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sábado, 5 de julho de 2014

Noam Chomsky - "Política Externa dos EUA: Rede Criminosa de Proteção para as Empresas Privadas"

4/7/2014, [*] Noam Chomsky, 4th mídia

“Noam Chomsky: America’s Real Foreign Policy – A Corporate Protection Racket”

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

— Que “proteção criminosa” devo chamar para as corporações de petróleo?
— As Forças Armadas dos EUA!
Há uma “versão padrão recebida”, comum na academia, em pronunciamentos do governo e no discurso público, segundo a qual o primeiro dever de qualquer governo é prover segurança; e que a principal preocupação dos EUA e seus aliados, desde 1945, sempre foi a “ameaça russa”.

Há vários meios para avaliar-se essa doutrina. Pode-se começar por responder uma pergunta óbvia: O que aconteceu quando a ameaça russa desapareceu, em 1989? Resposta: nada aconteceu; tudo continuou como antes.

Pouco depois, os EUA invadiram o Panamá matando, provadamente, milhares de pessoas e instalando ali um regime-cliente. Essa era prática rotineira nos domínios dominados pelos EUA. Mas esse caso não foi rotineiro: pela primeira vez, um grande ato de política exterior não se explicava por qualquer tipo de suposta ameaça russa!


Panamá - Soldados dos EUA assassinaram
friamente milhares de civis
Daquela vez, inventaram-se e foram distribuídos vários e vários pretextos fraudulentos para aquela invasão, que se desmontaram instantaneamente, logo ao primeiro exame. A imprensa-empresa tudo louvava entusiasticamente, aquele grande feito de derrotar o Panamá. Não se preocupava com a evidência de que os pretextos eram ridículos, que o ato em si não passava de violação gravíssima da lei internacional, que estava sendo execrado em muitas partes do mundo, especialmente na América Latina.

Panamá - Tanque dos EUA invadiu perigosa... Lavanderia
A imprensa-empresa também ignorou o veto dos EUA contra proposta de Resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenaria os crimes cometidos por soldados dos EUA durante a invasão. Todos os demais votantes votaram unanimemente a favor da condenação aos EUA; a Grã-Bretanha absteve-se; e os EUA vetaram. Rotina. E ficou tudo por isso mesmo (o que também é rotina).

De El Salvador à Fronteira Russa

O governo de George H.W. Bush lançou nova política de segurança nacional e orçamento para a defesa, em reação ao colapso do inimigo global. Não fazia sentido algum. Como da primeira vez, mobilizaram-se falsos pretextos. Eram outros pretextos, mas eram igualmente falsos pretextos. É que, como depois se viu, era necessário manter um establishment militar quase tão grande quanto o do resto do mundo, tudo somado, e muito mais avançado na sofisticação tecnológica – mas não para defender o país contra uma inexistente União Soviética. A desculpa, dessa vez, foi a crescente “sofisticação tecnológica” de potências do 3º Mundo.

Intelectuais disciplinados compreenderam que não se recomendava que se lançassem em ridículo total, e, portanto, mantiveram-se em silêncio.

Pentágono - Centro da "Protection Racket" dos EUA
Os EUA, insistiam os novos programas, tinham de manter sua “base industrial de defesa”. A frase é eufemística, para falar em geral de indústria high-tech que depende pesadamente de vasta intervenção estatal para pesquisa e desenvolvimento, quase sempre mascarada como se fosse atividade a serviço do Pentágono. É o que economistas continuam a chamar de “economia de livre mercado” dos EUA.

Uma das cláusulas mais interessantes dos novos planos tinha a ver com o Oriente Médio. Ali, ficava decidido, Washington tinha de manter forças de intervenção que tomariam como alvo uma região crucial, cujos “principais problemas não podem ser entregues à porta do Kremlin”. Ao contrário dos 50 anos de mentiras anteriores, confessava-se discretamente que a principal preocupação não eram os russos, mas o que se chama “nacionalismo radical”, quer dizer: qualquer nacionalismo independente que os EUA não controlem completamente.

Tudo isso tinha evidente conexão com a visão padrão, mas passou despercebido – ou, talvez: por isso mesmo, passou despercebido.

Queda do Muro de Berlim
Outros eventos importantes aconteceram imediatamente depois do fim do Muro de Berlim, fim da Guerra Fria. Um deles aconteceu em El Salvador, país que recebia a maior ajuda militar dos EUA em todo o mundo – exceto Israel-Egito, que são caso à parte – e com os piores registros de desrespeito aos direitos humanos do planeta (essa correlação também é frequente e bem direta).

O alto comando salvadorenho ordenou que a Brigada Atlacatl invadisse a Universidade Jesuíta e assassinasse seis destacados intelectuais latino-americanos, todos eles jesuítas, inclusive o reitor, Fr. Ignacio Ellacuría, e testemunhas (a governanta da residência do reitor e a filha dela).

A Brigada acabava de voltar de treinamento avançado contrainsurgência no John F. Kennedy Special Warfare Center and School do Exército dos EUA, em Fort Bragg, North Carolina, e deixou um rastro de milhares das vítimas de sempre ao longo da campanha de terror liderada pelos EUA em El Salvador – parte de campanha de terror e tortura mais ampla, por toda a região.

Tudo, rotina. Tudo ignorado e virtualmente esquecido nos EUA e pelos aliados, tudo, como sempre, rotina. Mas isso nos diz muito sobre os fatores que dirigem a política, se nos damos o trabalho de observar o mundo real.

Mikhail Gorbachev (2013)
Outro evento importante aconteceu na Europa. O presidente soviético Mikhail Gorbachev concordou com permitir a unificação da Alemanha e que a Alemanha fosse integrada como membro à OTAN – aliança militar hostil. À luz da história recente, foi a mais surpreendente das concessões. Mas tinha havido uma troca: o presidente Bush e o secretário de Estado James Baker haviam concedido que a OTAN não seria expandida “uma polegada, para o Oriente”, falando da Alemanha Oriental. Imediatamente depois de firmado o acordo, os dois expandiram a OTAN para a Alemanha Oriental.

Gorbachev ficou obviamente ultrajado. Mas quando reclamou, Washington explicou-lhe que a coisa não passara de compromisso verbal, acordo de cavalheiros, sem força alguma. Se fora suficientemente tolo a ponto de acreditar na palavra do presidente e do secretário de Estado dos EUA, problema dele.

Isso também era rotina, como rotina eram também a silenciosa aceitação e a aprovação da expansão da OTAN, nos EUA e, em geral, no ocidente. O presidente Bill Clinton então expandiu ainda mais a OTAN, direto para junto das fronteiras da Rússia. Hoje, o mundo encara grave crise que é, em medida não pequena, resultado dessas políticas.

A sedução de saquear os mais pobres

Outra fonte de provas são os registros históricos que vão chegando ao conhecimento público. Esses registros contêm dados reveladores dos reais motivos da política de estado dos EUA. A história é rica e complexa, mas alguns temas têm persistentemente o papel dominante. Um deles foi claramente articulado numa conferência para o hemisfério ocidental que os EUA convocaram, no México, em fevereiro de 1945, na qual Washington impôs “Uma Carta Econômica para as Américas” [orig. An Economic Charter of the Americas] que visava a eliminar o nacionalismo econômico “em todas as suas formas”. Havia uma condição “não dita”: o nacionalismo econômico ficava aprovado, até recomendado, para os EUA, cuja economia depende vitalmente de massiva intervenção do estado.

Em 1965 as Forças Armadas dos EUA, "corajosamente", invadiram a República Dominicana
A eliminação do nacionalismo econômico para os outros entrou em agudo conflito com a posição dos latino-americanos naquele momento, posição que funcionários do Departamento de Estado descreveram como “a filosofia do Novo Nacionalismo [o qual] abraça políticas que visam a assegurar melhor distribuição de riqueza e a melhorar os padrões de vida das massas”. 

Como outros analistas políticos norte-americanos acrescentaram, “os latino-americanos estão convencidos de que os primeiros beneficiários do desenvolvimento dos recursos de um país deve ser o povo daquele país”.

Claro que não podia ser. Para Washington, os “primeiros beneficiários” têm de ser os investidores norte-americanos, com a América Latina preenchendo a função de dar-lhes os meios. Não poderia haver, como os governos Truman e Eisenhower deixariam bem claro, “desenvolvimento industrial excessivo” que viesse a abalar os interesses dos EUA.

O Brasil, por exemplo, poderia produzir aço de baixa qualidade com o qual as empresas norte-americanas não precisavam preocupar-se; mas a produção seria considerada “excessiva”, se entrasse em concorrência com as empresas norte-americanas.

Preocupações semelhantes ressoaram no período do pós IIª Guerra Mundial. O sistema global que era dominado pelos EUA estava ameaçado por o que documentos internos chamam de “regimes radicais e nacionalistas” que respondem a pressões populares por desenvolvimento independente. Essa foi a preocupação que motivou os golpes que derrubaram os governos parlamentaristas do Irã e da Guatemala em 1953 e 1954, além de vários outros golpes (Brasil, 1964 – Nrc).

Golpe de Estado no Irã em 1953
No caso do Irã, uma preocupação principal foi o impacto potencial da independência iraniana sobre o Egito, então em torvelinho contra a prática colonial britânica. Na Guatemala, além do crime da nova democracia que dava poder à maioria camponesa e invadia possessões da United Fruit Company — o que já seria ofensa suficiente – Washington preocupava-se com a agitação nos meios trabalhistas e a mobilização popular em ditaduras apoiadas pelos EUA nos arredores.

Nos dois casos, as consequências chegam até os nossos dias.

Literalmente, não houve um dia, desde 1953, em que os EUA não tenham torturado o povo do Irã. E a Guatemala ainda é uma das câmaras de horror do mundo. Até hoje há maias que fogem dos efeitos das campanhas militares quase-genocidas no país, patrocinadas pelo presidente Ronald Reagan e seus mais altos representantes. Como um diretor da Oxfam, médico guatemalteco, relatou recentemente:

Há deterioração dramática do contexto político, social e econômico. Ataques contra defensores de Direitos Humanos aumentaram 300% no último ano. Há clara evidência de que é estratégia bem organizada pelo exército e pelo setor privado. Ambos capturaram o estado, para manter o status quo e impor o modelo econômico extrativista, empurrando os povos nativos dramaticamente para fora de suas terras, que vão sendo ocupadas pela grande indústria de mineração, African Palm e fazendas de cana-de-açúcar. Além disso, o movimento social, que defende as terras e os direitos dos nativos foi criminalizado, muitos líderes estão presos e muitos outros foram assassinados.

Nada se sabe sobre isso nos EUA, e até a causa óbvia desses fatos também é mantida ocultada.

Foster Dulles (E) e Dwight Eisenhower  (1956)
Nos anos 1950s, o presidente Eisenhower e o secretário de Estado John Foster Dulles explicaram claramente o dilema que os EUA enfrentavam. Reclamaram de que os comunistas gozavam de vantagem injusta. Os comunistas podiam “apelar diretamente às massas” e “obter o controle dos movimentos de massa, coisa que nós não podemos fazer. Eles falam diretamente aos pobres e sempre querem saquear os ricos”.

Isso, sim, é problema. Os EUA sempre encontraram dificuldades para falar diretamente aos pobres e mostrar aos pobres sua doutrina segundo a qual os ricos podem saquear os pobres.

O exemplo cubano

Exemplo claro do padrão geral foi Cuba, quando afinal se tornou independente em 1959. Em poucos meses começaram os ataques militares contra a ilha. Pouco depois, o governo de Eisenhower decidiu, secretamente, mudar o regime em Cuba. Em seguida, John F. Kennedy tornou-se presidente. Queria dedicar mais atenção à América Latina. Então, logo no início do governo, criou um grupo para desenvolver políticas, sob a coordenação do historiador Arthur Schlesinger, que resumiu suas conclusões para apresentar ao presidente que chegava.

Cuba - Baia dos Porcos
Como Schlesinger explicou, o mais ameaçador, de haver uma Cuba independente, era “a ideia de Castro de o país tomar as questões nas próprias mãos”. Desgraçadamente, era ideia que muito atraía as massas na América Latina, onde “a distribuição de terra e de outras modalidades de riqueza nacional favorecem muito as classes proprietárias, e onde os pobres e oprimidos, estimulados pelo exemplo da Revolução Cubana, já começam a exigir oportunidades para uma vida decente”. Para Washington, só problemas. E o dilema de sempre.

Como a CIA explicou: 

A extensiva influência do  “castrismo” não é função do poder cubano (...) a sombra de Castro mostra-se grande porque as condições sociais e econômicas na América Latina convidam a fazer oposição a qualquer autoridade e encorajam a agitação para mudança radical.

E a Cuba de Castro oferece modelo para isso. Kennedy temia que a ajuda russa pudesse fazer de Cuba uma “vitrine” do desenvolvimento, o que daria vantagem aos soviéticos em toda a América Latina.

Cuba - Baia dos Porcos, Playa Girón
O Conselho de Planejamento Político do Departamento de Estado alertou que: 

(...) o perigo básico que enfrentamos com Castro está (...) no impacto que a simples existência de seu governo tem sobre o movimento esquerdista em muitos países latino-americanos (...). O simples fato é que Castro representa desafio bem-sucedido aos EUA, negação de toda nossa política hemisférica de quase um século e meio 

Queria dizer: desde a Doutrina Monroe de 1823, quando os EUA declararam sua intenção de dominar o hemisfério.

Naquele momento, o objetivo imediato era conquistar Cuba, mas não era possível por causa do poder do inimigo britânico. Ainda assim, o grande estrategista John Quincy Adams, pai intelectual da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto, informou aos seus colegas que, com o tempo, Cuba lhes cairia no colo, pelas “leis da gravitação política”, como a maçã cai da árvore. Em resumo: o poder dos EUA aumentaria e o da Grã-Bretanha encolheria.

Em 1898, o prognóstico de Adams se realizou. Os EUA invadiram Cuba, sob o disfarce de “libertadores”. Na verdade, impediram que a ilha se tornasse independente da Espanha e a converteram em “colônia virtual”, como disseram os historiadores Ernest May e Philip Zelikow. Cuba permaneceu nessa situação até janeiro de 1959, quando se tornou independente. Desde então, é alvo de guerras terroristas movidas pelos EUA, e que começaram nos anos Kennedy, e de tentativas de estrangulamento econômico. Não por causa dos russos.

Parte da força invasora capturada em 1961 na Baia dos Porcos, Cuba
A política dos EUA para Cuba tornou-se cada vez mais dura; e ainda mais sob governo Democrata, inclusive sob Bill Clinton, que conseguiu ultrapassar Bush pela direita, nas eleições de 1992. Nesse quadro, os eventos acima listados deveriam ter afetado a validade da doutrina, na discussão da política externa e dos fatores que incidem sobre ela. Mas, não. Nada disso. Outra vez, o impacto dos fatos sobre a teoria foi mínimo.

O vírus do nacionalismo

Tomando emprestada a terminologia de Henry Kissinger, o nacionalismo é “um vírus” cujo “contágio pode disparar”. Kissinger, aí, falava do Chile de Salvador Allende. O vírus, no caso, era a ideia de que podia haver via parlamentar para algum tipo de democracia socialista. O modo de enfrentar tamanha ameaça foi destruir o vírus e vacinar todos que pudessem ter sido contaminados; a solução típica foi impor em todos os casos os mais mortíferos estados de segurança nacional. Foi feito assim no Chile em 1973  (imitando o golpe MILICANALHA no Brasil/1964 - Nrc). Mas é importante perceber que esse tipo de pensamento permanece vivo em todo o mundo.

Forças Armadas chilenas bombardeiam o palácio de "La Moneda" em 11/9/1973
Foi esse, por exemplo, o pensamento que havia por trás da decisão de opor-se ao nacionalismo vietnamita no início da década dos 1950s e apoiar o esforço da França para reconquistar sua ex-colônia. Temia-se que o nacionalismo vietnamita independente pudesse ser um vírus que contaminaria as regiões circundantes, inclusive a Indonésia, riquíssima em recursos.

Poderia até levar o Japão – chamado de “superdominó”, por John Dower, especialista em Ásia – a tornar-se o centro de uma nova ordem industrial e comercial independente do tipo que o Japão imperial havia lutado então recentemente para estabelecer.

Tudo isso, por sua vez, significaria que os EUA teriam perdido a guerra pelo Pacífico, opção que não se considerava em 1950. O remédio era claro – e foi usado com bastante sucesso: o Vietnã foi virtualmente destruído e foi cercado por ditaduras militares que mantiveram o “vírus” cercado e contiveram o contágio.

Em retrospecto, McGeorge Bundy, Conselheiro de Segurança Nacional de Kennedy-Johnson, considerou que Washington deveria ter terminado a Guerra do Vietnã em 1965, quando a ditadura de Suharto foi instalada na Indonésia, com massacres terríveis, que a CIA comparou aos crimes de Hitler, Stálin e Mao. Mas o massacre para empossar Suharto foi saudado com incontida euforia nos EUA e no ocidente em geral, porque o “espantoso banho de sangue”, como a imprensa-empresa o comemorava eufórica, pôs fim a qualquer ameaça de contágio e abriu os ricos recursos da Indonésia aos exploradores ocidentais. Depois de isso estar feito, a guerra para destruir o Vietnã já foi supérflua, como Bundy reconheceu, retrospectivamente.

O legado de Suharto, apoiado pelos EUA, na Indonesia
O mesmo é verdade na América Latina, nos mesmos anos: um “vírus” depois do outro foi viciosamente atacado e destruído ou enfraquecido a ponto de mal sobreviver. A partir do início dos anos 1960s, uma praga de repressão foi imposta em todo o continente, uma história de violência sem precedentes no hemisfério, que se estendeu também para a América Central nos anos 1980s, no governo de Ronald Reagan, assunto ainda vivo na memória que não é preciso rememorar aqui.

Muito disso tudo foi assim também no Oriente Médio. As relações especialíssimas entre EUA e Israel ganharam a forma que hoje têm em 1967, quando Israel aplicou golpe violentíssimo contra o Egito, o centro do nacionalismo árabe secular. Ao fazê-lo, Israel protegeu a Arábia Saudita, aliada dos EUA, então engajada em conflito militar contra o Egito, no Iêmen.

A Arábia Saudita, é claro, é o estado islâmico fundamentalista mais radical, e também é estado missionário, que gasta somas astronômicas para difundir doutrinas salafistas wahhabistas além de suas fronteiras. Vale a pena lembrar que os EUA, como, antes deles, a Inglaterra, tenderam sempre a apoiar o Islã fundamentalista contra o nacionalismo secular, que sempre foi percebido como ameaça mais grave de independentismo e de contágio (o “vírus”, não esqueçam).

O valor do segredismo

Muito há para dizer, mas o registro histórico demonstra muito claramente que a doutrina padrão tem pouca serventia. A segurança, no sentido normal, não é fator na formação política. Repito: no sentido normal de “segurança”. Mas, para avaliar a doutrina padrão, é preciso perguntar o quê significa “segurança”. “Segurança” para quem?

Corte Internacional de Justiça, Haia
Uma resposta é: segurança para o poder do estado. Há muitos exemplos. Consideremos um exemplo atual. Em maio, os EUA concordaram que apoiariam uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para que a Corte Internacional de Justiça, em Haia, investigasse crimes de guerra na Síria, mas sob uma condição: não poderia haver investigação nenhuma de qualquer possível crime de guerra cometido por Israel. Nem de crimes cometidos por Washington. De fato, ninguém nem precisaria declarar essa “proteção” aos EUA, porque os EUA são a única nação autoimunizada contra a ação de qualquer sistema legal internacional.

De fato, há uma lei do Congresso dos EUA que autoriza o presidente a usar força armada para “resgatar” qualquer norte-americano que seja levado a Haia para ser julgado: é a “Netherlands Invasion Act” [Lei da Invasão dos Países Baixos], como é às vezes chamada na Europa. Assim, mais uma vez, se comprova a importância de proteger a segurança do poder do estado.

Mas proteger a segurança do estado, contra quem? Pode-se muito bem argumentar que a principal preocupação do governo é proteger a segurança do estado e contra a própria população. Como sabe qualquer pessoa que se tenha dedicado a vasculhar arquivos, o segredismo, o chamado “sigilo” que protege o governo, raramente é motivado por legítima preocupação de segurança; praticamente em todos os casos o segredismo oficial visa, exclusivamente, a manter a população em total ignorância, sem saber do que se passa.

Samuel Huntington
E por boas razões, como explicou lucidamente o ilustre intelectual liberal e conselheiro governamental Samuel Huntington, professor de ciência de governo na Harvard University. Nas palavras dele:

Os arquitetos do poder nos EUA devem criar uma força que seja sentida, mas não seja vista. O poder permanece forte quando se guarda no escuro; exposto à luz do sol, começa a evaporar.

Huntington escreveu isso em 1981, quando a Guerra Fria voltava a esquentar, e explicou também que:

(...) você tem de vender [intervenção ou outra ação militar] de modo tal que crie a falsa impressão de que o que você combate é a União Soviética. É o que os EUA sempre fizeram, desde a Doutrina Truman.

São verdades simples, raramente reconhecidas, mas ajudam a ver por dentro do poder e das políticas do estado, e têm reverberações até nossos dias.

O poder do estado tem de ser protegido contra seu inimigo doméstico; em agudo contraste com isso, a população não tem como se proteger contra o poder do estado. Impressionante exemplo atual é o ataque frontal, mortal, que o governo Obama move contra a Constituição dos EUA, com seu programa de vigilância interna massiva. A coisa, é claro, justifica-se sob o argumento da “segurança nacional”. Mas é o que dizem virtualmente todos os estados para justificar todas as suas ações e, assim sendo, pouco significa ou informa.

Quando o programa de vigilância total da Agência de Segurança Nacional dos EUA foi desmascarado pelas revelações de Edward Snowden, altos funcionários correram a declarar que a vigilância total teria evitado 54 atos terroristas. No inquérito, o número já baixou para uma dúzia. Na sequência, um painel de alto nível criado pelo governo logo descobriu que, de fato, só um caso fora realmente “descoberto”: alguém mandara US$ 8.500 para a Somália. Foi o único “benefício” obtido dessa vasto ataque contra a Constituição e, claro, também contra milhões de outras pessoas em todo o mundo.

A atitude da Grã-Bretanha é interessante. Em 2007, o governo britânico contratou a colossal agência de espiões de Washington, para que “analisasse e recolhesse todos os números de celulares, fax, endereços de e-mails e IPs de qualquer cidadão/ã britânico/a que houvesse em seu banco de dados” – como o The Guardian noticiou. Dá indicação útil da importância relativa, aos olhos do governo, de o estado proteger a privacidade dos próprios cidadãos e das encomendas que Washington recebe.

Outra preocupação é garantir segurança ao poder privado.

Exemplo atual são os gigantescos acordos comerciais que estão sendo negociados, as “parcerias” Trans-Pacífico e Trans-Atlântico. Estão sendo negociadas em segredo, mas não totalmente em segredo. Absolutamente não são segredo para as centenas de advogados de corporações que estão redigindo as cláusulas e seus muitos detalhes. Não é difícil adivinhar quais serão os resultados, e os raros “vazamentos” que se conhecem sugerem que o que se espera e teme, sim, é o que acontecerá.

EUA, México e Canadá - Membros do NAFTA
Como o NAFTA e outros desses “pactos” e “parcerias”, não são acordos de livre comércio. De fato, sequer são acordos de comércio: são, em primeiro lugar, acordos que fixam os direitos dos investidores.

Mais uma vez o segredismo, o “sigilo”, é criticamente importante para garantir segurança à parte que interessa do eleitorado doméstico de qualquer governo: ao setor empresarial, chamado “corporativo”, às empresas privadas.
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[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Que negócio é esse? Por que tanta fúria irracional, racista, contra a China?


4-6/1/2013, Andre Vltchek*, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Iraque, Afeganistão, Palestina e Líbia aí estão, em ruínas, esmagados sob os pesados coturnos do imperialismo ocidental. Mas nos dizem que o inimigo a temer seria a China!

Nações inteiras da Indochina foram bombardeadas e empurradas de volta à Idade da Pedra, porque semideuses ocidentais não tolerariam, e sentiram que nada os forçaria a tolerar, o projeto pelo qual ansiava um não-povo amarelo asiático. Vietnã, Camboja, Laos – milhões de toneladas de bombas despejadas sobre eles, dos estratégicos B-52, de bombardeiros em geral, de jatos de combate. A chuva mortal arruinou países que nasciam, assassinaram mulheres, crianças, búfalos d’água – milhões de seres humanos mortos. Nada de pedido de desculpas, nada de admissão das culpas, nada de compensações enviadas às vítimas, pelas nações-tiranas.

A Indonésia, líder do mundo dos não alinhados, com imenso Partido Comunista constitucional, foi destruída no golpe de 1965, por uma aliança entre governos ocidentais, militares indonésios fascistas e elites locais, auxiliados pelos fantoches religiosos da maior organização de muçulmanos, NU. 2-3 milhões de pessoas mortas, inclusive muitos da minoria chinesa. Professores, artistas, pensadores – todos mortos ou silenciados. Nesse caso, o imperialismo criou uma nação submissa praticamente já sem qualquer base intelectual; já incapaz de analisar a própria queda. Mas não se fala de outra coisa: todos temos de ficar atentos ao crescimento da China!

A América Latina, violentada outra vez, outra vez, outra vez, do México à República Dominicana, de Cuba a Granada, Panamá, Haiti, Brasil, Argentina, Colômbia e Chile. Ao longo de anos, décadas, séculos. Praticamente todos os países da América Central e da América do Sul, além do Caribe, foram destruídos e devastados em algum momento da história, pela implementação racista e violenta da “Doutrina Monroe”.

Os mais recentes golpes contra governos progressistas em Honduras e no Paraguai aconteceram já sob a “liderança soft” do líder supremo do ocidente liberal e “defensor da democracia global” – o presidente Barack Obama.

Mas nos dizem o quê? Que é preciso “conter” a China. Não os EUA, não o Ocidente – mas a China!

No Oriente Médio, reinos e emirados inteiros disputam entre eles o lugar de mais subserviente colaborador para o sucesso dos negócios do ocidente, de quem terá mais bases militares dos EUA plantadas em seu território, de quem mata, prende e tortura mais gente – todos quantos se oponham à ditadura global do ocidente.

Mas é a China, claro, não o ocidente e os EUA, quem ameaçaria inadmissivelmente os direitos herdados que caberiam aos europeus e aos norte-americanos para reinar sobre o mundo. Ou, para ser mais preciso: hoje, o ‘'perigo'’ vem da China, da Rússia e da América Latina – três espaços que deram jeito de começar a livrar-se das algemas ocidentais e começam a traçar seus próprios caminhos de desenvolvimento político, social e cultural. Sejam quais forem, mas caminhos que os próprios povos vão traçando para eles mesmos!

Mas a China é “o grande mal”, porque os tais russos e latinos ainda parecem mais ou menos brancos, ou, pelo menos, muitos deles, sim, parecem brancos. Mas imaginar que o país mais importante do mundo estaria firmemente plantado na Ásia... é impensável, para o ocidente, impensável, inaceitável, verdadeiro sacrilégio!

Na África, a qual, claro, nem interessa muito, como se vê, às multinacionais e aos governos ocidentais, habitada pela mais baixa categoria de ‘des-povo’ (tomando emprestado o léxico de Orwell), vastíssimas extensões de terra e culturas milenares têm sido saqueadas, divididas, enfraquecidas, praticamente apagadas, canceladas do mundo. Fronteiras ridículas são inventadas, grandes governantes populares, como Patrice Lumumba do Congo, assassinados. Assassinos maníacos, como Paul Kagame e Museveni são inventados e cevados no e pelo ocidente, armados e postos no poder; em seguida recebem a lista de tarefas a cumprir: saquear e policiar localmente, em nome dos interesses do ocidente

No Congo foram assassinadas 10 milhões de pessoas durante o reinado do rei belga genocida Leopold II (hoje, herói nacional na Bélgica, celebrado em incontáveis monumentos espalhados por toda a cidade, em Bruxelas). E os congoleses continuam a ser assassinados em proporções ainda épicas, por ditadores impostos e mantidos no poder por Washington e Londres; em Ruanda em Uganda, autorizados a invadir o que bem entendam, derrubar governos, pilhar, saquear a matar, se assim lhes aprouver, a nação inteira.

A Somália, de fato, já quase nem existe – dividida à força e regularmente invadida e atacada por aliados do ocidente – Quênia e Etiópia. Ali, os europeus lançam toneladas de lixo tóxico em áreas próximas do litoral e, em seguida, declaram-se ameaçados por piratas [1] – mais um pretexto para militarizar cada vez mais toda a região. A orgulhosa Eritreia “afro-cubana” mal sobrevive hoje, torturada por sanções, enquanto o país/base militar chamado Djibuti é glorificado e bajulado, e lá está, como símbolo grotesco, poluído, frustrado, do militarismo de franceses e norte-americanos; do imperialismo ocidental, na região onde brotou a raça humana.

Na África Ocidental, na Argélia, em Angola e na Namíbia, no Congo, na Somália e em dúzias de países africanos, dezenas de milhões de seres humanos continuam a ser massacrados por imperialistas ocidentais, no século 20, no século 21. E essa contabilidade macabra não foi diferente antes, com holocausto direto de populações nativas, com genocídios em tudo semelhantes aos genocídios promovidos pela Alemanha nazista também, agora, na Namíbia, com escravidão, tortura, estupro e total desrespeito a vida de não brancos.

E tal legado por acaso converte as nações ocidentais em povos e governos mais humildes, menos arrogantes, mais reflexivos, mais autocríticos? Vê-se por lá algum sinal de culpa, a partir do qual se pudesse cultivar alguma esperança de uma reconciliação global? Não – longe disso! Não há qualquer sinal de remorso em Londres, Paris, Berlim, Bruxelas e Washington, nem no interior da França, nem no meio-oeste dos EUA, nem no sul. Ou, se algum há, está concentrado em pequenos bolsões, quase sempre urbanos, desconectados do mundo e tornados mudos e inoperantes pela imprensa-empresa global.

Pois... agora, se culpa a China, por ‘'negociar com ditadores africanos'’! E a China é culpada! A culpa da China é hoje manufaturada, inflada e implantada nos cérebros de milhões, em todo o planeta, pelo aparato de propaganda ocidental, por veículos locais da mídia-empresa, em todos os casos empresas de propriedade do ocidente; e é o ocidente, também, quem ‘treina’ jornalistas e especialistas ‘midiáticos’ distribuídos pelo planeta.

Por exemplo, acidente em mina na Zâmbia, em local onde opere alguma empresa chinesa, e a coisa é divulgada para o mundo em proporções gigantescas. Resultado disso, dúzias de trabalhadores mortos, vítimas da negligência, são apresentadas como se aí houvesse crime em escala comparável às dezenas de milhões de mortos que morrem por ação direta do imperialismo ocidental selvagem, do tráfico de escravos, do colonialismo e do neocolonialismo.

As mesmas táticas de propaganda são empregadas em todo o mundo. Por exemplo: o Instituto Goethe em Jacarta, Indonesia, há bem pouco tempo, montou uma exposição de fotos de trabalhadores poloneses em Gdansk, em confronto com a polícia, como comemoração do Dia da Solidariedade. Houve algumas mortes. Mas o Instituto Goethe jamais se mobilizou para fazer exibições de fotos para relembrar os milhões de comunistas, ateus, intelectuais e chineses do povo assassinados em 1965 e depois de 1965, na própria Indonésia! É quase como dizer: “Aprendam: aqueles três milhões de indonésios tiveram de ser sacrificados, para impedir que se criasse aqui cenário no qual, adiante, 30 poloneses foram mortos.” Lógica perversa, macabra. Mas apoiada e mantida sempre ativada por montanhas de dinheiro e de palavras impressas e televisionadas. E funciona!

Na Oceania – na Polinésia, Melanésia e Micronésia – britânicos, norte-americanos, franceses, espanhóis, alemães e outros senhores coloniais, esmagaram e reformataram todo o complexo universo que, antes, dava forma e sentido à vida dos povos que habitam dezenas de milhares de ilhas, ilhotas e atóis em todo o Pacífico Sul.

Em seguida, os habitantes locais viraram mercadoria a ser comerciada no mercado de escravos; seus reinos, suas entidades geopolíticas tradicionais foram, primeiros, divididas em colônias; em seguida, foram convertidas em estados-nação. Os líderes tradicionais foram assassinados, exilados, descartados, ameaçados e, os últimos, foram corrompidos e comprados.

Exércitos ocidentais disputaram as ilhas, usaram-nas para experimentos nucleares; depois, inventaram a chamada “doutrina da contenção estratégica”, para assegurar que nenhuma embarcação “inimiga”, nem qualquer ideia ou pensamento anti-imperialista jamais se aproximassem desse universo gigantesco, semeado sobre uma massa oceânica, pode-se dizer, infinita.

No final, construíram-se bases militares tamanho monstro – dos EUA, da Grã-Bretanha, da França; todos os tipos de resíduos tóxicos passaram a ser lançados lá; atóis virgens, como o atol de Kwajalein, foram convertidos em campo de teste e alvo de tiros de mísseis.

Lixo, radiação, comida podre; e começaram as emergências médicas, que cresceram tanto e tanto, que hoje, a mudança climática e o consequente aumento do nível da água do mar já é, em termos realistas, a principal ameaça que pesa contra a sobrevivência dos estados e de povos inteiros na Oceania.

Vivi no Pacífico Sul por mais de quatro anos; viajei e trabalhei em todos os países da região, exceto Niue e Nauru. Escrevi sobre a luta dos ilhéus do Pacífico sul, em meu livro-documentário Oceania.

Vários países – Kiribati, as Ilhas Marshall, os Estados Federados da Micronésia, além de várias ilhas e atóis que hoje são propriedade de outros estados – estão, rapidamente, se tornando inabitáveis. O aumento do nível do mar está devorando suas terras agricultáveis e a vegetação está morrendo.

O ocidente, responsável por praticamente toda a poluição, as emissões de dióxido de carbono e o aquecimento global, faz, na prática, coisa alguma para salvar da extinção países e povos inteiros.

A ajuda que chega dos EUA, da União Europeia, da Austrália e da Nova Zelândia provoca, na prática, tanto dano e destruição quanto as emissões de gases tóxicos. Tudo que lá chega é, de rotina, usado para corromper funcionários dos governos locais; para mandá-los em viagem pelo mundo, pagas como serviço temporário extra: a “mentalidade do ‘por dia’ trabalhado”, que aumenta consideravelmente os salários. Domesticados e corrompidos, os governantes locais absolutamente nada exigem em troca da exploração mortal de seus países, nem se interessam ativamente por resolver os problemas locais. ‘Ajuda externa’ chega também na forma de bolsas pagas a especialistas estrangeiros para que visitem o país, para ‘analisar’ e redigir hectares de páginas de relatórios a maioria dos quais são perfeitamente inúteis. Tudo isso, exclusivamente para criar a fantasia de que ‘algo’ está sendo feito; e, assim, assegurar que jamais se faça, de fato, coisa alguma!

Os povos da Oceania não querem ser evacuados; a maioria deseja lutar pela sobrevivência de suas ilhas natais. Conversei com muitos: em Kiribati, Tuvalu, FSM, RMI e por toda a parte. Mas o ocidente e governos locais continuam a insistir em esquemas irracionais de evacuação, sob os mais absurdos pretextos.

Num dado momento, a China começou a ajudar, em espírito de internacionalismo comunista; como um país socialista deve ajudar. Os chineses chegaram, enrolaram as mangas e começaram a construir escolas, hospitais, prédios públicos, para que o estado pudesse funcionar melhor, estradas, estádios, muros de contenção em áreas mais críticas do avanço do mar sobre a terra e outras obras de infraestrutura pesada, com vistas a preservar e proteger áreas habitadas, mais gravemente ameaçadas.

O ocidente imediatamente se pôs a atacar esses esforços, injetando nihilismo, onde os chineses injetavam solidariedade comunista, destruindo, pelo denuncismo mais torpe tudo que fosse decente e bem planejado. O primeiro estágio da propaganda ocidental – a mesma que já fora usada na África e em outros pontos – foi uma barreira de matérias negativas por jornais e televisões, onde havia: a China “nada faz, jamais, por altruísmo”; “a China só faz implantar à força seus interesses e projetos obscuros”...

As linhas “filosóficas” da propaganda pró-ocidente são sempre simples e previsíveis: “Se somos merda, se a cultura ocidental nos arrasta para o saque e a escravidão, então a humanidade que se convença, de vez, que todos somos feitos da mesma massa podre. Quando se convencerem disso, deixarão de se indignar, e o que fazemos será visto como humano e normal. Todos os humanos têm os mesmos defeitos. Os exploradores também são humanos...”

Puro lixo, é claro. Pensadores qualificados, como Gustav Jung já descreveram a cultura ocidental como excepcionalmente agressiva, uma espécie de patologia da cultura, de doença cultural do ocidente.

Mas quando a doença é mostrada como vantagem ou como atributo moral positivo, desejável, como fazem os grandes propagandistas do ocidente, como Joseph Goebbels e Rupert Murdoch, se a propaganda é repetida mil vezes, e se os mesmos propagandistas conseguem corromper/pagar número suficiente de propagandistas em todo o planeta, para que repitam sempre o que os ‘pensadores’ da propaganda lhes ordenam que repitam, o lixo converte-se, como que por milagre, em luminosa verdade, não raras vezes, em verdade cientificamente ‘'demonstrada'’; depois, é um passo até que o pensamento-lixo se converta em senso comum e em opinião pública.

Mas... voltemos à China e à Oceania:

Quando a blitzkrieg de propaganda para desacreditar a China não funcionou, ou, pelo menos, não funcionou completamente, pelo menos nos países que se estavam beneficiando mais com a ajuda dos chineses, o ocidente inventou estratégia diferente: mudaram-se para Taipei e puseram-se a “encorajar” Taiwan para que “se envolvesse”. Os taiwaneses interessaram-se pelo negócio, e puseram-se a oferecer propinas aos governantes e líderes locais na Oceania, em troca do reconhecimento como país independente. Depois de o país ser devidamente reconhecido – reconhecimento que nem os EUA nem a União Europeia concederam oficialmente – a China (o Partido Comunista da China) retaliava e rompia relações diplomáticas como o “novo” país.

Era, precisamente esse, o objetivo das velhas, hipócritas, dissimuladas eternas potências coloniais.

Assim, países que se mantiveram aliados à China, como Samoa, receberam seus muros de contenção, contiveram o avanço do mar, ganharam prédios novos para o parlamento e estádios de esportes públicos, construídas, todas essas obras, em espírito de solidariedade e otimismo socialistas; e países como Kiribati, que hoje bem podem ser descritos como a lata de lixo da Oceania, foram inundados pelo nihilismo ocidental à moda Taiwan. Choveu dinheiro, mas não chegava ao povo: parava logo, no fundo do bolso dos funcionários do “novo” governo independente.

Enquanto pequenos países na Oceania aproximam-se, inteiros, da extinção física, seus governantes, quase todos educados e treinados na Austrália e nos EUA, vivem de vender seus votos na ONU: votaram a favor da ocupação israelense na Palestina; votaram em apoio às invasões norte-americanas pelo mundo; votam sempre contra qualquer medida de prevenção a qualquer risco ambiental, muitas das quais poderiam ter efeito positivo em seus próprios países!

“Uma vez, fui cercado por uma equipe de televisão israelense” – contou-me um padre, na capital dos Estados Federados da Micronésia [orig. Federated States of Micronesia (FSM)]. – “O público israelense queria conhecer melhor essas criaturas, nessa parte do mundo, que sempre votam a favor de Israel, com os EUA e contra o resto do mundo...”

Ora! São os mesmos que sempre dão boas-vindas aos barcos de guerra de Taiwan, cujas tripulações vivem a cantar hinos nacionais pelas praias e andam por todos os cantos, feito maníacos, sacudindo bandeiras nacionais!

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Os que suponham que a China seja incapaz de trabalhar por altruísmo comunista, devem ler o que escreve Fidel Castro, homem de palavras sempre poderosas e cheias de gratidão universalista, quando conta como Cuba foi resgatada pelo povo chinês, depois do surto de loucura de Gorbachev e de Yeltsin, movido, esse, por muita vodka e mania de grandeza à moda ocidental, que destruíram a URSS e abriram caminho para que o ocidente, já sem encontrar qualquer oposição, começasse a saquear todo o planeta, no delírio da construção do que hoje se chama ‘Império’ dos EUA no ocidente.

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Quando a imprensa chinesa me entrevista, a primeira pergunta é, quase sempre: “O que a China pode fazer para acalmar o ocidente”? Minha resposta é sempre a mesma: “Nada”.

A propaganda ocidental não visa a construir modos para conhecer e analisar a China mais acuradamente; a propaganda ocidental não procura conquistar a boa vontade dos chineses. A propaganda ocidental aí está, mais uma vez, dessa vez contra a China, para agredir e tentar destruir qualquer país que insista e queira perseverar em seu próprio modelo de desenvolvimento, com vistas a construir bem-estar para o povo, e que, assim, resista contra a submissão e a obediência servil aos projetos dos EUA e de suas empresas transnacionais (transnacionais, sim, mas ativas na promoção do interesse nacional dos EUA, e só).

O ocidente tenta hoje destruir a China socialista, como tentou destruir o Vietnã, durante a guerra que, na Ásia, é conhecida como “a Grande Guerra Americana”. Como consumiu esforço gigantesco para arruinar Moscou, desde o início da Revolução de 1917 até o fim (e, hoje, depois da eleição de Putin, novamente). Como os EUA sempre trabalharam para destruir todos os países que, em algum momento, insistiram em construírem sob princípios autônomos: Cuba, Egito, Indonésia, Chile, Nicarágua, Eritreia e o Irã antes do Xá [e, como hoje, depois da Revolução Islâmica de 1979 (NTs)], para citar apenas alguns casos.

Alguns, como a Coreia do Norte, foram primeiro devastados e em seguida empurrados para o extremismo, forçados a radicalizar e, então, exibidos nas televisões ocidentais como exemplo amalucado de comunismo gagá.

O que o ocidente está armando contra a China é bem claro e não difere muito do que fez durante a Guerra do Ópio. O cenário perfeito seria uma nação dividida, encolhida e submissa, que muito admirasse o ocidente. O governante ideal seria algum tipo de Yeltsin chinês que aceitasse trair, quebrar o país em cacos, abri-lo para oligarcas e capitais estrangeiros, matar todas as aspirações sociais e bombardear o Parlamento em dia de casa cheia de representantes do povo que ainda acreditam no socialismo.

Isso feito, então seria possível “fazer negócios” com a China e dar, aos negócios plena e total cobertura de propaganda e de ideologia.

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Costumo aconselhar os jornalistas chineses que me procuram: “Usem os números. Os números trabalham a favor da China”.

Mas parece que a equipe da propaganda chinesa não sabe fazer o que os apparatchicks ocidentais vivem de fazer.

A China é tímida, suave, como, de fato, praticamente todo o mundo é, se comparado aos gângsteres que comandam a política e a economia ocidental.

Numa série de golpes mortais, o ocidente sabe bombardear um país, envenenar a população com urânio radiativo, impor sanções que matam centenas de milhares de mulheres e crianças e velhos indefesos, depois bombardear outra vez, invadir, saquear, e assegurar que suas empresas ganhem bilhões no servicinho de “reconstrução” que, de fato, jamais se vê, nem se completa.

Ninguém, no planeta é capaz de fazer tudo isso, nem a China, nem, de fato, a União Soviética que sempre garantiu nos estados-satélites, padrões de vida superiores ao que se via em Moscou!

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Se a China não faz, posso tentar fazer, eu mesmo, em algumas pinceladas. Usemos números para mostrar ao mundo, sobretudo aos cidadãos ocidentais “preocupados” o que e como a China está realmente fazendo. Comparemos. O único modo justo de comparar é comparar números per capita.

Quantos homens e mulheres e crianças foram mortos pelo ocidente em terras distantes dos respectivos territórios nacionais dos assassinos, desde a 2ª Guerra Mundial? No mundo árabe. No Pacífico Asiático, na África, na América Latina, na Oceania; de fato em todo o globo. Fiz as contas e, numa estimativa tímida, o total chega a 50-60 milhões de mortos. E passa de 200 milhões de mortos, se se somarem as ações indiretas.

A China – muito menos. Alguns milhares, numa invasão punitiva errada contra o Vietnã, depois de o Vietnã libertar o Camboja do Khmer Rouge. Foi o pior que a China fez! E invadiu, mas logo se retirou. E, claro, a China não bombardeou o Vietnã até não haver nenhuma casa habitável, praticamente, em todo o território!

Quero dizer: se a invasão chinesa ceifou, digamos 10 mil vidas... o ocidente matou, no mínimo, 5.000 vezes mais do que a China. Simples aritmética.

Quantos governos o ocidente derrubou, inclusive governos eleitos em processos democráticos difíceis, dolorosos, mas sempre entusiásticos? Não tenho tempo para contar e listar todos: Nicarágua, Chile, Brasil, República Dominicana, Indonésia, Irã, Zaire, Paraguai e dúzias de outros. Basicamente, todo e qualquer governo não aprovado pelas empresas e políticos ocidentais foi incendiado e destruído. A China: zero golpes!

Que belas lições de democracia o ocidente tem dado ao mundo! Dito assim, até parece piada!

Continuemos a comparar.

Quem sempre vetou e continua a vetar quaisquer resoluções propostas na ONU sobre a Palestina e em várias outras questões que interessam a milhões de seres humanos?

Quem se posiciona fora do alcance dos tribunais internacionais criminais, ameaçando, até, invadir a Holanda, caso algum cidadão dos EUA seja levado a julgamento na Corte Internacional, em Haia?

Quem é o maior poluidor do universo, em valores per capita? A China polui menos que as nações escandinavas e, apesar disso, está convertida em ameaça ambiental planetária, ameaça maior, até, que os EUA, porque o ocidente só calcula por números absolutos, jeito bizarro de servir-se das estatísticas. Seguindo a mesma lógica, há mais fumantes na França, que em Mônaco....

Até o ex-vice-presidente dos EUA, que pode ser acusado de muita coisa, não de ser apaixonado pela China, já viu que a legislação ambiental na China é melhor, mais estrita, que nos EUA.

Cuidemos da defesa; da tal “ameaça” que a China imporia ao resto do mundo.

Segundo a publicação de 2012 do Instituto de Pesquisas para a Paz Internacional de Estocolmo [orig. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI 2012 Yearbook)], os EUA, com população de 315 milhões, gasta (oficialmente) cerca de 711 bilhões com seus militares. Muitos analistas insistem que o total ultrapassa 1 trilhão de dólares; outros dizem que o total é ainda maior, mas incalculável por causa de interação obscura, complexa, sem qualquer transparência entre o setor privado e o governo. Mas fiquemos com os números oficiais e aceitemos, para argumentar, a estimativa tímida dos 711 bilhões de dólares.

Aliados próximos dos EUA também gastam milhões na compra e manutenção de bombas atômicas, mísseis e jatos de guerra: o Reino Unido, com 63 milhões de habitantes, gasta 62,7 bilhões de dólares em “defesa”; a França, com população de 65 milhões, gasta 62,5 bilhões; o Japão, 126 milhões de habitantes – e sem ter exército oficial – gasta 59,3 bilhões. Dois dos mais íntimos aliados do ocidente no Oriente Médio são ainda mais radicais:

– a Arábia Saudita, com 28 milhões de habitantes, gasta 48,2 bilhões de dólares; e Israel, com população de apenas 8 milhões, gasta 15 bilhões.

A China, o país mais populoso da Terra, com 1,347 bilhão de habitantes, gasta, com os militares 143 bilhões, aproximadamente o mesmo que o Reino Unido e a França somados, mas com população dez vezes maior a defender!

Em números calculados per capita, os EUA gastam 21 vezes mais, em “defesa”, que a China; o Reino Unido, mais de nove vezes; a Arábia Saudita, mais de 16 vezes o que a China gasta!

E a pergunta que não quer calar é: contra quem, ou contra o quê, França e Reino Unido tanto se defendem? Talvez defendam-se contra Andorra, Mônaco ou a Irlanda? Ou, quem sabe, defendam-se contra um possível ataque vindo... da Islândia?!

A China, como se sabe, foi várias vezes atacada; foi ocupada, colonizada e saqueada por potências ocidentais, sobretudo por Reino Unido e França (cujos atos de barbárie, no saque a Pequim, são legendários); e, hoje, vive com bombardeiros e mísseis com ogivas nucleares apontados diretamente para a cara dela, vindos de Okinawa e Guam, da frota dos EUA na região e das bases das Repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central.

Os EUA, em clara afronta à Constituição das Filipinas está realizando manobras militares na base Clark e em outras instalações militares no território de sua ex-colônia. E têm pesada presença militar na Coreia do Sul, distante uma pedrada, da China; e está, agora, em acintoso assalto diplomático contra o Vietnã, na tentativa bizarra, de reativar algumas de suas antigas bases, usadas durante a guerra. Não é segredo, tampouco, que a Mongólia já está convertida em um dos mais entusiasmados aliados do ocidente – com milhares de quilômetros de fronteiras com a China.

O que, afinal, explicaria gastos tão contrastantes, no campo da “defesa”, entre o ocidente e a China? A resposta é simples: nada! Não há qualquer explicação racional. Como no caso da “Doutrina Monroe”, o ocidente não precisa oferecer qualquer explicação. O ocidente assume, pressupõe uma superioridade racial e cultural... não diz, mas essa pressuposição está presente e ativa sempre, o suficiente para manter calados, em todo o ocidente, até os céticos e até os mais críticos.

As “elites”, os grupos “intelectuais” e a imprensa-empresa em praticamente todo o ocidente são treinadas e pagas para não ver e curvar-se ante essa grande farsa absolutamente “incriticável”.

O que faço aqui, ao trazer à tona algumas perguntas simples, não é aceitável nos círculos cultos da Europa e dos EUA: é considerado, de fato, uma espécie de grosseria, de falta de educação, de maus modos!

E a China, tantas vezes vítima de agressões pelo ocidente, vê-se, ela mesma, na obrigação de defender-se, acusada de “flexionar músculos”, apesar de não ter história de invasões e abusos imperialistas e do orçamento modesto de defesa.

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A China é apresentada como ameaça sempre que se posiciona ombro a ombro com nações progressistas na América Latina ou com a Rússia, como quando, recentemente, colaborou para bloquear a aprovação de resoluções da ONU que visavam, exclusivamente, a escancarar as portas para que o ocidente invadisse a Síria.

Aos olhos dos regimes ocidentais, tentar impedir uma invasão é crime imperdoável, equivalente, quase, ao terrorismo. Países que se ponham como obstáculos àquelas invasões, tornam-se alvos da propaganda mais envenenada.

É preciso lembrar que a mesma retórica foi usada pela Alemanha Nazista durante a guerra. Resistentes de qualquer tipo, partisans, forças de oposição – eram, lá como aqui, chamados de terroristas. E quem algum dia esquecerá o que dizia a propaganda, dos países que estivessem para ser atacados! Ou o que a propaganda ocidental dizia contra a União Soviética – contra os russos que enfrentaram os nazistas e, afinal, os derrotaram!

Segundo minhas investigações na região, forças ocidentais estão treinando não só a tal “oposição síria”, mas, também, jihadistas sauditas e qataris e mercenários, nos chamados “campos de refugiados” na Turquia, perto de Hatay e na base da Força Aérea dos EUA em Adana.

Mas quem algum dia perdoará China, Rússia e América Latina, por tentarem impedir que se concretize o cenário de horror, semelhante ao que o ocidente criou na Líbia? E há também as Ilhas Spratly – esse tour de force da propaganda ocidental!

As Ilhas Spratly poderiam ser de fato a única prova de que a China estaria “flexionando músculos”, quer dizer, estaria cometendo o crime de defender interesses chineses.

O Governo das Filipinas, ex-colônia dos EUA, aparece na linha de frente das mais duras críticas dirigidas contra a China.

Fui convidado para dar uma palestra a acadêmicos filipinos em Manila; dei jeito de conversar com vários deles. As opiniões são todas aparentadas e semelhantes, que Roland G. Simbulan, pesquisador e professor de Estudos do Desenvolvimento e Administração Pública na Universidade das Filipinas, explicou:

“Falando francamente, as tais Ilhas Spratly não são importantes para nós. O que está acontecendo é que as elites locais estão sendo visivelmente estimulados pelos EUA para provocarem a China; e os militares norte-americanos têm profunda influência nas nossas forças armadas. Deve-se dizer que os militares filipinos são muito sensíveis e vulneráveis a esse tipo de “encorajamento”. Os EUA alimentam as atitudes confrontacionais. Mas essa abordagem, se não for mudada, será desastrosa para o nosso país. De fato, somos nós que aqui estamos, muito próximos da China, também geograficamente”.

No Vietnã, não há dúvida de que os EUA estão explorando antigas rivalidades locais, trabalhando para jogar, um contra o outro, dois estados socialistas.

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E há também a questão dos direitos humanos. Mais uma vez, basta comparar. Há muito mais gente nas prisões nos EUA que na China. Não apenas “mais”: a diferença é gigantesca; os números são quase incomparáveis.

Segundo o Centro Internacional para Estudos Prisionais [orig. International Centre for Prison Studies], os EUA têm a maior população encarcerada do mundo: 730 presos, em cada 100 mil habitantes! Dos 221 países e territórios nos quais se recolhem dados, a China aparece em 123º lugar, com 121 presos, por 100 mil habitantes. É seis vezes menos que os EUA, menos, até, que Luxemburgo (120º colocado, com 124 presos, por 100 mil habitantes) ou Austrália (113ª da lista, com 129 prisioneiros, por 100 mil habitantes).

É fato bem conhecido que, nos EUA, muitas prisões são empresas privadas, e os encarcerados usados como mão de obra gratuita (escrava) ou muito barata. Se não é violação de direitos humanos manter milhões de prisioneiros, por crimes menores, apenas para garantir lucros para empresas privadas... o que faltaria?

Interrogadores norte-americanos aplicam e ensinam tortura em todo o mundo – o que é sabido e aceito.

A China ainda executa mais condenados à pena de morte que os EUA, também em termos per capita – o que é lamentável. Mas o número de execuções está caindo, na medida em que caem os crimes puníveis com a pena capital.

Mas a máquina de propaganda ocidental fala da pena capital na China, sempre em conexão com abusos contra direitos humanos... mas não fala, ou só muito raramente se ouve qualquer menção às “execuções extrajudiciais” em várias partes do mundo, executadas por ou a mando dos norte-americanos, como, dentre outros estados, no Afeganistão e no Paquistão, onde a arma usada é quase sempre um avião-robô armado pilotado à distância, o drone, na execução premeditada de suspeitos de terrorismo, inclusive mulheres e crianças.

E o que dizer do principal tema da propaganda – o Tibete? Se se compara a situação no Tibete e o que se vê nos territórios controlados pelos aliados do ocidente, como Indonésia e Índia, chega-se a conclusões bem pouco confortáveis para o ocidente.

O controle que a Índia impõe à Caxemira só pode ser descrito por uma palavra: carnificina; o controle indonésio sobre Papua, já com mais de 120 mil mortos (estimativa conservadora) já alcance índices de genocídio. Mas Índia e Indonésia jamais são descritas nos relatórios e matérias jornalísticas como nações a serem “contidas” em função do recorde escandaloso do número de direitos humanos violados. Aliados do ocidente jamais são acusados por seus muitos crimes contra a humanidade em todos os continentes.

Direitos humanos seriam direitos só para os norte-americanos? Os 50, 60, ou mais de 200 milhões de pessoas que o ocidente assassina, sobretudo nos países mais pobres, não são humanos?

***

É ridículo, beira o cômico, pretender que não haveria racismo no modo como a China é apresentada no ocidente. Tenho amigos que, em geral, podem ser apresentados como progressistas e esclarecidos, mas que, quando se fala em China, tapam os ouvidos e põem-se a berrar que “Não, não! Não quero conhecer a China. É terrível!”.

Seja nação comunista, socialista ou capitalista, o sucesso das nações asiáticas jamais é assunto simples para os ocidentais.

Quem algum dia esquecerá, na Ásia, o sarcasmo e as “suspeitas” que sempre surgem, em quaisquer discussões, quando se falava do Japão, quando ultrapassou, em índices econômicos e de bem-estar social, quase todas as nações europeias? E até hoje, quando se diz que Cingapura tem números de indicadores sociais melhores que os da Austrália, sempre se ouve, de resposta, comentários de sarcasmo ou de ironia contra aquela cidade-estado tropical. E Cingapura e Japão são empenhados aliados do ocidente e economias de mercado altamente desenvolvidas, plenamente integradas no sistema capitalista global.

O caso da China é diferente. A China está desenvolvendo-se por modelo próprio; abre e desbrava novas trilhas, em território completamente desconhecido. Não tem qualquer interesse em seguir ordens. A China é grande demais, a cultura chinesa é antiga demais.

No passado, como o Japão, a China viveu fechada, dentro de suas próprias fronteiras, sem jamais agredir outras nações, sem qualquer ambição expansionista. O ocidente chegou e forçou os chineses a se abrirem. Depois disso, só se viram banhos de sangue, golpes, confusão, um longo período de estagnação nacional e humilhações. Depois, foi a luta pela independência e a revolução.

Não foi simples, não foi suave, mas a China novamente se ergueu e novamente pôs-se a andar com as próprias pernas; educou seu povo, deu moradia e atendeu à saúde dos mais pobres.

A China seguiu adiante, por uma trilha complexa pela qual vai tentando encontrar o ponto de equilíbrio entre a cultura chinesa e as condições globais; entre o socialismo e a realidade capitalista que domina o mundo. Houve fracassos, mas as realizações são espantosas. Nem se pode falar em “surgimento” da China. A China jamais deixou de existir; agora está voltando, apenas, ao lugar que sempre lhe coube, de pleno direito, no mundo – lugar que o ocidente negou-lhe por tanto tempo, depois de anos e anos de invasões debilitantes e saques.

Dentre os que conhecem o país, poucos discordam de que o povo chinês é gentil e bondoso. Sempre em busca da harmonia, os chineses não se envergonham de ceder em qualquer negociação. Mas é loucura pretender “encurralar” a China, ou atacar a China; é loucura e, de fato, é quase suicídio. A China entende bem a magnitude de seu projeto nacional e não cederá. Não há chinês, hoje, que não lembre o que aconteceu quando a China cedeu.

O ocidente, hoje, cego pelo medo de perder seus privilégios de ditador universal, está tentando fazer o impensável, impossível: meter uma estaca de ferro na boca do dragão. Cá na Ásia recomenda-se amar e respeitar os dragões – seres míticos, de imenso poder e imensa sabedoria. Mas os dragões são ferocíssimos, quando a boa-vontade não reina.

***

A China hoje cresce e trabalha para entender o mundo e interagir com ele. Os chineses estão entusiasmados com o que veem; querem fazer amigos. O ocidente age como inimigo: já disparou uma corrida armamentista e a mais violenta campanha de propaganda que a China jamais viu. O ocidente vive hoje de corromper nações inteiras na Ásia e na Oceania, empurrando-as para posições de radicalismo anti-China.

Compreende-se, até, que o ocidente não teria assassinado a quantidade descomunal de gente que assassinou em todo o mundo, para implantar-se como “única potência”, para, de repente, desistir de tudo e abrir mão da posição de ditador universal. O ocidente não destruiu tantos e tantos países e projetos de país, não explodiu tantos e tantos projetos de liberdade e autonomia, em todo o mundo, para, agora, apenas se “autoconter” ou retroceder. Não se deve excluir, para o futuro, o confronto; e não há dúvida alguma sobre de quem será a culpa.

A China não abandonará a rota que definiu para ela. A firmeza chinesa é exemplo para o mundo. Nunca haverá Yeltsin chinês.

No momento em que escrevo, a América Latina resiste e vence suas próprias lutas contra o império ocidental. A Rússia também resiste, à sua moda, enquanto tateia à procura de caminho próprio. Outros se aproximarão dessas variadas linhas de resistência contra o império ocidental. A África sonha com resistir, mas ainda não aprendeu a ousar, depois de séculos de feridas tão profundas. Os países árabes já ousam, mas ainda não decidiram o rumo que darão aos próprios sonhos. Seja como for, cresce, por todos os cantos, o descontentamento, a ira, em vários casos, a fúria popular contra os coturnos que esmagam a liberdade. A China nunca se aliou aos tais coturnos. Pode acontecer, a qualquer momento, de a irracionalidade e o racismo ocidentais voltarem-se contra o próprio ocidente.



Nota dos tradutores
[1] Ver também, Jeffrey Gettleman, New York Review Of Books, vol. 57, n. 15, 14/10/2010, em: The Pirates are Winning!  Em português, traduzido pelo pessoal da Vila Vudu: 14/10/2010, redecastorphoto em: “Somália, 2010: Os piratas estão vencendo!”

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*Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: “Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles”). É autor também de Indonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

As ilustrações são capas das obras de Andre Vltchek e foram acrescentadas pela redecastorphoto