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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Pepe Escobar – “Falso Califato: perfeito ativo estratégico dos EUA”

26/5/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Manifestantes pro-ISIS/ISIL/Daesh em Mosul, Iraque
O ocidente “civilizado” chora abundantes lágrimas de crocodilo, quando a pérola do deserto da Antiga Rota da Seda, Palmira, cai sob as garras do ISIS/ISIL/Daesh.
Contudo, nem o Presidente Barack Obama dos EUA nem qualquer de suas 22 nações-vassalas pesadamente armadas que formam teoricamente a coalizão de vontades dele mandou para lá um drone equipado com míssil Hellfire, que fosse, contra os bandidos vestidos de negro do falso Califato.
Pode-se argumentar que o ocidente “civilizado” prefere negociar com um Califato cheio de wahhabistas medievais intolerantes, a negociar com um “ditador árabe” secular que “se recusa a prostrar-se de joelhos ante o altar do neoliberalismo ocidental”.
Paralelamente, já se disse que os que armaram os degoladores da Frente Al-Nusra, também conhecida como al-Qaeda na Síria, ou ISIS/ISIL/Daesh são predominantemente sauditas – os maiores importadores de armas do planeta – que compram armas principalmente dos EUA, mas também da França e da Grã-Bretanha.
E agora, documento de agosto de 2012, da Agência de Inteligência do Departamento de Defesa dos EUA [Defense Intelligence Agency (DIA)] que circulou por todas as mãos, do CENTCOM à CIA e ao FBI, obtido por ordem judicial pela empresa Judicial Watch, finalmente confirma o que passa por “estratégia” de Washington no Levante e na Península Árabe.
E, assim como a proto-Al-Qaeda original fundada pela CIA, estabelecida nos anos 1980s em Peshawar, o ISIS/ISIL/Daesh, também conhecida como al-Qaeda 2.0, serve ao mesmo objetivo geopolítico.
O resumo é que o ocidente “civilizado”, ombro a ombro com vassalos tipo Turquia e petromonarquias do Golfo, “deram apoio” ao braço da al-Qaeda na Síria para desestabilizar Damasco – apesar de o Pentágono estar prevendo o resultado sinistro que disso adviria, como a emergência do ISIS/ISIL/Daesh (ver também matéria detalhada de Brad Hoff, em 22/5/2015, EUA – Agência de Inteligência da Defesa, 2012: Ocidente facilitará ascensão do Estado Islâmico “para isolar regime sírio”, Levant Report [traduzido em redecastorphoto NTs]).
Pelo raciocínio do Pentágono, aí estaria um ativo estratégico de valor incalculável, a ser usado para “isolar o regime sírio”.
É irrelevante que o relatório da Inteligência da Defesa dos EUA não diga, com todas as letras, que o governo dos EUA inventou o ISIS/ISIL/Daesh, ou que favorece a al-Nusra na Síria ou o falso Califato no Iraque.
O ponto chave é que o documento mostra que governo dos EUA fez nada, absolutamente nada, para impedir que a Casa de Saud, os vassalos no Conselho de Cooperação do Golfo e a Turquia “apoiassem” a “oposição” síria – naquele ardente desejo desses todos de facilitar a emergência de um estado salafista à parte no leste da Síria e atravessando a fronteira, incluindo território iraquiano.
ISIS/ISIL/Daesh recebe armas sofisticadas dos EUA
Agora, já não há observador bem informado que não saiba que a “guerra ao terô” iniciado pelo governo Cheney é completa fraude. Assim sendo, não é surpresa que a destruição planejada do “Siriaque” [orig. “Syraq”] atualmente em andamento ofereça ao complexo industrial militar dos EUA o pretexto perfeito para super armar, com bilhões de dólares em armas, a Casa de Saud, outros vassalos reunidos no CCG, Israel e Iraque.
Essa confluência de interesses – geopolíticos, para o Pentágono; comerciais, para o complexo industrial militar – completa o cenário da Casa de Saud virtualmente ditar a política exterior do governo autodefinido de Obama como “Não faça merda coisa estúpida” no Levante e na Península Árabe.
No início de junho/2015 haverá em Paris uma reunião de todos os 22 estados membros da coalizão de Obama. Até lá, o Pentágono terá de ter algum plano de o que fazer do seu ISIS/ISIL/Daesh; ir ao tudo ou nada e tentar aniquilá-lo (muito improvável), ou empurrar os esquadrões de paus-mandados na direção do Cáucaso (nada improvável). O mais provável, em todos os casos, é que a coisa continue como está.
E a Rússia sabe de tudo
O coronel-general Igor Sergun, chefe do Diretorado Superior de Inteligência [orig. Main Intelligence Directorate (ru. GRU)] do Comando Geral das Forças Armadas da Rússia praticamente jamais fala em público. Por isso, quando ele fala, as placas geopolíticas tectônicas se agitam.
A análise de Sergun encaixa-se perfeitamente ao relatório da AID. Já há anos a inteligência militar russa concluiu – e agora está divulgando publicamente – que “o terrorismo islâmico” ou, de fato, a “guerra ao terô” toda ela, é ferramenta ocidental usada para esmagar nações soberanas que se atrevam a fazer oposição ao hegemon.
E como todos nós sabemos, é claro que é muito mais fácil subverter e/ou esmagar Iraque, Líbia ou Síria, que Rússia ou China. Ou, por falar disso, o Irã.
ISIS/ISIL/Daesh ataca vilas no Siriaque
Entrementes, o Império do Caos tem de se empenhar muito para conseguir lidar com – ou exibir cara de quem estaria conseguindo lidar – com o revide gerado por sua posição de Dividir e Governar. No Iraque, a queda de Ramadi deu ao ISIS/ISIL/Daesh um grande impulso de Relações Públicas, em termos de alcance estratégico, para recrutar novos soldados e para levantar cada vez mais dinheiro. Fizeram a equipe-aquela, de “Não façam merda coisa estúpida”, de idiotas.
E os EUA não foram sequer espectadores secundários da queda. Ramadi caiu porque o governo de Bagdá recusou-se a dar armas às tribos sunitas da província de Anbar. O falso Califato atacou a cidade com uma frota de 30 caminhões carregados de explosivos e com suicidas-bomba ao volante. As tribos que defendiam a cidade tiveram de desaparecer, porque sabiam que seriam massacrados pelos bandidos do Califato.
E o que fazia o Pentágono naquele momento? Nada – contradizendo a errada acusação do El Supremo do Pentágono, Ash Carter, para quem as forças iraquianas não tinham “vontade de lutar”. O Pentágono também nada fez em Tikrit, quando os norte-americanos recusaram-se a lutar contra o falso Califato ao lado de milícias xiitas comandadas por oficiais vindos do Irã e que se reportavam diretamente ao famosíssimo super comandante da Força al-Quds, brigadeiro-general Qassem Suleimani.
É Irã contra os degoladores
Agora a queda de Ramadi deixa bem claro que a verdadeira potência que está dando combate ao ISIS/ISIL/Daesh no Iraque é o Irã, não os EUA. Milícias xiitas já estão sendo incorporadas às forças de segurança do Iraque.
Milícias xiitas defendem Ramadi
Ezzat al-Douri, ex-n.2 de Saddam Hussein – que os EUA não prenderam até hoje – tem distribuído mensagens sobre a urgente grande necessidade de ajuda armada que venha dos suspeitos de sempre, Arábia Saudita, ainda que os sauditas tenham tentado armar as tribos em Anbar, através da Jordânia. Adivinhem quem disse “não”? Washington. Segundo as tortuosas e vacilantes regras do governo Obama, a Jordânia só poderia fazer o jogo dos sauditas se viesse uma autorização de Bagdá, que nunca veio.
Essa confusão quase impenetrável é só um exemplo do jogo duplo que o Império do Caos joga nessa “guerra ao terô” – que se resume à elaborada farsa que é a “luta” contra o ISIS/ISIL/Daesh em todo o “Siriaque”.
Aconteça o que acontecer em Washington no futuro próximo, sob Hillary “Viemos, vimos, ele morreu” Clinton ou sob Jeb “Meu irmão acertou na invasão” Bush, não se vê nem sinal de que o governo dos EUA pare algum dia de usar o “terrorismo islamista” como ativo estratégico.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sábado, 23 de maio de 2015

Pepe Escobar: Wahhabistas atômicos – literalmente

22/5/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online 
“Wahhabis go nuclear — literally”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 

A real possibilidade de um acordo nuclear entre Irã e o P5+1 está a uma semana de distância – dia 30/6/2015. 
 
Adivinhem portanto o que a terminalmente paranoica Casa de Saud está tentando: pôr as mãos numa bomba atômica para responder ao ataque da inexistente “bomba iraniana” – que Teerã, pela voz do Supremo Líder Aiatolá Khamenei, repetidas vezes já esconjurou e decretou que é arma não Islâmica; e de qualquer modo nem que quisesse o Irã jamais teria bomba atômica, porque o país terá de receber inspeções rigorosas, como parte do acordo sobre armas nucleares. 
 
O proverbial “ex-funcionário do Pentágono” vazou para um dos jornais de Rupert Murdoch que a Casa de Saud está a um passo de comprar bomba atômica pré-fabricada, do Paquistão. A escolha do veículo que recebeu o “vazamento” já é uma pista: o príncipe Alwaleed bin Talal é um dos principais acionistas da News Corporation. 
 
A questão de “por que agora?” sobre o vazamento tem resposta óbvia, mas o território do “quem-fez” é mais complexo e nebuloso. 
 
Enquanto isso, acrescentando combustível ao fogo jihadista, com os wahhabistas de Riad a sonhar com se tornarem – literalmente – nucleares, os seus irmãos de fé em todo o “Siriaque” vão-se tornando metaforicamente nucleares, somando vitória sobre vitória com os seus coturnos em solo; do ataque a Palmyra, joia da era-Rota da Seda do deserto na Síria, à tomada de Ramadi no ex-“triângulo da morte” no Iraque. 
 
A “bomba iraniana” jamais foi verdadeira preocupação para sucessivos governos dos EUA; jamais passou de pretexto conveniente para cercar, atormentar, sancionar e “isolar” a República Islâmica, ex-gendarme do Golfo nos tempos do Xá. O governo dos EUA sempre soube que é possível comprar bombas atômicas no mercado negro; portanto, nada muda se Teerã estiver fazendo ou não sua bomba nuclear própria. 
 
Por sua vez, a Casa de Saud pode – a palavra operativa aí é “pode” – já ter uma bomba, de fato há muito tempo, para destruir Israel. E “podem” tê-la comprado de, e pagado por ela a, Islamabad. Não há provas conclusivas. 
 
O que é garantido é que a – inexistente – “bomba iraniana” é o que a Casa de Saud, outros asseclas seus no Conselho de Cooperação do Golfo e, não podemos esquecer, o governo de convergência de extremistas fundamentalistas de Bibi Netanyahu, todos esses, consideram “ameaça existencial” à sua [deles] sobrevivência. 
 
Irâ e o Acordo Nuclear... e Netanyahu
por Dave Granlund
O problema é que não podemos descartar surtos de loucura desse tipo como se não passassem de casos de surrealismo geopolítico. Mito corrente – extremamente popular no Departamento de Estado na avenida Beltway — reza que Riad tem algum crédito com Islamabad, porque a Casa de Saud teria investido bilhões de dólares nos anos 1970s para desenvolver o programa nuclear paquistanês, como contragolpe ao programa nuclear da Índia. 
 
Já em dezembro de 2011, a Casa de Saud anunciou publicamente que estava procurando uma bomba atômica. Mas só quando avançou a possibilidade de real acordo nuclear com o Irã, os sauditas decidiram embarcar na empreitada tipo cauda-que-balança-o-cachorro de controlar a política exterior dos EUA. 
 
Israel entrou no jogo já em novembro de 2013, quando a BBC noticiou um suposto negócio nuclear entre Riad e Islamabad. Citação chave veio de ex-chefe da inteligência militar israelense, Amos Yadlin: se o Irã tiver uma bomba, “os sauditas não esperarão nem um mês. Já pagaram pela bomba; irão ao Paquistão e trarão o que tiverem de trazer”. 
 
Compare-se isso com o esperto príncipe Turki, ex-chefe da inteligência saudita e camarada próximo de um dito Osama bin Laden, que sempre acenou com a possibilidade de uma Casa de Saud nuclear. A última vez foi mesmo em abril/2015, no South Korean Asan Plenum: “O que os iranianos tiverem, nós também teremos”. 
 
O novo Chefão da gangue de Riad, o rei Salman, queria que Islamabad fornecesse soldados para a guerra que ele mantém contra o Iêmen. Islamabad respondeu Não, obrigado. Em vez dos soldados, pode – e a palavra operativa, outra vez, é “pode” – ter sido fechado um negócio nuclear. Naturalmente, nenhum alto funcionário nem de Riad nem de Islamabad jamais confirmará qualquer detalhe disso tudo. 

 
Considere do ângulo paquistanês
 
O rei Salman sabe muito bem que no caso de o ISIS/ISIL/Daesh conseguir a “mudança de regime” na Síria – possibilidade ainda muito remota – o alvo seguinte será a Casa de Saud. 

E há também o fato de Washington continuar a esconder as infames 28 páginas do relatório sobre o 11/9, perfeitamente ocultas por todos esses anos. Ter sua bomba nuclear pode, sim, servir como “argumento” de que os sauditas podem lançar mão tanto contra Washington como contra a inexistente “bomba iraniana”. 
 
Paquistão, os wahhabistas sauditas e a... BOMBA!
Além da propaganda, permanece o fato de que vários VIPs e Masters of the Universe estão realmente fartos da Casa de Saud em várias questões chaves, sobretudo agora, com a guerra saudita dos preços do petróleo a dizimar a indústria norte-americana do petróleo de xisto. 
 
Mas, seja como for, a Casa de Saud jamais poderá virar – literalmente – nuclear atômica, sem uma luz verde de Washington. 
 
A visada do Paquistão ajuda a dissipar a névoa. O chefe do projeto nuclear paquistanês A.Q. Khan — com algum apoio ou, no mínimo, com a concordância de Islamabad — vendeu, sim, tecnologia de armas nucleares à República Popular Democrática da Coreia (“Coreia do Norte”), ao Irã e a Líbia. Mas todo o programa nuclear paquistanês custa menos de US$ 450 milhões. Resmas de analistas paquistaneses destacam que foi assim tão barato porque Islamabad foi ajudada pela China, não pela Casa de Saud. 
 
Ambos, Irã e Arábia Saudita são fornecedores chaves de energia para os chineses. Ambos, Irã e Paquistão serão atores chaves no projeto emergente da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda liderado pelos chineses. Islamabad seria completamente idiota se pusesse em perigo seu relacionamento com Pequim, fornecendo uma arma nuclear que será usada para ameaçar um vizinho não nuclear – o Irã – que não apenas é aliado estratégico dos chineses, mas também terá papel chave no solucionamento dos problemas energéticos do Paquistão, via o oleoduto Irã-Paquistão (IP), parcialmente financiado por – e quem mais seria? – Pequim. 
 

Assistam à Batalha de Ramadi – remix 
 
O wahhabismo, como é praticado na Arábia Saudita amiga de degoladores, é e continuará a ser a matriz ideológica de todas as formas de salafismo-jihadismo que foram disparadas no Oriente Médio e além. Isso se aplica ao seu mais espetacular ISIS/ISIL/Daesh apaixonado pelas mídias sociais. 

ISIS/ISIL/Daesh – para consternação do “mundo civilizado” – tomou a pérola da Antiga Rota da Seda, Palmyra. A UNESCO está “consternada”. A Casa Branca está “preocupada”. 

Palmyra é encruzilhada estratégica no centro da Síria, e dali o falso Califato poderá lançar ataques em todas as direções e acossar o eixo vital do governo sírio, de Damasco a Aleppo. Já tomaram também o ponto crucial de controle sobre a fronteira Síria-Iraque, al-Walid, em território sírio. 
 
Palmira - centro geográfico da Síria
Além disso, cerca de 1/3 dos 200 mil habitantes de Palmira já estão convertidos em refugiados. Centenas foram feitos reféns. O macabro show de degola prossegue. 

E o Império do Caos – o qual, em tese, está em guerra contra o falso Califato – está fazendo alguma coisa para salvar as ruínas romanas de valor inestimável que há em Palmira da destruição possível, iminente, pelos bárbaros wahhabistas? É claro que não. 
 
Ruínas romanas de Palmira
E o mesmo se aplica a Ramadi, capital da província de Anbar, a apenas 110km de Bagdá, que os EUA não “perderam”, porque nunca foram donos dela. Enquanto  ISIS/ ISIL/ Daesh vangloriava-se da vitória com megafones em todas as principais mesquitas, o Pentágono disparava press-releases segundo os quais se tratava de “campo de combate fluido e contestado”; e insistia em “apoiar [os iraquianos] com fogo aéreo”. 

Não deixem de ver o flamante comboio de Toyotas dos bandidos do Califato, rindo do alto de suas Kalashnikovs, enquanto deixam sua marca no “campo de combate fluido e contestado”. O Pentágono pode “apoiar” o que quiser com “fogo aéreo”, mas o bombardeio não estraga a fluidez. O Pentágono perdeu todos os seus alvos. ISIS/ISIL/Daesh não é patinho na lagoa; estão numa guerrilha assimétrica, com alta capacidade para deslocamento rápido. 

ISIS/ISIL/Daesh investiu em muito planejamento estratégico para tomar Ramadi. O simbolismo aí é de longo alcance: uma grande derrota não só para Bagdá mas, também para o Império “liderando-pela-retaguarda” do Caos, por mais que um Barack Obama absolutamente sem noção só faça repetir que “não estamos perdendo” a luta contra o Califato. 

O Primeiro-Ministro iraquiano, Haydar al-Abadi, está começando, afinal, a entender a coisa toda. Reuniu-se com líderes chaves das milícias xiitas – que terão de fazer o trabalho pesado de cruzar o Eufrates e tentar retomar Ramadi antes de que os bandidos do Califato decidam avançar em direção à cidade santa de Karbala, que guarda o túmulo de Imam Hussein, neto martirizado do Profeta Maomé. É uma corrida contra o tempo, porque  ISIS/ ISIL/ Daesh pode também tentar tomar as bases militares iraquianas próximas e os respectivos depósitos de armas. 
 
Iraque e principais cidades (incluindo Ramadi e Karbala)
Quanto aos xeiques tribais sunitas em torno de Ramadi, como possíveis adversários contra o Califato, estavam – e permanecem – absolutamente furiosos, porque jamais receberam as armas que Bagdá lhes prometeu. Além disso, ninguém sabe por que o Exército Iraquiano no local não recebe apoio aéreo; helicópteros de combate, armados, naquele local, teriam feito picadinho de muitos e muitos bandidos do Califato. 

Al-Abadi afinal agiu e removeu a proibição que ele mesmo impusera, pela qual as milícias xiitas foram proibidas de operar na província de Anbar, de sunitas hardcore; antes, as milícias lá estiveram, obedecendo ordens do respeitado Aiatolá Sistani. 

Entrementes, o comandante do Badr Corps e comandante geral das milícias xiitas, Hadi al-Ameri, tem certeza de que retomar Ramadi é mais fácil que combater no norte de Bagdá, na província Salahuddin – onde as milícias, com o Exército do Iraque, retomaram Tikrit e Beiji, do controle do ISIS/ISIL/Daesh. Nos dois casos, as bombas despejadas pelo Império do Caos tiveram papel mínimo. 

Al-Abadi também se reuniu com o Ministro da Defesa do Irã, brigadeiro-general Husain Dehqan, em Bagdá. Repetiu que ambos, Irã e Iraque, estão combatendo contra o extremismo terrorista (sunita). E disse, crucialmente importante, que “nós não apoiamos a guerra contra o Iêmen” – o que põe Bagdá em conflito direto com Riad. 

E a coisa ainda fica melhor: al-Abadi foi a Moscou, onde espera conseguir muito apoio – e armas. Afinal, o ISIS/ISIL/Daesh está cheio de chechenos. Moscou quer o Califato esmagado, o quanto antes; enquanto ele continuar ativado por lá, permanece uma ameaça direta de renascimento do jihadismo na Chechênia. 

Assim sendo, está montado o cenário para a Batalha de Ramadi — remixed. Milícias xiitas mais tribos sunitas, o estranho conselheiro norte-americano, o discreto apoio de Irã e Rússia, contra os bandidos do Califato, muitos dos quais mercenários, apoiados com prodigalidade por vários wahhabistas ricos, na Arábia Saudita e por todo o Golfo. No que tenha a ver com o Império do Caos, “Dividir e Governar” ainda é o mais doce jogo que há hoje na cidade  
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.