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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Marine Le Pen “legitimada”

20/1/2015, Joseph Kishore e Alex LantierWorld Socialist Website
Traduzido por mberublue


A lição básica das experiências dos anos 1930s, é que a luta contra o fascismo deve ser travada e sempre será travada como guerra contra o sistema capitalista e suas representações políticas.


Marine Le Pen - The New York Times
A campanha internacional para “legitimar” os políticos fascistóides da Frente Nacional (FN) francesa alcançou um novo estágio nesta segunda-feira (19/1/2015) com a publicação no jornal The New York Times de um artigo assinado pela líder do partido, Marine Le Pen, sobre o tiroteio na sede do jornal satírico Charlie Hebdo. [1]

Ao franquear suas portas para Le Pen, o jornal, degradado pilar do liberalismo americano, sinaliza que significativas partes da classe dominante americana consideram que as ideias da líder fascista são parte fundamental do debate público sobre assunto. O The Times ainda tomou a medida de incluir uma tradução simultânea em francês, assegurando-se de que a coluna receba a maior divulgação possível também na França.

Le Pen está sendo promovida, como parte de um esforço comum empreendido pela elite da classe dominante, no desenvolvimento de uma corrida anti-islâmica para confrontar ao mesmo tempo a oposição anti-imperialista no Oriente Médio e os distúrbios sociais em casa. As charges anti-islâmicas do Charlie Hebdo foram proclamadas pomposamente como símbolos da democracia, e neste instante Le Pen representa nada menos que alguém para “salvar a pátria”.

Os argumentos chauvinistas de Le Pen no The Times (sob a manchete “Chamar essa ameaça de ameaça”) foram claramente inspirados no arsenal ideológico dos EUA em sua “Guerra ao Terror”. A França, “terra dos direitos humanos e da liberdade, foi atacada em seu próprio solo por uma ideologia totalitária: o fundamentalismo islâmico” – escreveu ela.

Não à Mesquita - Front National
Em seguida, Le Pen clama pelo desmantelamento efetivo das liberdades e dos direitos humanos na França, a fim de mover uma guerra contra os mais de cinco milhões de muçulmanos que fazem parte do povo francês, propondo nada menos que “uma política restritiva à imigração”, novas medidas para retirar deste povo a cidadania, e uma luta contra o “comunitarismo e estilos de vida que estariam em desacordo” com as tradições francesas.

Enquanto providencia uma plataforma política para Marine Le Pen, o The Times não se preocupa minimamente em informar a seus leitores o pedigree político da francesa. A Frente Nacional foi formada em 1972 por antigos apoiadores do regime colaboracionista de Vichy, que efetivamente apoiou os nazistas na Segunda Guerra Mundial, e por defensores do brutal domínio francês na Argélia.

A Frente Nacional é conhecida por seu ativo racismo antimuçulmano e antissemita, seu nacionalismo virulento e seus ataques, por capangas violentos, a oponentes políticos. Como justificativa para a decisão de publicar a coluna de Le Pen, os editores do The Timesargumentam que, gostando-se dela ou não, Le Pen não pode ser ignorada. Os defensores do jornal provavelmente argumentarão, que, dada a Le Pen uma plataforma, ela na realidade estará se expondo.

Não passa de rematado absurdo.

A verdade é que Le Pen está sendo deliberadamente “legitimada” pelo The Times, assim como foi “legitimada” também pelo presidente francês, François Hollande, que, ao convidar Le Pen para o palácio Eliseu, logo após o tiroteio fatídico no jornal satírico Charlie Hebdo, deu a ela e à Frente Nacional uma estatura política que, antes, nunca haviam tido.


A promoção de Le Pen faz parte de um notável crescimento, no plano internacional, de organizações de caráter fascista e de extrema direita. No último ano, os EUA e a Alemanha trabalharam em conjunto com os partidos [de fascistas ucranianos] Setor Direita (Pravy Sektor e Svoboda) – organizações que celebram como heróis os nazistas ucranianos que colaboraram com os nazistas alemães durante a Segunda Guerra Mundial – para derrubar o governo eleito e pró-Rússia de Viktor Yanukovich. A movimentação foi apresentada, em termos políticos, como se fossem esforços em direção à democracia.

Jörg Baberowski
Na Alemanha, a classe dominante está em movimentação para livrar o país de todas e quaisquer restrições impostas ao militarismo germânico logo após o final da Segunda Guerra Mundial, e trabalha ainda para minimizar e justificar os crimes cometidos no passado. Jorg Baberowski, um dos principais historiadores da Universidade Humboldt de Berlim recentemente argumentou que “Hitler não era cruel”; e que sairia ganhando, se se comparassem suas ações e as de Stalin ou outros líderes soviéticas.

A Chanceler Angela Merkel referiu-se em um discurso recente, à necessidade de que os cristãos “fortaleçam sua identidade” e “falem sempre com mais confiança sobre seus valores cristãos” – um indisfarçado encorajamento dos sentimentos antimuçulmanos, calculado para reforçar ainda mais e também para “legitimar” a agitação racista do movimento PEGIDA, de extrema direita, na Alemanha.

Parece que as vozes dos nazistas devam ser consideradas, ao mesmo tempo em que aumenta o prestígio e a influência da aristocracia corporativa financeira. Ao mesmo tempo em que veio à luz a coluna de Le Pen no New York Times, Le Pen destacou-se também em fulgurante entrevista ao Wall Street Journal. Coerente com os cálculos da classe dominante o jornal esclareceu que

(...) se há algum tempo a senhora Le Pen não passava de uma espécie de aberração política, hoje ganhou proeminência na medida em que os problemas da França – uma economia moribunda e uma população muçulmana não assimilável – tornaram-se mais e mais agudos e aparentemente sem solução possível nas mãos da classe política tradicional.

Neste ponto, o jornal se refere ao fato de que, devido à demorada crise econômica, o establishment político está profundamente desacreditado na França, tanto interna como internacionalmente. No esforço para criar apoio ao seu domínio, a elite financeira está buscando apoio na pequena burguesia, da qual busca mobilizar algumas porções dessa classe baseada em extremado nacionalismo.

Ao mesmo tempo, as forças de extrema direita estão explorando as condições de colapso da “esquerda” apresentando-se como a principal força de oposição.

Hitler é eleito Chanceler da Alemanha em 1933
A lógica dos desenvolvimentos segue caminho previamente traçado. As políticas contemporâneas parecem assumir cada vez mais as características dos anos 1930s, quando as elites dominantes na Europa se voltaram para os partidos fascistas, na tentativa de defender seu domínio. Hoje, a promoção e pseudo-legitimação de pessoas como Marine Le Pen fazem parte de um esforço mais amplo, que busca usar o racismo antimuçulmano como apoio para operações imperialistas no exterior e desculpa para o ataque aos direitos democráticos em casa. As classes dominantes na França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e outros poderes imperialistas estão conspirando e iniciando novas guerras no Oriente Médio e no Norte da África.

Quem “salvará” as elites europeias?

Internamente, a classe dominante a cada dia mais se preocupa com o crescimento de oposição social na classe trabalhadora. Nesta semana, na reunião de bilionários no fórum econômico mundial de Davos, um relatório mostrou que em 2016 os 1% mais ricos da população mundial deterão mais riqueza que todos os demais 99% restantes. Os 80 indivíduos mais ricos terão mais riqueza que a metade mais pobre da população do planeta Terra (cerca de 3,5 bilhões de pessoas – 3.500.000.000 de pessoas). Estas condições são insustentáveis. A oposição das massas é inevitável.

Juntamente com uma campanha asquerosa contra a população imigrante, a classe dominante está apoiando e pseudo-legitimando movimentos fascistas e chauvinistas, para direcioná-los contra as classes trabalhadoras como um todo.

A lição básica das experiências dos anos 1930s, é que a luta contra o fascismo deve ser travada e será travada como guerra contra o sistema capitalista e suas representações políticas.


Nota dos revisores

[1] A Folha de S.Paulo, cujo jornalismo-de-fascistização-do-Brasil, hoje, é a vergonha de várias gerações de jornalistas em todo o mundo, publicou, uma “entrevista por e-mail” com Marine Le Pen, DEZ DIAS ANTES DE O NYT dar voz àquela pervertida, em que ela diz precisamente as mesmas barbaridades fascistas que, quase duas semanas depois, o NYT e o WST consagrariam para o mundo.
SANTO DEUS! Em matéria de fascismo ativo, a FSP dá de dez no NYT! [Nota dos revisores]

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

China desafia a Guerra Econômica dos Estados Unidos contra a Rússia

23/12/2014, [*] Alex Lantier, Global Research
Traduzido por Mberublue


Desafiando diretamente o poder político da OTAN, que cortou o crédito da Rússia na intenção de enfraquecer o rublo e destruir a economia russa, a China está empenhada em estender ajuda financeira a Moscou.



China e Rússia

Sábado (20/12/2014), o Ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi destacou a necessidade de ajuda mútua entre China e Rússia, no comentário sobre a crise do rublo, que assistiu a drásticos 45 por cento de queda em seu valor ante o dólar americano neste ano.

A Rússia tem competência e sabedoria suficientes para reverter o atual sofrimento causado pela situação econômica, disse Wang. Se por acaso o lado russo necessitar, providenciaremos a assistência necessária dentro de nossa capacidade.

Domingo (21/12/2014), o Ministro do Comércio chinês, Gao Hucheng, disse para a TV Phoenix de Hong Kong que:

(...) Pequim gostaria de reforçar seus laços com Moscou nas áreas de energia e manufaturados, anotando que o comércio China/Rússia alcançou sua meta de US$ 100 bilhões de dólares neste ano, apesar da crise do rublo.

Como o valor do rublo ante o dólar e o euro oscila muito, Gao propôs:

(...) uma mudança no financiamento do comércio entre China e Rússia que consistiria em sair do dólar ou euro e em vez disso usar a moeda chinesa, o Yuan ou Renmimbi.

Gao disse que:

(...) a China tem seu foco nos “fatores fundamentais, como por exemplo, de que maneira podem as duas economias complementar uma à outra”, noticia a Reuters. Investidores em capital podem ser mais interessados em estoques ou em um mercado de câmbio volátil, mas quando se trata de cooperação concreta entre duas nações, temos que assumir uma mentalidade equilibrada e fazer com essas cooperações avancem sem transtornos, disse Gao.

Ontem (22/12/2014), o jornal China Daily referiu-se a Li Jianmin, da Chinese Academy of Social Sciences (trad. Academia Chinesa de Ciência Sociais) dizendo que a ajuda para a Rússia poderia vir a acontecer através de canais como a Shanghai Cooperation Organization(SCO) ou o fórum BRICS. Significativamente, ambos, o SCO (uma aliança entre a China, a Rússia e Estados Asiáticos) e o fórum BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), excluem de seus quadros os Estados Unidos e a Europa.

Dmitri Medvedev e Li Keqiang em 19/12/2014
Li observou que já no último mês, quando os Primeiros Ministros Li Keqiang e Dmitry Medvedev se encontraram no Cazaquistão, assinaram acordos abrangentes que vão desde rodovias e infraestrutura até o desenvolvimento das regiões que correspondem ao extremo oriente russo e norte chinês.

Empréstimos, cooperação em grandes projetos e participação no investimento na infraestrutura doméstica na Rússia são opções que estão sobre a mesa, aduziram.

Em apenas um destes acordos no último mês (novembro/2014), a China assinou mais um contrato que corresponde ao valor de 400 bilhões de dólares, para a compra de gás russo por 30 anos.

Essas ofertas de ajuda vêm de encontro à guerra econômica lançada pelo imperialismo dos Estados Unidos e da Europa para punir Moscou, que se opôs à reestruturação neoliberal que tentavam impor na Eurásia.

Em retaliação ao apoio russo ao Presidente Bashar al-Assad, na sua luta contra a guerra por procuração da OTAN na Síria e também retaliando a oposição russa ao regime ucraniano imposto pelos EUA-OTAN em Kiev; as potências aliadas da OTAN procuraram estrangular a Rússia. Como as receitas russas derivadas do petróleo caíram paralelamente com a queda dos preços mundiais de petróleo e com o colapso do rublo, elas trabalharam para cortar todo o crédito para a Rússia e exigiram que esta aceitasse o regime em Kiev. (Leia: Imperialism and the ruble crisis – O imperialismo e a crise do rublo)

Anders Aslund
O mecanismo financeiro básico desta estratégia foi exposto no Financial Times de Londres por Anders Aslund do Petersen Institute for International Economics (trad. Instituto Petersen de Economia Internacional):

A Rússia não recebeu qualquer financiamento internacional de relevância – nem mesmo de bancos estatais chineses – porque todos têm medo das agências reguladoras norte americanas escreveu. Com um fluxo de saída de capital da ordem de 125 bilhões de dólares, reservas internacionais líquidas de 200 bilhões e dívidas externas da ordem de 600 bilhões de dólares, a Rússia ficaria sem reservas em dólares e iria à falência em meros dois anos, calcula Aslund.

No entanto, agora Pequim parece pronta a assumir o risco de um confronto com os Estados Unidos e se prepara publicamente para lançar uma tábua de salvação financeira para a Rússia. A reserva monetária chinesa é de 3.89 trilhões de dólares, a maior do mundo e pelo menos no papel, mais que suficiente para facilmente pagar qualquer dívida russa no mercado internacional.

Não por acaso, as falas de Wang e Gao sobre a possível ajuda para a Rússia aconteceram apenas um dia após uma dividida reunião de cúpula da União Europeia sobre a Rússia na última semana. Apesar do apoio europeu às sanções contra a Rússia, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, o Presidente Francês, François Hollande, e o Primeiro Ministro italiano, Matteo Renzi, se opuseram publicamente a mais sanções. Os principais jornais europeus também alertaram para o risco de um colapso do Estado Russo.

Crise do Rublo
No cálculo da importância de sua resposta para a crise do rublo, o regime chinês, que encara uma economia em arrefecimento, e vê crescer protestos sociais entre as classes trabalhadoras e campesinas, sem dúvida também vê com receio as possíveis consequências de uma derrocada econômica e de uma implosão política de seu vizinho do norte.

Os conflitos econômicos que irrompem entre as maiores potências na cauda da crise do petróleo e a guerra imperialista lançada na Eurásia dão conta do avançado estado de crise do mundo capitalista e do crescente perigo de uma guerra mundial.

A ajuda chinesa para a Rússia, e ela deve se materializar, exacerbará o conflito dos Estados Unidos contra a China. Washington tentou um cerco militar ao país oriental através do chamado “pivoteamento para a Ásia” aliando-se com a Austrália, a Índia e o Japão. Planos para uma guerra contra a China, tanto econômica quanto militar, sem dúvida serão considerados seriamente por Wall Street e pelo Pentágono.

Um ano atrás, em um artigo denominado A China não deve reproduzir os erros do Kaiser (em ing.) o colunista do Financial TimesMartin Wolf alertou a China contra qualquer ação que possa vir a representar uma ameaça à hegemonia global exercida pelos Estados Unidos. Afirmou que uma política chinesa que replicasse o desafio alemão à hegemonia britânica antes da deflagração da Primeira Guerra Mundial em 1914 teria o mesmo resultado: guerra total.

Caso o conflito aberto aconteça, os Estados Unidos pode fazer com que o mundo inteiro corte seu comércio com a China. Pode também sequestrar uma boa parte dos recursos líquidos externos chineses, escreveu Wolf, lembrando que as reservas chinesas em moeda, que significam 40% de seu PIB, são, por definição, mantidas no exterior.

Tal roubo, porque é disso que se trata, de trilhões de dólares que a China ganhou no comércio com os Estados Unidos e a Europa acarretaria colapso quase certo do comércio mundial o que por sua vez levaria à preparação para uma guerra entre países detentores de armas nucleares.

Imperialismo dos EUA
Com sua política cada vez mais inconsequente e violenta, o imperialismo dos Estados Unidos acaba por pesar demais a mão, desacreditando-se entre seus próprios parceiros e alimentando a oposição cada vez maior de Estados rivais. Ao provocar ao mesmo tempo Rússia e China, particularmente, os Estados Unidos acabam por desfazer o que foi considerada durante muito tempo como a maior vitória da política imperialista americana: a aproximação em 1972 entre o Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon e o líder chinês, Mao Tse-Tung, o que, na ocasião, acabou por fazer da China um aliado dos Estados Unidos contra a antiga União Soviética.

“Muitos cidadãos chineses ainda veem a Rússia como um grande irmão, e os dois países são estrategicamente importantes um para o outro”, disse o reitor das Universidades Associadas Renmin, Jin Canrong, referindo-se ao apoio prestado pela União Soviética à China durante a guerra da Coréia, quando os Estados Unidos fizeram parte do conflito, pouco depois da chegada ao poder do Partido Comunista Chinês, de inspiração stalinista. “Até por uma questão de nossos interesses nacionais, a China deve intensificar sua cooperação com a Rússia quando esta se faz necessária”.

A Rússia é nosso parceiro insubstituível no cenário mundial, escreveu em editorial na data de ontem o Global Times, ligado ao Partido Comunista Chinês.A China deve tomar atitudes proativas para ajudar a Rússia a sair da crise que enfrenta atualmente.
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[*] Alex Lantier é jornalista, sindicalista e escreve extensivamente para o WSWS (World Socialist Web Site), um fórum socialista e para o site do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI). Seus escritos também aparecem em: Global Research, Countercurrents, Inteldaily e Axisoflogic entre vários outros.