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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo − O perdão das ofensas

17/1/2015 , Jacques-Alain Miller, 10h
Distribuído pela lista lacan.dot.com; 
e-mail: lacanadmin@lacan.com, francês.
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Salão da Bordélia, na Vila Vudu: O “discurso” jornalístico da imprensa-empresa comercial é tão repugnante, tão enviesado, tão doentiamente liberaloide pós-tudo & pré-nada, tão insuportavelmente chaaaato, tão inadmissivelmente golpista (e é paaaaaago, o FdaP!) que karké merda, até o lacanismo (que não é merda, provavelmente, mas a gente aqui entende quase que só é merda-niúma), tem informação mais bem construída, mais consistente, mais confiável, mais interessante, mais indispensável a oferecer, mesmo que em tradução muuuuuuuuito duvidosa. Ora bolas! Traduções corrigem-se. Pronto. É isso.



Victoria deu-me, de presente, ontem pela manhã o número novo, que não me decidi a comprar. Contava com ficar decepcionado. Pois é, não estou decepcionado. Nada de transcendente, mas um tour de force dadas as circunstâncias. A capa ficou excelente. No papel couché, o verde fica muito bom. O significado já é outra coisa. E Causeur – que assino – Elisabeth Lévy reclama contra a questão do perdão.

Os judeus têm o rito do “Grande Perdão”, mas há quem proteste contra a memória deles, longa, longa, muito longa, longa demais. Mitterrand irritava-se. Acossado pelo famoso “lobbyjudeu” que exigia desculpas por Vichy, deixou escapar que “pode ser, talvez, daqui a 100 anos”. Esse movimento de humor do velho ativista pró-fascistas, ou amigo de ativistas pró-fascistas, normalmente tão senhor das próprias emoções, aparece na tela numa entrevista que se pode ainda rever. Ele explica sem rir que, quando funcionário de Vichy, desconhecia o estatuto dos judeus. Vídeo a seguir:


O perdão não existe, seja como for, na psicanálise.

“O erro de boa fé – escreveu Lacan – é de todos o mais imperdoável”. Por quê, já expliquei no meu curso. E está também nos Ecrits: “De nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis. Mesmo que se chame isso, se se quiser, de terrorismo”. Ai-ai-ai! Aí está palavra que, nos tempos que correm, leva à confusão. Isso significa: entregas a verdade num lapso, não podes apagá-lo, o que está dito está dito. Pedes desculpas no teu inconsciente? “Não sou eu, é ele”? Precisamente, Freud ensina que teu inconsciente é também tu, mais verdadeiramente tu. Não há desculpas possíveis. Nada jamais te será perdoado. É também o que diz o Eterno Retorno de Nietzsche.

E parece, atualmente, que o Islã tampouco perdoa, ou, pelo menos, que só muito dificilmente perdoa as ofensas feitas ao profeta. Um Rushdie, por exemplo, não perde por esperar.

Com as raízes cristãs da França, é diferente. Nunca desesperar do homem, é nosso belo princípio. Sempre se procura o viés pelo qual tocar o coração do Faraó. A história de Moisés mostra, porém, que há circunstâncias nas quais não funcionam as cosquinhas. As pragas vêm em pacote: dez pragas, nem uma a menos. Hiroshima, em resumo. Sempre pensei que foi a profunda cultura bíblica do puritanismo norte-americano que fez a cabeça do presidente Truman no momento decisivo. Se bem me recordo, da biografia dele escrita por David McCullough, na noite seguinte Truman dormiu o sono dos justos. Que dirá hoje a Corte Penal Internacional? Proporcional? Desproporcionada?

Ah, já ia esquecendo! Os EUA assinaram o Tratado de Roma que cria a Corte, mas nunca a ratificação. É a Bíblia, a Bíblia, digo-lhes eu! E a Rússia fez o mesmo. Mas China e Índia nem assinaram o tal Tratado. Logo, a culpa não é toda da Bíblia. Mas enfim, se houvesse ONU nos tempos bíblicos, a história santa não daria nem p’rá saída. O que me faz pensar na frase de Renan ‘pescada’ por Lacan – decididamente, encontra-se tudo nos Ecrits: “Felicitemo-nos por Jesus não ter encontrado nenhuma lei que castigasse a agressão contra uma classe de cidadãos: os fariseus seriam invioláveis”. É. Com leis como as nossas, Jesus seria imediatamente posto atrás das grades, como Dieudonné. [1]

Dieudonné M'bala M'bala
Estou de humor maligno, hoje. É o efeito Charlie. Ou talvez esteja na veia sarcástica, mordente, “a-humana”, do lacanismo. Mas, afinal, o Deus do povo judeu era bem, ele mesmo, a-humano. Não é o mínimo, para Deus uno? “Quando o faraó resistiu e recusou deixar-nos sair, o Senhor matou todos os primogênitos do Egito, primeiros os filhos de homem, depois os filhos das bestas” [Êxodo 13:15]. Por que das bestas? – diria Houellebecq.

Imaginem Jeová ante a Corte Penal Internacional, não ganharia, jamais, a liberdade, ficaria preso por toda a eternidade. François Regnault, meu querido amigo, saberia escrever sobre isso com certeza, entre o [programa de rádio] Tribunal des flagrants délires e a Liebeskonzil de Panizza. É verdade que o pobre Oskar, acusado de 93 blasfêmias, pagará suas audácias com um bom ano inteiro numa prisão bavara (1895-1896). Terminou seus dias num asilo, acometido de paranoia com alucinações auditivas.

Lembro-me que Le Concile d’amour estava sendo apresentado em Paris pouco depois de (19)68, com figurino sensacional de Leonor Fini. Foi até premiada. Teatro que, se alguém se atrevesse a montar hoje, geraria batalha nas ruas de Paris. Pode-se lembrar também que Le Fanatisme ou Mahomet le prophète, a ser apresentada em Genebra, em 1991, para o tricentenário de Voltaire, não pode ser apresentada, a Prefeitura recusou-se a subvencionar o espetáculo. Em 1742, também, as representações da peça em Paris não passaram do terceiro dia, porque o Parlamento considerou a peça perigosa para a religião. Porém retomada em 1761, a peça teve “efeito prodigioso”, segundo testemunho do conde de Lauraguais, em relato a Ferney.

Acho realmente maravilhoso que as Luzes conservem intacta para o século XXI toda a sua carga subversiva. Quanto tempo falta para exigirmos que sejam postas abaixo as estátuas de Voltaire no foyer da Comédie-Française e de Diderot do boulevard Saint-Germain, por causa do incômodo que causam aos crentes?

Le Concile d’amour, cena da montagem de 2000
Mas os não crentes também padecem. Ficaram muito incomodados, porque o papa Francisco que arrasta com ele todos os corações, disse nessa 5a-feira (15/1/2015), em conferência de imprensa a bordo do voo para as Filipinas, que a liberdade de expressão deve buscar exercer-se sem para isso ridicularizar a fé de outros. Grande decepção entre as rãs que não admitem que o escorpião tenha uma natureza. Querem porque querem, agora, o seguinte: “essencializar”. Eram existencialistas! Para fugir de mais metáforas: o melhor dos papas, como a mais bela das mulheres, não pode dar o que tem. Nicolas Sarkozy gosta, dizem, de repetir: “Ninguém muda as riscas da zebra”. Não, mesmo. Vejam aí, a Igreja profunda, apesar do Vaticano II, não se reconciliou com o que papa Francisco designava, sem meias palavras, 5a-feira passada (15/1/2015), como “a herança das Luzes”.

O cardeal Scola, que era meu cavalo, se se pode dizer assim, na última eleição papal, e cavalo também de Bento XVI, parece, pensa do mesmo modo e escreveu. O campo progressista sempre se dá mal.

Le Monde meteu o dito papal num canto de página, bem pequeno. E a que assunto La Croix dedicou a edição de ontem de manhã? Ninguém jamais adivinhará: ao vírus Ebola. O editorial, sobre os estragos de Boko Haram.

Na Igreja há atrito, e... quanta charlatanice no tal Voltaire, se se pensa nisso, quanta petulância, sem falar da ingratidão, de acreditar-se “capacitado ”, como dizem os socialistas, para esmagar o que chamavam de o infame! Suas alfinetadas, no mínimo, o fizeram murchar. Depois de se ter nutrido, nos seus primórdios, de tradições espirituais, pode-se dizer que a perda de significado induzida pelos sucessos da matematização da natureza prepara de fato “o triunfo da religião” (Lacan). “Miséria do homem sem Deus”, volta-se sempre a isso. Pascal não é o único intimidado pelo silêncio dos céus. A “cientofobia” estende-se à medida que “o deserto cresce” (Nietzsche). Errante sobre a terra devastada do rei pecador, a Waste Land, a humanidade morre de sede sem saber que está próxima da fonte. Espera a enchente divina, como Ezequiel prometeu, 34:26, “Enviarei a chuva ao seu tempo, e será uma chuva de bênção”.

Liebeskonzil - cena do filme de 1982
Ah! E eis-me a rezar, como Fabrício em Parma. O espírito mau que estava em mim foi-se. Alguma coisa desse tipo aconteceu a Charlie. Sangrado até a última gora, pôs-se a sublimar a pleno vapor. Um Maomé com uma lágrima no olho. Confessa-se responsável, como indica o cartaz pendurado ao pescoço, “Je suis Charlie”. Coroando tudo, um “Tudo é perdoado”, enunciado sem sujeito, como se viesse de lugar nenhum, à guisa de Mane, Thecel, Phares[“Contado, pesado, dividido” (palavras que, segundo o livro de Daniel, apareceram na parede da sala onde o Rei Baltasar promovia uma festa sacrílega) (NTs)].

É muito bonito, mas é sonho de cristão, ou, mais, de católico-de-esquerda [no Brasil, nos anos (19)60, se diria, «de católico da Ação Popular (AP)», grupo no qual então, militava José Serra (NTs)]: o Islã arrependido une-se à família das nações sob o jugo do Bom Pastor e beija os sapatos do papa.

Nossos irmãos muçulmanos receberam muito mal aquela capa. Compreende-se facilmente.

[Continua]




Nota dos tradutores
[1] Sobre Dieudonné, ver redecastorphoto em: 10/11/2013 em: Uma nova revolução fermenta na França




Versão enviada pelo autor (original):

Le pardon des offenses – 14=7/1/2014, Jacques-Alain Miller, Paris 

Victoria m’a fait cadeau hier matin du numéro tout frais que j’avais échoué à me procurer. J’attendais d’être déçu. Eh bien, je ne le suis pas. Rien de transcendant, mais c’est un tour de force vu les circonstances. La couverture est pétante. Sur le papier glacé, le vert rend très bien. Le sens, c’est autre chose. Dans Causeur – décidément je m’abonne - Elisabeth Lévy rouspète contre le thème du pardon.
Les Juifs ont a le rite du « Grand Pardon », mais on leur reproche une longue, très longue, trop longue mémoire. Mitterrand s’en agaçait. Harcelé par le fameux « lobby juif » qui exigeait des excuses pour Vichy, il laissa échapper qu’ils y seraient « dans cent ans peut-être aussi encore. » Ce mouvement d’humeur de l’ancien cagoulard, ou ami de cagoulards, d’habitude si maître de ses émotions, crève l’écran dans un entretien que l’on peut revoir. Il y explique sans rire que, fonctionnaire de Vichy, il ignorait tout du statut des Juifs.

Dans la psychanalyse en tous les cas, on ne pardonne pas. « L’erreur de bonne foi, écrit Lacan, est de toutes la plus impardonnable ». Pourquoi, je l’ai expliqué dans mon cours. Il y a aussi dans les Ecrits : « De notre position de sujet, nous sommes toujours responsables. Qu’on appelle cela où l’on veut, du terrorisme. » Aïe ! Voilà, un mot qui, par les temps qui courent, prête à confusion. Cela veut dire : tu lâches la vérité dans un lapsus, tu ne peux l’effacer, ce qui est dit est dit. Tu t’excuses sur ton inconscient ? « Ce n’est pas moi, c’est lui » ? Précisément, Freud enseigne que ton inconscient, c’est toi aussi, toi plus vraiment. Pas d’excuse qui vaille. Rien ne te sera pardonné. C’est aussi ce que dit l’Eternel Retour de Nietzsche. Et il semble ces jours-ci que l’islam non plus ne pardonne pas, ou du moins pardonne difficilement les offenses faites au Prophète. Un Rushdie, par exemple, ne perd rien pour attendre.

Vu les racines chrétiennes de la France, on ne s’y fait pas. Ne jamais désespérer de l’homme est notre beau principe. On cherche toujours le biais par où toucher le cœur de Pharaon. L’histoire de Moïse montre pourtant qu’il est des circonstances où les guili-guilis sont inopérants. Il faut y mettre le paquet : dix plaies, pas une de moins. Hiroshima, en somme. J’ai toujours pensé que c’est la profonde culture biblique du puritanisme américain qui avait fait la bonne conscience du président Truman au moment décisif. Si je me souviens bien de sa biographie par David McCullough, il avait, la nuit suivante, dormi du sommeil du juste. Que dirait aujourd’hui la Cour pénale internationale ? Proportionné ? Disproportionné ?

Ah ! j’oubliais. S’ils ont signé le Statut de Rome portant création de la Cour, les Etats-Unis ne l’ont pas ratifié. La Bible, la Bible, vous dis-je ! Et la Russie a fait de même. Mais ni la Chine ni l’Inde n’ont même signé le Statut. Donc, la Bible n’est pas seule fautive. Mais enfin, si l’ONU avait existé dans les temps bibliques, l’histoire sainte aurait eu bien du mal à démarrer. Cela me fait penser à la phrase de Renan épinglée par Lacan – décidément, on trouve tout dans les Ecrits : « Félicitons-nous que Jésus n’ait rencontré aucune loi qui punit l’outrage envers une classe de citoyens. Les Pharisiens eussent été inviolables. » Oui, avec nos lois Jésus se serait retrouvé en garde à vue, comme un Dieudonné.

J’ai bien mauvais esprit aujourd’hui. C’est l’effet Charlie. Ou plutôt je suis dans la veine sarcastique, grinçante, « ahumaine », du lacanisme. Mais après tout, le Dieu du peuple juif l’était bien, lui, ahumain. N’est-ce pas la moindre des choses pour un Dieu qui en est un ? « Car Pharaon étant endurci, et ne voulant pas nous laisser aller, le Seigneur tua dans l’Egypte tous les premiers-nés depuis les premiers-nés des hommes jusqu’aux premiers-nés des bêtes. » Pourquoi les bêtes ? dirait Houellebecq. Imaginez Jéhovah devant la Cour pénale internationale, on ne donnerait pas cher de sa liberté, il en prendrait pour l’éternité. François Regnault, mon cher ami, saurait sûrement écrire ça, entre le Tribunal des flagrants délires et le Liebeskonzil de Panizza. Il est vrai que le pauvre Oskar, accusé de 93 comptes de blasphèmes, paya ses audaces d’une bonne année dans une prison bavaroise (1895-1896). Il finit par ailleurs ses jours à l’asile, en raison d’une paranoïa avec hallucinations auditives.

Je me souviens qu’on donna Le Concile d’amour à Paris peu après 68, avec des costumes sensationnels de Leonor Fini. Elle eut un prix. Un théâtre qui s’aventurerait aujourd’hui à reprendre la pièce, on se battrait dans les rues de Paris. On se souvient que Le Fanatisme ou Mahomet le prophète, qui devait être donné à Genève en 1991pour le tricentenaire de Voltaire, ne put être représenté, la municipalité ayant refusé de subventionner le spectacle. En 1742, aussi, les représentations à Paris furent arrêtées après la troisième, le Parlement jugeant la pièce dangereuse pour la religion. Cependant, reprise en 1761, elle fit un « effet prodigieux », au témoignage du comte de Lauraguais, qui le rapporta à Ferney. Je trouve à vrai dire merveilleux que les Lumières conservent intacte au XXIe siècle leur charge subversive. Combien de temps avant que l’on nous demande de démonter la statue de Voltaire dans le foyer de la Comédie-Française et celle de Diderot boulevard Saint-Germain, pour  cause de déplaisir affectant les croyants ?

Les mécréants souffrent eux aussi. Ainsi sont-ils fort marris que le pape François, qui traînait tous les cœurs après lui, ait marqué ce jeudi, dans une conférence de presse donnée à bord d’un vol pour les Philippines, que la liberté d’expression devait trouver à s’exercer sans tourner pour autant tourner en dérision la foi des autres. Grande déception chez les grenouilles, qui n’admettent pas que le scorpion ait une nature. Elles appellent ça ces jours-ci : « essentialiser ». Tous existentialistes ! Pour filer d’autres métaphores, le meilleur des papes, comme la plus belle fille, ne peut donner que ce qu’il a. Nicolas Sarkozy aime, dit-on, à le répéter, « On ne change pas les rayures du zèbre. » Non, voyez-vous, l’Eglise profonde, en dépit de Vatican II, n’est pas réconcilié avec ce que le pape François désignait sans ambages jeudi dernier comme « l’héritage des Lumières » Le cardinal Scola, qui était mon cheval, si je puis dire, à la dernière élection papale, et celui, paraît-il, de Benoît XVI, pense pareil, et l’a écrit. Toujours est-il que le camp du progrès l’a mauvaise. Le Monde a fait passer l’info sur le dit papal en bas de page, sur une toute petite surface. Et à quoi La Croix consacrait-elle sa une hier matin ? Je vous le donne en mille : au virus Ebola. Son éditorial était sur les méfaits de Boko Haram.

Il y a du tirage dans l’Eglise, alors que… quelle forfanterie chez ce Voltaire, si l’on y songe, quelle outrecuidance, sans compter l’ingratitude, de s’être cru « en capacité », comme disent les socialistes, d’écraser ce qu’il appelait l’infâme ! Ses coups d’épingle l’ont tout au plus dégonflée. Après avoir nui à ses commencements au prestige des traditions spirituelles, on dirait bien que la perte de sens induite par les succès de la mathématisation de la nature, prépare en fait « le triomphe de la religion» (Lacan). « Misère de l’homme sans Dieu », on y revient toujours. Pascal n’est pas le seul à être effrayé par le silence des cieux. La « scientophobie » s’étend à mesure que « le désert croît » (Nietzsche). Errant sur la terre dévastée du Roi pêcheur, leWaste Land, l’humanité meurt de soif sans savoir que c’est près de la fontaine. Elle attend l’ondée divine, conformément à la promesse d’Ezéchiel, 34 :26 : « J'enverrai la pluie en son temps, et ce sera une pluie de bénédiction. »

Tiens, me voilà à prêcher, comme Fabrice à Parme. Mon mauvais esprit s’est envolé. Il est arrivé quelque chose comme ça à Charlie. Saigné à blanc, il s’est mis à sublimer à pleins tuyaux. Un Mahomet la larme à l’œil. Celui-ci fait amende honorable, comme l’indique, pendu au cou, « Je suis Charlie. » Coiffant le tout, un « Tout est pardonné », énoncé sans sujet, comme de nulle part, en guise de Mane, Thecel, Phares. C’est très beau, mais c’est un rêve de chrétien, ou plutôt de catho de gauche : l’islam venu à résipiscence rejoint la famille des nations sous la houlette du Bon Pasteur, et baise la mule du pape.
Nos frères musulmans l’ont mal pris. On les comprend. A suivre

Note :  Mitterrand et Elkabbach no YouTube (acima) 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O segredo de "Charlie"


14/1/2015 , Jacques-Alain Miller
Distribuído pela lista lacan.dot.com; 
e-mail: lacanadmin@lacan.com, francês.
Traduzido para português pelo pessoal da Vila Vudu


Todos concordam que a imagem que permanecerá desse momento histórico é François Hollande que abraça o médico socorrista Patrice Pelloux, que está em prantos. Hollande lhe acaricia os cabelos, o rosto, o embala. No fundo, à esquerda da imagem, sobreviventes da chacina em Charlie têm um surto de gargalhadas: um passarinho soltou o esfíncter e maculou o ombro do presidente. O caso do passarinho está contado em Le MondeLe Figaro, etc.. (Há um vídeo  logo abaixo) (“Paris: o amor pela Polícia”, 12-13/1/2015, Jacques-Alain Miller, de Paris, pela lista lacan.dot.com[fragmento aqui traduzido].



Na Argentina, merda de pombo traz boa-sorte. É o que ensina minha amiga Graciela, que se bronzeia no litoral: “Por aqui, se alguém é cagado de pombo, significa boa-sorte.” Que seja. Sabemos que o presidente Hollande acredita que tem boa estrela. Em resumo: estamos na merda, é bom sinal.

Graciela, que leu minhas aulas, pergunta-se se não seria uma “resposta do real”, uma manifestação dos deuses. Os romanos, tão supersticiosos, nunca deixariam de acreditar que fosse. E não esqueçamos que Jesus, depois de batizado, viu o céu abrir-se “e o Espírito Santo desceu sobre ele sob forma corpórea, como um pombo” (Lucas, 3:21). Talvez um cocô divino tenha feito serviço de mão-divina? O boulevard Voltaire feito catedral de Reims? O presidente da República no papel de Ungido do Senhor?

As afinidades do Espírito Santo com o objeto anal não são novidade e estão bem descritas. Lacan – e citá-lo não implica comprometê-lo – cita o artigo de Ernest Jones sobre a fecundação da Virgem pela orelha, em que o dito Espírito Santo é análogo também do cocô. Sem blasfêmia. A tese é anatomicamente fundada: boca e canal anal respondem um ao outro, como duas extremidades de um tubo digestivo contínuo. O sopro espiritual é parente do gás intestinal; a palavra é parente do excremento.

Vê-se que a psicanálise nos seus verdes anos não deixava de ter afinidades, e recíprocas, com o espírito do grupo de Charlie. A escatologia é sua mais pura inspiração desde Hara-Kiri do professor Choron. O fio percorre seus diversos avatares, anarquista, “ecolô”, esquerdista, neoconservador. “Jornal burro e chato”? “Jornal irresponsável”? São aproximações.

Aqui se trata, na verdade, do seguinte: Charlie tem uma missão nesse mundo, de revogar toda e qualquer sublimação, para honrar a pulsão.

Por isso essa pequena folha – que não é folha de parreira, sabemos – tem lugar garantido na história dos costumes. Calcemos nossas botas de sete léguas para percorrer valentemente vários séculos. E em passo acelerado, como numa história em quadrinhos.

Toqueville
As aventuras da pulsão

1. O antigo mundo greco-romano estava muito mais próximo da pulsão do que estamos nós, como o revelaram Schopenhauer, Nietzche, Freud e os outros. Depois veio o discurso cristão. O título de Peter Brown já diz tudo: Le renoncement à la chair: Virginité, célibat et continence dans le christianisme primitif [A renúncia à carne: virgindade, celibato e continência no cristianismo primitivo] (1). Na Renascença, a cristandade retornou às suas fontes greco-romanas. Segue-se daí uma nova aliança entre a religião e a carne. É um dos motivos da revolta protestante, a qual, contudo, num outro plano, dá também seu lugar à carne (os pastores protestantes podem casar). E não se deve esquecer que Martinho Lutero tinha uma queda pela escatologia. Teria declarado “Je suis Charlie”?

2. Naquele ponto aconteceu a separação das águas. O protestantismo ficava com a austeridade, a igreja católica com o prazer dos sentidos, que ela decide, no Concílio de Trento, mobilizar para finalidades de propagação da fé. O século XVII assiste a grandes deslocamentos populacionais: “A Grande Migração” de puritanos ingleses para as colônias norte-americanas (80 mil pessoas); a diáspora dos huguenotes depois da revogação do Édito de Nantes (400 mil deslocados). O século XVIII na França? Talleyrand, nascido em 1754, dirá depois: “Quem não conheceu o Antigo Regime nunca saberá o que foi a doçura de viver”. 

3. Napoleão, deve-se dizer, é a ordem moral. A Santa Aliança estende-se por toda a Europa. Vem para dar o tom rainha Vitória. Boutade: quando terminou de ler o livro de mesmo título, de Lytton Strachey, Lacan disse que a rainha Vitória foi condição sine qua non de Freud. A Belle Epoque termina na carnificina de (19)14. Depois vieram os Anos Loucos. Etc. Na libertação [de Paris], o totem é Le Tabou, rua Dauphine, [1] esquina rue Christine. Últimas guerras coloniais. Em 1960, aparece Hara-Kiri. Pipi côcô, caca-caquinha-pipizinho. Ufa! Afinal se respira. Respiram-se miasmas, mas o odor é tão revigorante quanto o dos queijos de Jerome K. Jerome. Beliscõezinhos no nariz do Carlão [de Gaulle] e da Tia Yvonne (como se chamava popularmente Mme. De Gaulle).

Marquês de Sade
por Jim Champion
4. Diga-me agora você, que vai (ou que não vai) à exposição Sade no Museu d’Orsay, e que lê (ou não lê) a [coleção] Pléiade, que à época um livreiro de Saint-Germain-des-Près convidava você para a sala nos fundos da livraria para lhe passar escondidos os pequenos volumes azuis de Justine e de Juliette, impressos por Pauvert em papel barato, se se arriscava grande coisa. Não se arriscava grande coisa mas, enfim, gozava-se um pouco da vertigem do proibido. Ao mesmo tempo, os jornais de esquerda eram censurados [orig. caviardés] quando falavam de tortura na Argélia; saíam às ruas com grandes vazios brancos nas páginas. A censura era tão familiar que era personificada: depois dos anos 1870 era chamada de “Anastasie”. Era uma espécie de bicho-papão feminino, armada de grandes tesouras (castração!). O ápice foi quando, por insistência de Mme De Gaulle, mobilizada, digamos, pelas freiras da União das Superioras Maiores, o ministro da Cultura proibiu um filme de Jacques Rivette, a partir de La Religieuse de Diderot (2).

5. Foi em 1966, ano em que surgiram os Ecrits de Lacan. Naquele tempo, vejam vocês, falar, escrever, fazia diferença, gerava reação, como em tempos ainda mais antigos. Se se tomava por objeto o exército, a igreja, mesmo que fosse via Diderot, que tem estátua em Paris e obra [completa] na [coleção] Pléiade da [editora] Gallimard, o outro lado respondia.

O Outro moral ainda não se aposentara. O coco-pipi ainda conservava certa potência de transgressão. Tanto que o grande Outro dos anos De Gaulle e Pompidou respondeu “presente”. E foi a grande época do professor Choron. Mas, na sequência, esse grande Outro foi desmontado, desmantelado peça a peça. As etapas desse processo estão reconstituídas em recente resumo de Eric Zemmour, cujo traço às vezes antiquado absolutamente não apaga o interesse documental.

De fato, esse grande Outro nunca foi senão um fantoche movido por marionetista genial. O general [de Gaulle] sabia o que fazia e disse-o bem claramente. Uma de suas frases favoritas, segundo seu confidente Alain Peyrefitte: “Sempre fiz do mesmo jeito. Várias vezes até que deu certo” (C’était De Gaulle, p. 171).


6. Charlie Hebdo, que veio depois de Hara-Kiri, estrangulada sobre a lápide do general, morreu, também por sua vez, mas em casa, morte tranquila, em 1981, quando a esquerda chegou ao poder com Mitterrand. Depois de muito tempo, o velho grande Outro neo-gaulliste, progressivamente desativado, como “Hal” no filme de Kubrick, 2001, só respondia com um “Pufff” às provocações, acompanhado desse movimento de levantar os ombros que o mundo anglófono circunscreve sob o nome de “Gallic shrug” [dar de ombros gaélico, ou francês], tanto lhes parece característico de nosso modo-de-ser.


É difícil transgredir, quando não há mais limites ou pelo menos quando já não há muitos limites. Ou seria preciso passar à injúria, à difamação, ao racismo, à convocação ao assassinato.

Quem matou Charlie? Minha resposta, numa palavra: a “permissividade”. “A palavra não está no Littré; só aparece atestada na língua a partir de 1967, para traduzir o inglês permissiveness (Le Robert. Dictionnaire historique de la langue française).


7. Do Charlie cuja redação acaba de ser extinta, falarei pouco. A publicação renasceu, depois de interrupção de 11 anos, em 1992. A presença dos grandes velhos e a firme fidelidade à pulsão sob a forma canônica de pipi-coco-pintinho comprovam que a retomada do título não foi impostura. Seus grandes feitos: republicar, em 2006, as caricaturas holandesas de Maomé; lançar uma edição, em 2011, zombando da [lei da] Xaria [orig. charriant la charia]. Na mesma noite em que a revista saiu às bancas, houve tumultos de rua. O diretor de redação, Charb, e dois desenhistas, passaram a andar com escolta policial. Multiplicaram-se ameaças dos islamistas.

Em 2013, a revista Inspire, publicada online pela Al-Qaeda na Península Arábica, incluiu o nome de Charb em sua lista de “procurados” por “crimes contra o Islã” (Wikipédia). Semana passada, 7 de janeiro de 2015, foi o massacre.

Três teses, um paradoxo

Nada, nos 21 primeiros anos da revista, permitiria antever que a maior parte dos redatores tombariam sob o fogo de guerreiros islamistas. Mas, afinal, por que tanto se empenhar em zombar dos valores sagrados da religião muçulmana, mesmo quando o risco era visível e o perigo objetivo e indubitável?

Christiane Taubira, Ministra da Justiça da França
por Charb (Charlie Hebdo)

Há a tese nobre: eram combatentes da liberdade de expressão. Charb, que era comunista, disse, em frase muito citada que agora passará à posteridade:

Sei que soa um pouco pomposo, mas prefiro morrer em pé, a viver de joelhos.

Há a tese ignóbil, que Tariq Ramadan já lembrava na própria noite da matança, em diálogo em inglês com Art Spiegelman, criador de Maus (3): escreviam o que escreviam, para ganhar dinheiro. 

E há, por fim, a tese “clínica”, por assim dizer, exposta por Delfeil de Ton no L’Obs de ontem (13/1/2014).

Antigo colaborador de Charlie e amigo de Charb, Delfeil de Ton (DDT), 80 anos, destaca, em texto perturbador, a obcecação de Charb e sua responsabilidade:

Ele era o chefe. Que necessidade havia de arrastar toda a equipe nessa sua aposta alucinadamente alta?  

Relembra o que dissera Wolinski depois dos incêndios pela cidade (2005):

Acho que somos inconscientes e imbecis, e que nos expusemos a um risco inútil. E DDT concluía: Charb preferia morrer, Wolin preferia viver.

Depois de ler, a pergunta é inevitável: haveria um Charb suicidário? Um Charb tomado de melancolia? De fato, ele se apresentava como homem “com nada a perder”: “Não tenho filhos, nem mulher, nem carro, nem crédito”.

A jubilação semanal da genial equipe seria, para perguntá-lo à maneira de Mélanie Klein e Winnicott, uma defesa maníaca contra a depressão? Por trás da fachada fálica, a pulsão de morte? Seria esse o segredo de Charlie Hebdo?

Se for necessário escolher entre essas três hipóteses, excluo de saída a segunda, porque, objetivamente, não há interesse financeiro que dê conta da extensão dos riscos a que todos foram expostos na revista. Seria preciso supor que haveria em Charlie a paixão de um Harpagão, e não se vê sinal disso. Só ignomínia, do professor da Universidade de Oxford.

Harpagão
A terceira tese merece consideração, mas ela empalidece na comparação com a primeira, porque, ainda que num melancólico, num perverso, num neurótico, nem por isso o heroísmo é menos heroísmo.

Aqui, MUITA ATENÇÃO: para que haja o que se chama “heroísmo”, quer dizer, sacrifício por um ideal, é preciso que haja sublimação. Mas... Ora! Até aqui estou argumentando na direção de que Charlie Hebdo seria antissublimação, a favor da pura pulsão, que se dedicava ao culto da pulsão, à exaltação do gozo. Há pois uma contradição.

É onde uma frase de Erik Emptaz, na primeira página do Canard Enchaîné, nos esclarece. Agora que o também o CE já começou a receber as mesmas ameaças que Charlie, Emptaz promete continuar, com os companheiros, a “rir de tudo, exceto da nossa liberdade de poder rir de tudo”. Aí está, sem dúvida, o xis da questão, que se desdobra.

(a) Se eu realmente desejo rir de tudo, é impossível para mim fazer piada da minha liberdade para rir de tudo. É o limite do riso. A piada tem de parar aí. Ninguém que leve a sério a liberdade para rir de tudo, ri dela.

Dito de outro modo: quem quer rir de tudo, não pode rir de tudo.

(b) Rir-se de tudo, inclusive da minha liberdade para fazê-lo, leva ao mesmo mau resultado: sacrifico minha liberdade de rir de tudo, sacrifico minha capacidade para gerir o chicote e o lombo. Em resumo, para rir de tudo, tenho de me abster de rir de tudo.

A posição (b) é cínica. A posição (a) chamei de heroica.

Talvez alguns dos Charlie se acreditassem cínicos. Talvez até, uns mais outros menos, o fossem. Mas fato é que eram heroicos, Charb sabendo que era, e nós só descobrindo agora, depois de tudo.

O erro de Delfeil de Ton, me parece, é nos pintar um Charb tomado por um “Viva a morte!” Ao contrário, o propósito de Charb sugere uma fórmula completamente diferente, que faz dele um soldado do ano 2 verdadeiro, não de papiê-machê: “A liberdade ou a morte!”

Soldados do Ano 2
A cláusula decisiva aí é “ou a morte!”. Quem não põe a própria vida na balança do destino, quem não engaja o próprio ser (e só engaja seu talento, algumas competências) foge da luta, não luta a sério. O primado da vida é tão firmemente ancorado nas sociedades ocidentais que, no caso da barragem de Sivens que custou a vida de Rémi Fraisse, ouviu-se um encarregado local, do Partido Socialista, enunciar a seguinte enormidade: (4).

Morrer pelas próprias ideias é uma coisa, mas mesmo assim é meio estúpido, meio idiota. 

Não detonemos o infeliz. O que se lê não é, com certeza, o que quis dizer (que Rémi lá estava para defender uma ideia, que não pensava em pôr em risco a própria vida, que foi morto por um triste conjunto de circunstâncias, etc.). Mas, até porque é uma espécie de lapso, a frase é ainda mais verídica. Já lá vão 20 anos que Lipovetski publicou Le Crépuscule du devoir (L’éthique indolore des nouveaux temps démocratique) [1992] [Crepúsculo do dever (A ética indolor dos novos tempos democráticos [2]).

Nada de surpreendente que não hesitemos em negar aos mártires de Charlie a qualidade de heróis, e façamos deles imprudentes, para não dizer doidos. Correlativamente, sapateamos sobre os assassinos deles.

Não nos basta ter matado aqueles três homens, os terroristas. É preciso ainda declará-los loucos furiosos, doentes e, sobretudo, bárbaros. Chamamos “bárbaro”" aqueles aos quais nós negamos que pertençam a uma civilização digna do nome (5).


Saibamos reconhecer, para começar, que nossos guerreiros brotam de um outro discurso diferente do nosso, não menos estruturado nem menos “civilizado”, mas civilizado de outro modo. E nesse outro discurso, eles também são heroicos.

Para os gregos da Antiguidade, “bárbaro” era quem falasse língua ininteligível para os gregos, daí a palavra, formada por repetição, bar-bar, como nosso blá-blá-blá. Bárbaro é o que nem fala, só faz ruídos de boca. E de fato, quando um dos irmãos Kouachi, ao sair do massacre e antes de entrar no carro, lança na rua, em voz alta e inteligível, três vezes, o brado “Vingamos o profeta Maomé!” (6), nós nada compreendemos; só que o Islã nada tinha a ver com aquilo e os dois não passam de brutos sanguinários e mentalmente desarranjados.

Por que não os declarar “animais de duas patas”, como os romanos diziam dos hunos?

[Continua (7)]


Notas do autor

(1) O livro de Peter Brown foi publicado em 1988 ; apareceu em francês, editado por Gallimard em 1995.

(2) Sobre o affaire de La Religieuse, consultar os Cahiers d’études du religieux.

(3) O vídeo intitulado “Comics Legend Art Spiegelman & Scholar Tariq Ramadan on Charlie Hebdo & the Power Dynamic of Satire” pode ser visto no site Democracy Now.

(4) O socialista responsável pelo Tarn pode ser visto no vídeo: Sivens : «Mourir pour des idées, c'est stupide», juge le président PS du Tarn.

(5) Sobre os bárbaros: de Bruno Dumézil, Les Barbares expliqués à mon fils, Seuil, 2010.

(6) Os dois irmãos ao sair do massacre na redação da revista, em vídeo obtido pela agência Reuters. Disponível na internet desde ontem (13/1/2015) pela manhã.

(7) Espero conseguir escrever ainda sobre a coluna publicada ontem em Le Monde, p. 9, pelo prof. Alain Renaut, que dá corpo, em termos, concordo, ainda muito gerais, ao que chamei de “via da concessão & compromisso”, sob a forma dita de um “multiculturalismo temperado pela preocupação com o interculturalismo”.



Notas dos tradutores

[1] No número 33, onde está hoje o Café Laurent, ficava Le Tabou, célebre cave de dança e jazz, que funcionou de 1947 a 1948 [informações da Wikipedia].

[2] Além da tradução portuguesa, há tradução brasileira: LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade pós-moralista. O crepúsculo do dever e a ética indolor dos novos tempos democráticos. Traduzido por Armando Braio Ara. Barueri: Manole, 2005.



Versão enviada pelo autor (original):
Le secret de Charlie –par Jacques-Alain Miller (Paris, mercredi 14 janvier 2015; texte expédié à 8h)
En Argentine, la fiente de colombe porte chance. C’est ce que m’apprend mon amie Graciela, qui se dore à la plage : « Acá, si a uno lo caga una paloma, significa buena suerte. » Acceptons-en l’augure. On sait que le président croit à sa bonne étoile. En somme, nous sommes dans la merde, c’est bon signe.
Graciela, qui a lu mes cours, se demande si ce ne serait pas là une « réponse du réel », une manifestation des Dieux. Les Romains, si superstitieux, n’auraient pas manqué de le croire. Et n’oublions pas que Jésus une fois baptisé vit le ciel s’ouvrir, « et l'Esprit Saint descendit sur lui sous une forme corporelle, comme une colombe » (Luc, III, 21). Un caca divin aurait-il dimanche dernier fait office de Sainte Ampoule ? Le boulevard Voltaire de cathédrale de Reims ? Le président de la République serait-il maintenant l’Oint du Seigneur ?
Les affinités du Saint Esprit avec l’objet anal ne sont plus à découvrir. Lacan, non committal, cite l’article d’Ernest Jones sur le fécondation de la Vierge par l’oreille, qui donne ledit Saint Esprit pour l’analogon du pet. Nul blasphème : la thèse est anatomiquement fondée, dès lors que la bouche et le canal anal se répondent comme les deux extrémités du tube digestif. Le souffle spirituel est parent du gaz intestinal, la parole s’apparie à l’excrément.
On voit que la psychanalyse dans ses vertes années n’était pas sans affinité, et réciproquement, avec l’esprit de la bande à Charlie. La scatologie est le plus pur de son inspiration depuis le Hara-Kiri du professeur Choron. Le fil traverse ses divers avatars, anarchiste, écolo, gauchiste, néoconservateur. « Journal bête et méchant » ? « Journal irresponsable » ? Ce sont des approximations. Ce dont il s’agit en vérité, c’est ceci : Charlie a une mission en ce monde, c’est de révoquer toute sublimation pour honorer la pulsion.
A ce titre, cette petite feuille - qui n’est pas feuille de vigne, on l’aura compris - a sa place dans l’histoire des mœurs. Chaussons nos bottes de sept lieues afin de parcourir vaillamment la suite des siècles. En accéléré, comme dans une bande dessinée.

Les aventures de la pulsion
1. Le monde antique gréco-romain était beaucoup plus près de la pulsion que nous le sommes, comme l’ont relevé Schopenhauer, Nietzche, Freud, et les autres. Puis vint le discours chrétien. Le titre de Peter Brown dit tout : Le renoncement à la chair: Virginité, célibat et continence dans le christianisme primitif. La chrétienté fait retour à ses sources gréco-romaines à la Renaissance. S’ensuit une nouvelle alliance entre la religion et la chair. C’est l’un des motifs de la révolte protestante, laquelle, cependant, sur un autre plan, donne elle aussi sa place à la chair, ne serait-ce que par le mariage des pasteurs. A ne pas négliger : le goût de Martin Luther pour la scatologie. Aurait-il dit : « Je suis Charlie » ?
2. Là se fait le partage des eaux. Le protestantisme aura l’austérité, l’Eglise catholique le plaisir des sens, qu’elle décide au Concile de Trente de mobiliser aux fins de la propagation de la foi. Le XVIIe siècle voit de grands déplacements de population : « Great Migration » des puritains anglais vers les colonies américaines (80 000 personnes) ; diaspora des huguenots après la révocation de l’Edit de Nantes (400 000). Le XVIIIe siècle en France ? Talleyrand, né en 1754, dira plus tard : « Ceux qui n'ont pas connu l'Ancien Régime ne pourront jamais savoir ce qu'était la douceur de vivre. »
3. Napoléon, disons-le, c’est l’ordre moral. La Sainte-Alliance l’étend à toute l’Europe. Il y a ensuite pour donner le ton Queen Victoria. Boutade : ayant lu le livre de Lytton Strachey qui porte ce titre, Lacan dit qu’elle fut la condition sine qua non de Freud. La Belle Epoque s’achève sur la boucherie de 14. Suivent les Années folles. Etc. A la Libération, le totem, c’est Le Tabou, rue Dauphine, coin rue Christine. Dernières guerres coloniales. En 1960, Hara-Kiri paraît. Pipi caca quéquette et zézette. Ouf ! on respire. On respire des miasmes, mais l’odeur en est aussi vivifiante que celle des fromages de Jerome K. Jerome.  On fait la nique au Grand Charles et à Tante Yvonne (surnom populaire de Mme De gaulle).  
4. Dîtes-vous bien, vous qui allez (ou n’allez pas) à l’exposition Sade au Musée d’Orsay, et qui le lisez (ou ne le lisez pas) en Pléiade, qu’à l’époque, un libraire de Saint-Germain-des-Près vous faisait passer dans son arrière-boutique pour vous glisser les petits volumes bleus de Justine et deJuliette, imprimés par Pauvert sur papier bon marché. On ne risquait pas grand chose, mais enfin, on jouissait à peu de frais du frisson de l’interdit. Dans le même temps, les journaux de gauche étaient caviardés quand ils parlaient de la torture en Algérie ; ils paraissaient avec de grands blancs. La censure était si familière qu’elle était personnifiée : on l’appelait depuis les années 1870 «  Anastasie. » C’était une sorte de croquemitaine féminin, armé de grands ciseaux (castration !). Le comble fut atteint le jour où, sur les instances de Mme De Gaulle, mobilisée, dit-on, par les religieuses de l’Union des supérieures majeures, le ministre de la culture interdit le film tiré par Jacques Rivette de La Religieuse de Diderot.
5. C’était en 1966, l’année où parurent les Ecrits de Lacan. En ce temps-là, voyez-vous, parler, écrire, ça comptait, ça faisait réagir, comme dans les temps plus reculés. Si vous vous en preniez à l’armée, à l’Eglise, même via Diderot qui avait pourtant sa statue dans Paris et sa Pléiade chez Gallimard, de l’autre côté ça répondait. L’Autre moral ne s’était pas encore mis aux abonnés absents. Le pipi caca cucu gardait une puissance de transgression. Tant que le grand Autre des années De Gaulle et Pompidou répondit présent, ce fut la grande époque du professeur Choron. Mais, par la suite, cet Autre fut démonté, démantelé pièce par pièce. Les étapes de ce processus sont retracées dans la récente somme d’Eric Zemmour, dont le caractère parfois outrancier n’efface nullement l’intérêt documentaire. Au vrai, ce grand Autre n’avait jamais été qu’un pantin actionné par un marionnettiste génial. Le Général le savait, et l’a dit. D’ailleurs, l’une de ses phrases favorites était, aux dires de son confident, Alain Peyrefitte : « J’ai toujours fait comme si. Ça finit souvent par arriver. » (C’était De Gaulle, p. 171).
6. Charlie Hebdo, qui avait pris la suite de Hara-Kiri, étranglé sur le cercueil du Général,  mourut à son tour, mais de sa belle mort, en 1981, quand la gauche arrivait au pouvoir avec Mitterrand. Depuis longtemps, le vieux grand Autre néo-gaulliste, progressivement désactivé comme Hal dans le film de Kubrick, 2001, ne répondait plus aux provocations que par un « Bof ! », accompagné de ce haussement d’épaule que le monde de langue anglaise a isolé sous le nom de « Gallic (ou Frenchshrug », tant ils leur paraît caractéristique de notre façon d’être. Difficile de transgresser quand il n’y a plus de limites, ou plus beaucoup. Ou alors il aurait fallu passer à l’injure, à la diffamation, au racisme, à l’appel au meurtre. Qui tua Charlie ? Pour le dire d’un mot, ce fut la permissivité. Le mot n’est pas dans Littré ; il n’est attesté dans la langue que depuis 1967 ; il traduit l’anglais « permissiveness », 1947 (Le Robert. Dictionnaire historique de la langue française).
7. Du Charlie dont la rédaction vient d’être exterminée, je dirai peu. La publication renaît, après une solution de continuité de onze ans, en 1992. La présence des grands anciens et l’allégeance maintenue à la pulsion sous la forme canonique pipi caca cucu attestent que la reprise du titre ne fut pas une imposture. Ses hauts faits : republier en 2006 les caricatures danoises de Mahomet ; sortir en 2011 un numéro charriant la charia. Le soir même de la parution, incendie des locaux ; le directeur de la rédaction, Charb, et deux autres dessinateurs, sont placés sous protection policière. Les menaces islamiques se multiplient. En 2013, le magazine en ligne Inspire, publié parAl-Qaïda dans la péninsule Arabique, fait figurer le nom  de Charb sur sa liste de personnalités recherchées pour « crimes contre l'islam » (Wikipédia). La semaine dernière, le 7 janvier, c’est le massacre.

Trois thèses, un paradoxe
Rien dans les 21 premières années du magazine ne laissait présager que la plus grande partie de sa rédaction tomberait sous les balles de guerriers islamiques. Mais aussi, pourquoi s’acharner à moquer les valeurs sacrées de la religion musulmane alors que le risque était patent et le danger indubitable ?
Il y a la thèse noble : c’étaient des combattants de la liberté d’expression. Charb, qui était communiste, l’a dit dans une formule souvent citée, et qui passera à la postérité : « Ça fait sûrement un peu pompeux, mais je préfère mourir debout que vivre à genoux. » Il y a la thèse ignoble, celle que Tariq Ramadan colportait dès le soir de la tuerie, dans un dialogue en anglais avec Art Spiegelman, le créateur de Maus : c’était pour faire de l’argent. Il y a enfin la thèse pour ainsi dire clinique, qu’expose Delfeil de Ton dans L’Obs paru hier.
Ancien de Charlie et ami de Charb, DDT souligne dans un texte troublant l’entêtement de Charb, et sa responsabilité : « Il était le chef. Quel besoin a-t-il eu d’entraîner l’équipe dans la surenchère ? » Il rappelle les  propos de Wolinski après l’incendie des locaux : « Je crois que nous sommes des inconscients et des imbéciles qui avons pris un risque inutile. » Il conclut : « Charb qui préférait mourir et Wolin qui préférait vivre. » On se dit après l’avoir lu : Charb suicidaire ? Charb mélancolique ? Il se présentait en effet comme l’homme sans rien, sans rien à perdre : « Je n'ai pas de gosses, pas de femme, pas de voiture, pas de crédit. » La jubilation hebdomadaire de la fine équipe était-elle, pour le dire à la manière de Mélanie Klein et de Winnicott, une défense maniaque contre la dépression ? Derrière la parade phallique, la pulsion de mort, était-ce cela, le secret de Charlie ?
S’il faut choisir entre ces trois thèses, ou hypothèses, j’exclus d’emblée la seconde, car, objectivement, l’intérêt financier n’était pas à la mesure des risques encourus. Il faudrait supposer à Charlie la passion d’Harpagon, et rien n’en témoigne. C’est une ignominie du professeur d’Oxford University. La thèse 3 mérite considération, mais elle pâlit devant la première, pour autant que l’héroïsme d’un mélancolique, comme celui d’un psychotique, d’un pervers ou d’un névrosé, reste un héroïsme.
Ici, attention. Pour qu’il y ait ce qui s’appelle héroïsme, c’est à dire sacrifice à un idéal,, il faut qu’il y ait sublimation. Or, j’ai soutenu que Charlie était l’anti-sublimation, qu’il était voué au culte de la pulsion, à l’exaltation de la jouissance. Contradiction. C’est là qu’une phrase d’Erik Emptaz, en première page du Canard enchaîné, nous éclaire. Alors que l’organe satirique fait désormais l’objet des mêmes menaces que Charlie, il se promet de continuer avec ses camarades à « rire de tout », sauf de « la liberté de pouvoir le faire ». C’est le point, en effet, et il se dédouble.
1) Si je veux rire de tout, impossible de badiner avec la liberté de rire de tout. Donc, le rire s’arrête là. On ne rit pas de la liberté de rire de tout, on la prend au sérieux. Autrement dit, qui veut rire de tout ne rit pas de tout. 2) Se moquer de tout, y compris de ma liberté à le faire, a le même résultat. Je sacrifie ma liberté de rire pour ménager désormais la chèvre et le chou. Bref, pour pouvoir rire de tout, je dois m’abstenir de rire de tout. La position 2 est cynique. La position 1, je l’appelle héroïque.
Peut-être certains d’entre les Charlie se croyaient-ils cyniques. Peut-être même l’étaient-ils plus ou moins. Mais ie fait est qu’ils étaient héroïques, Charb le sachant, et nous le constatant après coup. L’erreur de Delfeil de Ton, je crois, est de nous peindre un Charb habité par un « Vive la mort ! » Pourtant, le propos de celui-ci pointe vers une formule toute autre, qui fait de lui un « soldat de l’an II » vrai et non de carton-pâte : « La liberté ou la mort. »
C’est la clausule « … ou la mort » qui est décisive en cette affaire. Qui ne met pas sa vie dans la balance du destin, qui n’engage pas son être mais seulement son talent, batifole, n’est pas sérieux. Le primat de la vie est désormais si bien ancré dans les sociétés occidentales qu’au moment de l’affaire du barrage de Sivens qui coûta la vie à Rémi Fraisse, on put entendre un responsable local du Parti socialiste proférer cette énormité : « Mourir pour des idées, c'est une chose, mais c'est quand même relativement stupide et bête ».
N’accablons pas le malheureux. Ce que l’on comprend n’est certainement pas ce qu’il voulait dire - que Rémi était venu défendre une idée, qu’il ne pensait pas exposer sa vie, que celle-ci lui avait été ravie par un triste concours de circonstances, etc. Mais ce propos, d’être une sorte de lapsus, est d’autant plus véridique. Voici déjà vingt ans que Lipovetski publiait Le Crépuscule du devoir. Rien d’étonnant à ce que nous n’hésitions pas à dénier aux martyrs de Charlie la qualité de héros, et à en faire, au moins à demi-mot, des imprudents, pour ne pas dire des cinglés. Corrélativement, nous piétinons leurs assassins.
Ces trois hommes, les terroristes, les avoir tués ne nous suffit pas. Il faut encore qu’ils aient été des fous, des malades, et surtout des barbares. On appelle barbares ceux auxquels on dénie d’appartenir à une civilisation digne de ce nom. Sachons d’abord reconnaître que nos guerriers relèvent d’un autre discours que le nôtre, non moins structuré, non moins « civilisé », mais autrement civilisé. Et dans cet autre discours, ce sont eux aussi des héros
Pour les Grecs de l’Antiquité, barbare était celui dont le parler leur était inintelligible, d’où ce mot, formé par réduplication : bar bar, comme notre bla bla. Barbare est celui qui ne parle pas, mais fait des bruits de bouche. Et, de fait, quand l’un des frères Kouachi, au sortir du massacre, et avant de monter en voiture, lance dans la rue, posément, à haute et intelligible voix, par trois fois, le cri « Nous avons vengé le prophète Mohammed ! », nous n’entendons rien, sinon que l’islam n’a rien à voir là-dedans, et qu’il s’agit de brutes sanguinaires et dérangées.
Pourquoi ne pas dire, tant qu’à faire, « des animaux à deux pieds », comme les Romains disaient des Huns ? A suivre

nota bene
Le livre de Peter Brown a été publié en 1988 ; il est paru en français chez Gallimard en 1995.
- Sur l’affaire de La Religieuse, consulter les Cahiers d’études du religieux,http://cerri.revues.org/1101
- La vidéo intitulée « Comics Legend Art Spiegelman & Scholar Tariq Ramadan on Charlie Hebdo & the Power Dynamic of Satire» est visible sur le site Democracy now. Adresse:
- Le responsable socialiste du Tarn en vidéo :
- Sur les barbares : de Bruno Dumézil, Les Barbares expliqués à mon fils, Seuil, 2010.
- Les deux frères au sortir du massacre de Charlie ont été saisis dans une vidéo obtenue par l’agence Reuters. Elle se trouve sur le net depuis hier matin :
- Enfin, je compte revenir sur la tribune publiée hier dans Le Monde, p. 9, par le Pr. Alain Renaut, qui donne corps, dans des termes certes encore très généraux, à ce que j’appelais la voie du compromis, sous la forme dite d’un « multiculturalisme tempéré par le souci de l’interculturalisme. ».