segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Porque os credores públicos não podem – e não devem – ser pagos


A guerra de Wall Street contra municípios, distritos e estados dos EUA

Michael Hudson
por Michael Hudson [*]

O ritmo da guerra da Wall Street contra os 99% está se acelerando na preparação para a matança. Tendo demonizado os trabalhadores da função pública por estarem destinados a receber pensões pelo seu tempo de vida no serviço ativo, os credores públicos estão insistindo em que, ao invés disso, devem receber seu dinheiro aplicado. Trata-se da mesma filosofia de austeridade que foi imposta à Grécia e à Espanha – e a mesma que está incitando o presidente Obama e Mitt Romney a cortar na Segurança Social e no Medicare.  

Ao contrário do governo federal dos EUA, a maior parte dos estados e cidades têm constituições que os impedem de incidir em déficits orçamentários. Isto significa que quando cortam impostos sobre a propriedade, eles devem ou tomar emprestado dos ricos ou cortar nos empregos e serviços públicos.

Durante muitos anos eles contraíram empréstimos, pagando aos ricos possuidores de títulos, juros isentos de impostos. Mas os encargos dos juros subiram a um ponto que parece arriscado, no momento em que a economia afunda na deflação da dívida.

As cidades estão entrando em inadimplência, desde a Califórnia até o Alabama. Elas não podem inverter a rota e restaurar impostos sobre os donos de propriedades sem provocar mais inadimplência de hipotecas e abandonos.

Algo tem de ceder – de modo que as cidades estão reduzindo despesas públicas, degradando seus sistemas escolares e forças policiais, e liquidando os seus ativos para pagar aos possuidores de títulos. 

Isto já se tornou a causa principal do aumento do desemprego na América, contribuindo para reduzir a procura do consumidor num pesadelo keynesiano.

Menos óbvios são os cortes devastadores que estão se verificando nos cuidados de saúde, treinamento de profissionais e outros serviços, enquanto as mensalidades das universidades públicas e “taxas de participação” em escolas secundárias estão subindo vertiginosamente.

Os sistemas escolares estão em total desintegração, tal como nossas estradas, enquanto professores são despedidos numa escala nunca vista desde a Grande Depressão. 

Mas estrategistas da Wall Street vêem este esmagamento dos orçamentos estaduais e locais como uma dádiva dos céus.

Rahm Emanuel
Como Rahm Emanuel colocou o assunto, uma crise é uma oportunidade demasiado boa para desperdiçar – e a crise fiscal dá aos credores alavancagem financeira para pressionar políticas anti-trabalho e promover privatizações.

O terreno está preparado para uma “cura” neoliberal: cortar pensões e cuidados de saúde, descumprir aposentadorias e liquidar o setor público, deixando os novos proprietários estabelecerem novos valores (de uso e mensais) sobre tudo, desde estradas até escolas. A nova expressão do momento é “extração de renda”. 

Assim, tendo provocado a crise fiscal, o legado de décadas de cortes de impostos sobre a propriedade financiados pelo aprofundamento na dívida, agora está sendo pago pelo arrendamento ou liquidação de ativos públicos.

Chicago arrendou sua [ponte] Skyway por 99 anos a empresas de pedágios, e os seus parquímetros por 75 anos. O prefeito municipal, Emanuel, contratou a J.P.Morgan Asset Management para “aconselhá-lo” sobre como vender a iniciativa privada o direito de cobrar por serviços públicos que anteriormente eram gratuitos ou subsidiados. Isto é o moderno equivalente americano dos Enclosure Movements da Inglaterra do século XVI a XVIII. 

Ao retratar os funcionários locais como o inimigo público nº 1, a crise urbana está ajudando a por a luta de classes mais uma vez em ação.

O setor financeiro argumenta que pagar pensões (ou mesmo salário mínimo) absorve receita fiscal que de outra forma pode ser utilizada para pagar possuidores de títulos.

[O município] de Scranton, Pennsylvania, reduziu os salários do setor público “temporariamente” para o mínimo legal, ao passo que outras cidades tentam romper planos de pensão e adiar contratos salariais – e irá ao cassino da Wall Street a fim de arriscar em jogos perdedores numa tentativa desesperada para cobrir seus passivos de pensões não financiadas.

Estes foram estimados recentemente serem um total de US$3 trilhões (trillion), mais outro US$1 trilhão de benefícios em assistência à saúde não financiados. 

Embora seja Wall Street quem engendrou a bolha econômica cujo estouro disparou a crise fiscal urbana, seus lobistas e suas teorias de Ciência Econômica Lixo não estão sendo responsabilizadas.

Ao invés de culpar os cortadores de impostos que deram aos banqueiros e grandes proprietários imobiliários uma benesse inesperada, é aos professores e outros funcionários públicos que dizem para desistir dos seus salários adiados, que é o que são fundos de pensão. Nada de tais restituições (clawbacks) aguardam os predadores financeiros. 

Ao invés disso, chegou o tempo dos arrestos. Chegou a fim de proporcionar um novo saco de “facilidades”, pois muitas cidades são forçadas a fazer o que a Cidade de Nova York fez em 1974 para impedir a bancarrota: transferir a administração para nomeados pela Wall Street. Tal como na Grécia e na Itália, políticos eleitos são substituídos por “tecnocratas” nomeados para fazer o que Margaret Thatcher e Tony Blair fizeram à Inglaterra: liquidar o que resta do setor público e transformar todo programa social num centro de lucro. 

O plano destina-se a atingir três objetivos principais.

Primeiro, dar aos compradores privados o direito de transformar infraestrutura pública em fontes de lucro. A ideia é forçar cidades equilibrar orçamentos pelo arrendamento ou venda a preço vil de suas estradas e sistemas viários, escolas, prisões, imóveis e outros bens. No processo, isto promete criar um novo mercado para bancos: conceder a investidores abutres para comprar direitos de instalar pedágios e mensalidades na infraestrutura básica da economia. 

Responsáveis públicos eleitos não poderiam empenhar-se em tais políticas predatórias e anti-trabalho. Só a “magia do mercado” pode romper sindicatos de trabalhadores da função pública, reduzir serviços públicos e instalar pedágios em estradas e serviço medido em sistemas de águas e esgotos enquanto corta ferrovias e/ou aumenta tarifas.

Para alcançar este plano financeiro, é necessário estruturar o problema de um modo que exclua alternativas menos anti-sociais. Como dizia Margaret Thatcher, TINA: Não há alternativa (There Is No Alternative) à venda por preço vil do transporte púbico, imóveis e mesmo os complexos escolares de todos os níveis e até o Sistema Prisional.

Desmantelar a educação pública e departamentos de polícia para pagar credores  

A tributação local costumava ser utilizada para a educação. Os Estados Unidos estavam divididos em grades fiscais a fim de financiar escolas, estradas vicinais, ferrovias, sistemas de água e esgoto. Municipalidades com melhores escolas tributavam mais a sua propriedade, mas isto tornava mais desejável viver em tais distritos e portanto elevava ao invés de baixar os preços dos imóve. Isto tornava a melhoria urbana auto-alimentada. Distritos menos tributados eram menos valorizados. 

Howard Jarvis
Isto já não é mais o caminho americano. A educação, em particular, foi demonizada. O antes notável sistema escolar da Califórnia é a baixa mais visível da Proposta 13 do estado; o congelamento do imposto sobre a propriedade aprovado em 1978. A Associação dos Proprietários de Apartamentos de Los Angeles utilizou o seu homem da frente política, Howard Jarvis, como lobista para prometer aos eleitores que pouco mudaria com cortes na educação e bibliotecas. Ele afirmou que “63 por cento dos diplomados são analfabetos, de qualquer forma”, de modo que não precisam de livros. A educação e outras partes das despesas públicas foram congeladas quando os impostos sobre a propriedade foram “reavaliados” em 57% – de 2,5 ou 3% para apenas 1% do valor avaliado – e foram congelados aos níveis de preços de 1978 para proprietários que mantiveram a sua propriedade. O resultado é que o sistema escolar da Califórnia afundou para o 47º lugar na classificação nacional. 

Para os neoliberais, o raio de esperança é que a degradação da educação torne os cidadãos mais vulneráveis à falsa consciência do Tea Party quando votam por interesse econômico. No passado, quando, por exemplo, a Proposta 12 foi aprovada, investidores comerciais prometiam aos proprietários de casa que de modo geral os cortes fiscais fariam a habitação mais acessível e que as rendas cairiam. Mas elas subiram, juntamente os preços dos imóveis. Isto é a Grande Mentira dos cortadores fiscais neoliberais: a promessa de que cortar impostos reduzirá custos ao invés de proporcionar um ganho inesperado para donos de propriedades – e também para bancos pois as ascensões dos valores de arrendamento são “livres” para serem capitalizadas em empréstimos hipotecários maiores. Os novos compradores precisam pagar mais, aumentando o custo de vida e o custo de fazer negócio. 

Remontando a 1978, antes da Proposta 13, os proprietários comerciais pagavam a metade dos impostos imobiliários e os de casas a outra metade. Mas agora a fatia dos proprietários de casas subiu para dois terços, ao passo que os impostos sobre a propriedade comercial caíram para um terço. Responsáveis por empréstimos bancários capitalizaram os cortes fiscais em hipotecas ainda maiores, de modo que os preços da habitação subiram ao invés de cair. O prefeito municipal de Los Angeles, Antonio Villaraigosa, no ano passado exclamou melancolicamente que “é tempo agora de tratar da iniquidade da Proposta 13 que permite a grandes interesses corporativos obterem uma benesse inesperada destinada a proprietários de casas. Não estamos financiando o governo. Estamos apenas dizimando o governo e os serviços que ele proporciona”. [1] 

Ele propôs um imposto sobre a propriedade em dois níveis, restaurando taxas mais altas para investidores comerciais e caloteiros. 

O ensino é uma ocupação exaustiva. Essa é uma das razões porque os professores têm um dos sindicatos mais fortes da América. Os seus salários não têm subido tão rápido quanto as suas despesas, porque eles fizeram um acordo para ficarem com menor rendimento no curto prazo a fim de obterem pensões quando se aposentarem. Estes contratos agora estão sob ataque – para pagar a possuidores de títulos. Estados e cidades estão agora insistindo em que possuidores de títulos não podem ser pagos sem matar (stiffing) a força do trabalho docente.

Assim, agora estamos vendo a loucura de reduzir a tributação sobre a propriedade e de substituir receitas fiscais pela obtenção de empréstimos – pagando juros isentos de impostos aos mais ricos possuidores de títulos do país. Cortar a propriedade da base fiscal encontra, portanto, a sua alma gêmea na onda de descumprimentos de pagamentos de aposentadoria.

Os impostos prediais afundaram de dois terços das receitas urbanas na década de 1920 para apenas um sexto hoje nos Estados Unidos como um todo. Concessões de ajudas federais também estão sendo reduzidas e a ajuda dos estados às cidades faz o mesmo. Mas ao invés de tornar a habitação mais acessível, estes cortes fiscais “libertaram” valores de rendas dos arrecadadores fiscais só para que acabassem por serem pagos aos bancos. 

Também aqui, a Califórnia abriu o caminho. Em 1996 seus eleitores aprovaram a Proposta 218, exigindo que qualquer novo imposto, comissão ou avaliação de propriedade fosse aprovado por dois terços dos eleitores. (Foram feitas umas poucas isenções para manter viável os sistemas de água e esgotos). Este estratagema “priva de alimento o animal”, com o “animal” sendo a infraestrutura pública e os serviços sociais. As forças policiais estão sendo reduzidas e os programas sociais sendo cortados. E quando a pobreza urbana aumenta, as taxas de crime sobem, impondo um custo de vida “invisível”. 

Portanto, o mais importante fato econômico a se reconhecer é que qualquer que seja o montante fiscal que o arrecadador prescinda ele tende a ser capitalizado em empréstimos hipotecários. E ao deixar mais renda disponível para ser paga como juro, cortar impostos sobre a propriedade obriga os compradores de casas a incidirem mais profundamente em dívidas. Assim, impostos mais baixos sobre a propriedade significam preços de habitação mais elevados – a crédito, porque uma casa ou outra propriedade imobiliária vale aquilo que um banco emprestará a novos compradores. Assim, ao capitalizarem o valor das rendas após impostos num fluxo de juros, os banqueiros acabam com as rendas – e portanto com os cortes fiscais sobre a propriedade.  

É isto que significa o mercado livre hoje em dia – rendimento criado pelo investimento do setor público, “libertado” para ser pago a bancos como juros ao invés de ser recapturado pelo governo. 

A maior parte da receita urbana é um almoço gratuito criado pelas estradas, escolas, sistemas de águas e esgotos financiados pelo contribuinte. Mas nem os especuladores imobiliários nem os seus banqueiros acreditam que este investimento dos contribuintes deveria ser recuperado pela tributação dos valores acrescidos dos sítios criados ao proporcionar estes serviços públicos. Ao invés de tornar o setor público auto-financiado quando ele expande serviços para criar riqueza, proprietários privados obtêm os benefícios – enquanto bancos capitalizam os ganhos em empréstimos hipotecários maiores, os quais agora representam cerca de 80% do crédito bancário. 

O núcleo da “falsa consciência” dos banqueiros – a história de encobrimento com a qual os lobistas do Tea Party procuram doutrinar os eleitores dos EUA – é que impostos sobre a terra e ativos financeiros punem os “criadores de emprego”.

Continuando o ataque, os beneficiários desta despesa pública afirmam que precisam ser mimados com preferências fiscais para investirem e empregarem o trabalho, enquanto os 99% precisam ser chutados e chicoteados para trabalharem mais arduamente por lhes serem pagos salários mais baixos.

Esta falsa narrativa ignora o fato de que os nossos maiores períodos de crescimento são aqueles em que as taxas fiscais sobre indivíduos e corporações dos EUA foram mais altas.

O mesmo é verdadeiro na maior parte dos países. O que está sufocando o crescimento econômico é o encargo da dívida – devida aos 1% – e os cortes fiscais sobre riqueza gratuita. 

O esmagamento das aposentadorias faz parte da crise geral da dívida  

O candidato republicano à vice-presidência, Paul Ryan e o governador do Texas, Rick Perry caracterizaram a Segurança Social como um esquema Ponzi. Isto é verdadeiro no sentido óbvio de que se supõe que os reformados sejam pagos com as contribuições dos novos que começam a contribuir. É assim que qualquer sistema pague-como-puder funciona. O problema não é que o sistema precisa ser pré-financiado para proporcionar ao governo receita para cortar impostos sobre os 1%. O problema é que novas contribuições estão secando quando a economia rende-se sob o seu encargo de dívida acrescido. 

A Segurança Social pode ser paga facilmente. Após o crash de 2007 o Fed imprimiu US 13 trilhões nos seus computadores para dá-los aos banqueiros. Ele pode fazer o mesmo para a Segurança Social – e para concessões de ajuda federal a estados e cidades da América. Pode pagar obrigações de aposentadorias estaduais e municipais do mesmo modo como pagou aos 1% da Wall Street. O problema é que o Fed só deseja fazer aquilo que os bancos centrais foram criados para fazer – financiar déficits do governo – para dar aos bancos.

O objetivo é salvar credores e as ambiciosas contrapartidas dos bancos, não os 99%. 

O problema é que o próprio sistema financeiro está podre. Isto transformou a luta de classes de hoje numa guerra financeira, sendo a grande tática moldar a percepção do problema entre os eleitores. O truque é fazê-los pensar que cortar impostos reduzirá o seu custo de vida e tornará a habitação mais barata, ao invés de permitir que os bancos tomem o que os fiscais de impostos costumavam tomar. Esta é a percepção chave que precisa ser difundida: cortar impostos deixa mais “almoço gratuito” de rendimento disponível para bancos darem emprestado, sobrecarregando a economia ainda mais profundamente com dívida. 

Aqui está a razão porque o atual caminho pode possivelmente não funcionar. Os fundos de pensão estaduais e municipais estão com um “rombo” de US$3 trilhões porque eles estão tendo apenas retornos de 1% nestes dias (o único retorno seguro), não os 8% que lhes disseram para ter a fim de pagar pensões por ganhos de “capital” (isto é, o almoço gratuito financiado dos bancos).

O Fed está mantendo taxas de juro baixas numa tentativa de reinflacionar os preços dos imóveis e de outros ativos de volta à década feliz do “Mestre da Bolha” Greenspan. Se as taxas de juros sobem – o suficiente para permitir à Califórnia, Chicago e outras localidades obterem juros suficientes para pagar aos aposentados o que prometeram – então os bancos verão cair por terra o efeito colateral dos seus empréstimos hipotecários. 

De modo que o Fed trancou a economia dentro dos baixos retornos. Nem os políticos democratas nem os republicanos estão desejosos de aumentar impostos sobre as finanças, seguros e o setor imobiliário. Eles votam de acordo com o aquilo que os seus contribuidores de campanha estão pagando – tornar Wall Street  mais rica. 

A questão é a velha opção do Quem/A quem. Dado o fato matemático de que dívidas que não podem ser pagas não o serão, a pergunta é que deveria obter prioridade: os 1% ou os 99%? 

A austeridade infestada de dívida e a redução do governo estão sendo pressionados como se isto fosse inevitável, não uma opção política para colocar os possuidores de títulos e os 1% por cima dos 99% – um prêmio para o lobbying monetário que têm gasto para comprar políticos e enganar eleitores levando-os a acreditar que cortar impostos sobre a propriedade e cortar impostos sobre os ricos ajudará a economia.

Mas se a América deixa os 1% escreverem as leis – ou, o que é a mesma coisa nestes dias, contribuir para as campanhas políticas dos que fazem as leis – então a economia ficará muito mais pobre, rapidamente. A era do crescimento da América estará ultrapassada. 

Alguma coisa tem de ceder: Se os possuidores de títulos não vierem a ser pagos, os estados não podem pagar salários adiados do trabalho na forma de pensões, e terão de reduzir serviços públicos. 

A transformação dos EUA numa Grécia

Assim, já é tempo de descumprir. Do contrário Wall Street nos transformará numa Grécia. É este o plano financeiro, sem dúvida. É a estratégia para a guerra financeira de hoje contra a sociedade como um todo. Na Letônia, falei com o principal banqueiro central, o qual explicou que os salários no setor público haviam caído 30 por cento, ajudando a empurrar para baixo os salários do setor privado aproximadamente outro tanto. Os neoliberais chamam a isto “desvalorização interna” e prometem que tornará as economias mais competitivas. A realidade é que os preços subirão no mercado interno e isso levará os trabalhadores a abandoná-lo.

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[1] The New York Times, 09/Janeiro/2011. Adam Nagourney, em: “Tax Cuts From '70s Confront Brown Again in California”.

[*] Professor de Teoria Econômica na Universidade de Missouri – Kansas City. O seu último livro é The Bubble and Beyond, ISLET, Dresden, 2012, 482 p., ISBN 13:978-3-9814842-0-5 

O artigo original, em inglês, encontra-se em: Counterpunch Week, 31/8 - 2/9/2012 em: “Why Bondholders Can’t – and Shouldn’t – be Paid, Wall Street’s War on the Cities”
Esta tradução foi extraída de Resistir e modificada pela redecastorphoto 

domingo, 2 de setembro de 2012

Ahmed Fouad Negm: “Os versos da revolução”


2/9/2012, “Artscape: Poets of Protest”, Al-Jazeera - Diretor May Abdalla
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
[vídeo documentário legendado em inglês, muito bonito [1]]


O afamado, irreverente, controverso “Tio Ahmed”, como o poeta Ahmed Fouad Negm é chamado no Egito, conheceu a poesia na prisão, nos anos 1950s, e escreve desde então. Nesse retrato íntimo, raro, vêmo-lo procurando seu lugar nessa revolução de jovens e à espera de que a inspiração reapareça. (...)

Hoje com 83 anos, o velho poeta lançou seus versos-adagas contra todos os que governaram o Egito ao longo desses anos, o que lhe custou um total de 18 anos de cadeia. Hoje, o poeta, conhecido pela vida livre e pelas respostas rápidas, assiste aos acontecimentos no abrigo da sala de casa e pisca o olho para mim: “Quando como, como bem. Quando amo uma mulher, amo bem. Quando escrevo, escrevo bem”.

Ahmed Fouad Negm é uma lenda viva no mundo árabe, afamado por dizer o que pensa. 17º filho de sua mãe, Negm foi criado num orfanato e condenado a três anos de prisão, ainda adolescente, pela primeira vez, por falsificar documentos. Na cadeia, começou a escrever versos, na gíria das ruas, misturando piadas que ouviu no mundo dos pobres e a dura realidade da opressão. Outros prisioneiros começaram a passar-lhe gravadores, para que gravasse os versos, e até os guardas ajudavam a contrabandear as gravações para fora da prisão.

Tornou-se poeta-herói dos trabalhadores, e seus versos foram ganhando tons cada vez mais políticos. Quando foi condenado, mais tarde, a 11 anos de prisão, por versos nos quais zombava dos discursos televisionados do presidente Anwar Sadat, sua fama extravazou para todo o Oriente Médio.

30 anos depois, na Praça Tahrir, os mesmos versos voltaram à vida, dessa vez cantados contra Hosni Mubarak e o Conselho Superior das Forças Armadas. Nas noites tensas da Praça Tahrir, cantavam-se os versos de “Os valentes são valentes”:

Os valentes são valentes
Os covardes são covardes
Venha com os valentes,
juntos, para a Praça

Encontrei Negm num escritório minúsculo, nos fundos de uma editora que publica textos radicais e revolucionários, no centro do Cairo. Uma dúzia de poetas e escritores, cobrindo três gerações, sentavam-se entre pilhas de livros que iam do chão ao teto. Apertado numa mesa de computador, a voz rascante de fumante, Negm estava entre amigos.

Falou-se de peças de teatro em estilo shakespeareano e de versos em árabe clássico. E dos novos governantes religiosos do Egito.

“Conheci muitos Irmãos da Fraternidade Muçulmana na cadeia. Às vezes, me oferecia para reger as orações. Quando estavam curvados, com a testa no chão, eu saía. E eles lá ficavam, horas a fio, discutindo se eu podia ou não podia sair: ‘É permitido?’ ‘É proibido?’ Como é possível que gente assim governe um país rico como o Egito? Os egípcios mais pobres são gênios de inteligência. Nunca os subestimem”.

A maré montante da religião no Egito sempre afetou a reputação de Negm. Seu declarado gosto pelo haxixe, pelas muitas namoradas e a fala livre, recheada de palavrões e blasfêmias, já levaram muitos egípcios a rebaixá-lo do trono prestigiado dos grandes poetas do país.

Sua filha, Nawara Negm, foi uma das líderes da revolução desde o primeiro dia. Herdou a língua afiada e a paixão política do pai – cantou o hino “Mataram Guevara”, composto pelo pai, no casamento da irmã adotiva. No início do ano, foi atacada por uma gangue que gritava “filha do drogado” e brutalmente espancada.

“A revolução voltará. Mais forte. Nos ergueremos outra vez. É como jogar xadrez com um idiota”.

Ninguém se surpreendeu quando, durante as filmagens desse documentário, Negm recebeu a notícia de que estava sendo processado por blasfêmia, por ter dito um palavrão num programa de televisão ao vivo, em que se discutia religião.

Sua esposa entrou em pânico. Negm apenas assumiu, sem aflição, a velha posição de combate: “Não tenho medo deles. Querem nos obrigar a não falar. Por que teria medo deles? Tenho mais tempo de cadeia, que vocês, de vida!”

De fato, o novo processo pode ter sido o sinal que Negm esperava para ter certeza de que seu lugar continua assegurado, numa revolução que, no Egito, está sendo apresentada como “Revolução dos jovens”. “A inspiração voltará. Ela sempre volta, com o rabo entre as pernas”.

[Esse episódio de “Artscape: Poets of Protest” está sendo apresentado pela rede Al-Jazeera, a partir de 31/8, 6ª-feira, no seguinte horário (GMT): 6ª, às 19h30; sábado, 14h30; domingo, 4h30; 2ª, 8h30]



Nota dos tradutores
[1] Em 8’03, lá estão os Anonymous! 

Ernesto Laclau: “O populismo é garantia de democracia”


10/7/2005, La Nación, Buenos Aires
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ernesto Laclau
Entrevista concedida por Ernesto Laclau quando do lançamento de seu livro “La razón populista”, Fondo de Cultura Económica, Buenos Aires, 2005, 312 p.


Ernesto Laclau, reconhecido especialista em Filosofia Política, fala de seu livro “La Razón Populista”, em que lança um toque provocativo ao resgatar da marginalidade o Populismo como fenômeno chave da história da América Latina.


“O populismo possibilita estruturar a vida política mediante discursos que articulam elementos linguísticos e não linguísticos. Esta operação permitirá construir uma neo-objetividade em relação ao conceito estudado, livre, dessa vez, de condenações ‘éticas’.”


Habitualmente, quando se fala de populismo, faz-se referência a um tipo de governo assistencialista, demagógico, de inspiração nacional, que gasta mais do que tem e que ignora as instituições e a lei, amparado na força que recebe dessa entidade supra-individual chamada “povo”.

Ernesto Laclau, doutor em História e dedicado à filosofia política, propõe, em seu livro, La razón populista, uma provocadora mudança de rumo, no que se pensa sobre o fenômeno do populismo, ao propor “resgatar o populismo do lugar marginal em que vive hoje, nas ciências sociais”, para pensá-lo, não como uma modalidade degradada da democracia, mas como tipo de governo que permite ampliar as bases democráticas da sociedade.

“O populismo – diz Laclau – não tem conteúdo específico, é um modo de pensar as identidades sociais, um modo de articular demandas dispersas, uma maneira de construir o político”.

Doutorado em Oxford, onde chegou apadrinhado por Eric Hobsbawn há quase 30 anos, Laclau está [o artigo é de 2005] na Argentina para participar do Seminário Psicoanálisis y Ciencias Sociales, organizado por Flacso. Em entrevista a La Nación relativizou o suposto componente antidemocrático do governo de Hugo Chávez, manifestou seu otimismo quanto à situação da Argentina e explicou a tese central de seu livro: 

Quando as massas populares que sempre viveram excluídas incorporam-se à arena política, surgem modalidades de liderança não ortodoxas se se considera o ponto de vista democrático liberal; uma dessas modalidades é o populismo. Mas o populismo, longe de ser um obstáculo, é garantia de democracia, ao impedir que a democracia converta-se em mera administração pública.


La Nación: Por que, na sua opinião, generalizou-se o que o senhor define como uma concepção pejorativa do populismo?

Laclau: A crítica clássica contra o populismo está muito ligada a uma concepção tecnocrática do poder, segundo a qual só especialistas devem ser encarregados de decidir sobre as fórmulas para organizar a vida da comunidade.

No caso da Venezuela, por exemplo. Há na Venezuela massas políticas virgens, que nunca antes participaram no sistema político, senão mediante variações da extorsão de caráter clientelístico. Então, no momento em que essas massas lançam-se na arena histórica, elas o fazem mediante a identificação com determinado líder. E essa liderança é democrática, porque, sem essa modalidade de identificação com o líder, as massas não teriam como começar a participar do sistema político, que permaneceria controlado por elites que não representam nem manifestam, mas substituem, a vontade popular.

La Nación: Quando o senhor fala de maior democratização, refere-se à inclusão das massas populares na política. Mas em geral, os que protestam contra atitudes antidemocráticas de Chávez, e às vezes também de Kirchner, falam da dificuldade que esses líderes demonstram para tolerar o pluralismo, do modo como manipulam o Congresso, das relações tumultuadas com a oposição...

Laclau: Em primeiro lugar, liberalismo e democracia não são conceitos que coincidam ou tendam naturalmente a coincidir. Foi necessário todo o longo e complexo processo das revoluções e levantes do século 19, para que se obtivesse algum equilíbrio entre algumas formas de governo, que passaram a ser chamadas liberais democráticas, como formas mais ou menos estáveis.

Mas na história latino-americana nunca se alcançou esse tipo de integração. Tínhamos um liberalismo oligárquico que respeitava as formalidades liberais, mas tinha base clientelista, o que impedia qualquer expressão das aspirações democráticas das massas. Por isso, quando as aspirações democráticas das massas começaram a aparecer, nos anos 30, 40, 50, elas muitas vezes manifestaram-se mediante formas políticas que foram absolutamente antiliberais – como o varguismo e o Estado Novo no Brasil; como o peronismo na Argentina –, regimes formalmente antiliberais e que, contudo, foram profundamente democráticos, porque deram vez e voz a muitas das aspirações das massas.

La Nación: Em que medida as condições hoje são diferentes?

Laclau: Nos últimos 20 anos, pela primeira vez na história latinoamericana, as aspirações nacionais e populares das massas conseguem coincidir com a afirmação dos direitos humanos, a divisão de poderes, o pluralismo político.

La Nación: E como se combinam essas duas perspectivas?

Laclau: As duas têm de estar presentes, se queremos ter algo que se possa chamar de “sociedade democrática”. Contra a concepção tecnocrática do poder, temos a noção da política como antagonismo, quer dizer, a emergência de demandas que a sociedade faz a determinado sistema. Essas demandas sociais constituem um povo e o povo constitui-se, sempre, na oposição ao poder. Na Argentina, por exemplo, tivemos, depois da crise de 2001, uma enorme expansão horizontal dos protestos sociais, e a baixa capacidade do sistema para absorver as demandas populares num sistema institucional vertical estável. De algum modo, me parece, o atual governo [de Hector Kichner] está tendo de por juntas as duas dimensões, a vertical e a horizontal. Assim, está criando um sistema ampliado, de caráter mais democrático.

La Nación: Em que consiste essa ampliação democrática?

Laclau: No campo social, há grupos corporativos muito entrincheirados, grupos econômicos, empresários, também grupos sindicais, muito fortes. Mas há setores da população cujo grau de integração corporativa é muito menos consolidado, setores marginais. Quando isso acontece, é preciso que os líderes políticos não tenham a função, exclusivamente, de manifestar interesses já constituídos. Devem também ajudar a consolidar esses outros interesses que permaneçam marginalizados.

La Nación: Como os interesses representados no movimento piquetero?

Laclau: Sim, por exemplo. No sistema político argentino há dois tipos de forças que são profundamente negativas. Uma é a que prega que é preciso reprimir o movimento dos piqueteros. Reprimir os piqueteros só conseguirá sufocar as manifestações, sem resolver os problemas que geram manifestações. A outra força negativa é o piqueterismo duro, que também é uma modalidade de não política, porque não propõe nenhuma forma de levar à ação ao marco institucional existente. Sempre haverá alguma tensão entre o protesto social e sua integração nas instituições. Mas essa tensão é, precisamente, o que chamamos “democracia”.

La Nación: O senhor está chegando num momento em que o peronismo está em fase extremamente dura. O senhor acha que isso pode afetar a governabilidade?

Laclau: Não. A Argentina nos últimos anos mostrou-se excepcionalmente governável. O país tem alta governabilidade. Superamos uma crise econômica de alta magnitude, adotamos posição crítica ante o FMI, o que produziu vários efeitos positivos, temos um sistema econômico que continua, em boa medida, sob controle. Por outro lado, há diferentes alternativas políticas que se podem considerar, que se apresentarão mediante a redefinição das formações políticas existentes, como, hoje, o núcleo do justicialismo.

La Nación: São alternativas políticas verdadeiras? Não são só disputas por interesses pessoais e por espaços de poder?

Laclau: Talvez sejam, mas mediante esses interesses vão-se manifestando outras tendências mais gerais. A política, em sua minúcia cotidiana, sempre tem essas características de que você fala. Mas as disputas que se travam hoje na França, dentro do movimento gaullista, ou dentro do Partido Socialista, não são muito diferentes do que se vê dentro do justicialismo. E nem por isso alguém fala de crise de governabilidade na França. Não acho, no que está acontecendo hoje, que a luta de interesses possa degenerar, com formação de camarilhas de tipo clientelístico e totalmente apolíticas.

La Nación: Condoleezza Rice referiu-se ao risco do populismo na América Latina e relacionou-o a um novo “eixo do mal”. Como o senhor vê o mapa político da América Latina?

Laclau: Bem... Em primeiro lugar, o mapa que os EUA fazem da América Latina tem a ver com o mapa mundi global que a política de Bush tenta desenhar. Bush quer criar uma fronteira “ético-política” que divida a humanidade entre “terroristas” e “não terroristas”, quando, por sua vez, o terrorismo é definido de tal modo que nunca se sabe com clareza quem são os “terroristas”. Por otro lado, no plano internacional, a tendência de toda essa orientação de direita é criar um mundo unipolar, e isso é o pior que pode acontecer, se se pensa nas possibilidades democráticas de países como os nossos. Se a Comunidad Europea transformar-se em interlocutor político cada vez mais ativo [não se verificou, nos anos recentes: a Comunidade Europeia é hoje “os poodles de Washington” (NTs)], se a China começar a participar também no quadro das opções internacionais [isso, sim, verificou-se (NTs)], nesse caso realidades como a do MERCOSUL poderão começar a jogar estrategicamente. Essa será a grande aposta dos próximos anos, em política internacional.

La Nación: O senhor é otimista, quanto à situação argentina hoje?

Laclau: Sou bastante otimista, sim.

La Nación: Em que baseia esse otimismo? Em que pontos o senhor mantém certa reserva?

Laclau: Se a situação econômica deteriorar-se muito, pode afetar o precário equilíbrio político que foi criado até agora, e que permitiu certa democratização das lutas sociais. Também pode acontecer que, no final, as tendências mais tradicionais da partidocracia, o duhaldismo e outras, consigam bloquear a tentativa de criar uma abertura democrática. Mas sou otimista, porque acredito que, do ponto de vista de suas expectativas democráticas, a Argentina está vivendo seu melhor momento dos últimos 40 ou 50 anos.

La Nación: Mesmo assim... Desde a crise de 2001, ante a perplexidade de não termos sido aquele país que prometíamos ser no Centenário, muitos concordam que, se houve época dourada na história argentina, foi quando éramos “o celeiro do mundo”, em oposição à qual o presente aparece como decadência.

Laclau: Mas esse tipo de reivindicação não considera o funcionamento do sistema democrático. Antes de 1830, a política argentina funcionava de modo muito pouco democrático. Havia, para começar, o nível dos punteros, que manipulavam votos em troca de favores. Acima desse nível, ficavam os caudillos; e, acima dos caudilhos, os deputados e senadores que negociavam com os caudilhos. Com o desenvolvimento econômico, as demandas tendiam a ser institucionalmente absorvidas dentro desse sistema clientelístico. Mas quando a crise começa a apertar, a partir dos anos 30, as demandas deixam de poder ser absorvidas nos canais tradicionais. É quando começa a criar-se uma situação de populismo – vale dizer: uma acumulação de demandas insatisfeitas e um sistema que não atende àquelas demandas. Até que aparece alguém que começa a arregimentar, por fora do sistema institucional, aquelas massas virgens que viviam expostas às intempéries. Aí começa a acontecer um novo tipo de mobilização social, que culminou na emergência do peronismo. E a partir desse ponto já ninguém precisava do caudilho para conseguir um leito no hospital, porque havia o hospital do sindicato.

La Nación: Os punteros, compradores de votos, não desapareceram.

Laclau: É. Se se vai ao Congresso, vê-se que continuam lá. Mas já não mandam na política nacional, como mandavam.

La Nación: Também ainda há quem compre e venda favores...

Laclau: Sim, claro. O duhaldismo é exatamente isso. Mas trata-se agora de clientelismo de tipo mais burocrático, que opera dentro das instituições.

La Nación: Seu livro pode ser lido como o elogio do populismo e, nessa linha, como uma defesa do peronismo.

Laclau: Acredito que o peronismo representou enorme avanço na participação das massas no sistema político. Talvez não tenha sido o melhor modo de participar. Poderia ter havido modalidades mais democráticas de participação, mas o peronismo foi a via de participação que as massas encontraram naquele momento, a única historicamente possível. Entendo que qualquer elaboração que se tente, para construir políticas mais progressistas, tem de partir desse ponto histórico, porque a via histórica que o 45 abriu para a participação popular democrática é dado primordial e absolutamente positivo da história argentina. O regime oligárquico que havia antes, baseado na fraude, em momento algum foi melhor que o peronismo.  

Argentina: “estados alterados”


Alejandro Bercovich, Revista Crisis, agosto 2012, Argentina
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“Acreditar ou explodir”, eis o mote da jovem guarda de funcionários públicos que assumiram as rédeas da economia argentina, em plena crise global. Deve-se festejar que não se ouça o cacarejo dos economistas, mas não a ausência de qualquer debate social sobre o que virá [1]. Aqui oferecemos uma leitura crítica das atuais encruzilhadas políticas na Argentina e uma interpretação do movimento “La Cámpora” [2].

Alejandro Bercovich
Os argentinos estamos mais estatistas que nunca. Segundo pesquisa feita pela Universidad Di Tella depois da estatização da Repsol-YPF, a população acredita que o Estado é o principal responsável por assegurar o seu bem-estar (82,7%), por gerar empregos (81,6%), por reduzir a desigualdade entre ricos e pobres (87,3), e por prover pensões e aposentadorias (86,2%) e pela saúde pública (87,9%). Ainda mais surpreendente é que a alta porcentagem de 68,5% opine que o Estado deva ser “dono das empresas e indústrias mais importantes do país”.

Qualquer desses números seria incompreensível em países como os EUA, onde o capital é religião, a empresa privada é sacrossanta e muitos trabalhadores que perderam os empregos na crise das hipotecas podres continuam a repetir, como salmo, que “a frase que fez a grandeza dos EUA sempre foi ‘você está despedido’”.

O estrepitoso fracasso do neoliberalismo no mundo e na América do Sul sepultou rapidamente as ilusões de progresso individual que políticos e a imprensa-empresa tentaram semear durante a década dos 90s, a partir do fim do Muro de Berlim. O estilhaçamento em mil pedaços do sistema político, em dezembro de 2001, acabou por catalisar um clic na cabeça dos argentinos.

Mas, embora o kirchnerismo tenha dado carne e ossos a muitas dessas mudanças subjetivas e tenha inclusive re-estatizado – em boa parte forçado pelas circunstâncias – empresas paradigmáticas como Correio Argentino, Águas Argentinas e em seguida também as Aerolíneas Argentinas, a vontade social manifesta na pesquisa da Di Tella não teve correlato tão claramente demarcado na realidade. Nem muito menos.

Os números da Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO) sobre a cúpula empresarial argentina são lapidares. Em 1976, 38,4% do faturamento total das 200 maiores empresas do país correspondia a empresas estatais. Com a financeirização e a era do dinheiro fácil, essa proporção caiu para 28,9% em 1991, antes do tsunami de privatizações. Apenas quatro anos depois, a proporção desabou para 3,4%. E até 2001, em pleno reinado do Consenso de Washington, as empresas estatais argentinas chegaram ao fundo histórico do poço: 1,6%.

Com o kirchnerismo, o que aconteceu? Muita estrangeirização inicial, bastante argentinização posterior para mãos de grupos econômicos locais, em geral grupos próximos do Governo, mas muito pouca recuperação do peso econômico do Estado.

Em 2010, último dado disponível, a FLACSO calcula que as empresas estatais faturavam cerca de 3,5% da massa total do faturamento das maiores empresas, quase o mesmo que em 1995. Claro que neste ano somou-se a estatização da Repsol, a principal empresa do país em ativos e em vendas. E ainda falta ver o que acontece aos trens e metrô, dados em concessão a um punhado de empresas contratadas habituadas a fraudar o fisco graças a obras e subsídios.

Que o Estado volte a assumir papel de líder de investimentos é considerado indispensável por todos os economistas antineoliberais.

A razão é simples: empresas privadas não investem o suficiente para sustentar o crescimento. Nem as locais nem as estrangeiras. O investimento não chega a 25% do PIB e cresceu menos que ele durante quase todos os anos da era K. Para piorar, segundo dados do mesmíssimo Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC), sete de cada dez pesos computados como “investimento” destinam-se à construção e à compra de veículos de transporte. Quer dizer: não são usados para incorporar máquinas e novas tecnológicas que poderiam melhorar e perfil produtivo e contribuir para substituir importações.

Os porta-vozes do establishment, em especial o financeiro, argumentam que a Argentina não recebe fluxos de capital estrangeiro por ter-se “isolado do mundo”, primeiro com o “calote”, depois com a manipulação de estatísticas e certos gestos de rebeldia contra o Fundo Monetário Internacional e países do G-7. O que não dizem é que esses são investimentos quase sempre de curto prazo, sem inovação tecnológica nem agregação local de valor e/ou são comercialmente deficitários, para a balança de pagamentos, dadas as importações que exigem. E que, além disso, têm, como contrapartida, a rápida saída de divisas sob a forma de dividendos.

Por outro lado, quem, em seu juízo perfeito, faria o próprio crescimento futuro depender da vontade de multinacionais europeias ou norte-americanas, naufragadas em sua pior crise desde 1930? Como evitar que essas empresas protejam primeiro o emprego em seus países, forçadas por governos que pregam o livre comércio, mas cujas economias só cresceram, quando cresciam, a golpes de protecionismo, no melhor dos casos; e de rapina semicolonial, no pior?

Desde o início, o principal problema do modelo de acumulação kirchnerista foi o papel protagonista que reservou a um ator que jamais teve gás, sequer, para ser coadjuvante: a burguesia “nacional”. Uma elite empresarial diversificada e rentista, habituada a viver dos juros do dinheiro, a qual, durante quase todo o século 20, investiu apenas o mínimo necessário para preservar esse status de privilégio, mandando divisas para o exterior sistematicamente nos tempos de alta, à espera da crise seguinte, que ofereceria a preço aviltado os ativos locais – terra e empresas – que logo estariam em mãos de terceiros. E que só aceitou “enterrar” capitais no país durante períodos curtíssimos e em troca de que lhe garantissem gordas taxas de rentabilidade, quase sempre à custa de direitos trabalhistas e do equilíbrio ecológico, geográfico e demográfico “nacional”.

Embora com essa limitação estrutural, a chegada de Axel Kicillof [3] ao centro do Governo, em abril desse ano, inaugurou um novo tipo de intervenção do Estado nas decisões das empresas mais importantes do país. O passo decisivo foi a estatização da maioria acionária de YPF, cujo destino dependerá das formas de associação que venha a adotar com o capital privado e de conseguir submetê-lo ao objetivo de produzir mais e ampliar o horizonte de reservas. Mas os primeiros movimentos nesse sentido aconteceram numa intervenção anterior, que passou quase inadvertida, mas que terá influência contundente na atividade econômica do próximo ano.

De que intervenção estamos falando? Da que possibilitou a aparição, com voz e voto, de representantes estatais, nas assembleias de acionistas de 42 grandes empresas, graças à re-estatização, na Argentina, em 2008, das Administradoras de Fundos de Aposentadorias e Pensões [orig. Administradoras de Fondos de Jubilaciones y Pensiones (AFJP)], que haviam sido privatizadas no governo Menem.

Representantes dos fundos de aposentadoria e pensão, evidentemente, são grandes acionistas de grandes empresas argentinas – e votam nas assembleias. Empresas como Telecom, Siderar (Techint), Petrobras Argentina, Metrogas, TGS, Pampa (Edenor), Consultatio, Gas Natural BAN; bancos como o Galicia, Patagonia, Francés e Macro; Metrovías e até a empresa-imprensa Clarín foram obrigadas a tolerar algo que jamais se vira antes.

Suas assembleias anuais começaram a receber enviados de Kicillof, o novo enfant terrible da economia; participavam de pleno direito das assembleias e exigiam a nomeação de diretores “seus”, sempre tentando remodelar algumas das decisões das assembleias de acionistas.

Nenhuma das participações herdadas das AFJP argentinas excede 25% do capital dessas megaempresas. Mas, sob a coordenação de Kicillof, os delegados do Governo forçaram a maioria dessas empresas a reinvestir porção maior de seus ganhos no país, e a fazer partilha simétrica de dividendos entre os acionistas, muitos dos quais, estrangeiros.

E como conseguiram o que conseguiram, sendo minoria? Negociando. Ameaçando não aprovar balanços – o que o mercado interpretaria como uma espécie de veto governamental ou sinal de crise no “relacionamento” com o Governo.

A revista Crisis entrevistou vários gerentes dessas megaempresas e muitos assumem, pedindo que seus nomes não sejam divulgados: nenhuma empresa que tenha de sobreviver sob regulação do Estado – como as que prestam serviços públicos e, claro, os bancos – tem qualquer interesse em tumultuar seu relacionamento com o Estado ou com o governo. Tampouco as que dependem de contrato para obras públicas. Ou as que vivem sob regime especial, ou que enfrentam barreiras de proteção aduaneira, como Techint.

“La Cámpora”

Mas, paradoxalmente, a tendência política interna que elevou Kicillof ao pedestal de consultor-estrela-ministro, onde, em outros tempos estiveram Lavagna, Peirano, Lousteau e Boudou, constitui também a principal ameaça à estabilidade do Estado nesse papel protagonista que aspira a ocupar (e que os argentinos desejam que ocupe), se o que se quer é encontrar a “saída desse inferno”, como dizia Néstor Kirchner, no início dos anos 2000.

Sim. Tanto o combustível como o lastro para esses avanços está no grupo denominado “La Cámpora” – que nasceu no funeral público do líder peronista [4] [18/12/1980 [5]]; que surpreendeu todo o mapa dos partidos na Argentina pelo crescimento explosivo; e que, hoje, desempenha o contraditório papel de juventude conservadora, guardiã do que tenha sido conquistado e, ao mesmo tempo, sempre a exigir mudanças mais radicais [6].

Em geral, até agora, a oposição tem questionado La Cámpora com argumentos que são mais de forma, que de fundo [7]. Criticou sua ostentação de riqueza, o arrivismo e uma indefinida “prepotência juvenil”, com desqualificativos que evocam o discurso de Perón contra “os imberbes” na Plaza de Mayo.

Poucos reparam no verdadeiro calcanhar de Aquiles de La Cámpora, que é também o calcanhar de Aquiles do atual processo de recuperação do papel do Estado na economia: a lógica majoritária dentro do próprio grupamento, que é voluntarista e muito pouco política, baseada em “ocupar espaços” e “usar os recursos”, adágios que são reiterados em qualquer conversa com seus membros de referência.

Essa lógica interna pode ser resumida no que disse a esse cronista um jornalista da agência Télam, recentemente incorporado, e dirigente de La Cámpora:

“O partido que vence legitimamente as eleições apropria-se de recursos do Estado, que têm de ser usados para levar adiante o programa do partido.” A tese visava a justificar a censura e o pensamento único imperantes na agência estatal de notícias a qual, para o redator das hostes de Máximo Kirchner [filho de Hector e Kristina e líder de La Cámpora], “tem de ser o braço comunicacional do Governo”.

Não é excepcionalmente grave que um camporista permita-se semelhante audácia teórica sobre a agência estatal de notícias, porque o jornalismo não deixa jamais de ser atividade econômica intimamente associada ao poder e irrelevante, além da alguma relevância que possa ter no plano simbólico e político. Muito mais nocivo foi o choque frontal entre os pais fundadores do camporismo de Aerolíneas (entre os quais, deve-se dizer, militava Kicillof) e os sindicatos de aeronautas.

Os aeronautas entenderam que os camporistas ajudaram a Direita a atacar o Estado – destacando-se que, com Marsans, o fisco também perdeu caudais de dinheiro. E o choque também expôs a incapacidade dos funcionários da jovem guarda camporista, que não conseguiram incorporar os trabalhadores na gestão estatal de um serviço público chave, para torná-lo mais eficiente, e sem que, para isso, os sindicalizados tivessem seus direitos atropelados.

Para retomar o posto de orientador do investimento e fator de peso na economia, e para avançar, plantando mourões que não possam ser muito facilmente revertidos, o Estado deve olhar-se ao contrário: sobrepondo-se a qualquer grupo governante que passe pelo poder. Tem de aferrar-se ao cumprimento de objetivos e metas e demonstrar a eficiência de novas hipóteses de gestão, que sejam transformadoras. Isso não implica entregar tudo aos tecnocratas com diplomas importados. Significa, bem ao contrário, construir novas formas de participação popular na economia e aproveitar o potencial que ainda há numa sociedade relativamente mais educada e produtiva e com inteligência social menos fraturada que a de outros países.

Para tanto, seria preciso ao mesmo tempo, procurar o modo mediante o qual os trabalhadores possam converter-se em sujeitos políticos e superar a barreira de seu desenvolvimento individual e coletivo sujeitado aos desígnios de um empresariado impotente e menos nacionalista que os do resto da região.

A classe dirigente sabe que se consome em esforços para reverter os índices de confiança na intervenção estatal que continuam a aparecer na pesquisa da Universidad Di Tella. Ou para conseguir, no mínimo, que o Estado continue a ser o que sempre foi até agora: mero garantidor de negócios e contratos. Por isso se preocupará cada vez mais com atacar com cada vez mais virulência os flancos mais fracos da até agora tímida contraofensiva estatal: a “politização” da administração pública; a ausência de meritocracia; a ineficiência e o critério de “ocupar espaços” a golpes de puro voluntarismo militante, com ética e épica mais típicas de soldados que de políticos.

Se insistir nesses vícios, La Cámpora nada conseguirá além de aplainar o caminho da restauração e da demolição do que começou a mudar dentro do Estado argentino depois que chegou ao centro do poder o ministro Axel Kicillof, seu primeiro filho pródigo [8].




Notas dos tradutores

[1] O artigo aqui traduzido pareceu-nos interessante, porque o grupo “La Cámpora” parece ser, no geral, muito semelhante ao Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, apesar das muitas diferenças.

No Brasil ainda não há pensamento forte e politicamente bem articulado sobre o PT (se há, os petistas não o conhecem). O PT e os petistas não têm história, filhos (hoje, de fato, já também netos) que são do buraco negro que foram os mais de 30 anos de ditadura no Brasil, seguidos de uma “redemocratização” que nasceu “cenográfica” e assim prossegue, mais “cenográfica” e formal que real e efetiva, até hoje. Os petistas só conhecem, do PT, a história imaginada e incansavelmente repetida, desde o golpe de 1964, pelos jornais da imprensa-empresa do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) e pela universidade que, no Brasil, é conservadora, quando não é, só, reacionária. 

Não é difícil ver nesse ministro Kicillof – do qual jamais havíamos ouvido falar, porque a imprensa-empresa brasileira só noticia, da Argentina, o futebol e os golpes antidemocráticos – o que bem pode ser uma versão à argentina do ministro José Dirceu.

A diferença de destino entre ambos, hoje, pode, sim, dar boa pista de outras diferenças entre a vida política na Argentina e no Brasil. Por exemplo, a imprensa-empresa argentina é ma-ra-vi-lho-sa, se comparada à brasileira – que é a pior do mundo. (E deve haver por aí mais pistas; é procurar).
Assim, entendemos que, servindo-se desse artigo como ‘roteiro’ – e começando a pensar menos pelas semelhanças e mais pelas diferenças (umas, ao que parece, superficiais; outras, talvez mais profundas, a serem ainda demarcadas e analisadas) –, talvez seja possível começar a construir reflexão de melhor qualidade histórico-política, também sobre o Partido dos Trabalhadores (PT).

[2] Pode-se ler sobre a história do movimento “La Cámpora” (que é tão odiado pela imprensa-empresa argentina, quanto pela brasileira). Para uma atualização, ver “Grupo jovem La Cámpora ganha aura de ministério no governo argentino”, 27/4/2012. Essa é matéria produzida e distribuída pelo grupo Globo e, portanto, deve ser lida com todas as reservas. Mas aproveitam-se de lá alguns nomes, a partir dos quais se pode fazer melhor pesquisa e encontrar melhor informação.

[3] Axel Kicillof é Vice-Ministro de Economia da Argentina desde 2011; foi nomeado dia 16/4/2012, com Julio de Vido, co-administrador da YPF, depois de nacionalizada.

[4] Hector Cámpora, peronista histórico, foi presidente da Argentina durante dois meses, de maio a julho de 1973, nos meses que antecederam a volta de Perón à Argentina. Foram meses de muitas lutas em toda a América Latina: Allende (que foi à posse de Cámpora) foi assassinado dois meses depois, em setembro de 1973. 

[5] O Comício da Vila Euclides aconteceu dia 13/3/1979. O PT foi fundado dia 10/2/1980.

[6] Se o Partido dos Trabalhadores (PT), no Brasil-2012, exigisse “mudanças cada vez mais radicais”, aí estaria perfeita descrição também do PT.

[7] Também se aplica às críticas da oposição ao PT, no Brasil. A crítica ao comportamento dito “ético”, afinal, também é “crítica pela forma”, muito mais que por algum “conteúdo” político.

[8] No Brasil, o Ministro José Dirceu, filho pródigo do PT, nem chegou ao centro do poder: foi decapitado a caminho.