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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Pepe Escobar: Rússia e China zombam do velho “dividir para governar”

23/12/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online ‒ The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Roma e Pequim
Roma e Pequim – O Império Romano fez. O Império Britânico copiou-lhe o estilo O Empire of Chaos [Império do Caos] sempre fez. Todos eles fazem. Divide et impera. Divide e governa – ou divide e conquista. É repugnante, brutal e eficaz. Mas não vivem para sempre, eternos como os diamantes, porque impérios vêm abaixo.

Quarto com janela para a rua, para o Panteão, pode ser celebração de Vênus – mas é também espiadela nos trabalhos de Marte. Estive em Roma, de fato, essencialmente, para um simpósio – Global WARning [Alerta de Guerra Global] – organizado por um grupo engajado, comprometido e talentoso, coordenado por um ex-membro do Parlamento Europeu, Giulietto Chiesa. Três dias depois, quando foi lançado o ataque ao rublo, Chiesa foi preso e expulso da Estônia como persona non grata, mais uma ilustração claríssima da histeria anti-Rússia que está tomando conta das nações do Báltico e do jugo orwelliano que a OTAN impõe aos elos europeus fracos. Absolutamente não se admite opinião divergente.

No simpósio, realizado num refeitório dos Dominicanos do século XV divinamente decorado com afrescos e que hoje está incorporado à biblioteca do Parlamento italiano, Sergey Glazyev, por telefone, de Moscou, ofereceu interpretação clara da Guerra Fria 2.0. Não há “governo” real em Kiev: quem governa é o embaixador dos EUA. Uma doutrina anti-Rússia foi lançada em Washington para fomentar a guerra na Europa – e políticos europeus operam como colaboracionistas. Washington quer guerra na Europa, porque está perdendo a competição para a China.

Glazyev falou da demência das sanções: a Rússia está tentando simultaneamente reorganizar a política do Fundo Monetário Internacional, combater a fuga de capitais e minimizar o efeito de os bancos terem fechado linhas de créditos para muitos empresários. Mas o resultado final das sanções, diz ele, é que a Europa perderá sempre mais, economicamente; a burocracia europeia perdeu o próprio foco econômico, a partir do instante em que os planejadores geopolíticos norte-americanos assumiram o comando.

Sergey Glaziev
Apenas três dias antes do ataque ao rublo, perguntei a Mikhail Leontyev (Secretário de Imprensa, Diretor do Departamento de Informação e Divulgação) da Rosneft sobre os crescentes rumores de que o governo russo preparava-se para aplicar controles sobre a moeda. Naquele momento, ninguém sabia que o ataque ao rublo seria tão rápido, concebido como xeque-mate para destruir a economia russa. Depois de sublimes espressos na Tazza d'Oro, em frente ao Panteão, Leontyev disse que controles monetários eram uma possibilidade. Mas não ainda.

Enfatizou, isso sim, que se tratava de guerra financeira total, sem trégua, ajudada por uma 5ª-coluna dentro do establishment russo. O único componente igual para os dois lados, nessa guerra assimétrica, eram as forças nucleares. Mas a Rússia de modo algum se renderia. Para Leontyev, a Europa não é sujeito histórico, mas objeto: “O projeto europeu é projeto norte-americano”. E “democracia” virou ficção.

O ataque ao rublo veio e foi-se, como devastador furacão econômico. Fato é que não se tenta xeque-mate contra enxadrista treinado, a menos que nosso poder de fogo seja equivalente ao do feixe de raios de Júpiter. Moscou sobreviveu. Gazprom acedeu à solicitação do presidente Vladimir Putin e venderá suas reservas de dólares norte-americanos no mercado doméstico. O Ministro alemão de Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier falou à mídia contra a União Europeia “apertar novamente os parafusos” em mais sanções contraproducentes contra Moscou. E em sua conferência anual com a imprensa, Putin enfatizou como a Rússia atravessaria, sim, a tormenta. Pessoalmente, muito mais me intrigou o que Putin não disse.

Vladimir Putin na Crimeia em 18/3/2014
Com Marte assumindo o centro do palco, em frenética aceleração da história, retirei-me para meu quarto Pantheon tentando incorporar Sêneca: da eutimia – serenidade interior – para aquele estado de imperturbabilidade que os estoicos definiram como aponia. Mas não é fácil manter-se eutímico, com a Guerra Fria 2.0 comendo solta.

Mostra-me teu imperturbável míssil

A Rússia sempre poderá servir-se de uma opção econômica “nuclear”, declarando em moratória a dívida externa russa. Então, se bancos ocidentais confiscarem patrimônio russo, Moscou poderia confiscar todos os investimentos ocidentais na Rússia. Seja como for, o objetivo do Pentágono e da OTAN, de fazer guerra no teatro europeu, não se realizaria; a menos que Washington seja suficientemente imbecil para dar o primeiro tiro.

Mas permanece aí, como séria possibilidade, com o Império do Caos acusando a Rússia de violar o Tratado das Forças Nucleares de Médio Alcance [orig. Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty (INF)], apesar de o Império do Caos preparar-se para forçar a Europa, em2015, a aceitar a instalação de mísseis cruzadores nucleares dos EUA.

A Rússia pode passar a perna nos mercados financeiros ocidentais, cortando o fornecimento de petróleo e gás natural. Os mercados inevitavelmente desabariam – caos não controlado para o Império do Caos (ou “caos controlado”, nas palavras do próprio Putin). Imaginem o desabamento de mais de um quatrilhão de derivativos. Passar-se-iam anos até que o “ocidente” substituísse o petróleo e o gás natural russos, mas a economia da União Europeia seria devastada instantaneamente.

Só o ataque-relâmpago do ocidente contra o rublo – e os preços do petróleo – usando o esmagador poder das empresas de Wall Street já sacudiram os bancos europeus expostos à Rússia até o âmago: os CDS [1] subiram à estratosfera. Imaginem aqueles bancos desabados como o castelo Lehman Brothers de cartas, se a Rússia optar pelo calote – disparando uma reação em cadeia. Pensem numa Mutually Assured Destruction (MAD), Destruição Mútua Garantida – de fato, mesmo, sem guerra. Ainda assim, a Rússia é autossuficiente em todos os tipos de energia, minérios e agricultura; a Europa não é. O efeito mais letal da guerra de sanções pode ser esse.

Sanções

Essencialmente, o Império do Caos está blefando, jogando com a Europa como peões. O Império do Caos é muito ruim no xadrez, tão ruim quanto em história. A única coisa que sabe fazer é subir o tom da ameaça, para forçar a Rússia a recuar. A Rússia não recuará.

Amanhece a treva ao raiar do caos [2] 

Parafraseando Bob Dylan em When I Paint My Masterpiece, deixei Roma  e pousei em Pequim. Marco Polo de hoje viaja Air China; em dez anos, voarão na direção oposta, por trem-de-alta-velocidade, de Xangai a Berlim.

De um quarto na Roma imperial, para um quarto num pacato hutong – reminiscência lateral da China imperial. Em Roma, os bárbaros enxameiam por trás dos portões, pilhando suavemente as migalhas de tão rica herança, e aí se inclui, sim, a Máfia local. Em Pequim, os bárbaros são mantidos sob estrita vigilância; claro que há um elemento Panopticon aí, essencial para assegurar a paz social interna. A liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) – sempre, desde as reformas empreendidas pelo Pequeno Timoneiro, Deng Xiaoping que sacudiram a placas tectônicas – é perfeitamente cônscia de que seu Mandato Divino é diretamente condicionado pela harmonização perfeita entre nacionalismo e o que se pode chamar de “neoliberalismo com características chinesas”.

Em outra veia diferente, tipo “os coxins do oriente são macios” [3] para seduzir Marco Antônio, as sedas chinesas esplendorosas da Pequim chique oferecem uma faísca de potência emergente muito segura dela mesma. Afinal, a Europa nada é além de catálogo de esclerose múltipla, e o Japão já está sob a sexta recessão em 20 anos.

Para culminar, em 2014 o presidente Xi Jinping empreendeu atividade diplomática/ geoestratégica frenética – conectada, no fundo, ao projeto de longo prazo para, devagar mas sem falhas, apagar a supremacia dos EUA na Ásia e rearranjar o tabuleiro global de xadrez. O que Xi disse em Xangai em maio resume o projeto: “É tempo de os asiáticos administrarem os negócios da Ásia.” Na reunião da Associação dos Países Exportadores de Petróleo (APEC) em novembro, pegou mais leve, e promoveu um “sonho Ásia-Pacífico”.

Mas a regra é o frenesi. À parte dos dois negócios-monstro, de US$ 725 bilhões de gás – gasodutos “Poder da Sibéria” e “Altai” – e uma recente ofensiva relacionada à Nova Rota da Seda (China set to make tracks for Europe) no Leste Europeu, virtualmente ninguém no ocidente parece lembrar que em setembro o Primeiro-Ministro chinês assinou nada menos que 38 acordos comerciais com os russos, incluído um swap e um negócio de benefícios fiscais, que implicam total harmonização e interjogo econômico.

Presidente da China, Xi Jinping
por Maurício Porto
Já há quem diga que a deriva geopolítica na direção da integração Rússia-China é a mais importante manobra estratégica dos últimos 100 anos. O grande plano máster de Xi nada tem de ambíguo ou difícil de compreender: quer uma aliança Rússia-China-Alemanha comercial/de negócios. O empresariado/indústria alemães querem muito ver acontecer; mas os políticos alemães não dão sinais de ter captado a mensagem. Xi – e Putin – estão construindo uma nova realidade econômica no campo eurasiano, plena de ramificações políticas, econômicas e estratégicas crucialmente importantes.

Claro, é estrada extremamente pedregosa. Nada vazou, até agora, para a imprensa-empresa ocidental, mas cabeças pensantes independentes no meio acadêmico europeu (ah, sim, existem, como uma espécie de sociedade secreta) estão mais assustadas, a cada dia, ante o nenhum modelo alternativo, alternativa-zero para o capitalismo-de-cassino e o neoliberalismo entrópico mais hardcore promovidos pelos Masters of the Universe.

Ainda que a integração eurasiana venha a prevalecer no longo prazo, e Wall Street passe a ser uma espécie de bolsa de ações locais, os chineses e o mundo multipolar emergente ainda assim parecem estar-se autocondenando ao modelo neoliberal existente.

Nova Rota da Seda (terra e mar) China-Alemanha
Fato é que, assim como Lao Tze, já octogenário, aplicou uma bofetada (intelectual) na cara do jovem Confúcio, o “ocidente” muito teria a aprender com algumas bofetadas de alerta.

Divide et impera? Não. Não está funcionando. Está condenado a falhar miseravelmente.

No pé em que estão as coisas, o que sabemos é que 2015 será ano de arrepiar os cabelos em muitos aspectos. Porque da Europa à Ásia, das ruínas do império romano ao re-emergente Império do Meio, permanecemos todos ainda sob o signo do perigoso, assustador, de irracionalismo rampante, Império do Caos.
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Notas dos tradutores

[1] CDS (Credit Default Swap) é um acordo de troca financeira pelo qual o vendedor do CDS compromete-se a compensar o comprador (credor do empréstimo referência), no evento de calote do devedor ou outro evento do crédito.

[2] Orig. “Darkness dawns at the break of chaos”. Down of darkness é um videogame, RPG. Difícil traduzir, sem essa referência.

[3] Orig. “soft beds of the East” – é expressão de Shakespeare em Antônio e Cleópatra. Leitura interessante...Prôs que se interessem.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.

domingo, 24 de agosto de 2014

Entrevista com Sergei Glaziev − Para compreender a Ucrânia em 15 minutos

23/8/2014, [*] Mike Whitney (transcrição e comentários),  Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Quem queira compreender o que se passa na Ucrânia, não pode deixar de assistir ao vídeo (com legendas em inglês), 15 minutos, em que Sergei Glaziev, [1] conselheiro e amigo de Putin, explica como mudanças estruturais na economia global e uma deriva em direção à Ásia precipitaram uma desesperada tentativa, por políticos norte-americanos, para manter-se no controle do mundo, instigando uma guerra na Europa.

Concordem ou não com o analista e a análise, os leitores verão/ouvirão analista brilhante, erudito e apaixonado em suas crenças. Só por isso já valeria assistir à entrevista de Glaziev. 

Fiz eu mesmo uma transcrição do vídeo, e peço desculpas por algum erro não intencional no texto. Também introduzi, eu mesmo, a “itemização” e os negritos que se veem na transcrição.


1. Mudanças Estruturais na Economia Global são frequentemente precedidas por Grandes Crises e Guerra

O mundo hoje passa por uma superposição de séries inteiras de crises cíclicas. A mais séria delas é uma crise tecnológica que é associada a mudanças nos comprimentos de onda do desenvolvimento econômico. Vivemos num período em que a economia está mudando de estrutura. A estrutura econômica que comandou o crescimento econômico nos últimos 30 anos exauriu-se. Temos de fazer uma transição para um novo sistema de tecnologias. Esse tipo de transição, infelizmente, sempre aconteceu mediante guerra.

Foi o que aconteceu nos anos 1930s, quando a Grande Depressão deu lugar à corrida armamentista e, na sequência, à IIª Guerra Mundial. Foi assim durante a Guerra Fria, quando uma corrida armamentista cedeu lugar a complexas tecnologias de informação e comunicação que se tornaram a base da estrutura tecnológica que vem comandando a economia mundial nos últimos 30 anos. Hoje, enfrentamos crise similar. O mundo está mudando para um novo sistema tecnológico.

2. Putin promove a Zona de Livre Comércio, para facilitar a transição para a Nova Economia Global

O novo sistema tem natureza humanitária e, assim, pode evitar uma guerra, porque os grandes geradores de crescimento nesse comprimento de onda são tecnologias humanitária. Dentre essas, as indústrias de atenção à saúde e de medicamentos, que são baseadas na biotecnologia. Incluem-se aí também tecnologias de comunicação baseadas na nanotecnologia, que está mudando o mundo como o conhecemos. Todas essas mudanças envolvem tecnologias cognitivas, que definem um novo contexto para o conhecimento humano.

Como o presidente Putin tem dito repetidas vezes, conseguimos construir e propor um programa de desenvolvimento conjunto, uma zona de desenvolvimento para todos com um regime comercial preferencial de Lisboa a Vladivostok. Para fazê-lo operar, basta acertar com Bruxelas os termos para criar um espaço econômico comum, uma área de desenvolvimento comum. Podemos propor número suficiente de projetos novos, do campo da saúde à proteção contra ameaças espaciais, para mobilizar nosso potencial científico e técnico e criar demanda estável, a partir do estado. Assim se daria forte estímulo ao novo sistema tecnológico.

3. Washington vê uma Guerra na Europa como melhor meio para Preservar sua Hegemonia

Os EUA, contudo, já estão fazendo o que fazem sempre. Para manter sua dominância sobre o mundo, estão provocando nova guerra na Europa. Guerra é sempre bom negócio para os EUA. Dizem até que a IIª Guerra Mundial, que matou 50 milhões de pessoas na Europa e na Rússia, teria sido uma boa guerra. Foi boa para os EUA, porque os EUA emergiram daquela guerra como principal potência mundial. A Guerra Fria, que terminou com o fim da União Soviética, também foi boa guerra, para os EUA.

Agora, os EUA outra vez querem manter sua liderança à custa da Europa. A liderança dos EUA está sendo ameaçada pela China, que cresce sem parar. E o mundo está entrando em novo ciclo que, agora, é ciclo político. Esse ciclo dura séculos e está associado com as instituições globais da economia regulatória.

Agora nos movemos, do ciclo norte-americano de acumulação de capital, para um ciclo asiático. É outra crise que desafia a hegemonia dos EUA. Para manter sua posição de comando frente à concorrência que lhe impõe uma China que não para de crescer e outros países asiáticos, os EUA estão inventando uma nova guerra na Europa. Querem enfraquecer a Europa, rachar a Rússia, e subjugar todo o continente eurasiano. 

É o mesmo que dizer que, em vez de uma zona de desenvolvimento para todos de Lisboa a Vladivostok – que é a proposta do presidente Putin – os EUA querem iniciar uma guerra caótica e alucinada nesse mesmo território, envolver toda a Europa numa só guerra, desvalorizar os capitais europeus, cancelar por milagre a dívida pública nos EUA, dívida sob cujo peso os EUA, sim, já estão praticamente sucumbindo, riscar do mundo o que os EUA devem a Europa e Rússia, subjugar nosso espaço econômico e estabelecer controle sobre os recursos do gigantesco continente eurasiano. Para os EUA, esse seria o único modo para conseguirem manter sua hegemonia e derrotar a China.

Infelizmente a geopolítica dos EUA que vemos hoje é exatamente idêntica à do século XIX. Eles ainda pensam nos termos das lutas geopolíticas do Império Britânico: dividir para conquistar. Lançar nações contra nações, empurrá-las umas contra outras, iniciar uma guerra mundial. Desgraçadamente, os EUA ainda insistem naquela velha política britânica, para tentar resolver seus problemas. A Rússia é o alvo selecionado dessa política, e o povo ucraniano é usado como bucha de canhão numa nova guerra mundial.

Primeiro, os EUA decidiram tomar como alvo a Ucrânia e separá-la da Rússia. É tática inventada por Bismarck. É a velha tradição anti-Rússia, com o objetivo de envolver a Rússia em conflito, para conseguir tomar conta de todo o espaço da Eurásia. Foi estratégia que Bismark usou, depois adotada pelos britânicos, depois por Zbigniew Brzezinski, pensador e cientista político norte-americano que disse incontáveis vezes que a Rússia não poderia ser uma superpotência sem a Ucrânia, e que criar guerra entre Rússia e Ucrânia seria benéfico [sic] para os EUA e o Ocidente.

Há 20 anos os norte-americanos alimentam o nazismo ucraniano orientado contra a Rússia.

Todos sabem que os EUA hospedaram os seguidores remanescentes de Bandera (Stepan), depois da IIª Guerra Mundial. Dezenas de milhares de nazistas ucranianos foram levados para os EUA e cuidadosamente cevados e treinados durante o pós-guerra. Essa leva de imigrantes desceu sobre a Ucrânia depois do colapso da União Soviética. A ideia de uma parceria ocidental foi usada como isca. Quem primeiro falou disso foram os poloneses; na sequência, os EUA abraçaram a ideia. Essa é a essência da parceria ocidental, da qual a Geórgia foi a primeira vítima.

Agora, a nova vítima está sendo a Ucrânia, e depois virá a vez da Moldávia, para ir cortando laços com a Rússia.

Todos sabem que a Rússia estamos construindo a União Aduaneira e um espaço econômico comum com Bielorrússia e Cazaquistão, ao qual serão integrados, na sequência, o Quirguistão e a Armênia. A Ucrânia sempre foi nação parceira dos russos, há muito tempo. A Ucrânia continua a ter um acordo comercial com a Rússia, que está em fase de ratificação – e que até hoje não foi cancelado por ninguém na Ucrânia. A Ucrânia é importante para nós como parte de nosso espaço econômico e por séculos de laços e cooperação entre nossos países.

Nosso complexo científico e industrial foi criado como realidade comum. Daí que a participação da Ucrânia na integração da Europa seja processo vital e natural. Mas o projeto da “parceria ocidental” foi inventado para impedir que a Ucrânia participasse no projeto de integração da Eurásia. O significado da parceria ocidental é criar uma associação com a União Europeia – e “boicotar” a integração da Eurásia.

Qual a associação que Poroshenko assinou com líderes europeus? Uma “associação” que converte a Ucrânia em colônia. Por aquele acordo de associação com a União Europeia, a Ucrânia perde até a própria soberania: transfere para Bruxelas o controle do próprio comércio, aduana, regulação técnica e financeira e até a representação pública.

4. A junta nazista ucraniana é instrumento da política dos EUA

Ucrânia deixa de ser estado soberano na economia e na política: está claramente escrito e assinado no acordo, que a Ucrânia converte-se em parceiro “júnior” na União Europeia. A Ucrânia compromete-se a seguir uma defesa comum e a política exterior da União Europeia. A Ucrânia fica obrigada a participar na resolução de conflitos regionais, sempre sob a liderança da União Europeia. E assim Poroshenko está convertendo a Ucrânia em colônia da União Europeia e empurrando a Ucrânia para uma guerra contra a Rússia como bucha de canhão, com a intenção de, assim, iniciar uma guerra na Europa.

O objetivo do acordo de associação é permitir que países europeus governem a Ucrânia sempre que se tratar de decidir conflitos regionais. É o que está acontecendo no Donbass, que é conflito regional armado. O objetivo da política dos EUA é criar o maior número possível de mortos. A junta nazista que governa a Ucrânia é instrumento dessa política dos EUA. Estão cometendo atrocidades inimagináveis e crimes sem conta, bombardeando cidade, matando civis, mulheres e crianças, e forçando-os a abandonar as próprias casas, exclusivamente para provocar a Rússia e, na sequência, lançar toda a Europa numa mesma grande guerra. Essa é a missão de que Poroshenko foi encarregado.

Por isso, precisamente, é que Poroshenko rejeita todas e quaisquer negociações de paz e bloqueia todos e quaisquer acordos de paz. Cada “declaração” de Washington sobre qualquer “desescalada” no conflito é decodificada, por Poroshenko, como ordem para escalar o conflito. Cada rodada de conversações chamadas “de paz” desencadearam nova rodada de violência.

É preciso compreender que estamos lidando com um estado nazista, que está determinado a conseguir entrar em guerra contra a Rússia e que já decretou recrutamento universal obrigatório. Toda a população do sexo masculino entre 18 e 55 anos de idade foi automaticamente alistada. Quem se recusar ao alistamento, receberá pena de 15 anos de cadeia. Esse poder nazista criminoso já converteu em criminosos toda a população ucraniana.

5. Washington trabalha a favor de seus Interesses, quando empurra a Europa para a Guerra

Calculamos que a economia europeia perderá cerca de 1 trilhão de Euros por causa das sanções que os norte-americanos impuseram contra os europeus. É muito dinheiro. Os europeus já começam a sentir as perdas. Já houve acentuada redução nas vendas para a Rússia. A Alemanha está perdendo cerca de 200 bilhões de Euros. Os estados do Báltico sofrerão as maiores perdas. A perda de vendas na Estônia será superior ao PIB do país. Na Letônia, será equivalente a metade do PIB do país. Mas nem isso os detêm. Políticos europeus seguem os norte-americanos sem nem questionar o que estão fazendo. E agridem-se eles mesmos, ao provocar o nazismo e a guerra.

Já disse que Rússia e Ucrânia são vítimas dessa guerra que está sendo fomentada pelos EUA. Mas a Europa também é vítima, porque a guerra visa a destruir o estado de bem-estar europeu [o que reste dele] e a desestabilizar a Europa. Os norte-americanos contam com que, assim, prosseguirá o êxodo de capitais e cérebros europeus para os EUA. Por isso estão incendiando a Europa inteira. É muito estranho que governos europeus estejam alinhados com esse tipo de “projeto” mortal dos EUA.

6. A Alemanha ainda é Território Ocupado

Não podemos continuar a simplesmente esperar que os líderes europeus desenvolvam política independente: temos de trabalhar com políticos europeus de outra geração, capaz de manter-se independente do diktat dos EUA. Fato é que nos anos da Guerra Fria formou-se na Europa uma elite política obcecadamente antissoviética. E esses rapidamente se converteram em anti-Rússia. Apesar da expansão dramática de laços econômicos e dos vastíssimos interesses econômicos mútuos entre Europa e Rússia, a russofobia ainda é baseada em antissovietismo e sobrevive na mente de muitos políticos europeus. Será preciso esperar que uma nova geração de políticos europeus pragmáticos compreenda quais são seus reais interesses nacionais.

O que vemos hoje na Europa são políticos que agem contra os seus próprios interesses nacionais. Isso se explica em grande parte pelo fato de que a Alemanha, que é o motor do crescimento da Europa ainda é país ocupado. Ainda há tropas norte-americanas na Alemanha, e cada chanceler alemão ainda é obrigado a jurar fidelidade aos EUA e àquela política externa. A geração de políticos que ainda está no poder na Europa ainda não conseguiu livrar-se do cabresto da ocupação pelos EUA.

7. O nazismo está em ascensão

Embora já não haja União Soviética, aqueles políticos europeus continuam a obedecer Washington maniacamente, na expansão da OTAN e na tentativa de capturar novos territórios – por mais “alérgicos” que já sejam aos novos membros orientais da União Europeia.

A União Europeia já está estourando nas costuras, mas nem por isso suspende a agressiva expansão na direção de território pós-soviético. Espero que uma próxima geração de políticos seja mais pragmática.

As recentes eleições para o Parlamento Europeu mostraram que nem todos estão sendo completamente enganados pela propaganda pró-EUA e anti-Rússia, e pelo fluxo ininterrupto de mentiras que não para de ser lançado contra o povo europeu. Partidos europeus tradicionais perderam em recentes eleições no Europarlamento.

Quanto mais se diga a verdade, maior será a reação, porque o que está acontecendo na Ucrânia é o renascimento do nazismo. A Europa conhece bem e não esqueceu os sinais do renascimento do nazismo, por causa das lições da IIª Guerra Mundial. Temos de despertar essa memória histórica, de modo que consigam ver nos nazistas ucranianos que estão no governo em Kiev, os seguidores de Bandera, Shukhevych e outros colaboradores nazistas. A ideologia das atuais autoridades ucranianas tem raízes na ideologia dos cúmplices de Hitler que atiraram contra judeus em Babi Yar, queimaram vivos ucranianos e bielorrussos e aniquilaram populações inteiras sem distinção de etnias. Esse é o nazismo que está em crescimento hoje.

Os europeus têm de reconhecer nos mortos na Ucrânia mortos europeus. É disso, afinal, que se trata.

Espero que, se continuarmos a explicar a verdade, conseguiremos salvar a Europa de mais essa ameaça de guerra.

Agradecimentos especiais ao blog The Vineyard of the Saker, por ter postado esta sensacional entrevista

Mike Whitney 
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Nota dos tradutores

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[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente emCounterpunch, Information Clearing House e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.