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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dividir eleitoralmente o Brasil entre Norte e Sul é não entender o recado das urnas

Criei esse mapa sob demanda da jornalista e blogueira Conceição de Oliveira (@maria_fro), para mostrar como são falsas as interpretações de que o Brasil estaria dividido entre pobres e ricos, Sul e Norte. Esse falso contencioso tem gerado uma série de manifestações xenófobas, principalmente difundidas nas redes sociais. Criei com uma graduação de cores baseado nas diferenças de votos em cada estado. Vermelho e azul mais fortes, representam grandes diferenças, as cores mais suaves, ao contrário, pequenas diferenças. 



Já foi bastante comentado pela imprensa o fato de que mesmo na absurda hipótese de não se computar os votos das regiões Norte Nordeste, Dilma venceria, mesmo que por pequena margem. 

Repare que as duas maiores vitórias de Serra foram exatamente em estados da região Norte, Acre e Roraima. Estados com pequena população e que têm uma forte pressão entre o setor agrícola e ambiental. No Sul, sudeste e Centro-Oeste, ele vence sempre por pequena margem de votos. Em quatro deles, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás e Espírito Santo por diferenças menores que 3% dos votos válidos. Uma margem ligeiramente maior, Serra obteve em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Sua maior vitória, pasmem, foi em Santa Catarina – local de recente polêmica a cerca de mudanças no Código Florestal, onde o tucano conquistou pouco mais de 56% dos votos válidos. 

As vitórias de Serra, incluindo aí toda a região centro-sul do Pará, o chamado "Arco de Fogo", foram em regiões com predomínio da economia agrária. Podemos avaliar que foi em parte pelo conservadorismo dos produtores rurais e o "fantasma do MST", mas também pela forte campanha realizada nessas regiões e sobre o fator câmbio, que de fato tem prejudicado a economia desses estados, nos últimos dois anos. A verdadeira revolução no crédito rural, levada a cabo por Lula, não foi ainda capaz de vencer essa resistência contra uma candidatura de esquerda. 

Ao contrário, Dilma além de ter vencido em mais estados (16 a 11), obteve vitórias bem mais contundentes, em praticamente toda a região Nordeste e no estado do Amazonas. Em três deles, Pernambuco, Maranhão e Amazonas, Dilma venceu em todos os municípios. No Ceará perdeu em apenas um. Na Bahia em 8, sendo que apenas um de médio porte, Vitória da Conquista. 

Mas mesmo com todas as dificuldades, a candidata petista praticamente obteve "empate técnico" em várias regiões. Incluindo aí o já citado Pará, onde ela venceu por apenas 53,2% dos votos, sua vitória mais apertada. 

O Brasil não está dividido entre norte e Sul. E o que teve de atrito, se deve mais ao nível da campanha eleitoral que às diferenças econômico sociais. Dilma terá que governar para todos. Precisa melhorar a infraestrutura da produção agrícola, que já vai levar um choque com a inauguração de algumas obras importantes, como as ferrovias Norte-Sul e Transnordestina, a Integração das Bacias do São Francisco e mesmo as hidrelétricas do rio Madeira. São obras, acima de tudo, de integração nacional. 

Para além das prioridades na saúde, educação e diminuir o abismo social, governar um país continental, com tantas realidades regionais diferentes, é sempre um exercício de acomodação política e coragem para avançar sobre os desafios, que são gigantescos. O Brasil está ao seu lado Dilma. 


Mapa eleitoral do Brasil - 2o. turno
extraído do blog do Alê Porto

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A maioria sabe o que faz




A fé democrática supõe que a maioria sempre está certa e sabe o que é melhor para ela. Eu sei, pode parecer uma idéia absurda se você pensar no que as pessoas ouvem, lêem, comem, vestem ou dizem, toneladas de bobagens, mas a crença na sabedoria política da maioria é parte do credo da democracia e, como ainda não inventaram nada melhor, é o que temos. (Meu sistema político ideal é a monarquia holandesa com vinhos franceses, autores ingleses e pintores alemães, mas é muito caro de instituir no Brasil.)

Já desconfiei muitas vezes da democracia brasileira e sempre quebrei a cara.

Logo em minha primeira eleição presidencial, achei absurda a vitória do Collor. Descobri rapidamente que uma das virtudes da democracia é sua capacidade de mudar de idéia. (“Tola é a idéia que não pode mudar”.)

Fiquei pasmo com a tansice da maioria quando ela caiu no conto de mais uma massaroca moralista midiática (doravante denominada 3M) criada pela mídia por óbvia motivação eleitoreira (doravante denominado OME) só para levar a eleição para o segundo turno. (Não, não falo do “caso Erenice” de agora e sim do “caso dos aloprados”, de 2006.) Descobri rapidamente que segundo turno é mais tempo que a maioria pede para pensar, no caso, em 2006, se estava satisfeita com o resultado de oito anos de governo tucano e queria mais. A maioria decidiu que não e elegeu o Lula, no que fez muito bem.

Não fiquei nem um pouco surpreso de ver esta eleição ir para o segundo turno.

A expressiva vitória de Dilma neste primeiro turno é, antes de tudo, uma conquista pessoal. Em sua primeira eleição, Dilma partiu de 8 pontos nas pesquisas eleitorais e, em menos de dois anos, venceu um câncer, virou  avó e chegou na eleição com mais de 47 milhões de votos, 14 milhões a mais que o segundo colocado, José Serra, um veterano de muitas eleições, apoiado por todos os veículos da antiga imprensa.

Dilma ganhou de Serra em 18 dos 26 estados brasileiros. Muitos disseram que a eleição de Serra dependeria da ampla vantagem que ele tivesse em São Paulo, estado que o tucano governava até ontem e o PSDB governa há 16 anos. A vantagem de Serra em São Paulo não chegou a 1 milhão, num universo de mais de 20 milhões de eleitores. Dilma ganhou do Serra em Minas, estado que o PSDB governa e fez seu sucessor, por quase dois milhões de votos. Dilma ganhou do Serra no Rio, no Rio Grande do Sul, na Bahia, em Pernambuco, a lista é longa. Digamos que, para um o “poste” que “nunca fez nada”, é um desempenho bastante bom.

A vitória de Dilma sobre Serra se deve também, e isto é o óbvio, a aprovação de Lula e de seu governo. A maioria – que sempre está certa, lembre-se – escolhe seus governantes por critérios egoístas: o assalariado por mais salário, o industrial por mais produção, o agricultor por mais terra e financiamento, o banqueiro por mais lucro, o jovem por mais emprego, as mães por mais saúde e segurança. Quatro em cinco brasileiros aprovam o governo Lula, Dilma já levou o voto de dois deles. Para ganhar no segundo turno, só falta um.

Muita gente boba – mais de 9 milhões - votou em branco ou anulou o voto, provavelmente eles estavam vendo novela e acompanhando o caso Bruno, não tiveram tempo nem paciência para ler nada além das manchetes e, portanto, não sabem que muitas vezes elas são desmentidas pelos fatos, descritos nas letras miúdas da notícia. A simples leitura do índice dos sites da antiga imprensa afasta qualquer cidadão decente da política, elas só falam de roubo, fraude, brigas, ofensas, baixarias, fofocas e picuinhas. Brancos e nulos, a quem a mídia impõe a (falsa) idéia de que política é uma contravenção, talvez precisem de mais alguns dias para pensar melhor, se não querem mesmo opinar sobre o próprio futuro.

Muita gente boa votou em Marina, e bons motivos é que não faltam. Acho que o último debate, na Globo, ajudou Marina a conquistar os 5 milhões de votos que ganhou na última semana. Dilma e Serra, líderes nas pesquisas, entraram para jogar pelo empate, o que é sempre irritante para o público, e morrendo de medo de errar, cumprindo rigidamente as marcas,  exibindo sorrisos e frases de efeito exaustivamente repassadas por seus marqueteiros. Sorria, dizem eles. Deveriam ouvir Arnaldo Antunes: “não sorrimos à toa”. Marina passa sinceridade, um valor inestimável na vida e insuperável frente às câmeras. O público brasileiro, craque em identificar bons atores, percebe que Marina acredita no que diz, ponto para ela.

Há quem culpe Marina pela não-vitória de Dilma no primeiro turno - o risco de acordarmos presididos por Índio da Costa ainda não está inteiramente afastado - mas ela não pode ser culpada por ter feito bem o seu trabalho. Marina nos faz lembrar que mais petróleo para alimentar automóveis não significa exatamente a promessa de um mundo melhor, que toda geração de energia tem um custo e um benefício e que, ao invés de produzir mais, nós talvez devêssemos gastar menos. A sustentabilidade, além de aumentar nossas chances de um futuro aceitável, é um bom negócio. Espero que Dilma lembre disso em seu governo.

Marina foi ministra de Lula por quase seis anos, participou ativamente de um governo que, ela sabe muito bem, tirou milhões de brasileiros da pobreza e trabalha para erradicar a miséria. Marina é parte da história do PT, não consigo imaginá-la num palanque ao lado do DEM, apoiando Serra contra Dilma e contra o Lula. Também suponho que a maioria dos seus eleitores, se parar para pensar no assunto, não vota na direita.

Contra o voto em lista

A maioria – lembre-se, sempre certa – quis o segundo turno para discutir melhor certos assuntos. Não sei se alguém ainda vai querer mais detalhes sobre a última 3M.OME (Já esqueceram? Massaroca moralista midiática criada por óbvia motivação eleitoreira), os “5 milhões do filho da Erenice” ou a do “envelope do Tamiflu”, ou o “financiamento de 9 bilhões para o receptador de conservante de presunto roubado”, ou sei lá que outra besteira eles inventaram ontem mas, se ninguém se opuser, eu gostaria de propor o debate de alguns pontos mais relevantes para o futuro do país.

Marina está fora do segundo turno e ela era a única contra o famigerado voto em lista.

Dilma já se manifestou publicamente a favor do voto em lista:
''Sou a favor de uma reforma política, para que haja financiamento público de campanha, voto em lista, para que haja um reforço dos partidos. (...) Seria prudente que fosse por uma Constituinte exclusiva pra tratar dessa questão'' [Roda Viva, em 27.06.2010] 

Serra também é a favor do voto em lista:
[sobre a reforma política]

- (...) Começaria por aí já na próxima eleição. Eleito, vou me jogar a partir de janeiro para fazer isso. Deputados em geral são ligados a prefeitos de cidades médias e pequenas. Prefiro um tipo de voto distrital misto porque uma coisa é uma cidade mais homogênea. Estado complica um pouco. Em segundo, o voto em lista. A campanha eleitoral seria muito mais, a questão da chapa, haveria um debate maior. Resolve o problema de oligarquia partidária? Não, mas melhora o custo da campanha.

Você sabe o que é voto em lista?

Da wikipedia: voto em lista é uma das formas de regra de sufrágio. É adotada em diversos países e está dentro das propostas de reforma política no Brasil. Por este sistema, nas eleições proporcionais (para deputados e vereadores) o eleitor não vota em um candidato, mas numa lista, proposta pelo partido político. De acordo com o quociente eleitoral, se calcula quantos candidatos aquela lista poderá eleger, e eles serão eleitos, não na ordem em que forem votados, como atualmente acontece, mas na ordem em que foram propostos na lista.

Muita gente fala na necessidade de uma reforma política, uma que termine com os suplentes no senado (um escândalo), que institua o financiamento público das campanhas (sou a favor), o voto distrital (tenho dúvidas, depende do sistema) e o voto em lista.

Voto em lista? Sou contra, muito contra.

Quero ter o direito de escolher não apenas o partido, mas qual deputado de qual partido vai me representar no Congresso.

O voto em lista favorece o coronelismo, impede o eleitor de renovar os quadros partidários, estimula os burocratas e a corrupção, prejudica lideranças jovens, retira do eleitor – e entrega para os velhos coronéis políticos – o poder de escolher seus representantes.

Sou, ao contrário de Dilma e de Serra, totalmente contra o voto em lista.

E mais:

Já que, por motivos arquitetônicos, vai ser difícil acabar com o Senado (Niemeyer projetou um Congresso bicameral), sou pelo fim imediato da suplência.

Minha proposta: em caso de morte do Senador ou abandono do cargo, que assuma o deputado federal mais votado pelo estado.

Lista-engov:

Aos de ressaca, aqui vai a lista de alguns que, graças à vontade popular, nos darão o prazer de sua ausência em Brasília:

Artur Virgílio, Heráclito Fortes, Tasso Jereissati, Raul Jungmann, Marcelo Itagiba, Antero Paes de Barros, César Maia, Gustavo Fruet, Marco Maciel, José Carlos Aleluia, Heloísa Helena, Mão Santa e Rita Camata.

E tem gente que ainda acha que o povo não sabe votar!

Brésil : Marina Silva, l'ancienne disciple


Hors-série du "Monde" sur le Brésil, en vente jusqu'au 6 novembre, en kiosque (7,50 euros)
Hors-série du "Monde" sur le Brésil, en vente jusqu'au 6 novembre, en kiosque (7,50 euros)DR

Classée troisième (19,35% des voix) au premier tour de l'élection présidentielle brésilienne, la candidate écologiste, Marina Silva, va jouer un rôle clé pour le second tour, le 31 octobre, entre Dilma Rousseff, candidate du Parti des travailleurs (PT), arrivée en tête, dimanche, avec 46,9% des suffrages, et le social-démocrate José Serra (32,6%). Voici son portrait extrait du hors-série du Monde sur le Brésil publié avant le premier tour.

Elle se compare à une jaguatirica, l'ocelot d'Amazonie, ce chat sauvage "paisible et léger" mais qui attaque toutes griffes dehors, et "s'isole pour lécher ses plaies", avant de repartir à l'assaut. Marina Silva a la patience intrépide d'un félin. Douce, frêle et déterminée.

En mai 2008, la ministre brésilienne de l'environnement démissionne. Le président Lula, son aîné, son ami, ne l'appuie pas assez, explique-t-elle, dans son combat pour un développement durable. En 2009, elle quitte le Parti des travailleurs (PT) et rejoint le petit Parti vert (PV). Sous sa bannière, elle brigue la présidence de la République.

L'histoire de Marina Silva ressemble à celle de Lula. Issue d'une famille nombreuse et très pauvre, elle a, comme lui, pris en main son destin. Et avec peut-être encore plus de mérite, car elle est femme et métisse.

Elle naît en 1958 dans une petite communauté de seringueiros – les récolteurs de latex – de l'Etat amazonien d'Acre. Le sang portugais et celui des anciens esclaves se mêlent dans ses veines. Elle découvre le marxisme à l'université, devient professeur d'histoire, milite contre la dictature militaire et se lance dans l'action syndicale. Conseillère municipale, puis membre de l'Assemblée législative locale, elle devient à 35 ans la plus jeune sénatrice de l'histoire du Brésil.

LÂCHÉE PAR LULA
Marina Silva, candidate des Verts à l'élection présidentielle brésilienne, arrivée troisième au premier tour.
AFP/VANDERLEI ALMEIDA
Marina Silva, candidate des Verts à l'élection présidentielle brésilienne, arrivée troisième au premier tour.

Ministre, elle bataille contre les adeptes de la croissance à tout prix. Face à l'agrobusiness, elle tente de résister au soja transgénique. En vain. Elle réussit à réduire le rythme du déboisement de l'Amazonie. Mais lorsqu'elle prétend imposer à chaque projet le respect scrupuleux de l'environnement, elle s'aperçoit que Lula, sans le dire, la "lâche" et Marina Silva préfère tirer sa révérence.

Elle a pour atouts sa cohérence politique et sa rectitude morale. Elle évite toute attaque personnelle mais critique les partis qui n'ont pas, à ses yeux, compris la force de la "grande utopie du XXIe siècle" : le développement durable.

Mère de quatre enfants issus de deux mariages, Marina Silva est une personnalité complexe, politiquement progressiste et socialement conservatrice. Elle a pour handicap la faible influence du Parti vert, qui n'aura droit qu'à un temps d'antenne limité lors de la campagne officielle à la télévision. Les sondages ne lui promettent au mieux que 10 % des suffrages, mais sa présence dans la course contribue à faire de l'environnement l'un des grands thèmes de la campagne.

Jean-Pierre Langellier