Mostrando postagens com marcador Graham E. Fuller. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Graham E. Fuller. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Iêmen e a reformatação do mapa geopolítico no Oriente Médio

21/4/2015, [*] Graham E. Fuller – (blog)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ver também:
Saudi Arabia and 3 non-Arab musketeers – 23/4/2015, MK Bhadrakumar, Asia Times Online (em tradução)


"Estados do Bloco Norte" (Turquia, Irã e Paquistão)

Será que alguém ainda se lembra do velho conceito geopolítico da Guerra Fria, de “estados do Bloco Norte”? Eram três países – Turquia, Irã e Paquistão (às vezes o Afeganistão) localizados ao longo da fronteira sul da União Soviética; eram considerados, no ocidente, como potencial muralha de contenção contra o avanço da União Soviética em direção ao sul, para o Oriente Médio. Será possível que estejamos assistindo hoje a uma talvez recrudescência de outro “Bloco Norte”? Dessa vez, não seria união contra a Rússia. Bem ao contrário, aqueles três estados manifestam-se calorosamente simpáticos, em vários aspectos, às ideias geopolíticas russas, chinesas e “eurasiáticas”.

A crise que se desenrola no Iêmen pode ter-se convertido em parteira desse desdobramento. Se isso estiver correto, o Irã parece ser quem está juntando as peças de uma nova coalizão de poder, frouxa, no Oriente Médio.

A suposta coalizão sunita de dez nações, que teria sido constituída pela Arábia Saudita para dar combate à “ameaça iraniana e xiita” no Iêmen e no Golfo, e que foi fartamente noticiada, já sofreu, recentemente, dois grandes golpes: a inesperada defecção de dois países, Turquia e Paquistão, que deixam a posição de parceiros ativos dos sauditas na campanha militar no Iêmen – depois de haverem sinalizado que se incorporariam.

Sim, chama a atenção que Turquia, Irã e Paquistão são, os três, estados não árabes no Oriente Médio. Mas ao falar de um novo “Bloco Norte”, não se fala aqui de bloco árabe vsbloco não árabe. As diferenças são mais ideológicas e geopolíticas; envolvem diferentes visões do futuro, que podem reformatar o mapa geopolítico no Oriente Médio. O “Bloco Norte” pode vir a constituir um novo bloco informal de poder, que desafia as novas ousadas – e reacionárias – ambições de Riad na região.

No momento, há, em competição, duas narrativas da luta no Iêmen.

Os sauditas vangloriam-se de terem forjado uma ativíssima ousada coalizão sunita, para bloquear a super inflada e propagandeada ameaça de algum imperialismo iraniano/xiita, que estaria ganhando espaço no Iraque, Síria, Líbano, no Golfo e, agora, no Iêmen. Riad teme que o Irã livre-se em breve das sanções impostas pelos EUA, para assumir seu lugar como playerlegítimo no cenário regional. Washington deixou de ser percebida como força confiável anti-Irã.

Mapa político do Oriente Médio

Mas uma narrativa alternativa sugere que há outra fonte para o medo saudita – fonte que brota não, de modo nenhum, de algum desacordo de base teológica, mas do medo dos objetivos da revolução iraniana: revolução; derrubada de elites empedernidas; postura republicana (antimonarquista); apoio a estruturas democráticas significativas (sim, porque o Parlamento iraniano é o mais ativista e independente dentre, praticamente, todos os estados árabes); desafio direto contra a longa dominação política e militar, pelos EUA, sobre o Oriente Médio; forte apoio à causa palestina; e resoluto nacionalismo. Legiões, na “rua árabe”, sempre admiraram o Irã por sua posição de independência e a bem-informada e lúcida determinação na oposição declarada de Teerã a Washington.

A Turquia, como se sabe, tem a melhor democracia, mais bem estabelecida e em funcionamento, da região, não obstante a dura política doméstica, vez ou outra.

E o Paquistão opera há décadas dentro de estruturas democráticas, ao lado das armadilhas islamistas, embora pontuada por governos militares periódicos.

Esses três estados representam estados “modernos”, em termos de instituições e de suas estruturas bastante desenvolvidas econômicas e de classes.

Esses três estados diferem ainda em mais um aspecto, dos estados árabes do Oriente Médio. Turquia e Irã mantêm fortes identidades nacionais; e o Paquistão esforça-se para crescer a partir de uma forte personalidade regional. Os três são estados multiétnicos, mas a legitimidade do conceito de estado não está exposta a desafios entre as várias etnias, embora o estado ainda tenha de trabalhar para reconciliar algumas insatisfações de minorias domésticas. O futuro conceito e as fronteiras desses estados não estão em discussão (embora o Paquistão tenha sido fortemente abalado pelos respingos destrutivos da fracassada guerra dos EUA no Afeganistão).

Muito mais difícil é dizer o mesmo da maioria dos estados árabes, hoje. Só o Egito tem forte identidade regional dentro de fronteiras geográficas clássicas – e seu potencial como “estado moderno” foi praticamente exaurido por longos duros tempos de mau governo. O Egito já não tem qualquer visão para a região ou para o mundo árabe – nem islamista, nem nacionalista árabe, nem democrática, nem socialista. Nada. E tampouco há outros grandes estados no mundo árabe que sejam hoje politicamente funcionais.

Mesopotâmia: região do Iraque entre os rios Tigre e Eufrates

O Iraque tinha uma identidade regional mesopotâmica, mas a guerra a destruiu para qualquer efeito no futuro próximo. Os pequenos estados do Golfo, mesmo que até razoavelmente bem administrados, vivem do petróleo e suas estruturas políticas e sociais são arcaicas e defensivas. Estabilidade, onde há no mundo árabe, é sempre em vasta medida imposta por monarcas e presidentes vitalícios.

O que aconteceu, para que a Turquia se desligasse, agora, da coalizão saudita? Francamente, muito me surpreendeu o apoio inicial de Ancara, em março, para a campanha de Riad no Iêmen; e mais ainda me surpreenderam as duras críticas que Erdoğan distribuiu publicamente contra o papel do Irã na região naquele momento. Essa adesão dos turcos a Riad, que teve vida curta, sempre esteve em direta contradição com políticas que os turcos adotam há muito tempo. Em meu livro recente, Turkey and the Arab Spring, descrevo Ancara e Riad como representantes, na essência, de polaridades ideológicas em vários campos: no sectarismo, na democracia, na globalização, no secularismo, no multiculturalismo, na modernidade e na Fraternidade Muçulmana. O único item sobre o qual estão de acordo é a necessidade de derrubar o governo do presidente Assad da Síria.

Talvez o primeiro movimento de Erdoğan na direção de Riad seja mais bem compreendido se visto como oportunismo – uma preocupação inicial com não ser deixado de fora do que poderia vir a ser uma “nova força árabe”. Depois, durante visita relativamente tensa a Teerã no início de abril, Erdoğan voltou atrás nas críticas contra o Irã e desistiu de participar da campanha saudita contra o Iêmen – o que foi notável “tapa na cara” de Riad. O Irã continua a ser o país mais importante para a Turquia, no Oriente Médio, em termos econômicos, geopolíticos e de energia. E Ancara tem de considerar a grande minoria de alevitas (quase-xiitas), que integra a população turca. Quanto terá havido de influência iraniana, nessa súbita mudança de desejos?

Recep Erdogan e Hassan Rouhani em 22/4/2015

Não menos dramática é a virada paquistanesa. Inicialmente, Islamabad parecia estar considerando positivamente a requisição de soldados paquistaneses, feita por Riad, para a campanha no Iêmen. Mas o primeiro-ministro Sharif do Paquistão, apesar de seus laços pessoais muito próximos com a Arábia Saudita, decidiu levar o pedido à decisão do Parlamento – bem consciente, claro, de que a opinião pública paquistanesa rejeitava firmemente qualquer envolvimento do Paquistão na distante guerra do Iêmen.

Na mesma época, o ministro Zarif de Relações Exteriores do Irã visitou Islamabad, no serviço de arregimentar o Paquistão para uma ação conjunta de todos os muçulmanos a favor de solução pacífica negociada. O quanto o Irã influenciou a mudança de posição dos paquistaneses?

Talvez ainda não se possa falar de um “Bloco Norte” como tal. Mas, sim, faz muito sentido essa confluência de visões entre esses estados sobre várias questões. Um bloco informal desse tipo representaria coalizão significativa mais progressista, moderada e com visão de futuro, que a atual “coalizão sunita” comandada pelos sauditas, que é divisionista, ideológica, destrutiva e sectária.

Javad Zarif e Nawaz Sharif em 14/4/2015

O Oriente Médio espera ansiosamente qualquer coisa mais progressista que a visão de futuro reacionária que a coalizão saudita-sunita traz. A aprovação de ambas, Rússia e China, às políticas geopolíticas não intervencionistas desse “Bloco Norte”, além do mais, dá ainda maior peso a esses estados. Um “Bloco Norte” desse tipo também representa visão claramente não árabe para o Oriente Médio – em tempos nos quais o próprio mundo árabe parece não ter a oferecer nenhuma liderança visionária e construtiva que represente futuro genuinamente modernizante.

Os árabes podem não querer ouvir o que dizem não árabes, mas eles, afinal, oferecem praticamente nenhuma alternativa na sombria paisagem do mundo árabe. Resta esperar que Washington não se deixe capturar tampouco pelo outro lado – e acabe presa dentro da coalizão árabe “contrarrevolucionária” como base para futuras políticas dos EUA para a região.

______________________________________________________


[*] Graham E. Fuller é ex-funcionário sênior da CIA e autor de vários livros sobre o Oriente Médio. Seu livro mais recente é Breaking Faith: a novel of espionage and an American’s crisis of conscience in Pakistan. Vide  Blog Graham E. Fuller

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

2015: Previsões de Graham Fuller para o Oriente Médio

3/1/2015, [*] Graham E. Fuller (dica de MK Bhadrakumar)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



















No que tenha a ver com as estupidezes das políticas dos EUA para a Rússia, ou com a paixão irrestrita pela música e literatura russas, ou com a paixão sem fim pela “cidade dos desejos do coração” (Istambul) e, claro, também no que tenha a ver com a futilidade de combater os Talibã ou com a tragédia em câmera lenta do próprio Paquistão − em todos esses tópicos concordo total e completamente com meu amigo Graham.

Sobre o Oriente Médio, não sei. Tendo a ver as coisas um pouco diferentes, especialmente a Turquia… Mas fato é que Graham é autoridade fenomenalmente respeitada sobre o Islã e toda aquela região e viveu e trabalhou durante toda sua vida adulta no Oriente Médio, e eu só passei por lá como pássaro em trânsito” (MK Bhadrakumar, 4/1/2015, em Indian Punchline).



Só doido, para tentar previsões de longo prazo para o Oriente Médio. De minha parte, então, aí vão minhas previsões de longo prazo para o Oriente Médio, para 2015.

1 – Declinarão o poder e a influência do ISIS. Já disse e repito que não acredito que oISIS seja viável como estado; não tem qualquer ideologia coerente e funcional, nem instituições políticas e sociais sérias, nem qualquer processo razoável de liderança política, ou competência para lidar com a logística detalhada e complexa da governança, ou qualquer chance de estabelecer relações de estado para estado na região. Além do mais, já alienaram a maioria dos muçulmanos sunitas do mundo, com grave dissensão entre os sunitas no Iraque e na Síria. No plano ideal, o ISIS deve ruir por si mesmo, quer dizer, sem qualquer interferência externa massiva, sobretudo sem intervenção ocidental, intervenção a qual, em vários sentidos, só fará confirmar e reforçar as alegações ideológicas do próprio ISIL.

Para ser convincentemente e decisivamente derrotada, a IDEIA do ISIL – como foi articulada e é praticada – tem de ruir visível e demonstravelmente por falha do próprio movimento, e aos olhos dos muçulmanos da região.


2 – Crescerá muito o papel do Irã como ator na região. Apesar das idas e vindas, estou otimista quanto às negociações entre EUA e Irã. Os dois lados precisam desesperadamente de algum sucesso nessas negociações. É mais que hora de as relações se normalizarem, e a normalização é necessária para a ordem regional.

Além do mais, Irã e Turquia [além da Síria, é claro! (NTs)] são os únicos governos REAIS na região, com governança genuína baseada em legitimidade popular, por muitos que sejam os erros desses governos. Turquia e Irã (e Síria, é claro! (NTs)] são estados democráticos.

Esses dois estados [além da Síria, é claro! (NTs)] abraçam e defendem muitas das aspirações dos povos na região, de modo que não se vê em nenhum outro governo ou líder daquela parte do mundo.

Mais cedo ou mais tarde, o Golfo será forçado a acertar os ponteiros com a realidade de um Irã normalizado; os dois lados jamais realmente estiveram em guerra, apesar de todos os rugidos belicosos que emergiram dali periodicamente ao longo do século 20.

O Irã é potência pós-revolucionária, com visão de um Oriente Médio realmente soberano, livre da dominação ocidental – o que nenhum dos estados árabes é, em termos convincentes [exceto, é claro, a Síria de Bashar al-Assad, é claro! (NTs)].

A influência do Irã crescerá também na região, na resistência contra os desafios e provocações crescentes que Israel não economiza para manter os palestinos sob dominação permanente.


3 – O presidente Erdoğan verá sua influência começar a diminuir na Turquia, em 2015. Depois de governo brilhante do AKP durante uma década, a primeira, o governo de Erdoğan já se vê envolvido em escândalos de corrupção, e entrou em modo paranoico de perseguição contra todos e quaisquer que critiquem ou façam oposição ao seu modo de governar, cada dia mais irracional, autoritário e quixotesco. Já entrou no processo de agredir instituições e destruir o legado do próprio primeiro-ministro e seu partido.

Continuo a confiar que as instituições turcas mais ampIas, embora enfraquecidas por Erdoğan, mesmo assim bastarão para manter o país em trilha basicamente democrática e não violenta até que Erdoğan perca completamente a credibilidade – o que acontecerá talvez mais cedo do que se supõe.


4 – A Rússia desempenhará papel de maior destaque nos arranjos diplomáticos no Oriente Médio, como fator positivo. A capacidade que a Rússia demonstrou para atuar em papel diplomático (fortemente técnico) decisivo e resolveu a questão nuclear no Irã; e a voz decisiva que manifestou na questão síria são contribuições significativas para a resolução desses dois conflitos de alta prioridade e alto risco que afetam toda a região.

É essencial que o papel da Rússia seja aceito e integrado, em vez de ser sempre apresentado como mera projeção de algum tipo de luta global de alguma neo-Guerra Fria – confronto pelo qual o ocidente e Moscou são igualmente responsáveis. O ocidente [de fato, mesmo, são os EUA (NTs)] tem insistido em provocar confrontos contraproducentes com Moscou, no esforço para meter a OTAN dentro da Ucrânia a qualquer preço.

Conseguem imaginar qual seria a reação dos EUA, se algum tratado de segurança entre China e México incluísse implantar armas e soldados chineses em solo mexicano? [1]


5 – Os Talibã farão novos avanços no sentido de obter mais poder dentro do governo afegão. Depois de 13 anos de guerra no Afeganistão, os EUA fracassaram na “missão” de estabilizar o país; e tampouco conseguiram eliminar os Talibã como força decisiva na equação do poder nacional afegão. Os Talibã são muito mais que simples movimento islamista: em vários sentidos, os Talibã “representam” o poder nacionalista do povo pashtun dentro do Afeganistão (mesmo que não sejam aceitos como tal por todos os pashtuns).

Os pashtuns perderam muito, quando o governo dos Talibã foi derrubado pelos EUA em 2001. Agora, a inclusão dos Talibã novamente no governo afegão é fator essencial para a estabilidade futura no Afeganistão. Os Talibã buscarão fortalecer seu poder em campo durante esse ano, para garantir base de apoio às suas demandas políticas em qualquer futura negociação sobre a partilha do poder político. É impossível excluir funcionalmente os Talibã. A estabilidade no Paquistão, de que o país precisa desesperadamente, também depende, em parte, desses acordos no Afeganistão, depois de os EUA saírem de lá.
OK. E chega de previsões de alto risco para um só ano!
__________________________

Nota dos tradutores
[1] Como disse o presidente Rafael Correa, do Equador: Se os EUA autorizarem que o Equador instale uma base militar em Miami, então, OK, aceitaremos bases militares dos EUA no Equador. [Rafael Correa, entrevistado por Julien Assange, 22/5/2012, na rede Russia Today, trad. em redecastorphoto].
__________________________

[*] Graham E. Fuller foi por 20 anos oficial de operações da CIA em quase todo o Oriente Médio − Turquia, Líbano, Arábia Saudita, Iêmen, Afeganistão e Hong Kong, por duas décadas (aprox. 1970-1990). A seguir foi nomeado um analista sênior a CIA para a previsão global onde trabalhou por mais 5 anos. Em 2004 mudou-se para o Canadá e, entre outras coisas, é agora um professor adjunto de história na Simon Fraser University, em Vancouver. Sem nunca perder interesse no mundo islâmico escreveu vários livros sobre o assunto:
"Three Truths and a Lie" (livro de memórias)
"Turkey and the Arab Spring" (o mais recente)