelos quais estava comprando mísseis para guerrilheiros.[4]

Os piratas encontraram um meio para ancorar essa economia local criminosa, à economia global. De início, apenas posicionavam seus barcos no congestionado Golfo de Aden e esperavam. Um dos piratas que sequestrou o MV Faina, cargueiro ucraniano que transportava 33 tanques soviéticos de combate T-72, contou-me que, naquele dia, sua tripulação andava sem objetivo definido por um dos canais super congestionados, quando viram um barco grande, azul e branco, com cordas pendendo para fora da amurada. Hoje, porém, com a maior presença de barcos de guarda no Golfo de Aden, os piratas estão-se deslocando rapidamente cada vez mais para o sul e para o leste, usando naves-mães (em geral, traineiras roubadas) , como bases flutuantes de operação, para ampliar a área de ação. A região entre as ilhas Seychelles e a Tanzânia são hoje seu principal campo de caça.

Uma vez abordado o navio, os piratas dirigem-se imediatamente para a ponte, usam as armas para imobilizar a tripulação e, quase sempre, trancam todos nos dormitórios dos marinheiros. Só muito raramente os piratas somalianos ferem intencionalmente seus reféns. Na maioria, os piratas obedecem um rígido código de conduta que impõe multas aos pistoleiros que maltratem os reféns. Boyah disse que havia cópias impressas dessas regras, um, pode-se dizer, “Manual dos Piratas”. Os piratas parecem dar-se conta de que, se começarem a maltratar ou executar reféns, darão ao ocidente motivo perfeito para que ataquem suas bases em terra. Até agora, o mundo parece dar-se por satisfeito na posição de pagador desse caro jogo de gato e rato. Alguns, é verdade, começam a perder a paciência. Em abril passado, Nicolas Sarkozy ordenou que comandos franceses invadissem um veleiro sequestrado no qual permanecia uma família. Os comandos mataram dois piratas, capturaram três e libertaram o veleiro; mas também mataram o pai da família sequestrada.

Navios militares de várias bandeiras tem capturado incontáveis jovens somalianos a bordo de seus botes rápidos armados com armamento pesado e sem qualquer equipamento de pesca. Mas, na maioria dos casos, não há como formalizar qualquer acusação, e os barcos e tripulação acabam por ser libertos. Em praticamente todos os casos, os piratas são presos antes de praticar qualquer ação criminosa. E, depois que abordam e ocupam os navios, sempre é tarde demais para tentar prendê-los, porque já está protegidos pelos reféns. Nos termos das convenções internacionais, algumas delas com séculos de vigência, praticamente todo e qualquer país pode prender e julgar alguém que navegue em águas internacionais, suspeito de praticar pirataria. Vários navios ocidentais já entregaram mais de uma centena de suspeitos ao Quênia – país que, inicialmente, aceitara recebê-los para que fossem formalmente julgados. Mas o Quênia reclama os prometidos fundos financeiros para cobrir os custos de prisão e julgamento dos piratas, que jamais chegam; e a maioria dos casos que envolvem piratas não chegaram jamais a ser julgados.

Martin Murphy argumenta, convincentemente, que, apesar do ‘sucesso’ midiático, e do turbilhão que a expressão “piratas” desperta, a pirataria na Somália sempre foi negócio precário, rudimentar, sem qualquer tecnologia e, quase sempre, negócio selvagem, absolutamente sem regras. Chegou a haver rumores de executivos elegantes, em ternos e carros caros, em Nairobi, Dubai e até em Londres, que comandariam os negócios dos piratas somalianos, mas jamais consegui confirmar qualquer desses rumores. Também houve boatos de que os piratas estariam investindo fortunas no mercado imobiliário de Nairobi, que usariam equipamento para visão noturna e que, inclusive, estariam usando tintas especiais para pintar seus barcos, que os tornariam invisíveis à noite. Perguntei a outro capitão pirata, Mohamed Abdi, também conhecido como Af Weyne e “Bocão”, sobre a tal tinta invisível – e ele me olhou com ar feroz. Meu tradutor teve de repetir a pergunta. Duas vezes. Até que “Bocão” entendeu, e soltou uma gargalhada. “Bobagem, tudo bobagem”, disse. “Bocão” também riu alto, quando lhe disse que a ONU estava estudando meios para confiscar propriedades dos piratas em outros países. “Que propriedades?”, perguntou. (...)

Há pouca esperança, no futuro próximo, de que o governo de transição em Mogadishu consiga fortalecer-se o suficiente para derrotar os piratas. O governo pode, no máximo, tentar manter-se vivo. Os guerrilheiros islâmicos que controlam boa parte do território da Somália já consideraram a possibilidade de atacar as bases dos piratas, mas o dinheiro é necessário também para eles. Um grupo, Hizbul Islam, instalou algumas bases em Xarardheere e agora recebe um ‘imposto’ de $40.000 de cada resgate pago. Outro grupo guerrilheiro, mais poderoso, al-Shabab, fez um acordo com os piratas, pelo qual não interferem na operação pirata, em troca de 5% de todos os resgates recebidos. Parece estar começando aí o pior pesadelo para todo o Ocidente: os dois principais itens de exportação da Somália – pirataria e radicalismo islâmico – já estão unificando suas operações.

Sob pressão internacional crescente, e empurrados pelo que têm dito vários Sheikhs islâmicos, que a pirataria seria haram [pecado, pelos princípios do Islã], a Polícia de Puntland, em maio de 2010, prendeu Boyah. Até agora [o artigo foi escrito dia 14/9/2010, publicado um mês depois] ainda não foi formalmente acusado. Para muitos, ninguém formalizará qualquer acusação contra ele, que acabará por ter de ser libertado. Dentre outros fatores que pesam a favor de Boyah, ele e o presidente de Puntland pertenceriam a um mesmo sub-sub-clã. Na Somália, quase sempre, esse é o critério decisivo.


NOTAS
[1] MURPHY, Martin N., Somalia: The New Barbary? Piracy and Islam in the Horn of Africa,
Columbia University Press, 179 pp., $26.50 (lançamento marcado para 23/11/2010).
[2] University of Chicago Press, 1967.
[3] HANLEY, Gerald, Warriors: Life and Death Among the Somalis, London: Eland, 228 pp., $32.95 (distribuído nos EUA por Dufour).
[4] Escrevi sobre isso em “In Somalia, Those Who Feed Off Anarchy Fuel It”, The New York Times, 25/4/2007.