Mostrando postagens com marcador Joseph Stálin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Joseph Stálin. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de junho de 2015

“Operação Impensável”:Em 1945 os “aliados” já tinham planos secretos contra a Rússia soviética


25/5/2015, [*] Yuriy Rubtsov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Entreouvido no Beco do Zuluá na Vila Vudu:  

O que aí se lê não são idas e vindas do bem contra o mal, nem de algum “ocidente” contra algum “oriente”. 

O que aí se lê são 70 anos de idas e vindas dos interesses do CAPITAL, que sempre foi global.

Se o capital parece “mais global” hoje, do que nos séculos XV, XIX ou XX, é só porque AS COMUNICAÇÕES globalizaram-se. 

OS DISCURSOS globalizaram-se, uniformizaram-se e viraram o insuportável tédio “jornalístico” que há hoje.

O capital não mudou uma vírgula: sempre foi global. E o capital sempre temeu mortalmente o comunismo e os sovietes. 

O resto é jornalismo desdemocrático, de notícias vestidas para matar, fatos arranjados, celebridades & golpismos, TOTALMENTE INDEMOCRATIZÁVEL, o desgraçado.



Em Yalta, EUA e Inglaterra já tramavam traição à Rússia
No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e viesse a Moscou. Stálin estava preocupado com as ações do aliados britânicos. Stálin observara que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. Para Stálin, a única explicação para esse comportamento era que os britânicos planejassem usar depois aqueles soldados alemães. Stálin sabia que a atitude dos britânicos era flagrante violação do acordo entre governos, segundo os quais tropas que se rendessem tinham de ser desarmadas e imediatamente desmontadas.
A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviara ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. O telegrama ordenava que Montgomery recolhesse as armas e as conservasse disponíveis para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.
Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânico no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebera ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusara os ingleses de terem feito e que as executara. Como soldado, não tivera alternativa.
Disputava-se batalha feroz nos arredores de Berlim. Dessa vez, Winston Churchill disse que a Rússia Soviética convertera-se em ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse um novo front no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética já surgia como nova ameaça.
Essa é a razão pela qual Londres quis que Berlim fosse tomada por forças anglo-norte-americanas. Churchill quis também que os norte-americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.
Georgy Zhukov
Já em abril de 1945, Churchill dera instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a Operação Impensável [orig. Operation Unthinkable], nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler, Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.
O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para defender-se.
O plano incluiu a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que já havia sido usada em guerras anteriores.
O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill tanto precisava de que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.
O Gabinete de Guerra concluiu:
O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer que com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente muito impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos de armamento russo.
Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seja “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia:
Se vamos iniciar guerra contra a Rússia, temos de estar preparados para guerra total, que seria longa e cara.
A superioridade numérica das forças do campo soviético deixavam poucas possibilidades de sucesso.
Russos dançam comemorando a rendição de Berlim (2/5/1945)
A avaliação, assinada pelo Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas, dia 9/6/1945 – na próxima 4ª-feira serão 70 anos! – concluía:
Estaria além de nossas capacidades alcançar sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. E essas probabilidades convertem-se em pura fantasia, se os americanos cansarem, ficarem indiferentes e deixarem-se arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico.
O primeiro-ministro recebeu rascunho do plano dia 8 de junho de 1945. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, ante a evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com a bomba atômica já incluída no inventário militar dos EUA, o novo presidente dos EUA Harry Truman também teve de aceitar o argumento e a conclusão.
Vyacheslav Molotov
Na sequência, em reunião com o Ministro de Relações Exteriores da URSS, Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez ameaça mal disfarçada de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Dia 8 de maio de 1945, o Presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases nos EUA, todos os navios norte-americanos que já estavam a caminho da URSS.
Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo de que os EUA muito precisavam. Mas as relações bilaterais haviam sido feridas para sempre.
Joseph Grew
O memorando assinado pelo Secretário de Estado em exercício, Joseph Grew, dia 19 de maio de 1945, dizia que a guerra contra a URSS era inevitável. Ordenava “endurecer posições” nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vastíssimo potencial militar, econômico e territorial.
Os militares receberam impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra contra o Japão ainda não terminara), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Mandchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos a atingir primeiro. Washington abriu novo front: dessa vez, contra seu aliado.
Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Esqueceram também todos os compromissos que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.
__________________________________________
Nota dos tradutores
[1] “Operação Impensável é o nome de um plano inicial de guerra feito pelo governo britânico em 1945. Tal operação consistia na invasão da então União Soviética por forças militares britânicas, poloneses exilados, americanos, e até alemães recém rendidos. Dada a superioridade do poder militar da União Soviética, os demais “aliados” optaram por não executar tal operação.
__________________________________________
[*] Yuriy Rubtsov nasceu em 21/2/1957 em Kaliningrado, região de Moscou. Em 1980, graduou-se na Escola de Engenharia Naval Superior da FE Dzerzhinsky. Em seguida doutorou-se em História. De 1980 a 1996 serviu em unidades da Marinha. Desde 1987, ele serviu como oficial da Frota do Norte nos destróiers “Almirante Nakhimov” e “Almirante Isachenkov”. Nos anos de serviço no Norte começou a estudar Heráldica e História do Ártico. De 1991 a 1996 foi presidente da Sociedade Heráldica de Severomorsk e membro da Comissão de Heráldica da Frota do Norte, cargo que ocupou até o fim do serviço militar. Em 1993 graduou-se no curso de Formação em Serviço Público já sob o Governo da Federação da Rússia, hoje Academia Norte-Oeste da Administração Pública. Desde 1996, ele atuou na TV e na Rádio do Ministério Central de Defesa da Federação Russa (Moscou). Em 2004 foi transferido para a reserva no posto de Capitão (equivalente a tenente-coronel no Brasil). Foi premiado com 14 medalhas da URSS e da Rússia, entre eles: Comenda de Cooperação Militar, a “Distinguished Service” em 2º e 3º graus, e a medalha “Almirante Kuznetsov”. Foi é professor emérito da Universidade Militar do Ministério da Defesa da Rússia. Atualmente é Vice-Presidente da Empresa “TSENKI” − Roscosmos e engenheiro-chefe do estúdio de televisão dessa empresa. Neste último local de trabalho foi premiado com a medalha Agência Espacial Federal por promoção e divulgação de atividades espaciais russas . Continua a se envolver com Heráldica apenas como amador.
.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Robert Fisk: O veto contra ação militar na Síria começou em Yalta

30/6/2013, Robert Fisk, The Independent (UK)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Robert Fisk
As amazonas norte-americanas na ONU têm o hábito de falar grosso. Jean (ações do Conselho de Segurança não passam de “caretas”) Kirkpatrick e Madeleine (“valeu a pena” o preço de 500 mil crianças mortas no Iraque) Albright, quando falam, são como soco no plexo. E agora temos a mais recente rainha-guerreira Boudicea de Obama, Susan Rice, a esmurrar outra vez a ONU, velha nêmese de George W. Bush.

Onde Bush ameaçou a ONU com a irrelevância da velha Liga das Nações – sem se dar conta de que os EUA fragilizaram fatalmente a Liga, quando se recusaram a associar-se – temos hoje Rice a condenar a inação do Conselho de Segurança, que não age contra a Síria, como “uma desgraça estratégica e moral”, sem considerar que foi Franklin D. Roosevelt, presidente Democrata, quem insistiu em criar os poderes de veto dentro do Conselho de Segurança, na grande conferência dos aliados da 2ª Guerra Mundial, em Yalta.

Winston Churchill (E) Franklin D. Roosevelt (C) e Joseph Stalin (D) em Yalta (1945)
O burro “ONU” é alimentado com poucas cenouras e espancado com muitos porretes. Agora, se está estabelecendo o hábito de explicar a inerente fragilidade do bicho, falando mal do veto – que dá a cada um dos membros poder para destruir qualquer proposta dos demais. Assim aconteceu que o veto russo contra a ação militar dos EUA e da União Europeia na Síria transformou o poder de vetar em invenção “dos russos”.

Claro que a Sra. Rice apaga da história os 41 vetos dos EUA no Conselho de Segurança para “proteger” Israel e permitir que continue a ocupar e roubar terra e colonizar a Cisjordânia palestina, nem vê neles qualquer desgraça moral e estratégica. Nada disso. A questão agora é a Síria – e aqueles malditos russos, culpados de tudo.

Já há alguns anos, em Beirute, encontrei uma edição de segunda mão, de 1950, já bem gasta, do livro de Robert E. Sherwood, Roosevelt and Hopkins: an intimate history e – hoje, o tenho já encadernado em couro pelo meu encadernador libanês favorito – devorei-o numa noite, numa sentada. Que grande livro!

Sherwood, que escrevia os discursos do presidente Roosevelt na 2ª Guerra Mundial, usou os documentos particulares de Harry Hopkins, principal conselheiro diplomático de Roosevelt, para escrever o que continua a ser o melhor relato da reunião dos Três Grandes, em Yalta, quando Roosevelt, Churchill e Stálin reuniram-se para decidir o futuro do mundo do pós-guerra.

Hoje se pensa em Yalta como a liquidação da independência da Polônia, entregue a Stálin (Churchill já selara esse negócio vergonhoso, antes, em Moscou), mas em janeiro de 1945, os exércitos de Hitler ainda lutavam e a ONU só existia no papel. E parte importante da reunião foi dedicada à criação da ONU, a dar poder de voto à União Soviética e a criar o veto no Conselho de Segurança então proposto – com EUA, Reino Unido, Rússia e China (a França entrou depois). E Churchill, o imperialista essencial, foi integralmente a favor de se criar a regra do veto no Conselho de Segurança.

Robert E. Sherwood
Escreve Sherwood:

Na verdade os britânicos defenderam empenhadamente o veto, como meio de impedir que surgissem dificuldades para seus próprios interesses imperiais. Os EUA foram favoráveis, para criar uma espécie de seguro contra o risco de o Conselho de Segurança empurrar as forças norte-americanas para todos os tipos de guerras em qualquer parte do mundo.

Em outras palavras: Churchill não queria que a ONU tivesse poderes para mandar missões militares para a Índia e outras “possessões” britânicas; e Roosevelt não queria as forças dos EUA envolvidas em guerras impopulares – ou impossíveis de vencer – para defender interesses alheios.

Roosevelt tinha “a lembrança de Woodrow Wilson sempre viva”, escreveu Sherwood, o que sugere que Kennedy, Johnson e Nixon já não a tivessem assim tão viva, quando foi a vez do Vietnã. A “concessão” aos russos foi um direito de vetar, assegurado a todos os membros do Conselho de Segurança, contra qualquer ideia de impor sanções – ou, até, de fazer guerra – contra aquele membro.

Em outras palavras: cada um dos cinco grandes podia vetar qualquer ideia de qualquer dos outros quatro, de invadi-lo – e, por extensão, de invadir respectivos amigos ou aliados. Essa, precisamente, é a política que Putin aplica hoje à Síria.

Os russos aceitaram que nenhum membro do Conselho pudesse impedir que se discutissem suas próprias ações.

Stálin estava muito mais interessado em conseguir votos na Assembleia Geral da ONU para Ucrânia e Bielorrússia – nações constituídas dentro da União Soviética; esse dois países, como Stálin lembrou a Roosevelt, eram maiores em população e em importância que outras nações que estariam representadas na ONU. Roosevelt não parava de resmungar sobre o Brasil, porque era menor que a Rússia, mas maior que os EUA.

Harry Hopkins
Stálin, Sherwood observa, “começou dar sinais de impaciência e irritação”, e Hopkins escreveu bilhete bem claro a Roosevelt:

Sr. presidente, acho melhor o senhor deixar esse assunto para os ministros do Exterior, antes que haja problemas. Harry.

Churchill, muito arrogantemente, fez questão de dizer a Stálin e Roosevelt que o veto britânico também protegeria as demandas de ambos sobre Hong Kong, ao que Stálin retrucou:

Imagine se o Egito levanta a questão da devolução do Canal de Suez?

Três anos depois da morte de Stálin, claro, foi exatamente o que o Egito fez.

No caminho de volta de Yalta, Churchill encontrou-se com o novo presidente da Síria, Shukri Quwatli, que queria a Síria independente da França. Os sírios e os libaneses, pensou Churchill, “antes lutarão, que aceitarão qualquer privilégio para a França”.

Hoje, Grã-Bretanha – e França – falam de ação militar na Síria. Mas ainda enfrentam o que ficou decidido em Yalta.


Nota  dos tradutores

[*] A Conferência de Yalta, também chamada de Conferência da Crimeia, é um conjunto de reuniões ocorridas entre 4-11/2/1945 no Palácio Livadia, na estação balneária de Yalta, nas margens do Mar Negro, na Crimeia. Foi a segunda das três conferências em tempo de guerra entre os líderes das principais nações aliadas (a anterior ocorreu em Teerã, e a posterior em Potsdam). Os chefes de governo dos EUA (Franklin D. Roosevelt) e da União Soviética (Joseph Stalin) e o primeiro-ministro do Reino Unido (Winston Churchill) reuniram-se em segredo em Yalta para decidir o fim da Segunda Guerra Mundial e a repartição das respectivas zonas de influência. Em 11/2/1945, assinaram os acordos que visavam a pôr fim rápido à guerra e à estabilidade do mundo após a vitória.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O que há no tal nome da tal cidade, “Stalingrado”?


4/2/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
30 /1/2013, redecastorphoto, Max Altman em: 70 anos da Batalha de Stalingrado

A famosa cena do filme hollywoodiano Círculo de Fogo [Orig. Enemy at the Gates] capturava bem o espírito do tempo quando, falando a uma sala cheia de militares soviéticos bem no centro do front de Stalingrado na 2ª Guerra Mundial, o recém nomeado Comissário do Exército Vermelho, Nikita Khrushchev, enviado especialmente por Joseph Stalin para conter a retirada, sob o assalto dos alemães, berrou:

Meu nome é Nikita Sergeyevich Khrushchev. Vim para tomar as rédeas da situação por aqui. Essa cidade não se chama Kursk, não se chama Kiev, não se chama Minsk. Essa cidade é Stalingrado! Essa cidade leva o nome do Comandante. É mais que uma cidade: é um símbolo. Se os alemães capturarem essa cidade, todo o país cairá em colapso. Agora, que todos levantem a cabeça. (Cena a seguir, em inglês)


Fato é que a vitória na Batalha de Stalingrado, na 2ª Guerra Mundial foi um dos momentos decisivos da história soviética. E o nome de Stálin está ligado para sempre àquela batalha heroica. Isso, nem se discute.

Sábado passado comemoraram-se os 70 anos daqueles dias, com Vladimir Putin presente às cerimônias. Interessante anotar que a cidade de Volvogrado reivindicou para si o nome de “Stalingrado” (que Nikita Khrushchev fez trocar, em 1961), especialmente para aquela comemoração histórica. Foi exigência da população da cidade, a mesma em cuja defesa morreram meio milhão de russos, mártires de uma saga heroica que durou 200 dias. Pois decidiram ser lembrados, 70 anos depois, associados ao nome de Stálin.

A decisão do Kremlin, de falar não de Volvogrado, mas de “Stalingrado”, nas comemorações do final da semana, é carregada de simbolismo político. É a Rússia que renasce – e com ela sua autoconfiança – afinal se reconciliando com sua história profunda.

O ocidente dirá – e já começou a dizer – em tom de crítica, que Putin está “ressuscitando” Stálin. A ironia dessa história é que, sem a mão de ferro de Stálin, a batalha de Stalingrado teria tido história diferente; e toda a história do ocidente teria sido outra, se Stálin, ali, não tivesse feito mudar a maré da guerra.

A Batalha de Stalingrado foi o ponto de virada da 2ª Guerra Mundial. Hitler concentrara o principal grupamento estratégico de seus exércitos entre os rios Don e Volga – 14 divisões nazistas concentravam-se contra Stalingrado – distribuídas numa fronteira de 850 quilômetros.

Os alemães perderam 1,5 milhão de homens na Batalha de Stalingrado. O Exército Vermelho destruiu 3.500 tanques nazistas. Stálin quebrou literalmente a espinha dorsal da Alemanha nazista; Hitler nunca mais se recuperou.

Winston Churchill
Os sacrifícios russos não teriam alcançado a proporção gigantesca que alcançaram, se as potências ocidentais – a Grã-Bretanha, em especial – tivessem aberto uma frente ocidental. Mas, na ocasião, Winston Churchill contava com que a União Soviética sangraria até morrer, sem apoio ocidental, e não reapareceria para contar a história.

Por que uma nação se envergonharia da própria história? Nada é só belo e bom; tudo vem com a parte que presta e a parte que não presta. A gigantesca contribuição de Stálin na construção da União Soviética também é parte inarredável, imensa, da história da Rússia. Ninguém se dedica a narrar a história dos EUA impondo, no coração da história, a escravidão e o racismo. Nem o banho de sangue da Partition é o único evento que se considera, na história da civilização indiana. É sempre importante relembrar as lições da história.

Vladimir Putin
A Rússia está renascendo hoje, sob imensíssima pressão. Os EUA recusam-se a aceitar a ressurgimento da grande Rússia, e não abrem mão de uma sua sempre pressuposta “superioridade nuclear” – que é a única inspiração, a essencial inspiração do ‘novo’ programa dos mísseis de defesa dos EUA.

Os EUA dizem que estão “ignorando” a Rússia, mas o verdadeiro jogo norte-americano é fugir de qualquer tipo de discussão séria e consequente sobre o equilíbrio estratégico global.

O pretexto aparente é que Putin seria “autoritário”. Mas a agenda real é quebrar o sistema político russo. Os EUA avaliam que haja rachaduras internas entre as elites russas e as classes médias; e que o edifício que Putin constrói tenazmente, sem descanso, não tem pernas firmes – como qualquer casa dividida. Não há dúvidas de que a Rússia tem, sim, de extrair força e densidade histórica de memórias que são dela: Que os inimigos da Rússia nunca esqueçam a Batalha de Stalingrado.




*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.