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domingo, 16 de fevereiro de 2014

François Hollande, o norte-americano

14/2/2014, [*] Jean-Luc Mélenchon, Blog de J-L Mélenchon
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


François Hollande e Barack Obama, (Simpatia é quase amor)
François Hollande é atlanticista de longa data. Sua visita aos EUA é, para ele, uma apoteose pessoal. No plano político, é o diploma de bom comportamento, entregue a ele pelo Império. Acompanhado de um bônus por bons e leais serviços prestados ao Partido Democrata dos EUA. Mãos nas mãos, olhos nos olhos, com Obama, Hollande entregou-se também a cenas apaixonadas com os patrões franceses e norte-americanos, reis da evasão fiscal, exportadores de empregos e sanguessugas dos cortes de impostos. Tudo isso deixou consternados os franceses pobres que o viram pela televisão.

Mas o mais desprezível desses dias sem glória continuará a ser o alinhamento incondicional de Hollande ao projeto do Grande Mercado Transatlântico. Vídeo a seguir (em francês):


É normal que uma questão tão importante, jamais referida pelo presidente na França ou frente aos franceses, seja abordada do modo como Hollande a abordou? (...)

A resposta, acabamos de dar a ele, no Conselho Regional da Île-de-France.

Por iniciativa do nosso Partido da Esquerda (Parti de Gauche), a assembleia aprovou moção que declara a região Île-de-France “Zona não incluída no Grande Mercado Transatlântico”. E a assembleia autorizou Jean-Paul Huchon, de volta da viagem oficial, a exigir que parem todas as negociações. O Partido Socialista, incapaz de chegar a qualquer acordo, graças à resistência da esquerda, fracassou ante a coalizão que formamos com os Verdes e com o grupo do Partido Comunista Francês (PCF).

De fato, dessa vez o PCF da Île-de-France resistiu à insistência do Partido Socialista. Um pequeno sinal de encorajamento, numa semana tão lastimavelmente cheia de manifestações da mais servil subordinação. (...)

Nossos eleitores perguntam-se, com muita razão, que molho acompanhará as eleições europeias, se tivermos de novamente apoiar arranjos com os socialistas e a Europa deles. O que diremos a eles, se tivermos de nos apresentar ao lado de gente como Jean-Marc Ayrault, Anne Hidalgo e tantos ministros e deputados socialistas que apoiam a política de direita do governo na França e na Europa?

Faço aqui um resumo detalhado da cena de humilhação com que nos presenteou o presidente da França e do que ela anuncia para o país. (...)

O novo Democrata

François Hollande é o primeiro presidente da França que traduz para o francês a doutrina do “novo Partido Democrata” de Bill Clinton dos anos 1980s. É quem, doravante, a implantará na França, anos depois de aquela doutrina ter sido mascarada na Europa pelo social-liberalismo o mais descarado e o mais direitista.

François Hollande chega para a visita oficial aos EUA
A visita de Hollande a Obama foi, pois, uma orgia de atlanticismo, enfiada goela abaixo dos franceses. Diante do poder dos EUA, François Hollande mostrou-se absolutamente rendido.

Claro que ninguém esperava que Hollande fosse perturbar Obama com questões de direitos humanos em Guantánamo ou nos “buracos negros”. Nem que protestasse contra a caçada a Assange ou Snowden. Já se sabe que “direitos humanos” só é problema grave na China, em Cuba e por aí vai.

Tampouco eu esperava que tivesse coragem para abordar com seu amiguinho o problema criado por os EUA terem-se recusado a assinar os acordos sobre armas bacteriológicas ou os atrasos na destruição das armas químicas. Ou que os EUA não tenham assinado – como também não assinaram os acordos sobre liberdades sindicais – os acordos sobre direitos das crianças ou sobre minas. Esqueçamos o tempo quando a França respeitava os próprios compromissos, a ponto de trabalhar para fazê-los valer. Por que Hollande seria menos infiel a esses compromissos, do que é infiel a qualquer outro?

Mas mesmo assim! Tanto haveria a dizer sobre os interesses fundamentais da França em sua relação com os EUA! A imprensa-empresa de louva-Hollande, é claro, nada lhe cobrou, nem pediu notícias do que se disse sobre a espionagem, pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, contra franceses. Também a insuportável espionagem contra os cidadãos, pelos governos, é tema reservado à China e a Cuba.

Hollande, assim, se livrou rapidamente dessa questão, com uma frase sem sentido. Uma “tirada” rapidamente esquecida, mal traduzida do inglês, escolhida do catálogo de respostas prontas fornecido pelos embaixadores dos EUA na Europa. Sem surpresa: é o que dizem, praticamente com as mesmas palavras, todos os papagaios europeus, exceto madame Merkel, que prefere dar-se ao respeito.

Hollande alegre e passivamente aceitou a espionagem dos EUA/NSA na França
Quanto ao significado-zero, avaliem vocês mesmos: “Há uma confiança mútua que foi restaurada (e) que se deve basear ao mesmo tempo no respeito de cada um de nossos países e também na proteção da vida privada (...) Depois das revelações de Snowden, estabelecemos uma clarificação entre o presidente Obama e eu, sobre o passado”. Os falantes de francês farejam aí a tradução mal feita do inglês ao francês. O resultado é simples: os EUA não pediram qualquer tipo de desculpas por terem espionado a França, os embaixadores franceses e milhões de cidadãos franceses. E nada se comprometeram a fazer nem a não fazer, para o futuro, quanto a isso.

Hollande tampouco pediu explicações sobre por que foi empurrado pela CIA ao papel ridículo de interceptar o avião de Evo Morales, à caça de um Snowden que não estava lá. E Hollande tampouco jamais manifestou qualquer arrependimento ou qualquer vergonha por ter feito o que fez.

Seja como for, lá estava Hollande, sentado à mesma mesa, ao lado do chefe dos espiões norte-americanos: o general Keith Alexander também estava presente àquele jantar de Estado. Comeu muito bem. Tranquilo. Nada de arrependimentos ou desculpas.

Mas o comportamento do presidente quanto aos nossos compatriotas que vivem lá também é problemático. Hollande comportou-se como se os franceses comuns expatriados não existissem. Só teve olhos e ouvidos para o “mundo dos negócios”. Até a frase ridícula de madame Fleur Pèlerin [Ministra Especial da Economia Digital], segundo a qual Hollande teria ido aos EUA “para dar provas de amor a todos os empresários”! Verdade é que as provas máximas ficaram reservadas a elementos de reputação muito duvidosa. Em San Francisco, Hollande festejou Carlos Diaz, um dos cabeças do movimentos dos “Pigeons” de novembro de 2012. O golpe organizado por Diaz, de evadidos fiscais, custou milhões de francos ao orçamento do estado e aos contribuintes. Elogiável! (...) Pierre Gattaz [presidente do Mouvement des entreprises de France (MEDEF), principal sindicato patronal da França] foi também convidado para o jantar de Estado. Incrível! Por que não levaram também Thierry Lepaon [Secretário-Geral da CGT], para Washington, para jantar? Ou Berger [Secretário-Geral da Confédération Française Démocratique du Travail, CFDT) ou Mailly [Secretário-Geral da Force Ouvrière]? O presidente “social-democrata” entende que os sindicalistas dos dois lados do Atlântico não mereçam homenagem? Que se reunir com eles é menos importante que se reunir com os patrões?! Só convida empresários? Só patrões?


E Hollande precisava exibir escandalosamente essa sua preferência, ante toda a comunidade francesa em San Francisco? Para quê falar da “vantagem de ter aqui, comigo, o presidente do MEDEF, durante toda minha viagem”? “Agora, podem aplaudir”, disse esse exibidor de ursos de feira. “Vão dizer agora que puxei os aplausos para o presidente do MEDEF”, congratula-se o jovial piadista. “Não tenho dúvidas de que, chegada a hora, também receberei aplausos deles. Faz parte do pacto de responsabilidade, eu suponho”.

Como é possível?! Quando, algum dia, ouviram-se frases mais inadmissíveis, ditas como piadinha de salão?! A televisão distribuiu imagens ainda mais chocantes. À esquerda, mas também à direita, muita gente sentiu que, agora, sim, foi demais.

Gattaz não erra ao dizer que Hollande fez uma confissão de fraqueza. Permitiu-se fazer o que ninguém jamais fez: abrir uma polêmica de política interior, quando estava em viagem ao exterior e, como se não bastasse, também dentro da própria comitiva que o acompanhava. E o fez de modo particularmente danoso para a França. Porque se lamentar sobre o próprio governo, pela “dureza” da oposição que sofre, ridiculariza e enfraquece ainda mais os franceses, já discriminados comumente nos EUA e nos veículos  da imprensa-empresa anglo-saxônica.

E sobre o Grande Mercado Transatlântico? Para mim, foi o máximo! O principal anúncio feito por François Hollande! Só que jamais antes falara sobre tal coisa, aos franceses! E então, de repente, de uma tacada, pouco antes de embarcar para os EUA, lá aparece Hollande em cena, espetacular, a discorrer sobre o tema. Assume, com Barack Obama, um palanque “midiático”, do qual anuncia seu alinhamento ao projeto do Grande Mercado Transatlântico.

Procure quem quiser, o mais que queira, e ninguém jamais encontrará sequer uma mínima alusão, pequena e lateral que seja, em nome, que fosse, da afamada “exceção cultural”. Pois a tal cena foi divulgada antes até da visita do presidente francês aos EUA. Foi como o “visto” político que autorizou Hollande a pisar em território dos EUA.

Na 2ª-feira, 10/2/1014, simultaneamente no Le Monde e no Washington Post, o manda-chuva e o seu serviçal francês escreveram que “a parceria para o comércio e o investimento que buscamos criar entre a União Europeia e os EUA é verdadeira oportunidade para tirar partido dos milhões de empregos que já estão sendo criados, de um lado e de outro do Atlântico, nas trocas entre a União Europeia e os EUA”.

A pergunta é óbvia: se as trocas “já representam” milhões de empregos... para que servirá o acordo? Como o tal acordo poderia “tirar partido” de uma situação que já existiria? Mas, se se insiste, vale dizer, se se pensa com clareza, pode-se dizer que, precisamente, aí não fazem promessa alguma: o que fazem aí é uma confissão.
Hollande cumprimenta efusivamente Carlos Diaz dos "Pigeons"

Trata-se, mesmo, de tirar partido dos empregos já existentes, impondo-lhes nível mais “eficaz” de exploração capitalista.

E, seja o que for, o mais importante é que François Hollande apresenta o tal acordo como “verdadeira oportunidade”. O que se tem aí, exposta, aparente, é toda uma visão de mundo.

Sobre esse tema, Hollande acrescenta ainda a sua própria orientação liberal. Dia seguinte, dia 11/2/2014, na conferência de imprensa ao lado de Barack Obama em Washington, ele, então, convocou todos a “andar depressa” nas negociações entre a União Europeia e os EUA: “Todos temos muito a ganhar com andar depressa. Se não, sabemos bem, haverá uma acumulação de medos, de ameaças, de crispações”.

Todos leram bem. Isso, precisamente foi o que disse François Hollande: ele quer pressa, para evitar qualquer oposição a esse Grande Mercado Transatlântico. Isso, porque Hollande sabe, como nós sabemos, que o acordo não estará concluído antes das eleições europeias de 25 de maio de 2014. E o próximo Parlamento Europeu que será eleito então terá poder para rejeitar qualquer acordo.

As eleições europeias são, portanto, um referendo a favor ou contra o tal grande mercado transatlântico. Com François Hollande, o Partido Socialista escolheu o “sim”, aliado à direita e ao patronato do MEDEF. A esperança de Hollande é que ninguém perceba.

Pode-se esperar portanto que ele e o coro da imprensa-empresa europeísta (um pleonasmo) obrem para confundir o mais possível todas as discussões.

Para nós, é uma oportunidade. A volta da igrejinha do “sim-sim à Europa que nos protege” já mostrou sua principal utilidade: nos ajuda a acumular energia para o “não” – e a rejeitar, num mesmo voto, o sistema político e sua segunda pele “midiática”. O resultado já veio e todos viram.

Libération pôs-se a ofender a esquerda do “não” logo na manhã seguinte do resultado. E nunca parou de nos ofender, do alto daquele autoritarismo dogmático, daquela capacidade para manipular, dentre outras. Os números de venda do jornal desabaram. E nós tivemos 4 milhões de votos no primeiro turno de uma eleição presidencial. Quem levou a melhor? E, agora, quem falará mais alto?

Em Washington, François Hollande foi, completamente, serviçal empenhado do MEDEF. Afinal, o Grande Mercado Transatlântico é velha reivindicação do patronato europeu. Aparece lá, no centro da longa “declaração conjunta” que redigiram juntos, dia 5/2/2014, o MEDEF e seu homólogo alemão o Bundesverband der Deutschen Industrie, BDI. Essa declaração conjunta, pode-se dizer, é um manifesto!

Começa por clamar por mais “austeridade” e “competitividade” na Europa. O clamor a favor da formação de um Grande Mercado com os EUA aparece incrustado numa ode ao livre comércio. A “recomendação nº 8” (grande novidade...) recomenda “avançar na direção de cada vez maior abertura dos mercados mundiais para o comércio e para o investimento” e “combater o protecionismo comercial”.

Na sequência, o grande patronato francês e alemão recomenda “concluir as negociações para um acordo comercial e de investimento transatlântico (TTIP), numa perspectiva de crescimento e de criação de empregos; um TTIP bem-sucedido deve garantir abertura completa e recíproca dos mercados”. Completa e recíproca! Nada mais, nada menos! E isso é só o começo.

Grande Mercado Transatlântico
Quanto aos detalhes, é assustador! Ei-los: “além da eliminação das barreiras alfandegárias, o acordo deve permitir desmantelar as barreiras comerciais existentes por efeito de normas e regras diferentes”. Desmantelar as leis e as normas votadas e aprovadas nos Parlamentos nacionais e abrir o caminho para todos os tipos de contenciosos que as empresas poderão criar contra as políticas de estado – eis o projeto. E mais: “Os mercados públicos devem ser abertos em todos os níveis, o que significa, por exemplo, que não se aplicam às empresas europeias quaisquer cláusulas de preferência nacional. Os serviços financeiros devem ser incluídos na negociação. A negociação deve levar a uma melhor harmonização das regulamentações múltiplas. E o acordo deve igualmente levar a harmonizarem-se os procedimentos desimpedimento aduaneiro”.

O MEDEF francês e o BDI alemão, duas das mais poderosas associações patronais da Europa, não se cansam de repetir que “esse acordo será progresso significativo para o desenvolvimento de regras mundiais”.

De fato, trata-se de fazer o que a Organização Mundial de Comércio (OMC) empenha-se em fazer, a favor da desregulação mundial a favor da dominação total pelas normas anglo-saxônicas. Foi exatamente o que disse Barack Obama, quando lembrou que essa “parceria transatlântica de comércio e de investimentos será o mais importante acordo de livre-comércio jamais firmado, pois cobrirá cerca de 50% da produção econômica mundial, 30% do comércio internacional e 20% do investimento estrangeiro direto”. Eis aí o projeto no qual François Hollande está engajando a França. Viajou até lá, para fazer isso.

Esse é o núcleo contra o qual combateremos, pelas urnas, nas eleições europeias.
___________________ 

[*] Jean-Luc Mélenchon (Tânger-Marrocos, 19 de agosto de 1951) é um político francês, atual líder da Frente de Esquerda da França (Front de Gauche). Foi educado no Lycée Pierre-Corneille em Rouen (Normandia). Seu pai trabalhava nos serviços postais, e sua mãe, de origem espanhola, era professora de escola primária. Cresceu no Marrocos, até que sua família se mudou para a França em 1962. Obteve licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franche-Comté, e tendo ganho as CAPES (qualificação de ensino profissional), tornou-professor antes de entrar para a política. Foi senador da França em 2 períodos (2004–2010) e (1986–1995) pelo Partido Socialista Francês e candidato pela Frente de Esquerda, derrotado nas eleições presidenciais de 2012.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A Camisa de Carlos


Publicado por Urariano Motta* em 28/8/2012
Enviado pelo autor
Extraído do romance Os Corações Futuristas, Editora Bagaço, 1999 


A pequena ascensão para o cargo de escriturário, que tornou possível a compra de uma bela camisa, não se fez sem grandes embaraços. O primeiro deles foi manter o emprego. Carlos achava, nos primeiros dias de escritório, que dele seria exigido somente trabalho. Sem medir esforços, afastando de si qualquer reflexão de como era desproporcional o seu talento para o que dele se esperava, atirou-se com fúria à máquina. Para quê?

– Seu Carlos – disse-lhe a figura única de chefe e patrão, tendo às mãos uma correspondência recém-batida. – Seu Carlos, isso aqui tá muito feio: é uma cagada só.
– Pois não… – ia dizer “chefe”, mas se conteve, para não deixar impressão de servil – …sim, o senhor quer que eu mude o modelo?

– Que modelo? Eu tou falando disso – e abanou o papel –, o senhor não consegue cagar mais bonito? Olhe o pedação de branco que sobrou na carta.

– Ah, é a estética. Eu bato outra.

– Se for igual não presta. Só me mostre se prestar. E isso é pra ontem, ouviu? Pra ontem.

O chefe, apesar de baixo, ganhava altura de lhe puxar as orelhas. Carlos recomeçava, querendo ser rápido. O diabo eram os tipos da máquina. Eles se abraçavam, grudavam–se, agarrando-se no ar sem atingir a impressão na fita. Carlos respirava fundo e procurava reproduzir, no que se lembrava, de um dos Cem Modelos de Cartas Comerciais. As palavras, unidas numa frente contra qualquer inteligência, vinham-lhe cheias, aglomeradas de letras. Não era à-toa que elas, as letras, se grudavam promíscuas nos tipos da máquina, no ar, e no ar do que nada expressavam: “prezado senhor, vossa senhoria, nesta, conceituada firma, protestos de consideração, atenciosamente”. E isso era o mesmo que “prxsnh, awtyz rtw”. Então Carlos rasgava a folha e rebatia-a. Isso não era o difícil. Difícil era organizar a margem direita, e, pior do que isso, distribuir a mancha, a nódoa do modelo na folha em branco. Daí a merda que o chefe e patrão Romualdo lhe via.

Para azar de Carlos, Romualdo era o que se podia chamar de um self-made-man. Ou seja, um produto do laboratório da selva, uma síntese de falta de escrúpulos, sorte e obsessão por crescimento na sociedade. Como todo homem que “veio de baixo”, e não vem ao caso aqui zombar de sua crença de que chegou “em cima”, como todo homem que ascendeu sem títulos universitários ou “perda de tempo com o rabo sentado no estudo”, ele odiava os intelectuais, ainda que não os chamasse por esse nome. Reunia-os todos num saco, sob a denominação genérica de “cambada de doutores”.

Os seus escriturários, coitados, não passavam todos, sem exceção, de puxa-sacos dos seus escrotos, aspirantes que eram, com seus conhecimentos de bosta, a um futuro de doutores de merda.

Quando lhes perguntava, na entrevista, a esses passa-fomes de camisa engomada e enfiada no cinto, se estudavam, e lhe respondiam que sim, ele retornava, com malícia e propósito: para quê você estuda? E se lhe devolviam, vou fazer vestibular para direito, ou para administração, ou para contabilidade, coitados, ele os expulsava lisos e com fome para o olho da rua.

Ah, não lhe viessem fazer sombra. “Querem ser burros de canudo às minhas custas. Puta que pariu”, dizia à massa escura de operários da oficina. Mas se lhe respondiam, e este foi o caso e acaso de Carlos, quando lhe respondiam com voz magoada, pesarosa, e olhos do Cristo na cruz fitando o céu, “pai, por que me abandonaste?”, quando lhe respondiam, como Carlos, “já estudei. Não posso mais continuar meus estudos”, ah, para estes ele decretava: “Muito bem. Eu preciso de meio-burros. Pode começar”. E isso vinha numa entonação, que só mais tarde descobririam: “Tirem a roupa. Vou marcá-los. Eu lhes dou o privilégio de experimentar o meu chicote”. Porque Romualdo era um homem prático. Sem entender uma só Lei de Faraday, e virando o traseiro para isso, gabava-se de construir caixas para subestações elétricas cujos desenhos os doutores apenas assinavam. “Só têm teoria. Não sabem de nada”.

Foi esse homem que Carlos começou a entender, à custa de muitos e desaforados e insultuosos esporros. À medida que os recebia, e calava, e com esse silêncio via a fera tomar atitudes que se assemelhavam a afabilidade, foi compreendendo que só o trabalho, e a fúria no bater à máquina, e os modelos de correspondência na memória, e a hora a mais, além do expediente, e o chegar mais cedo, não lhe asseguravam o emprego.

Era preciso mais. Era preciso ouvi-lo, com um ar de aprendiz, ainda que tal disfarce muito lhe custasse.

O problema não era tanto, e era também, mas não era o principal, o problema não era bem dobrar a cerviz. “Há necessidade de um embate de surdos? Quantas vezes ouvimos o que não concordamos? E como é que vou responder a quem me paga o salário? Só se fosse louco”, Carlos se dizia, repetia-se, ainda que pílulas amargas Romualdo lhe empurrasse goela abaixo. Esse não era bem o problema. O diabo era a figura do patrão – repugnante. Pois Romualdo não passava de um sujeitinho a quem em outras circunstâncias Carlos não sopraria um cumprimento, sequer um gesto. Do alto dos ombros potencialmente hercúleos Carlos não o veria. Passou então, como defesa, a ouvi-lo balançando-lhe o queixo, enquanto por dentro ria-se dele, comentava-o. “Vá, eletricista, vá, analfabeto, fale. Mostre-se puro e total na sua brutalidade”.

– Me diga uma coisa, – o chefe lhe dizia, ao fim do expediente, enquanto Carlos fingia não ver que suas 8 horas já estavam findas. – Me diga uma coisa, você come carne?

– Sim, como. Assim… O senhor conhece algum modo novo de se comer carne?

– Eu não como.

– Ah, entendo. O senhor está doente?

– Eu? Quantos anos você tem?

– Vinte e um.

– Pois eu tenho quarenta e cinco. Vamos ver quem tem mais saúde?

E antes que o chefe o chamasse para uma quebra-de-braço, e ele se visse convocado a perder, Carlos respondia, rápido:

– De maneira nenhuma, acredito. Então o senhor não come carne… é impressionante!

– Me diga uma coisa: o boi come carne?

– Não, o boi não come carne.

– Aí está. Veja a saúde do boi. O boi não come carne. Entendeu?

– É interessante. Eu nunca havia observado que o capim … não, eu nunca havia observado a saúde por esse lado.

– Então … veja a força do boi. – E depois de uma pausa: – Nenhum doutor ainda lhe tinha dito isso, hem?

Carlos assentia. “E eu sou louco?” Estava começando a ganhar a sua camisa.

Carlos não percebia ainda, como uma lei geral, que no trabalho não se vende só o esforço físico. Ele não percebia que assim como existem na terra as categorias de metalúrgicos, industriais, comerciários, bancários, banqueiros, no inferno ou no céu também existem as categorias de almas de banqueiros, metalúrgicos, comerciários e industriais.

Ele julgava, como uma lei geral, que no domínio de um ofício era possível manter a cabeça livre do espírito da gente desse ofício. Seria como se nos dedos que batiam aquelas asneiras protocolares, no corpo que se assentava nove horas batendo aquilo, nos ouvidos que digeriam os sons da oficina e o malho da voz do chefe, seria como se em meio a tudo a alma e o gosto não sofressem impressão, pois estariam resguardados de fé e concreto, bem ocultos.

Essa crença, diga-se de passagem, cairia melhor em João, que acreditava na lenda de Spinoza polindo lentes, enquanto pensava em latim Sobre o Melhoramento do Intelecto. Em Carlos essa ilusão recebera a variante de uma astúcia ingênua, mas astúcia, que era o conforto de se enganar, como o indivíduo cansado e com muito sono e que tem uma tarefa inadiável para concluir antes de dormir, mas que se diz, “descansarei apenas 5 minutos”. O indivíduo dorme a sono solto por 100 x 5 minutos, a pedido do corpo lasso.

O trabalho que Carlos julgava ser um custo sem embate, adaptando-se fisicamente, por habilidades que de tanto serem feitas tornar-se-iam obra de um autômato, alheio à sua pessoa, somente deixando no trabalho o corpo, numa migração mecânica da alma, não se fez conforme a sua esperançosa astúcia.

A alma regressou ao corpo, de onde nunca se havia apartado, e se entranhou nos dedos, e se fez carne, ou mais precisamente busca de carne, ao tempo em que ouvia histórias de bois que não a comem, e por isso têm muita força e saúde.

O que ele não via como uma lei geral, percebia-o, no seu caso particular, embora disso não formasse conceito, porque lhe era pesaroso o nível de adaptação a que se via forçado. “E eu sou louco?”, a pergunta, que se fazia, evoluiu sem rastros de percurso para um “é claro que não sou louco”, até um “longe de mim a loucura”, quando passou a ser convidado para almoços rápidos, de 15 minutos, na casa do patrão Romualdo.

Ora, estava escrito que passasse a elogiar, e até mesmo a gostar (e não vem ao caso distinguir a fronteira entre o gosto verdadeiro, sentido, e o gosto por agradecimento), a gostar e fazer comentários judiciosos sobre legumes, frutas e verduras. Pois a fome é onívora.

Se lhe servem um bife suculento, muito bom. Se lhe servem um arroz com salada, não é mau. É até ótimo, quando a digestão se faz de volta no carro do chefe, uma sólida Rural Willys. Vontade de cochilar lhe dava, cochilar e voar para longe, migrando, mas o matraquear de Romualdo não lhe dava trégua. Ele, Romualdo, tinha a consciência de que lhe pagara o almoço, não fosse agora o empregado, de rabo cheio, negar-lhe a dívida.

– O povo não gosta de trabalhar, viu, rapaz? Não querem trabalho não. Querem só, ó – e tirava uma das mãos do volante, agitando os dedos na boca aberta. – Esta é que é a verdade.

E Romualdo voltava a mão ao volante, firme, sério, cônscio da solidez do seu patrimônio, ele próprio se vendo forte como o granito. Contente e eterno. Carlos dirigia os olhos para a paisagem, que corria, de meio-fio, sol e gente. “Deixa pra lá”, pensava, “isso passa. Vamos ao que importa”. E o que importava? Vácuo como resposta.

Arrotava o arroz com ponche de laranja. O arroto lhe era desagradável, um desagradável que era motor de empurrar mais os olhos para longe da janela estável da Rural. “Isso passa. Vamos ao que interessa”.

Desciam. Era emendar o segundo expediente sem descanso.

Ora, estava escrito que a lua-de-mel, como toda lua-de-mel, não podia durar sempre.

A intimidade doada pelo chefe teve a contrapartida da quebra do respeito, ousemos esta palavra, respeito que ainda havia nos momentos do esporro. Antes, Carlos era um estranho, um objeto, podia ser executado com frieza. Agora o chefe lhe conhecia a fraqueza, tinha-o na mão como um devedor – pois não lhe pagava às vezes até a janta? – media-o pela medida do seu almoço.

Ora, era o diabo. Se Carlos houvesse tomado distância, já teria sido posto no olho da rua. Como não se distanciara, e aí residia a fina lâmina do equilíbrio, para se dar ao respeito em público, o que vale dizer, para evitar a descompostura com testemunhas, deveria viver com o chefe em permanente salamaleque. “A paz esteja contigo” deveria expressar em constante mesura. Ora, não se pode exigir de um jovem tamanha ciência. E de um jovem espiritualizado, o que é um agravante, muito menos.

Um dos problemas de um caráter espiritualizado é que ele se envolve no encanto das formas. O que isso quer dizer: num edifício levantado, por exemplo, ele somente vê o acabamento, o desenho no resultado final, erguido. Pior, para ele é um choque descobrir lajes, e que uma planta do prédio pode ser reduzida a retângulos e semicírculos.

Falando mais, digamos, concreto: o jovem espiritualizado acredita em Talento, Generosidade, Amor, Decência, como fenômenos puros. O que vale dizer, fenômenos vistos no seu exterior.

Para ele as estrelas são luzes lácteas. Ora ora. Se ao descer da Rural, voltando do almoço na casa de Romualdo, Carlos não encontrasse ante os seus olhos os olhos da massa escura de operários, de macacão aberto, com o riso infame insinuado nos lábios grossos, ah, teria sido mais fácil atingir posturas próximas ao salamaleque, mas que não o seria, misturado que estava à tapinha, ao insulto recebido como uma característica jocosa, típica, de um patrão camarada.

“O secretário do chefe”, “meu chefe”, começou a ouvir da oficina, e isso estava longe de ser um elogio. Tratavam-no como um rameiro, pelo menos na tradução que Carlos dava a essas irônicas antonomásias. “Inveja, é natural que sintam inveja”, pensou a princípio. “Eles acham que a minha posição é importante. Como não podem estar aqui … ” E deu de ombros. Mas não se sentiu por isso liberado.

A possível inveja acabou por constrangê-lo. E passou a ser cordato com Romualdo, quase pedindo desculpas à massa. O que quer dizer: às cobranças arbitrárias do chefe deu-se ao embaraço de fazer ponderações.

– Carlos, venha cá.

– Pois não…

– As guias de recolhimento do INPS de três anos. Eu quero elas.

– Hum… veja bem. Quando eu cheguei aqui, não me foi possível conceber a organização do arquivo – e a ponderação de Carlos era assim, cerimoniosa – sem um exame prévio das condições gerais…

– Conversa mole, seu Carlos – o chefe o interrompe. – Quando o senhor chegou aqui não sabia nem um A. Me passe as guias, ligeiro.

– Certo. Mas veja bem. Não é totalmente justo que me seja imputado…

– E quem chamou o senhor de puta? Vamos. O senhor sabe ou não sabe das guias?

– Sinceramente, de uns três anos para cá… O senhor tinha mesmo arquivo disso?

Aquilo acabou por queimar o pavio curto de Romualdo.

– Eu lhe pago pra me servir. Era só o que faltava! – Levantou-se, e se dirigindo ao armário, arrancou de lá, às braçadas, pilhas de papéis, que jogou para o chão. E varrendo com as mãos as prateleiras, ia exclamando: – Tá uma zona! Virou frege!

O chão ficou atapetado de cartas, algumas modelares, outras não, e mais notas fiscais, faturas, algumas presas por grampos, outras por clipes, e pastas, de guias amareladas, outras não.

– Quero tudo separado – o patrão lhe gritou – com cada boi no seu curral. Hoje, daqui a pouco, até a minha volta do almoço.

E bateu a porta, saindo. Carlos ficou como um gigante faminto, sem almoço, com a multidão de papéis nos calcanhares. “Mártir quis ser, cuidei qu’eu era. E um louco fui, nada mais”, eram os versos de que se lembrava. E se pôs humilde, franciscano, paciente e cristãmente a organizar os papéis sobre o birô.

Uma semana depois tinha camisa nova e, num protesto mudo, um tumor estourado no pé direito. 

Urariano Motta*é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).