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segunda-feira, 6 de julho de 2015

“Estratégia 2015” do Pentágono, para governar o mundo


4-5/7/2015, [*] Mike Whitney, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Na 4ª-feira (1/7/2015), o Pentágono distribuiu sua “2015 National Military Strategy”, documento de 24 páginas com a fórmula para governar o mundo com força militar. Embora a linguagem do relatório seja mais sutil e menos incendiária que documentos similares no passado, a determinação de perseguir unilateralmente os interesses dos EUA mediante violência extrema lá está e continua como pedra angular da nova estratégia.
Leitor algum encontrará ali nem vestígio de qualquer remorso pela vasta destruição e perda de incontáveis vidas que os EUA causaram em países que absolutamente não eram, nem remotamente, ameaça à sua segurança nacional. Em vez disso, o relatório só manifesta a vontade férrea de seus autores e eleitores da elite branca norte-americana de dar continuidade à carnificina e ao derramamento de sangue até que rivais potenciais tenham sido mortos ou eliminados e até tempo tal que Washington sinta-se segura de que seu controle sobre as alavancas de comando do poder global não possa ser contestado.
Como já se devia esperar, o NMS-2015 esconde essas intenções hostis e beligerantes por trás de uma linguagem falsa de “segurança nacional”. Os EUA não iniciam guerras de agressão contra estados sem culpa de coisa alguma que possuam grande quantidade de recursos naturais. Não. De jeito nenhum. Os EUA apenas tratam de “desafios à segurança nacional” para “proteger a pátria mãe” e para “fazer avançar nossos interesses nacionais”. Como poderia alguém ver algum erro nisso, se, afinal de contas, os EUA estão sempre, e só, tentando trazer mais e mais paz e democracia ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia e, mais recentemente, à Síria?
No Prefácio, o Comandante do Estado-Maior da Forças Conjuntas, general Martin Dempsey tenta preparar o povo norte-americano para um futuro de guerras sem fim:
Conflitos futuros chegarão mais rapidamente, durarão mais tempo e acontecerão em campo de batalha tecnicamente muito mais desafiador (...) Temos de ser capazes de nos adaptar a novas ameaças, ao mesmo tempo em que preservamos vantagem comparativa sobre as ameaças tradicionais (...) a aplicação do instrumento militar de poder contra estados que nos ameacem é muito diferente da aplicação de poder militar contra não estados que nos ameacem. É mais provável que enfrentemos campanhas prolongadas, que conflitos que são resolvidos rapidamente (...) esse controle da escalada está-se tornando mais difícil e mais importante. (Document: 2015 U.S. National Military Strategy, USNI News).
Guerra, guerra e mais guerra. Eis a visão de futuro do Pentágono. Diferente de Rússia ou China, as quais têm um plano para uma zona integradas de livre comércio União Europeia -Ásia (Rota da Seda), que aumentará a oferta de empregos, melhorará a infraestrutura vital e fará subir os padrões de vida, os EUA só veem à frente mais morte e mais destruição.
Washington não tem qualquer estratégia para o futuro, visão zero para um mundo melhor. Só guerra; guerra assimétrica, guerra tecnológica, guerra preventiva.
Toda a classe política e seus patrões pagadores na elite apoiam unanimemente o projeto de governar o mundo pela força das armas. Esse é o inescapável significado desse documento.
Os EUA têm planos para manter sua mão pesada sobre o poder global maximizando o uso de seu maior patrimônio: sua força militar.


E quem está no campo de mira dos militares? Vejam esse excerto de artigo publicado em Defense News:
A estratégia especificamente designa Irã, Rússia e Coreia do Norte como ameaças agressivas à paz global. Menciona também a China, mas estranhamente o parágrafo começa por declarar que o governo Obama deseja “apoiar o crescimento da China e encorajar que se torne parceira para maior segurança internacional”. Na sequência, o documento traça uma linha entre China aliado econômico e China concorrente regional.
Acredita-se que nenhuma dessas nações está procurando conflito militar direto com os EUA ou nossos aliados – diz a estratégia. – Mesmo assim, cada uma dela causa graves preocupações de segurança que a comunidade internacional trabalha para enfrentar coletivamente, mediante políticas comuns, mensagens partilhadas e ação coordenada (Pentagon Releases National Military Strategy, Defense News).
Viram a parte final?
Nenhuma dessas nações está procurando conflito militar direto com os EUA ou nossos aliados. Mesmo assim, cada uma dela causa graves preocupações de segurança.
Em outras palavras, nenhum desses países quer lutar contra os EUA, mas os EUA querem lutar contra eles. E os EUA entendem que seria justificado lançar guerra contra esses países, porque... bem... porque todos controlam vastos recursos, têm enorme capacidade industrial, ocupam área do mundo que interessa geopoliticamente aos EUA, ou porque simplesmente são estados que desejam preservar a própria independência soberana, o que, é claro, é crime. Segundo Dempsey, qualquer dessas desculpas esfarrapadas seria justificativa suficiente para conflito, principalmente porque esses estados “causam graves preocupações de segurança” aos EUA, o que, traduzido, significa que podem minar o papel dominante dos EUA como única potência mundial.
O NMS devota atenção especial à Rússia, inimigo “Prêmio-do-Mês” de Washington, país que teve a audácia de defender seus próprios interesses de segurança depois de um golpe de estado comandado pelo Departamento de Estado dos EUA na vizinha Ucrânia. Por essa audácia, Moscou deve ser castigada. Do relatório:
Alguns estados contudo estão tentando modificar aspectos chaves da ordem internacional e estão agindo de modo que ameaça nossos interesses de segurança nacional. Ao mesmo tempo em que a Rússia contribuiu em áreas selecionadas de segurança, como combate às drogas e o contraterrorismo, ela também tem repetidas vezes desrespeitado a soberania de seus vizinhos e está disposta a usar força para alcançar seus objetivos. As ações militares da Rússia estão minando a segurança regional, diretamente e através de forças suas substitutas. Essas ações violam inúmeros acordos que a Rússia firmou e pelos quais se comprometeu a agir de acordo com as normas internacionais. (2015 NMS).
Rússia é país “do mal” porque a Rússia recusou-se a calar o bico e pôr-se de lado enquanto os EUA derrubavam o governo da Ucrânia, instalaram em lugar dele em Kiev um pateta que recebe ordens dos EUA, precipitaram uma guerra civil entre as várias facções, deram a neonazistas posições de poder nos serviços de segurança, jogaram a economia em desgraça, insolvência e ruína e inauguraram um quartel-general da CIA em Kiev para comandar todo os confrontos à bala. Por tudo isso, claro, a Rússia é do mal e tem de ser castigada. Assista vídeo coreano a seguir, em inglês:
Mas será que, à parte o discurso grandiloquente, Washington está considerando seriamente uma guerra contra a Rússia?
Eis um excerto do documento, que ajudará a esclarecer essa questão:
Ao longo da última década, nossas campanhas militares consistiram primariamente de operações contra redes extremistas violentas. Mas hoje e no futuro previsível, temos de dedicar grande atenção aos desafios representados por atores estatais. Esses têm cada vez mais capacidade para contestar movimento regionais de libertação e ameaçar nossa pátria. Particularmente preocupante é a proliferação de mísseis balísticos, tecnologias para ataques de precisão, sistemas não tripulados, capacidades espaciais e ciber tecnologias para armas de destruição em massa (ADM) desenhadas para conter qualquer vantagem militar dos EUA e impedir o acesso aos comuns (commons) globais. (2015 NMS).
Aos meus ouvidos soa como se os broncos machões de Washington já tenham decidido o que fazer. A Rússia é inimiga, logo, a Rússia tem de ser derrotada. O que mais se poderia fazer para enfrentar “estado revisionista” que “ameaça nossa pátria”?
Destruí-lo com bombas “Corta-Margarida”, é claro. Como se faz com qualquer outro inimigo.
A NMS oferece um longo rol de justificativas para provocar guerras contra inimigos (imaginários) dos EUA. Fato é que o Pentágono vê fantasmas até embaixo da cama. Sejam “novas tecnologias”, “mutações demográficas” ou diferenças culturais; tudo é tido como ameaça potencial aos interesses dos EUA, especialmente qualquer coisa que tenha qualquer relação, remota que seja, com a “competição por recursos”. Nessa visão viciosa da realidade, vê-se como a invasão do Iraque foi “lógica”: Saddam, que controlava as massivas reservas de petróleo do Iraque era, sim, ameaça direta à hegemonia dos EUA. Naturalmente, tinha de ser removido do poder. Naturalmente, mais de um milhão de pessoas tinham de ser mortas, para acertar as coisas e devolver o mundo a um estado de equilíbrio.

Bomba Corta Margarida (Daisy Cutter)

Essa é a visão prevalecente na Estratégia Militar Nacional dos EUA para 2015, quer dizer, qualquer crime que os EUA cometam deixa de ser crime se for cometido pelos EUA.
Os leitores não devem esperar novidades nessa NMS. É vinho velho em odre novo. O Pentágono apenas requentou a Doutrina Bush, suavizando a retórica. Ninguém precisa assustar os eleitores falando de unilateralismo, prevenção, descarte da legislação internacional e agressão não provocada. Mesmo assim, todos já sabemos que os EUA farão o diabo que bem entendam, para manter intacto o império. A Estratégia Militar Nacional dos EUA 2015 apenas confirma esse desgraçado fato.
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[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 8 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, uma massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
E-mail: fergiewhitney@msn.com

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Gaza: os EUA foram a “cheerleader” do massacre



Documentos da WikiLeaks sobre o ataque violento a Gaza mostram com clareza que o governo dos EUA é pouco mais do que uma criada da máquina militar israelita.
Por Kathleen Christison, Counterpunch.

ARTIGO | 1 DEZEMBRO, 2010 - 15:41

Destruição em Gaza depois de ataque israelita. Foto de Physicians for Human Rights – Israel

O Counterpunch  teve acesso ao arquivo da WikiLeaks sobre o assalto de Israel a Gaza há cerca de dois anos (Operação Chumbo Fundido, de 27 de Dezembro de 2008 até 18 de Janeiro a 2009). Embora os telegramas sejam várias vezes apenas uma repetição das reportagens da imprensa israelita, dando poucas novidades sobre o ataque em si ou sobre o seu planejamento, mostram com uma clareza atroz que o governo dos EUA é pouco mais do que uma criada ou um burocrata da máquina militar israelita.
Os documentos tornam claro, se maior clareza fosse necessária, onde exatamente é que os EUA se posicionam no que toca ao ataques não-provocados de Israel contra os palestinos e outros vizinhos árabes. Não obstante a Operação Chumbo Fundido tenha ocorrido nos últimos dias da administração Bush, terminando dois dias antes da tomada de posse da Barack Obama, cada uma das políticas que este adotou nos dois anos seguintes – incluindo a rejeição do Relatório Goldstone que descrevia as atrocidades e os crimes de guerra cometidos durante a Operação – demonstram uma incrível continuidade no apoio às ações israelitas.
Os documentos fornecem ainda um relato tendencioso do assalto. Uma vez que as notícias diárias são retiradas em primeiro lugar dos jornais israelitas; os documentos enumeram os rockets disparados para Israel a partir de Gaza e descrevem dramaticamente “as bonecas queimadas e os brinquedos das crianças destruídos” num jardim-de-infância desocupado em Beer Sheba que foi atingido por um rocket, mas não fazem qualquer menção aos intensivos bombardeamentos aéreo e terrestre de Gaza, incluindo contra a sua população civil. Até os jornais ocidentais levaram a cabo uma cobertura mais correta das vítimas palestinas do que isto.
Os telegramas da embaixada dos EUA forneceram alguma informação sobre as vítimas palestinas, mas de forma mínima. Num papel enterrado na coleção, de aproximadamente dez dias depois do início do assalto, a imprensa ocidental é citada dando conhecimento da morte de 530 palestinos. Isto aconteceu quando os papéis declaravam que cinco israelitas tinham sido mortos. As vítimas israelitas foram contadas repetidamente. Esta razão de cerca de 100-1 entre as vítimas palestinas e as vítimas israelitas persistiu durante a operação, porém, não foi  notado pelos telegramas dos EUA. Em alguns momentos, os representantes consulares norte-americanos descreveram o ponto de vista de alguns cidadãos de Gaza, sublinhando o desespero palestino. Ainda assim, quando um dos cidadãos declara que a sua cidade está sendo atacada cada vez mais intensivamente por fogo israelita, os documentos qualificam este testemunho referindo-se “àquilo que ele apelida de fogo israelita 'indiscriminado'”.
Sempre que um documento menciona uma localização específica em Gaza que sofreu um ataque ou foi destruída, incluindo hospitais e mesquitas, repetem as alegações israelitas sem questioná-las; no dia 2 de Janeiro, por exemplo, é relatado que a Força Aérea de Israel destruiu uma mesquita que “alegadamente servia como um depósito de armas e como um centro de comunicações.” A embaixada relata, sem um pingo de cepticismo, a alegação de Israel, a meio da operação, de que os operacionais do Hamas foram reconstruindo “certas capacidades de comando e controlo” no hospital Shifa em Gaza, disfarçando-se de médicos e enfermeiras.
Os primeiros telegramas desta coleção revelam a tendência dos EUA ao contarem, vários dias antes da Operação Chumbo Fundido, que a pressão para uma “resposta” aos ataques de rockets a partir de Gaza tinha vindo a intensificar-se “desde que o Hamas anunciou o fim do acordo de trégua – “tahdiya” - no dia 19 de Dezembro”. Este esforço por colocar a responsabilidade pelas hostilidades no Hamas ignora o fato, o qual não era segredo para aqueles que vinham a seguir a situação, de que foi Israel quem violou a trégua, que estava em vigor desde Junho anterior, no dia 4 de Novembro quando foi lançada uma incursão não-provocada em Gaza que matou vários palestinos. A decisão do Hamas de terminar a trégua semanas depois foi uma resposta à violação de Israel.
A evidência mais óbvia da parcialidade dos EUA – e o único momento de análise ou conselho político nesta coleção de papéis – surge ainda antes de a operação começar. “A nossa recomendação”, escreve o Embaixador James Cunningham no dia 22 de Dezembro, “é que comecem a colocar as culpas no Hamas pela ilegitimidade do seu governo em Gaza, pela sua política de disparos ou por autorizar outras facções a disparar rockets e morteiros contra alvos israelitas, e pela sua decisão de acabar o período calmo de “tahdiya”.” Cunningham parece confundir causa e efeito: mesmo que o Hamas governasse ilegitimamente, o que não o faz – o Hamas foi eleito democraticamente três anos antes – não é uma percepção comum a de que a ilegitimidade política justifica um assalto militar massivo. Cunningham continua até recomendar o apoio ao “direito de Israel se defender a si próprio.” Aparentemente, o Hamas não tem direito a defender os cidadãos de Gaza do ataque israelita.
A Embaixada limpa a sua consciência ao “enfatizar a nossa preocupação pelo bem-estar de civis palestinos inocentes e a prontidão dos EUA para fornecer ajuda humanitária.” Esta é a única vez em que se mencionam os civis palestinos inocentes em toda a coleção de telegramas.
A hipocrisia é alarmante. Obviamente, a parcialidade dos EUA aqui demonstrada não é um fenômeno novo. Mas aqui está, preto no branco, – ou mais acertadamente, em risca de giz: diplomacia como cheerleader [1] pelo massacre e genocídio (um termo usado por não muitos judeus e outros comentadores durante o ataque de Gaza). Tais atrocidades estão bem diante dos olhos dos EUA se forem cometidas por Israel, mas ao Hamas não é permitido.
19 de Janeiro de 2011
Kathleen Christison
Kathleen Christison é uma ex analista política da CIA e é autora de vários livros sobre a situação Palestina, incluindo “Palestine in Pieces”, co-escrito com o seu falecido marido, Bill Christison. Pode ser contactada através do e-mail: kb.christison@earthlink.net
Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net
Nota de tradução
      [1] Optou-se por deixar o termo original, já que o conceito em inglês é mais preciso e representativo do fenômeno em causa do que a sua tradução para “líder de claque”.

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Extraído do Esquerda.ne