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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP) 8/10/2014, 16h UTC/Zulu


A calma antes da tempestade?

8/10/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Quiosque do Barrossorto na Vila Vudu:
(Voz fina) — Cróóóóóózes! Tire o fracking e ponha o pré-sal e... Socorro! A Ucrânia é aqui! Aécim é uma espécie de “Yats”, que os EUA querem plantar aqui!”
(Voz grossa) — Acho que o Aécim tá mais é pra Yéltsin...

The Saker
Situação militar

A situação na Ucrânia e Novorússia é muito tensa e pode levar ao reinício das hostilidades.

As Forças de Repressão da Junta (FRJ) usaram o cessar-fogo para lamber as feridas, reorganizar-se, concentrar as forças, trazer os reforços muito necessários, preparar fortificações defensivas e trazer para perto novas unidades. As Forças Armadas da Novorússia (FAN fizeram o mesmo, mas, diferentes das FRJ, as FAN sofrem de falta de equipamento, situação tornada possivelmente ainda pior pela redução no fluxo de armas, particularmente armas pesadas, da Rússia (que chegavam pelo chamado voentorg). Em termos de pessoal, o influxo de voluntários para as Forças de Defesa da Novorússia (FDN) manteve-se forte e contínuo.

Por que Moscou fechou a válvula do respiradouro para a Novorrússia?

Pode haver inúmeras razões, mas as três principais são, provavelmente:

1. Um modo de pressionar a liderança novorussa a respeitar o cessar-fogo e para lembrá-los de que não podem ignorar a posição do Kremlin.
2. Para negar aos anglo-sionistas qualquer possibilidade de encontrarem alguma prova dovoentorg.
3. Para mostrar aos europeus: “Viram bem? Estamos cumprindo nossa parte no acordo, mas a Junta, não”.

O item 3, por falar dele, é absoluta verdade.

Embora o aeroporto de Donetsk tenha sido finalmente “tomado”, não porque “todos os Ukiesforam mortos”, mas porque “todo o sistema de artilharia dos Ukies foi destruído”, porque é isso que interessa a Donetsk), as FRJ continuam a bombardear a cidade ao norte, a oeste e a sudoeste. E há muito preocupantes sinais de que as FRJ preparam-se para tentar cercar Gorlovka.

7/10/2014, Mapa dos combates 
(clique na imagem para aumentar)

Enquanto isso, as FAN recolheram as unidades que haviam seguido para o extremo norte e até para oeste de Mariupol e o “front sul” tem agora formato muito mais defensável, como se viu no mapa anterior (aqui, uma versão de mais alta resolução).

A linha de frente não se moveu durante o cessar-fogo. As FAN fizeram alguns avanços locais, as FRJ retrocederam em algumas locações, mas em geral a linha de contato permaneceu a mesma e está sendo usada como uma base para o desenvolvimento de um plano de desengajamento preparado por especialistas ucranianos, da Organização de Segurança e Coordenação da Europa (OSCE), novorussos e russos. Na verdade, há hoje oficialmente 80 oficiais russos no Donbass (convidados por Kiev) que estão participando do desenvolvimento da planejada “zona neutra” entre os dois lados. Esse fato em si, muitíssimo interessante como é hoje, mostra que EUA, União Europeia, OSCE e a Junta tiveram de desistir do que insistiam em repetir, que os russos não teriam voz nem status num “processo ucraniano interno e soberano”.

Outro desenvolvimento muito interessante foi a oferta do presidente Lukashenko, da Bielorrússia, que se dispôs a enviar soldados mantenedores da paz, o que as autoridades novorussas imediatamente aceitaram. Até aqui, ainda não está oficialmente sobre a mesa, mas a oferta é interessante pelas seguintes razões:

1. Os bielorrussos têm exército extremamente forte, bem treinado e bem equipado e podem ser força robusta e eficaz para manter a paz.

2. As forças armadas bielorrussas são extremamente próximas das forças armadas russas e, para todas as finalidades práticas, são uma só entidade. Assim, ambos, novorussos e russos, podem confiar nos bielorrussos.

3. Por mais que Lukashenko não passe de bocó que volta e meia faz declarações bizarras e contraditórias, ele também é homem que sabe ver o escore do jogo e que permanecerá leal à Rússia e à Organização do Tratado de Segurança Coletiva [orig. Collective Security Treaty Organisation (CSTO)].

Em outras palavras, trazer os bielorrussos como mantenedores da paz – pode bem significar o fim de quaisquer esperanças que os Ukies ainda tivessem de reconquistar o Donbass. Isso, contudo, pode significar o fim de qualquer esperança que os novorussos tenham de libertar a Novorússia ocupada pela Junta.

O cessar-fogo será mantido?

Não sei, mas tenho confiança que os novorussos não serão os primeiros a quebrá-lo. A maioria dos novorussos odeia esse cessar-fogo, mas também compreendem que há questões políticas maiores a serem consideradas, e que eles simplesmente não podem desafiar Moscou. Quanto ao Kremlin, sua posição parece ser que o “Plano A” é tirar o máximo proveito do cessar-fogo; e o “Plano B” e assegurar que todo o peso político de um eventual reinício das hostilidades caia sobre os Ukies.

Examinando a mídia russa (empresas-imprensa e as redes sociais), eu diria que:

1. Há amplo consenso na Rússia, de que os novorussos ganharam o direito de serem libertados de Kiev. Claro que muitos (a maioria?) russos compreendem que a Novorússia pode ter de permanecer formalmente como parte de uma Ucrânia unitária, mas só formalmente, não de forma significativa; e só temporariamente. Bom exemplo é a análise desse blogueiro (em russo e em tradução automática ao inglês).

2. Ninguém na Rússia confia na Junta ou em Poroshenko. Há um consenso de que o único modo de manter segura a Novorússia é torná-la militarmente forte para resistir a qualquer possível ataque ucraniano.

3. O campo Dugin-Limonov perdeu a guerra de Relações Públicas e pouca gente ainda defende qualquer tipo de intervenção militar declarada. Mas isso pode mudar muito rapidamente, se as FRJ romperem o cessar-fogo e atacarem.

4. O campo dito “liberal” (no sentido russo) apoiado pela CIA está em total desarranjo. Exceto o canal de TV Dozhd ou a rádio Ekho Moskvy, ninguém mais os leva a sério, e quando um de seus representantes aparece na TV, acaba destripado em poucos minutos por outros entrevistados.

Concluo, de tudo isso, que a Rússia está “pronta para o pulo”: se os Ukies rompem o cessar-fogo e atacam massivamente, o “respiradouro-voentorg” será imediatamente reaberto e fluirá livremente; se os Ukies tiverem sucesso e se as FAN não conseguirem mesmo resistir ao assalto, a Rússia intervirá diretamente outra vez, como fez em agosto. Se a Novorússia for realmente ameaçada, Putin enviará abertamente militares russos (embora só venha a fazer isso se não lhe restar absolutamente nenhuma outra opção).

Situação política: Banderastão

A situação na Ucrânia ocupada pela Junta (também chamada “Banderastão”) é do mais completo caos. Violência (política e criminal) por toda parte, e o estado, pode-se dizer, deixou de funcionar. Considere-se por exemplo a destruição de várias estátuas de Lênin.

Primeiro, para começar, o fato de que estejam sendo destruídas já é exemplo eloquente de o quanto os Ukies são ignorantes, porque foi Lênin quem criou a Ucrânia como estado; Stálin depois acrescentou o oeste da Ucrânia; e Krushchev deu a Crimeia aos Ukies. Assim, podem repetir sempre o mesmo slogan “Комуняку на гілляку” (“comunistas para os galhos”, no sentido de que os comunistas devem ser enforcados), mas a realidade não se altera: a Ucrânia moderna é entidade 100% montada pelos comunistas (...). Mas o ponto principal é que a destruição dessas estátuas mostra que já não há qualquer lei ou ordem, e que as gangues de rua são a única “autoridade restante”.

Segundo, há clãs que lutam uns contra outros dentro da Junta (Poroshenko  vs  Kolomoiski  vs Liashko vs Iarosh vs Tymoshenko etc.), mas não resta nenhuma real oposição. Ou, pelo menos, acho que se pode dizer que já não resta qualquer oposição real.

Elena Bondarenko

Depois do brutal ataque ao Deputado Nestor Shufrich (que está hospitalizado), só restam duas figuras de oposição, mais ou menos bem conhecidas: Elena Bondarenko e Nikolai Levchenko, ambos, como Shufrich, do Partido das Regiões. Bondarenko foi abertamente ameaçada pelo Ministro de Relações Exteriores, que realmente disse o seguinte, na TV Ukie:

Quando a ouço falar, minha mão vai direto para a minha pistola.

Palavras, em público, de uma alta autoridade no Banderastão!

Elena Bondarenko
Na verdade, muito me preocupa a segurança pessoal dela; depois que se recusou a participar da próxima farsa eleitoral dos Ukie, sua vida está absolutamente sob risco; o mais provável é que ela já tenha escapado para a Rússia ou a Crimeia.

Nikolai Levchenko

A outra figura destacada na “oposição” é Nikolai Levchenko, deputado também do Partido das Regiões frequentemente associado ao oligarca Rinat Akhmetov. Levchenko, que foi eleito no Donbass, é especialmente odiado por muitos comandantes de campo novorussos, porque se opõe às FRJ e às FAN, e porque várias vezes já disse que esses dois lados são o mesmo lado. Mas ninguém sabe se Levchenko acredita sinceramente que a resistência armada só faz piorar tudo, ou se apenas fala pelos interesses financeiros de Rinat Akhmetov. O que posso dizer é que ele se opôs abertamente à Junta neonazista no Parlamento, e que, por causa disso, já foi atacado e agredido. Bondarenko também se atreveu a desafiar abertamente a JuntaUkie em seus discursos no Parlamento e foi arrancada à força da tribuna, mas não foi (ainda?) espancada.

Importante destacar aqui que esses dois, Bondarenko e Levchenko, são ucranianos leais – culpam em parte os novorussos pela violência reinante, e também rejeitaram a reintegração da Crimeia à Rússia, que culpam pelas políticas alucinadas de Kiev.

Se o Ocidente operasse com alguma decência (ou com alguma inteligência!), essas seriam as pessoas a serem apoiadas. Mas agora já é tarde demais, e pessoas como Bondarenko e Levchenko simplesmente já perderam as respectivas bases eleitorais; seus antigos eleitores que, hoje, não só rejeitam a posição “moderada” dos dois, como, também, enfrentam o destino de terem de deixar a Ucrânia e já não estão preocupados com eleições para o Parlamento.

Que eu saiba, nem Levchenko, nem Bondarenko concorrerão às próximas “eleições” que os dois já disseram que consideram total farsa (e, além do mais, dado que o Donbass não participará dessas eleições, que sentido faria a candidatura dos dois?).

Nikolai Levchenko
Quanto ao Partido Comunista Ucraniano, já está hoje basicamente na clandestinidade; vários de seus membros foram atacados, ameaçados e assassinados.

A triste, mas inegável realidade, é que não há oposição no Banderastão; só vários clãs e várias “tendências”, em que se combinam interesses dos neonazistas e dos oligarcas.

O Banderastão portanto não tem futuro político do qual se possa falar. Mas, de fato, não tem tampouco futuro econômico, cultural, social, ou qualquer outro tipo de futuro. A única dúvida é se o país acabará mais parecido com o Haiti, a Somália ou o Iraque. Em matéria de futuro, a única coisa certa agora é que o inverno será terrível e violento.

Situação política: Novorússia

Continua a luta interna, na Novorússia, entre líderes políticos e comandantes militares em campo. No melhor dos casos, alguns deles simplesmente ignoram todos os demais (Khodakovski ou os líderes cossacos); no pior, combatem diretamente uns contra outros (Bezler e Zakharchenko). Na verdade, parece que Zakharchenko renunciou, depois a renúncia foi retirada.

Por que continuam essas lutas internas?

Há várias razões, dentre as quais:

1) O acordo de cessar-fogo é extremamente controverso e, embora não satisfaça a ninguém na Novorússia, o grau de oposição varia de pessoa para pessoa.

2) Embora Strelkov tenha tentado com real empenho converter uma insurgência de milicianos voluntários num exército regular, não teve tempo suficiente e, embora a coordenação puramente militar tenha melhorado (ao que se sabe com a cooperação de especialistas do exército russo), continua a faltar unidade política.

3) Há também as próximas eleições na Novorússia, e alguns políticos (Zakharchenko, Gubarev) sentem que têm de assumir posição politicamente correta.

4) O fato de que os interesses objetivos de russos e novorussos não sejam um e o mesmo também exacerba a questão de quem obterá ajuda dos russos.

5) Alguns comandantes militares de campo novorussos (Mozgovoi?) sentem que todo esse circo político é inútil, e que a Novorússia tem de ser governada por aqueles que a libertaram: os militares. Obviamente, não é posição que seduza os políticos civis.

6) A briga dentro da Rússia, entre “Integracionistas Atlanticistas” e “Soberanistas Eurasianos” está como que respingando para a Novorússia.

Resultado disso, eu diria que a Novorússia é sólida em termos militares e fraca em termos políticos. Além disso, ao contrário do que eu esperava, Strelkov não teve grande impacto na cena política russa e, pelo menos até agora, permanece relativamente recluso. Não tenho explicação para isso.

Conclusão:

Por um lado, o cessar-fogo está sendo constantemente e cada vez mais violado. É com certeza possível um grande ataque Ukie. Por outro lado, o trabalho de criar uma zona intermediária entre os dois lados, que possivelmente envolva tropas estrangeiras, está sendo tocado ativamente, e o conflito pode ser temporariamente congelado ao longo da atual linha de contato. Os dois lados, o Banderastão e a Novorússia são politicamente fracos e nenhum está realmente sob a autoridade de uma pessoa ou de um grupo claro de pessoas.

Os próximos meses serão catastróficos para a Ucrânia ocupada pelos nazistas, e, bem literalmente, tudo é possível, incluindo uma 3ª Praça Maidan; golpe; insurreições locais, operações forjadas sob falsa bandeira, assassinatos e, claro, guerra.

De certo modo, a estúpida trincheira-pré-muro que os Ukies estão construindo ao longo da fronteira com Novorússia, Rússia e Transnistria talvez acabe por proteger os vizinhos do Banderastão, da explosão que está para acontecer ali.

The Saker

domingo, 5 de outubro de 2014

Ucrânia: O que a batalha pelo aeroporto de Donetsk revela sobre as forças ucranianas e novorussas

3/10/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Tenho encontrado relatos contraditórios sobre a situação no aeroporto de Donetsk, que vão de “90% do aeroporto em mãos dos novorussos”, a “aeroporto tomado”. Seja qual for o caso, creio que há boa chance de os novorussos acertarem quando dizem que o aeroporto será tomado nesse fim de semana. Dei uma olhada rápida pelo site militarymaps.info, para ver a posição mais recente. O que vi está a seguir: 

Aeroporto de Donetsk
(clique na imagem para aumentar)
Nesse momento (17h, hora de Moscou) [10h, hora de Brasília, ontem (2/10/2014)], há combates, mas quase todo o aeroporto já é controlado por forças novorussas. Além do mais, os Ukies foram empurrados para trás, o suficiente para tornar muito difícil, se não impossível, para eles, manter abastecidos os seus combatentes dentro do aeroporto. Os soldados novorussos entrevistados na mídia social russa, dizem que cada vez que os Ukies organizam e tentam enviar comboio de reabastecimento, o comboio é destruído.

Aparentemente, os anglo-sionistas também já se preparam para perder o aeroporto: já falam sobre impor mais sanções à Rússia, caso o aeroporto caia em mãos novorussas. Muito estúpido mas, sim, bem típico daqueles burocratas arrogantes sem noção.

Mas o que é realmente interessante nisso tudo é o comportamento dos Ukies. Considerem o seguinte:

O que o aeroporto de Donetsk mostra sobre as forças ucranianas

Já são “meses” que as forças Ukies resistem naquele aeroporto, em condições muito duras, às vezes completamente cercadas e raras vezes reabastecidas. Os novorussos já lhes ofereceram inúmeras vezes a possibilidade de fazer o que outras forças da Junta aceitaram e fizeram: sair por um corredor. Mas o pessoal do aeroporto sempre recusa. Claro que o ultramoderno (antes de ser destruído) aeroporto Sergei Prokofiev em Donetsk garante a eles vários prédios resistentes e muitos túneis e corredores e salas onde se esconder, mas nem por isso as condições lá são mais fáceis; lá estão sendo bombardeados, sob fogo de atiradores especiais, atacados por comandos especiais e, basicamente, passando fome. Pode-se imaginar o moral deles, se se consideram as chances (zero) de vitória e até de serem evacuados, bem perto de zero. Mesmo assim, os Ukies resistem ferozmente. Segundo uma fonte novorussa, mais de 1.000 Ukies já morreram no e em torno desse aeroporto.

Por quê? Por que resistiram e resistem tanto? Aquele aeroporto tem mesmo altíssimo significado estratégico?

A resposta é não, absolutamente não, nenhum significado estratégico. Uma das ideias (tolas) que circularam era que os Ukies mantinham-se no aeroporto para impedir que os russos pudessem usá-lo para desembarcar suas forças em Donetsk. É de rir, por várias razões.

Primeiro, os russos podem desembarcar uma divisão aerotransportada inteira onde bem entenderem, e não precisam de aeroporto para fazê-lo.

Segundo, se os militares russos quisessem tomar aquele aeroporto, poderiam fazê-lo em poucas horas (volto sobre isso, adiante).

Mas o mais importante é: por que, santo Deus, os russos quereriam pousar num aeroporto disputado à bala, se podem pousar em Lugansk ou, simplesmente, entrar por terra, a partir da fronteira?!

Por tudo isso, não: o controle desse aeroporto não tem coisa alguma a ver com impedir alguma mítica invasão russa.

Voluntários das FAN desfilam em Donetsk
Será que o aeroporto tem algum outro significado estratégico? Permite, talvez, controlar Donetsk?

Outra vez a resposta é não, absolutamente não. De fato, se se pensa no que os Ukies têm feito a partir daquele aeroporto, chega-se, isso sim, ao mais impenetrável dos “mistérios”: já faz meses que os Ukies do aeroporto submetem a cidade de Donetsk a fogo completamente randômico, sem alvos, indiscriminado. É fogo que mata civis e destrói prédios, mas que tem efeito zero, absolutamente nenhum, contra as Forças Armadas Novorussas (FAN). E quando digo efeito zero é zero, realmente zero. Explico-me.

Os Ukies não têm capacidades de reconhecimento/inteligência para rastrear movimentos de unidades das FAN dentro de Donetsk. Nem tem corretores que pudessem corrigir fogo de artilharia. Além disso, enquanto as Forças de Repressão da Junta (FRJ) a noroeste do aeroporto podem, talvez, prover apoio de fogo aos Ukies no aeroporto, a própria artilharia dentro do aeroporto é inútil, porque as forças FAN estão próximas demais para que aquele tipo de artilharia tenha grande serventia. Além do que, as FRJ tem poucos (2, talvez) tanques e morteiros para fazer tal coisa.

De onde se conclui que a única utilidade possível que têm as forças Ukies que estão no aeroporto é aterrorizar a população de Donetsk. Sei que parece inacreditável e que é de enlouquecer, mas tudo sugere que mais de 1.000 Ukies foram mortos em meses sob fogo pesado, para a única finalidade de os Ukies produzirem civis mortos. Soa como perfeita loucura, porque é perfeita loucura.

Mas, sim, também é verdade que o “Ministro da Defesa” Ukie, Valerii Geletei, não passa de palhaço incompetente. Um ex-policial que da noite para o dia (literalmente) foi convertido em militar e em oficial de segurança, ele é o homem que diz que a Rússia usou bombas nucleares em Lugansk; o homem que “assinou” seu termo de aceitação do cargo com uma caneta fechada; e o homem que exibiu munição da IIª Guerra Mundial como “prova” da invasão russa. É odiado e desprezado até pelos Ukies. Não é difícil ver esse personagem ordenando que “continuem matando civis, até que todos vocês tenham morrido”. Mas por que, afinal, os Ukies do aeroporto continuam a obedecer a esse tipo de ordem alucinada?

Valery Geletey - "Ministro da Defesa" Ukie
Finalmente, considerem que um dos poucos aspectos bons do muito controverso cessar-fogo foi precisamente que congelou o conflito mais ou menos ao longo da atual linha de contato e fez sair todas as unidades cercadas, sem mais derramamento de sangue. E várias unidadesUkies serviram-se dessa chance para sair de situações que já pareciam totalmente desesperadas. As FRJ até se retiraram unilateralmente de algumas vilas contestadas. Exceto os doidos do aeroporto que, em vez de se safar de uma situação perdida, decidem enfiar-se mais nela, ficar lá e continuar a aterrorizar os civis.

Posso estar errado, é claro, e muito apreciarei qualquer colaboração de vocês, mas a única explicação que me ocorre para essa comportamento aparentemente insano é que esses Ukiespassaram por lavagem cerebral terminal. São como os SS em 1945, que gritavam “Heil Hitler” já em frente a um pelotão russo de fuzilamento. Como os SS, esses homens aparentemente creem que sua “honra chama-se lealdade” e estão querendo, ao que parece, lutar até o último alento pela oportunidade de aterrorizar civis. Aqueles ucranianos que lutaram por Saur Mogila pelo menos podiam dizer a eles mesmos que morreram numa batalha pelo controle da fronteira sul da Novorússia, criticamente importante. Mas morrer no aeroporto de Donetsk ou é morrer por nada, ou é morrer para conseguir matar civis. Negócio doido e assustador.

O que o aeroporto de Donetsk revela sobre as forças novorussas

Há outra coisa sobre esse aeroporto que também me parece importante. Durante meses, os novorussos não conseguiram tomá-lo. Certo que, sim, era objetivo difícil de tomar; e pode-se argumentar até que as FAN estavam enfraquecidas e muito diluídas ali, por causa de combates mais importantes noutros pontos – e os dois argumentos são verdadeiros –, mas mesmo assim nada disso explica por que as FAN não conseguiram tomar o aeroporto.

Há um fato sobre o qual os civis raramente pensam e do qual mesmo muitos militares raras vezes dão-se conta: todas as forças militares são boas, quando estão vencendo. Explico: quando uma batalha começa e, digamos, o lado A é dominante e começa a bater ou a perseguir o lado B, o desempenho real do lado A é, quase sempre, bom. É muitíssimo raro que uma força militar mostre incompetência, falta de treinamento ou que cometa erros, quando dedicada a perseguir inimigo em retirada. Isso também significa que não se pode julgar a efetividade de uma força, se só se a conhece em batalha que aquela força venceu. O critério chave para medir a efetividade em combate de uma força militar (do soldado da infantaria ao mais alto comandante) é verificar se é capaz de virar o jogo; se é capaz de combater bem quando em retirada; se é capaz de sair de circunstâncias em que apanhou muito, e construir um contra-ataque. Aí está algo que só uma força realmente efetiva consegue fazer.

Tadjiques - originários do norte do Afeganistão
Penso nos insurgentes afegãos, que mostraram capacidades soberbas contra os militares soviéticos (especialmente os tadjiques no norte). Todos assumiram que, tão logo o último soldado soviético tivesse partido, os insurgentes simplesmente entrariam em Cabul em questão de horas. Tiveram de lutar por mais três anos!

Operações urbanas defensivas são das tarefas mais difíceis que se podem dar a uma força militar, e mesmo uma força que tenha desempenho magnífico em áreas não urbanas pode fracassar completamente em ambiente urbano, sobretudo se enfrenta defensor determinado.

As Forças Armadas da Novorússia (FAN) viraram o jogo, de uma situação em que as Forças de Repressão da Junta (FRJ) já haviam quase cercado Donetsk e cortado toda a comunicação entre Donetsk e Lugansk. As FAN usaram com extrema habilidade o fato de que as  FRJ estavam “agarrados às estradas”, para deixá-las entrar; depois as cercaram; depois cortaram os contatos entre elas e o mundo exterior e então as destruíram. Mas essa foi operação defensiva. Além do mais, receberam *muita* ajuda dos russos, incluindo não só o “voentorg”, mas também apoio de fogo direto do outro lado da fronteira da Rússia. Então osUkies correram. Essa retirada foi desastre total, retirada em caos absoluto, na qual as FRJ realmente mostraram que são força militar de baixíssima qualidade. Mas seria erro tomar a incompetência militar dos Ukies como prova de que as FAN seriam forças altamente capazes para ação ofensiva.

O fato é que não sabemos como as FAN atuariam em operação ofensiva, sobretudo contra defensor determinado. O caso do aeroporto de Donetsk é caso muito raro e não prova que as FAN não podem sair-se bem, mas é preciso pelo menos parar um momento e pensar um pouco sobre o quanto de razão podem ter os que creem que, não fosse pelo cessar-fogo, as FAN teriam libertado Mariupol ou o resto da Novorussia. Mais que isso. Se se aceita o argumento que se ouve com frequência dos novorussos, de que não puderam levar as forças necessárias para o aeroporto, porque estavam diluídos e precisavam das mesmas forças em outros pontos, nesse caso, o que essa situação nos diz sobre o que aconteceria se as FAN tivessem realmente avançado em várias frentes como pareciam estar fazendo pouco antes de o cessar-fogo ser assinado? Será que os que hoje deploram que Mariupol não tenha sido tomada dão-se conta de que todas as melhores unidades das FAN já haviam sido alocadas nessa tarefa e que estavam muito afastadas do resto da Novorússia? Tenho uma pergunta a todos os que se mostram tão incomodados com o cessar-fogo:

Província (oblast) de Donetsk 
Se todas as melhores forças das FAN tivessem sido alocadas na batalha por Mariupol, que forças das FAN haveria disponíveis para o caso de um ataque dos Ukies pelo norte? Se tal coisa tivesse acontecido, o quanto “diluídas” estariam hoje as forças das FAN em torno de Donetsk e Lugansk?

Sei que não haverá resposta dos que aceitaram como indiscutível a tese de que as FAN poderiam ter tomado Mariupol e libertado o restante da Novorússia (sem nem falar dos que creem que as FAN poderiam já ter tomado Kiev!). Para esses, a retirada atabalhoada dos Ukies para fora da Novorússia seria prova clara de que os militares Ukies estariam acabados e que a vitória total estaria ao alcance da mão. E esqueçam o aeroporto de Donetsk.

A história não pode ser reescrita, como todos já deveríamos saber com certeza. Mas, para argumentar plausivelmente que o cessar-fogo foi assinado no momento perfeito para as FAN – no pico do sucesso – não é preciso assumir que os que se oponham àquele cessar-fogo sejam traidores, agentes de Surkov ou qualquer tipo de doideira que os patriotas-oba-oba andam dizendo dos que não partilham a opinião deles. Em minha opinião, a batalha pelo aeroporto de Donetsk mostra claramente que as Forças Armadas Novorussas já estavam visivelmente muito diluídas e que são muito mais competentes em operações rurais de defesa, que em operações urbanas de ataque.

The Saker