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quarta-feira, 30 de maio de 2012

A casa que Fox TV construiu: Anonymous, espetáculo e ciclos de amplificação (3/3)


(a ser publicado no periódico peer-reviewed Television and New Media

11/5/2012, Whitney Phillips, Scholars Bank, University of Oregon - 3a. Parte

Leia também (e se possível antes):
24/5/2012, 1ª. Parte (1/3) do ensaio
25/5/2012, 2ª. Parte (2/3) do ensaio


Cientistas do concreto

A colusão entre trolls e veículos da grande empresa-imprensa cultiva um conjunto de tropos linguísticos e comportamentais, os quais, por sua vez, exigem e cultivam um estilo específico de trollagem. Exigem, porque esses tropos demarcam exatamente quem e exatamente o quê se qualifica como trolls/trollagem; e cultivam, porque contextualizam e reconfiguram os significados de comportamentos e conteúdos emergentes – um processo que se alinha com o relato de Dick Hebdige de como se desenvolve o estilo subcultura, sobretudo mediante a colagem [orig. bricolage].

A colagem descrita como a “ciência do concreto” (1979: 103), o bricoleur é o cientista do concreto: reúne e reconfigura artefatos socialmente significantes; depois reanima a própria criação com significado(s) novo(s).

No 4chan, a “junção explosiva” de coisas que antes permaneciam desconectadas e coisas (que-)sóaquiestãoconectadas (Hebdige 1979: 103) é acelerada pelas estruturas materiais do próprio 4chan. Especificamente, o 4chan é efêmero; os painéis só podem conter tanta informação porque vão apagando dados antigos, para abrir espaço para novo conteúdo. Resultado disso, poucas threads/”Assunto” permanecem na página por mais de poucos minutos; e as que chegam às manchetes da página desaparecem em, no máximo, uma hora. Mas o conteúdo que “cola”, se número suficiente de usuários aderem a um determinado fragmento de conteúdo, seja porque respondem seja porque repassam, esse será incluído no léxico da subcultura. Em outras palavras, tornar-se-á um meme.

A definição do termo meme é: fonte de alguma discussão. Muitos teóricos, entre os quais Henry Jenkins, insistem que a teoria memética, frequentemente descrita em termos de infecção viral, traz um modelo de transmissão não deliberada; e, por isso, mina a intervenção individual (2009). Simpatizo com os interesses de Jenkins e, como ele, também resisto à ideia de que os públicos sejam pouco mais que “veículos transmissores” passivos do conteúdo distribuído pela empresa-imprensa jornalístico-comercial.

Isso posto, dentro do contexto da cultura da trollagem, “meme” tem conotação muito mais ativa. Para os trolls, os memes estão coerentemente articulados num sistema holístico de significado subcultural: os memes só fazem sentido em relação a outros memes. Para que os usuários não se percam nessas mutáveis areias subculturais, todos contam com que todos reconhecerão e replicarão memes específicos e famílias de memes, ao mesmo tempo em que se manterão em dia com os temas do programa de Jones [1] (ou mais apropriadamente com o 4chan). Reconhecer um meme, remixar um meme, citar um meme – essas ações estabelecem um conjunto de fronteiras da subcultura, garantindo assim um “todo significativo” no qual outros significantes podem articular-se coerentemente (Hebdige 1979: 103, 113).

No espaço de trollagem [orig. trollspace], aqueles signos aparentemente caóticos – manifestos em língua ou mediante artefatos – fazem muito. No contexto da trollagem, eles constroem mundos.


Over 9000 Penises [Mais de 9.000 Pênis], supermeme que teve estrondoso sucesso e foi muito celebrado, ilustra o processo pelo qual se constroem os mundos e oferece exemplo “de manual” da relação de amplificação que há entre os trolls e a imprensa-empresa-comercial jornalística. Não apenas ilustra o modo como se constroem os espaços de trollagem; também ilumina os tipos de mundos que os trolls tendem a criar.

Afinal, os trolls não oferecem conteúdo gerado ex-nihilo; são “vingadores” culturais que extraem nutrição-diversão do que já existe. E na maior parte das vezes, o que já existe passou, antes, pelo filtro da imprensa-empresa-comercial jornalística. A relação entre a trollagem e a chamada “mídia”, assim, não apenas não surpreende; ela, de fato, aproxima-se de uma relação definicional – e nos obriga a repensar, não só o modo como vemos os trolls, mas, também, o modo como vemos a própria imprensa-empresa-comercial jornalística.

Nossa análise começa com o Pedobear [lit. Ursinho Pedô], uma das imagens que mais longa vida tiveram no fórum /b/. Inspirada no “Safety Bear” [Ursinho de Segurança], usada no Japão para marcar os desenhos animados (anime) impróprios para crianças, a imagem-contraparte que surgiu nos EUA é figura muito mais ambígua (“Pedobear” 2011). Às vezes babando, às vezes suando, às vezes portando um sombrero ou as palavras “DO WANT” [quero (muito)], o Pedobear está sempre caçando/procurando alguma coisa. Só quando se entende o quê, precisamente, ele caça/procura, a forma ganha novo significado – “Pedo” é forma encurtada de “pedófilo”, o que faz do Pedobear o mascote não oficial da pornografia infantil [ing. child pornography, “CP” no mundo da trollagem].


Isso não implica dizer que o Pedobear represente interesse ou apoio na vida real, à exploração infantil. A imagem é praticamente sempre usada com sarcasmo, como crítica implícita a aparente predileção que outros anons manifestem por meninas ou mulheres muito jovens; ou em relação a algum outro meme; muitas vezes em relação ao meme-cluster que cerca “To Catch a Predator”, de Dateline, e seu anfitrião, Chris Hansen.

A imagem do Pedobear às vezes, sim, acompanha pornografia infantil e às vezes destaca ou, mesmo, celebra ativamente imagens sexualizadas de crianças. Mesmo nesse território escorregadio, contudo, uma vez que é muitas vezes usada como isca que uns trolls lançam contra outros – a pornografia infantil é dos poucos temas suficientemente chocantes para incomodar até os trolls mais “casca grossa”. Consequentemente, a apesar do fato de que postar pornografia infantil no 4chan é crime punido com expulsão (se os administradores da página encontram pornografia infantil, seja do tipo que for, o endereço IP [dez dígitos] do postador é rastreado, e o anon é expulso para sempre), postar pornografia infantil ou, como quase sempre acontece, a ameaça de postar esse tipo de material, ou fazer piadas sobre postar pornografia infantil – ameaças que sempre vêm acompanhadas da imagem do Pedobear – tornaram-se, elas próprias, um meme.

O primeiro componente é a expressão “mais de 9.000” [orig. over 9000], valor numérico arbitrário, tirado de DragonBallZ, uma série de mangás muito popular. Originalmente lançada no Japão em 1989, DragonBallZ fez sucesso na televisão dos EUA em 1996 e tornou-se ícone cultural para uma geração de fãs de anime e de videogames. Num episódio, os vilões Vegeta e Nappa preparam-se para enfrentar um herói de nome Goku; consultam seus scouter, aparelho que afere o nível de poder do adversário. Nappa pergunta o que o scouter indicou sobre níveis, e Vegeta responde num grunhido: “It’s over nine THOUSAAAAAND” [Acima de nove miiiiiiiiil] e, ato seguinte, esmaga o scouter, com a mão (“9000!!” 2006).

Alguém postou o clip no fórum /b/. Talvez pela nostalgia, talvez porque “mais de 9.000” fosse tradução errada de “mais de 8.000”, o que gerou muita discussão (e muita trollagem), talvez porque moot implantou, logo depois, um filtro que trocava todas as ocorrências do número 7, para “Mais de 9.000”, os Anonymous adotaram “Mais de 9.000” como resposta-padrão para qualquer pergunta que envolvesse valor numérico.

O segundo componente do meme é muito mais direto. Em setembro de 2008, algum anon decidiu trollar as páginas de mensagens de Oprah, apresentando-se lá como pedófilo. Oprah, que passara toda a semana advogando a favor de leis para impedir a busca online de crianças para exploração sexual, foi informada sobre aquele postado e decidiu divulgar a mensagem do anon. “Permitam que eu leia algo que foi postado em nossa página” – começou ela, em tom grave – “por alguém que se diz membro de uma conhecida rede de pedófilos. Diz que não perdoa e que não esquece. O grupo reúne mais de 9.000 pênis e todos estão... estuprando... criancinhas” (“Oprah OVER 9000 PENISES” 2008).

Em menos de uma hora, um segundo anon baixou o comentário de Oprah, como se fosse ato inadvertido de interação com o Anonymous Credo, e aplicou sobre o clip um vídeo de som, com o Pedobear, Oprah, personagens de DragonBallZ e Chris Hansen (“Pedobear remix” 2008). Para a comunidade troll, foi vitória total, absoluta, completa. Na edição de 2008 da Encyclopedia Dramatica, o verbete “Oprah Winfrey” era foto de Oprah sentada com um monstro de ar dissimulado. Usando o popular meme “[substantivo] [adjetivo] é [substantivo]”, a foto levava, como título: “Sucesso troll é sucesso” [orig. “Successful troll is successful”] (2008).

Mas por quê? O quê, exatamente, foi sucesso, na operação “Mais de 9.000 pênis?” É extremamente bem sucedido, em primeiro lugar, pelo apelo transgressor. Não é acaso que os trolls tenham dedicado esse fórum a essa questão, nem é insignificante que o lulz resultante tenha durado tanto tempo depois de terminado o raid [ataque] inicial. Os trolls não teriam gostado, ou não teriam gostado tanto, se a questão não fosse tão absolutamente sensível, para tanta gente. De fato, a exploração infantil, sobretudo quando tenha traços sexuais, é dos poucos tabus idênticos para, praticamente, todos os pontos de vista do espectro político. Resultado disso, seja no 4chan ou fora de lá, a pedofilia (sejam referências sejam ameaças) é das ferramentas mais exploráveis de todo o arsenal dos trolls. Que a “piada” tenha chegado até o show de Oprah Winfrey foi irresistivelmente divertido para os trolls participantes.

E ainda muito mais divertido foi o status de Cavalo de Troia subcultural que o meme provou que tinha. Simplesmente por enunciar a expressão “mais de 9.000 pênis”, e poderia ter dito “mais de 9.000” qualquer coisa, Oprah demarcou o território dos trolls.

Qualquer um, por mais remotamente conectado ao 4chan (ou à cultura online de modo geral) que fosse, imediatamente soube que a trollagem avançara até lá, e, melhor ainda: que a própria Oprah era agora um peão, no jogo dos trolls. Tudo isso aumentou a visibilidade online dos trolls, acrescentando ainda mais infâmia a um enxame já infame; e operou como catalisador para mais inventividade memética.

Bricolage: Ciclos de amplificação e espetáculo

Além de valer como exemplo “de manual” do modo como os trolls e a empresa-imprensa-comercial jornalística alimentam-se e realimentam-se continuamente; além de ser caso exemplar de como as intervenções da empresa-imprensa-comercial jornalística geram cada vez sempre mais base de alavancagem para novas ações da subcultura, a operação “Mais de 9.000 Pênis” expõe as semelhanças retóricas e comportamentais que há entre a trollagem e a empresa-imprensa comercial jornalística. Dessas, a que mais salta à vista é a busca incansável, de sucesso.

Para os trolls, “Mais de 9.000 Pênis” foi sucesso, porque detectou e explorou um tropo cultural particularmente sensível e, no processo, gerou grande quantidade de lulz. Mas os trolls não foram os únicos que tiveram sucesso: o sucesso do ataque de trollagem fala muito, também, do sucesso dos produtores de Oprah. Os objetivos divergiam bastante, dado que Oprah falava a um público simpático e horrorizado, e os trolls falavam só a um público horrorizado, mas os meios pelos quais os objetivos dos dois lados foram plenamente alcançados eram, de fato, exatamente os mesmos, idênticos.

Ambos, os trolls e a produção de Oprah tocaram o coração do público, usaram linguagem supercarregada de emoção e exploraram com perfeição o ângulo do interesse humano. E o mais significativo de tudo, para essa análise: ambos, Oprah e os trolls, tinham algo a ganhar, do incômodo (da dor, do sofrimento, da ansiedade) que causavam ao público.


A evidente superposição de Oprah & trolls não é surpresa. Os trolls frequentemente entram numa forma complicada de jogo de sombras ideológicas, com os mesmos que eles procuram explorar, sobretudo no relacionamento com a chamada “mídia dominante” (as grandes empresas-imprensa-comercial jornalísticas), o que dá novos significados à expressão “passar a perna”, “enganar”, “ludibriar com esperteza” (ing. outfoxed).

Como os veículos da “grande” mídia comercial, os trolls vão aonde está a notícia; como os veículos da “grande” mídia comercial, os trolls gostam de sensacionalismo e hipérboles. Em resumo, ambos, os trolls e a empresa-imprensa-comercial jornalística vivem mergulhados no espetáculo – o processo mediante o qual se fundem dinheiro & negócios e entretenimento (Kellner 2003).

Evidentemente, o que um lado entende como dinheiro & negócios diverge do que, para o outro lado equivale a dinheiro & negócios. Mais basicamente, a empresa-imprensa comercial jornalística vive investida nos movimentos do capital. Os trolls vivem investidos nos movimentos do lulz. Mas para alcançar esses objetivos declarados – os trolls, aliás, descrevem a eterna busca por mais e mais lulz, como “negócio sério” [ing. serious business] – os dois campos têm de provocar o maior impacto possível. Têm de envolver um público; têm de “fidelizar” a atenção desse público; têm de manter o público sempre atento e interessado. A relação entre trolls e a “mídia”, em outras palavras não é de oposição diametral.

Biella Coleman
Diferente da dinâmica que Gabriella (Biella) Coleman sugere em sua fascinante análise da Igreja da Cientologia e dos Anonymous pós-Chanologia, na qual propõe que o ethos e as táticas dos segundos são inversão direta do ethos e das táticas dos primeiros (2010), os trolls e a grande empresa-imprensa-comercial jornalística são, de fato, homólogos. Os dois lados têm comportamento idêntico, para objetivos divergentes.

Fica-se tentada a sugerir que a empresa-imprensa comercial jornalística não passa de grande instituição de trollagem, ou que, pelo menos, algumas personalidades “midiáticas” são, pessoalmente, trolls. Mas seria reduzir o problema, porque a trollagem, especialmente a trollagem associada ao 4chan e aos primeiros Anonymous, quer ser identificada como subcultura. Os trolls são gente que age como troll, fala como troll e trolla como troll, porque optaram por essa identidade.

Mas posso sugerir que os trolls tem muito mais em comum com a “mídia”, ou talvez, mais apropriadamente, que a “mídia” tem muito mais em comum com os trolls, do que seus apoiadores e defensores empresariais, ou que seus consumidores, aceitariam admitir.

Em termos do engajamento com a “mídia”, e baseada nas acentuadas semelhanças entre as ações de trollagem e as práticas das empresas-imprensa comerciais de jornalismo sensacionalista [2], posso dizer que os trolls agem e pressionam a cultura, não porque desafiem diretamente a cultura dominante, mas porque incorporam a cultura dominante, explorando, sobretudo, o imperativo sensacionalista que mantém altos os níveis de venda de publicidade comercial.

Nesse sentido, a trollagem ecoa o détournement como descrito por Guy Débord e Gil Wolman. Segundo Débord e Wolman, o détournement [3], que pode ser traduzido livremente como “sequestro” ou “captura” [também “recombinação”], ocorre quando objetos culturais são recontextualizados, o que torna um dado objeto cultural carregado de novo significado subversivo. Há captura ‘menor’, quando objetos neutros são alinhados, o que reconfigura o significado de cada um deles; e há captura em grande escala subversiva, quando se ressignificam objetos culturais já significantes. O Colbert Report, que afeta o neoconservadorismo para miná-lo, é exemplo do segundo caso; uma imagem tratada em Photoshop, de um gato montado num cachorro, pode ser exemplo do primeiro caso.

Seja a captura “menor”, seja em grande escala subversiva, as duas formas de captura ou de recombinação desafiam ou, no mínimo, remixam ideias dominantes mediante captura criativa ou, em alguns casos, mediante apropriação “absurdista” (Débord and Wolman, 1956). Mais interessante para esse estudo, os objetos podem ser “recombinados” pela cópia, pela sátira, pela reprodução, cujo efeito é “reforçar o significado real de um elemento original” (Jappe 1999: 59). Nesses casos, um objeto – uma frase bem conhecida de obra literária, um fotograma de filme, um fragmento de noticiário – é posto em contexto opositivo e tratado por ironia, o que faz com que o objeto se autodenuncie.

A trollagem, que é simultaneamente cópia e sátira, repetição & sarro, que usa tropos dominantes para “responder” a instituições dominantes, é caso exemplar de “recombinação”. Os trolls trollam a rede Fox News de televisão, atuando como atua a rede Fox News; e trollam Oprah Winfrey atuando como atua Oprah Winfrey. E rolam de rir, quando seus alvos escolhidos inadvertidamente, põem-se a atacar a imagem especular deles mesmos.

Sejam os trolls motivados por preocupações políticas, ou não; tenham ou não o objetivo de desafiar ou desmascarar a ideologia dominante, seus comportamentos e sua linguagem recombinam tropos existentes e, assim, deixam ver a fonte daqueles tropos – fonte, pelo menos, indireta.

Criticar os trolls e a trollagem sem considerar a relação de homologia que há entre eles e a cultura dominante – nesse caso, entre os trolls e a trollagem e a imprensa-empresa-comercial jornalística que alimenta os trolls, é, portanto, equivalente a “denunciar” os defeitos e “erros” de uma imagem, não do objeto refletido.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (em inglês) estão no ensaio original.
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Notas dos tradutores

[1] The Alex Jones Show é um programa de rádio.

[2]No Brasil-2012, o argumento aplica-se também, e, talvez, sobretudo, à chamada “imprensa séria”, reunida no Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), mas ativa também fora desse grupo. O Grupo GAFE vive hoje (de fato, vive assim desde a primeira eleição do presidente Lula) da prática de sensacionalismo o mais alucinado, mascarado como se fosse alguma preocupação “ética”, algum interesse em “transparência”, ou com a “defesa da natureza”, ou com alguma defesa dos princípios de justiça e democracia civilizadas. E não se pode dizer, sequer, que as empresas do Grupo GAFE sejam instituições de trollagem, porque o lulz é anárquico e portanto, por definição, é progressista, e as empresas do Grupo GAFE são (historicamente) doentiamente conservadoras, quando não são, mesmo, ativamente atrasistas e fascistizantes.]

[3] Guia Prático para o Desvio/Guia Prático para a Deturnação/Guia Prático para a Recombinação, publicado no jornal surrealista belga Les Lèvres Nues #8 (maio de 1956). Pode ser lido, numa tradução de Portugal. Sobre o Guia, leia também comentários interessantes, em português.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

“A casa que Fox TV construiu: Anonymous, espetáculo e ciclos de amplificação” (2/3)


(a ser publicado no periódico peer-reviewed Television and New Media

11/5/2012, Whitney Phillips, Scholars Bank, University of Oregon - 2a. Parte

(to be published in peer-reviewed journal Television and New Media)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 Leia também ( e se possível antes) a 1ª Parte deste artigo

Como chegamos até aqui?

Christopher "moot" Poole
Como já dissemos, o 4chan foi criado em 2003 por moot, então com 15 anos. Começou como página que abrigava um fórum Something Awful, SA [Alguma Coisa esquisita], com um subfórum chamado “Anime Death Tentacle Rape Whorehouse, ADTRW” [Bordel do Estupro do Tentáculo da Morte do(s) Anime]. moot era contribuidor regular do subfórum ADTRW, e queria arquivar contribuições de outros usuários de SA (chamados “goons [1]) (FAQ 2010). O 4chan começou a atrair usuários de fora do pretendido subfórum, e rapidamente, logo depois de criado, passou a ser destino específico, com léxico próprio e normas específicas de comportamento.

Uma daquelas normas levou à apropriação da palavra “troll”. Embora muitos dos primeiros usuários do 4chan fossem ligados ao fórum SA, e em geral se autoidentificassem como goons, a palavra “troll” e seus derivados [trollar, trollagem e outros] passou a ser preferida no /b/ board do 4chan. Mais importante que isso, aqueles pioneiros abraçaram, em grupo, um tipo especial de atitude em relação aos seus alvos-objetos – o lulz, corruptela de “lol” (sigla para “laugh out loud”/rir alto, gargalhar).

Como Schadenfreude, o lulz também nasce da desgraça ou má-sorte dos outros. Mas, diferente de Schadenfreude, que implica gozo passivo de desgraças “medianas”, o agente do lulz sempre é ou a fonte direta da desgraça do seu objeto-alvo, ou, no mínimo, deu ou está dando “uma passada” na festa onde se reúne o grupo dos “culpados”.

Embora muitos dos trolls com os quais trabalhei insistam em que o lulz seria riso justo, a maior quantidade de lulz verifica-se sempre que o alvo é negro (sobretudo afro-americanos), mulher, gay e lésbica. Isso não implica dizer que grupos historicamente dominantes sejam à prova de lulz: católicos, Republicanos e brancos em geral sempre geraram muitas gargalhadas de trollagem. O trolls creem que nada deva ser levado a sério; por isso têm atitude de oposição agressiva e com forte marca de gênero sempre que cruzam com sentimentalismo ou com qualquer simples rigidez ideológica – ou com qualquer pressuposto rigidamente ideológico.  

Lulz
Com o lulz ativado como âncora e farol de comportamento, a cultura da trollagem começou a expandir-se. Em 2006, e como extensão da própria retórica de enxame com a qual já estavam familiarizados (“nenhum de nós é tão cruel como todos nós”), os trolls de /b/ adotaram a identidade de coletivo anônimo. Especificamente, passaram a chamar-se, em massa, “Anonymous”.

Infelizmente, não é possível saber em que momento o substantivo “anonymous” gerou a forma adjetiva “Anonymous”: Encyclopedia Dramatica, uma página Wiki devotada a tudo que se referisse à trollagem, com entradas geradas por usuários desde 2004, foi apagada pelo fundador Sharrod DeGrippo em 2011. Embora a página de abertura de cada entrada tenha sido salva, resultado da intervenção de emergência feita por Web Ecology, todos os postados de antes de 2011 foram perdidos.

Mas, graças aos conteúdos gerados por usuários em outras páginas, ainda é possível traçar, pelo menos nos grandes traços, um cronograma das transformações da subcultura de /b/. No caso dos Anonymous, e baseada em várias entradas do Urban Dictionary, onde há uma entrada para “Anonymouslinkada a /b/ e 4chan, sabe-se que a palavra “Anonymous”, como designativo coletivo, estava em circulação em 2006. As mesmas entradas mostram que, em 2007, os Anonymous já haviam gerado e distribuído o Anonymous Credo (também conhecido pela variante “O Código dos Anonymous” [The Code of Anonymous], o qual desde então passou por várias versões, mas que foi lançado sob um compromisso, irônico, em certo sentido: “We are Anonymous, and we do not forgive” [“Somos Anonymous e não perdoamos”] (UD 2007).

Naquele início, os Anonymous apareciam personificados pelo “greenman” [homem verde], um avatar bem vestido, cuja cabeça aparecia encoberta pela frase “no photo available” [não há foto disponível]. Em termos retóricos, nada disso acontecia por acaso: desde o início, entendia-se que “Anonymous” era um coletivo interligado por laços frouxos, animado por incontáveis agentes sem nome. Quando os anons referiam-se às experiências dos Anonymous, faziam referência tanto ao poder retórico do coletivo sem rosto como aos seus efeitos no comportamento.

De início, o greenman ficou confinado a interações dentro da página. Os trolls citavam os Anonymous (e anons individuais) no 4chan, e usavam o apelido, ao participar de fóruns para raids [ataques] fora da página (i.é, ao definir áreas para ataques anônimos organizados, mas raramente o usavam em círculos de não iniciados. Na medida em que a subcultura crescia, contudo, os anons começaram a citar os Anonymous em fóruns públicos, inclusive no Urban Dictionary e em YouTube. Mesmo assim, em meados de 2007, só os próprios anons davam sinais de interesse pelos Anonymous e falavam do coletivo.

Então, dia 27/7/2007, o canal Fox News levou ao ar o hoje infame “Report on Anonymous” [Relatório sobre os Anonymous]: “Eles se chamam “Anonymous” – diz o locutor-âncora John Beard. “São hackers turbinados, que tratam a rede como um videogame da vida real (...) assaltam e saqueiam websites, invadem contas de Myspace, atormentam pessoas inocentes (...). E, se você reagir, tome cuidado!” Adiante, na mesma emissão, o repórter Phil Shuman descreve os Anonymous como “gangue hacker” e “máquina de ódio da internet”, em “surto de destruição”. “Eu tinha sete senhas diferentes, e ele roubaram todas, até agora” – diz uma entrevistada. “Para mim, são terroristas domésticos”, insiste outra, opinião que aparece ilustrada por imagens da explosão de uma caminhonete.

Shuman apresenta os Anonymous como gangue clandestina e impiedosa. Uma mulher, mãe, enfrentou ataques repetidos por telefone e foi obrigada a comprar um cão de guarda; um adolescente, David, foi abandonado pela namorada, quando hackers postaram “fotos de sexo gay” em sua página em Myspace; vários estádios receberam ameaças de bombas – informação que adiante descobriu-se que era falsa. Na mesma matéria, um ex-membro dos Anonymous – de costas, de boné, com a voz distorcida, presumivelmente para protegê-lo de represálias – acusa a dita “gangue hacker” de ter ameaçado sequestrá-lo e matá-lo. Na cena seguinte, a mãe cuja família foi atacada, e cuja identidade não é revelada (voz off), aparece cerrando janelas e cortinas, enquanto diz: “Será que [o FBI] fará alguma coisa, depois de um de nós aparecer morto? É provável” (“FOX 11” 2007).

A matéria do canal Fox “Report on Anonymous” chegou no mesmo dia ao Youtube [2] ; até hoje, já recebeu cerca de dois milhões de visitas e recolheu mais de 20 mil comentários de internautas. Postado de DancingJesus94 captura o espírito dessas reações: “UAU” – escreve ele ou ela. “Fox deu a maior força aos trolls, e com o máximo de lulz possível. O ego dos Anon vai explodir de felicidade, agora que a televisão os apresentou como perigosos bandidos que, só de pensar nisso, já conseguem invadir computadores” (2010). Em outras palavras: para os Anonymous, foi a consagração.

Em consequência, as expressões “hackers turbinados”, “gangue de hackers e “Máquina de Ódio da Internet” [“hackers on steroids”, “hacker gangs” e “the internet hate machine”] foram imediatamente integradas ao léxico da trollagem, bem como a imagem da caminhonete explodindo – que recebeu o nome de “Caminhonete de Festas do 4chan” [4chan party van] e é exibida sempre que a polícia investiga ataques de trollagem (“getting v&” [pegar a van&] passou, desde então, a ser versão taquigrafada de “ser preso”).

O 4chan recebeu enorme divulgação e forte impulso de Relações Públicas, a partir do programa da Fox; mas, além disso, recebeu ali tratamento muito eficaz, do ponto de vista publicitário, de implantação e difusão de uma nova marca. Douglas Thomas descreveu fenômeno similar, em seu estudo sobre a cultura hacker, especialmente da “nova escola” de hackers do início dos anos 1990s. Como Thomas explica, “A imprensa, a mídia, como o público (...) aprenderam a esperar o pior, dos hackers; como resultado, os hackers passaram a oferecer-lhes imagem correspondente, mesmo que seus “ataques” não passem de brincadeiras inofensivas” (2002: 37).

Ao definir os Anonymous (e os seus trolls) como elementos socialmente desviantes, a rede Fox News ofereceu-lhes uma griffe comportamental – além de ter deixado no ar a promessa de que comportamentos semelhantes também receberiam generosa cobertura da emissora.

Embora Fox News não tenha criado os Anonymous, o Relatório “Fox 11” sobre eles deu aos Anonymous plataforma nacional, a partir da qual os trolls construíram estruturas cada vez maiores. O que antes fora uma página underground, conhecida só dos poucos participantes ativos, tornou-se “marca” e conceito genérico: os Anonymous só passaram a aparecer muito em matérias da mídia-empresa depois de o Relatório “Fox 11” ter ido ao ar pelo canal Fox (“Internet Justice” 2007).

O segundo grande catalisador dos Anonymous apareceu em janeiro de 2008, quando Nick Denton postou em Gawker um vídeo incômodo, em que se via Tom Cruise rindo de modo, talvez, “histérico”, e elogiando a Igreja da Cientologia. Intimado pela Igreja da Cientologia, Denton recusou-se a remover o vídeo; disse que era “notícia” (Denton 2008); em resposta à tentativa de a Igreja censurar o vídeo, alguém postou um comentário em /b/, sugerindo reação (“Plan” 2008). Assim começou o Projeto Chanology, o mais ambicioso projeto de ataque dos Anonymous até aquele momento. Embora os Anonymous de modo algum fossem o primeiro grupo a por os olhos na Igreja da Cientologia (Coleman 2010), foram os que tiveram mais sucesso. Uma semana depois de Denton ter publicado o vídeo das risadas de Cruise, os Anonymous divulgaram sua, hoje, já icônica Message to Anonymous (“Message” 2008); e dia 10/2/2008, centenas de manifestantes protestaram, em todo o país, à frente de centros locais da Igreja da Cientologia, em várias cidades. Para preservar o anonimato, os anons que participaram das manifestações usavam máscaras de plástico de Guy Fawkes, referência ao que então era conhecido no 4chan como “Epic Fail Guy”, figura aplicada num adesivo, que indicava fracasso e desapontamento – exatamente a mensagem que os anons desejavam transmitir sobre a doutrina da Cientologia. Imagens dos manifestantes, sobretudo dos que usavam máscaras de Guy Fawkes, foram vistas em todos os noticiários. Dois dias depois dos primeiros protestos, os Anonymous ganharam seu primeiro verbete na Wikipedia.

Com os Anonymous e sua nave-mãe, /b/ board, ganhando cada dia mais destaque cultural, a mídia-empresa aplicou-se ainda mais na cobertura. Movimento que, por sua vez, criou muito ampla ocasião para muito lulz, o que atraiu cada vez mais cobertura da mídia, a qual engendrou mais conteúdo original e... mais cobertura nas televisões e jornais. O canal Fox News assumiu a vanguarda do sensacionalismo, com Bill O’Reilly liderando a matilha. Depois que um anon invadiu a conta de Sarah Palin em Yahoo, O’Reilly denunciou o 4chan como “uma das páginas mais imundas, nojentas e desprezíveis da internet” (Popkin 2008) e exigiu que o FBI tomasse medidas drásticas (“Palin”2008; “Hackers” 2008).

Os Anonymous colheram a oportunidade para declarar guerra aberta contra o canal Fox News, particularmente contra O’Reilly. Depois da invasão à página de Palin, trolls invadiram a página de O’Reilly e divulgaram informações sobre frequentadores e os endereços pessoais e profissionais de O’Reilly (Danchev 2008). A mesma tática foi usada também em resposta a um segmento do programa Talking Points/Confronting Evil, no qual O’Reilly dizia que:

“A página da extrema-esquerda radical conhecida como “4chan” está distribuindo pornografia infantil para pedófilos da internet” (O’Reilly 2009).

Um ano depois, os Anonymous iniciaram a “Operation Bill Haz Cheezburgers” [aprox. “Operação Bill ‘tá côs xizburguers”], mais uma tentativa para derrubar a página. Mas, diferente de outras vezes, aquela operação foi planejada para matar com gentileza. Um anon escreveu:

“Tentem não mandar material obsceno para ele. Sem material obsceno, quando ele pirar no programa, ninguém se solidarizará com ele e todos o verão como doido varrido, que diz aquelas coisas horríveis daqueles gatinhos tão bonitinhos”.

Durante algumas horas, na sequência, Anonymous enviaram para O’Reilly centenas de mensagens com elogios os mais incoerentes e sem sentido, e montanhas de imagens de coelhinhos, patinhos e gatinhos, muitas das quais exibiam, como título, a frase “The Internet Love Machine” [Internet, Máquina de Amor]. Em dado momento durante o raid, alguém lembrou de redistribuir o endereço da casa de O’Reilly. Imediatamente começaram a chegar pizzas de pepperoni enviadas para aquele endereço, e um Anon distribuiu foto alterada do rosto de O’Reilly, com a frase: “O quê?! Não encomendei pizza alguma. E nem gosto de abacaxi” [“What? I didn’t order any pizza. I don’t even like pineapples” (“Operation Bill Can Haz Cheezburgers” 2009).

Em resumo, as várias respostas de Fox contra os Anonymous, o 4chan e os trolls em geral, ajudaram a ampliar e reforçar os contornos do que, naquele momento, era ainda fenômeno localizado, mas que, em pouco tempo, emergiu como sólida subcultura. Essas histórias ampliaram não só o léxico da trollagem; também forneceram aos trolls farto material memético e ajudaram a legitimar o desenvolvimento de uma “identidade troll” bem marcada, deliberada e altamente identificável e reconhecível. O canal Fox News, ao comandar a carga contra eles, deu aos trolls as principais coordenadas para traçarem sua face pública. Os trolls gostaram, ocuparam o espaço, armaram suas barracas e, graças a uma mídia-empresa-imprensa cada vez mais autorreferente e repetitiva, encontraram fonte praticamente infinita de alimento. Os Anonymous fortaleceram-se, e a mídia-empresa-imprensa perdeu o rumo, dividida entre nutrir e punir aquela sua prole amaldiçoada.

[Continua]



Notas dos tradutores

[1] Na origem, são personagens das histórias de Popeye: “Os Goons são estranhos habitantes da Ilha dos Goons, que já mantiveram o pai do Popeye preso. Mas quando Popeye foi à ilha resgatá-lo, pai e filho conseguiram acabar com os Goons, e sair da ilha”.

[2] Anonymous on FOX11 pode ser visto a seguir:

quinta-feira, 24 de maio de 2012

“A casa que Fox TV* construiu: Anonymous, espetáculo e ciclos de amplificação” (1/3)


(a ser publicado no periódico peer-reviewed Television and New Media)

11/5/2012, Whitney Phillips, Scholars Bank, University of Oregon - 1a. Parte

(to be published in peer-reviewed journal Television and New Media)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Resumo: Esse artigo discute o /b/ board, o lado “obscuro” de 4chan [orig. 4chan /b/ board], um pilar – se não o pilar – da atividade de trolagem [1] online. Além de comentar a história daquela página e a emergência do nebuloso coletivo conhecido como Anonymous, o artigo considera os modos pelos quais representações que surgiram inicialmente na televisão comercial, reações que delas decorreram e comportamentos de trolagem em /b/ ajudaram a criar e a manter uma influente subcultura. Ecoando a análise feita por Stanley Cohen, do pânico moral [2], o artigo postula que os trolls e veículos da mídia-empresa dita “grande mídia”, especificamente o Canal Fox News, estão ligados num círculo cibernético de realimentação previsto para o espetáculo: cada campo amplifica e elabora sobre a reação do outro campo, e os dois campos entram, assim, num congresso não desejado, mas de alta sinergia.


Monstros inofensivos

Taryn Sauthoff
No perfil que escreveu do infame /b/ board do blog 4chan, um dos mais ativos celeiros de trolagem da Internet, a repórter Taryn Sauthoff do Canal Fox News, caminha por fio de navalha muito, muito fino. “Alguns veem o 4chan como blog cheio de adolescentes entediados que gostam de ultrapassar todos os limites do que podem fazer online” – escreve ela. – “Outros veem aqueles usuários como parte de uma “Internet Máquina de Ódio” onde só há terroristas que convocam terroristas para bombardear estádios de futebol” (2009) [3]. Para provar o que dizem esses últimos, Sauthoff cita o conteúdo e os usuários mais fortemente transgressores, que ela descreve como antissociais e dados a escrever palavrões. Em apoio aos que dizem que os usuários do 4chan nada são além de adolescentes entediados, Sauthoff joga a cartada do isolamento social, e elogia o amor que demonstram por gatos, sempre comprovado nas mais belas fotos. Servindo-se do recurso retórico de que vive Fox News (“mas, segundo alguns...”), no qual um repórter dá tons para-editoriais (Outfoxed, 2008 [4]) a qualquer coisa, Sauthoff consegue apresentar /b/board como “usina subreptícia de cultura” povoada por solitários poderosos e um website insignificante, “praticamente desconhecido”, cheio de geeks inofensivos, doidos por computadores e gatos, a mesma ideia que se reproduz também no perfil de moot, fundador do 4chan, que a repórter descreve, por sua vez, como uma espécie de rei idiota do submundo da internet, que abandonou a universidade e vive sustentado pela mãe.

A abordagem de Sauthoff não é, de modo algum, única. A vasta maioria dos relatos que se leem na grande mídia-empresa sobre a página 4chan, particularmente sobre o /b/board, segue a mesma toada também sobre os usuários. Esse artigo explora essa conexão e propõe relação muito mais íntima entre a mídia dominante e os usuários, que nenhum dos dos lados dá sinais de interesse em reconhecer.

Primeiro, discuto o próprio 4chan, com atenção especial ao painel /b/ ou “aleatório”. Ofereço um perfil dos trolls residentes e historio a emergência dos Anonymous como figura de proa e “cabeça do enxame”. Em seguida, considero como os veículos da mídia-empresa, especificamente o canal Fox News, engendraram e mantêm, inadvertidamente, todas as aberrações que dizem combater e ofereceram o cadafalso sobre o qual se podem depor grande parte do conteúdo da mesma subcultura. Por fim, analiso as semelhanças entre os trolls e os veículos da mídia-empresa que os alimentam. Como espero demonstrar, os comportamentos de trolagem são homólogos ao que faz a grande mídia-empresa – não diametralmente opostos; as motivações de cada grupo podem não coincidir, mas as respectivas estratégias retóricas são, muitas vezes, indistinguíveis uma da outra.

Seguindo a trilha do enxame

Como vários especialistas (Boyd 2009; Ito 1997; Nakamura 2002, 2007; Schaap 2002) já observaram, a chamada “realidade” sangra necessariamente na direção da vida online; e vice-versa. Nossos corpos, com raça, classe e gênero aparecem codificados em nossos comportamentos online, por mais que se pretenda aparentar algo acima ou abaixo do que somos (Nakamura et al. 2000). Em resumo, não se pode ignorar o terrestre e pedestre, ao falarmos sobre o virtual. No contexto da trolagem, não se pode deixar de ver os modos pelos quais os corpos marcados por classe, raça e gênero dos trolls lá estão e criam o contexto para comportamentos de trolagem. Não implica dizer que há relação simples e unívoca entre as pessoas que vivem por trás dos trolls e suas respectivas personas de trolagem. Mas, num nível muito básico, as experiências dos trolls na vida diária – níveis de educação, acesso aos meios e tecnologias, afiliação ou ausência de afiliação política – influencia suas escolhas online, inclusive (e mais basicamente) a habilidade para agir, de modo geral, online.

Tom Boellstorff 
Isso dito, é impossível verificar com precisão a demografia dos grupos, especialmente no caso de 4chan/b/. Os trolls de /b/ raramente (quase se pode dizer “nunca”) revelam informações de identificação e são rápidos em castigar ou humilhar os que o façam, evidência que cria inúmeras obstáculos e complicações à prática etnográfica. É impossível saber com aproveitável grau de certeza se algum troll anônimo (descritos todos no 4chan como anons ou /b/tards) algum dia receberá alguma mensagem específica, se o respondente era de fato o/a troll-alvo, nem se o/a troll estava trolando, em suas respostas – aspecto sobre o qual Gabriella (Biella) Coleman discorreu, na análise da manha (a capacidade, o jeito, o saber-fazer [orig. cunning]) nos espaços de trolagem e de hacking (2011 [5]).

Por essa trilha, a pesquisa nos espaços de trollagem necessariamente – embora às vezes desconfortavelmente – ecoa o que diz Tom Boellstorff em Coming of Age in Second Life (2008), que descarta a discussão da identidade terrestre em favor de exame antropológico detalhado da identidade online. Como observa Danah Boyd, a análise de Boellstorff reconhece implicitamente a significação do self “real”, embora se recuse a considerar os meios pelos quais um dos “eus” informa e complica o outro; isso, argumenta Boyd, é muito problemático e não dá conta satisfatória de um conjunto de comportamentos (2008). Concordo com Boyd. Consequentemente, limitei o foco de minha pesquisa no que os trolls fazem e, mais importante, em como seus comportamentos cabem em, e emergem com, ideologias dominantes.

Especificamente, e a partir de mais de 200 horas de observação participativa em /b/, em Encyclopedia Dramatica, em Know Your Meme e em YouTube, a análise que adiante se lê narra as origens subculturais dos comportamentos de trollagem; e examina os modos pelos quais esses comportamentos emergiram de, e desenvolveram-se por, vias que são estruturadas pela lógica da mídia comercial. 

A Internet, Máquina de Ódio 

O 4chan.org, uma simples plataforma de imagens, modelada segundo o Futaba Channel japonês, de imenso sucesso, foi fundado em 2003, por  Christopher “moot” Poole, então com 15 anos. Atualmente, a página abriga dúzias de painéis classificados por conteúdos específicos, todos concebidos para específicos subconjuntos da população do 4chan. O /a/ board, por exemplo, é devotado aos anime
[6] ; o /x/ board, a fenômenos paranormais; o /v/ board, a videogames, etc..

O mais popular dos painéis do 4chan – e o painel sobre o qual concentrei meu foco – é o /b/, “geral”, onde está a significativamente maior quantidade de tráfego do 4chan. Habitado por dezenas de milhares de autoidentificados trolls, usuários que se dedicam à transgressão e à “agitação” e tumulto, /b/ é amplamente considerado como um dos epicentros (há quem fale de “O” epicentro) de toda a atividade de trollagem online e dali sai, praticamente sem dúvida alguma, boa parte do conteúdo viral mais reconhecível, para não dizer o mais ofensivo. Como explica Matthias Schwartz, no perfil da página que escreveu em 2008, “Avaliada em termos de depravação, insularidade e tráfego gerado pelo turn-over , a cultura de /b/ parece não ter precedentes (...) É em tudo semelhante a uma parede de banheiro de ginásio, ou reunião pornográfica por telefone, ou blog sem postados onde só há comentários, todos cifrados em termos de gíria que você sempre é velho demais para entender”
[7] (Schwartz 2008).

A associação que Schwartz faz entre /b/ e alguma latrinalia proibida para menores é muito adequada, porque os conteúdos – significativamente, como na correspondente parede de banheiro – é sempre postado sob anonimato. Embora os usuários tenham a opção de preencher um campo [Nome], poucos a usam, e número ainda menor oferece detalhes de identificação (nomes civis reais, ou codinomes que o usuário pretenda usar mais do que uma vez). Resultado disso, a (grande) maior parte do conteúdo é criado anonimamente e modificado anonimamente e baixado [org. downloaded], remodificado e atribuído anonimamente. Os usuários são conhecidos como “anon”; e o coletivo, como “Anonymous.”

(...) Quase tudo, em /b/, é escrito em inglês e deixa transparecer a cultura e a política dos EUA, exceto algumas bem definidas referências ao Japão (i.e. cartoons japoneses, como Pokemon e DragonBallZ, e vários anime populares, entre os quais Azumanga Daioh e Gurren Lagann). Vez ou outra aparecem outros idiomas ou nacionalidades, mas a massiva maioria dos anons podem ser identificados e identificam-se como norte-americanos de classe alta, que vivem em centros urbanos ou nos bairros periféricos ricos dos grandes centros urbanos.

Trollface
Em segundo lugar, pode-se afirmar, a partir das muitas referências à cultura pop do final dos anos 1980s e início dos 90s, que há muitos usuários cujas idades situam-se entre 18 e 30 anos; a mesma tendência transparece também nos comentários e grupos de comentários em que os “correspondentes” partilham memórias de infância; ou nas referências a seriados, filmes e brinquedos “datados”; e em todos esses casos, a referência é, predominantemente, àquele momento da história pop-cultural dos EUA. Além de sugerir bem definidas faixa etária e nacionalidade, os comportamentos de trollagem que se veem em /b/ também sugerem fortemente que a maioria dos usuários são brancos. Os afrodescententes norte-americanos são frequentemente objeto da trollagem dita “humorística”. Mesmo quando o humor é neutro, em termos de raça, os anons assumem como certo que se apresentam como brancos, para um “público” de brancos; nas raras ocasiões em que algum anon expõe-se como não branco, o que acontece é que se autoidentifica, em termos raciais, no campo correspondente, como “Outro”.

Por fim, embora não seja possível provar que todos os /b/tards são biológicamente machos, o ethos de /b/ é indiscutivelmente androcêntrico. Além de ali se encontrarem todos os tropos sexistas (“volte pro fogão e me faça uma comida”) e dos postados contra quem se apresente como mulher (a pergunta padrão é: “tits or gtfo” [expressões chulas para “seios, ou dê o fora”]), /b/ é campo aberto para o que parece ser fornecimento infinito de material pornográfico, todo ele marcado por um olhar explicitamente machista. Mas nem sempre é olhar machista heterossexual; há muita pornografia gay, em /b/, e os trolls devotam muita energia ao comportamento ostensivamente homossocial (quando não é declaradamente homossexual), com frequentes longas disputas sobre “o meu é maior que o seu”, nas quais os anons postam fotos dos respectivos pênis e dão-se notas.

A alta ocorrência da palavra “fag” [“viado”, “bicha”] complica ainda mais o quadro. Sempre que os anons fazem piada sobre “an hero” [um herói/uma heroína]”, termo definido no universo da trollagem, para “suicida”; ou fazem poesia sobre o uso de drogas; ou pedem conselhos aos Anonymous, a resposta padrão é “do it faggot” [“faça isso, viado”], quase sempre acompanhada de fotomontagem ou desenho de algo ou alguém (personagem de desenhos animados, cães, ursos, crianças), mostrando grotescamente os dentes.

A acusação de “faggotry” [“viadagem”] está sempre presente, desde alguém dizer “your a faggot” [“você é um viado”], até as mais pretensiosas e "enroladas" discussões sobre “buttsecks” [sexo anal]. Além disso, sempre que tenham de se autoidentificar, seja em termos de geografia, ou escola ou universidade, ou principais interesses, os anons automaticamente acrescentam o sufixo “fag” a qualquer adjetivo.

Assim, os novatos, recém-chegados, são “newfags” [“viado novo”]; veteranos são “oldfags”; gente que escreva da California é “Califag”; quem se declare gay é “gayfag” e assim por diante. Conforme o contexto, o sufixo “-fag” pode formar palavra de baixo calão homofóbico, de expressão de carinho, ou pode ser simples modo neutro de se autoidentificar.

Além de impedir qualquer análise demográfica precisa, o anonimato tem profundo impacto no comportamento. Mais obviamente, porque não há repercussões, se o anon posta texto ou imagem racista, sexista, homofóbico ou de exploração. Mas, porque a trollagem é caracterizada pelo exibicionismo de transgressão, /b/ é assolado por conteúdo muito altamente ofensivo e às vezes explicitamente ilegal, inclusive pornografia infantil.

A política oficial de 4chan é de tolerância zero com pornografia infantil e pedofilia. E em 2008 moot declarou que havia banido mais de 70 mil endereços de IP (Brophy-Warren 2008). Mas os moderadores só podem controlar e filtrar porcentagens amostrais dos comentários e discussões. É inevitável que, às vezes, até o conteúdo mais altamente ofensivo vaze entre as frestas.
Christopher "moot" Poole

Por mais chocante que sejam alguns dos conteúdos que transitam por 4chan, sobretudo no painel /b/, os números de tráfego da página são, indiscutivelmente, muito mais impressionantes.

Em julho de 2008, a revista Time noticiou que a página 4chan havia tido número diário médio de 8,5 milhões de page views [visitas à página] e 3,3 milhões de única-visita por mês (Grossman 2008a); e em agosto do mesmo ano, o New York Times calculou o monthly hit-rate (contagem que inclui usuários de única-visita e de mais visitas) do 4chan, em 200 milhões (Schwartz 2008).

Em 2009, artigo publicado no Washington Post citou moot, com métrica interna [orig. internal metrics] de 400 mil postados diários (Hesse 2009), número que, em 2010 já praticamente dobrara (Fisher 2010). Em março de 2010, o New York Times noticiou que o número total depage views diárias de 4chanel subira para 800 mil, e que a página alcançara 8,2 milhões de visitantes únicos por mês (Bilton 2010).

Depois, no mesmo ano, moot rodou uma ChartBeat de dados, que rastreou o número total de olhos postos no 4chan; descobriu que a página recebe 60 mil visitantes em qualquer momento do dia ou da noite; 10 mil, só na página de abertura de /b/ (“Mainstreaming the Web” 2010). Resultado disso, 4chan depende de cinco servidores e processa o equivalente a 20 terabytes de dados por dia (
FAQ 2010).

[Continua]



Nota dos tradutores
* Há aqui um subtexto intraduzível, que liga o canal de televisão Fox  e fox, “raposa” (ing.) da fábula de Esopo (com incontáveis versões posteriores), em que uma raposa sentindo-se muito esperta, oferece-se para construir uma casa para abrigar a galinha vermelha; na fábula, a galinha se salva e ensina dura lição à raposa solícita, mas mal-intencionada.
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Notas da autora

[1] Orig. troll activity. Troll: “Quem posta mensagem de provocação deliberada num grupo de discussão ou painel de mensagens, com a intenção de causar o máximo de discussão e confusão” (Urban Dictionary, troll).

[2] O livro é COHEN, S. [1972] (1980) Folk Devils and Moral Panics: The Creation of the Mods and Rockers [Demônios populares e pânico moral: a criação dos Modse Rockers]. Oxford: Martin Robertson. No blog “O Bixo”, lê-se ensaio de 2010 em que o autor serve-se também do conceito de “pânico moral” em crítica ao que faz, no Brasil, a revista (NÃO)Veja. Interessante. 

[3] 8/3/2009, Fox News, em: 4Chan: The Rude, Raunchy Underbelly of the Internet”.

[4] Documentário, EUA, 2004, 77min., dir. Robert Greenwald. Sobre o filme, ver: Outfoxed - Guerra contra o Jornalismo” de onde o filme pode ser baixado; e pode ser assistido também a seguir:

[5] Encontra-se alguma coisa sobre o assunto no Blog da Biella Coleman em: “Hacker and Troller as Trickster

[6] Anime é forma derivada de “animação”/animation, cunhada no Japão, para designar todos os tipos de desenho animado, japonês ou estrangeiro. Na Europa e nos EUA, a palavra designa especificamente os desenhos japoneses de animação. Os fãs de anime nos EUA em geral demarcam clara distinção entre cartoons (como Looney Tunes e Disney) e anime, que têm traço e características diferentes. (Urban Dictionnary, Anime)

[7] 2/8/2003, The Trolls Among Us, Mattathias Schwartz, New York Times.